MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/12/2012

Dr. Fortunato e o Sr. Valdemar: o médico e a cobaia

PREÂMBULO BREVE- O texto abaixo foi escrito em 2008, como parte do material de leitura para meus alunos do curso As margens derradeiras: textos do limite,  que abordava oito textos curtos e paradigmáticos do século XIX: “O médico e o monstro”, “Bartleby”, “Memórias do Subsolo”, “A morte de Ivan Ilitch”, “O alienista”, “O mandarim”, “O coração das trevas” & “A volta do parafuso”; na órbita de cada um deles, analisei outros: “William Wilson”, “O homem invisível”, “O duplo”, “O capote”, “A tumba dos ancestrais”, “O horla”, “O homem da areia”, “A vida privada”, etc.

MOTE

“Quando o homem mata em si o Minotauro, o que nele resta é a razão. Um ser esvaziado de sentido, cadáver do mito.”

(Autran Dourado, Novas proposições sobre Labirinto e Mito, 1976)

PRIMEIRA VOLTA

Examinarei, aqui, dois grandes textos curtos: um, de Machado de Assis, muito próximo da época de Jekyll e Hyde, perto do fim do século, A causa secreta; o outro, mais para meados do século Os fatos do caso do Sr. Valdemar, de Poe.

A causa secreta é mais um dos casos estranhos da genialidade de Machado, pois foi escrito antes de O médico e o monstro: sua publicação original foi na “Gazeta de Notícias”, em agosto de 1885. Onze anos mais tarde ele foi incluído na coletânea Várias histórias. É um dos raros textos em que Machado é “cru”, não-dissimulado, na narração de perversidades e violências psíquicas.

O relato (em 3ª. pessoa) começa, em 1862, com uma cena doméstica, quase pose para uma fotografia ou um retrato: “Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, do Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço”.  Para a “pose” do retrato ou da moldura narrativa, reuniu-se um trio típico de Machado e da ficção oitocentista: marido, esposa e amigo.

Por trás da “pose” houve um assunto grave, “feio”, tão aflitivo que deixou os dedos de Maria Luísa trêmulos, e daí que há cinco minutos ninguém falasse nada. O narrador anuncia que remontará à origem da situação.

Garcia é o médico da história. Quando se encontraram pela primeira vez, ele ainda era estudante e o capitalista Fortunato causou-lhe forte impressão. Poucos dias depois, eles se reencontram no afastado teatro de S. Januário: “a peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ele e saiu; Garcia saiu atrás dele”.  Através da descrição (como sempre, irônica; Machado adora resumir enredos melodramáticos ou folhetinescos) da peça, Fortunato se revela um pouco para nós: um interesse pelo espetáculo violento, de fortes emoções. Seguindo o conhecido, Garcia viu a seguinte cena: “ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia andando”. Um Hyde à solta pelo Rio?

Semanas depois, um incidente: alguns homens trazem um sujeito todo ensangüentado (foi atacado por um grupo de capoeiristas e um deles meteu-lhe o punhal); como García diz que é preciso chamar um verdadeiro médico. Alguém replica que isso já foi feito. Esse alguém é Fortunato. Ambos permanecem para auxiliar o médico:  “A ferida foi reconhecida grave. Durante o curativo, ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado, segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para o ferido, que gemia muito… Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente, estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a expressão dura, seca e fria… Teria quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava alguma coisa acera do ferido, mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o rapaz lhe dava a resposta. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato de rara dedicação, e se era desinteressado  como parecia, não havia mais que aceitar o coração humano como um poço de mistérios [1]. Realmente, o coração humano é um poço de mistérios, mas a água que ali estagna é bem diferente do que pensava Garcia. Aliás, nós, que estamos treinados no olhar de suspeita pós-freudiano podemos desconfiar da perversidade e sadismo ocultos no “ato de rara dedicação” testemunhado pelo perplexo estudante; não esqueçamos como Machado escrevia numa época em que o que nos é “normal” como leitores e espectadores chocava, e muito. Aliás, o leitor que estivesse nessa altura do relato nem imaginaria, creio eu, o desenvolvimento que ele tomaria, pensaria decerto que há um “segredo” tão melodramático e folhetinesco na vida de Fortunato como o enredo da peça que assistiram (e Machado brinca com essa expectativa ingênua ao afirmar que o estudante suspeitou haver nela reminiscências pessoais). Acho que o leitor da época passava batido pelas bengaladas no cachorro ou no olhar frio e desapaixonado para o ferido.

Fortunato continua visitando o ferido por dias; quando este melhora, desaparece, “sem dizer ao obsequiado onde morava”.  Ele e Garcia só se reencontram tempos depois, e Fortunato casara nesse entreato; por esse motivo, convida o rapaz, que já se formara, para jantar na casa dele no primeiro domingo. Observando o casal, Garcia constata novamente a “frieza” que emana da pessoa do capitalista, embora obsequioso: “Maria Luísa é que possuía ambos os feitiços, pessoas e modos. Era esbelta, airosa, olhos meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove”. Na segunda visita, Garcia percebe a dissonância entre o casal, a falta de “afinidade moral”. Um dia, ele conta a ela em que circunstâncias conheceu-lhe o marido (“uma bonita ação”) e ela se comove e se desconsola quando o ouve zombar do caso. O resultado dessa conversa é prático: Fortunato convida Garcia a fundarem uma casa de saúde, que seria ótima para alavancar a carreira de um médico iniciante. Dias depois, após certa hesitação, Garcia aceita e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe e curvou a cabeça. O plano fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não curou de mais nada, nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele próprio o administrador e chefe de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e contas”.

Medicina e quotidiano, essa é a grande época em que eles se aproximam. Podemos ver o lado “da luz” de Fortunato nessa empresa: o capitalista esperto que percebe onde sopra o vento, o que dará dinheiro, numa sociedade em transformação; por outro lado, há a sua fachada obsequiosa (apesar da frieza), a capacidade de enfrentar o sofrimento sem firulas, de agir quando necessário, o humanitarismo no capitalismo (não se criou nesse tempo o termo benemérito ?): “Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua de D. Manuel não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza desse homem  [e onde Garcia encaixa as bengaladas nos cachorros? Ele e o leitor da época devem já ter esquecido rapidamente]. Via-o servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava, acompanhava as operações e nenhum outro curava os cáusticos. Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.

Enquanto isso, seu jovem amigo se torna familiar na casa, jantando ali todos os dias, e assim observando a “solidão moral” de Maria Luísa. Solidão que lhe duplica o encanto e, claro, ele se apaixona e ela, claro, percebe, e eles não ousam dar o próximo passo: “Fortunato metera-se a estudar anatomia e fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar cães e gatos. Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para casa; e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer”.  Eis o cientista que surge como um poder social que substitui o pai de família, o patriarca. E eis as malfadadas cobaias que ainda assombram a nossa época, por mais que se grite e proteste. Não é à toa que a figura meio sinistra meio caricata do “cientista louco” correu mundo. A ciência como campo para o id e a pulsão da morte é um dos avatares do umheimlich.

Maria Luísa pede a Garcia, já que o marido não a ouviria se ela mesma o fizesse, que fale com Fortunato para acabar com esses “estudos” terríveis dentro de casa: “Se os foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim”. Na cena em que agradece a García, ela tosse intermitentemente. Garcia fica apreensivo.

Dali a dois dias chega o momento em que os vimos no primeiro parágrafo, a pose, agora já convenientemente vista pelo avesso. Garcia chega para jantar e encaminha-se para o gabinete de Fortunato. De lá sai uma consternada e aflita Maria Luísa: “O rato! o rato! exclamou a moça sufocada”. Numa cena doméstica, poderia se pensar que um rato assustou-a, como é comum, mas o terror é de uma espécie que a visão de um bicho nojento jamais poderia causar. Eu geralmente pulo esse trecho, que me aflige também, e só o escrúpulo profissional me obriga a transcrevê-lo: “No momento em que Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo; e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado. Garcia estacou horrorizado. Mate-o logo!, disse-lhe. Já vai. E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez até a chama deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida. Essa é uma das descrições de sadismo mais exatas e por isso mesmo esse relato é um dos textos mais terríveis que já li. Imaginemos o pacato Machado, sempre homem de meios-tons, sentado, escrevendo cada frase dessa cena horripilante. O que o obsedou para fazer com que ele criasse uma história tão diferente no tom da grande maioria das suas narrativas, e tão premonitória? Fortunato, o Kurtz brasileiro, o Jekyll que não precisa se dividir em Hyde: o médico é o monstro, afinal: “Garcia, defronte, conseguiu dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio, tão somente um vasto prazer, quieto e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estéticaA chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra; Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa mistura de chamusco e sangue”  (ufa, espero que seja a última vez que leio linha por linha essa parte).

Fortunato finge ter se enraivecido com o rato porque ele lhe comera um documento importante, mas Garcia percebe a simulação. E formula o segredo, a causa secreta, do comportamento do sócio: sua “necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar”. E ainda acham que nossos tempos são violentos, há gente que se impressiona com os serial killers cinematográficos?

Fortunato ainda zomba dos nervos de Maria Luísa e aí os vemos na cena que abriu o relato: Hão de lembrar-se que, depois de terem falado de outras coisas, ficaram calados os três… Pouco depois foram jantar… Maria Luísa cismava e tossia, o médico indagava a si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem. Era apenas possível, mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza, temeu por ela e cuidou de os vigiar. Será que ela realmente não é vítima de um dos “estudos” do marido? Ou é a saúde frágil, típica da época? Nunca saberemos. O certo é que Maria Luísa se revela tísica e Fortunato se revela, surpreendentemente, um marido dedicado, mas conforme a doença avança, sua “índole” subjuga a afeição: “Não a deixou mais, fitou o olho baço e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as aflições da bela criatura, agora magra e transparente… Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só minuto de agonia”.  Essa fome de sensações só termina, e o deixa aturdido, quando ela morre.

À noite, Fortunato e Garcia velam o cadáver. Garcia manda que o sócio vá repousar por umas horinhas. Fortunato sai, deita-se no sofá da saleta contígua, e adormece por vinte minutos, não consegue mais conciliar o sono, se levanta e retorna à sala, caminhando na ponta dos pés (seu lado obsequioso) para não incomodar ninguém. E testemunha a seguinte cena: “Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lençol e contemplara por alguns instantes as feições defuntas[esse romantismo mórbido! Mas Henry James amaria essa reação]… como a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-o na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta… não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúme, note-se, a natureza compô-lo de maneira que não lhe deu ciúme nem inveja, mas dera-lhe a vaidade, que na é menos cativa ao ressentimento… Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longo, deliciosamente longa. Volto a perguntar: esse homem existia?  Machado já era Nélson Rodrigues antes deste pensar em nascer e escrever suas suburbanas tragédias cariocas e míticas. Freud estudou Hoffmann, o que não faria então com esse texto?

SEGUNDA VOLTA

Recuemos agora para 1845 e ao caso do Sr. Valdemar. O narrador começa dizendo que não se espanta em que o referido caso tenha sido muito discutido: “Torna-se necessário agora que eu exponha os fatos, até onde alcança minha compreensão dos mesmos”  [2]. Ele nos fala então do seu interesse, já de alguns anos, pelo fenômeno do magnetismo (portanto, temos o termo “caso” quase indicando a esfera policial, e o termo “magnetismo” nos levando para o domínio da ciência). Em todas as experiências do gênero havia uma lacuna: nunca nenhum moribundo fora submetido ao magnetismo, para verificar “até que ponto ou por quanto tempo a invasão da morte poderia ser impedida pelo processo magnético. O sonho da ciência: deter a morte. O  lado monstruoso da ciência: servir-se de cobaias.

O escolhido é Ernest Valdemar, a quem já submetera ao mesmerismo e ao hipnotismo, mas sem sucesso devido ou ao seu temperamento muito nervoso ou ao seu precário estado de saúde (“em período algum sua vontade ficava inteira ou positivamente submetida à minha influência”).Valdemar é declarado tísico: “tinha ele o hábito de falar sobre a aproximação de seu fim como de uma questão que não devia ser lastimada nem se podia evitar”. E mostra-se interessado na experiência que o narrador lhe propõe. Combinam que 24 horas antes do prazo marcado pelos médicos para o falecimento, ele será chamado pelo moribundo para efetuá-la. Segundo o narrador, isso acontece sete meses antes do início do relato. Quando chega ao quarto do doente, espanta-se com seu declínio físico (“sua magreza era tão extrema que os ossos da face quase lhe rompiam a pele”), embora conservando a lucidez da mente. Quando os médicos que o tratam se retiram, “falei francamente com o Sr. Valdemar sobre o assunto de sua morte vindoura, bem como , mais particularmente, sobre a experiência vindoura. Ele mostrou-se ainda completamente de acordo e mesmo ansioso por sua realização, e insistiu comigo que a começasse imediatamente”. O narrador o faz a partir das oito da noite do dia seguinte. Ele começa os “passes” para influenciar o moribundo, que horas depois, já tem o pulso quase imperceptível e a respiração estertorosa. Até que ele solta um suspiro que parece o último alento antes da morte: “Cinco minutos antes das onze[a experiência, é evidente, está sendo toda anotada e registrada]percebi sinais inequívocos da influência magnética. O movimento vítreo do olho mudara-se naquela expressão de inquietante exame interior que só se vê em casos de sonambulismo. Os médicos concluem que o homem que acabava de morrer se acha num estado de “sono mesmérico”.  Ele deixa sua cobaia “tranqüila” por algum tempo até que se decide a fazer com que ele execute movimentos: “fiz um esforço para influenciar seu braço direito a acompanhar o meu, que passava levemente para lá  e para cá, por cima de sua pessoa. Em tais experiências com esse paciente, nunca antes eu conseguiria êxito completo… para espanto meu, seu braço bem pronta, embora fracamente, acompanhou todos os movimentos que o meu fazia”.

