MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

03/05/2013

O romance mais fascinante de Henry James: duas resenhas sobre “As asas da pomba”

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I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de julho de 1998)

1998 coloca um delicioso dilema para o apreciador de ficção: será difícil escolher, como o evento mais importante do ano, entre as traduções para lá de tardias de Middlemarch, de George Eliot, e AS ASAS DA POMBA (The Wings of the Dove).

Provavelmente a obra-prima de Henry James (publicada originalmente em 1902) aparece neste momento no Brasil como consequência da fraquíssima versão cinematográfica, dirigida por Iain Softley, que ganhou aqui o pífio título de Asas do amor (quando poderia se chamar, de forma mais exata, “As asas da bomba”).

O livro é a consumação da atmosfera de dois textos jamesianos bem mais antigos: Daisy Miller (1878), uma das suas melhores histórias curtas, e o maravilhoso Retrato de uma senhora (1880-81). Em todos, a confrontação entre o comportamento de uma jovem americana com valores do Velho Mundo. Só que na história de Milly Theale, envolvida com o casal inglês, Kate Croy e Merton Densher, em Londres e Veneza,os contornos do confronto se tornam labirínticos, de uma maneira que os espectadores do esquálido roteiro de Asas do amor jamais poderia supor, a não ser pelo que a interpretação de Helena Bonham-Carter, merecidamente indicada para o Oscar (e o seria mais, se fosse indicada ao de coadjuvante), consegue sugerir com sua Kate, a mentora do plano perverso-piedoso (se é possível uma conjunção dessas) que envolve Milly e sua imensa fortuna (é curioso como em Henry James sempre há um teor conspiratório e futriqueiro na trama). Pois Milly está irremediavelmente doente e apaixona-se por Merton, o amado de Kate (o relacionamento do casal não agrada à tia dela, que a sustenta—e também à sua família); ela, então, planeja fazer do pobretão o herdeiro de Milly. Só que a “pomba”, ao se oferecer para o sacrifício, mostra-se muito mais forte do que se supunha, mesmo depois da sua morte, separando inclusive o casal que se amava tanto.

Parece simples e melodramático, não? Pois não é. Nada mais difícil e intrincado do que ler As ASAS DA POMBA, principalmente porque, embora os diálogos, como sempre em James, sejam magníficos, a narrativa é toda indireta. E dizer isso ainda não é dizer nada. Nós ficamos sempre sabendo dos fatos “depois”, e através do testemunho ou da exegese (sim, é o único termo que me ocorre) de alguém, que luta consigo mesmo ou com seu interlocutor para “interpretar” os acontecimentos decorridos. O leitor praticamente tem de adivinhar tudo o que está ocorrendo, está para ocorrer ou já ocorreu, sem nunca se ter muita certeza de nada: tudo está envolvido numa intolerável ambiguidade, desde o maquievalismo fraternal de Kate Croy até os derradeiros motivos das atitudes de Milly Theale. Um clima bastante explorado nas falas dos personagens, sempre alusivas, raríssimas vezes abordando diretamente qualquer assunto (lembra, leitor, dos colóquios entre a angustiada preceptora e a cozinheira, em A volta do parafuso?, imagine 500 páginas recheadas deles!).

Nunca na ficção se conseguiu algo tão próximo do tom trágico como em AS ASAS DA POMBA, ou seja, personagens que mesmo em seus deslizes morais e em suas tortuosas atitudes têm “nobreza”, o que jamais poderia se esperar de um gênero tão burguês como o romance, uma “nobreza” que nada fica a dever aos personagens de Sófocles, Shakespeare ou Racine (especialmente, deste último).

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Por isso não dá para entender o que se quis fazer desses personagens no cinema.  Pois, à exceção da intérprete de Kate (a única que parece ter uma mínima ideia do universo em que está se movimentando), que gente vulgar e ordinária é essa que vemos na tela? O que eles querem? Que falta de estofo![1] Vê-se mais um desfile de figurinos do que interpretações, uma coisa lamentável. Será que não se é mais capaz hoje em dia de intensidade, densidade e substância; estofo, enfim?

