MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

24/07/2018

Destaque do Blog: “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS” – PARTE 2

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 24 de julho de 2018)

Não podia ser mais feliz o título “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS” para a coletânea traduzida por Marcelo Backes. O conto-título vai ao cerne do universo de Kafka, cuja “solteirice” eterna constituiu uma maldição, uma falta de autonomia, que ele tentou quebrar com quatro noivados malogrados.

Há poucos pais protagonistas na obra kafkiana. Temos o pai de “Onze filhos” e temos as “A preocupação do pai de família”, o qual tem de lidar com um ser estranhíssimo chamado Odradrek: “Ele permanece, mudando sempre de lugar, no sótão, nas escadarias, nos corredores e no saguão. Às vezes, não pode ser visto durante meses; é quando por certo se mudou para outras casas; mas depois acaba voltando inescapavelmente à nossa casa. Às vezes, quando saímos pela porta e ele se encontra apoiado ao corrimão, lá embaixo, até temos vontade de dirigir a palavra a ele. É claro que não fazemos nenhuma pergunta complicada a ele, mas o tratamos – e já seu tamanho diminuto seduz a isso – como uma criança.
– Como é que tu te chamas? – pergunta-se a ele.
– Odradek – diz ele.
– E onde tu moras?
– Moradia indeterminada – diz ele e ri; mas é apenas uma gargalhada conforme se pode produzi-la sem ter pulmões. Soa mais ou menos como o farfalhar de folhas caídas”. O próprio solteirão blumfeld era perseguido em seu quarto por duas bolas vivas.

Avultam profissionais dedicados e escrupulosos que são desmoralizados e humilhados. O exemplo mais gritante é “um médico rural”.

Kafka escreveu muitos relatos longos, principalmente nos seus anos finais. O mais enigmático é “Investigações de um cão”. Tenho pra mim (sem nenhuma corroboração) que é uma alegoria de sua aproximação com o judaísmo (ele tinha planos de se mudar para a Palestina e trabalhar num Kibutz), mas permaneceu no círculo vicioso de suas obsessões como escritor e suas neuroses: “Como a minha vida mudou e como, ainda assim, ela não mudou nada, no fundo! Quando penso retroativamente e invoco os tempos em que eu ainda vivia em meio à comunidade canina, participando de tudo o que lhe importava, cão entre cães, considero que, olhando as coisas mais de perto, desde sempre havia algo que não andava bem, uma pequena ruptura à espreita, um leve mal-estar em meio aos mais veneráveis e populares eventos tomava conta de mim, sim, e até mesmo quando estava em círculos dos mais íntimos, às vezes, não, não apenas às vezes, mas de fato em muitas ocasiões, quando a simples visão de um cãopanheiro que me era querido, sua simples visão, de algum modo um novo olhar, acaba me constrangendo, me assustava, desamparando-me e até fazendo-me desesperar”.

17/07/2018

Destaque do Blog: BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS – PARTE UM

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA em 17 de julho de 2018)

“Estou parado na plataforma do bonde e completamente inseguro no que diz respeito à minha posição neste mundo, nesta cidade, em minha família. Nem mesmo de passagem eu seria capaz de indicar quais as exigências que eu poderia fazer com algum direito em uma direção qualquer. Não consigo sequer defender o fato de estar parado nesta plataforma, me segurar nesta alça, me deixar levar por este vagão, o fato de as pessoas desviarem dele ou caminharem em silêncio ou descansarem diante das vitrines… Ninguém o exige de mim, ademais, isso pouco importa”, (trecho de “O Passageiro”).

Sou apaixonado por Kafka. De quando em quando mergulho em sua obra. A portentosa antologia “BLUMFELD, UM SOLTEIRÃO DE MAIS IDADE E OUTRAS HISTÓRIAS”, a mais ampla, salvo engano, já lançada no Brasil, traduzida por Marcelo Backes, reavivou essa paixão.

Um prazer estranho. O mais original dos escritores joga o cotidiano e a razão lógica no absurdo, naturalizando o insólito, desmascarando as imposturas que chamamos leis: “ ‘Bom dia… O céu está pálido… Eu estou vendo muitos panos nas cabeças… Sim, a guerra. ’ Eu salto para dentro do lugar e, depois de levantar temerosamente várias vezes a mão com o dedo dobrado, bato, enfim, na janelinha do zelador. ‘Caro senhor’, digo amistosamente, ‘um homem morto foi trazido até aqui. O senhor pode mostra-lo a mim? Eu lhe imploro. ’ E, quando ele sacode a cabeça como se estivesse indeciso, eu digo com firmeza: ‘Caro senhor. Sou da polícia secreta. Mostre-me o morto logo de uma vez. ’ ‘Um morto? ’, ele pergunta então, e se mostra quase ofendido. ‘Não, não temos nenhum morto aqui. Este é um prédio decente. ’ Eu o saúdo e vou embora. Mas então, quando acabo de atravessar uma grande praça, esqueço de tudo. A dificuldade dessa empresa me deixa confuso, e eu penso comigo muitas vezes: ‘Caso se construam praças tão grandes assim apenas por petulância, por que não se constrói também um parapeito de pedra que poderia atravessar a praça? Hoje o vento sudoeste está soprando. O ar na praça está excitado. A ponta da torre da prefeitura descreve pequenos círculos. Por que não se fica em silêncio no meio do empurra-empurra? Todas as vidraças das janelas são barulhentas, e os postes da iluminação pública se dobram como bambus. O manto da Virgem Maria se enfuna sobre o pedestal, e o vento tempestuoso lhe dá arrancos. Por acaso ninguém vê isso? Os senhores e senhoras que deveriam caminhar sobre as pedras pairam. Quando o vento volta a respirar, eles ficam parados, dizem algumas palavras uns aos outros e fazem reverências, se saudando, mas quando o vendo volta a se mostrar tempestuoso, eles não conseguem resistir a ele, e todos erguem seus pés ao mesmo tempo. Embora tenham de segurar seus chapéus com firmeza, seus olhos estão divertidos como se o tempo estivesse agradável. Só eu é que sinto medo’”, (Trecho de “Conversa com um Devoto”).

