MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/07/2013

O romance-manifestação: “Manual da Destruição”, de Alexandre Dal Farra

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“… seria melhor o grito. seria melhor não haver as palavras, só o grito, o grito desarticulado, sem lembranças, sem marcas. todas as palavras são marcas que carregam diversas outras coisas além  do que elas descrevem agora. as palavras vêm sempre maculadas do que elas já disseram antes, são palavras velhas de merda e se conectam todas com as fotos tiradas posteriormente pelo cérebro. palavras filhas da puta, marcadas pelo passado escroto!seria preciso ficar só no grito,  só o grito, o grito, o grito, eu sinto a gosma que reviveu dentro de mim e quer se tornar grito sem palavras…”

(uma versão da resenha abaixo foi publicada em A TRIBUNA de Santos, em 30 de julho de 2013)

A ficção brasileira atravessa um momento de efervescência qualitativa. As ruas do nosso país também viveram recentemente um estimulante sopro de insurreição.  Talvez o romance com maior vocação de ficar como o registro arquetípico desse período turbulento e prenhe de possibilidades seja Manual da Destruição[1].

Testemunhei a reação de certos leitores à estreia do ator e dramaturgo paulista Alexandre Dal Farra no gênero[2]: um horror ao uso contínuo, quase que frase a frase, do “palavrão” (exemplo: “as pessoas abrem as bocas e soltam as palavras pelo ar, não ficam quietas, bando de gente filha da puta e barulhenta do caralho! todas as pessoas são filhas da puta. ao lado das fileiras de cadeiras há as lixeiras com as tampas metálicas. o menino atirou os restos do sorvete dentro da lixeira. moleque de merda. a tampa balança como um pêndulo e some com os restos do moleque imbecil. e o menino filho da puta continua caminhando como se não tivesse acontecido merda nenhuma! os restos foram engolidos e sumiram debaixo da tampa automaticamente, e o menino não entrou em contato com o lixo escroto que ele produziu… ele não entrou em contato com o lixo que o seu corpo criou, que é a única merda que ele deixa para o mundo…”).  Considero descabida tal rejeição (um pouco como a dos que vinculam manifestações de rua com baderna e vandalismo), agarrando-se a hierarquias de uma linguagem mais ou menos “nobre” e desconsiderando que existe não só uma verbalização maciça (e muito presente em nossas vidas) nesse sentido, uma espécie de mantra, de linguagem que beira o interjeitivo e fornece válvula de escape ao tropel emocional inarticulado, como também um fluxo de consciência das pessoas estruturado dessa forma, pois esse recurso ao dito “palavrão” (escroto, filho da puta, caralho, merda, porra, puta que o pariu, e por aí vai) é uma forma de reação instintiva ao contato nu e cru com o mundo, e não tem nada a ver com escolaridade ou educação.

Nesse sentido Manual da Destruição pode ser tomado como uma realização notável e exemplar, pois praticamente enciclopediza essa feição psicolingüística (perdoem-me o pedantismo) ao fazer dela a instância verbal predominante, radicalmente utilizada, de atrito entre seu narrador e a realidade à sua volta[3].

O livro é dividido em duas partes: na primeira, o protagonista regressa de uma viagem e narra sua reacomodação ao cotidiano, mantendo-nos no campo de visão de cada instante de uma forma opressiva, minando o sentido de tudo (há passagens que beiram o alucinatório, bem na tradição de um Graciliano Ramos, em Angústia, e de um Rosário Fusco, em O Agressor, duas apreensões extremas —e raras na nossa ficção— do mal estar de viver numa sociedade injusta e discriminatória, e ao mesmo tempo de não encontrarmos em nós estofo muito diferente das outras pessoas que sustentam tal status quo). Pois que ser razoável poderia achar que viver é isto: “eram dezenas de coreanos imitando coreanos, ouvindo músicas e vendo filmes, comendo e vendendo coisas fake ao longo do dia naquele buraco de fórmica… e me dirigi à lan house de merda. entrei na lan house empurrando a porta de plástico transparente que disparou um alarmezinho irritante para avisar que alguém tinha entrado…”?