Será que a “pomba” Milly Theale, que mesmo a perspicaz Kate Croy pensa ser fácil de “sacrificar”  (em função de seu futuro com Merton), não merecia coisa melhor, ela que nos oferece os momentos mais nobres e elevados da arte da ficção? Ela, cuja carta para Merton Densher (que chega após suam morte e é queimada por Kate, sem que ele a leia) constitui um enigma tão cruel quando a dúvida com relação a Capitu, em Dom Casmurro?: [seria] “uma revelação cuja perda era como a visão de uma pérola inestimável jogada diante dos seus olhos—depois de ele jurar que não ia resgatá-la—no mar insondável” (tradução de Marcos Santarrita, numa horrorosa edição da Ediouro).

E existirá momento mais lindo já escrito do que aquele, lírico, belo e atroz, em que Milly na sala de visita do médico, se dá conta que saiu da América “para viver”, quando, na verdade, está sob “sentença de morte”:

“Ela se dispusera a ver o mundo, e aquilo, pois, seria a luz do mundo, o rico lusco-fusco de um ´fundo´ londrino, aquelas as paredes do mundo, aquelas as cortinas e os tapetes do mundo”.

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II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de agosto de 2002)

Na seção passada, comentei A taça de ouro. Coincidentemente, outra obra de Henry James (1843-1916) tornou-se centenária este ano: AS ASAS DA POMBA, um romance tão importante (embora não tão famoso e cultuado) quanto Em busca do tempo perdido, Ulisses ou O processo, e editado aqui pela Ediouro, a qual—ao contrário da Record (responsável pela tradução de A taça de ouro)—manteve o indispensável prefácio do autor, mas igualmente pecou pela feiura lancinante e apelativa da capa, e um odioso texto de contracapa, um marco de estupidez entre os já perpetrados pelo meio editorial brasileiro.

Em alguns dos seus textos mais famosos, James “lançou no mundo” (leia-se a Europa) uma jovem norte-americana que se torna centro de atenção da trama. Todos, inclusive leitores apaixonados, querem saber “no que vai dar a sua vida”. No caso de Isabel Archer (Retrato de uma senhora) e Maggie Verver (A taça de ouro), temos destinos em aberto; no caso da protagonista de Daisy Miller e de Milly Theale (AS ASAS DA POMBA), a morte transforma suas trajetórias em destinos trágicos. “Herdeiras potenciais de todas as eras”, todas cumprem a “rósea aurora de uma apoteose que chegava tão curiosamente cedo”. Para Daisy e Milly (esta “queria abismos”), a sina “era viver rápido”:

“Tratava-se  estranhamente da questão de curto prazo e da consciência proporcionalmente abarrotada”.

Milly viaja para a Europa com sua amiga/dama de companhia, Mrs. Stringham, ambas representando o cantão dos EUA focalizado pela obra jamesiana (Nova York e Boston). Em Londres, Mrs. Stringham retoma contato com sua antiga colega, Mrs. Lowder, e Milly torna-se amiga da sobrinha dela, Kate Croy. Esta mantem uma ligação proibida (pela tia, de quem é agregada) com o jornalista Merton Densher, que Milly conhecera em Nova York e por quem se apaixonara.

Kate descobre que a “pomba” está com os dias contados. Quando todos vão para Veneza, ela faz com que Merton fique próximo a Milly, para que herde o dinheiro dela. Todavia, não se engane, leitor: assim como Madame Merle (de Retrato de uma senhora), Kate Croy é muito, muito mais do que uma mera vilã. É uma personagem extraordinária na sua ambiguidade e duplicidade. Seu plano é ao mesmo tempo egoístico e perverso, piedoso e fraterno, depois que ela decide que Milly pode ser “sacrificada” ao seu futuro com Merton.

