MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/03/2011

Férias com Durrell (segunda parte): LIVIA OU ENTERRADO VIVO

“O sinal [para a localização do tesouro dos templários] era um bosque de oliveiras plantado assim…Tirou um envelope do bolso e com a caneta desenhou um quincunce de árvores.”

(de Livia ou Enterrado vivo)

Naqueles longos silêncios noturnos, sentia-se como a própria cidade—todo passado e nenhum presente.

(de Livia ou Enterrado Vivo)

“Livia fizera a ambos de tolos. Não por mero capricho, o que a tornava tão fascinante—parecia haver nela, simplesmente, uma total falta de continuidade entre impulsos sucessivos…”

(de Constance ou Práticas solitárias)

“Inventei um homem a quem chamei de Sutcliffe, à falta de coisa melhor, e ele tornou-se demasiado real…”

(de Constance ou Práticas solitárias)

“O que sempre me preocupou foi a questão de um ego estável—será que isso existe? A velha concepção animal era bastante primitiva, em particular para romancistas com tendência a explicar esta ou aquela ação. Eu mesmo dificilmente podia  escrever o nome de um personagem sem ser afogado, de repente, por um oceano de possíveis atribuições, cada qual tão  válido e autêntico quanto o outro. A psique humana  é quase que infinitamente variada—tão variada que pode ser contraditória até mesma em relação a si própria. Como é pobre a pequena e patética tipologia da nossa moderna psicologia—ora, até mesmo a astrologia, por mais suspeita que seja como ciência, procura abranger a vasta multiplicidade dos atributos puramente humanos. É por isso  que nossos romances, os seus e os meus, Robin, são tão pobres. Houve muitas Livias, algumas das quais amo e amarei até o dia de minha morte, outras saíram de mim e secaram como sanguessugas mortas. Outras ainda eram apenas formas larvais no sentido de Paracelso, sombras, vampiros, fantasmas…”

(de Livia ou Enterrado vivo)

Livia ou Enterrado vivo (1978) começa de forma similar ao romance inicial do Quinteto (ou Quincunce) de Avignon: o anúncio de uma morte. No emaranhado Monsieur ou O Príncipe das Trevas (1974), Bruce Drexel volta a Avignon devido à morte de seu amante, Piers de Nogaret; em Livia, a primeira frase já anuncia a morte da Duquesa de Tu (na verdade, Constance, irmã de Livia). A primeira seção inteira, “Um certo silêncio” desse segundo volume concentrar-se-á no debate entre criador (Blanford) e criatura (Sutcliffe, embora este fosse melhor caracterizado como alter ego, um duplo, uma vez que é um escritor mergulhado nos problemas da criação literária) sobre os efeitos dessa morte avassaladora: Blanford amara as duas irmãs e Sutlciffe as utilizara para as suas próprias figuras femininas—sua esposa Pia, a irmã de Piers, Sylvie.

Na razão inversa de Monsieur, o qual primeiro apresentava o “artifício” (o mundo romanesco onde se moviam Bruce, Piers e Sylvie) antes de apresentar o(s) artífices, primeiramente Sutcliffe, e depois Blanford, essa primeira seção de Livia é pesadamente metalingüística. É nela que encontramos também a possível explicação para o subtítulo, Enterrado vivo: Blanford é um inválido de guerra, seus amigos todos desapareceram, tragados pelo cataclismo europeu, sobrando apenas ele, sua impotência física e seus fantasmas. Alguns trechos caracterizam bem essa atmosfera crepuscular:

“Há um certo luxo melancólico na sensação de que todos se foram, que estamos completamente sós. O melhor lugar para sentir isso é nas estações ferroviárias, desertas à noite,nos saguões vazios dos aeroportos, nos cafés abertos a noite toda, na cidade.”

   Ou então:

 “E, à medida que ela diminuía na minha vida, eu a reinventava no papel da maneira mais precisa que conseguia.”

Enquanto debatem suas criações e criaturas, Blanford e Sutcliffe se espicaçam, ao fundo e ao cabo espicaçando o romance convencional, a psicologia tradicional, reiterando um projeto romanesco cujo objetivo é levar a narrativa e a evocação de uma época limites insuspeitados:

“Creio que o problema é que você está pensando unidimensionalmente durante todo o tempo, como um romancista à moda antiga. Não parece ser capaz de imaginar uma série de livros nos quais os mesmos personagens se movimentam por todo o mundo como que para ilustrar a idéia de reencarnação. Afinal de contas, homens e mulheres são seres polifônicos. Sabem que tiveram vidas anteriores, mas não têm certeza do que foram; tudo o que sentem é o peso de seu carma, a poesia das existências prévias registradas na penumbra do passado.”

    Não obstante, o detalhe verdadeiramente instigante dessa discussão sem fim é, para utilizar uma palavra geralmente relacionada pela crítica (penso em Davi Arrigucci Jr.) ao universo de Julio Cortazar, a porosidade, a facilidade com que se desliza do “real” para o fictício, o real portanto tendo de ser colocado em aspas, universos em ritmo de transfusão, contaminação, contágio:

“Sutcliffe deu uma gargalhada e mastigou suas batatinhas, enquanto ao fundo Blanford ouviu os sons roufenhos de Toby limpando a garganta e a voz de uma moça. Não podia imaginar-lhe o rosto, pois ainda não a inventara. Isso viria mais tarde, supunha.”

Aliás, um dos melhores episódios de Livia, que aparece num ponto mais adiantado da história, mostra muito bem esse fenômeno: Pia, mulher de Sutcliffe, fez análise com Freud, e durante a queima de livros efetuada pela juventude nazista em Viena, ela fica desconsolada de ver o velho divã utilizado pelo criador da psicanálise ser atirado por uma janela e parcialmente queimado. Resolve, então, salvá-lo e enviá-lo para Verfeuille, o castelo dos irmãos de Nogaret, seus amigos:

“Blanford havia acompanhado tudo isso confusamente através das malhas pesadas de seu sonho, e transmitido a sua aprovação a toda a iniciativa pelos canais usados—a  pulsação do sangue. Decidira, porém, que o direito à relíquia cabia a Constance, e não a Pia, já que dava maior importância a tudo quanto se referia à verdadeira realidade, entendeu que poderia anular a presente decisão, persuadindo o transportador a levá-lo não para Verfeuille, mas para Tu Duc…

Constance é discípula de Freud e orientou seus estudos de medicina para os lados da psiquiatria, e Tu Duc é o castelo nas imediações de Avignon que herdou, com seus irmãos Hilary e Livia (daí a brincadeira de chamá-la de Duquesa de Tu). Hilary estudava em Oxford e lá conheceu Blanford, Felix Chatto e Sam, os quais passarão verões inesquecíveis em Tu Duc antes de seus destinos começarem a se delinear mais claramente com a irrupção da Segunda Guerra.[1]

