MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/10/2013

O(s) Peru(s) de Lituma (Vargas Llosa- Apetite pela totalidade IV)

 

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A literatura não é uma ciência lógica, por isso a figura de Mario Vargas Llosa propõe essa estranha e desconfortável equação: uma personalidade pública que jamais conseguiria meu voto, quanto mais minha admiração, a julgar pela sua plataforma política, afeita à untuosidade do neoliberalismo, e um escritor absolutamente admirável.

O  mais recente romance desse dr. Jekyll & mr. Hyde da América Latina, Lituma nos Andes, reaproveita um dos inconquistáveis, o grupo de amigos cujas conversas eram um dos múltiplos planos narrativos do maravilhoso A Casa Verde (1965), ambientado no litoral e na selva. Agora, o cabo Lituma (também presente em Quem matou Palomino Molero?, de 1986) está em Naccos, lugarejo que continua a existir devido à difícil construção de uma estrada. Esses ermos, essas alturas andinas, já haviam derrotado o protagonista de História de Mayta (1984), o último projeto ambicioso de Llosa antes de Lituma, e que aliás causou polêmica e reações negativas, mas mantém intacta sua força dez anos depois.

Lituma e Tomasito, seu auxiliar, averiguam o sumiço de três sujeitos que poderiam ter sido executados por guerrilheiros do Sendero Luminoso (os “terrucos”) ou, como vai ficando mais provável (ainda que implausível), sacrificados aos “apus”, antigos espíritos dos cerros, numa conspiração orquestrada pelo depravado e sinistro casal de cantineiros, Dionísio e Adriana.

Aprofundando ainda mais o painel romanesco que vem compondo do Peru (com dimensão universal) desde Batismo de fogo(1962), Llosa mostra ironicamente como Lituma, “autoridade oficial” em Naccos, é um arremedo da lei e da ordem em meio ao caos, andino e cósmico: uma paisagem avassaladora, que pode desmoronar a todo instante (o que de fato ocorre, numa das melhores passagens do romance); uma luta política que vitima até incautos turistas franceses; uma ritualização da violência e da animalidade, que remonta aos mais primevos costumes humanos. Não à toa, Dionísio tem o nome do deus grego da embriaguez e do desregramento cujas festas e carnavais foram a origem da tragédia.

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Em Lituma nos Andes tudo é degradado, há uma paródia do mítico e do aventuresco: até o relato (um dos muitos que compõem o romance) da ação heróica do primeiro marido de Adriana, Timóteo, que liberou o povoado dela de um “pishtaco” (uma modalidade andina de vampiro) e que poderia lembrar as façanhas de um Teseu ou Perseu, fica deformado pela escatalogia, pois ele marca seu caminho no antro do monstrengo não com um fio de ariadne ou qualquer outro dos nobres recursos mitológicos, mas com seus próprios excrementos.

Está em discussão, na verdade, utilizando o avassalador isolamento andino, é a derrocada da frágil razão ocidental diante do irracionalismo e de uma crescente barbárie, concomitantemente à falência das grandes ideologias universais. Tudo é equacionado pela violência, tão opressiva e atordoante no livro quanto a paisagem. Llosa não nos poupa nem do canibalismo, passando por um terrificante massacre, efetuado pelos “terrucos” de vicunhas, os adoráveis e espertos (e muito malfadados) bichinhos que servem para alguns imbecis espécimes da raça humana ostentarem uma sanguinolenta elegância, e por uma frenética dança na qual o momento triunfal consiste em arrancar cabeças de patos vivos.

As conversas constituem boa parte da narrativa e evidenciam, claro, a marcante influência de Faulkner, mestre no recurso. Pode-se até argumentar que o grande escritor peruano está repisando esse e outros artifícios narrativos que fizeram de Conversa na Catedral (1969) um dos grandes romances do século. Não importa: Lituma nos Andes vai crescendo na leitura e na memória  deixando no ar a dúvida se é a porção Jekyll ou a porção Hyde que engendra esses romances perturbadores e poderosos.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em treze de setembro de 1994)

 VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/o-peru-de-pantaleon-pantoja-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-ii/

https://armonte.wordpress.com/2013/10/25/varios-romances-num-so-conversa-na-catedral-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-i/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/09/dramalhao-e-vocacao-literaria-vargas-llosa-apetite-pela-totalidade-iii/

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