Presente na coletânea, o texto mais perturbador que já li. Eis um trecho de “O Abutre”: “O abutre ficou ouvindo em silêncio durante a conversa, deixando seu olhar passear entre mim e o homem. Agora eu via que ele compreendera tudo, levantou voo, recuou bastante para conseguir impulso suficiente e em seguida golpeou com o bico como um lançador de dardos através de minha boca bem fundo dentro de mim. Caindo para trás, senti, liberto, como ele se afogava de modo irremediável no meu sangue, que enchia todas as profundezas e inundava todas as margens”. (Continua na próxima semana).

 

12/05/2015

Como nascem os monstros: o centenário da publicação de “A Metamorfose”

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de maio de 2015)

«Seja como for, éramos tão diferentes e nessa diferença tão perigosos um para o outro, que se alguém por acaso quisesse calcular por antecipação como eu, o filho que se desenvolvia devagar, e tu, o homem feito, se comportariam um em relação ao outro, poderia supor que tu simplesmente me esmagarias sob os pés, a ponto de não sobrar nada de mim… » (da Carta ao Pai)

Texto mais famoso de Franz Kafka(1883-1924), obra paradigmática do século passado, A Metamorfose  (“DIE VERWANDLUNG”) completa agora em 2015 o centenário de sua publicação original. Entre as diversas traduções, recomendo a de Marcelo Backes, publicada pela L&PM (na série Clássicos, um formato diferente da Pocket[1]), pois dessa edição consta também o conto, bem mais curto, Das Urteil-O Veredicto (isto é, a condenação à morte de um filho pelo próprio pai), o qual ajuda a esclarecer os motivos pelos quais «Certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso».

Ambos pertencem (assim como o inacabado O Desaparecido) à fase “filhos” na obra kafkiana, aliás, uma explosão criativa por volta de 1912: em todas essas parábolas, filhos são banidos pelos pais. A diferença é que, enquanto os outros dois permanecem no âmbito da casa paterna, a história de Klaus Rossmann (em O Desaparecido), enviado à América totalmente recriada pela imaginação (uma Amérika, como o romance era conhecido) após ter sido seduzido pela criada, já aciona o mecanismo de “soltar no mundo” o filho pródigo, cuja maior realização ocorrerá em O Castelo.

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O «inseto monstruoso» é um caixeiro-viajante, arrimo financeiro dos pais[2]. Numa espécie de vingança masoquista, o genial escritor checo, ao reduzir seu protagonista a um estado inválido, incapaz para o trabalho, sobretudo vergonhoso, estaria dando vazão a um ressentimento pessoal que faz dos familiares de Gregor os verdadeiros monstros da narrativa—mesmo a irmã, Grete, bondosa e compassiva com ele a princípio, metamorfoseia-se numa tirana, quase uma megera.

O nó do problema é o pai (não esqueçamos aquele famoso e patético documento biográfico, a Carta para Hermann Kafka, escrita em 1919[3]). Não por acaso, os capítulos de A Metamorfose encaminham-se para confrontos onde o senhor Samsa praticamente esmaga o filho. Inicialmente, com uma bengalada, relegando-o à condição de prisioneiro no quarto; meses mais tarde, ao acertá-lo com uma maçã que apodrecerá no seu corpo, apressará seu fim.

Esse pai parece revitalizar-se com a desgraça do filho, revirilizar-se, ressentindo-se com a atenção dispensada a Gregor na sua “condição monstruosa”, a qual nada mais é do que a incapacidade de garantir o sustento da família, ou seja, de manter-se no mercado de trabalho, essa expressão odiosa que parece ter se metamorfoseado no nosso único horizonte. Pois o relato também pode ser lido através da ótica do esvaziamento das relações, isto é, a alienação progressiva da própria ideia do “humano”.  É por isso que nunca se limitará a ser apenas mera vingança de um filho oprimido e recalcado, para ganhar a dimensão de uma das definitivas alegorias do capitalismo.

O que, porém, só uma leitura, um contato efetivo, transcendendo a miríade de chaves biográficas e interpretativas que se pode ter do texto, mesmo quem não o tenha lido, pode mostrar de fato o impacto que é acompanhar o metamorfoseado rumo à sua morte decretada pela família e pela esfera de produção, em cenas que conseguem o milagre de ser engraçadas (quem pode esquecer a fuga do chefe de Samsa após sua aparição? Ou o espanto dos inquilinos? Ou a empregada jocosa?) e macabras, a um só tempo.

E, pouco antes da terrível sentença familiar contra ele, o inútil, desvalido num mundo em que todos precisam mostrar-se produtivos e capazes, o texto atinge o ápice da beleza quando Gregor rasteja, inconsciente dos danos iminentes (ele que se transformara num monstro rancoroso, rabugento e faminto), rumo à irmã, que toca violino: «…rastejou um pouco mais… a fim de que os seus olhares se encontrassem. Será que ele não passava de um animal, embora a música o emocionasse tanto? Parecia que ela lhe abria um caminho rumo a um alimento desconhecido pelo qual ele tanto ansiava».