Na segunda parte, ele está no aeroporto, com viagem marcada para Belém do Pará e além do que vê ao seu redor (com cenas geniais, como aquela em que é interpelado por uma indignada cidadã, ao jogar papel no chão ou aquela em que defronte ao espelho ele ataca violentamente a si mesmo), é acossado por memórias não-desejadas, contudo coercitivas (“as lembranças do passado de merda ficam nas nossas cabeças e não servem para porra nenhuma. eu fico lembrando das coisas, e acho isso uma merda, principalmente se as coisas que eu lembro têm a ver com a porra da rachadura na parede da casa da minha avó…”; a certa altura lemos: “tenho raiva desse mecanismo do meu cérebro,e tenho raiva particularmente da maneira como ele liga as memórias entre si, criando tramas infinitas em que eu me enredo e fico fora do lugar onde estou!(…) estou sentado na frente do meu portão de embarque onde há os animais escrotos esperando para ir viajar, e decidi lembrar de alguma merda, não importa o quê. estou me esforçando para lembrar de algo que não venha da minha relação orgânica com a vida, que não emerja da merda da situação de agora que me remete às outras merdas…”).

Portanto, temos um mesmo sentimento de revolta e insatisfação, de sensação de panela de pressão ou granada prestes a explodir, que deram azo às manifestações de junho, vazados numa linguagem poderosa e sem concessões, onde as relações “humanas”, as trocas e contatos diários em meio à falida infraestrutura urbana[4], são esquadrinhadas, maceradas e reduzidas a um diagnóstico não muito distante do “Eclesiastes”, mas sem nenhuma possibilidade de transcendência: “todos os seres humanos são filhos da puta, mesmo que eles não sejam”.

Pena que, se é agudíssimo e acurado em sua ferocidade na maior parte do seu texto, Dal Farra cometa o erro de terminar tanto ambas as partes com situações melodramáticas (um acidente de trânsito e um espancamento)[5], totalmente desnecessárias e fora do espírito da sua narrativa. Mesmo com essas soluções infelizes e discutíveis, Manual da Destruição já é um dos livros da década.

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TRECHO SELECIONADO

“estou sozinho dentro do banheiro do aeroporto de merda. caminho até encostar a cintura na pia e vejo a minha cara estúpida no espelho, e ela não tem nada a ver com nenhuma das lembranças de merda nem com nada do que existe dentro da minha cabeça. é só uma cara idiota, igual ao que ela já era antes. vejo no espelho como o meu rosto é o mesmo, o mesmo rosto que eu já vi outras vezes nos espelhos de merda. sempre a mesma imagem refletida. mas o meu rosto não é sempre o mesmo. percebo isso por dentro. o rosto filha da puta finge que é o mesmo por fora, quando está na frente do espelho de merda, mas de dentro eu sei que ele não é o mesmo. sinto as mudanças na carne, pelo lado de dentro, retiro os meus óculos e olho para a minha cara monótona no espelho. ligo a torneira de merda e enfio as mãos embaixo da água (…) gostaria que a água passasse da pele e entrasse por dentro da minha cara. gostaria de jogar água por dentro, diretamente no meu cérebro. gostaria de poder resfriar os órgãos todos por dentro. enfio os dedos molhados dentro dos olhos e procuro enfiar água em todos os buracos do rosto (…) vejo pelo reflexo o velho. o velho entrou no banheiro de pulôver marrom. ele procurou não olhar muito para mim pelo espelho (…) eu estava olhando para mim mesmo com ódio. o velho viu isso. disfarcei e apertei ainda mais os dentes, e dou um jeito de me machucar um pouco enquanto o velho está dentro do compartimento de fórmica. enfio dois socos no meu próprio estômago, e torço para o velho ser surdo. ele se enfiou em um compartimento de merda e eu aproveito para socar meu próprio estômago. sinto a minha mão fechada socar a minha barriga, sinto a dor e dou mais [no livro impresso está “mas”] sete socos no um estômago com toda a força possível, apesar da posição, até que o meu braço fica um pouco cansado. enfio ainda mais três socos com toda a força possível no mesmo ponto que já estava doendo. sinto o estômago quase rasgar com os socos que eu enfiei em mim com toda força e sem nenhum prazer. enfio os meus óculos de volta na cara…” 

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[1] Dou-me conta de que a afirmação no texto acima pode dar a indicação equivocada de que o livro se destinaria a ficar “datado”. Embora seja o livro adequado, perfeito e obrigatório para este nosso Zeitgeist em polvorosa, é evidente que o livro possui as qualidades suficientes para sobreviver a ele.

[2] Não é ocioso lembrar que na Grã-Bretanha dos anos 1950 apareceram os “angry young men”: oriundos especialmente dos meios cênicos. Dal Farra,  que está com 31 anos, nessa linha de pensamento pode ser considerado um “angry young man”, inclusive por seus objetivos estéticos. Acho que os “angry young men” estavam fazendo falta num panorama literário dominado por jogos metalinguísticos e uma sensação de anomia irritantes. Ainda bem que na edição da GRANTA dos jovens escritores brasileiros, tivemos alguns exemplos nessa linha mais “angry”, como Vinicius Jatobá, Christiano Aguiar e Javier Arancibia Contreras (pelo menos, na amostra ali publicada), ainda bem que temos um Diego Moraes, um Roberto Menezes e, em certos aspectos da sua obra, Ricardo Lísias (mesmo na sua recente “autoficção”).

