MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/02/2016

O Shakespeare da hora: MACBETH

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uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 02 de fevereiro de 2016)

Nos últimos meses estrearam dois filmes baseados em Macbeth: uma versão da peça, Ambição e Guerra, do australiano Justin Kurzel, a qual — apesar de estrelada pelos grandes Michael Fassbender e Marion Cottilard — não entusiasmou ninguém; e A floresta que se move (título sugerido por um dos elementos cruciais para o desenlace), transposição brasileira de Vinícius Coimbra do enredo para os dias atuais, na esfera empresarial, com Gabriel Braga Nunes, Ana Paula Arósio e repercussão igualmente pífia.

E olhe, leitor, que entre as obras-primas trágicas de Shakespeare foi a de melhor sorte nas telas, gerando pelo menos três filmes de primeira: o de Orson Welles (1948), o de Kurosawa (Trono manchado de sangue, 1957) e o de Polanski (1971). Talvez por ser a mais dinâmica e sucinta, sem o emaranhamento de Hamlet ou Rei Lear, embora também sem um personagem carismático como o príncipe da Dinamarca ou as proporções cosmogônicas da queda do rei que ficou velho antes de ficar sábio.

«  Por vezes, para nos perdermos, contam-nos os agentes das trevas alguns fatos verídicos, seduzem-nos com coisas inocentes, porém de pouca monta, para nos arrastar a consequências incalculáveis», adverte Banquo, companheiro do até então valoroso Macbeth, quando este é saudado, num ermo, após uma batalha, como futuro rei, por três bruxas. Não adianta. De forma traiçoeira, ele e a esposa assassinarão o soberano, Duncan, seu hóspede. Nunca mais o sangue sairá de suas mentes e de sua visão («A tal ponto atolado estou no sangue que, esteja onde estiver, tão imprudente será recuar como seguir à frente»). E a Escócia será assolada pela guerra.

   A princípio titubeante, assombrado por sua imaginação[1] o protagonista age espicaçado pela esposa, a feroz Lady Macbeth, mais audaz: «Então, marido, por que ficardes só, tendo por companhia as fantasias mais desconsoladoras e ocupando-vos com pensamentos que já deveriam ter morrido com quem se relacionam? O que não tem remédio, não deveria ser pensado sequer. O que está feito, não está por fazer».

   Após consolidar-se no poder, o espaço à sua volta rarefaz-se, e aí percebemos a dimensão da tragédia, e como ela permanece atual. Se encaramos a corrupção maciça e endêmica como um horror, o aspecto mais sombrio do poder, no entanto, é o totalitarismo, a sede de dominação permanente (a qual encampa também uma avassaladora corrupção), a necessidade de eliminar os mais próximos (lembram de Banquo, além de tudo uma testemunha?:  «Oh! tenho o espírito cheio de escorpiões, querida esposa! Sabeis que vivem Banquo e seu Fleance[2]»), até os colaboradores, porque todos são suspeitos ou inimigos, na lógica paranoica do Terror: «Quase esqueci que gosto tem o medo/ Outrora meus sentidos gelariam/ Com um guincho à noite; e a minha cabeleira / Com um relato de horror ficava em pé/ Como se viva; estou farto de horrores/O pavor, íntimo do meu pensar/ Já nem me assusta».

 Não por acaso, uma das cenas inesquecíveis do teatro é o banquete “amigável” onde alguns dos convivas são fantasmas de vítimas do projeto de poder do hospitaleiro casal Macbeth.

Em tempo: em 2016, a morte de Shakespeare completa 400 anos.