Quem assistiu à fraquíssima adaptação cinematográfica, Asas do amor, e não chegar a conhecer o romance, pensará que Kate é a personagem principal, por causa da mocoronga que interpreta Milly (ao passo que Helena Bonham-Carter está perfeita como Kate). A taça de ouro, ao que parece, teve mais sorte, pois a sua transposição para as telas, foi realizada pelo grande James Ivory, de Vestígios do dia.[2]

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A jornada da consciência de Milly Theale, “abarrotada” pelo desejo de viver rápido (e viver tudo), antes da sua morte em Veneza, exige muito do leitor. James, assim como Conrad, tem horror de mostrar fatos diretamente, deleitando-se na repercussão deles para os personagens em diálogos inimitáveis (e que exasperarão muita gente, com certeza), cheios de alusões a realidades sobre as quais nunca podemos ter certeza absoluta (e aí, serão mesmo “realidades”?).

É em A taça de ouro que encontramos um dos poucos fatos importantes mostrados “diretamente” pelo narrador, o momento em que a taça dourado do título entra em cena (seria um presente de casamento de Charlotte à sua amiga Maggie e seu marido Amerigo—que fora amante de Charlotte, mas a compra acaba não sendo concretizada; a taça vai entrar na vida do casal de outra maneira, mais dramática e reveladora).

Em AS ASAS DA POMBA, o leitor não tem tanta sorte. Nunca ficaremos sabendo, por exemplo, o que Milly—estendendo suas asas—escreveu a Merton Densher na carta que, após sua morte, a “pérola inestimável jogada diante dos seus olhos… no mar insondável”, é queimada por Kate diante de seus olhos.

Talvez por isso o livro seja o mais fascinante de Henry James.


[1] Nota de 2013- Após essa decepção, acompanhei a carreira de Alison Elliott e Linus Roache (que eu já vira em O padre); creio que ela se tornou uma coadjuvante muito respeitável, em filmes como O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford  e em certos episódios de Law & Order; quanto a ele, foi a série de Dick Wolf, onde viveu o promotor Michel Cutter nas últimas temporadas, que me fez admirá-lo (ele não fazia nada feio junto ao grande Sam Waterston). Quanto à Helena Bonham-Carter, depois que se casou com Tim Burton e começou a atuar nos filmes dele, a persona “abilolada” se apossou dela irremediavelmente, e todos as suas atuações têm um tom caricato horroroso (ela exagera, e por conseguinte destoa da sobriedade geral, até na caracterização de bruxa má na série Harry Potter).

[2] Nota de 2012- Na verdade, não chegou a ser um momento marcante da sua filmografia, mas não é indigno dele.

VER TAMBÉM NESTE BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/05/04/a-taca-de-ouro-e-a-arte-do-romance/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-interesse-ininterrupto-pela-vida-de-isabel-archer-retrato-de-uma-senhora-de-henry-james/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/mais-uma-vez-com-que-roupa/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/22/as-margens-derradeiras-eu-vi-com-meus-proprios-olhos/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/20/o-que-james-sabia/

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18/11/2011

UM TERRÍVEL OBSTÁCULO: o centenário de “Sob os Olhos do Ocidente”, de Joseph Conrad

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/joseph-conrad-medo-da-anarquia-politica-e-reconhecimento-da-anarquia-interior/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/o-romance-das-ilusoes-de-joseph-conrad-marlow-mar-e-memoria/

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https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/as-margens-derradeiras-aprisionados-pelo-inacreditavel/

 

https://armonte.wordpress.com/2010/10/31/o-fim-da-linha-para-a-aventura/

 resenha publicada originalmente, sem as notas em rodapé, em A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2011

“Difference of nationality is a terrible obstacle for our complex Western natures.” (Joseph Conrad, Sob os olhos do Ocidente)

Há cem anos, quando Joseph Conrad (1857-1924)  publicou um de seus mais importantes romances[1], Sob os olhos do Ocidente (Under Western Eyes; que eu saiba só foi feita uma tradução por aqui, a de Marcos Santarrita, lançada em 1984 pela Brasiliense), havia uma inquietação ocidental em torno da Rússia, dos seus acontecimentos político-religiosos, do tipo de terrorismo que eles inspiravam, similar à que constatamos atualmente com relação aos países islâmicos. Sempre é a mesma coisa: os valores “democráticos” de repente encontram-se questionados e ameaçados, e um outro olhar sobre a realidade parece suspeito, como se trouxesse, latente em si, a ruína  de uma civilização, a qual no entanto exclui das suas benesses boa parte da população.

