MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

23/08/2013

HISTÓRIAS DE DESENCONTRO ENTRE LYGIA FAGUNDES TELLES E SEUS CONTOS

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“Lygia Fagundes Telles, de certo modo, cria um dicionário ficcional de símbolos, o seu mundo simbólico particular, minuciosamente escolhido. Ela constrói suas narrativas como se estivesse numa partida de xadrez,  construindo o mundo ficcional a cada um de seus lances—prevendo reações, provocando-as. Ela nos chama para um jogo.”

(Nilton Resende, Ar-te-sa-ni-as: modos do alegórico em contos de Lygia Fagundes Telles)

I

De 1944 até o começo dos anos 1980, grosso modo, Lygia Fagundes Telles apresenta uma produção quantitativamente (da qualidade, nem é preciso falar) expressiva de contos, embora não exageradamente prolífica (pelos meus cálculos, caso exatos, são 76 contos publicados, de Praia viva a Mistérios).

Cinco são as coletâneas originais dessa fase: Praia viva (1944), O cacto vermelho (1949), Histórias do desencontro (1958), O jardim selvagem (1965) e Seminário dos ratos (1977). Apenas a última delas foi reeditada nas mudanças de casa editorial (para a Nova Fronteira, para a Rocco e para a Companhia das Letras). E, salvo engano, nenhum dos 10 contos de Praia Viva até hoje reapareceu, assim como boa parte dos 12 de O cacto vermelho e alguns poucos de Histórias do desencontro. A única coletânea em que todos os contos ainda reaparecem, embora dispersos em publicações diferentes, é O jardim selvagem.

A curiosa contrapartida desse movimento supressor de títulos é a das “antologias de si mesma” preparadas pela autora. Um ponto a se destacar é que TODAS ELAS apresentam sempre contos ainda não-publicados em livros de sua própria autoria. Quando publicou Histórias escolhidas (1964), uma espécie de “saldão” pré-O jardim selvagem, incluiu dois contos (As cerejas; O noivo); quando fez de Antes do baile verde (1970) uma grande triagem da sua produção, e um título que passou a ser uma espécie de obra-referência da sua contística, um “portable Lygia” (principalmente depois da sua versão de 1971, pela José Olympio), publicou cinco textos dispersos (a chama Trilogia da confissão- Apenas um saxofone, Helga, O moço do saxofone; Os objetos e Verde lagarto amarelo).

Na escolha de seus Filhos pródigos, em 1978 (o título original, muito mais feliz, da seleção posteriormente republicada em 1991, com a poda de um conto, como A estrutura da bolha de sabão[1]), ela incluiu textos que ainda não tinham aparecido em nenhum de suas coletâneas, como o próprio A estrutura da bolha de sabão e sua versão para Missa do galo. E, ao lançar, a coletânea de suas “histórias extraordinárias”, dos seus contos do grotesco e do arabesco, Mistérios (1981), que—a meu ver–  fecha essa grande fase, também foram publicados três textos até então não-reunidos: Emanuel, Negra jogada amarela, O muro.

Ao lançar Mistérios, Lygia Fagundes Telles encontrava-se publicada pela Nova Fronteira e a década de 1980, após aquele título, no tocante ao conto (em 1989, ela lançou seu quarto romance, As horas nuas), foi uma década que passou “em branco”. Aliás, com a exceção dos filhos pródigos rebatizados como A estrutura da bolha de sabão, essa situação se manteve até 1995, com o último lançamento pela Nova Fronteira, A noite escura mais eu, que marca uma nova fase produtiva, após um hiato de 15 anos pelo menos, pois todos os textos da coletânea (a única, à exceção de Histórias do desencontro, sem um conto-título[2]) são inéditos.

Meu amigo, Nilton Resende, grande conhecedor da obra de Lygia[3] e que muito me ajudou para os dados deste meu texto (sem que tenha responsabilidade por qualquer informação errônea ou inexata), tem marcada predileção por esse livro, e sou obrigado (prazerosamente, é verdade) a concordar: é obra de mestre.

Pois bem, ao chegar a esse ponto, da sua produção de livros de contos sobraram:

Antes do baile verde (20 contos)

Seminário dos ratos (14 contos)

A estrutura da bolha de sabão (ex-Filhos pródigos)- 8 contos

Mistérios (19 contos)

e mais A noite escura e mais eu (9 contos)

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II

A transferência para a editora Rocco foi auspiciosa, a princípio. Numa nova demonstração de vitalidade criativa, de vigor, surgiu mais uma coletânea totalmente inédita (com 15 textos), Invenção e Memória (2000). Aqui não temos nada da complacência, simpática decerto, mas morna sobretudo, de livros-miscelâneas que pouco acrescentam à sua obra tão incrível (o anterior, ainda pela Nova Fronteira, A disciplina do amor, os posteriores Durante aquele estranho chá e Conspiração de nuvens).

