MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/11/2011

ÁCIDO NO LICOR DE LARANJEIRA: “Pau-de-arara: classe turística” e “Livro que vende”, de Regina Rheda

     Quem não conhece pelo menos uma pessoa deslumbrada com o Primeiro Mundo, alucinada com a possibilidade de viver no estrangeiro? Quem não conhece alguém louco para transar (ou até casar) com um gringo? Quem é que nunca sentiu uma ferroada do sentimento de inferioridade por viver no Terceiro Mundo e que viu brilhando com néon na noite do subdesenvolvimento as luminosas palavras PRIMEIRO MUNDO acenando como promoção na vida? Pau-de-arara: classe turística, de Regina Rheda, é o documento definitivo sobre o surto emigratório dos brasileiros em busca de uma vida melhor no estrangeiro.
      Trata-se de um livro de aventuras. Sua heroína, Rita Setemiglia, nunca mais sai da cabeça de quem a conhece. Isso não é novidade para quem leu a coletânea de estréia de Rheda, Arca sem Noé, pois se a autora paulista consegue em poucas palavras e alguns traços característicos criar personagens memoráveis, como nos contos daquele livro, imagine então uma heroína que sai do Brasil e vive peripécias na Inglaterra e na Itália por duzentas páginas!
Sovina Rheda! Por que apenas duzentas? Por que deixar o leitor nesse estado, querendo mais Rita Setemiglia?! Se o romance tem algum defeito é o de acabar muito rápido.
       Em Londres, em meio a perversões sexuais de uma patroa portuguesa, uma paixonite pedófila pelo filho imberbe de outros patrões (ela se transforma numa au pair), transas hilariantes pelas british nights, nas quais pubs, jaquetas, blues e artistas performático-alternativos (e muitos imigrantes) se misturam, Rita tem crises de auto-estima: atravessou o oceano, é formada pela USP, cineasta, seu inglês é o da Cultura Inglesa, e ela está passando pelas mesmas humilhações, tendo o mesmo destino de todos os brasileiros obscuros: a total insignificância. Não importa que a pessoa seja “descolada”, que se dê (ou dê) um pouco melhor, ela sempre é imigrante e veio do Terceiro Mundo.
         Rita, no entanto, tem por trás de si uma escritora que é um twister não registrado por nenhum sismógrafo, mas que varre do mapa qualquer concepção politicamente correta (mostrando pensamentos que todos temos em certas situações, sem que tenhamos coragem de confessar), qualquer deslumbramento. Não poupa ingleses, italianos, brasileiros, deslumbrados ou descolados, e nem a própria heroína, irresistível por certo, porém egoísta e maldosa, escrevendo cartas para uma amiga onde fala mal de outra, e pedindo para pular o “trechinho” se porventura ler para a vítima a missiva.
       Só que ela é engraçada demais. Veja-se um trecho da carta em que descreve os Blakemore, pais do “potro” Brian, com sua crina loura e a calça de uniforme que ressalta o “incipiente rochedo” (e para o qual, num momento de despeito, ela prevê que o tempo o transformará , “a exemplo do pai, num suado pangaré”):
       “Você não acredita na imundície que são as calcinhas da patroa e as cuecas do marido… A máquina chacoalha, lava, esfrega, perfuma, depois enxuga e seca, e devolve quase todas as peças limpinhas, menos as calcinhas e cuecas da sra. e do sr. Blakemore, que continuam encardidas. Porque ali, minha filha, nem a mão do Cristo Redentor consegue resolver. Nem Nossa Senhora, pondo para quarar entre as nuvens do céu, e tão pertinho do sol, faz o milagre de limpar aquelas porcarias… O sr. Blakemore, então, parece que tem um vazamento no fiofó…”
      E, na Itália, quando resolve economizar na alimentação e procura uma entidade que ajuda os necessitados, misturando à massa que espera ser atendida. Espera?!!!:
      “… eles se comportavam como macacos agarrados à jaula e gritando por comida. Mas me meti no meio deles, fazer o quê? Não podia dar uma de pobre orgulhosa. Consegui agarrar uma barra da grade e ali fiquei, esticando o braço com o passaporte na mão. Senti cheiro de cecê, chulé e mau hálito. Fiquei com tanto medo de pegar piolho da pobraiada que meu couro cabeludo começou a coçar… Mais tarde, fiquei sabendo que a pobraiada era formada por africanos, marroquinos, filipinos e ciganos poloneses”.
      O leitor ri bastante durante a passagem do tornado Rheda, só que descobre, a seguir, que nada ficou em pé à sua volta. É uma comédia da vida privada, só que muito melhor do que aquelas historietazinhas insossas de Luiz Fernando Veríssimo, as quais apenas alimentam o bicho-preguiça mental que a televisão embala como uma “au pair” dentro de nós.
          É pena que a respeito de um livro tão maravilhoso e devastador, o que se tenha a falar será sempre pouco e insuficiente. Só a parte da estadia de Rita numa aldeia italiana com o nome impagável de Gentiluomo Calabrese já merecia uma resenha à parte, bem como toda a descrição do mundo feminino, que mostra o olhar agudo e implacável com que Rheda observa o mundo. Das amigas que ficaram no Brasil às inglesas esnobes ou complacentes, da baiana que se descola na Europa à feroz matriarca calabresa, todas as mulheres desse romance picaresco compõem uma galeria de quadros onde se roçam o hilário e o grotesco.
      E já que o deslumbramento com o Primeiro Mundo dá o tom desta resenha, o autor pede licença para roubar as palavras de John Leonard, crítico do New York Times, utilizou para caracterizar Anne Tyler, autora de O turista acidental:
       “Fascinante, graciosa, curiosa, com ouvidos de radar e a pena mergulhada em ácido numa página e em licor de laranjeira na seguinte, uma escritora maravilhosa”.
           Palavras que, aqui no Terceiro Mundo, cabem como uma luva para Regina Rheda.
          Na sua bagagem de volta da Europa, Rita Setemiglia traz (às custas do desejo impossível de ser de um Primeiro Mundo que será sempre estranho a nós e o qual, ele mesmo, esboroa-se visivelmente) preciosas divisas para a inteligência nacional.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de setembro de 1996, e aqui ligeiramente modificada)