Ele decide-se então a “conversar” com o Sr. Valdemar: todo seu corpo se agitou em um leve calafrio, as pestanas abriram-se, permitindo que se visse a faixa branca do olho; os lábios moveram-se lentamente e dentre eles, num sussurro, mal audível, brotaram as palavras: Deixe-me morrer assim!” Todos os médicos acreditam que é melhor deixá-lo nesse estado sonolento até advir a morte. O narrador resolve conversar de novo com ele e perguntar-lhe o que quer de fato: “Enquanto eu falava, ocorreu sensível mudança no magnetizado. Os olhos se abriram devagar, desaparecendo as pupilas para cima; toda a pele tomou um ar cadavérico… as manchas héticas, circulares, que até então se assinalavam fortemente no centro de cada face, apagaram-se imediatamente… Ao mesmo tempo, o lábio superior retraiu-se acima dos dentes que até então cobria por completo, enquanto o maxilar inferior caía com movimento audível, deixando a boca escancarada e mostrando a língua inchada e enegrecida. Suponho que ninguém do grupo ali presente estava desacostumado aos horrores dos leitos mortuários, mas tão inconcebivelmente horrenda era a aparência do Sr. Valdemar que houve recuo geral de todos da proximidade da cama.”

Como se vê, Poe se esmera nos detalhes fisiológicos. É o horror a olhos vistos.

Mas o Sr. Valdemar não morreu: “irrompeu dos queixos distendidos uma voz, uma voz tal que seria loucura tentar descrever… parecia alcançar nossos ouvidos, pelo menos os meus, de uma vasta distância ou de alguma profunda caverna dentro da terra… dava-me a impressão que as coisas gelatinosas e pegajosas dão ao sentido do tato”. O  Sr. Valdemar está respondendo ao narrador (lembrem-se que este tentara conversar com ele novamente: “… estava adormecido… e agora… agora… estou morto”. Quase todos abandonam correndo o quarto. O narrador testa a respiração da cobaia no espelho: não há. Tentativas de extrair sangue falham. Movimentos não mais: A única e real demonstração da influência magnética achava-se, então, de fato, no movimento da língua quando eu dirigia uma pergunta ao Sr. Valdemar”. Isso é que é ouvir voz do além! “Era evidente que, até ali, a morte (ou o que se chama usualmente morte) fora detida pela ação magnética. Parecia claro a nós todos que despertar o Sr. Valdemar seria simplesmente assegurar sua morte atual, ou, pelo menos, apressar-lhe a decomposição”. Será que em nenhum momento ele se sente mal por essa experiência horrenda? Não há remorso ou sentimento de interdito: isso não é permitido (mas o quê ou quem não permite, esse é um problema também). Ele faz visitas diárias, durante sete meses, à casa do Sr. Valdemar.  Até que se decidem a despertar o pobre coitado (e segundo o narrador foi o resultado desse despertar que causou toda a celeuma referida no início).

Ele utiliza seus passes para libertar o Sr. Valdemar da influência magnética anterior. Lentamente são obtidos alguns resultados: a íris desce (acompanhada de uma profusão ejaculatória de um pus amarelento, sob a pálpebra, com um odor acre e repugnante), os círculos héticos voltam às faces. O narrador pergunta: Sr. Valdemar, pode explicar-me quais são os seus sentimentos ou desejos agora?” O  Sr. Valdemar: “Pelo amor de Deus… depressa… depressa… faça-me dormir… ou então, depressa… acorde-me… depressa… afirmo que estou morto” . Perplexo, o narrador não sabe o que fazer; na dúvida, tenta despertar o paciente: E estou certo de que todos no quarto se achavam preparados para ver o paciente acordar  [já que mesmo com as horríveis aparências, qualquer simulação de vida nos parece vida, e é preferível à morte]. Para o que realmente ocorreu, porém, é completamente impossível que qualquer ser humano pudesse estar preparado. Enquanto eu fazia rapidamente os passes magnéticos… todo seu corpo, de pronto, no espaço de um único minuto, ou mesmo menos, contraiu-se…. desintegrou-se, absolutamente podre, sob minhas mãos. Sobre a cama, diante de toda aquela gente, jazia uma quase líquida massa de nojenta e detestável putrescência”.

Eis aí o resultado de uma ciência que pretende dominar o que está além do seu alcance. Mas a experiência toda é o lado Hyde do médico: não respeitando os limites, não respeitando a pessoa, sujeitando tudo e todos à idéia de um hipotético avanço: como se vê no conto, a morte foi vencida, e o resultado foi um cadáver vivo.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/06/para-seguidores-e-neofitos-de-poe-os-arabescos-de-contos-de-imaginacao-e-misterio/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/meu-duplo-no-meio-do-caminho-havia-um-superego/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/o-americano-nada-tranquilo-os-200-anos-de-poe/

 


[1] O narrador diz que Garcia acreditava ter “a faculdade de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até apalpar o segredo de um organismo.  O homem de ciência-detetive, personagem padrão da época.

[2] Uso a tradução constante na Ficção completa, poesias & ensaios da Aguilar, de Oscar Mendes.

02/12/2012

PRA INGLÊS VER: segunda parte (Machado)

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de fevereiro de 1999)

O inglês James Woodall escreveu uma biografia do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), O homem no espelho do livro. Porém, melhores serviços à literatura latino-americana foram prestados por seu compatriota, John Gledson, que preparou para a Companhia das Letras uma magnífica antologia de contos[1] de Machado de Assis (1839-1908), certamente o único autor que pode se ombrear com Borges.

Lendo os dois volumes da edição, a impressão final é que Machado é um caso ainda mais surpreendente de genialidade do que o autor de O Aleph. Nem se trata dos fatos biográficos, que eram todos contra ele (mulato, pobre, gago etc), isso é o de menos. A questão é: como explicar a assombrosa perspicácia moral e intelectual do autor de Quincas Borba (meu romance brasileiro predileto)? Borges beneficiou-se de uma vivência européia e do contato com os mais diversos tipos de escritor. Machado nunca saiu do Brasil (aliás, poucas vezes saiu do Rio de Janeiro), viveu num meio intelectual tacanho e, no entanto, escreveu coisas assombrosas como Conto alexandrino (Borges com certeza amaria este conto, assim como O segredo do bonzo, A segunda vida  ou Identidade—este último, infelizmente, não incluído por Gledson—,entre outros textos de Machado), que é tão ou mais cruel do que qualquer coisa que Kafka tenha escrito décadas depois, justamente por causa do tom brejeiro e aparentemente jocoso, numa história que fala sobre tortura, experiências com cobaias e seres humanos, e da estupidez arrogante de certas teorias.

Nem o mais niilista autor do século XX chega aos pés do velho Machado em ironia e falta de sentimentalismo inatas. Tanto que, quando há uma solução de compromisso, de acordo com as expectativas do público (Machado publicava muito em jornais e revistas), ela soa bem mais falsa do que em outros autores, a nota dissonante é logo percebida (é o caso de A parasita azul e Miss Dollar, por exemplo).

O primeiro volume apresenta 21 contos, divididos em dois grupos: nove contos em que o grande Machado ainda está em gestação, e os doze contos, quase todos extraordinários, de Papéis avulsos (1882), a mais famosa coletânea do autor carioca. Estão lá O alienista, Dona Benedita, Na arca, Teoria do medalhão, O espelho, O segredo do bonzo. Quem já os leu sabe que são o ponto alto da nossa ficção. Contudo, de certa forma, é mais interessante fixar-se nos outros textos, os “imaturos”, para ver como se encontram elementos “machadianos” em experiência ainda informes, onde o gume não  foi devidamente afiado. Há até momentos fortes, como em Mariana, onde uma escrava se apaixona pelo seu sinhozinho. E há momentos do mais puro Machado de Assis, como no seguinte trecho de Miss Dollar, onde se comentam atitudes do personagem principal, Mendonça: “Aceitemo-lo com os seus ridículos; que os não tem? O ridículo é uma espécie de lastro da alma quando ela entra no mar da vida; algumas fazem toda a navegação sem outra espécie de carregamento”.

Se no primeiro volume acompanhamos,de uma maneira quase microscópica (e dentro dos limites de uma antologia, por mais ampla que seja), a transformação de Machado de Assis num grande escritor, no segundo volume nós vemos outra oscilação nos 54 contos, uma alternância entre a genialidade exercitando-se com plena força e o profissionalismo, que faz o texto ser interessante e muitas vezes divertidíssimo,  mas onde não lampeja aquele “algo” imponderável que está em contos como A igreja do Diabo, Singular ocorrência, Conto alexandrino, Capítulo dos chapéus, O enfermeiro, Galeria póstuma, Trina e uma (um texto magnífico, praticamente restaurado e estabelecido por Gledson), Missa do galo, A causa secreta, Um homem célebre e até o inusitado, em se tratando de Machado, Pai contra mãe, que trata com crueza do tema da escravidão (o qual ele “ensaiara” anos antes em contos como Mariana e Virginius). Na categoria de contos “profissionais” podem ser incluídos, por exemplo, Troca de datas, O lapso, Primas de Sapucaia, Médico e remédio. A inglesinha Barcelos, Um apólogo.

Com essa antologia, e também com a iniciativa da editora Ática de republicar integralmente os volumes de contos machadianos (os que ele selecionou em vida) na coleção “Bom Livro”[2], o leitor atual pode ter acesso a um universo fascinante. Houve já quem dissesse que bastaria ler Shakespeare para ter tudo o que se podia pedir e esperar da literatura. Nós, brasileiros, podemos dizer o mesmo de Machado de Assis.  Depois de ler essa antologia (que pode não representar a sua obra de contista como um todo, mas oferece ótima visão panorâmica do conjunto), qualquer outra coisa parece sem graça.


[1] Contos: uma antologia– 75 contos de Machado de Assis, numa caixa com dois volumes.

John Gledson tem dois livros fundamentais sobre Machado; “Ficção e História” e “Impostura e Realismo”, apesar de uma certa tendência à “superinterpretação”. Mas ninguém mais lê Memorial de Aires do mesmo jeito, depois de ler Gledson.

[2] A Martins Fontes ainda não iniciara na época dessa resenha sua maravilhosa reedição dos volumes de contos, para mim a melhor já feita até agora no país.

(LEIA TAMBÉM: https://armonte.wordpress.com/2012/12/02/pra-ingles-ver-primeira-parte-borges/

https://armonte.wordpress.com/2011/03/22/pra-ingles-ver-terceira-parte-entre-a-providencia-divina-e-os-comerciantes-britanicos/)

01/12/2012

O gume afiado do Machado e o realismo simbólico à Thomas Mann

(duas resenhas publicadas originalmente em A TRIBUNA de Santos,  a respeito do centenário de Esaú e Jacó, em 17 de fevereiro & 24 de fevereiro de 2004)

I-                   “O MELHOR É LER COM ATENÇÃO

Bem menos famoso e apreciado que a trilogia Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba  e Dom Casmurro, mesmo assim Esaú e Jacó atinge seu centenário como um dos grandes momentos da obra machadiana, um exercício superior de narrativa, sempre brincando de gato e rato com as expectativas do leitor-padrão de romances da época (principalmente o público feminino) e até o de hoje, mesmo no mundo pós-moderno, pois ele ainda continua se fiando na aparência da história, sem discussão ou desconfiança. Quando muito, acha-a chata, pois parece que “nada acontece”, quando tudo já aconteceu.

Por exemplo, interrompendo o fio da narração devido a alguns fatos contraditórios, esse reparo (entre os vários, ao longo do romance): “Um bom autor que inventasse a sua história, ou prezasse a lógica aparente dos acontecimentos, levaria o casal Santos a pé ou em caleça de praça ou de aluguel, mas eu, amigo, eu sei como as coisas se passaram, e refiro-as tais quais. Quando muito, explico-as, com a condição de que tal costume não pegue. Explicações comem tempo e papel, demoram a ação e acabam por enfadar. O melhor é ler com atenção”.

Além disso, temos um personagem maravilhoso, uma espécie de procurador ficcional do ceticismo compassivo alcançado pelo nosso maior autor, o Conselheiro Aires, que reaparecerá no cruel Memorial de Aires. Pela “Advertência” anteposta ao livro, parece que ele é o narrador. Porém, o mesmo processo de desdobramento e enfatização das dualidades da trama principal acontece aqui: distanciando-se de si mesmo, Aires sempre se vê de fora, de uma forma alusiva e irônica, que tanto narra quanto deixa a dúvida no ar. Veja-se o seguinte trecho, após um diálogo com Flora: “os bons diplomatas guardam o talento  de saber tudo o que lhes diz um rosto calado, e até o contrário. Aires fora diplomata excelente, apesar da aventura de Caracas[uma aventura sexual, relembrada anteriormente no romance], essa mesma lhe aguçou a vocação de descobrir e encobrir. Toda a diplomacia está nestes dois verbos parentes”.

Descobrir e encobrir, eis a grande arte de Esaú e Jacó: tudo é aparentemente muito simples, temos dois gêmeos, Pedro e Paulo, um monarquista, o outro republicano, ambos amando a mesma moça, Flora, que, dilacerada pela sua indecisão em optar ou pelo cauteloso e dissimulado Pedro ou pelo impulsivo e truculento Paulo, acaba morrendo, apesar da intervenção benigna do Conselheiro Aires, o qual, na sua juventude, mantivera uma paixão discreta pela mãe dos gêmeos, Natividade. Esse triângulo amoroso acontece justamente na passagem da Monarquia para a República, que afeta a carreira do pai de Flora, um político medíocre que tem de passar por liberal para se manter na ativa durante o período republicano (este, no entanto, se mostra muito pouco liberal). Diga-se de passagem, os personagens secundários, como esse pai, Batista, ou sua mulher, d. Cláudia, são daqueles que roubam a cena.