O que não é mais a mesma coisa, decerto, é a convicção do narrador de que “Para nós,  europeus do Ocidente,  todas as idéias de tramas e conspirações políticas parecem infantis, invenções grosseiras para o teatro ou um romance” (“To us Europeans of the West, all ideas of political plots and conspiracies seem childish, crude inventions for the theatre or a novel”). Acho que isso não era verdade nem em 1911, Conrad exagera de propósito, enfatizando uma certa “inocência” ocidental, que nos lembra aquela “inocência”, também entre aspas, da alta sociedade novaiorquina do romance de Edith Wharton, e que tardiamente faria praça em O americano tranqüilo, de Graham Greene.

Grande parte da ação de Sob os olhos do Ocidente transcorre em Genebra, “a respeitável e desapaixonada morada da liberdade democrática, a cidade do espírito sério, de hotéis pavorosos, proporcionando a mesma indiferente hospitalidade a turistas de todos os países e a conspiradores de todos os matizes” (“the respectable and passionless abode of democratic liberty, the seriousminded town of dreary hotels, tendering the same indifferent, hospitality to tourists of all nations and to international conspirators of every shade”[2].

O narrador é um professor de línguas inglês, já entrado em anos, que tem estreitas relações com a Pequena Rússia genebrina, em minha condição de muda testemunha das coisas russas, desenrolando sua lógica oriental sob meus olhos ocidentais” (“in my character of a mute witness of things Russian, unrolling their Eastern logic under my Western eyes”;o mote reaparece  de forma estratégica—e, a meu ver, com uma certa malícia—em  diversos momentos, como—para dar outro exemplo: “pois esta é uma história russa para ouvidos ocidentais, que, como já observei, não estão afinados para certos tons de cinismo e crueldade, de negação moral, e mesmo de angústia moral, já silenciados em nossa ponta da Europa”;“for this is a Russian story  for Western ears, which, as I have observed already, are not attuned to certain tones of cynicism and cruelty, or moral negation, and even of moral distress already silenced a tour end of Europe”).  Todavia, justamente por sua condição de “estrangeiro”, ele próprio se desqualifica como narrador confiável, que tenha entendido todos os fios da trama ou as motivações dos protagonistas. Para começar, ele insiste muito no fato de que sua história é “real” e portanto é contado com o desajeitamento que a realidade vivida tem, e não com as manhas e alinhavamento da arte, afirmação contrariada pela montagem que exerce sobre os acontecimentos.

E como ele se apaixona platonicamente por Natália Haldin, que ali vive com a mãe, é difícil tirar sua figura do caminho como isenta e imparcial. Talvez ele não tenha importância para os círculos revolucionários, mas seu papel dificilmente é secundário, mesmo porque ele tem acesso a todas as informações importantes (“Pode-se ficar surpreso pelo fato de um homem na posição de um professor de idiomas saber tudo isso com tanta precisão. Um romancista diz tudo sobre seus personagens, e se souber como dizê-lo com bastante convicção não será questionado sobre as coisas que inventa, as quais se tornam suficientemente claras numa frase reveladora, numa imagem poética, no tom da emoção. Mas eu não tenho arte…” etc etc (“Wonder may be expressed at a man in the position of a teacher of languages knowing all this with such definiteness. A novelist says this and that of his personages, and if only he knows how to say it earnestly enough he may not be questioned upon the inventions of his brain in which his own belief is made sufficiently manifest by a telling phrase, a poetic image, the accent of emotion. Art is great! But I have no art…”),; e exerce função de  “desinteresse interessado”, nos bastidores, como o Conselheiro Aires dos romances tardios de Machado de Assis[3].