PARÃMETROS EXTRACURRICULARES


       Livro que vende, de Regina Rheda, nos deixa insatisfeitos no final da sua leitura. Pela avareza da autora. É a mesma reclamação que fiz com relação a Pau-de-arara: classe turística (seu maravilhoso romance anterior; e ainda temos as duas coletâneas incríveis, Arca sem Noé & Amor sem-vergonha): por que sonegar tanto seu talento, por que apenas 174 míseras páginas de trama?
Pois certamente não se trata de fôlego curto: esse novo texto, o mais complexo que já publicou até agora, é superpovoado de personagens, fragmenta várias linhas narrativas, compondo um mosaico que, inclusive, experimenta diversos procedimentos (incluindo um longo “poema de cordel”, o Rockordel, ao final), o que naturalmente traz dificuldade para comentar um material tão rico e variado, com a marca da prosa anárquica e cruel que vem se destacando em nossa ficção nos últimos dez anos (em 94 foi lançado Arca em Noé).
          Então, a solução é dar uma idéia desse livro original apenas perseguindo um dos fios da sua meada, justamente o que justifica o título (um tanto sem apelo, é preciso dizer): a disputa ente dois autores de coleções didáticas da editora Tornatore, Sandoval Cafeteira e Liamara Minestrone:
       “Dez anos de trabalho consistente junto à Tornatore, e a professora Liamara Minestrone nunca tinha recebido qualquer sinal de reconhecimento por parte da direção. Naquela editora se dava melhor quem fosse mais incompetente. Para Sandoval Cafeteira, por exemplo, notório imbecil, preguiçoso, prepotente, pagavam sete pareceristas, contratavam o planejador gráfico de fora, investiam até em ghostwriter. Já para dona Liamara, professora e autora séria e criteriosa, que entregava a obra praticamente pronta, escrita, reformulada e atualizada de próprio punho, davam o pior copidesque, os pareceristas mais mercenários e negligentes. Se dona Liamara não ficasse de olho, era capaz até de o Douglas roubar meia hora das reuniões com ela para aumentar o tempo de reunião com Cafeteira”.
        Após várias peripécias (entre elas, o envolvimento de Cafeteira com sua copidesque, Maritza Santacatarina, uma espécie de versão mais despudorada da inesquecível Rita Setemiglia de Pau-de-arara: classe turística; e seu casamento com a filha adolescente de Douglas, o editor), o despeito de dona Liamara (com sempre, o mundo de Rheda é povoado de nomes maravilhosos) atinge o auge quando, na suprema farsa da Educação dos últimos anos, a dos Parâmetros Curriculares e os subseqüentes livros recomendados pelo MEC, por se adequarem a eles (leia-se o jogo de interesses de editoras poderosas, tais como a Ática, Scipione, Saraiva ou Moderna, ditando a adoção de suas coleções), a série “A Magia da Ciência”, de Cafeteira, recebe três estrelas, ficando apenas duas e meia reservadas à da dedicada professora Minestrone, “Gramática com Alegria” (esse nome da coleção já valeria o livro, não?). Ela, então, furibunda, resolve sabotar (com a ajuda de um cúmplice, copidesque carola da Tornatore que odeia Cafeteira & Maritza) um dos experimentos sugeridos em “A Magia da Ciência”.

        O livro que vende se torna uma arma, ao deixar crianças com rostos e mãos em carne viva, o que tumultua transações multinacionais (a Tornatore está prestes a ser vistoriada por executivos americanos), expondo a figura de Maritza (que morreu no início da história) e o misterioso “Rockordel”. Mas qual é, realmente, o livro que vende? Apesar das duas estrelas e meia, a “Gramática com Alegria” de dona Liamara se torna o best seller didático, com três milhões de exemplares vendidos. Isso não importa: a experiência explosiva já foi camuflada no livro de Cafeteira e o estilo insidioso, corrosivo, impiedoso de Regina Rheda já entrou em ação para deixar as mãos e rostos de qualquer sentimentalismo ou complacência em carne viva. Cristo pode estar na veia das bandas religiosas moderninhos (ah! isso, e muito mais, aparece no romance também), só que cada um está por si e Deus contra todos. Bendita Rheda.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de abril de 2004, aqui ligeiramente abreviada)

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