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TRECHO SELECIONADO

«Depois de ter refletido acerca de tudo isso às pressas, sem conseguir se decidir a deixar sua cama – o despertador acabara de anunciar quinze para as sete –, bateram com cautela à porta, na cabeceira de sua cama.

     – Gregor – alguém chamou; era sua mãe –, já são quinze para as sete. Não querias ter partido a essa hora? – A voz suave! Gregor assustou-se quando ouviu sua voz respondendo; e era inconfundivelmente a mesma voz de antes, mas a ela misturava-se, como se vindo de baixo, um ciciar doloroso, impossível de evitar, que só no primeiro momento mantinha a clareza anterior das palavras, para destruir seu som de tal forma quando acabavam por sair, a ponto de fazer com que não se soubesse ao certo se havia ouvido direito. Gregor quis responder em detalhes e esclarecer tudo, mas limitou-se, dadas as condições, a dizer:

    – Sim, sim, obrigado mãe, já vou me levantar.

      Por causa da porta de madeira, a mudança na voz de Gregor por certo não foi percebida lá fora, pois sua mãe tranquilizou-se com a explicação e se afastou, arrastando as chinelas. Devido à troca de palavras, contudo, os outros membros da família ficaram cientes de que Gregor, ao contrário do que esperavam, estava em casa, e o pai já batia numa das portas laterais, fraco, mas com o punho:

     – Gregor, Gregor – ele chamou –, o que está acontecendo? –

      Depois de alguns instantes advertiu mais uma vez em voz mais grave:

     – Gregor! Gregor! Na outra porta lateral, entretanto, a irmã lamentava em voz baixa:

    – Gregor? Não estás bem? Precisas de algo? Gregor respondeu em ambas as direções:

      – Já estou pronto – e esforçou-se para, tomando o maior cuidado na pronúncia e fazendo longas pausas entre as palavras, evitar que sua voz chamasse a atenção.

O pai, em todo caso, voltou ao café da manhã, mas a irmã sussurrou:

      – Gregor, abra a porta, eu te imploro. »

VER:

https://armonte.wordpress.com/2010/04/07/a-morte-do-caixeiro-viajante/

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NOTAS

[1] Mas há também uma edição nesse formato.

[2] «Se eu não me contivesse por causa de meus pais, já teria pedido as contas há tempo; teria me apresentado ao chefe e lhe exposto direitinho o que penso, do fundo do meu coração. Ele teria de cair da escrivaninha! É um jeito bem peculiar o dele, de sentar-se sobre a escrivaninha e falar do alto a baixo com seu empregado, que além do mais tem de se aproximar bastante por causa das dificuldades auditivas do chefe. Bem, a esperança ainda não está de todo perdida; quando eu tiver juntado o dinheiro a fim de quitar a dívida de meus pais com ele – acho que isso demorará ainda uns cinco ou seis anos –, eu encaminho a coisa sem falta. Aí então terá sido feito o grande corte.»

[3]   “Brief an den Vater”, também traduzido por Backes para a L&PM.

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22/04/2015

Destaque do Blog: A CAIXA, de Günter Grass (1927-2015)

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 21 de abril de 2015)

1

Em 1998, maravilhado com a riqueza mirabolante da narrativa de Um Campo Vasto (1995), como acontecera tantas vezes na leitura do  recém-falecido Günter Grass (O Tambor, 1959; Anos de Cão, 1963; O Linguado, 1977; A Ratazana, 1986), eu terminava uma  resenha, para a “A Tribuna” de Santos, afirmando peremptoriamente: « justiça seja feita e que Grass seja o próximo Nobel»[1]; desejo pessoal metamorfoseado em vaticínio: no ano seguinte, ele foi anunciado como vencedor do prêmio[2], devido à «enorme tarefa de rever a história contemporânea lembrando os despojados e esquecidos, as vítimas e os perdedores, e as mentiras que as pessoas querem esquecer porque um dia acreditaram nelas».

Na década seguinte, Nas Peles da Cebola (2006) representou uma reviravolta na reputação do escritor alemão. Ali se revelava alguém que, afinal (tardiamente, decerto), não queria se esquecer da mentira em que um dia acreditara: quando jovem, pertencera aos quadros da hierarquia nazista. O mal-estar geral e a desilusão (Grass há décadas detinha o status de “consciência crítica” de sua nação) empanaram o desassombro e lucidez desse livro de memórias.

Vindo na esteira de obras enormes, “cósmicas”, por assim dizer, e da igualmente alentada e desnorteante autobiografia, A Caixa-Histórias da Câmara Escura (2008) parece, à primeira vista, um projeto mais modesto, um romance “pequeno” em tamanho e ambição[3]. Ledo engano. Trata-se de uma encapsulada “poética” da vida e da obra de Grass, contrapartida (e complemento cronológico) lúdica de Nas Peles da Cebola, onde líamos que, nas estórias, as coisas «se passam de modo mais factual do que na vida real».

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2

«Possivelmente também nós, do jeito que estamos sentados aqui e conversando, sejamos apenas inventados… Isso ele pode,  e isso, na verdade, ele domina muito bem: inventar, imaginar, até que tudo se torne realidade e inclusive projete sombra», diz um dos oito filhos[4] (com mães diferentes) do velho escritor, às vésperas dos oitenta anos, reunidos com a missão de, entre seus compromissos pessoais, em refeições fartas em lugares e momentos variados (por exemplo, «Depois de comerem com gosto o gulache de cordeiro, eles vão sentar na sacada com vista  para o pátio interno e para o terreno vazio de uma escola ao anoitecer…»), fazer a crônica familiar, do que representou para cada deles ter tal pai famoso e polêmico (atacado pela direita e pela extrema-esquerda), vivendo em diversas casas, com a vida do clã pontuada por grandiosos projetos autorais acalentados por anos e anos até o aparecimento de um Livro (assim, com maiúscula, pela amplitude e repercussão). Mas como toda reunião, mesmo a das pessoas mais próximas e íntimas, o que deveria ser um arsenal de reminiscências em comum fratura-se com as percepções diversas de cada evento, com os ressentimentos que afloram, com as revelações inesperadas, com o fato de que, mesmo numa tapeçaria familiar inconsútil (e com a sombra de tal pai), cada qual tem sua trajetória irredutível.