E assim assistimos a mais uma descoberta de Avignon, agora com o grupo acima (com a exceção de Felix Chatto, o qual vive ali como um cônsul de terceira classe), que chega à cidade por via fluvial:

“E agora, de súbito, essa magia austera.  Era preciso muito mais experiência da cidade para chegar à surpreendente conclusão de que ela só era bela de perfil—os Palácios dos Papas são caixotes horríveis de uma feiúra sem par. Nada, ali, foi construído pela beleza ou pelo encanto—tudo foi sacrificado à segurança dos tesouros que esses edifícios abrigavam. Mas é preciso caminhar pela cidade para descobrir isso. É uma catedral ao espírito de usura. Foi aqui que nossa cultura judaico-cristã finalmente acabou com o rico paganismo do Mediterrâneo. Aqui o grande deus Pã foi condenado à câmara de gás dos Papas. Mas vistos a uma longa distância, o perfil e a promessa da cidade são emocionantes pela suavidade das linhas, e à luz da lua, marmóreos em seu esplendor.”

Quem leu meus comentários sobre Monsieur ou O Príncipe das Trevas percebeu como enfatizei a que ponto o romanesco  é importante para Lawrence Durrell. E ei-lo aqui de volta! O que diferencia o seu uso agora é o fato de que vamos mergulhar, de fato, na mais brilhante narrativa tradicional que um autor poderia oferecer. Avignon, o grupo de amigos, sua ciranda amorosa, os rumores da guerra, o castelo, a procura do tesouro dos templários, tudo vai se reunir numa evocação digna de Proust (que é uma presença muito viva na tessitura de Livia ou Enterrado vivo), embora numa fatura meio The Golden Notebook (de Doris Lessing), numa busca do tempo perdido, da juventude dourada. É o momento do verão, do ápice, das possibilidades imensas; por definição, é o momento do romantsmo, ecoando o clima de Monsieur com mais realismo, embora haja passagens como a abaixo, que lembra o enterro de Piers de Nogaret:

 “__Onde Tu será enterrada, e quando?

__ Esta noite – disse Blanford friamente, com uma reserva que estava longe de sentir. – Na cripta do castelo, por autorização especial, e sem cerimônia, e sem flores. Algumas lanternas, suponho, talvez algumas tochas.”

Temos maravilhosas descrições de paisagens, do mar, do sol, do vento de frutas, comidas, odores, sabores, sentimentos…Os lugares são saturados de história, e tudo é ressonância, associação… É o momento de Blanford despertar como escritor, perceber-se como tal, embora seja para mais tarde que sua plenitude nessa área (se é que há plenitude nessa área) irá desabrochar quando todos já forem fantasmas:

“Tudo naquela alegre manhã parecia brilhar como uma moeda nova—uma moeda recém-cunhada de impressões vivas. Sentiu as palavras se agitarem em sua mente, como uma espécie de longa hibernação que uma primavera tardia só agora tivesse despertado, impressionado pelo romantismo do sinuoso rio verde e dos morros marcados de ciprestes dos quais se aproximava. Para apreciar realmente um lugar, ou uma época—para extrair a sua essência pungente—era preciso vê-lo à luz de uma partida, de uma despedida. Era o sentimento de despedida nas coisas que as impregnava desse fantasma de nostalgia tão importante para o artista jovem.”

Em uma passagem anterior:

“…sentiu dentro de si todo o peso de seu narcisismo não expresso, como uma massa de bolo ou cera, esperando para ser modelado em alguma forma significativa—pelo quê? Ainda não ousava pensar m si mesmo como um artista. Era como um fermentar cego que não se podia descarregar a não ser na insônia, ou naquelas súbitas inclinações para as lágrimas quando uma grande música mexia com ele, ou a visão da luz nalguma paisagem perfeita o penetrava. Para os outros, essas vagas sugestões de beatitude, essas percepções da beleza eram , por si sós, suficientes apenas para saborear-se. Mas ele pertencia àquela obstinada e desequilibrada tribo que aspirava por fazer alguma coisa em relação a elas—realizá-las e recriá-las numa forma menos dolorosamente transitória do que a outorgada pela realidade. O que se devia fazer? Era sempre essa a sua idéia fixa, e afligia-se intimamente diante da noção de que não havia nada, de que nada podia fazer, nada havia para ser feito.”

    E só para insistir um pouco mais:

“Estava então “condenado” a ser escritor? Todas as circunstâncias pareciam levá-lo a isso:

       Espelhos beberão tua imagem com intensidade

         e sugarão de teu espírito a densidade,

         –do homem interior estão sedentos

          e dele fazem, se possível, um alimento.

          A dupla imagem invertida

          sem que te afogues, é por eles bebida.

         Eles  são como o eco de uma sorte

         Ó doce envenenar da mente, a morte![2] 

Não era uma descrição de todo má do narcisismo agudo necessário para tornar-se um poeta.”

A ciranda amorosa, nesse passo da história toma a seguinte feição: Sam e Constance enamoram-se, Blanford e Felix se apaixonam por Livia, que os enrola a ambos (já que prefere mulheres, e tem uma relação incestuosa com o irmão, Hilary)…

Como contraste desse romanesco todo, mesmo com seus elementos irônicos e mesmo escatológicos (que não podiam estar ausentes em Durrell), temos a minha seção favorita do livro, “A vigília do cônsul” (ou poderia ser “O cônsul insone”). Sem deixar de mostrar a adesão de Felix Chatto a todo o clima do verão, a narrativa, nesse passo, mostra a sua pobreza como cônsul em Avignon, seu tédio, sua angústia, sua insônia, preso nas malhas de uma mocidade sem recursos financeiros, com a mãe meio que enrolada por Lord Galen (irmão do pai de Felix e que o pressionou vitoriosamente para seguir essa obscura carreira diplomática, sem ajudá-lo de forma alguma; de passagem, é evidente mais essa alusão shakesperiana: à situação-núcleo de Hamlet e também não é à toa que o equivalente de Galen em Monsieur era um macbethiano Banquo).

A seção tem como princípio estrutural a narração de uma das inúmeras noites insones de Felix, em que ele perambula por uma desolada Avignon, onde não há nada há se fazer, pois todos já se recolheram e só sobrou o submundo:

“Mas persistia o sentimento do vazio, e o sono saudável a que um jovem de sua idade tinha o direito, continuava ausente. Daí as excursões noturnas numa cidade em que, depois do escurecer, parecia haver tão pouca vida (…) os que buscavam as emoções da noite tardia eram forçosamente obrigados a ir às ciganas e correr o risco de uma batida policial e um vergonhoso comparecimento ao tribunal. E havia o outro problema…”

A situação de “enterrado vivo” (se me permitem essa extrapolação do subtítulo) de Felix me parece uma solução perfeita para Durrell “temperar” os exageros romanescos do seu universo, e sem a contrapartida igualmente exagerada do grotesco escatológico, que reveste tudo de uma desagradável feição caricatural.