Após a notícia de um atentado na Rússia, no qual foi assassinado um eminente e odiado estadista, descobrem que o autor do ato terrorista foi Victor Haldin, irmão de Natália, logo depois capturado e executado, tornando-se um mártir reverenciado pelos movimentos revolucionários.

Logo depois, chega a Genebra o estudante Razumov, que todos suspeitam estar fugindo da Rússia por causa de uma pretensa participação no atentado. Natália procura-o então, para saber dos últimos momentos do irmão e o que aconteceu de fato.

De fato, o que aconteceu foi que Haldin procurou refúgio nos aposentos de Razumov e este—que abominava a ideologia revolucionária—o entregou secretamente à polícia. Devido ao seu temperamento taciturno e insondável (e também pela admiração do irmão de Natália por ele), todos acreditam que ele era íntimo camarada de idéias e ações do morto.

A polícia secreta russa utiliza esse equívoco para enviá-lo aos círculos conspiratórios do ocidente e assim espioná-los. Dessa forma, o leitor conhece uma colorida fauna de extremistas, cujo espectro abarca desde um decalque caricatural de madame Blavastsky até um agente duplo, particularmente sádico.

Mas Sob os olhos do Ocidente não seria um livro de Joseph Conrad sem um dilema moral cavalheiresco. Com sua vida e seu futuro promissor de estudante brilhante “destruídos” de certa forma por ter sido procurado por Victor Haldin, Razumov entrega-se selvagem e fanaticamente à tarefa de enganar os conspiradores; entretanto, ao conhecer Natália e seus “olhos confiantes”, ele se sente compelido a confessar sua traição, o que levará a trama a um desenlace violento, bizarro e instigante, que não contarei aqui porque ele só é “crível” no movimento narrativo do romance, onde tudo parece ter lógica própria.

Mas, o mais genuinamente conradiano no texto, e que faz esse mundo dostoievskiano adquirir nuances de Henry James ou o Machado de Assis tardio é mesmo o enviesamento da narrativa. O velho professor de línguas tem acesso aos fatos sempre de maneira indireta, tentando entender a “lógica não-ocidental” que os guia e guiado por sua predisposição sentimental com relação à miss Haldin. Essa interposição de perspectivas, o fato de que na montagem da sua narrativa os fatos já sabidos a posteriori se imiscuem na narração dos eventos, lançando sua sombra,  atrapalha a visão clara e objetiva e torna suspeita—no sentido literário—a narrativa, e  é o que torna o romance tão vivo hoje como há cem anos. Um clássico.


[1] E indubitavelmente o mais estranho e peculiar

[2]  Ainda que em muitas passagens Conrad equacione o extremado e extremista Razumov (e, por extensão, o terrorismo e o radicalismo político)  a Genebra enquanto berço de Jean-Jacques Rousseau (cuja estátua está sempre próxima do protagonista de Sob os Olhos do Ocidente em suas perambulações), o qual é referido significativamente como o autor do Contrato Social,  a visão que fornece ao leitor da cidade, a qual para o conservador e anti-revolucionário Conrad seria um pólo negativo a todos esses personagens destrutivos, não deixa de ser ambivalente e até derrisória. Razumov vê nela “a perfeição da mediocridade, finalmente atingida após séculos de trabalho e cultura” (“the very perfection of mediocrity attained at last afer centuries of toil and culture”), e várias páginas adiante como “esta odiosa cidade da liberdade” (“this odious town of liberty”).