E não podemos esquecer do “pai narrador”, a instância por trás de tudo, que “quer que seja assim”: «Coisas que não foram ditas pairam no ar. Só vagarosamente os irmãos tomam o rumo das confusões de sua infância, falam retroativamente, ora se mostrando animados, ora de mau humor, e fazem questão de continuar se mostrando feridos, magoados. Porque o pai deles quer que seja assim…»; ou mais adiante, em outra toada: «Agora o pai não sabe o que fazer: apagar o que está escrito? Encontrar algo mais inocente para substituir o que foi dito e impedir que alguém fique magoado? Ou prolongar a briga? Ou insinuar, contra a vontade dos filhos, em orações subordinadas, qual é a erva que os dois fumam em segredo, até porque o cheiro…»[5]

Essa feição narrativa (desdobramento de colóquios, em diversos encontros) já é emaranhada por natureza. Mas há ainda a caixa do título, a máquina fotográfica utilizada por Marie[6], presença onipresente na família (alguns desconfiam de que era amante do pai) durante décadas, ajudando o escritor em sua obsessão de tornar vivo o passado em suas obras («E de qualquer modo só ficou claro, sé que um dia ficou, apenas bem devagar, que ele precisava das fotos para poder imaginar como tudo era no passado. É assim mesmo com nosso paizinho: vive só do passado, e continua vivendo assim. Não consegue largá-lo. Precisa voltar sempre de novo…»). As fotografias da irascível e indomada Marie, que só sobreviveram no pensamento mágico coletivo da família, tinham o vezo de alterar o real, às vezes mostrando o que já não existia mais, às vezes antecipando o futuro, contudo sempre trazendo à tona desejos latentes, quando não ranços nunca resolvidos de todo («Mas a câmara de Mariechen não se limitava a realizar desejos, Quando ela ficava com raiva por causa de vocês, ou o vento soprava da direção errada, ou outra coisa a roía por dentro—o grande  dente roedor das recordações que a guerra deixara dentro dela…»). Fotos-estórias, mais factuais do que a vida vivida de fato: «…mas isso aconteceu. Pois tudo o que a velha Marie fotografa com sua caixa da Agfa, mal ela revelava os rolos de filme em sua câmara escura, saía bem diferente da realidade».

E, na sua maestria octogenária, Grass nos brindou com a mais precisa junção de invenção e memória («Ora, mas pouco importa com que foi que ela fotografou. Importante é que acreditamos em tudo… »). A Caixa tanto representa uma ótima introdução à sua obra inigualável, como um encantador e mágico reencontro do leitor habituado ao universo desse gênio da literatura.

(uma versão do texto acima foi publicado no LETRAS IN.VERSO E RE.VERSO em 22 de abril de 2015, VER:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2015/04/a-caixa-uma-poetica-da-vida-e-da-obra.html

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TRECHO SELECIONADO

«A velha Marie fotografou nossa Casa de Tijolos por dentro e por fora com sua Agfa-Especial, para que papai pudesse ver quem vivera por ali no passado e pintara suas coisas no sótão, onde ele ficava sentado agora. Era alguém que mais tarde inclusive ficou famoso, e isso com uma fotografia especial. Era um pintor de paisagens marítimas. Pintava quadros conhecidos como marinhas. Navios de três mastros de velas enfunadas, mas também vapores transatlânticos. Mais tarde quase sempre navios de guerra. Cruzadores e outros do tipo, quando a Primeira Guerra Mundial começou, e nossa frota e a dos ingleses lutou e se afundou mutuamente no Mar do Norte. Eram quadros da batalha do Doggerbank e da batalha de Skagerrak, nas quais morreu muita gente. Mas um dos quadros que ele pintou tratava da batalha marítima nas Ilhas Falkland… Ali dava para ver restos de um cruzador alemão que se chamava Leipzig.  Ao fundo, navios de guerra ingleses fumegam. E na parte da frente um marujo se encontrava em pé sobre uma prancha ou sobre uma quilha que ainda restara do cruzador, em meio ás ondas. Ele segurava com uma ou com ambas as mãos uma bandeira, que parecia com as bandeiras que os skinheads da direita ainda carregam hoje em dia por aí, quando querem aparecer na televisão. Chamava-se O Último Homem…

   E justamente desse quadro a Agfa-Especial de Marienchen conseguiu se lembrar…

   Lógico! Porque a câmera dela era retrovidente…

    Ainda me lembro como ela se postava na janela grande, curvada para frente, mas ficava olhando sobre os ombros…

     E do mesmo jeito retorcido ela às vezes ficava parada conosco no povoado, sobre o dique, e, com a câmera virada para a frente, olhava para trás, como se o passado ficasse ali e, na frente, houvesse apenas ar…»

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NOTAS

[1] VER https://armonte.wordpress.com/2013/10/03/um-campo-vasto-a-implacavel-visao-de-gunter-grass-da-unificacao-das-alemanhas/

[2] VER https://armonte.wordpress.com/2013/10/03/a-vastidao-gunter-grass/

[3] Não percamos de vista que volta e meia Grass apresentava obras de ficção mais curtas, nem por isso menos notáveis, caso de Gato e Rato (1961), Anestesia Local (1969), Maus Presságios (1992), Passo de Caranguejo (2002), também traduzidos no Brasil, como todos os demais títulos citados.