Uma leitura do romance poderia ser a alegórica: os gêmeos abraçando cada qual um regime político diferente demonstrariam figuradamente a semelhança e continuidade mesmo na aparente mudança. Machado vai mais longe ao mostrar esse embate pelo viés oblíquo de outras personagens, como a mãe, Natividade, ou o Conselheiro Aires, e principalmente a ambígua Flora. Dessa forma, mais do que um momento da nossa história (embora haja cenas inesquecíveis como a angústia do dono da confeitaria que fica na dúvida se mantém ou não o título Confeitaria do Império) surpreendemos, como em Shakespeare, as contradições inelutáveis da condição humana, aquelas que nos mantêm insatisfeitos e presas de paixões e obsessões.

 

II-                REALISMO SIM, MAS SIMBÓLICO

 

“Natividade confiava na educação, mas a educação por mais que ela a apenas quebrava as arestas ao caráter dos pequenos, o essencial ficava, as paixões embrionárias trabalhavam por viver, crescer, romper, tais quais ela sentira os dois no próprio seio, durante a gestação…”

Na época da publicação (1904) do agora centenário Esaú e Jacó, o Naturalismo (na sua faceta mais pobre) dominava a cena da ficção brasileira, como uma espécie de rebento bastardo do folhetinismo romântico; nele, se operava a suprema degradação da substância humana: em meio ao materialismo triunfante, as verdadeiras motivações do ser humano residiam no biológico, no instintivo e no fardo hereditário. Portanto, as tramas fundamentavam-se no atavismo.

A citação de abertura poderia indicar que Machado de Assis seguiu o Zeitgeist, o espírito do seu tempo, na história dos gêmeos Pedro e Paulo, opostos em tudo, e que se apaixonam pela mesma garota, Flora, tal como fez num conto publicado dois anos depois, “Pai contra Mãe” (de Relíquias de Casa Velha). Entretanto, Machado fez mesmo foi antecipar um dos procedimentos mais marcantes do Alto Modernismo (que tem em Joyce,  Proust, Faulkner, Mann, Guimarães Rosa, alguns dos seus principais representantes):  o realismo simbólico ou mitológico.  Ou seja, o mundo inteiro é dessacralizado, os valores são burgueses e capitalistas, e ainda assim os grandes escritores reencontram os velhos mitos e fazem com que eles recirculem  em meio ao quotidiano trivial e efêmero.

É assim que Joyce foi buscar na Odisséia homérica a moldura para contar um dia na vida de Dublin em Ulisses. E é assim que Machado procurou na Bíblia (e em outros desdobramentos mitológicos, como a lenda de Castor e Pólux) a matriz da sua ambígua alegoria da passagem da Monarquia para a República, além de restaurar os signos do Destino (oráculos, profecias), tão comuns na mitologia clássica. Veja-se a facilidade e perícia (às vezes até excessiva) com que o narrador salta do universo burguês para os primórdios do teatro do mundo: “Daí a pouco, Santos pegou na mão da mulher, que a deixou ir à toa, sem apertar a dele; ambos fitavam os meninos, tendo esquecido a zanga para só ficarem pais. Já não era espiritismo, nem outra religião nova, era a mais velha de todas, fundada por Adão e Eva…” É nesse sentido que, na seção anterior, comparou-se Machado de Assis e Shakespeare, na capacidade de superar o registro histórico e detectar o que é constante no ser humano e que ultrapassa modas ou gêneros literários.

E em 1904 Machado já estava num nível de percepção (e elaboração) de linguagem que um Thomas Mann atingiria anos depois, como no excepcional capítulo “A grande noite”, um momento de delírio de Flora, na sua inútil tentativa de conciliar numa só figura os dois gêmeos (um “cá”, outro “lá”): “Unicamente –e aqui toco o ponto escabroso do capítulo—achou cá alguma coisa indefinível que não sentira lá; em compensação sentia lá outra coisa que não se lhe deparou cá. Indefinível, não esqueças. E escabroso porque nada há pior que falar de sensações sem nome. Crede-me, amigo meu,e tu, não menos, amiga minha, crede-me que eu preferia contar as rendas do roupão da moça, os cabelos apanhados atrás, os fios do tapete, as tábuas do teto e por fim os estalinhos da lamparina que vai morrendo… Seria enfadonho, mas entendia-se”. Como o autor de A montanha mágica (1924) amaria esse: “E escabroso porque nada há pior que falar de sensações sem nome”!, assim como um Henry James não desdenharia jamais de escrever uma novela como Casa Velha (1885).

Flora, aliás, é uma das muitas vítimas de herdeiros mimados e improdutivos que abundam na obra machadiana, como as agregadas da fase anterior (Helena, a Lalau de Casa Velha) e até mesmo aquelas que conseguem se tornar esposas, como Guiomar, de A mão e a luva, e Capitu, de Dom Casmurro (esta, com os resultados que conhecemos).

Só resta lamentar, que à exceção da Garnier e da Nova Fronteira, que nem são tão recentes assim, não haja nenhuma edição não-paradidática moderna e satisfatória disponível no centenário de uma das nossas maiores obras literárias.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-a-luva-de-pelica-a-jane-austen/

O gume afiado do Machado e a luva de pelica à Jane Austen

DO BAÚ DE SURPRESAS DO VELHO MACHADO

 resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 04 de março de 1997

Que Machado de Assis seja o maior escritor brasileiro todo mundo tem ciência. De vez em quando, no entanto, é bom lembrar, para que ele não fique como um baú velho esquecido, ou sofrendo eternamente o inferno astral didático a que o condenaram, como leitura chata e obrigatória “porque cai no vestibular”. Nesse sentido, é louvável que a Globo coloque em circulação novamente suas Obras Completas (numa edição de banca, onde a qualidade do papel deixa muito a desejar, apesar da feliz escolha da linha de capas), iniciando com Dom Casmurro (1899) e A mão e a luva (1874). Por conta desse lançamento, resolvi reler, após muito tempo, o segundo.

Leitura de colégio, livro água-com-açúcar, trama insípida, romance menor da fase romântica de um escritor realista genial, que ainda não alcançara seu estilo. Eram esses os clichês mentais que etiquetavam esse segundo romance de Machado (o primeiro foi Ressurreição, 1872). A conclusão inevitável era que não valia a pena perder muito tempo com ele, que só tinha valor histórico ou, então, para especialistas.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que é um prazer ler A mão e a luva, um livro ironicamente malicioso, onde o romantismo é equacionado pela perversidade machadiana, a qual só não pode se expandir mais porque tem de alimentar as aparências folhetinescas. É lógico que, na comparação com Dom Casmurro, apresenta deficiências gritantes, em particular o descompasso entre a ironia elegante do estilo e o conformismo, para não dizer oportunismo, que parece ser a base filosófica da trama. Digamos de maneira melhor: Machado de Assis ainda não é o dono de todos os seus recursos. Mas já é bem Machado de Assis.

O enredo é simples. Guiomar é uma moça pobre, agregada à casa de uma Baronesa, e que de certa forma substitui a filha que a dama perdera. A Baronesa deseja que Guiomar case com seu sobrinho, Jorge. Ela, porém, o despreza por ser um inútil enfatuado, assim como despreza o romântico e pueril Estevão, seu primeiro pretendente na narrativa. Aliás, a primeira cena do livro é a revelação do amor de Estevão por Guiomar a seu melhor amigo, Luís Alves, cuja chácara é vizinha à da Baronesa. Bem, então quem fica com quem? Luís Alves e Guiomar descobrem que se amam, para desgosto de Estevão e do pessoal da chácara da Baronesa, que conspirava para aproximar Guiomar do herdeiro.

A mão e a luva poderia parecer um romance de Joaquim Manuel  A moreninha de Macedo não fosse o temperamento decididamente anti-romântico do velho Machado. Não é à toa que ele começa e quase termina o romance com Estevão, pois ridiculariza a cada momento o exagero romântico. Guiomar e Luís Alves são caracterizados como “ambiciosos”, malgrado o bom caráter, e Guiomar tem artes de dissimulação que já antecipam as atitudes de Capitu em Dom Casmurro, comportamento absolutamente compreensível devido à sua condição de agregada. Tanto é assim que A mão e a luva seria uma das provas mais importantes num processo que se resolvesse a comprovar o adultério da esposa de Bentinho. Capitu seria uma Guiomar que houvesse casado com um Estevão mais abastado, e acabasse preferindo extra-conjugalmente um Luís Alves mais arrivista.

É instigante encontrar já em plena ação o gume afiado do machado. Todos sabem que o autor de Quincas Borba foi leitor do inglês Laurence Sterne, autor de Tristram Shandy. Na história de Guiomar e Luís Alves parece, entretanto, haver a mão (e a luva de pelica) de Jane Austen.

É particularmente digno de nota o fato de que, ao contrário das intrigas românticas grandiloqüentes (como a de Senhora, por exemplo), e bem dentro do espírito da autora de Emma, os obstáculos à união do casal central aparecem numa trivial conspiração doméstica (orquestrada, em A mão e a luva,por uma dama de companhia inglesa, mrs. Oswald). Doméstica, pequena, abafada. Trivial, em suma. E esplendidamente caracterizada, pois no conflito entre a situação de favor e a vontade pessoal, aparece o cálculo, que desestabiliza a balança romântica.

Já aparecem as famosas “teorias” que avultam no universo machadiano, como a teoria de Luís Alves sobre o amor: “O amor é uma carta, mais ou menos longa, escrita em papel velino, corte-dourado, muito cheiroso e catita; carta de parabéns quando se lê, carta de pêsames quando se acaba de ler”. Há a costumeira “conversa” com o leitor: “Não será preciso dizer a um leitor arguto e de boa vontade… Oh! sobretudo de boa vontade, porque é mister havê-la, e muita, para vir até aqui, e seguir até o fim, uma história como esta, em que o autor mais se ocupa de desenhar um ou dois caracteres, e de expor alguns sentimentos humanos, que de outra qualquer coisa, porque outra coisa não se animaria a fazer…” E há, acima de tudo, a incomparável agudeza na análise do comportamento humano, como no momento da escolha do marido, em que Guiomar, preferindo Luís Alves,diz o nome do sobrinho da Baronesa, e esta percebe que ela não o ama: “A moça não queria iludir a Baronesa, mas traduzir-lhe infielmente a voz de seu coração, para que a madrinha conferisse, por si mesma, a tradução com o original. Havia nisto um pouco de meio indireto, de tática, de afetação, estou quase a dizer de hipocrisia, se não tomassem à má parte o vocábulo. Havia, mas isto mesmo lhes dirá que Guiomar, sem perder as excelências de seu coração, era do barro comum de que Deus fez a nossa pouca sincera humanidade; e lhes direi também que, apesar de seus verdes anos, ela compreendia já  que as aparências de um sacrifício valem mais, muita vez, do que o próprio sacrifício”.

Os livros de Jane Austen estão ultimamente sendo redescobertos pelo público. O mesmo poderia acontecer, fora do âmbito escolar (e dos meios acadêmicos), com os de Machado de Assis que, muito mais do que uma caixinha de surpresas, é um baú da felicidade para qualquer apaixonado por ficção e literatura.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-o-realismo-simbolico-a-thomas-mann/

30/11/2012

Machado quintessencial: a contística do bruxo

Machado de Assis - Ivárias

 SOBRE CONTOS MACHADIANOS VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/02/pra-ingles-ver-segunda-parte-machado/

SOBRE ROMANCES MACHADIANOS:

https://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-o-realismo-simbolico-a-thomas-mann/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/01/o-gume-afiado-do-machado-e-a-luva-de-pelica-a-jane-austen/

I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de abril de 2005)

Machado de Assis vinha sendo sistematicamente maltratado por edições horríveis das suas obras. Era muito difícil encontrar alguma obra individual, principalmente as reuniões de contos, que não fosse preparada com fins paradidáticos ou que não merecesse um tratamento editorial inferior (estamos falando aqui de capas, diagramação etc), de causar desgosto.

Algumas editoras, como a Ateliê e a Martins Fontes, estão mudando esse panorama. A última acaba de publicar a mais decente edição já vista por quem assina esta coluna, de Várias histórias (1896), uma das três coletâneas machadianas fenomenais (junto com Papéis avulsos e Histórias sem data), por serem mais coesas, sem o caráter de miscelânea de que se ressentem, por exemplo, Páginas recolhidas e Relíquias de casa velha).

O quilate de Várias histórias pode ser avaliado pelo seguinte fato: quando John Gledson, o inglês que tem ajudado os brasileiros a entender melhor a obra de nosso maior escritor, preparou (em 1998) uma antologia de 75 contos para a Companhia das Letras, ele só excluiu dois dos dezesseis que o integram: Mariana (aparece ali outro conto com esse título, mais antigo) e, injustamente, o delicioso O cônego ou A metafísica do estilo, a história do encontro amoroso difícil entre um substantivo e um adjetivo em meio ao ato de escrever um sermão, além de ser uma intuição formidável dos processos de associação da mente: “ Grupos de ideias, deduzindo-se à maneira de silogismos, perdem-se no tumulto de reminiscências  da infância e do seminário. Outras ideias, grávidas de ideias, arrastam-se pesadamente, amparadas por outras ideias virgens. Coisas e homens amalgamam-se, Platão traz os óculos de um escrivão da câmara eclesiástica…memórias  pias e familiares cruzam-se e confundem-se. Cá estão as vozes remotas da primeira missa, cá estão as cantigas da roça que ele ouvia cantar às pretas, em casa, farrapos de sensações esvaídas, aqui um medo, ali um gosto, acolá um fastio de cousas que vieram cada uma por sua vez, e que ora jazem na grande unidade impalpável e obscura…”

   E qual seria o improvável melhor momento nesse mundo de melhores momentos, nessa experimentação incessante de formas de narrar? Seria Entre santos, no qual se flagra a conversa noturna dos santos de uma igreja, “terríveis psicólogos… desfibravam os sentimentos de cada um, como os anatomistas escalpelam um cadáver”, a respeito dos fiéis do dia?

