MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

07/06/2013

Uma irremediável lentidão existencial: “O homem que se atrasava”, de Louis Begley

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de julho de 1994)

Até agora, O homem que se atrasava (The man who was late, em tradução de Anna Olga de Barros Barreto para a Companhia das Letras) é o mais expressivo lançamento de ficção contemporânea em 1994. Em grande estilo, narra-se a trajetória de Ben, judeu que escapou da Europa destruída pela Segunda Guerra e transformou-se, após rápido processo de americanização, num homem de negócios cosmopolita, vítima porém de “irremediável lentidão existencial”, como confirma Jack, o narrador e seu maior amigo.

Por que Ben, tão bem sucedido nos negócios e com as mulheres, considerava-se “atrasado”? A resposta a essa questão e mais o desajeitado envolvimento dele com Véronique, prima de Jack, na França, formam o centro do romance de Louis Begley.

O próprio fato de Jack ser o narrador demonstra que o “atraso” de Ben é fruto de seu desenraizamento: ele vive as “boas coisas da vida” (no sentido capitalista da expressão, bem entendido), entretanto seu passado e sua condição pessoal fazem com que elas tenham gosto de cinzas, como se houvesse chegado tarde demais, quando o vazio já se instalou, de forma que o resto da existência é tomado pela ânsia de fugir da rotina e da aridez de sentimentos.

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O homem que se atrasava (publicado em 1993, nos EUA) lembra sutilmente, apesar das muitas diferenças, O grande Gatsby, o clássico de Fitzgerald (que, aliás, precisa ser reeditado; está há anos fora de circulação) sobre o materialismo e o vazio no imaginário americano após a Primeira Guerra, condensados na abrupta trajetória de Jay Gatsby, o qual também chega tarde demais a uma pretensa vida festiva, também observado ambiguamente por um narrador mais pobre e que no entanto, pelas suas origens, pode ser admitido naturalmente nas altas rodas.

No livro de Fitzgerald (publicado em 1925) ainda subsistia um fundo idealista e ecos românticos. A Segunda Guerra, a Guerra Fria e a consumação da “aldeia global” fazem do Gatsby de Begley (que ainda por cima é imperdoavelmente judeu) um personagem mais dramático, mais afrontado pelo absurdo da existência, e mais ansioso pelos simulacros do sucesso e bem-estar. A trajetória de Jay Gatsby, com todos os conflitos internos, só poderia ser detida de fora, através do assassinato. A interrupção da trajetória do homem que se atrasava, por sua vez, só poderia ser interna, advir do suicídio. Toda uma (melancólica) derrocada civilizatória insinua-se nessa diferença de finais trágicos.

Mas antes do final há ainda um intervalo no Rio de Janeiro e em Angra dos Reis, uma das melhores passagens da narrativa, mostrando a perspicácia e acuidade do estilo e visão do mundo de Begley. É no mar do Rio que Ben tem o vislumbre do seu destino: “Exceto pelo pensamento nos tubarões, que tentou afugentar da consciência, começou a sentir um grande medo e imenso regozijo. O que aconteceria se se cansasse e se afogasse: seria possível isso ocorrer num cenário mais paradisíaco do que este? Uma pequena ponta da cortina que esconde a vida futura pela qual não se espera estava sendo levantada. Sempre gostara de sair de festas em seu auge, quando a pista de dança está repleta, antes que o cansaço da madrugada descompusesse os rostos dos anfitriões…”

E assim, ao atributo de homem atrasado soma-se o de homem prematuro, que precipitou-se para a morte antes de se deixar transformar pelo sofrimento e pela solidão. E junto com Paul Auster, autor de A música do acaso & Leviatã, outro especialista em trajetórias desesperadas e desesperadoras, Louis Begley revela-se o grande talento da moderna prosa de ficção norte-americana.

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