[4] Conforme a biografia de Grass, seis biológicos e dois de uma de suas mulheres. Diga-se de passagem, embora sua obra seja marcada pela homenagem à Mulher (exemplo supremo é O Linguado), esse “feminismo” é ironicamente evocado em A Caixa, onde o designam como “paxá” autocentrado («…porque enfim encontrou uma mulher junto da qual pode terminar de escrever seu livro. Pois isso sempre foi para ele a coisa mais importante… »), e brinca-se o tempo com sua condição “patriarcal” ao ponto de evocar-se o parricídio pela horda primordial (não podemos esquecer também de Cronos, devorador dos filhos, na mitologia): «Devias ter visto na câmara escura dela, como nós, na condição de horda, as crianças, as mães e eu, estávamos sentados em torno do fogo, enrolados em peles, mordiscando raízes e roendo ossos. Um grupo desgrenhado, sempre com as clavas e machados de pedra à mão, de modo que mais tarde, quer dizer, no último filme, quando a fome não terminava, vocês acabaram por pegar o pai de vocês, porque ele era inútil e só ficava contando suas histórias…» (todas as citações de A Caixa, no original “Die Box”, são da tradução de Marcelo Backes, publicada pela Record em 2013).

[5] «Eles não queriam mais seguir suas palavras. A filha, os filhos, se negaram a ser parceiros de suas histórias. “Deixe-nos fora disso”, eles exclamaram. “Mas”, ele dissera, “as histórias de vocês também são minhas, tanto as divertidas quanto as tristes”…».

Em contrapartida:

«__ Não nos resta tanto tempo assim, se quisermos terminar antes de meados de outubro [o mês de aniversário de Grass, nascido em 1927—provavelmente aí se trata dos seus 80 anos].

__ E ainda por cima tudo deve correr segundo as ordens de papai. Ele simplesmente vai nos inventar! —exclamou Nana.

__ E vai botar palavras em minha boca que absolutamente não são minhas—queixa-se Taddei…»

[6] Inspirada em Maria Rama, colaboradora de Günter Grass, a quem o livro é dedicado. A Caixa poderia ser etiquetado dentro da categoria da “autoficção”, tão em voga. Em uma das caracterizações da personagem ao longo do romance, lemos:

«Ela sempre ficava à parte e, magra como era, parecia um tanto perdida. Parecia sozinha, não triste, na verdade, o que a princípio até teria sido compreensível, mas antes ausente.  “É que eu apenas restei”, ela dizia para mim […]

  Às vezes ela dizia: “Assim são as coisas, crianças, quando apenas restamos. Fica-se parado por aí e não se bate mais muito bem da bola.

    Nunca sabíamos ao certo quem era que não batia mais muito bem da bola. Se era ela ou a câmera ou se eram as duas».

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16/12/2014

“Michael Kohlhaas” e a mentira convertida em ordem universal

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“… Lutero enviou ao príncipe eleitor da Saxônia uma carta na qual revelava ao soberano, depois de uma amarga menção aos senhores Fulano e Beltrano, camareiro e copeiro de Wenzel von Tronka[1], que se encontravam à volta de sua pessoa e que havia, conforme todo mundo sabia, desconsiderado sem mais a queixa, usando da franqueza que lhe era característica, que, sendo tão terríveis as circunstâncias, não restava outra coisa a fazer a não ser aceitar a sugestão do comerciante de cavalos e lhe conceder anistia pelo que havia ocorrido, retomando seu processo. A opinião pública, observou ele, estava do lado daquele homem de um modo altamente perigoso (…) as coisas facilmente poderiam escalar a um grau em que nada mais se conseguiria fazer usando apenas o poder do Estado. Concluiu dizendo que nesse caso extraordinário era necessário deixar de lado os escrúpulos de não negociar com um cidadão do Estado que apelara às armas, que o mesmo de certo modo havia sido colocado fora dos vínculos estatais através do procedimento que lhe havia sido imposto; e que, em resumo, para sair da questão, seria necessário considerá-lo antes uma força estrangeira que atacara o território, o que aliás parecia adequado na medida em que se tratava de fato de um estrangeiro, e não de um rebelde que se levantara contra o trono.”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de dezembro de 2014)

No ano em que sua versão cinematográfica é exibida no Brasil, Michael Kohlhaas (1810) ganhou duas novas traduções: a de Marcelo Backes (Civilização Brasileira) e a de Marcelo Rondinelli (Grua).

A novela de Heinrich von Kleist (que se suicidou aos 34 anos, em 1811) tem como protagonista “um dos homens mais honestos e terríveis da sua época”[2] (o século XVI). Ao tentar atravessar, como sempre fizera, a propriedade do fidalgo Wenzel von Tronka, o comerciante de cavalos é surpreendido com a exigência de documentos, deixando como penhor dois animais (com um servo). Descobrindo, em Dresden, que fora enganado, ao voltar constata que seu servo fora ignominiosamente expulso e que seus belos cavalos foram usados (de uma maneira que os depauperou) no arado. Não obtendo satisfação do fidalgo, primeiramente ele tenta as chamadas vias legais com petições rejeitadas após longa demora (o judiciário é controlado por parentes de Von Tronka, cortesãos chegados ao Príncipe da Saxônia); quando começa a se impacientar, sua leal esposa toma as rédeas do assunto, com resultados fatais; daí então, vendendo suas propriedades e colocando os filhos sob proteção, Kohlhaas se torna um chefe justiceiro, espalhando o terror.