Creio que ele conseguiu o mesmo (e)feito na cena em que Blanford visita o quarto de hotel do funcionário francês de Lord Galen, Quatrefages, que o está ajudando a localizar o tesouro templário. É um quarto sórdido, signo de uma vida amesquinhada e provinciana, mas ali está um mapa com o nome dos templários assassinados pela Inquisição:

“Blanford afastou-se para as grandes cartas murais dos templários mortos e, ao fazê-lo, a luz da manhã apareceu de mansinho na rua lá embaixo. Seus leves tons de amarelo e rosa coloriram as paredes daquele quarto sórdido, quase como um sinal de um passado cheio de mistério e significação.

     Os nomes mortos brilhavam como jóias, como brasas ainda respirando nas cinzas pálidas do passado. Os nomes se recitavam lentamente em sua mente, cada qual com a aura da morte e do silêncio a embalá-lo.”

As histórias em torno de Felix e Quatrefages são, a meu ver, os momentos mais felizes do romance. Um episódio em particular me agradou muito:

“Uma noite, Felix se tinha “rebaixado”, como teria dito se fosse descrever o caso para alguém. Num acesso de depressão, entrou na igreja com a intenção de rezar; mas quando se viu no banco frente à fria e repugnante estátua que deveria servir de ponto focal para essa nova série de emoções com que seu espírito lutava dentro dele, sentiu-se sufocar. Era como se o centro de sua mente estivesse desaparecendo (…) Não havia ninguém ali, o silêncio fazia eco à sua respiração ofegante. Por fim, esmagado pela tensão, atravessou a igreja e apertou a campainha. Abaixo dela havia um cartão datilografado com o nome do padre de serviço—Menard. Depois, ficou espantado com o que tinha feito. O som sepulcral da campainha morreu lentamente nas entranhas distantes do edifício, sem despertar ninguém, nem provocar nenhum som em resposta. Ficou ali, sentindo-se agora idiota e irresponsável, como antes se tinha sentido angustiado. Chamar um padre às duas da manhã—era um escândalo! (…)ele se sentia um idiota culpado por importunar a igreja àquela hora. Mas o silêncio foi tudo o que seu chamado desesperado provocou. Ficou ali, a cabeça inclinada para o lado (…) Onde poderia estar o padre? Sentia-se estúpido, culpado, não merecedor de consideração,já que ele próprio demonstrava tão pouca (…) ouviu o ruído de passos que entravam na capela e do trinco da porta do confessionário. Um padre tinha, afinal de contas, atendido ao seu chamado. O pensamento provocou-lhe novo pânico e, voltando-se, correu pelas trevas, deixando padre e capela na escuridão e silêncio…”

Afora as alusões veladas aos hábitos sexuais de Livia, é inevitável que um momento em que se faça uma incursão explícita aos bas fonds de Avignon[3], colocando em destaque um personagem que ainda não mencionei, o príncipe Hassad, egípcio com quem Galen (um sujeito meio ridículo) mantém amizade e negócios, e que funciona como contraponto do místico gnóstico (e banqueiro) Akkad de Monsieur. No príncipe Hassad parece haver mais superstição do que afã místico e parece que sua transcendência se dá pela admiração pelo pintor Turner (há um longo e pernóstico episódio relacionado a isso na seção “A volta do príncipe Hassad”).

Após um jantar formal no castelo de Lord Galen (todo mundo tem um castelo nos arredores de Avignon!), o príncipe Hassad e Quatrefages “vão às ciganas”. O interessante nesse episódio, no qual há uma atmosfera felliniana, com anãs corcundas, cafetinas de peitos imensos, crianças (que serão utilizadas sexualmente pelo príncipe) vestidas com véus de primeira comunhão, é a circunstância de ele ser assistido (como um espetáculo teatral), por Felix e Blanford, que haviam subido em barris e estavam espiando o bordel por uma janela (á procura de Livia), o que lembra ostensivamente aqueles episódios de voyeurismo de Em busca do tempo perdido, e é tão absurdo e inverossímil quanto eles, já que uma janela de um banheiro permite que eles vejam nada menos que dois aposentos! Que janela!

O leitor que me acompanhou até aqui, pode estar se perguntando: e Livia? Afinal, ela é o título do romance e está em destaque nas citações em epígrafe!

Pois está aí o mais fragoroso (ainda que não o único) calcanhar-de-aquiles do romance: não há um momento em que, embora se fale muito, muitíssimo dela, Durrell, Blanford ou Sutcliffe consigam nos fazer interessar por Livia. Pode-se comentar incessantemente o romance Livia sem quase se mencionar a protagonista, tão desinteressante ela é. No entanto, há um grande esforço em agigantar sua figura: além da sua voracidade sexual, da sua duplicidade, ela ainda é vista (pela irmã) num comício nazista vestida com a farda do nacional-socialismo!, o que beira o cômico, convenhamos. Ela, aliás, faz uma preleção ao seu apaixonado (e depois, por um momento fugaz, em Paris, seu marido) Blanford:

[a] “cultura coolie[4] judaico-leninista de hoje. Com a morte de Goethe o novo mundo nasceu, e sob a égide do materialismo judaico-cristão, transformou-se no grande campo de trabalho forçado que é. Em todos os setores—arte, política, economia—o judeu passou à vanguarda e dominou a cena. Só a Alemanha quer substituir esse etos por um outro, novo, um etos ariano (…) Quando Blanford mencionou Constance, Livia exclamou: Não posso suportar a devoção dela a todos esses corretores judeus da psicanálise, ao rabinato de Viena. Está morto tudo isso.Seu mecanismo estéril trai suas origens no positivismo lógico (…) Muito antes dessas estéreis avaliações judaicas da psique humana, os gregos antigos já haviam desenvolvido uma própria, mais fecunda, mais poética, e igualmente racional.”

    Apesar dos contumazes diagnósticos de Constance (seguindo o “rabinato” psicanalítico) sobre a irmã, quem dá a avaliação definitiva é o alter ego de Blanford:

“Constance e Sam continuavam numa camaradagem afetuosa—coisa que não era difícil de se suportar no caso de alguém já nascido cavaleiro andante. Sam não era feito de carne e osso, mas de carne e livros[5]. Na loura e sorridente Constance ele encontrou uma dama para adorar, à qual só faltava uma torre para ser aprisionada… Tudo isso tem de ser interpretado retrospectivamente, é claro—pois enquanto os acontecimentos estão sendo vividos são rápidos demais para uma avaliação fácil. Blanford notou muitas coisas que sua inexperiência não podia interpretar. Em parte, veio depois a reproduzir todos esses erros em Sutcliffe, para registrar parte da surpresa que lhe deram quando por fim, a verdade (que verdade?) despontou. São necessários anos para se avaliar as visões fugazes dos múltiplos significados de um único ato humano. Como Sutcliffe lhe disse certo dia num de seus cadernos: A moça certa, meu velho, mas o sexo errado. Falta de sorte!”