Ou seria O enfermeiro, onde após assassinar involuntariamente seu paciente, o protagonista herda sua fortuna e o remorso progressivamente esvai-se na razão direta em que desfruta do imenso legado? Seria Uns braços, história de um menino de 15 anos, agregado à casa de um irascível comerciante e que fica fascinado com os braços da mulher do patrão, numa das melhores representações da imaginação erótica já escritas (e mais um flerte com o adultério na obra machadiana) ?

Seria A causa secreta, onde um filantropo se revela um sádico, capaz de saborear até as reações de dor de um apaixonado por sua mulher (e que poderia ter sido seu amante) diante do caixão dela? Seria Trio em lá menor, no qual a protagonista antecipa a Flora de Esaú e Jacó ao não se decidir entre dois homens, ficando satisfeita apenas quando os funde em sua mente? Seria Um homem célebre, em que um talentoso compositor de polcas vive insatisfeito por não compor música “séria”, um belo exemplo de alienação de um artista afinado com a arte de seu país e tentando, no entanto, ser “outra coisa” para a qual não nasceu (e esse texto é muito revelador a respeito do próprio autor, um dos primeiros profissionais da escrita que tivemos).

São, todos eles, contos famosíssimos. Há outros nem tão conhecidos, mas bárbaros (Dona Paula, por exemplo). E há outros, conhecidos de sobejo, e que causam certo fastio por terem sido tantas vezes incluídos em antologias escolares, e nem sempre pelos melhores motivos (pois havia o mito de Machado como exemplo do “belo escrever”, do estilo escorreito). É o caso de Um apólogo, de Conto de escola e, um pouco menos, de A cartomante, o qual, numa releitura, se revela  um modelo de perfeição e um texto perturbador. Como diz o preparador da edição (Hélio de Seixas Guimarães), muito bem comparando A cartomante  e Entre santos, “o contista deixa claro que nada será poupado, nem o ceticismo do cético, nem a crença do crente…”

avulsos papeis

II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de dezembro de 2005)

Leio todos os anos os três principais romances (Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba & Dom Casmurro) de Machado de Assis, e sua coletânea de contos Papéis avulsos. Em 2005, não houve motivo para queixas quanto a essa última, a qual finalmente ganhou uma edição recente (pela Martins Fontes) digna da sua importância.

Publicada em 1881, é composta por 12 textos, todos eles especiais, alguns indispensáveis, caso de O alienista: se a língua portuguesa tivesse maior divulgação, ele seria tão famoso e comentado quanto as maiores obras-primas do século XIX. A história do médico Simão Bacamarte, que obtém o poder de trancafiar qualquer um no seu hospício, a Casa Verde, desde que julgasse que a pessoa pudesse apresentar um mínimo sintoma de perturbação mental, e com isso aterroriza a Vila de Itaguaí (pois de perto ninguém é normal), faria inveja ao Foucault que denunciou o controle social embutido no conceito de “loucura”.

Machado desmonta toda a autoridade opressiva que a ciência e a razão adquiriram a partir da Revolução Francesa e também os mais diversos tipos de retórica pomposa e vazia, incluindo aí o Romantismo aguado e reles que tanto sucesso fez (e faz) aqui no Brasil. Por isso, entre os muitos episódios deliciosos, talvez nenhum seja tão mordaz (tirando o final, é claro) como aquele em que Martim Brito, candidato provinciano a D. Juan, declama um discurso enaltecendo a insossa esposa do alienista, “em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. Deus, disse ele, depois de dar ao universo o homem e a mulher… Deus quis vencer a Deus e criou D. Evarista”. Reação do marido: “Trata-se de um caso de lesão cerebral, fenômeno sem gravidade, mas digno de estudo”; e lá acaba o orador peralvilho na temível Casa Verde, para desgosto da senhora  alvo do elogio.

O alienista é insuperável, mas tem também Teoria do medalhão, aquele famoso diálogo entre pai e filho, que explica o comportamento dos nossos políticos (as Tvs Senado e Câmara mostram a aplicação da teoria diariamente); tem o magnífico Dona Benedita, que já começa com uma frase maliciosa (“A coisa mais difícil do mundo, depois do ofício de governar, seria dizer a idade exata de D. Benedita”) e que poderia ser o equivalente feminino de Brás Cubas no estudo da superficialmente simpática, mas no fundo revoltante, volubilidade da alta burguesia brasileira. E que final genial, com o aparecimento da Fada Veleidade, que presidiu o nascimento da heroína!

Há o inquietante O espelho, que acabou desafiando Guimarães Rosa a criar outra obra-prima com a mesma temática: o protagonista só tem certeza da sua identidade e existência vestindo a personagem, por assim dizer. Solitário, abandonada, só a sua farda, vestida frente ao espelho, garante-lhe o sentimento de estar no mundo e ser alguém.

E a “realidade” moldada pela propaganda, pelo apelo publicitário, pela opinião pública, é, com incrível poder de antevisão, dissecada no impagável e mortífero O segredo do bonzo: “Se puserdes as mais sublimes virtudes e os mais profundos conhecimentos em um sujeito solitário, remoto de todo contato com os homens, é como se eles não existissem”.

Deus quis vencer Deus e, sendo brasileiro, criou Machado de Assis, Que sorte a nossa!

capa mais recente

III

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de setembro de 2008)

Só faltavam Páginas Recolhidas e Relíquias de Casa Velha para a Martins Fontes completar sua edição das sete coletâneas de Machado de Assis. Ela agora os lança num só volume, no qual Marta de Senna adotou um ousado (e bastante acertado) critério: reproduzir apenas os contos e sacrificar o feitio de “miscelânea” que os caracterizava originalmente.

Em 1899, momento de Páginas Recolhidas, Machado estava no pleno domínio do seu gênio, tanto que lançaria no final desse ano (e do século) Dom Casmurro; ao mesmo tempo ele tinha o seu lado “Academia Brasileira de Múmias”, que infelizmente ele fundara dois anos antes, portanto estava impregnado do horrível compadrio de literatos medíocres, que o fez achar talvez insuficientes os oito contos que escolheu na sua prolífica produção, e acrescentar evocações do Império, uma peça chinfrim, crônicas imemoráveis e, pior que tudo, um discurso por ocasião do lançamento da pedra fundamental de uma estátua de José de Alencar (aliás, Machado protegeu o filho dele, Mário de Alencar, com um afinco que o levou a cometer graves injustiças literárias). Que bom é às vezes o desrespeito à memória. Se a Universidade e a crítica adotassem atitudes como essa, e não uma veneração supersticiosa que nivela as obras-primas e a cartilha de beabá dos escritores, seríamos poupados de muita porcaria. Pois o que emerge da “limpa” realizada por Marta de Senna é o que realmente importa, mesmo que nos últimos tempos queiram nos convencer de que a crônica machadiana é o máximo e atingiu os píncaros da percepção e acuidade (leitor:dê preferência ao nosso supremo criador literário, que também é um mestre na arte de contar histórias especiosas, se não daqui a pouco teremos textos circunstanciais suplantando sua ficção).

É em Páginas Recolhidas que encontramos Missa do Galo, o equivalente miniaturesco de Dom Casmurro em narração enganosa e maliciosa, na história da tentativa de sedução de um adolescente, evocada (e fantasiada?) por ele anos depois; igualmente perfeito é O Caso da Vara, mais uma prova da miopia dos que acham Machado um escritor alienado dos problemas sociais. São dois textos assombrosos: parece não haver uma palavra a mais ou a menos. Um Erradio não fica muito atrás, ao satirizar as febres de inspiração literária que acometem a juventude (principalmente num país de “emoção fácil” como o nosso), e a facilidade da acomodação à vida burguesa e “prosaica”. Lendo sob o prisma da aparente “acomodação” do próprio Machado, ele se torna mais fascinante ainda. Já Eterno!, além de ser um dos melhores contos “profissionais” e brejeiros da produção machadiana tardia, ainda foi parafraseado num grande poema de Carlos Drummond de Andrade. E há o fulminante Papéis Velhos em que o parlamentar preterido para um ministério pensa em abdicar da vida pública, mas o desenrolar da narrativa vai dissuadi-lo de uma forma que é uma mortífera anatomia do nosso gênero de políticos. Os outros quatro não fazem feio (principalmente Idéias de Canário), mas esses são as jóias da coroa.

 

machado-de-assis1-300x288páginaspapeis

IV 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de setembro de 2008)      

“Preguiça amamenta muita virtude”.

Frases como essa fazem as delícias dos apaixonados por Machado de Assis. No ano da sua morte, ele publicara seu último romance, Memorial de Aires, risivelmente tomado por muitos como uma espécie de “reconciliação com a vida”, escrito num tom mais compassivo e benévolo. O autor deste artigo pensa justamente o contrário, e acha Machado mais perverso ainda por trazer sua corrosividade disfarçada de um modo ainda mais sutil e enigmático do que qualquer uma de suas experiências ficcionais anteriores.

A citação de abertura pertence a Marcha Fúnebre, um dos cinco contos da sua derradeira coletânea, Relíquias de Casa Velha (1906), que ainda não tinham sido publicados na imprensa. Entre eles, encontram-se os dois melhores textos curtos dessa fase final da sua produção: o impactante e inesperado Pai contra Mãe, um dos raros momentos não enviesados em que ele apresenta a escravidão, numa situação brutalmente dramática, e um dos poucos entre os nove textos que não apresenta um tom cansado, saturado de profissionalismo e maneirismo, em que as obsessões machadianas já estão vazadas num molde já “de mestre”, sem o vigor de outrora; e, bem no meio, dividindo a seleção, Suje-se Gordo (ou seja, cometa um crime de monta, não um reles, café pequeno), súmula brilhante da sua preocupação com a desfaçatez imoral com que a sociedade brasileira é conduzida desde sempre; e, seguindo a mesma linha (e o melhor entre os não-inéditos) Evolução (de uma safra mais antiga e forte, 1884), que mostra um sujeito que se apropria das opiniões e concepções alheias.

Quem já conheceu alguém assim (é o caso de quem assina esta coluna) se delicia particularmente, como na passagem em que se descreve a volúpia de Benedito com os clichês protocolares do parlamento (fáceis de serem surrupiados): “Saboreava-os tanto que eu não sei se ele aceitaria jamais a liberdade real sem aquele aparelho verbal; creio que não. Creio até que, se tivesse de optar, optaria por essas formas curtas, tão cômodas, algumas lindas, outras sonoras, todas axiomáticas, que não forçam a reflexão, preenchem os vazios, e deixam a gente em paz com Deus e os homens.

Aqui Machado está muito mais afiado do que nas graças já requentadas e quase preguiçosas de Marcha Fúnebre (embora sempre cintile o gume de uma frase perfeita aqui e ali): “Quando rezava, ao levantar da cama, o Padre Nosso, não imitava um de seus amigos que rezava a mesma prece, sem todavia perdoar aos devedores, como dizia de língua; chegava a cobrar além do que eles lhe deviam…” Nem parece um texto que começa tão fulminante: “O deputado Cordovil viera cedo do Cassino Fluminense… e durante o baile não tivera o mínimo incômodo moral nem físico. Ao contrário, a noite foi excelente; tão excelente que um inimigo seu, que padecia do coração, faleceu antes das dez horas, e a notícia chegou ao Cassino pouco depois das onze”.  É esse o Machado que não morreu em 29 de setembro de 1908 e jamais morrerá.

 

casa velha 2várias 2

 

machado-de-assis-12

27/04/2012

LINHAS TORTAS E TRÔPEGAS (O MAISTRE DE MACHADO)

“… raramente percorro uma linha reta…”  Ao escrever Viagens no scriptorium (Companhia das Letras, ver o post A austeridado do acaso aqui neste blog), Paul Auster, especialista em literatura francesa, não poderia obliterar a lembrança do clássico  Viagem ao redor do meu quarto (1794), o texto paradigmático na paradoxal junção da aventura e do sedentarismo. Tirando esse aspecto, evidenciado pelo título, Auster parece bem distante do universo de Xavier de Maistre, cujo livro — na tradução de Armindo Trevisan — tem  edição ainda em catálogo pela Mercado Aberto (há uma insuperável versão de Marques Rebelo, saborosamente intitulada Viagem à roda do meu quarto).