Kleist delineia o paradigma supremo de um comportamento recorrente, que podemos conferir em Coração Valente ou na série Desejo de Matar (com Charles Bronson), ou em todas as manifestações que mexeram com o nosso país (e outros países) em tempos recentes[3]: a exigência da justiça, do cumprimento da lei, através de uma ação que não se conforma com o moroso (e sobretudo tortuoso) protocolo judiciário, e que por isso invariavelmente descamba para o banditismo e para a violência: a pretensa ordem social é posta em questão, e o protesto acrescenta mais um elemento ao caos[4]. Kohlhaas começa, ele próprio, a afixar mandados em que determina a entrega do fidalgo fujão (depois que o vingador arrasou seu castelo) e congrega atrás de si uma multidão de descontentes e desocupados, muitos deles dignos do epíteto “escória”—aliás, um dos asseclas prejudicará muito a causa do comerciante.

Se o lado épico do relato (o assalto de Kohlhaas a vários burgos e seus informes à população, baseados no seu direito à reparação, ele colocando o mundo pelo avesso) já é possante, o momento em que o herói (de caráter complexo), graças ao salvo conduto, negociado por Lutero e que garante sua liberdade (e que no entanto lhe será de precária valia), permanece em Dresden novamente aguardando por uma ratificação oficial e judicial dos seus prejuízos, alça Michael Kohlhaas a uma das maiores obras-primas já escritas. Um tanto porque a exigência do “homem honesto e terrível”, da maneira como dá azo a trâmites bizarros (e incidentes narrativos inesquecíveis), beira o absurdo (no que este tem de cômico e inquietante): ele quer os mesmos cavalos que deixara com o fidalgo, devolvidos ao seu estado físico original; e outro tanto porque cada vez fica mais claro que, no presumível estado de direito, “a mentira se converte em ordem universal, como formulou um admirador incondicional de Kleist, Franz Kafka, um século depois (em O Processo).[5]

   Exemplo de absurdo também é a atitude do Príncipe da Saxônia: deixando a administração dos negócios públicos tornar-se insustentável e arbitrária, à mercê da incúria e da injustiça de cortesãos intrigantes e ciosos dos seus privilégios, sua obsessão é recuperar o vaticínio de uma cigana sobre o futuro da sua linhagem nobre, e que foi parar na mão de Kohlhaas. A tentativa de entrever os caminhos da Providência acrescentando outra pitada de tempero ao desconcerto do mundo.

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TRECHO SELECIONADO

“Entrementes, o príncipe eleitor da Saxônia, entregue a seus pensamentos lastimáveis, havia convocado dois astrólogos, chamados Oldenholm e Olearius, que eram muito respeitados na Saxônia na época, e pedido seu conselho acerca do conteúdo do misterioso bilhete, tão importante para toda sua estipe e sua descendência; os homens, depois de uma investigação profunda, que durou  vários dias, na torre do castelo de Dresden, não conseguiram entrar em acordo sobre se a profecia dizia respeito a séculos tardios ou se referia aos tempos atuais, e se talvez a coroa polonesa, com a qual as relações continuavam assaz hostis, estava incluída nos termos e assim, devido àquela disputa entre sábios, em vez de amenizar a inquietude, para não dizer o desespero em que se encontrava o infeliz soberano, apenas tornou o sentimento ainda mais agudo, fazendo-o aumentar a um grau que era totalmente insuportável para sua alma (…) o príncipe eleitor, o coração cheio  de desgosto e arrependimento, foi se trancar em seu quarto como alguém que estivesse completamente perdido, e lá ficou durante dois dias, cansado da vida, sem tomar qualquer alimento, até que no terceiro dia depois de um breve anúncio  ao palácio do governo de que viajaria até o príncipe de Dessau para caçar, desapareceu de Dresden repentinamente. Para onde ele foi, e se de fato chegou a ir a Dessau, deixaremos em aberto, na medida em que as crônicas a partir das quais contamos, comparando-as, nesse ponto se contradizem e se anulam de modo bem estranho.”

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NOTAS

[1] Acredito haver um erro de revisão nessa passagem: Fulano e Beltrano são camareiros da Corte e não do fidalgo Von Tronka, seu parente.

[2] Utilizo a tradução de Backes, contemplada com o Prêmio Paulo Rónai, pela Biblioteca Nacional.

[3] Reconheço que são exemplos desencontrados e arbitrários, mas todos podem evocar outros.

[4] Conforme (no Posfácio de sua tradução) nos diz Marcelo Backes “…Kohlhaas é, antes de mais nada, um John Locke obrigado a pegar em armas, um filósofo liberal de espada na mão. Abandona o pacto social, que não lhe concede a satisfação legal que lhe é devida, e busca o direito natural do ser humano.”

[5] Ainda seguindo a linha de argumentação de Backes, “…Seu caso [o de Kohlhaas] desde o princípio não tem saída, e em determinado momento as coisas inclusive começam a andar por si...”,  mostrando que o imperativo épico (a necessidade e a possibilidade de ação de um herói) já se encontra ferido de morte, o que desaguará nas fábulas kafkianas.