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TRECHO SELECIONADO

«A CAMAREIRA – Ouvi coisas, senhor, que não me atrevo a repetir.
O MÉDICO – A mim podereis dizer o que ouvistes, sendo mesmo de vantagem que o façais.
A CAMAREIRA – Nem a vós nem a ninguém, uma vez que não tenha testemunha para confirmar o que disser. (Entra Lady Macbeth, com uma vela.) Vede! Aí vem ela! É assim mesmo que sempre faz, e, por minha vida, a dormir profundamente. Observai-a; aproximai-vos dela um pouco.
O MÉDICO – Como conseguiu essa luz?
A CAMAREIRA – Ora, estava perto dela. Tem sempre luz ao pé de si; são ordens expressas.
O MÉDICO – Como vedes, está com os olhos bem abertos.
A CAMAREIRA – É certo; mas os sentidos estão fechados.
O MÉDICO – Que faz ela agora? Vede como esfrega as mãos.
A CAMAREIRA – É um gesto habitual nela, fazer como quem lava as mãos. Já a vi continuar desse jeito durante um quarto de hora.
LADY MACBETH – Aqui ainda há uma mancha.
O MEDICO – Atenção! Está falando. Vou tomar nota do que ela disser, para reforçar a memória.
LADY MACBETH – Sai, mancha amaldiçoada! Sai! Estou mandando. Um dois… Sim, já é tempo de fazê-lo. O inferno é sombrio… Ora, marido! Ora! Um soldado ter modo? Por que termos medo de que alguém o venha a saber, se ninguém poderá pedir contas a nosso poder? Mas quem poderia imaginar que o velho tivesse tanto sangue no corpo?
O MÉDICO – Ouvistes o que ela disse?
LADY MACBETH – O thane de Fife tinha uma mulher. Onde se encontra ela agora? Como! Estas mãos nunca ficarão limpas? Basta, senhor; não falemos mais nisso. Estragais tudo com essa vacilação.
O MÉDICO – Ide, ide! Ficastes sabendo mais do que seria conveniente.
A CAMAREIRA – Ela falou o que não devia, tenho certeza. Só Deus sabe o que ela sabe.
LADY MACBETH – Aqui ainda há odor de sangue. Todo o perfume da Arábia não conseguiria deixar cheirosa esta mãozinha. Oh! Oh! Oh!
O MÉDICO – Que suspiro! Tem o coração por demais opresso.
A CAMAREIRA – Eu não quisera ter no peito um coração assim, nem pelas dignidades de todo o corpo.
O MÉDICO – Bem, bem, bem.
A CAMAREIRA – Rogai a Deus, senhor, para que seja assim.
O MÉDICO – Esta doença ultrapassa minha arte. No entanto, conheci sonâmbulos que morreram santamente em suas camas.
LADY MACBETH – Ide lavar as mãos; vesti vosso roupão de dormir. Não fiqueis assim tão pálido. Torno a dizer-vos que Banquo está enterrado; não poderá sair da sepultura.
O MÉDICO – Também isso?
LADY MACBETH – Para o leito! Para o leito! Estão batendo no por tão. Vinde, vinde! Dai-me a mão. O que está feito não está por fazer. Para o leito, para o leito, para o leito! (Sai.)
OMÉDICO – E agora, ela vai para o leito?
A CAMAREIRA – Diretamente.
O MÉDICO – Circulam por aí terríveis boatos. feitos contra a natura sempre engendram conseqüências doentias. As consciências manchadas descarregam seus segredos nos surdos travesseiros. Mais de padre tem ela precisão do que de médico. Deus, Deus que nos perdoe! Acompanhai-a. Deixai bem longe dela quanto possa causar-lhe qualquer dano. E ora, boa noite. Ela deixou-me o espírito confuso e a vista absorta com tamanho abuso. Penso, mas não me atrevo a dizer nada.
A CAMAREIRA – Boa noite, bom doutor».

NOTAS

[1]  «Essa solicitação tão sobrenatural pode ser boa, como pode ser má… Se não for boa, por que me deu as arras de bom êxito, relatando a verdade? Sou o thane de Cawdor. Sendo boa, por que causa ceder à sugestão, cuja figura pavorosa os cabelos me arrepia, fazendo que me bata nas costelas o coração tão firme, contra as normas da natureza? O medo que sentimos é menos de temer que as mais terríveis mas fictícias criações. Meu pensamento no qual o crime por enquanto é apenas um fantasma, a tal ponto o pobre reino de minha alma sacode, que esmagada se torna a vida pela fantasia, sem que haja nada além do que não é».

[2] Fleance é filho de Banquo. Lembremos de que as bruxas vaticinam que Macbeth será rei, mas que Banquo gerará reis, mesmo não o sendo

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