A predileção que Nilton Resende nutre por A noite escura e mais eu, por mais que eu admire esse livro,  reservo mais para Invenção e Memória: tenho a impressão que ali ela se renovou de fato, arejou a casa, implodiu a solenidade de “grande dama da literatura”, aquela coisa petrificada que ameaça todo escritor da gema, conseguindo alguns textos de raro calibre, entre os melhores de sua obra, e inclusive fazendo uma alquimia perfeita entre o cunho memorialístico e o prazer da ficção.

Mas aí, a mesma escritora que sempre alegou não republicar seus títulos mais “juvenis” e imaturos (para não falar do “ginasiano” Porão e sobrado, de 1938, do qual nunca encontrei vestígio)  e que nunca pensou em pelo menos reeditar a seleção impecável de O jardim selvagem, na sua feição original de 1965, talvez por questões contratuais e mercantis desairosas, aparece com contrafações do tipo Meus contos preferidos, Meus contos esquecidos, Histórias de mistério  !!!!??????

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III

A produtividade tardia, no sentido da maestria absoluta (A noite escura mais eu, que me lembra a produção mais tardia de Henry James no texto curto, com sua densidade) ou no da verve e vitalidade (Invenção e Memória) se esgotou e, no novo milênio em curso, Lygia Fagundes Telles chega aos 90 anos com sua obra editada por outra casa, a Companhia das Letras, que unificou as capas numa série de notável bom-gosto, que se diga de saída.

Esperava-se que, aí, a série livros-para-o-chá-das-cinco (com o silêncio opressivo do jardim selvagem por trás) e também as auto-antologizações mais derrisórias (do tipo Meus contos…) cessassem. Ledo engano. Após republicar as obras que formam o cânone estabelecido pela própria autora, a Companhia passou a apelar também para os “novos títulos”: A disciplina do amor, Durante aquele estranho chá e Conspiração de nuvens têm agora a companhia de Passaporte para a China. E surge mais um volume de “filhos pródigos” (ufa, que prole indisciplinada e difícil!), ou de “meus contos esquecidos” ou de coisa-que-o-valha: Um coração ardente, que reúne Um coração ardente (de Histórias do desencontro), Dezembro no bairro (de O jardim selvagem, a primeira versão, de 1965, e não—como se informa erroneamente— a  segunda, de 1974, versão misteriosa[4]—que merecia um texto à parte), O dedo  (da segunda versão de O jardim selvagem, de 1974, e que reapareceu em Mistérios), Biruta (de Histórias do desencontro), Emanuel (de Mistérios), As cartas (de Histórias do desencontro), A estrela branca  (de O cacto vermelho, e não originalmente em Mistérios, como consta erroneamente na edição), O encontro (de Histórias do desencontro); a rigor, dois contos (que apareceram pela primeira vez em Histórias escolhidas e não na versão 1974 de Jardim selvagem como consta erroneamente na edição) é que justificariam esse “novo” título, O noivo e As cerejas , os quais que ficaram muito tempo “perdidos” no labirinto das publicações lygianas.

Mas não é assim com todos, ao fim e ao cabo?

Não contente, a Companhia das Letras ainda lançou (com o pretexto de atrair o leitor mais jovem), O segredo e outras histórias de descoberta. Há muito tempo um livro da Ática vem cumprindo essa função sem tanta pirotecnia editorial: a coletânea com o título Venha ver o pôr-do-sol, que ainda se encontra em catálogo, e foi lançada nos anos 1970, foi a porta de entrada para mim, e certamente para muitos outros, junto com o volume a ela dedicado na coleção Literatura Comentada (1980), e onde aparece As cerejas.

nota de agosto de 2013- Nilton Resende me informou que “O segredo”, de A noite escura e mais eu já havia sido publicado, numa versão anterior, no ESTADÃO, em 1961. Portanto, o conto não é um trabalho novo, mas uma nova versão de um texto mais antigo.