A moça certa, o sexo errado. Assim como Proust, o marido corno Blanford ficará sabendo das predileções sexuais de sua amada através das indiscrições alheias: Ao sair com uma puta:

“…essa pobre criatura me falou em detalhe sobre as explorações de Livia, acrescentando á medida que falava: Ela paga bem, aquela…” (ver o SEGUNDO ANEXO)

Na cabeça de Blanford, as recordações de Livia e Paris interpenetram-se. Foi o seu momento de deixar de ser o “eterno adolescente” inglês:

“Do outro lado da cortina da adolescência estava uma Paris cheia de generosas surpresas—uma Paris onde todas as putas tinham começado a estudar alemão… Uma Paris onde ninguém raspava os sovacos… mas afinal de contas era romântico, ele estava enlevado com Proust e a França era, afinal… o quê? exatamente? Nunca vivera num ambiente tão singular, antes, uma espécie de efervescência de liberdade e de perfídia, de amor e de obscenidade, de agitação delirante e de angústia. Uma vida tão rica de possibilidades que o reduzia ao silêncio.

    E também nunca tinha amado realmente antes, qualquer que fosse o significado disso.” (ver o SEGUNDO ANEXO)

A Provença como Paraíso Pedido, Paris como a Babilônia pré-guerra.  E a memória-imaginação dotando tudo de uma atmosfera crepuscular, de fim dos tempos, fim da Europa. Não por acaso, o que o príncipe Hassad mais admira em Turner são seus crepúsculos.[6] Graças ao seu poder financeiro, sua amada assiste pasmada a “um Turner sem moldura” que “se incendiava lentamente, desaparecendo na obscuridade fuliginosa, tocado de vida aqui e ali, como uma chama que espocasse num fogo de gravetos.”

Para terminar o percurso pelo segundo volume, e mostrar as polaridades a que pode chegar um autor extremado como Durrell, temos abaixo uma amostra de uma imagem de mau gosto e outra bastante feliz (a meu ver), a qual revela seu poder como escritor:

Livia cochilava, os dedos no sexo, sonhando—como se dedilhasse um violino que fosse começar a tocar.

[o príncipe Hassad, que passa a se associar com criminosos] Pensou na grande galeria de fotografias de seus novos amigos: Pontia, Merlib, Zogheb, Akkad…Aqueles queixos proeminentes, aqueles olhares duros, aqueles topetes protuberantes, e aquelas trombas de rinocerontes! Era maravilhoso! Não obstante, todos eles se pareciam com grandes figuras religiosos, como papas á paisana. Afagou mentalmente essas imagens como se fossem gatos.

 

PRIMEIRO ANEXO

E os personagens de Monsieur, o trio Bruce-Piers-Sylvie, o que é feito deles, desses personagens de Sutcliffe? Há um trecho esclarecedor em Livia a respeito. Lembre-se, leitor, de que o romance, depois da notícia da morte de Constante, se abre para um grande colóquio entre Blanford e Sutcliffe (uma conversação telefônica, imagine). No meio desse colóquio, há a evocação de todo o período pré-guerra e então, centenas de páginas depois:

“Um silêncio muito grande instalou-se, parecendo a ambos que se poderia prolongar até a eternidade: Olá, gritou Sutcliffe duas vezes, com uma nota de ansiedade quase infantil (os fantasmas sempre se mostram alarmados quando não se encontram em plena manifestação—quando estão, por assim dizer, de folga—pois parece-lhes que correm o perigo de deixar de existir). Sim. Suponhamos, por exemplo, que Blanford se esquecesse de pensar nele? E então? Seria o fim!”

E episódios fantasmáticos realçam essa idéia: em Tu Duc, ouvem-se vozes e há o trio de retratos desconhecidos numa das galerias:

“Essa longa galeria era uma extensão da casa, com janelas largas que ocupavam todo um lado e iluminada por vidraças brancas, no alto; as árvores a abrigavam dos raios diretos do sol. Estava vazia agora, pois a velha senhora tinha vendido todos os retratos há muito tempo—uma coleção que nada tinha de notável, segundo todos os relatos—e conservado apenas três cabeças enegrecidas, feitas no estilo típico dos acadêmicos do século passado. Estavam quase apagadas pela deterioração do pigmento.  Os nomes também eram difíceis de ler, embora se pudesse perceber a palavra Piers no retrato de um jovem pálido com uma expressão frágil e doentia, e a palavra Sylvie embaixo do retrato de uma moça morena e intensa, que bem poderia ser sua irmã. O terceiro retrato estava em piores condições e era literalmente impossível dizer se se tratava de um homem ou uma mulher—apenas que era de uma pessoa loura, de olhos azuis e lúcidos como os de Hilary.”

Por fim, há uma visão fugaz de Sylvie numa visita de Blanford a um sanatório, fazendo companhia a Lord Galen. Enquanto este conversa com um ex-sócio ali recolhido, o candidato a escritor passeia pelas alamedas do local:

“Foi de um desses cantos, cercado de flores coloridas, que viu surgir uma alta e frágil moça de mãos longas e bem-feitas. Aproximou-se dele puxando vagarosamente o xale sobre os ombros estreitos. O cabelo negro e ondulado emoldurava um rosto belo, mas demasiado magro; o sapatos tinham saltos muito altos. Ela avançou lentamente, com um sorriso, e disse: Então você voltou? Ah, como estava a Índia? Estou morrendo de vontade de saber. Estava calma? Agora, à noite tenho a impressão de ouvir Piers caminhar pelo outro quarto, mas ele nunca está lá quando corro para ver…”

No entanto, é a própria atmosfera da história, a procura pelo tesouro, a visão de mundo embutida nessa procura e nessa crença num Grande Plano, numa Grande Conspiração (pensemos o que quisermos a respeito), que oferece a continuidade da história do trio:

“__ Os cavaleiros foram sistematicamente destruídos pelos encapuzados carniceiros anônimos da Inquisição, para assegurar a sucessão daquilo que então sabiam que era o Mal: o predomínio da matéria e do desejo no mundo. Foram instrumentos do próprio Satanás, que não queria ver seu trono abalado pela soberba recusa dos cavaleiros. Ele não se sujeitaria sem luta. O desejo de morte contra o desejo de vida. Sabe, Deus foi apenas um álibi em tudo isso, apenas um disfarce. A batalha real entre as forças negativas e positivas foi travada aqui. E toda a Europa das eras vindouras estava em jogo… Eles perderam, e nós perdemos com eles… estamos vivendo o fatídico destino do homem europeu, que foi decido naquela época, exatamente aqui em Avignon. Estamos participando desse funeral materialista do homem vivo.”

