MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/02/2014

Iris Murdoch como ensaísta e as «intimações dispersas do Bem»

A soberania do bemIris_Murdoch_1832272i

“Isso pode parecer uma reflexão bastante óbvia, mas a filosofia frequentemente é um meio de encontrar o contexto apropriado para dizer o óbvio.”

“Poderíamos dizer que a verdadeira moralidade é um tipo de misticismo não esotérico, tendo sua fonte em um amor austero e sem consolo pelo Bem.”(de A Soberania do Bem)

“David me encarou com os olhos arregalados, injetados.

__ E qual acha que será a consequência disso? Não, não. É melhor fazer a coisa errada pelas razões certas do que fazer a coisa certa  pelas razões erradas. Ah, o senhor não compreende…

    Mas eu compreendia muito bem. Podia ter ficado desesperado com a grande confusão do destino humano: aquelas insinuações semientendidas de certo e errado que nos levam, por estradas iluminadas pela luz crepuscular, para um ponto do qual não há retorno…” (de A moça italiana)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de fevereiro de 2014)

Há meio-século, em A moça italiana (1964), um de melhores romances de Iris Murdoch (1919-1999), o protagonista retornava contrafeito, devido à morte da mãe tirânica, para a casa onde fora criado e cuidado por uma sucessão de preceptoras italianas (as quais se confundiam em sua mente). Ali encontrava o resto da família (além da última na sequência de “moças italianas”) mergulhado num inferno de desatinos sexuais e crises passionais. Como o único que conseguira “escapar” do círculo, todos lhe pedem ajuda[1], mas falha de forma lamentável, fazendo um papel ridículo, ofuscado pelas aparências e intrigas nos bastidores. Enquanto isso, a última das preceptoras, pouco mais velha que ele, “figura de fundo”, espera que seu antigo discípulo consiga abrir os olhos e enxergar a realidade. E enxergá-la…

Simplifiquei bastante essa estranha e edipiana fábula[2], porém meu propósito era salientar uma ideia-chave em A Soberania do Bem [The Sovereignty of Good, 1971, que comento na tradução de Julián Fuks], reunião de três ensaios que a grande escritora irlandesa[3] publicara em periódicos nos anos 1960, paralelamente a uma profícua produção romanesca, e só agora publicada no Brasil: a de que o Amor (numa acepção fortemente ancorada em Platão) é a maneira correta de abrir os olhos  e escapar dos véus do autoengano.

Apesar da densidade das suas reflexões e de referências a pensadores anglo-saxões que mal conhecemos[4], a leitura nada tem de árdua, pois Iris Murdoch se vale daquela forma eficaz que é o ensaio oriundo de uma palestra ou conferência (lecture). Ou seja, já no nascedouro há a exigência da comunicabilidade, da limpidez da apresentação, com aqueles recursos fáticos que garantem o ritmo do encadeamento reflexivo: “Permitam-me agora tentar explicar…”; “Vamos pisando com cuidado aqui…”; “Podemos neste ponto parar e considerar o quadro da personalidade humana, da alma, que vem emergindo…” São exemplos que mostram o interlocutor sempre presente no horizonte do discurso. Nada daqueles textos cifrados e autistas à Deleuze & Althusser, que entraram na moda justamente naquela época.

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O primeiro ensaio, A Ideia de Perfeição (1964)[5], questiona concepções da vontade e da liberdade que ela engloba como visão existencialista-behaviorista, como se nos movimentássemos numa ausência de fundo moral, únicos responsáveis por nossas escolhas[6]. Contra esse fuliginoso mundo psíquico, ela propõe uma moralidade da atenção[7], uma tarefa infinita da consciência quanto à percepção dos outros e dos fatos exteriores. A “liberdade”, tão importante na filosofia moderna, não seria um “salto súbito da vontade isolada para dentro e para fora de uma  lógica complexa e impessoal”, pois é sobretudo “uma função da tentativa progressiva de ver um objeto específico com clareza[8]. Daí a visão do Amor como conhecimento do indivíduo, um olhar que enxerga de fato e não apenas projeta fantasias. Para tanto, precisamos recuperar o papel de agentes morais ativos. A imaginação moral permite que almejemos o Bem, o ideal de perfeição.