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ANEXOLista da produção contística de Lygia Fagundes Telles com a contribuição de cada título:

Praia viva (1944)

Além da estrada larga

Comício

Delírio

Flor de laranjeira

Há um grilo sob a janela

O avô

Paredes de vidro

Ponto número seis

Praia viva

Táxi, cavalheiro?

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O cacto vermelho (1949)

Confissões de Leontina

A estrela branca

A recompensa

Correspondência

Felicidade

Madrugada grotesca

Migra

O cacto vermelho

Olho de vidro

O menino

Os mortos

O suicídio de Leocádia

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Histórias do Desencontro (1958)

A ceia

A fuga

As cartas

A sonata

As pérolas

A testemunha

A viagem

Biruta

Eu era mudo e só

Ho-Ho

Natal na barca

O encontro

Um coração ardente

Venha ver o pôr-do-sol

Histórias escolhidas (1964)

As cerejas

O noivo

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O Jardim Selvagem (1965)

A caçada

A chave

A janela

A medalha

Antes do baile verde

Dezembro no bairro

Meia-noite em Xangai

O espartilho

O jardim selvagem

O tesouro

Uma história de amor

Um chá bem forte e três xícaras

Antes do baile verde (1971)

Apenas um saxofone

Helga

O moço do saxofone

Os objetos

Verde lagarto amarelo

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Jardim selvagem-2ª.versão (1974)

Gaby

O dedo

Seminário dos Ratos (1977)

A consulta

A mão no ombro

A presença

A sauna

As formigas

Herbarium

Lua crescente em Amsterdã

Noturno amarelo

O X do problema

Pomba enamorada ou Uma história de amor

Seminário dos ratos

Senhor Diretor

Tigrela

WM

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Filhos pródigos (1978)

A estrutura da bolha de sabão

Missa do galo

Mistérios (1981)

Emanuel

Negra jogada amarela

O muro

A noite escura e mais eu (1995)

Anão de jardim

A rosa verde

Boa noite, Maria

Dolly

O crachá nos dentes

O segredo

Papoulas em feltro negro

Uma branca sombra pálida

Você não acha que esfriou?

Lygia Fagundes Telles A noite escura e Mais eu capaINVENCAO_E_MEMORIA_1276798727P

Invenção e Memória (2000)

A chave na porta

A dança com o anjo

Dia de dizer não

Cinema Gato Preto

Heffman

História de passarinho

Nada de novo na frente ocidental

O Cristo da Bahia

O menino e o velho

Potyra

Que número faz favor

Que se chama solidão

Rua Sabará, 2000

Se és capaz

Suicídio na granja

Nota 1-  Em Histórias de mistério (2002) e O segredo e outras histórias de descoberta  (2012) aparecem dois textos não-arrolados acima, O gorro do pintor e Onde estiveste de noit

Nota 2- A lista acima foi elaborada com a ajuda valiosa do livro de Vera Tietzmann, Dispersos e inéditos: estudos sobre Lygia Fagundes Telles, do qual Nilton Resende gentilmente escaneou algumas páginas.

(escrito especialmente para o blog, em abril de 2013, em função dos 90 anos de Lygia Fagundes Telles, em 19 de abril)

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[1] Aliás, sempre é bom lembrar que na supressão das coletâneas mais antigas, perdemos belos títulos como Histórias do desencontro e O jardim selvagem.

[2] Para o meu leitor não ficar perdido, lembro que dividi as publicações de Lygia Fagundes Telles em duas categorias:

–as coletâneas realmente inéditas

__as antologias de si mesma (nesse sentido, Filhos pródigos & Mistérios não tinham um conto-título).

[3] E que, além disso, conseguiu estudá-la por vários anos, sem que isso comprometesse sua própria “voz” como autor, como provam os belos contos de seu livro Diabolô (2011).

[4] Nela, foram publicados:

A MEDALHA

-AS CEREJAS

-GABY

-O ENCONTRO

-DEZEMBRO NO BAIRRO

-O DEDO

-O NOIVO

-VENHA VER O PÔR-DO-SOL

-O JARDIM SELVAGEM

-A CAÇADA

-A CEIA

-O TESOURO

Na edição original de Jardim Selvagem, temos:

A MEDALHA

UM CHÁ BEM FORTE E TRÊS XÍCARAS

O ESPARTILHO

A JANELA

ANTES DO BAILE VERDE

A CAÇADA

A CHAVE

DEZEMBRO NO BAIRRO

UMA HISTÓRIA DE AMOR

O TESOURO

MEIA-NOITE EM PONTO EM XANGAI

O JARDIM SELVAGEM

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