MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

14/08/2018

UM ROMANCE PARA TODAS AS PREMIAÇÕES: “DESAMPARO”

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 14 de agosto de 2018)

“DESAMPARO relata o povoamento do sertão de São Paulo. Admiravelmente, Fred di Giacomo foge do clichê de focar o tema numa única família e dá vida a diversos clãs que, a princípio, espalham-se de forma errática, com alguns conflitos com indígenas. Acompanhamos gerações e a história avança nos bastidores das estórias (há um quê de “Cem anos de Solidão”, mas Fred di Giacomo não faz feio ao lado de García Márquez). O romance tem uma narradora, Ritinha, descendente dos pioneiros: “Minha mãe chorou muito quando decidiu deixar aquelas terras. Seis filhos a acompanharam, mas eu não quis ir. Então, ela me contou que eu não era filha de Alexandre Ferreira, como todos pensavam, mas, sim, de Modesto. Naquele instante, descobri que era metade angola e chorei. Não de vergonha, nem de raiva, chorei porque percebi que muitas vezes eu também menosprezara o homem que não sabia ser meu pai. Meu cabelo era como o dele. Assim como eram meu nariz, minha boca e meus olhos. Tive raiva dos Capa Negra que diziam que Modesto era violador. Tive raiva dos Pinto Caldeira, que trouxeram aquela desgraça toda pro nosso povoado. Tive mais raiva por saber que no final das contas a história que sobreviveria seria a história contada por eles. Eu percebi isso ao ver como as paisagens daquele sertão mudavam”.

Eis que surge Manuel dos Santos comum projeto “civilizatório” (bem identificado com a lúgubre divisa da nossa república: ordem e progresso): exterminar os índios e espoliar os pioneiros de suas terras. Ele lembra o Snopes de Faulkner (na trilogia “O Povoado”, a cidade, a mansão) sonso e predatório, que construirá a primeira cidade da região, a qual por um tempo, e para o agrado de Ritinha, terá o nome de Nossa Senhora do Desamparo.

O que me agrada em “DESAMPARO é o fato de Fred di Giacomo não arremedar a linguagem de época, mas tudo soar verossímil e convincente, além de ser grandioso “Desamparo” é um dos melhores romances dos últimos tempos e deveria figurar em todas as premiações.

07/08/2018

UM LIVRO DE CONTOS SENSACIONAL

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 07 de agosto de 2018)
Robert Altman, cineasta genial, em algumas obras-primas (“Nashville”, “Cerimônia de Casamento”, “Short Cuts”) contava dezenas de histórias ao mesmo tempo. O espantoso em “BRICABRAQUE” (“Coisas pequenas, badulaques, conjunto objetos de estimação, coleção de peças variadas, peças que aparentemente não servem para nada, miudezas”) é que André Mellagi faz o mesmo em uma página e meia ou duas. Ele semeia diversos elementos dispares e somente no final, com um parágrafo ou uma frase, ressignifica tudo que lemos de maneira estupenda, de cair o queixo. Não é por acaso que seus contos tenham títulos como “Entrelinhas”, “Bastidores”, “Interstícios”.

         Um dos meus favoritos, “Acontecer”, pode dar uma ideia da qualidade dos textos de André Mellagi: “O senhor se despediu da velha que continuava a separar os feijões. Em seguida vem a garota depressa batendo chinelo pela calçada. – Bom dia, florzinha, hoje mal posso respirar. Ele me ligou e disse que vai chegar. Somente daqui a quatro dias, eu sei, mas atravesso as semanas, os meses e os anos com ele. As canções que me acompanham e ecoam na sua fala melodiam a promessa de um beijo que se renova nas seguidas bodas que o tempo irá enobrecer. Já me deleito com os frutos de uma semente que ainda está por germinar e uma alegria dissipa qualquer ceio de que voltarei ao exílio, à solidão no deserto da multidão (…)” e no final: “(…) Mas para mim é todo um encanto escondido nesse apanhar de separar feijões, que peço para você traduzir. Faço como você faz e imito seus feijões em pedras que conto na peneira de giz riscado no chão. Entretenho em ouvir quando faz de sua peneira um xequerê plano e põe seus feijões a cantar. Observo a destreza com que esses grãos são separados por entre seus dedos nodosos e esse é o espetáculo que me encanta. Vivo sob esse eterno tirocínio que me faz abrir a tudo o que você cria ou destrói, como você varre, fabrica, corta e costura o tempo. Procuro entender o que te faz ora rir e ora chorar quando olha a este amontoado de papéis rabiscados; o espanto quando me revela que deixa de ser velha ao me mostrar uma fotografia amarelecida de uma menina. Tudo é mágica. Não pare de contar seus feijões. Transponho nos meus brinquedos sua cozinha, suas máquinas, suas engenharias. Reconstituo nas faces enrijecidas de bonecas tanto eu quanto você e todos que nos cercam, que uma vez se querem e outra vez se repelem como costumamos fazer, e às vezes fingimos nos esquecer. Enceno suas festas e suas guerras. Derramo seus feijões com imperícia, queimarei um dia o meu guisado. Mas não de contar.
Logo em seguida outras crianças da sua chama aquela que estava com a velha, que parte sem se despedir deixando pedrinhas no chão. A velha descarta no pé da moringa os feijões que não prestam e volta para dentro de casa”.

         A contadora de feijões adquire ares mitológicos. Aliás, alguns relatos aludem à mitologia. E temos a obra-prima “O Itinerário de Hermes”, que concentra todas as qualidades de “BRICABRAQUE”. Nada como o Deus mensageiro para costurar várias histórias.