[3] Eu diria que o papel estratégico do professor de línguas representa com relação a Razumov é similar aos dos protagonistas do primeiro romance escrito já em inglês por Vladimir Nabokov, A verdadeira vida de Sebastian Knight (1941), onde o narrador é um russo exilado que mantém o pé na pátria natal, e por isso tem quase uma não-existência, e o escritor—seu meio irmão—procura apagar as marcas da nacionalidade. Polonês, com um pé na Ucrãnia, Conrad escreve em inglês, utilizando um curioso personagem inglês sobre um mundo que o afetou diretamente na infância e juventude.

Os ritos enganosos e embaraçosos da escrita já são tematizados no extraordinário início do romance:

“Para começar, quero negar a posse daqueles altos dons de imaginação e expressão que teriam possibilitado à minha pena criar para o leitor a personalidade do homem que se chamava, à maneira russa, Cirilo, filho de Isidoro—Cirilo Sidorovitch—Razumov.

    Se algum dia possuí tais dons, em qualquer espécie de forma viva, eles há muito foram varridos da existência, sepultados sob uma selva de palavras. As palavras, como todos sabem, são as grandes inimigas da realidade (…) Para o professor de idiomas, chega uma época em que o mundo é apenas um lugar de muitas palavras, e o homem parece um simples animal falante, não muito mais digno de admiração que um papagaio.

   Sendo assim, eu não poderia ter observado o Sr. Razumov nem concebido sua realidade por força da intuição e muito menos tê-lo imaginado como era. Mesmo inventar os mais simples fatos de sua vida estaria absolutamente fora de meus poderes…”

(“To Begin with I wish to disclaim the possession of those high gifts of imagination and expression which would have enabled my pen to create for the reader the personality of the man who called himself, after the Russian custom, Cyril son of Isidor—Kirylo Sidorovitch—Razumov.

    If I have ever had these gifts in any sort of living form they have been smothered out of existence a long time ago under a wilderness of words. Wordas, as is well known, are the great foes of reality (…) To a teacher of languages there comes a time when the world is but a place of many words and man appears a mere talking animal not much more wonderful than a parrot.

   This being so, I could not have observed Mr. Razumov or guessed at his reality by the force of insight, much less have imagined him as he was. Even to intent the mere bald facts of his life would have been utterly beyond my powers”.)

29/10/2010

As Margens Derradeiras: “Aprisionados pelo inacreditável”

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https://armonte.wordpress.com/2010/10/31/o-fim-da-linha-para-a-aventura/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  20 de novembro de 2001)

“… o contato com a pura selvageria não mitigada, com a natureza primitiva e o homem primitivo, trazem uma perturbação súbita e profunda ao coração. Ao sentimento de estar isolado, à clara percepção de solidão em seus pensamentos e sensações –a negação do habitual que é seguro—, junta-se a afirmação do inusitado, que é perigoso,  uma sugestão de coisas vagas, incontroláveis e repulsivas,  cuja intrusão desconcertante excita a imaginação e gasta os nervos civilizados, tanto dos tolos como dos inteligentes”.

O trecho acima é de Um posto avançado do progresso, notável conto de Joseph Conrad (1857-1924), que narra o processo de loucura, “uma sensação inarticulada de que havia se desvanecido qualquer coisa dentro deles”, de dois encarregados de um entreposto comercial na África Central.

Para Conrad, esse texto era a “parte mais leve” (!) de uma preocupação que gerou também o similar e ainda mais sombrio O coração das trevas.  Publicado em livro em 1902, é atualmente o mais estudado e famoso de seus textos, sem falar da transposição de seu enredo para o Vietnã dos anos 60 do século XX no incrível Apocalipse Now (1979), de Coppola. E é preciso não esquecer que a primeira incursão cinematográfica de Orson Welles seria a sua adaptação (o capítulo inicial de  Cidadão Kane- o making of, de Robert L. Carringer, detalha muito bem o projeto, inclusive com os desenhos dos cenários).