Viagem ao redor do meu quarto tem como pretexto o confinamento do narrador,  em Turim, por conta de um duelo, durante 42 dias (o número de capítulos): “Proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo inteiro: a imensidade e a eternidade estão às minhas ordens”. Essa reclusão acarretada por um episódio passional reflete uma situação existencial mais precária: de origem nobre, ele é um trânsfuga da Revolução Francesa. Restaram-lhe os prazeres de um egotismo caprichoso e errático, que muito influenciará o defunto narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Aliás, se Xavier de Maistre imitou o maravilhoso Tristram Shandy, de Laurence Sterne, Machado de Assis o imitaria em indisfarçáveis aspectos: a conversa constante com o leitor, os capítulos curtíssimos, a metalinguagem, as digressões, o uso satírico de teorias filosóficas (depois de anunciar um “sistema do mundo”, ele o apresenta num capítulo de três linhas, dizendo no que se segue: “…devo confessar de boa fé que não compreendo o meu sistema melhor do que todos os outros nascidos até hoje da imaginação dos filósofos, antigos e modernos; mas o meu tem a vantagem preciosa de estar contido em três linhas, por enorme que seja”) a galhofa alternando com a melancolia, a desfaçatez de classe para o julgamento das coisas do mundo (só alguém muito privilegiado poderia escrever: “E haverá, com efeito, algum ente tão infeliz, tão abandonado, que não tenha um reduto para onde possa retirar-se e esconder-se de todo mundo?”); ou seja, nesse clima de volubilidade e misantropia (misturada ao mundanismo: “não quero ser eremita senão de manhã; á noite, gosto de tornar a ver caras humanas. Os inconvenientes da vida social e os da solidão destroem-se assim mutuamente…”), pouco restou do tom essencialmente benigno e equânime, ainda que jocoso, da obra-prima de Sterne, possivelmente a maior narrativa do século XVIII. O texto é mais enxuto, menos prolixo, porém estamos num universo  rarefeito, seco e árido,  já a um passo da “volúpia do nada” pós-schopenhauriana experimentada pelo “herói” machadiano, e a léguas do talento abissal do nosso maior escritor.

Por isso, apesar do charme do texto, há uma reserva que persiste na leitura de Viagem ao redor do meu quarto (e da sua continuação, publicada em 1824, em pleno Romantismo, Expedição noturna ao redor do meu quarto).

O que não se pode negar é que de Maistre conseguiu o feito de alargar as fronteiras da literatura, trazendo o mundo da intimidade pessoal e a falta de intriga folhetinesca para o centro da narrativa, na exploração do seu quarto por 42 dias e no decorrer de uma noite (a “nova maneira de viajar que introduzo no mundo”). E há sempre as observações, se não exatamente sábias, certamente lapidares: “Não gosto das pessoas que são tão donas dos seus passos e das suas idéias, que dizem: ‘Hoje eu farei três visitas, escreverei quatro cartas, terminarei esta obra que comecei’. Minha alma é de tal modo aberta a toda sorte de idéias, de gostos e de sentimentos; recebe tão avidamente tudo o que se lhe apresenta!… Não há  gozo mais atraente, no meu entender, do que o de seguir a pista das próprias idéias…”

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 24 de março de 2007, de forma ligeiramente modificada)

21/04/2012

Mais uma vez: Com que roupa?

(Eis outro texto que pertence ao material do meu curso AS MARGENS DERRADEIRAS, de 2008, sobre a ficção curta do século XIX)

“As almas não tomam a forma de roupas.”

                (Joseph Conrad, Sob os olhos do Ocidente, 1911)

“Eu trazia uma túnica de brocado azul abotoada ao lado, com o peitilho ricamente bordado de dragões e flores de ouro…as calças de cetim cor de avelã descobriam ricas babuchas amarelas pespontadas a pérolas…E, pelas misteriosas correlações com que o vestuário influencia o caráter, eu sentia já em mim idéias, instintos chineses: o amor dos cerimoniais meticulosos, o respeito burocrático das fórmulas, uma ponta de ceticismo letrado, e também um abjeto terror do Imperador, o ódio ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o gosto das cousas açucaradas… Alma e ventre era já totalmente um mandarim. Não disse bonjour à Generala. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o chin-chin…”

(Eça, O mandarim)

         Já vimos, com O capote, uma roupa “fazer” um homem (até no Além). Como a ficção do final de século viu esse problema? Aproveitando o gancho da passagem citada do texto de Eça, examinemos rapidamente duas obras-primas do conto, O espelho, de Machado de Assis, & A vida privada, de Henry James.

O espelho foi escrito, publicado na imprensa e depois incorporado à coletânea Papéis avulsos, tudo em 1882. É um dos melhores de Machado e traz uma atmosfera praticamente inédita na nossa literatura até então. Tem um daqueles subtítulos muito peculiares em Machado (e correntes na ficção do século XIX), que sempre brincava com teorias filosóficas e científicas: “Esboço de uma nova teoria da alma humana” .

Nos textos que vimos, não faltaram espelhos, é só lembrar o espelho que foi levado para o laboratório do Dr. Jekyll e acompanhou até o fim suas transformações, ou o clímax de William Wilson num salão de espelhos (e em A morte de Ivan Ilitch, a partir de certa altura, há uma rejeição do espelho). O espelho acompanha nosso sentimento de identidade, de unidade em forma e percepção dessa identidade. O que, como sabemos, é mera aparência.

A moldura narrativa de O espelho já é interessante por si mesma, porque é muito parecida com as que Henry James utiliza em certas histórias, a mais famosa das quais justamente A volta do parafuso (em A máquina do tempo, H.G. Wells também se vale do mesmo recurso): colocar uma reunião mundana como início da narração, com os participantes discutindo um assunto e um narrador tomando a palavra e nos levando ao centro da trama propriamente dita: Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam… estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo. Por que quatro ou cinco? Rigorosamente, eram quatro os que falavam…” Ou seja, há um primeiro narrador, ou para utilizar pedantescamente a teoria literária, uma primeira instância narrativa, que logo vai realçar a presença do quinto personagem, homem com a mesma idade dos companheiros, entre 40 e 50 anos, provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico”. Seu nome: Jacobina. Esse “casmurro” só usa da palavra já avançada a noite, “e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta a partir do momento em que a discussão recai sobre a “natureza da alma”.

Jacobina, então, se torna o narrador (um narrador “em diálogo”, um efeito muito interessante), ao lançar a teoria (demonstrada claramente por um caso de sua vida, é o que afirma) de que “não há uma só alma, há duas. Ele não quer ser interrompido, portanto o registro comporta diálogo e conversação e monólogo, em suas poucas páginas.

Para Jacobina, Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro…A alma exterior pode ser um espírito, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior da pessoa. Metafisicamente, o homem é uma laranja (até aqui tudo tem um aspecto quase paródico, de salão, um tom mundano e refestelado, de atmosfera condescendente que exala uma reunião de pessoas bem-sucedidas).

Jacobina conta então que aos 25 anos era pobre, morava numa pequena vila, e fora nomeado alferes da guarda nacional, um acontecimento em sua casa e entre a parentada, todos orgulhosos dele (embora ele despertasse inveja e despeito de alguns rapazes). Uma de suas tias, D. Marcolina, viúva e morando a muitas léguas num sítio isolado, desejou vê-lo, e pediu que a visitasse e levasse a farda. Quando lá chega, a tia deseja retê-lo por um mês, pelo menos. A descrição do comportamento da tia dá trela à imaginação de um malicioso, o que não é o meu caso, bem entendido: “E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher”. Ela não queria chamá-lo senão de “senhor alferes”: “Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples…Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que a comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a Corte de D. João VI. Não o que havia nisso de verdade; era a tradição”. Portanto, temos a conjunção de coisas prestigiadas: o posto de alferes (simbolizado pela farda) e o espelho, ao qual a tradição (não necessariamente verdadeira) aureolara com uma linhagem, um pedigree, apesar dos maltratos do tempo: “estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, nos delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom… era a melhor peça da casa.

A adulação e as finezas da tia e de seus agregados, os obséquios, o espelho enfim (isto é, todas as operações da vaidade que trazem à tona a onipotência narcisista, porém creio que as operações psíquicas freudianas pouco têm a fazer aqui no seu sentido estrito: Machado trata de forma mais social, perversamente social, a questão da identidade), operam o seguinte fenômeno: “O alferes eliminou o homem. A farda se torna então sua alma externa: “No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes.” Um ego social, construído pelo olhar dos outros.

Nesse ínterim, uma das filhas da tia adoece a cinco léguas dali e a mãe extremosa viaja para cuida dela, deixando o senhor alferes sozinho com os poucos escravos da casa, o que causa ele um sentimento de opressão: Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil”. Continua adulado pelos escravos (“Nhô Alferes”), adulado até demais. Eles estão disfarçando uma fuga coletiva, que afinal se efetiva. E aí Jacobina fica realmente só: Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhas tão somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Mesmo os cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano”. Repare-se na corrosiva crueldade machadiana nesse par de mulas que filosofavam a vida sacudindo moscas, uma atividade maquinal caracterizada por um verbo “nobre” e eminentemente “antropológico”.

Desnorteado, sem saber bem o que fazer, ele resolve permanecer ali, “tomando conta da casa”. Durante o resto da semana ninguém aparece ou volta: “Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade”. Eis um que não nasceu para Robinson Crusoé, para ser náufrago do seu ego social afagado e que o retirara da zé ninguenzice de rapazote de uma vila qualquer: E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Com ninguém por perto, só lhe resta o tempo, a pura passagem do tempo, a identidade sem o elemento que a forma (o olhar), que a torna possível e viável, e na noite aprofunda-se o cochicho do nada, que é pior que o medo. Só o sono o alivia, por libertar a alma interior. Na vigília: Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava.Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode, não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como a tia Marcolina, deixava-se estar… Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel… Recitava  discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia de trinta volumes.”  Como se vê, uma cultura decorada, aprendida num sentido decorativo, incapaz de auxiliar uma vida interior que, como a tia Marcolina, deixava-se estar. Fenomenologistas fariam a festa com trechos em que os objetos gritam sua existência na mais ofuscante evidência: negreja a tinta e alveja o papel!

Ginástica, beliscões nas pernas, dor ou cansaço, tudo esbarra no silêncio vasto, enorme, infinito, sublinhado pelo tic-tac. O silêncio é a passagem do tempo evidenciada. Finalmente, ocorre-lhe o espelho. Não olhara para ele desde que ficara só: “Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária”. Enfim ele supera o receio: Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra…levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgarçado, mutilado…De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho: a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos”. É claro, pois ele está vendo o Joãozinho, o rapazote da vila insignificante, sem o menor galardão social: um zero à esquerda, disperso, esgarçado, difuso, esfumado, “feições derramadas e inacabadas”

Vem a inspiração: vestir a farda de “senhor alferes”, vestir a personagem (releiam a epígrafe de Joyce, concernente à parte que escrevi sobre O capote), deixar o Joãozinho de lado: levantei os olhos e… não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos [olhem que analogia maravilhosa; em Machado, o psicológico é sempre social], ei-la recolhida no espelho.Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver… Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado”.  Ele ritualiza o evento: a cada dia, a uma certa hora, veste-se de alferes e fica diante do espelho, lendo, olhando, meditando, por duas ou três horas: “Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir” . Reinstalado na identidade social, deixou de sentir o puro tempo (e a narrativa termina abruptamente, num golpe teatral, com a instância primeira da narrativa retomando a palavra: Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas”).

Antes de comentar A vida privada, gostaria de abrir um parêntese e comentar  outro conto de Machado, o engenhoso Identidade (1887), que entra na linha doppelgänger, do duplo, embora de forma quase brejeira e um tanto faceta.

No primeiro parágrafo, o narrador introduz o tema que dá título ao texto: “Convenhamos que o fenômeno da semelhança completa entre dois indivíduos não parentes é coisa mui rara, talvez ainda mais rara que um mau poeta calado. Pela minha parte não achei nenhum. Tenho visto parecenças curiosas, mas nunca ao ponto de estabelecer identidade entre duas pessoas estranhas.” Daí então ele utiliza o gancho do “manuscrito achado”; no caso, um papiro: que entre dous indivíduos de família e casta diferentes a igualdade das feições, da estatura, da fala, de tudo, seja tal que não se possam distinguir um do outro, é caso para ser posto em letra de forma, depois de ter vivido três mil anos em um papiro, achado em Tebas. Vá por conta do papiro.” E o terceiro parágrafo apela para o Era uma vez um faraó cujo nome se perdeu na noite das velhas dinastias, mas suponhamos que se chamava Pha-Nohr” (Machado e o seu habitual recurso de lançar no alhures e no remoto os temas que quer abordar).

Pha-Nohr ficara sabendo que havia um sósia dele e ordenara que o trouxessem à sua presença: um escriba, Bachtan. “Eram mais do que dois homens parecidos, eram dois exemplares de uma só pessoa; eles mesmos não se distinguiam mais que pela consciência da personalidade (e, é claro, pela posição social). Pha-Nohr instrui o escriba na administração do império, e declara que irá colocá-lo no trono por um tempo indeterminado. O escriba agora sou eu. Tu és faraó. É a idéia de viver na pele de outro que seduz Pha-Nohr, sair do engessamento do palácio, tendo virado um herói decadentista (Imagine-se que Pha-Nohr começara a governar com 22 anos, tão alegre, expansivo e resoluto, que encantou a toda gente; tinha idéias grandes, úteis e profundas. No fim, porém, de dous anos, mudou completamente de gênio. Tédio, desconfiança, aversão às pessoas, sarcasmos amiudados e, finalmente, umas crises melancólicas, que lhe levavam dias e dias. Durou isto dezoito anos”). A princípio, Bachtan não se sente à vontade e Machado me sai com essa frase genial: “O escriba rolou a noite inteira, sem achar cômodo, no leito da vindoura Cleópatra.

No vasto mundo, um tecelão casado acolhe o falso escriba, que sente remorso por desejar a mulher do anfitrião, tão bondoso  e solícito. Mas ele ouve uma conversa do casal e descobre que o tecelão quer é roubar a caixa de pedras preciosas com a qual saiu do palácio para ganhar o mundo. A esposa não consente. Pha-Nohr resolve ir embora, entretanto presenteia  Charmion com algumas jóias.