É bom que ainda se escreva raivosamente trechos como aquele em que o narrador está ouvindo o primo, que o levou até a fábrica de tubos onde trabalhara: “…ele fingia que se portava como um trabalhador orgulhoso da sua produção, mas era só um fodido estropiado do caralho, que só se deu mal na vida e cuja energia toda tinha sido arrancada em função dos canos e principalmente da riqueza que os canos geravam, e isso era terrível demais para o meu primo perceber. as palavras que saíam da boca escrota do meu primo, do meio dos seus dentes meio podres (…) todas as merdas que ele expleia com o seu bafo podre não tinham significado nenhum e eram tristemente inócuas e nulas frente ao tamanho do cano, ao seu movimento lento e contínuo, e ao leve calor que ele exalava. senti o cheiro de borracha queimada e vi a fumaça que o cano expelia quando saía de dentro da máquina. as palavras mortas da boca podre do meu primo de segundo grau estavam maculadas pelo bafo da inutilidade do seu ser, e da sua pequenez frente ao cano. as palavras do filho da puta não significavam absolutamente nada porque ele não conseguia encarar o seu não pertencimento à bosta toda e não era capaz de sentir o ódio e o desespero que lhe seriam adequados. o seu corpo não suportava…” 

[3] Quando uso o termo “enciclopediza”, é porque tenho uma visão do romance como forma enciclopédica da realidade humana: sua vocação mais autêntica é mapear e absorver,mesmo na sua condição “pós-moderna”, mais fragmentária e avessa à totalidade.

[4] “… o garçom ficava feliz de ser simpático com as pessoas que tinham cartões de crédito. supostamente todos os filhos da puta sentados no bar de merdas tinham cartão de crédito, ele se aproximava das pessoas e ficava orgulhoso de lidar com os cartões delas, ele lidava de maneira eficiente com os cartões de crédito e por isso se orgulhava de ser um garçom de merda, o filho da puta!(…) me levantei da frente da mesa de madeira e recebi o cartão das mãos do garçom filho da puta e simpático, ele entregou a merda do cartão para mim o mais rápido possível e não fez nenhum comentário estúpido, o garçom eficiente e simpático percebeu que só lhe restava me dar logo a merda do cartão e se resignar a ter sido só um bosta de um garçom mesmo, que cobrou a porra da minha conta, ele não foi nada mais do que o garçom da merda do bar e eu fui a porra de um cliente, que merda! nós finalizamos a nossa relação como uma relação de troca, e nada mais. não se estabeleceu nenhum vínculo de merda entre dois seres humanos, nenhum vínculo de bosta entre seres humanos. não, o que houve entre mim e o garçom foi só o dinheiro que eu paguei pelo naco de carne, por meio do cartão de crédito. fiquei satisfeito por não ter estabelecido nenhum vínculo com o filho da puta do garçom, e por ter entregado a merda do meu cartão e feito ele tirar o dinheiro do meu crédito, e cobrar o que eu devia pelo pedaço de carne, sem que por isso se estabelecesse qualquer cumplicidade do caralho entre mim e ele…”

[5] Eu também não estou convencido de que todo o teor do material das lembranças e/ou onírico (há passagens em que as reminiscência confluem com imagens oníricas, como aquela evocação de dezessete cavalos espalhados mortos pelo chão num cenário interiorano) seja satisfatoriamente trabalhado. Além disso, tem a abolição completamente desnecessária da maiúscula, que não redunda em nenhum efeito particularmente novo, e fica parecendo apenas modismo (se era para radicalizar, que fossem abolidos os marcadores convencionais do discurso). E a revisão por parte da editora Hedra (diga-se de passagem, a capa escolhida para Manual da Destruição é de lascar!, completamente infeliz) deixou a desejar em alguns trechos (e o leitor percebe que se trata de uma questão de revisão, já que Alexandre Dal Farra demonstra à farta que escreve muito bem), por exemplo:

–na página 97: “a minha cintura está há [sic] menos de um metro do filho da puta”; na verdade, “a minha cintura está a menos de um metro do filho da puta”

– na página 177, o mesmo erro de colocação: “eu, há [sic] trinta metros das duzentas pessoas…”; na verdade, “eu, a trinta metros das duzentas pessoas…”

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