Eis o ponto de ligação entre as duas versões da história, a de Sutcliffe e a de Blanford.

SEGUNDO ANEXO

Já comentei os equívocos da tradução de Margarida Vasconcellos Dias, a partir do título e do sexo da amante de Pia. Outros exemplos de versões estranhas ou infelizes:

“…essa pobre criatura falou-me com grandes detalhes das proezas de Livia, acrescentando em seguida: Ela oferece bom préstimos, essa aí.

Creio que Waltensir Dutra verteu melhor, ao colocar na boca da puta que Livia “paga bem”. Que bons préstimos ela ofereceria a uma puta?

Outro exemplo:

“afinal de contas era romântico,pois pertencia à arrebatada classe média de Proust…  e a França era, afinal… o quê? exatamente?” O que quer dizer, exatamente, “pertencia à arrebatada classe média de Proust”? Não faço idéia (Waltensir Dutra coloca que Blanford “estava enlevado com Proust”, o que nos dá a sensação de que ele estava descobrindo Livia, Paris e Proust tudo a um só tempo, nesse momento de juventude dourada, “tempo perdido”).

Em compensação, nem tudo são flores para o lado da versão de Dutra. Ele é um bom tradutor, não há dúvida, já li outras versões realizadas por ele, e é um profissional de primeira, no entanto há um escorregão feio (e também uma falta de revisão chocante) quando traduz o seguinte:

“Assim, mais uma vez voltamos a descer o Ródano, espalhando pelo céu trechos de Verdi, meio espantados com os ricos versos  do mistral”…

Ora, o estilo de Durrell é poético, porém não surreal. O mistral aqui dos ricos versos não é o vento, e  então não são os versos do mistral, e sim de  Mistral, o poeta laureado com o Nobel.

(escrito  especialmente para o blog em janeiro de 2011)


[1] Um exemplo mais sutil dessa “porosidade” é a história do desaparecimento da filha de Lord Galen, banqueiro e especulador (obcecado pelo tesouro dos templários), Sabine, supostamente raptada por ciganos. O leitor de Monsieur ou O Príncipe das Trevas deve lembrar que Sabine era amiga do trio Bruce-Sylvie-Piers e do escritor Sutcliffe (com quem teve um breve caso), e filha de um banqueiro, Banquo. Sua maior característica, além da sexualidade franca e voraz (um traço que a aproxima psicologicamente de Livia), era “sumir” de vez em quando justamente nos meios ciganos e submundos da Europa.

[2] Na versão de Margarida Vasconcellos Dias:

“Sorverão de um gole os espelhos sua imagem

E expurgarão de seu espírito a coragem,

Pois que a alma humana lhe apraz como repasto

E deste néctar, se o conseguem, fazem pasto.

Eles engolem a imagem inversa que se dobra

Até fartar-se, mas você jamais soçobra.

Eles desdobram a sina de um cruel tormento,

O meigo sangue  que envenena o pensamento!”

[3] Há uma “farra” na seção final, mas é tão cafona—tanto quanto a orgia encenada por Kubrick em De olhos bem fechados—,tão “nababesca”, no mau sentido, que nem pretendo comentá-la. Para mim, é sempre uma tristeza quando Durrell avilta seu talento com essas ridicularias.

[4] Coolie, no sentido de “servil”, nessa acepção pseudo-nietzschiniana, nesse discurso que parece de um daqueles personagens professorais de D.H. Lawrence, o Rupert, de Mulheres apaixonadas, por exemplo.

Como contrapartida desse discurso, há uma passagem que mostra as ilusões deformantes que a guerra criou:

Se fosse culpado de imitar as formulações bastante pretensiosas de Blanford, Felix poderia ter dito a si mesmo que a realidade da guerra (a morte0, se viesse, devolveria mais uma vez toda a preciosa precariedade da vida que se tinha tornado rançosa pelo excesso de segurança. Se ocorresse, ele se apresentaria imediatamente para o serviço militar. Receberia com satisfação todas as restrições inerentes ao uniforme. Sentir-se-ia glorificado com a disciplina selvagem, pois excesso de liberdade provoca vertigem—é como se estivéssemos, de súbito, olhando para o nada. O nada—o seu próprio retrato! Muito depois compreenderia que esse sentimento era compartilhado por toda a juventude nazista!”

[5] Isso não quer dizer que Sam é  “letrado” como os amigos, antes pelo contrário. Quer dizer que ele em si é um personagem livresco (ou seja, romanesco).

 6] Eu não sou especialmente fã dessa seção, “A volta do príncipe Hassad”, mas não posso deixar de ressaltar como o projeto de Durrell é coeso. Em certo ponto da descrição da devoção do príncipe por Turner, conta-se como ele leva sua futura esposa para visitar uma igreja de onde ela teria acesso à vista do crepúsculo que aparece na sua obra, “o ponto de observação de onde o pintor iniciara a grande aventura intelectual de tornar-se ele mesmo”, e isso ecoa o que está ocorrendo com Blanford como artista.

FÉRIAS COM DURRELL (primeira parte): MONSIEUR ou O Príncipe das Trevas

                 a meus saudosos Páris, Sofi, Lolita e Donguinha, o Quarteto de

                              Alexandria da Messia Assu

quincôncio  ou quincuncegrupo de cinco, formando quatro um quadrado e ficando um no centro.  (do Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, 1998)

“Bem, relanceando os olhos pelas curvas do futuro, vi alguma coisa como um quincunce de romances dispostos numa boa ordem clássica. Cinco romances Q escritos num estilo quincuncial altamente elíptico, inventado para isso. Embora ligados entre si como ecos, não seriam postos lado a lado numa ordem ou série, como dominós—mas simplesmente pertenceriam ao mesmo grupo sanguíneo para os quais o seu desconjuntado Monsieur estipularia tão-somente uma nebulosa de temas a serem reelaborados nos outros…”

(de Livia ou Enterrado Vivo)

[templo de Angkor Vat]: “As torres de cinco cones formam um quincunce, e seus flancos estão escavados de nichos…”

(de Monsieur ou O Príncipe das Trevas)

 

INTRÓITO

A primeira leitura que fiz, ao mudar para a rua Messia Assu, onde residi por dezoito anos, foi a de O quinteto de Avignon (1974-1985), de Lawrence Durrell (1912-1990). Agora que me instalei em outro lugar, numa casa na avenida Marechal Deodoro,  estou me ocupando novamente—como “leitura inaugural” e como rito propiciatório—com o “quinconce” durrelliano, me valendo da mesma tradução de Waltensir Dutra, publicada pela Estação Liberdade entre 1989 e 1992 e que batizou meu período de vida no meu saudoso apartamento