O relato prossegue com as aventuras de Pha-Nohr pelo mundo nem sempre vasto, com muitas decepções e algumas multas, até que ele acaba nos braços da bela Charmion (cujos olhos não são de ressaca, todavia “encerravam, mais que nunca, todos os mistérios do Egito. Além dos mistérios, tinha ela um plano; essas mulheres calculistas de Machado!), a qual abandonou o marido. Os dois vivem juntos, ele é apaixonado por ela, ela jura que morre por ele, eles recebem como hóspede um moço viajante; no entanto a liberdade de não ser faraó é mais aborrecimento que prazer e ele sente saudades de Mênfis, “do poder que emprestara ao escriba… Trocara tudo por nada. Aqui emendou-se: Charmion valia por tudo.” Toma uma decisão: irão embora daquela cidade. Chegando em casa da rua nesse dia, “não achou nada, nem a moça, nem as pedras preciosas, nem as jóias, túnicas, espelhos, muitas outras cousas de valia. Não achou sequer o moço viajante que provavelmente, à força de falar de Babilônia, despertou na dama o desejo de irem visitá-la juntos”.

O desiludido Pha-Nohr torna-se aprendiz de embalsamador. Nova decepção: “tinha ido ali buscar uma oficina de melancolia e deu com um bazar de chufas e anedotas… Operavam os corpos gracejando, falando cada um dos seus negócios, planos, idéias, puxando daqui e dali, como se cortam sapatos. Pha-Nohr compreendeu que o uso encruara naquela gente a piedade e a sensibilidade” (como ele está vivendo em outra pele, o que é automático e maquinal no quotidiano não existe para ele, que está reaprendendo tudo e todos os códigos sociais). Sente medo de acabar assim. Torna-se barbeiro, bateleiro, caçador. Até que resolve retornar a Mênfis (note-se a idéia de um império tão vasto e um poder tão longínquo que parece ficar em outro planeta, tanto que o sósia do faraó, que na verdade é o faraó, nem é reconhecido nos diversos lugares das suas aventuras, pois o faraó paira muito acima do povo).

Nesse ínterim, o verdadeiro escriba e falso faraó engordou muito: Entrou; a corte esperava-o, em redor do faraó, e reconheceu logo que era impossível agora confundi-los, à vista da diferença na grossura dos corpos (portanto, semelhança e identidade são algo muito voláteis, como vimos experimentar diante do espelho o nosso amigo alferes ); mas a cara, a fala, o gesto eram ainda os mesmos. Bachtan perguntou-lhe placidamente o que é que queria; Pha-Nohr sentiu-se rei e declarou-lhe que o trono: Sai daí, escriba, concluiu; o teu papel está acabado.” Bachtan e todo o paço gargalham. Pha-Nohr faz um gesto de ameaças e o falso Pha-Nohr declara-o como sedicioso, perigoso para o Estado, mandando prendê-lo. Julgado, é condenado à morte: “Na manhã seguinte, cumpriu-se a sentença diante do faraó e grande multidão. Pha-Nohr morreu tranqüilo, rindo do escriba e de toda a gente, menos talvez de Charmion… A multidão, logo que ele expirou, soltou uma formidável aclamação: Viva Pha-Nohr! E Bachtan, sorrindo, agradeceu. Veja-se que enquanto Pha-Nohr esgueirava-se entre avatares diversos (como amante, profissional em várias áreas), numa vida cambiante e precária, sem fixar-se a um molde, Bachtan enrijeceu-se (tanto quanto seu corpo “engrossou”) num molde único, o de faraó, o papel mais fixado e inerte do universo. No final, ele é realmente o faraó e assumiu mais a identidade do duplo do que este a sua, socialmente muito mais precária e volátil.

Precárias e voláteis são as personas que habitam A vida privada. Henry James o publicou em 1892. Assim como O espelho, começa de forma mundana (é uma narrativa em 1ª. pessoa): Conversávamos sobre Londres em frente a uma imensa, ameaçadora e primeva geleira[1]. Estamos na Suíça onde natureza e vida civilizada convivem aparentemente sem atritos. É uma estação de férias, a trama transcorre num hotel, o narrador comenta a “resignação gregária” que toma conta de todos que não compartilham ou não querem compartilhar (“reconhecemos nossa sorte permanecendo juntos) da vulgaridade e da promiscuidade: Lord e Lady Mellifont, Clare Vawdrey (“a maior, na opinião de muitos, de nossas glórias literárias”), Blanche Adney (“a maior, na opinião de todos, de nossas glórias teatrais). Todos se conhecem de Londres e formam visivelmente um grupo fechado (nosso inocente prazer era sermos diferentes).

O clima de fofoca intra-grupo começa a partir do momento em que se tecem comentários sobre as prolongadas ausências de Lord Mellifont e Blanche Adney (a qual, também é casada, com o “pequeno Mr. Adney, o querido compositor”). O catalisador das conversas é Vawdrey, o qual “diferenciava-se das outras pessoas, mas nunca dele mesmo (exceto no sentido extraordinário sobre o qual prestarei algum esclarecimento [2]) e me parecia ser uma pessoa sem humores, sem suscetibilidades, sem preferências… dirigia-se às mulheres exatamente da mesma maneira como se dirigia aos homens, e conversava com todos os homens de igual maneira, sem se expressar melhor com as pessoas inteligentes do que com as obtusas. Eu costumava afligir-me com seu modo de gostar de um assunto, segundo me parecia, exatamente da mesma maneira quanto de outro… Suas opiniões eram prudentes e medíocres e refletir sobre suas faculdades mentais era desconcertante demais! Eu lhe invejava a saúde magnífica.”

Como dá para perceber, ele começa com um retrato simpático e cativante, e vai gradualmente revelando a má vontade que nutre em relação a Vawdrey. E assim temos de ter cuidado: provavelmente estamos diante de mais um daqueles narradores não-confiáveis. Por que eles aparecem tanto em Henry James(aliás, era o caso de perguntar por que também são tão importantes para Machado)? Há todo um lado bisbilhoteiro, fuxiqueiro, nesses personagens envolvidos em enigmas intrincados, e além disso, geralmente há uma situação de competição para os heróis (o que significa que James nunca se afastou muito, apenas as aprofundou vertiginosamente, das suas preocupações, uma vez que já num conto de juventude, Pobre Richard, tratava do assunto). Eles são de antemão derrotados (a derrota pode ser sentimental ou artística, ou envolver as duas coisas), obrigados a renunciar e a encarar sua impotência em impor-se ou pelo menos obter a solução dos segredos com os quais se envolvem. Não deixa de ser engraçado que alguns dos maiores mistérios da literatura sejam misturados com bisbilhotices e rivalidades mesquinhas.

Voltemos ao nosso amigo narrador, um tantinho invejoso de Vawdrey, o qual se sente absolutamente à vontade no “tedioso campo da anedota, no qual as histórias são visíveis ao longe, como moinhos de vento e postes de sinalização”. Um tantinho invejoso, mas cônscio de que o outro é tedioso e repetitivo. Ele percebe que Lady Mellifont parece desatenta, percorrendo com um olhar meio ansioso “os declives nas partes inferiores das montanhas.

Se Vawdrey é enfadonho, apesar do seu sucesso mundano, Lord Mellifont é “the one”: “Não digo o maior, o mais sábio, mais célebre, mas essencialmente o que ocuparia o primeiro lugar de uma lista e a cabeceira da mesa. Essa é, por si só, uma posição, e sua mulher estava naturalmente acostumada a vê-lo ocupando-a.” Espero que vocês percebam, apesar dos métodos indiretos e que retardam muito a ação narrativa, e portanto freqüentemente exasperantes, de Henry James, que o que está se estabelecendo aqui é um conjunto de aparências, como cada membro do grupo é notável por algo aparente, que lhe confere identidade social e coesão ao grupo. Quanto à Lady Mellifont, o narrador a princípio achara-a um pouco atemorizante e até mesmo “saturnina”: “Estava eternamente de luto e usava inúmeros adornos de azeviche e ônix… Eu tinha ouvido Blanche Adney chamá-la de Rainha da Noite, e o epíteto era bem descritivo se considerarmos a noite como algo sombrio.Ela tinha um segredo… Parecia alguém com uma doença indolor.” Ela confidencia ao narrador que fica nervosa quando o marido se mantém longe dela por algum tempo, embora não saiba o que possa temer: trata-se de uma sensação indefinível de que ele jamais voltará (nós saberemos depois o porquê).

Blanche Adney reaparece e Lord Mellifont não está em sua companhia. Perguntada a respeito do paradeiro dele, ela diz que ele entrou no hotel e aí ocorre uma troca de olhares entre a atriz e o narrador: O interesse nessa ocasião foi estimulado por alguma coisa especial que os olhos pretendiam dizer. O que eles geralmente diziam era: Ah, sim, sei bem que sou maravilhosa, mas não se precisa fazer estardalhaço disso. O que eu quero é apenas um novo papel, quero, e quero muito. Nessa ocasião específica eles acrescentaram vagamente, sub-repticiamente e, é claro, docemente, pois essa era a maneira como faziam tudo: Está tudo bem, mas alguma coisa aconteceu realmente. Talvez eu lhe conte mais tarde”, o que nos sugere duas coisas: uma cumplicidade entre ambos, e que ele é apaixonado por ela (dá para ver no “é claro, docemente”; mais adiante leremos: “É difícil ser breve ao falar dessa encantadora mulher que era bela sem beleza e perfeita com dúzias de defeitos”). Como se vê, tudo é narrado “vagamente, sub-repticiamente”, tudo acontece em surdina e nos bastidores.

Mesmo dentro do refinado grupo, os Mellifont se destacam por sua cerimoniosa existência. O marido “tinha um traje para cada função e um motivo para cada traje; e suas funções, trajes e motivos sempre constituíram uma parte das alegrias da vida, uma parte, pelo menos, da beleza e do romance da vida, para um imenso círculo de espectadores”. A mera presença de Lord Mellifont dá prestígio às coisas: “ele apresentava a vista como se ela fosse candidata a algum cargo e dava seu ´apoio´ aos próprios Alpes”.  Ele e Clare Vawdrey se conhecem desde pequenos. O narrador diz a respeito do hábito de se falar do Lord: Quanto a mim, quando falávamos dele, sempre tivera a impressão de estarmos falando dos mortos; havia indícios daquele peculiar acúmulo de relíquias. Sua reputação era uma espécie de obelisco dourado, um monumento funerário sob o qual ele poderia ter sido enterrado”. Ele é uma lenda viva: “Ele era, em si, um estilo… nunca em sua vida fora um convidado; ele era o anfitrião, o patrono, o poder moderador em qualquer assembléia… Confrontada com seu elevado padrão, a conversa de Clare Vawdrey sugeria mais a do repórter em contraste com a do poeta. Quer dizer, o grande escritor é menos interessante do que o homem elegante.

Vawdrey está escrevendo uma peça para Blanche Adney, que aos 40 anos deseja O papel, O supremo desafio: “Os anos haviam passado e elas os desperdiçara; em nenhuma das coisas que fizera realizara seu sonho, de modo que agora não tinha mais tempo a perder”. Nem é preciso ressaltar que ser atriz também é um viver de aparência, de ter que fazer a manutenção de uma imagem, de um ego social criado por olhares alheios. Estão todos os três, ela, o Lord e o escritor sob a luz de holofotes invisíveis. O narrador prevê que ela nunca conseguiria tal peça de Vawdrey (“estava de fato escrevendo uma peça; mas se a iniciara porque gostava da atriz, acredito que a deixava arrastar-se pela mesma razão… Se ele a enganava era apenas porque em seu desespero ela estava determinada a ser enganada”). Blanche pergunta ao autor sobre o terceiro ato e ele responde que antes do jantar escrevera uma magnífica passagem. O narrador replica que ele antes do jantar manteve todo o grupo “fascinado” no terraço. É uma tirada, apenas, só que embaraça Vawdrey, que dá uma desculpa. Todos o colocam na berlinda: quando teve tempo de escrever a tal passagem magnífica?

Blanche então diz que não acredita que ele tenha escrito uma só linha. E ele promete falar a cena para todos. Quando Blanche utiliza o verbo “ler”, ele a corrige: “ler, não; apenas falar”, e que não precisaria de um manuscrito. Na hora H, nosso leão doméstico começou a rugir fora do tom: esquecera completamente o texto. Ele sentia muito,as palavras não lhe ocorriam de forma alguma…dera um branco em sua memória. Ele não parecia nem um pouco envergonhado, Vawdrey nunca parecera envergonhado na vida… Afirmou que nunca esperara fazer um papel tão ridículo, mas percebíamos que isso não impediria que o incidente tomasse seu lugar entre suas mais risonhas Memórias. Nós é que estávamos humilhados como se ele nos tivesse pregado uma peça”. Quem salva a pátria, com seu tato e talento mundano, é Lord Mellifont. O narrador insiste no entanto: se Vawdrey quisesse, ele poderia pegar o manuscrito da suposta peça. O autor diz uma coisa estranha: Se houver realmente alguma coisa você encontrará sobre minha escrivaninha, quase como se não soubesse se tinha ou não produzido algum manuscrito. O narrador diz a Blanche que obteve permissão para pôr as mãos no manuscrito: Ela me fez jurar, por tudo que era sagrado, que eu o traria imediatamente e o entregaria a ela; e sua insistência era uma prova contra minha idéia de que seria tarde demais para Vawdrey começar a ler; além do que o encanto havia-se quebrado; os outros não se interessariam. Não era, ela me assegurou, tarde demais para ela própria começar a ler; eu deveria apossar-me, sem mais delongas, das preciosas páginas”. Em troca, o narrador quer saber o que acontecera entre ela e Mellifont (ela lhe joga na cara e poderia ser uma acusação a todo o universo jamesiano: Você é um perscrutador de corações, essa coisa frívola: um observador; é um universo todo voyeurístico [3]). Ele quer saber se Mellifont a cortejou. Ela ri e brinca a respeito da conveniência de ser cortejada numa geleira. O narrador pergunta então se ele “caiu nalgum precipício”. Ela diz que não sabe se ele caiu ou se subiu e acrescenta: É realmente estranho…preciso tentar entender.