Em Sobre Deus e o Bem (1969; infelizmente na tradução se perde o jogo verbal do título original On God and Good), ela lamenta o vazio deixado pelo recuo da filosofia moral com relação a outras disciplinas (psicanálise, teoria social).  Apertando ainda mais o nó da reflexão anterior, surge a espinhosa questão: “Como é um homem bom? Como podemos nos tornar moralmente melhores?” Na falta da perspectiva religiosa, como cultivar tal objetivo, sem sermos tapeados?:

“A noção de que ´tudo de alguma forma tem que fazer sentido´ protege do desespero: a dificuldade está em como aceitar essa noção confortante de um modo que não seja falso. No instante em que qualquer ideia se torno um consolo, a tendência a falsificá-la ganha força…”

   Daí a sua dedicação em explorar (com a espinhosa dificuldade de conceitos tão deturpados ou desgastados[9]) os caminhos para a “excelência moral” e a “transcendência”: “O Bem está sempre além, é desse além que ele exercita sua autoridade”[10]. Como parecem questões recônditas para os voláteis tempos atuais, e como no entanto elas são cada vez mais urgentes! Em todo caso, esse segundo ensaio me parece o coração do livro.

No último, A Soberania do Bem Sobre Outros Conceitos (1967),  ela retoma mais explicitamente Platão (o seu célebre mito da caverna ganha toda uma fisionomia moral) e procura definir seu conceito de Bem e suas “intimações dispersas”, se estivermos dispostos a olhar para “fora do eu”.

Para quem não é atraído (antes o contrário) pela religião, para quem despreza as táticas de melhora instantânea da autoajuda, mas tenta se pautar (e se angustia com constantes tropeços) por um procedimento que a partir de agora não terá mais medo de chamar de “moral”, A Soberania do Bem é uma bússola e tanto no mar da desorientação contemporânea: “O Bem não tem nada a ver com propósito; na verdade, ele exclui a ideia de propósito. Tudo é vaidade é o início e o fim da ética. O único modo genuíno de ser bom é ser bom ´para nada´ no meio de um cenário em que cada coisa natural, incluindo nossa mente, está sujeita à mudança, isto é, à necessidade”.

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[1] “Também estava claro, agora, que  eu não podia ir embora. Era um prisioneiro da situação. Antes, naquele mesmo dia, vagando num estado de lassidão sem propósito, ficara fortemente tentado a partir (…) Não havia nada que pudesse fazer por aquela gente. Entretanto, por ardente que fosse o meu desejo de partir, e embora achasse que devia voltar ao meu mundo simples antes que alguma coisa pior me acontecesse, sabia que não podia. Era meu dever ficar: aquela palavra desagradável me prendia ali. Mas não era só isso. Percebi, alarmado, que queria ficar, mesmo. Estava me tornando uma peça da máquina.” (utilizo, nas citações de A moça italiana, a tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva, retiradas da edição do Círculo do Livro, s/d).

[3]  Ela também lecionou filosofia em Oxford por anos a fio e foi aluna de ninguém mais ninguém menos do que Wittgenstein.

Acho que todos se lembram do filme Iris (2001), dirigido por Richard Eyre, que retrata sua vida (especialmente os terríveis anos finais), com uma magnífica Judi Dench e a não menos gloriosa Kate Winslet vivendo a jovem Iris Murdoch.  O admirável Jim Broadbent,  como John Bayley, o marido, ganhou o Oscar como coadjuvante.

[4] Hampshire, Moore, Hare, Ryle, Ayer, Austin, etc…

[5] E segundo a autora, no Prefácio, baseado numa palestra de 1962.

[6] “A imagem do homem que esbocei anteriormente me parece tanto estranha quanto implausível: tenho objeções empíricas simples (não acho que as pessoas sejam necessária ou essencialmente assim), tenho objeções filosóficas (não acho os argumentos convincentes), e tenho objeções morais (não acham que as pessoas tenham que se ver dessa maneira).”

[7] Além de Platão, há o peso do pensamento de Simone Weil.

[8] “Isso não implica que não sejamos livres, absolutamente. Mas implica que o exercício de nossa liberdade é algo que se dá aos poucos e de modo fragmentário o tempo inteiro, e não um salto grandioso e desimpedido em momentos importantes. A vida moral, nessa visão, é algo que se dá continuamente, não algo que se desliga entre as ocorrências das escolhas morais explícitas. O que acontece entre essas escolhas é, na verdade, o que há de mais crucial…”

[9] “A ideia de contemplação é difícil de entender e manter em um mundo cada vez mais desprovido de sacramentos e rituais, e no qual a filosofia tem (em muitos aspectos corretamente) destruído a velha concepção substancial do Eu. Um sacramento oferece um lugar externo e visível para um ato interno e invisível do espírito. Talvez seja necessária também uma analogia do conceito de sacramento, embora isso deva ser tratado com grande cautela. A ética behaviorista nega a importância, pois questiona a identidade de qualquer coisa anterior ou separada da ação que ocorra decisivamente ´dentro da mente´. A apreensão da beleza, na arte ou na natureza, muitas vezes parece de fato uma experiência espiritual localizada no tempo que é fonte de energia positiva. Não é fácil, contudo, estender a ideia dessa influente experiências a ocasiões de pensamento sobre pessoas ou ações, uma vez que a clareza de pensamento e a pureza da atenção se tornam mais difíceis e mais ambíguas quando o objeto de atenção é algo moral…”