No ano da minha mudança para a Messia Assu (1992), eu já lera os dois primeiros volumes, Monsieur ou O Príncipe das Trevas (na tradução portuguesa do grande Daniel Gonçalves, o mesmo de O quarteto de Alexandria), e Livia. Este, apesar de traduzido competentemente por Margarida Vasconcellos Dias (lida por mim, numa série publicada pela Abril Cultural nos anos 80), apresenta uma série de erros, a começar pelo subtítulo, Enterrada viva (de fato, é Enterrado vivo, referindo-se explicitamente ao escritor Blanford), e outros detalhes menores, como transformar a lésbica Trash num homem. Tais deslizes se deram porque Margarida Vasconcellos Dias só deve, possivelmente, ter lido o volume que estava traduzindo, e se Durrell oferece várias armadilhas aos seus tradutores mais constantes, como o próprio e brilhante Daniel Gonçalves (que desabafou: ”Durrell pretende algures que o autor tem o direito de escrever até aquilo que ele próprio não sabe o que quer dizer, mas abusa desse direito criando extremas dificuldades ao tradutor que, nessas circunstâncias, encontra-se impossibilitado de concretizar o dever de fidelidade ao pensamento—confuso, impreciso, inexistente—do autor”), imagine se a pessoa tiver conhecimento mais limitado da sua obra e do seu estilo intrincado e (auto)alusivo.

 

AS MANHAS DA NÉVOA 

O PRIMEIRO VOLUME, MONSIEUR OU O PRÍNCIPE DAS TREVAS:

“Que espécie de Deus,  pergunta-se o gnóstico, poderia ter organizado as coisas tal como estão—este mundo de morte e dissolução que pretexta ter um Salvador e uma fonte do Bem na sua base? (…) Um mundo no qual somos o alimento uns dos outros, a presa uns dos outros”.

O trecho acima é de “Macabru”, a segunda das cinco partes que compõem Monsieur ou O Príncipe das Trevas (1974). Trata-se de uma das diversas exposições do líder de uma seita gnóstica (Macabru é um oásis localizado no deserto egípcio), Akkad, sobre o fato de que o controle do universo foi usurpado por um demiurgo espúrio, no lugar do verdadeiro deus. Outra passagem da mesma seção caracteriza esse estado de coisas de maneira bem clara:

“__ Quanto mais conhecemos sobre o homem, menos podemos tolerar a situação humana submetida ao Príncipe.

    Um medonho ato de duplicidade tinha invertido a ordem racional do universo—era isso o que ele queria dizer, como depois percebi. O intruso, que tinha substituído o monarca original, lançara a confusão no funcionamento da lei cósmica. Desde que ele, o Príncipe Negro, chegara, tudo teve de ser reordenado, reaprendido, reformulado, toda a realidade, portanto (…) Só muito mais tarde compreendi o que ele queria dizer—aceitar essa crença era permanecer fiel ao desespero fundamental da realidade, compreender de forma final e total que não havia esperança, a não ser que o deus usurpador fosse destronado, e não parecia haver meios de consegui-lo.”

Assim como Ezra Pound, Durrell vê a usura como o resultado último dessa usurpação. O trecho seguinte já é de outra seção, “Sutcliffe: os documentos venezianos”:

“Ocorreu uma mudança radical de ênfase, tão marcada quanto qualquer momento histórico, como Copérnico ou a queda de Constantinopla,que transferiu o equilíbrio do domínio do espírito para o da matéria. Indícios disso podem ser identificados nas velhas mitologias. Todo o eixo da sensibilidade humana foi modificado—como se em algum lugar, longe da vista, uma calota polar Sr tivesse derretido. A vegetação antiga deu lugar à nossa nova vegetação de aço, florescendo em bronze, depois ferro, depois aço—um progressivo endurecimento das artérias. A tábua das essências foi substituída pela tábua dos elementos. A Pedra Filosofal, o Santo Graal da consciência antiga, deu lugar aos valores usurpantes da barra de ouro—a nova regente da alma.  Agora o escravo, considerando-se livre, passou a medir sua potência pela moeda, pelo valor do capital, o elemento totalmente saturnino de sua natureza. Nasceu a obscura e doce auréola da usura. E a liberdade, que é simplesmente a capacidade de despender—seu protótipo, o orgasmo—foi acorrentada na mente, e mais tarde no corpo. A faculdade de acumulação, a usura, embutiu-se no próprio saco de esperma do homem, que começou a fundar culturas baseadas em repressões-chaves—a faculdade de armazenar, de reter, de acumular (…) a dualidade tornou-se a chave não só do pensamento filosófico, como da própria linguagem, cujo tijolo básico, a palavra, encerra dicotomia central. Com tudo mudando de escala  e relação dessa forma, a morte tornou-se obrigatória, mandatória, em lugar de ser uma escolha, arbitrária, e sob escolha da psique…”

     Se alguém que tenha o hábito de ler meus textos, ou que me conheça,  sabendo o quanto sou cético e nada místico, surpreender-se com essas citações, que roçam o gênero de explicação da natureza das coisas de um Dan Brown ou de um Paulo Coelho, de uma maneira um pouco (mas só um pouco) mais sofisticada, está no seu direito. Realmente, há lados no “quincunce” de Durrell que me incomodam muito, e um deles é a mixórdia que se faz ali das seitas gnósticas com os templários e os ciganos (além de banqueiros internacionais), sem falar de uma mística que se entrelaça com erotismo e perversões, uma atração pelo lesbianismo, que é um disfarce da misoginia, enfim, uma nebulosa de temas que às vezes nada mais é do que um nevoeiro (como ele mesmo, ou um de seus heróis, diz: as “manhas da névoa”)., um tanto mistificatório.

Durrell seria um charlatão? Jamais. Há até uma aura cabotina no conjunto do Quinteto de Avignon, se formos muito implicantes, contudo eu acredito que ele é um caso parecido com os de Hilda Hilst, Norman Mailer ou mesmo D.H. Lawrence[1], por exemplo: todos eles grandes escritores, mas todos com mania de instilar em seus textos preleções e plataformas ideológicas mal assimiladas e mal digeridas, que ganham uma exposição confusa e  demagógica e que acabam desequilibrando a qualidade geral. É por isso que tanta gente séria desconfia e não gosta desses autores citados. E é por isso que tanta gente que, no fundo, nem gosta tanto assim de literatura, acaba fã deles: porque eles parecem ter uma “visão sistemática”, um diagnóstico do mundo e das causas dos seus males!

