MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/04/2012

Jesus Cristo e o entrechocar de espadas

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de março de 1995)

Um leitor mais injuriado poderia acusar o selo “Nova Era” da Record de propaganda enganosa. Na capa traseira de A prova do labirinto (La prueba del laberinto,  Espanha- 1992, em tradução de Luísa Ibañez), de Fernando Sánchez Dragó, afirma-se que ele “conta a história de um detetive de 53 anos, obrigado pelos deuses, pela Confederação de Forças do Além e pelas circunstâncias a partir em busca de Jesus de Nazaré, pregador  judeu que desapareceu misteriosamente no 33º. Ano de nossa Era”. Ainda, segundo a editora, “há mistério, viagens, tensão, incerteza, emboscadas, pessoas boas e más, mulheres bonitas e mulheres piedosas, traidores, exotismo, ocultismo, tiranos, lutas políticas e religiosas, entrechocar de espadas (sic), conspirações, Reis Magos, leprosos, prostitutas, adúlteras, amor, dor, morte e até mesmo uma ressurreição”!!!!!!???????Ufa!

Parece muito para um livro só? E é, claro. Há algumas (poucas) obras que parecem conter a vida inteira: Guerra e Paz, de Tolstoi, é um exemplo, e mais ocntemporâneamente, tivemos A cidade de quatro portas ou Shikasta, de Doris Lessing. Mas o problema com A prova do labirinto é que se promete não apenas muito,  como também o que não está no livro. Tirou-se um trecho de seu contexto e falseou-se totalmente a expectativa do leitor com relação a uma narrativa decerto divertida, simpática. E também extremamente narcisista.

Dragó conta a história de Dionisio, escritor resolvido a não mais publicar e que, todavia, é pressionado por seu editor a se lançar numa pesquisa sobre a vida de Jesus. Por coincidência, esse era justamente o mais íntimo e genuíno projeto da vida de Dionisio, típico representante dos anos 1960 e que vê no retorno ao Cristo (desvinculado dos dogmas da igreja) a última opção, após passar por todas as experiências daquela década mágica e constatar que o mundo dos anos 1990 naufraga cada vez mais no materialismo, num proto-fascismo e no fundamentalismo fanático.

No que se refere aos anos 1960, o livro de Dragó chega a ser imperdível. Passa em revista os caminhos percorridos: drogas, xamanismo, Castañeda, liberação sexual, filosofias orientais, práticas meditativas, ioga; tanto que, para firmar sua decisão de ir a Jerusalém, consulta uma especialista em tarô (uma longa e interessante cena), o I-Ching, e, pasmem, os seus próprios livros, que ele se encarrega de citar, além de se referir amiúde a um grande amigo, o próprio Fernando Sánchez Dragó! Nem Woody Allen cavoucou tanto o próprio umbigo!

Já no que se refere a Jesus, as coisas são mais complicadas e, a partir da viagem, A prova do labirinto degringola, aborrece, enche lingüiça. E prova definitivamente que toda experiência mística é individual, intransferível por definição, isto é, a não ser em raríssimos casos, não dá para outrem afiançar sua veracidade, por mais simpatia que desperte. É por essa razão que 99% da literatura esotérica (e está se falando aqui da bem-intencionada) falha.

Dragó, pelo menos, tem uma sensibilidade literária um pouco mais apurada que a média (e é mais um autor que tem uma dívida com Borges, já a partir do título) e mostra que na literatura espanhola do gênero há vida mais inteligente do que a transmitida pela carreira, digamos, literária, de J.J. Benítez, o pretensioso e enfadonho autor de outra escavação da vida de Cristo, Operação Cavalo de Tróia, que (pelo menos o primeiro volume, parabéns para quem conseguiu ler os outros) é uma tortura de perda de tempo e chatice cujo único similar talvez seja uma sessão dupla e sem intervalos de Mary Poppins com My fair lady.

De todo modo, como reinvenção da figura de Cristo, o livro de Sánchez Dragó é pífio. Aparecem, contudo, algumas “emboscadas” e algumas “conspirações”, tal como prometido pela editora. Quanto ao “entrechocar de espadas”, só se ela estiver se referindo a uma passagem em que o narrador cinquentão risivelmente resolve liberar sua porção mulher que até então se resguardara numa experiência gay que eu não consigo sequer descrever, mas que é considerada por ele uma escala essencial no seu encontro com o “homem de Nazaré”. Ou, segundo as conclusões do relato, com “o homem do Egito”. Que seja. Pouco importa.