 [10] “O principal inimigo da excelência  na moralidade (e também na arte) é a fantasia pessoal; o tecido de desejos e sonhos autoenaltecedores e confortantes que nos impedem de ver o que há fora de nós. Rilke disse sobre Cézanne que ele não pintava o gostei, ele pintava o aí está. Isso não é fácil e exige disciplina, na arte ou na moral.”

murdoch,iris

moça italiana

23/01/2011

A ESCOLA DA POSSIBILIDADE

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-iii-quatro-ases-e-um-coringa-de-tolstoi/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-i-o-pregador-evangelico-e-o-diabo-fabulador/

https://armonte.wordpress.com/2013/04/24/o-escritor-limite-ii-tolstoi-em-capsulas/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/15/um-livro-total-a-ficcao-mais-verdadeira-que-a- vida/

https://armonte.wordpress.com/2010/11/24/caucaso-cosmo/

Já afirmei que Tolstói é um escritor perigoso de se ler, pois parece demarcar o limite do que se pode dizer com palavras. Por isso, a sensação (exagerada, é claro) de que qualquer outra leitura fica sem graça, empalidece, diante da obra desse que talvez seja o autor supremo. Um dos exemplos cabais dessa afirmação é A morte de Ivan Ilitch, que a 34 lançou recentemente, o que se mostra bem conveniente no momento em que a Record reedita o importantíssimo A negação da morte, de Ernest Becker.

É quase chocante ver a ausência da novela de Tolstoi num ensaio tão abrangente sobre o terror da morte que embasa a nossa existência. Aproveitando o ensejo, o único reparo grave que pode ser feito a um livro admirável é a mediocridade das referências literárias ou filosóficas, revelada por citações de segunda mão ou observações empobrecedoras.

Dentro da perspectiva de Becker (de que até o caráter é uma construção mentirosa destinada a fazer esquecer um terror que poderia nos enlouquecer), o pai da psicanálise é o grande pensador dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855). Este opunha possibilidade (ou seja, um universo basicamente apavorante e esmagador) e necessidade (o mundo que construímos à nossa volta, mentiroso e trivial). A vida “normal” seria o filistinismo, a acomodação. Becker: “Kierkegaard teve um vislumbre da liberdade para o homem. Não tinha uma idéia fácil do que a ‘saúde’ é. Mas sabia o que ela não era: não era um ajustamento norma. Ser um indivíduo normal é, para Kierkegaard, ser doente. A saúde mental é algo muito além do homem, algo a ser atingido e pelo qual se deve lutar, algo que leva o homem para além de si mesmo.”

O homem é o animal paradoxal, consciente de si mesmo, ridiculamente emparedado na condição de criatura mesmo possuindo uma vida simbólica: “Este é o horror: ter surgido do nada, ter um nome, consciência de si mesmo, profundos sentimentos íntimos e apesar de tudo isso, morrer. Parece uma mistificação. Que tipo de divindade iria criar um alimento para vermes tão complexo e caprichoso?”

Esse “impasse” é o elemento crucial para que se entenda que há uma “escola da angústia”, na qual o currículo é a desaprendizagem da repressão, de tudo aquilo que ensinamos a nós mesmos a negar para podermos viver na necessidade sem os perigos da possibilidade. Esse reaprendizado nos salvaria também dos distúrbios que resultam de um desajustamento a essa máscara social (esquizofrenia, depressão, psicose).

Educação, nesse caso, significa enfrentar nossa impotência natural e a finitude. É a salvação pelo desespero, o morrer para renascer, a transcendência, enfim (e, no caso de Kierkegaard & Becker, há o salto para a fé, a ligação entre esse profundo desmascaramento da psicologia da humanidade com a religião).

E é na escola da angústia que Ivan Ilitch acaba matriculado, graças a uma doença que se desenvolve misteriosamente e que o segrega da sociedade. Ele, que sempre procurara viver comme il faut, ou seja, dentro da conveniência e decência, descobre a mais terrível solidão: a consciência de que morrer também acontece com a gente, que não adianta nenhuma racionalização ou sentimentalismo. Mas ao se deparar com a verdade, descobre que a morte, ao fim e ao cabo, era a vida que ele vivia.

A obra-prima de Tolstói não consola, não aplaca nenhum terror ou angústia. É uma lição concisa do máximo que a literatura pode fazer por nós: confrontar-nos com nossa mortalidade e abrir nossos olhos. Ou seja, tirar-nos da necessidade e nos jogar no meio da possibilidade.

(resenha publicada em três de fevereiro de 2007)

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