Aí ele mostra suas cartas: acha que Vawdrey não tem sequer uma linha escrita, embora negue que deseje desmascará-lo. Blanche, conspiradora (e o tom conspiratório é uma das constantes nas histórias de James, é o lado mais complexo da base fuxiqueira que já mencionei): Por que não, se eu desmascarar Lord Mellifont? O narrador então diz significativamente (assumindo o papel de rival): “Ah, eu daria qualquer coisa por isso. Nesse projeto (frívolo) de desmascaramento temos os dois alvos do relato: o autor que parece não escrever (Vawdrey) e só representar o papel de autor; e o homem (Mellifont) que leva uma vida cerimonial, uma existência totalmente social.

Blanche ordena que ele vá olhar no quarto. No de Mellifont, ele pergunta. Resposta: Essa seria uma boa maneira! De descobrir…de descobrir!” Descobrir o quê? O que ela tenta insinuar sobre Mellifont?

O grupo deles se dispersa. O narrador se vê sozinho. A certa altura, surpreende Blanche num colóquio com o “dramaturgo” que não se sabe se produziu alguma peça. Então ele se resolve a apanhar o manuscrito, ver se ele existe de fato, e se juntar aos dois: Um minuto depois minha mão estava na maçaneta da porta que, naturalmente, abri sem bater… Um olhar prolongado por três segundos mostrou-me uma figura sentada a uma mesa perto de uma das janelas, uma figura que eu inicialmente tomara por uma manta de viagem jogada sobre uma cadeira. Recuei sentindo-me um intruso, porém ao fazer isso compreendi, mais rapidamente do que o tempo que me leva expressá-lo, primeiramente que esse era o quarto de Vawdrey e segundo que, surpreendentemente, seu próprio ocupante estava sentado à minha frente… antes que eu me desse conta, gritara: Alô, ei você, Vawdrey! Ele não se mexeu nem respondeu, mas minha pergunta  recebeu uma resposta ao abrir-se uma porta no outro lado do corredor. Uma criada com uma vela saiu de um quarto em frente, e com essa conveniente iluminação reconheci claramente o homem que um momento antes deixara lá em baixo, com toda certeza, conversando com Blanche Adney… como a pessoa diante de mim não desse sinal de ter ouvido, acrescentei: Se está ocupado, não vou perturbá-lo. Saí do quarto, fechando a porta…Fiquei lá, com a mão na maçaneta da porta, tomado pela mais estranha impressão da minha vida. Vawdrey estava sentado à sua escrivaninha, e isso era um lugar muito natural para um escritor, mas por que estava escrevendo no escuro e por que não me respondera?

Então nosso amigo Vawdrey se desdobra, tem um duplo, uma “identidade alternativa”, espécie de “sombra”, ego escritor que não precisa de luz para escrever, debruçado ininterruptamente na sua escrivaninha, e cuja existência é o ato da escrita, enquanto seu outro cumpre as obrigações mundanas, cumpre o papel de ego social[4]. Um ator. Com esse desmascaramento, termina a primeira parte de A vida privada  e ainda resta o segredo escondido na aparência de Lord Mellifont.

A segunda parte começa com o narrador refletindo sobre a estranha experiência da véspera: as grandes anomalias nunca são tão grandes no começo quanto depois que reflitamos sobre elas. Ele deseja esclarecer o mais depressa possível com Blanche “quem tinha estado com ela no terraço”, menos desejo de satisfazer minha curiosidadedo que apagar a sombra da minha estupefação”.  Como o dia está esplêndido, resolve dar uma caminhada solitária pelas montanhas, “e antes que o dia terminasse, esquecera que alguma vez me sentira perplexo. Mas no jantar, em companhia do grupo, meu pequeno problema voltou novamente. E convida Blanche Adney para uma volta (como se vê, os problemas se agitam à roda dos rituais mundanos, o mundo da politesse, da civilidade). Ele diz a ela que deseja um esclarecimento, ela pergunta se é a respeito de Lord Mellifont, o que o surpreende: “…minhas novas conjecturas tinham-me feito perder o fio da meada. Que aconteceu com sua memória, seu bobo? Falávamos sobre isso ontem à noite. Ah, claro, exclamei, lembrando-me, temos um monte de coisas para conversar. Quem estava com você aqui ontem à noite?… Ela olhou-me espantada e então deu uma risada: Está com ciúme do querido Vawdrey? Então era ele? Claro que era ele.” Mais adiante: “Em outras palavras, você e Vawdrey, distintamente, permaneceram aqui desde cerca de dez e cinco até a hora que mencionou?; Não sei se estávamos muito distintos, mas estávamos muito alegres. Onde você quer chegar, perguntou Blanche Adney; Simplesmente a isto, minha querida senhora: no horário em que seu companheiro se ocupava da maneira como descreveu ele também se concentrava em um trabalho literário em seu próprio quarto.” O corolário da revelação parece quase à Oscar Wilde. Blanche exclama: Ah, as excentricidades do gênio!” E ele: É verdade! Parecem maiores ainda do que eu imaginava”. O narrador diz a Blanche que a “sombra” no quarto parecia-se muito mais com Vawdrey do que ele próprio (já que ele parece, socialmente, uma “sombra” do que realiza artisticamente): Um é o gênio, o outro o burguês, e só conhecemos pessoalmente o burguês (aqui, parece que ele quer desacreditar Vawdrey mais por uma questão de rivalidade sentimental do que tirar deduções de uma descoberta fantástica). Ele propõe à Blanche que ela vá ao quarto do escritor: “Mas suponha que eu encontre o errado; O errado? Qual deles você chamaria de o certo?; O errado para uma dama visitar…”

Eles avistam Lord Mellifont e ela diz que tem algo a contar a respeito dele, uma “idéia tão cômica quanto a do narrador”: “se Clare Vawdrey é duplicado, Sua Senhoria aí tem o distúrbio oposto: ele não é nem inteiro… tenho a impressão de que se há dois Vawdreys, não há nem mesmo um Lord Mellifont inteiro” (ela fitou-me como se fora uma adorável conspiradora”).  Eles começam a tentar lembrar se já encontraram alguma vez Lord Mellifont sozinho. A suposição é de que, sem alguém presente, ele desaparece (como se vê, estamos no mundo do espelho de Jacobina agora). Blanche diz: Deve-se pegá-lo desprevenido. Precisa ir ao seu quarto, é o que tem de fazer (uma missão heróica encomendada pela dama amada). O narrador: Quando eu souber que ele não está lá?” Blanche: Quando souber que ele está lá!” O narrador: E o que vou ver então?” Blanche: “Não vai ver nada!” Resumo da ópera, segundo o próprio narrador:  “Lord Mellifont era inteiramente público e não tinha uma vida privada correspondente, ao passo que Clare Vawdrey era exclusivamente privado, não tendo vida pública”, isto é, pelo menos o “verdadeiro” Clare Vawdrey, se o artista é sua obra. O narrador sente a satisfação de ter obtido o desmascaramento desejado e se sente num “entreato”, após alguns acontecimentos capitais; sobra tempo para refletir sobre a “existência representativa do Lord: “Seria indubitavelmente exagerado dizer que sempre suspeitara haver, no contexto da existência de Sua Senhoria, alguma admirável possibilidade desse tipo; mas o fato é que, pelo menos, por mais indulgentes que essas palavras possam soar, eu tivera consciência de uma certa reserva de boa vontade para com ele. Secretamente eu me apiedara dele pela excelência de sua representação, me perguntara que rosto inexpressivo tal máscara precisaria esconder, o que lhe restaria nas horas implacáveis em que um homem fica sozinho consigo mesmo… Havia algo em Lady Mellifont, que dava sentido a essas indagações, algo que mostrava como, mesmo para ela, ele ainda deveria ser o personagem público e ela, acossada por perguntas semelhantes. Ela nunca as esclarecera: esse era seu eterno problema. Nós, Blanche e eu, portanto, sabíamos mais do que ela, mas não iríamos contar-lhe por nada desse mundo, nem ela provavelmente nos agradeceria se o fizéssemos. Preferia a dignidade relativa da incerteza.”

Mesmo com todas essas descobertas sobrenaturais, o mundanismo continua girando sua roda, através das regras da civilidade (em que cada um cuida da sua própria vida e bisbilhota as alheias). Ao discutirem a duplicação de Vawdrey num passeio pelas montanhas, o narrador explica a Blanche a economia psíquica do escritor e da sua “sombra” em termos que agradariam o Freud que criou os conceitos de ego, id e superego: “…eles são sócios de uma firma e um deles nunca seria capaz de continuar o negócio sem o outro… um sobreviver ao outro seria terrível para ambos. Surpreendentemente, Blanche afirma que gostaria que um deles conseguisse sobreviver. O narrador pergunta qual deles. Ela diz que se ele não consegue adivinhar, não vai contar. Ele: “conheço o coração das mulheres, vocês sempre preferem o outro”. Ela confessa então que está apaixonada.”Pobre mulher, ele não tem paixões”; “É exatamente por isso que o adoro”. Esse “desejo insano de encontrar o Autor” é uma perversa reformulação do arquétipo narrativo da prostituta e do santo (ainda mais se pensarmos nesses escritores monásticos como Flaubert, e James certamente foi um deles, e o mais enigmático, pois quase não se sabe nada das suas preferências sexuais ou afetivas, que “vivem para a sua arte”, no que o próprio Flaubert, decadentista avant la lettre chamava de misticismo estético). O narrador interrompe a confidência e diz que espera uma evidência da parte dela que comprove sua descrição, intensivamente sugestiva e plausível, da vida privada de Lord Mellifont e pede-lhe pormenores. Eles então encontram Lady Mellifont procurando o marido, ansiosamente. O narrador diz a ela para não se preocupar, que ele vai aparecer. E Blanche,maliciosamente, acrescenta: Tenho certeza que sim, se souber que estamos aqui!” Os dois prometem “achá-lo” e comentam entre si que ela “deve saber” e que não quer “que o marido desconfie”. O narrador acha que os desaparecimentos de Sua Senhoria implicam que “ele preferiria não voltar” (olha aí o Bartleby…), mas que sempre há algum público que força a sua volta. E Blanche afinal conta o que aconteceu 48 horas antes: Isso foi tudo o que houve… eu estava na mesma situação de Lady Mellifont: não conseguia encontrá-lo”; “Você o perdeu de vista?”; “Ele perdeu a mim… parece que esse é o processo. Ele supôs que eu me fora. E então…!, ela fez uma pausa com um olhar, isto é, com um sorriso expressivo”; “Você o encontrou, no entanto, já que voltou para o hotel com ele”; “Foi ele quem me encontrou. É também isso o que deve acontecer. Ele aparece a partir do momento em que sabe que alguma outra pessoa está ali” ( tudo é “suposição”, o elemento fantástico nos é dado indiretamente, como uma sugestão inquietante).

O narrador diz que não consegue “captar bem “ as leis que governam as reaparições. Blanche: É uma diferença sutil, que captei naquele instante. Eu estava pensando em voltar para o hotel, estava cansada, e insistira para que ele não voltasse comigo. Havíamos colhido flores raras, as que trouxe comigo, e fora ele quem encontrara a maioria delas. Isso o divertia bastante e percebi que desejava colher mais; porém eu estava fatigada e despedi-me dele. Ele não insistiu, que mais poder-se-ia esperar de seu tato, e eu estava muito desatenta na ocasião para adivinhar que a partir do momento em que eu não estivesse ali nenhuma outra flor seria, ou melhor, poderia ser, colhida. Estava já a caminho do hotel quando, após uns três minutos, percebi que trouxera comigo seu canivete, e eu sabia que ele iria precisar dele. Voltei alguns passos para chamá-lo, mas antes de dizer algo em voz alta, olhei em volta procurando por ele… Era um lugar que não oferecia nenhum tipo de esconderijo, uma grande e uniforme encosta sem obstruções ou cavidades, arbustos ou árvores… Ele tinha desaparecido, tinha sumido completamente, como uma vela apagada, por alguma razão que só ele conhecia. Foi provavelmente um momento de cansaço, ele está envelhecendo, de modo que com a sensação da volta do isolamento, a reação fora proporcionalmente grande, a extinção proporcionalmente completa. De qualquer forma, o palco estava vazio…Ele havia desaparecido, tinha deixado de existir. Mas assim que minha voz soou, gritei seu nome, ele surgiu na minha frente, como o sol nascente… exatamente onde deveria nascer, exatamente onde deveria ter estado e onde eu deveria tê-lo visto se ele fosse igual a outras pessoas.”

E aí aparece Lord Mellifont à frente deles: “ele simplesmente estava lá, como sempre estivera em todos os lugares, representando a figura principal da cena… Blanche Adney comunicou-se comigo silenciosamente, mas pude ler a linguagem dos seus olhos: Ah, pudéssemos nós atuar tão bem quanto ele. Ele ocupa o palco de uma maneira que nos deixa perplexos”.

Depois desse episódio, Blanche pede ao narrador que procure Vawdrey que saiu para um passeio também, para mantê-lo à distância, pelo tempo que puder, para que ela possa encontrar o outro: “Se eu conseguir chegar até ao que realmente escreve, se eu conseguir me entender com ele, vou ter o meu papel.”