No caso específico de Durrell, me parece (só tenho a leitura dos seus livros para apoiar essa minha afirmação) que sua recusa do mundo ocidental, do apequenamento da humanidade, do seu aburguesamento, principalmente no pós-segunda guerra, o fez se voltar cada vez mais para uma idealização do aristocrático, de um elitismo muito enraizado na cultura mediterrânea ancestral, nos valores remotos de um tipo feudal ou pelo menos a visão romântica do feudal, numa aversão à mudança, esta tomada no sentido capitalista e moderno, quase equivalendo à degeneração. Daí, a sua opção, o seu pendor (que encontra eco num estilo assaz grandioso, diga-se de passagem) pelo romanesco. A ambientação é sempre em lugares grandiosos, uma vez que têm um peso evocativo (Alexandria, o Nilo, Avignon, Veneza, Viena…; aliás, uma das acusações que podemos fazer a ele, como a outros escritores europeus ou norte-americanos europeizados, é transformar os lugares do mundo em quintal das casas dos problemas individuais dos seus personagens, como se todos os espaços estivessem disponíveis para que eles chafurdem nas suas emoções, obsessões e aberrações) enorme.

Como Durrell é um narrador magistral, um sujeito que sabe contar uma história, esses ambientes e essa grandiloqüência são feitos sob medida para seu talento. Mas ele não quer só contar, ele tem um lado “pensador”, e aí que as coisas se complicam. O romanesco Durrell é um dos maiores autores que eu conheço, o lado reflexivo, epigramático e aforismático de Durrell já é algo que roça o indigesto e, hélas, o charlatanesco!

Não há, porém, como operar uma separação explícita e inequívoca entre essas duas características, ou seja, obter um Durrell “puro”, sem mácula. E é por esse motivo que ele é um dos autores que me mantêm enleado, deslumbrando-me e irritando-me quase na mesma medida. Eu pensava em aparar as arestas desta vez, entretanto é claro que isso não está acontecendo.

Como emerge o romanesco em Monsieur ou O Príncipe das Trevas (no que ele tem de ranço reacionário e no que tem de apaixonante enquanto um mundo ficcional poderoso)?

O médico ligado ao serviço diplomático britânico, Bruce Drexel, que está próximo da aposentadoria, é chamado a Avignon por causa da morte de seu companheiro amoroso de anos, o aristocrata Piers de Nogaret (descendente daquele nobre que atraiçoou os templários, na repressão ordenada por Felipe, o Belo, no início do século XIV), o qual a duras penas mantinha o que restou de uma vasta propriedade feudal (um castelo arruinado, Verfeuille), nas proximidades da cidade onde o papado se instalou durante aquele século em que os templários foram destruídos, trabalhando como diplomata. A vida de Bruce e Piers foi singular devido ao triângulo amoroso que formaram com a irmã de Piers, Sylvie, com a qual ambos também mantiveram relações erótico-amorosas, e com a qual Bruce chegou a se casar (no momento da morte de Piers, ela está internada num manicômio):

“Essa paixão a três tinha-me fascinado durante toda uma vida e haverá de me acompanhar para além do túmulo. Eu sabia que tinha encontrado meus onlie begetters, os meus únicos criadores. Eu estava revivendo a trama e a contra-trama dos sonetos de Shakespeare na minha própria vida. Eu tinha encontrado o macho-fêmea da minha paixão. Quem poderia querer mais?”

Piers suicidou-se. Pode ter sido um acidente ou ainda um assassinato. Acontece que ele fora o único dos três, quando na juventude, no Egito, se aproximaram da seita gnóstica de Akkad, a de fato se tornar um “iniciado”. E os membros da seita assumem o compromisso de, no momento em que receberem uma misteriosa “quitação”, se deixarem matar por outro membro, após terem o tempo de deixar seus negócios em ordem. Para eles, o suicídio comum é proibido. Ele praticam um tipo de suicídio superior (essa idéia não é lá muito original, basta lembrar da obra-prima de Robert Louis Stevenson, O clube dos suicidas), impulsionado pela concepção gnóstico do mundo: “Compreendi que a recusa gnóstica a aceitar o estado de coisas constituía uma forma particular de coragem sem vanglória, um desespero sem mácula”. Afinal, o próprio Akkad, definia-se da seguinte maneira: “Na verdade, sou menos um banqueiro do que um estudioso da malevolência cósmica.” Por esse motivo, durante anos Piers montava uma “mapa da morte”, cuja forma lembrava uma cobra (a iniciação gnóstica tem a ver com esse animal) e que inventariava o avanço das “execuções gnósticas”.

Ao voltar a Avignon, Bruce—que é o narrador nesse passo do romance—relembra como a relação a três foi decisiva em sua vida, e evoca um natal passado no castelo de Verfeille, que é um dos momentos mais belos da ficção contemporânea. Na segunda parte, ele evoca a juventude do trio, e suas aventuras no Egito, onde conhecem Akkad, vão a Macabru e Piers tem sua iniciação. Depois, os três viajam pelo Nilo, outro grande momento narrativo.

Não me estendendo muito sobre o Egito, embora houvesse pano para manga se o fizesse, quero enfatizar como Avignon, o castelo dos irmãos de Nogaret e a Provença são caracterizados no livro:

“Avignon, tão pequena, asfixiante e provinciana, estava no meu sangue.”

“A ordem das coisas era ancestral, tradicional, a história era o presente, e não passava pela cabeça de ninguém qualquer alteração das coisas, mas simplesmente a afirmação do lugar tradicional que ocupavam na vida e na natureza. Seria o mesmo que tentar mudar o curso dos planetas.”

“Compreende-se até que ponto realmente a Provença é velha e ensimesmada e intacta, e quão pouco faz parte da França. É antes uma nação mediterrânea à parte—talvez a impressão seja transmitida pelo fato de ter ela uma atitude desavergonhadamente pagã, e de ser produto de uma cultura de oliveiras (…) os habitantes sorriem, praticam uma cortesia fora de moda e parecem não ter pressa nunca. Têm todo o tempo do mundo, porque o tempo provençal não é o tempo do relógio  que regula nossa vida no norte.”

“A Provença é particularmente rica em mitos e símbolos, e não gosta  de ser interrogada pelos protocérebros ociosos dos modernos hominídeos (…) Tudo aquilo era parte da imagem provençal, a história de uma terra que desde épocas remotas se entregava ao sonho, à fabulação, ao fantástico, com a firme convicção de que as histórias não deviam ter fim.”