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08/06/2013

O mundo a partir de uma voz: “O último minuto”, de Marcelo Backes

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“…complicado descobrir o que o levara pra tão longe dos trilhos de sua árvore genealógica, se é que o deslocamento geográfico da roça pra cidade era mesmo tão importante, se é que a diferença entre um campo de futebol e uma lavoura de soja era de fato tão grande assim a ponto de intervir decisivamente no destino de um homem…”

(uma versão condensada da resenha abaixo foi publicada no Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, em 08 de junho de 2013)

VER

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2013/06/1291478-critica-narrador-fraco-nao-prejudica-trama-sobre-tecnico-de-futebol.shtml

I

Acompanhando a nossa ficção recente, percebemos que alguns escritores voltaram a valorizar a peculiaridade da “voz” do protagonista, cujo paradigma brasileiro mais relevante é o Riobaldo (com seus companheiros Brás Cubas e Bentinho, o Dom Casmurro, e Paulo Honório).

Nessa vertente, O último minuto nos apresenta o missioneiro (de Anharetã) Yannick Nasyaniack, descendente de russos (por parte de pai) e alemães (por parte de mãe), “mistura do Sul com estepes”[1], técnico de futebol de um time carioca que, após dez anos foragido, se entrega para expiar um assassinato (cometido por ciúme). Homem da roça de feição mais arcaica (“no lugar de onde ele vinha era assim que se fazia”), na prisão tenta entender sua passagem para a esfera urbano-globalizada:

“Sim, pois só um universo daqueles era capaz de explicar a história que ele me contou”. Afinal,  “vinha de uma terra onde criança de colo não chupava pirulito, mas comia salame”.

Marcelo Backes, em seu terceiro romance, se propõe um desafio digno de um craque: não ouvimos a “voz” de Yannick diretamente, mas filtrada (retocada, ele admite) por outro personagem (um seminarista, “filho de juristas”), que acha tudo “estranho” no espécime que tem diante de si (a princípio, a fala do outro é uma “ladainha monomaníaca”), e só aos poucos vai decifrando seus códigos de conduta e linguagem: “Se digo cuia, aliás, foi porque aprendi com ele, e se não disse que as calças eram bombachas foi porque ele não me falou, pensando que eu sabia. Eu não sabia, mas logo descobrir, porque costumo me informar sobre aquilo que desconheço e investigar o que me escapa. Meu papel era estar ali, e eu estava (…) e o estranho acabou por se debulhar todo pra mim, e, na medida em que é possível contar alguma coisa, em que o contado efetivamente tem a ver com o sucedido, ele me contou tudo, pelo menos era a impressa que eu tinha”.

Em outro trecho marcante:

    “Fica-se encafifado com a grosseria da máscara que cobre aquele homem, esse tal de João, o Vermelho, Yannick pros íntimos, conforme ele logo diz, ainda em tom de piada, as caneladas doem, mas, também sem saber por quê, se vai gostando dele aos poucos, depois de tantos encontros, talvez porque ele fale tudo e não esconda nada, porque ele não entra no jogo, não veste máscara civilizatória, e com isso faz o humano sentir saudade do bafejo da barbárie na nuca, porque ele veio dum outro mundo e ainda vive num outro mundo, e experimenta tudo na carne, sem camisas nem casacos cosmopolitas pra lhe proteger a pele exposta, as fraturas mal saradas por causa de seu metafísico arrumador de ossos, as feridas todas que lhe cobrem a alma.

    Os grandes problemas de comunicação vão diminuindo aos poucos,e com pasmo se percebe que inclusive se vai assumindo a linguagem do estranho na muita intimidade que passa a vincular o falante ao estranho…”

                                                        II

Essa mediação permite que a maior parte das diatribes com relação ao estado do mundo[2] (com várias analogias futebolísticas, que justificam inclusive —creio eu— o título do romance, meio sem graça) e inúmeras veleidades intertextuais[3] fluam na narrativa, sem que se quebre a força do relato de Yannick, ou João, o Vermelho, que é grosso, truculento, passional, mas também é manhoso, rodeando os eventos mais dramáticos da sua vida (“Eu ouvia tudo e ficava e ficava pensando quando ele contaria enfim sua versão dos fatos que de fato interessavam”).

Nem sempre funciona. Às vezes o discurso generalizante, para além dos personagens e da sua situação (as visitas semanais do narrador à cela de Yannick), degringola para a panorâmica didático-moralista.  O maior reparo a se fazer (afora alguns capítulos curtos do final, cuja função não consegui captar), porém, é que, quando o autor gaúcho esclarece as motivações para seu narrador encetar tão estúrdio relacionamento com o atormentado técnico homicida, não consegue fazer com que ele se torne convincente para o leitor, permanecendo como um ser abstrato, que está ali para representar e espelhar o emasculamento e impotência do herói[4]. O “diálogo” entre as instâncias narrativas é muito bem realizado, mas não entre os dois seres que as encarnam (o sentimento de filiação, por exemplo, me parece forçado).

Ainda assim, a exegese que o seminarista-escritor faz da “voz” de Yannick (com toda a impureza do processo) é um feito notável e, mesmo com os desequilíbrios apontados, O último minuto não deixa de ser um baita romance, com o charme adicional de incorporar ousadamente fatos muito recentes da nossa história[5].

Pois essas vozes muito individualizadas, e com as marcas de uma região (penso no Jurandir de O sonâmbulo amador, de José Luiz Passos, ou na narradora de Palavras que devoram lágrimas, de Roberto Menezes, como exemplos recentes e notáveis da afirmação que abre este meu texto), como o já citado Riobaldo demonstrara cabalmente, podem ter uma vocação enciclopédica maior (na acepção mais ampla da vocação do romance, que é, como dizia, e eu gosto tanto de citar,  Osman Lins, “mundo imerso no mundo”) do que a da ficção urbano-cosmopolita, que me parece ter muito pouca ambição nesse sentido, com as exceções de praxe.