Antes de procurar Vawdrey, o narrador resolve ir ao quarto de Lord Mellifont solicitar-lhe uma assinatura na aquarela que recebeu dele de presente (os dois conspiradores, portanto, não conseguem furtar-se cada um às suas curiosidades e tentações): “Ao examinar essa obra de arte eu notara que havia alo que certamente lhe faltava: o que mis senão o nobilíssimo autógrafo? Era meu dever, sem perda de tempo, sanar essa deficiência e, com essa perspectiva, entrei novamente no hotel… deparei-me com uma dificuldade com a qual minha extravagância não contara. Se batesse na porta, estragaria tudo: entretanto estaria preparado para dispensar tal cerimônia?”

Enquanto ele hesita com a mão na maçaneta (nesse vaudeville metafísico), uma porta se abre,como na vez anterior, mas não é uma criada, e sim Lady Mellifont que o pega no flagra: “Por algum tempo, enquanto permanecíamos ali, trocamos duas ou três idéias, tanto mais singulares pelo fato de não serem expressas. Tínhamo-nos surpreendido mutuamente espionando e até esse ponto nos entendíamos… Pude ver em seus olhos conscientes… a confissão de sua própria curiosidade e do medo das conseqüências da minha. ´Não faça isso´… A partir do momento em que minha tentativa pudesse parecer-lhe um ato de violência, eu já estava pronto para renunciar a ela; no entanto, julguei detectar em seu rosto assustado uma revelação, ainda mais profunda: a possibilidade de decepção se eu desistisse. É como se estivesse dizendo: ´Permito, se assumir a responsabilidade… não seria adequado ele pensar que fui eu´” Nosso amigo opta pela civilidade hipócrita, mostrando a aquarela, eu senti todas as suas delicadezas e dignidades, toda sua antiga timidez e devoção obstruindo sua grande oportunidade”. Ela pega a aquarela e a leva para seu quarto. Quando retorna, “pude perceber que vencera a tentação. E ela pede que ele deixe a aquarela com ela, que providenciará para que o pedido seja atendido. Na falta do que dizer, o narrador observa que o clima sofrerá uma mudança. Ela diz que ela e o marido então partirão… partirão imediatamente: “Achei engraçada a veemência com que fez essa declaração: parecia representar uma almejada fuga para um abrigo seguro, uma retirada com seu segredo intacto.” Ele daí tem a certeza de que ela sabe, mas que não vai nunca pôr à prova, apesar das tentações.

E é aí que ele vai cumprir a incumbência de entreter o Vawdrey ego social. Presos por uma tempestade, o narrador se aborrece e se desgosta com o vazio emanado pela conversação “inteligente”, “de salão” do interlocutor: “Os relâmpagos projetaram uma forte claridade sobre a verdade, que eu conhecia há anos e à qual os dois últimos dias haviam acrescentado extraordinária confirmação: a irritante certeza de que com referência a relações pessoais esse admirável homem de gênio considerava pessoas de segunda categoria como perfeitamente aceitáveis. E na verdade eram, conforme a sociedade se forma, mas havia algo de detestável no contraste que não podia deixar de ser mortificante para um admirador. O mundo era vulgar e estúpido e o artista seria um tolo em expor-se publicamente quando poderia tagarelar e jantar fora enviando um substituto. Mesmo assim, meu coração ficou pequeno ao vê-lo agir com tal imprudência. Não sei exatamente o que queria; talvez gostasse que ele fizesse uma exceção para mim, com toda sua generosidade e carinho, na vasta horda dos idiotas… mas a aplicação da sua norma de conduta era implacável. E sente inveja de Blanche por estar naquele momento na fruição dos verdadeiros lampejos do gênio.

Amainada a tempestade, voltam ao hotel e descobrem que foram motivo de preocupação (e desapontamento, por aparecerem tão somente “ensopados”). Blanche está entre os que os aguardavam. Ela não cumprimenta Vawdrey, voltando-lhe as costas e entrando no salão. O narrador vai atrás dela: “A primeira coisa que notei é que ela nunca me parecera tão bonita.Havia nela um brilho revelador e ela irrompeu num sussurro apressado, que era ao mesmo tempo o grito mais alto que jamais ouvira: Consegui o meu papel!… Foi o grande momento da minha vida… Nos nós entendemos.” Depois desse momento de exaltação da atriz, ele vai para o seu quarto e percebe que finalmente a violência da tempestade passara. Desce para o jantar e constata que a mudança do clima já dispersara o grupo, a começar pela súbita partida dos Mellifont. Outros veículos já estavam sendo pedidos, inclusive por Blanche Adney.

Clare Vawdrey pergunta ao  narrador se a desagradara de algum modo, pois ela mudara sua atitude com ele: “Não me lembro como lhe respondi, mas fiz tudo para consolá-lo viajando com ele no dia seguinte… eles fizeram as pazes em Londres, pois ele terminou a peça e ela a produziu. Devo acrescentar, contudo, que ela ainda esta à espera de seu grande papel. Tenho um muito bom na cabeça, mas ela não vem me visitar para me incentivar a escrevê-lo. Lady Mellifont sempre me dirige algumas palavras amáveis quando nos encontramos, mas isso não me consola”.

Creio que tudo está aí:: o decadentismo e sua obsessão por atmosferas refinadas e ultracivilizadas, os narradores não confiáveis, o doppelgänger, a fragilidade da identidade.. E mais ainda: pois afinal esse escritor que se duplica mostra bem a dubiedade da posição do artista, do produtor cultural, na sociedade capitalista; e ainda temos esse membro da nobreza que, no fundo, não existe, que é quase um fantasma de si mesmo: alegoria de uma classe social ociosa e parasitária?


[1] Utilizo a tradução de Onédia Célia Pereira de Queiroz (Nova Alexandria).

[2] Primeira indicação de que há algo “fantástico” na narração.

[3] E o narrador diz a ela: “Vejo peças à minha volta. O ar está cheio delas esta noite. O narrador é escritor também e essa é uma das formas de rivalidade com Vawdrey. E ele tem certa importância porque as pessoas vêm solicitar seu autógrafo.

[4] Autran Dourado : não há artista que não sinta que à medida que se realiza como artista perde como homem. A arte e a técnica que ele adquire são à custa da vida; a vida que ele vive é apesar da arte… Diferentemente do que podem fazer crer os romances biográficos e o cinema, a vida do artista não é nenhuma aventura, pelo menos no sentido tradicional do termo… Condenado à solidão,  observador lúcido e racional da vida, o artista é um ser que caminha mais rápida e  claramente do que os outros mortais para a morte; com a Parca convive o artista penosa e amargamente… O que se ganha em arte, perde-se em vida, o que se escreve, deixa-se de viver… Quando tomei consciência mais funda e mais lúcida do instrumento que tinha nas mãos, da minha arte, senti que me perdia para a vida e que tinha de abrir mão de todas as alegrias.” (Uma poética de romance: matéria de carpintaria, 1976, Rocco)

Truman Capote: “Então, um dia comecei a escrever, sem saber que estava me escravizando a um senhor nobre, mas impiedoso. Quando Deus nos dá um dom, também dá um chicote, e esse chicote se destina exclusivamente à nossa autoflagelação…. Numa história de Henry James, o personagem, um escritor já em plena maturidade, exclama. Vivemos nas trevas e fazemos o possível; o resto é a loucura da arte.

         Por enquanto cá estou eu, isolado nas trevas da minha loucura, completamente sozinho com meu baralho; e, naturalmente, com o chicote que Deus me deu.” (Música para camaleões, 1980, Companhia das Letras)

VER TAMBÉM NESTE BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-interesse-ininterrupto-pela-vida-de-isabel-archer-retrato-de-uma-senhora-de-henry-james/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/04/a-taca-de-ouro-e-a-arte-do-romance/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/22/as-margens-derradeiras-eu-vi-com-meus-proprios-olhos/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/20/o-que-james-sabia/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/21/the-heart-of-the-matter-jamesiano-a-sombra-do-que-nao-foi-sobre-o-que-e/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/18/henry-james-e-os-enigmas-insoluveis-primeira-parte/

https://armonte.wordpress.com/2012/04/19/henry-james-e-os-enigmas-insoluveis-segunda-e-ultima-parte/

https://armonte.wordpress.com/2013/05/05/atrasado-e-amargo-algum-gosto-de-vida-a-madona-do-futuro-e-a-fera-na-selva/

16/03/2011

Fernando Sabino, autor de DOM CASMURRO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 05 de janeiro de 1999)

A existência de um livro tão perfeito, tão genialmente concebido como Dom Casmurro numa literatura como a nossa, deve desanimar muitos escritores medíocres. Mais do que isso, deve causar rancor, uma vontade a la Salieri de destruir, aniquilar. Só isso explica o fato de Fernando Sabino ter se atrevido a publicar Amor de Capitu, após consagrar-se como um dos medalhões nacionais da mediocridade.

Sabino afirma admirar Dom Casmurro. O busílis é que, tendo Machado de Assis escrito uma narrativa em 1ª. pessoa, que permite apenas uma visão retrospectiva dos fatos (e ainda complicada por mil digressões e volteios), o autor da biografia de uma nada saudosa ex-ministra do Mal, digo, da Economia, resolveu eliminar Bentinho como narrador. Como afirma no seu delirante prefácio: “Tudo isso a meus olhos de leitor acaba mascarando aqui e ali o relato, a ponto de criar artificialmente um mistério a mais. Como se não bastasse aquele que é inerente à natureza humana, encarnado em todos os figurantes do romance, e não apenas em Capitu. A não ser que fosse exatamente este o objetivo de Machado de Assis: um mistério a mais. Só que o mistério, como a esmola do pobre, quando é demais o leitor desconfia.” As sandices (“mascarando aqui e ali o relato”, “criar artificialmente um mistério a mais”, “como se não bastasse aquele que é inerente à natureza humana”) nem merecem comentário, a não ser que Sabino está criticando o fundamento mesmo da literatura, que será sempre máscara e artifício, não tem jeito, o mendigo do leitor que se conforme.


Amor de Capitu utiliza boa parte do texto original de Dom Casmurro, adaptando-o à narrativa em 3ª. pessoa. Com isso, num passe de mágica, retira-se o eixo da obra, sua razão de ser, a sua alma. Mas os estudantes preguiçosos que se horrorizam com a complexidade do livro, “que sempre cai no vestibular”, os professores igualmente preguiçosos, os que acham que um livro pode ser “resumido” (melhor dizendo, “condensado”), enfim, a estultície geral tem muito que agradecer a Fernando Sabino, o Bouvard e Pécuchet reunidos na mesma pessoa da reinvenção textual.

Ficaram os “eventos”, os fatos narrados. Pois o autor mineiro perpetrou seu atentado estético-intelectual, como diz, “tentando desvendar a mensagem nele contida”. Gente, aque ponto de retrocesso mental poderemos ainda alcançar? Será que chegamos ao tchan da literatura? Sabino ainda nessa de “mensagem”, a qual estaria prontinha e enrodilhada dentro dos fatos da narrativa e é só “descobrir”? Como se explica, porém, que tanta gente boa se debruçou sobre Dom Casmurro e nunca se chegou a um acordo sobre o “sentido” global do romance, quanto mais a respeito de uma possível “mensagem”!!?? E qual seria? “Não case com a namorada de infância e não aproxime a esposa do melhor amigo ou então corno tu serás”! É a versão Falcão-Reginaldo Rossi da teoria literária.

O que Amor de Capitu evidencia é o seguinte: limitado aos “fatos”, o texto se salva por um dos estratos da genialidade machadiana: os diálogos, que caracterizam de forma corisca e magistral cada personagem. E que era um desdobramento de outros estratos formados a partir da narrativa retrospectiva e altamente suspeita de Bentinho/Dom Casmurro, ator do drama/autor da versão que vai ao palco. Esse primeiro estrato, o do narrador que sujeita o leitor a uma visão limitada dos fatos, subordina todos os demais e gera uma ambigüidade perturbadora e sempre renovada. Só que ninguém hoje em dia quer saber de ambigüidade. É preciso ter tudo claro, simples e “verdadeiro”. Como se a vida fosse assim. Pior ainda, é preciso que tudo seja raso e reles, que siga o mínimo denominador comum. Nesse ponto, Amor de Capitu é o Dom Casmurro ideal para 1999, é o livro de Machado de Assis ao nível da Xuxa e do Ratinho.


Uma coisa assustadora do texto de Fernando Sabino, afora o projeto como um todo da “recriação” da obra-prima machadiana tal como levado a efeito, é a falta de ironia com que ele o levou a cabo, diria mesmo, a falta de molecagem. Um Pierre Menard sem nenhum pingo de humor, ele se leva tão a sério a ponto de afirmar taxativamente a culpa de Capitu: “O que sempre me atraiu nesse romance admirável não foi a intrigante e todavia óbvia infidelidade da personagem principal”. Óbvia por quê? Só porque descobriu um ou dois pormenores que ratificam a suspeita de Bentinho e que, segundo ele, não haviam sido notados por ninguém? Como se não houvesse milhares de detalhes esmagadoramente suspeitos que provariam a culpa da nossa maior personagem feminina, em qualquer tribunal.

E não tem a menor importância. O “enigma de Capitu” só existe sob o ângulo de visão de Bentinho, sob o manto da sua narrativa, através da maneira como ele selecionou os detalhes e incidentes para persuadir o leitor de que a Capitu adulta que o traiu já estava na Capitu menina, nessa sua má-fé rancorosa.

Portanto, o “enigma de Capitu” e todos os outros enigmas de Dom Casmurro (e por isso ele é um dos textos-fetiches dos últimos cem anos) só existem através da entidade que Fernando Pessoa (ops, Sabino) desalojou ou exorcizou na sua “recriação literária”: o narrador em primeira pessoa. Os mistérios são muitos e o santo leitor que desconfia da abundância deles pode não ser doente do pé, mas é ruim da cabeça.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.