Se ficasse nessas duas primeiras partes, “Outremer”[2] e “Macabru”, a não ser por certos filigranas, Monsieur ou O Príncipe das Trevas seria um romance estranhamente antiquado, porém poderoso como “conto”, como “fábula”. Só que já de saída, Bruce nos informa que eles foram transformados em personagens pelo amigo escritor, Robin Sutcliffe, e aí nós não sabemos se estamos acompanhando o trio Bruce-Sylvie-Piers de fato, ou os personagens de Sutcliffe.

Aí começam as encruzilhadas quincunciais da narrativa: Sutcliffe pertencia a outro triângulo amoroso, era casado com a irmã de Bruce, Pia, mas esta mantinha um caso com Trash (de passagem, como a personagem é negra, é interessante notar as tiradas racistas que Durrell é capaz de destilar: “Ninguém gosta de ser homossexual, como ninguém gosta de ser negro ou judeu” ou ainda: “E como Trash era adorável, com sua profunda voz de violino resinado e sua pele que cheirava a melão almiscarado, seu sotaque levemente afetado do extremo sul; uma preguiçosa e sensual toreadora do ato amoroso, maravilhosamente couraçada contra idéias tais como a psicanálise ou o Amor Romântico, pelo fato de adormecer quando se pronunciava uma palavra de mais de uma sílaba”; é claro que a amante negra teria que ser sensual e iletrada; e que bobagem constante é essa aproximação do homossexualismo etnias).

Em Veneza, Sutcliffe, já abandonado por Pia, mas antes do período de loucura e degradação, tenta escrever um novo romance, sem encontrar a “forma certa”. Na cidade, está o seu rival, o bem-sucedido Bloshford, que ele odeia, despreza e inveja (o único escritor britânico que tolera é Pursewarden, que era personagem de O Quarteto de Alexandria). Lá, ele conhece Sabine, outra das mulheres sinuosas, traiçoeiras e perigosas (no caso dela, está contaminada pela sífilis) que povoam o mundo de Durrell. Ele é filha do banqueiro (ufa, dois banqueiros poderosos num mesmo livro é meio too much) com o shakesperiano nome de Banquo. No entanto, apesar da grana (eles moram em outra propriedade maravilhosa da Provença, perto de Verfeuille), ela gosta é de cair no mundo com os ciganos praticando putaria e cartomancia. A cronologia é muito enrodilhada, de forma que já conhecíamos outras fases de Sutcliffe e Sabine antes desse encontro dos dois.

E, entretanto, todos eles são criações do escritor Aubrey Blanford, como ficamos sabendo na quinta seção, “Jantar no Quartila´s”, também ambientada em Veneza, e onde ficamos sabendo que o que líamos era uma das versões do romance Monsieur do renomado autor, inválido de guerra, que após terminá-la, enviou-a à Duquesa de Tu (Constance), irmã de Livia (com as duas, ele viveu mais um dos triângulos durrellianos, e Livia é escorregadia e traiçoeira como Pia e Sabine). Enquanto ele se prepara para discutir a versão enviada à antiga amante e grande amiga, ele insere trechos cortados em que reaparecem os personagens que já conhecíamos. Um momento pungente e revelador dessa  seção, é quando sabemos, após a troca de confidências entre ele e Constance, que ele está no Quartila´s falando para o vazio: “Já era tarde quando Blanford pagou a conta e disse boa-noite à duquesa: cansados, os garçons o cercaram. Tinham, com o tempo, passado a respeitar aquele distinto inglês idoso que vinha com tanta freqüência passar a noite falando em sussurros para um canto vazio—pois algum tempo já tinha transcorrido desde que o nome da duquesa aparecera no mapa estelar da morte”.

Os leitores podem achar que essa permutabilidade de escritores tem um efeito deletério sobre o romance, transformando-o numa coisa descarnada e fantasmagórica. É certo que há pelo menos um aspecto irritante nesse troca-troca de “diretor de cena”, “quem responde pelo fictício” (Durrell? Blanford? Sutcliffe? e afinal há também os narradores, como Bruce): o fato de que tanto Blanford quanto Sutcliffe, que serão os responsáveis principais pela “organização do material”, tem sua vida sexual hipertrofiada e são figuras grotescas, escatológicas.

Mas tirando esse aspecto, eu acho que essa permutabilidade de “autores” é um ganho para o livro: se estamos numa realidade que é contrafação, cuja base é uma usurpação, não sabemos quem é nosso Criador, não sabemos quem é nosso Demiurgo, e portanto a questão da autoria não pode ser resolvida, e portanto é bem pertinente se colocar em questão quem é o autor de um relato:  “Salvar um princípio geral de uma massa de evidências conflitantes pode ser tanto ciência como poesia”. Talvez seja feito de uma maneira exasperante e desgastante, porém é um bom princípio para uma realidade-nevoeiro, um universo usurpado. As manhas da névoa, de fato.[3]

“E eu!, pensou Blanford? Sou possivelmente a invenção de alguém como o velho D—o diabo de um modo geral?”

“…todos esses problemas angustiantes continuariam sem solução, enterrados no poeirento futuro ou nos palimpsestos em decomposição do passado.”

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Trivia- Não deixa de ser engraçado, já que se enfatizou tanto a ascendência búlgara de nossa nova presidente, que a palavra búlgaro aparece no livro de Durrell, como termo pejorativo, desde o tempo dos Templários, significando sodomita.

(escrito  especialmente para o blog, em janeiro de 2011)


[1] Outros exemplos: alguns Cortázar, alguns Kundera…

[2]Havia ainda algumas cartas de Piers para ela, escritas no papel que ele utilizava e que ostentava a legenda Outremer (eu tinha notado no dedo de Sylvie o sinete de Piers, com a mesma palavra enigmática. Ele se referia sempre a si mesmo, ironicamente, como o último dos templários e a expressão indicava não só o laço familiar, pois era na verdade um de Nogaret, mas também o orgulho templário no compromisso ultramarino da Ordem. Pois essa romântica ida ao Oriente Médio foi uma experiência emocionante—quase histórica. Sentia estar voltando ás raízes da grande traição, às raízes de toda a dissidência anticristã. Piers era um adorador do Deus templário. Acreditava no usurpador do trono, o Príncipe das Trevas.”

[3] Como não estou analisando TODOS os aspectos de Monsieur ou O Príncipe das Trevas, estou apenas fazendo uma leitura de férias, deixo apenas indicado um de seus lados ao mesmo tempo mais engraçados e mais irritantes: a relação com a psicanálise, pois Sutcliffe vai se haver com o próprio Freud, no livro Dr. Joy, em tradução, Dr. Alegria (que é o significado do nome Freud):

“O velho Alegria investiu-me de um pessimismo e uma monotonia caracteristicamente judaicos. Estamos tratando com um mercado em baixa, nossos pobres e pequenos investimentos se tornam, a cada ano, menos valiosos. Sinto-me tentado a lançar-me na retórica do mercado de títulos que descreve as ações com metáforas.”

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