O Sertão já estava dentro da gente, as Missões agora também.

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[1] “tinha cinquenta e cinco anos bem redondos e vinha de fato de um município chamado Cacimbinhas, comunidade de Anharetã, conforme vim a confirmar na certidão (…) tudo localizado nas missões sul-rio-grandenses, região fronteiriça, barranca do Uruguai, divisa com a Argentina, conforme ele dizia”.

    A evocação da imigração (particularmente a russa) é bastante expressiva no romance de Backes, sem a palidez literária que torna bastante limitadas, desse ponto de vista, experiências recentes, até premiadas, como Os hungareses, de Suzana Montoro (Prêmio São Paulo de Literatura), e Nihonjim, de Oscar Nakasato (Jabuti).

[2] “Richarlisson, Maicossuel, Keirrison, onde já se viu uma coisa dessas, ele gritava na verve de quem via seu mundo cair pelas beiradas, e  não conseguia mais se orientar em meio ao caos. A perversão passara da coisa ao nome! Parecia até que os originais não eram com dois esses, ele dizia, Maicossuel, por incrível que pareça, e Richarlyson com direito a ípsilon, conforme via nos jornais, de modo que até  a ortografia da última flor ia pro laço, pervertida. E aquelas comemorações estúpidas, então, o espetáculo da oligofrenia, jogador imitando um boneco babaca, paspalhice de plástico, dançando as piores músicas…”

[3] Por exemplo, a pantera de Rilke, os clássicos literários russos (sempre com seus labirintos de crime e castigo), o Funes de Jorge Luis Borges (o memorioso por excelência), uma anedota (a da chaleira) contada por Freud na Interpretação dos Sonhos, a famosa frase de Euclides da Cunha, parodiada (“O missioneiro era antes de tudo um grosso”), o contraste camponês/marinheiro, tematizado por Walter Benjamin;  sem contar o onipresente fantasma de Riobaldo, até por causa de certas formulações (“bom mesmo era antes e depois das coisas, porque as coisas em si, tocadas, vividas, sempre deixavam a gente no meio de uma paisagem que não tinha mais graça”  ou ainda “entender aquilo que ele mesmo não entendia muito bem e talvez entendesse um pouco melhor junto comigo”; mais?: “O problema maior era botar estribeiras na própria alma” ; e para encerrar: “na hora em que eram contados, eles, o fim e os meios, talvez se mostrassem mais importantes do que quando vividos (…0 Na verdade, ele hoje sabia, os mesmos erros acabavam sendo cometidos durante a vida inteira, e o máximo que se conseguia era errar com conhecimento de causa, o que já ajudava um pouco”).

Penso, no entanto, que ele não precisava explicitar o exercício do “discurso indireto livre” (“O esboço do meu discurso indireto se tornou bem mais fácil desde aquele encontro”)e muito menos a concepção do futebol como uma metáfora (“o futebol desde sempre havia sido uma metáfora formidável”). Parece-me que ele está fornecendo muletas ao leitor, ou dando acenos para  o leitor universitário-acadêmico. Também, numa futura edição, talvez o talentoso autor gaúcho devesse repensar o rebarbativo início do capítulo 24: “O que levava as coisas a seu conhecido desenlace? O que empurrava os homens para seu sabido fim? E que medida havia o destino, em que grau o tal do livre-arbítrio? Um mero presente esquecido podia acabar com toda a ordem de uma vida, e dizem que a mãe de Hitler só último momento desistiu de abortá-lo. Tudo terá acontecido porque a mãe de Hitler era austríaca? Aliás, por que ela era austríaca? Ou terá apenas o fato de ela ter pensado no aborto levado o mundo a mais de vinte milhões de mortos”. Respeito muito a ambição do romance, mas isso é retórica simplesmente.

E não sei se Backes é fã de Seinfeld, mas há uma “panorâmica civilizatória” que é igualzinha a um comentário de Jerry Seinfeld sobre a relação dos homens com seus cães de estimação: “Um homem levava seu guaipeca pra passear (…) E, enquanto o cachorro se retesava todo, forcejava e forcejava, o homem ficava à espea, numa espera paciente, até o canídeo terminar o serviço. Pra depois abaixar e juntar sua merda. E ele dizia que eu devia imaginar um extraterrestre vendo a cena. O que o extraterrestre pensaria?” Mais um exemplo da apropriação do universo da indústria cultural: “às vezes o rastro deixado por godzilla era tão grande, e ele  perguntou se eu vira o filme…”

[4] “A propósito da Itália e da mesma copa, e ele continuava a resenha, a única coisa que Zidane fizera de errado na final, e esse era craque de verdade, um talento com desvelo, fora não ter chutado o tal do Materazzi depois de derrubá-lo com aquela baita cabeçada. Havia horas em que não existia coisa mais honrada do que perder o tal do espírito esportivo, ouvir os apelos da honra, ele achava. E, ademais, como não iria defender a cabeçada do Zidane, se até defendera a mordida que o Tyson, o Mike Tyson, o boxeador, meu guri (…) a mordida que o lutador dera na orelha do Holyfield. Era uma briga mano a mano e nunca alguém fora tão honesto, tão ingênuo, tão puro como aquele animal no ringue quando metera seus dentes…” São os vestígios da hombridade, do homem-herói no mundo sem aura.

[5] E ao contrário do que acontece, por exemplo, em Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera, onde o recurso não funcionou muito bem, as referências “contingentes” não sufocam o texto, até permitem que ele seja mais flexível. Yannick pode, no meio de uma digressão, soltar um “sem contar o preço da frolic”.

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