Também é um dos mais traduzidos: em 1984, houve três versões (de Marcos Santarrita, de Hamilton Trevisan e de Regina Regis Junqueira, para as editoras Brasiliense, Global e Itatiaia, respectivamente). Agora em 2001 novo boom das trevas conradianas: além da versão de Albino Poli Jr. para a L&PM, foi lançada a versão de Julieta L. Freitas, pela Nova Alexandria (e está prometida a de outra Julieta, a Cupertino, para a Revan, editora que está lançando sistematicamente a obra de Conrad). Dos já lançados, a da Nova Alexandria é decerto a mais fraca, a mais aguada, a que tem as soluções mais chochas, além de alguns trechos que ficaram quase incompreensíveis e que denotam erros de interpretação de um texto intrincado. Eu prefiro, entre todas, a de Regina Regis Junqueira, e me dei ao trabalho de ler essa nova versão até o fim  só para constatar como a força simbólica de O coração das trevas resiste até aos tradutores  mais destrutivos, e como também essa força simbólica continua sendo um desafio e um problema para o leitor.

Pois ainda que seja uma obra-prima, um texto-ícone, é difícil de ler O coração das trevas. São cem páginas que parecem quinhentas. Não porque a narrativa seja chata e arrastada, mas por estar saturada de simbolismo. Não apenas na intenção, como também no próprio movimento discursivo, praticamente em cada parágrafo. Uma simples visita de Marlow (o narrador principal, uma espécie de procurador da visão conradiana da vida) aos escritórios da Companhia onde acertará sua contratação como comandante de um vapor que faz a ligação entre entrepostos comerciais no rio Congo (descobrindo que um deles foi, digamos, “afetado” pela loucura do responsável, o senhor Kurtz) é carregada de presságios, signos da morte e do destino (a velha tricotando, que lembra de imediato uma das Parcas da Antiguidade). Mesmo no início do livro, narrado por um amigo de Marlow, o Tâmisa e Londres ao crepúsculo são descritos em termos que evocam a batalha da luz contra as trevas, do esforço civilizatório contra a barbárie. São dois exemplos óbvios de um discurso sobrecarregado.

Também, trata-se de um livro sobre o Mal, sobre o que acontece quando “se desvanece qualquer coisa” dentro de nós e a casca civilizatória hipócrita (pois movida pela ganância e pelo desejo de espoliar) cai por terra. Kurtz, colonizador que se torna um deus cruel e perverso para os nativos da região onde se faz a exploração de marfim, enlouquece porque a selva “lhe sussurrara coisas a seu respeito que ele próprio ignorava, coisas sobre as quais não suspeitara até o momento em que pediu conselho à grande solidão –e o sussurro revelou-se de uma fascinação irresistível. Ecoou profundamente, porque o senhor Kurtz estava oco”.

Não basta a Conrad descrever a loucura do oco senhor Kurtz (estragada no filme de Coppola –e certamente é o seu ponto fraco— pela canastrônica e quase ridícula aparição de Marlon Brando, que impressiona muito menos que o esquálido fantasma do livro, mais uma voz do que um homem). Interessa a ele mostrar seu efeito sobre o narrador, pois assim o horror se intensifica: “a alma dele endoidara. Sozinha na selva, olhara para dentro de si mesma, digo a vocês, ficara doida, meu Deus! Para pagar meus pecados, eu suponho, tive de passar pela prova de olhar para dentro dela também”.

O Mal que habita o coração das trevas (será que é mesmo na África Central que ele se localiza?) nos é transmitido de uma forma que rompe os limites do raciocínio lógico e do realismo convencional: “Vêem a história? Vêem alguma coisa? Parece até que estou tentando transmitir o conteúdo de um sonho para vocês –tentativa inútil, porque ao contar o conteúdo do sonho não transmito o conteúdo do sonho, aquele emaranhado de absurdo, surpresa e angústia envoltos num tremor de distorcida revolta, a sensação de estarmos aprisionados pelo inacreditável, que é a verdadeira essência dos sonhos…” E, aprisionados pelo inacreditável, no processo de “ver”, lendo, o pesadelo de Marlow, alguma coisa se desvanece dentro de nós também.

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