10/07/2010

Nacionalidade chilena, autenticidade literária paraguaia

  

Em De amor e de sombra (1984), a não ser em alguns detalhes inócuos e inúteis, Isabel Allende livrou-se da carga do realismo fantástico e de sua tendência a imitar ineptamente Gabriel García Márquez que marcavam seu primeiro romance, A casa dos espíritos (1982). Nem por isso o livro deu certo. Nele, conta-se a história do casal Irene-Francisco: ela, jornalista; ele, seu assistente-fotógrafo. Ao investigarem o desaparecimento da camponesa Evangelina, após detenção para interrogatório, eles descobrem, em uma mina abandonada, cadáveres de pessoas eliminadas pela ditadura de Pinochet. Essa descoberta completa a educação político-sentimental de Irene por Francisco, fazendo com que ela abra os olhos para o que acontece no país, ao contrário da mãe, e faz com que ela desperte para o amor, embora quase morra por isso (é alvo de um atentado).

     Allende tem história para contar. Tem elementos de sobra para emocionar o leitor. Seu problema básico é  a seguinte frase, que aparece em Eva Luna: “Também procuro viver a vida como gostaria que fosse…como uma novela”. E é quase numa telenovela que ela transforma De amor e de sombra, realçando os defeitos de folhetim que atrapalhavam A casa dos espíritos, e que já a barravam como candidata a preencher o vácuo de nomes femininos na projeção internacional que a literatura hispano-americana alcançou nas últimas décadas.

     Deparamo-nos com um estilo irremediavelmente cafona, com personagens apresentados da maneira mais esquemática possível, como se ela tivesse de escrever um pequeno relatório sobre cada um, com seus complexos psicológicos e seus problemas existenciais. Não é o conteúdo das histórias de cada um que é fraco, e sim as formulações da autora chilena. Isso faz com que o comportamento de Irene e Francisco às vezes se assemelhe aos personagens da série juvenil Vaga-lume, à cata de aventuras. O peso trágico que se abate sobre eles depois (e faz da terceira e última parte a melhorzinha do livro) nunca parece adequar-se aos personagens. Todos os defeitos que chocaram na adaptação cinematográfica já estão no romance.

     Eva Luna (1987) é pior ainda. E é mais pretensioso. Lendo o primeiro capitulo, parece que ele saiu da gaveta de rascunhos de García Márquez. Portanto, De amor e de sombra fora apenas um interregno dessa emulação irritante. Depois, vai ficando claro que Allende, apesar dessa mania, gosta mesmo é de contar simples histórias, gosta de introduzir personagens novos e anedotas sobre eles.

     É isso que acontece ao longo do romance inteiro, histórias unidas pelas trajetórias da órfã Eva, filha da criada de mumificador de cadáveres, e de Rolf, um imigrante austríaco, os quais vão se conhecer em meio a guerrilhas, revoltas estudantis, repressão militar e muitos fatos anedóticos e bizarros. E tudo contado num estilo de telenovela; não, pior ainda, de radionovela. E dessa vez não há nem os honestos esforços de variar o tom e o estilo, como em De amor e de sombra (que, mesmo assim, resultou bastante fraco). Se Allende fosse norte-americana, ela seria considerada do mesmo naipe de autores de best seller. Seria uma Danielle Steel ou uma Bárbara Taylor Bradford da vida. Como é latino-americana e seu pano de fundo são as ditaduras militares (o que sempre congrega nossos melhores sentimentos de revolta e repúdio a quaisquer formas de repressão institucionalizada) ela parece que tem algo mais a oferecer. Não tem.

    Em matéria de trajetórias de vida ao longo de décadas (como acontece em A casa dos espíritos e Eva Luna), ela tem muito a aprender com John Irving, autor de O mundo segundo Garp, Hotel New Hampshire & o soberbo As regras da casa de sidra, e com Salman Rushdie, autor de Os filhos da meia-noite & O último suspiro do mouro. Ambos são políticos, profundos, engraçados, caleidoscópicos. E excepcionais contadores de histórias.

(resenha publicada, com ligeiras alterações, em 4 de junho de 1996)

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