31/07/2018

HOMENAGEM A HILDA HILST

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 31 de julho de 2018)

Um dos privilégios da minha vida foi ter conhecido Hilda Hilst (a grande homenageada da FLIP 2018). Aos 20 anos, visitei a Casa do Sol, o sítio onde vivia. Era apaixonado por sua obra, que estava no auge, com a publicação da novela “A Obscena Senhora D” e os poemas de “Odes Mínimas” e “Cantares de Perda e Predileção”. O clímax inesquecível da visita foi a leitura em voz alta do ainda inédito “COM OS MEUS OLHOS DE CÃO”, publicado no ano seguinte (1986).

“COM OS MEUS OLHOS DE CÃO” trata-se de outro ponto alto da sua produção, cujo protagonista, Amós Keres, foi uma criança que fazia sempre perguntas incômodas, impressionado com a morte e a presença do sofrimento no mundo. Fortemente reprimido pelo pai autoritário, ele aos poucos calou em si essas perguntas, mergulhando no estudo da matemática, constituindo família, tornando-se professor universitário. Um dia, no alto de uma colina, ele tem uma visão epifânica e a partir daí ficarão esgarçadas todas as suas relações com um mundo mentiroso, sentimentalizado e complacente. Ele fica “alheio” nas aulas (os alunos se retiram e deixam recados jocosos na lousa), passa a sentir repulsa pela mulher e o filho, parece estar sempre com um sorriso desdenhoso (o que o mete em confusões) e a cabeça inclinada e seu único interlocutor é um amigo, Isaiah, que vive maritalmente com uma porca. Ao cabo, Amós decide voltar à casa da infância, com muito de rural ainda, e viver nos fundos do quintal, como um bicho, um ser desnudado, descobrindo também que o pai tinha os mesmos assomos de descortinamento do coração selvagem da vida: “que esforço para tentar não compreender, só assim se fica vivo, tentando não compreender”.

Não se pense que o texto é assim coeso, unívoco. Como sempre em Hilda Hilst, tudo vem numa forma agônica, emaranhada e intrincada, na qual todos os gêneros são misturados e a escatologia permeia todas as instâncias da condição humana (para se ter uma ideia, Amós Keres gostava de estudar matemática num puteiro), com a influência de Otto Rank & Ernest Becker de que vivemos sob o terror da morte e da nossa analidade “… Amós Keres. Inocente como um pequeno animal-criança olhando o Alto. Mas dizem que o Alto é o nada e é preciso olhar os pés. E o cu também. Com um espelho. Estou olhando. Impossível esquecer grotesco e condição”.

Plínio Marcos com Samuel Beckett. O leitor que se prepare, pois tem de estar disposto. Com essa obscena Senhora H, é tudo ou nada.

“Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando da lucidez de um instante à opacidade de infinitos dias, posso ouvi-lo pensando nas diversas formas de loucura e suicídio. A loucura da busca, essa feita de círculos concêntricos e nunca chegando ao centro, a ilusão encarnada ofuscante de encontrar e compreender. A loucura da recusa, de um dizer tudo bem, estamos aqui e isto nos basta, recusamo-nos a compreender. A loucura da paixão, o desordenado aparentando ser luz na carne, o caos sabendo à delícia, a idiotia simulando afinidades. A loucura do trabalho e do possuir. A loucura do aprofundar-se depois olhar à volta e ver o mundo mergulhado em matança e vaidade, estar absolutamente sozinho no mais profundo. Amós está? Daqui onde estou posso ouvi-lo pensando como devo matar-me? Ou como devo matar em mim as diversas formas de loucura e ser ao mesmo tempo compassivo e lúcido, criativo e paciente, e sobreviver? ”.

 

10/07/2018

FUTEBOL E LITERATURA NUM ROMANCE ENCICLOPÉDICO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 10 de julho de 2018)

“O DRIBLE” entrecruza o universo do futebol com a reaproximação (que se revela irônica, no final) entre pai (cronista esportivo) e filho, afastados por décadas, desde o suicídio da mãe, estabelecendo um ritual de encontros. Desses elementos Sérgio Rodrigues renova avocação enciclopédica do romance mesmo de forma sucinta. Eis alguns tópicos:

— O modo como o rádio, com a narração hiperbólica dos locutores, consolidou a mitologia em torno do futebol e os jogadores, agigantando partidas sofríveis medíocres.

— O racismo arraigado no Brasil, como vemos na trajetória de um jogador “sarará”, quase um novo Pelé, que se torna pai de santo. O uso hipócrita de termos como “moreno” ou “mulato”. O pai nórdico que humilha o filho chamando-o de Tiziu.

— A primeira geração que cresceu assistindo televisão e guarda com nostalgia lembranças de seriados como “Túnel do Tempo”, “Perdidos no Espaço” ou “Agente 86”. Essa mesma geração sofreu o impacto do advento da internet, mas antes vivenciou a breve, mas inesquecível supremacia do rock nacional.

Enfim, com altos e baixos (há momentos aborrecidos no texto), um romance caleidoscópico e acima da média. “Só existe no presente. Alguns cadáveres do pop podem ser tirados da cova de vez em quando, vagar uns tempos por aí como zumbis, mas são zumbis. Mortos-vivos mantidos de pé pelo fetichismo. A verdade é que Maxwell Smart vive de lixo, meu amigo. A começar por esse nome ridículo que decidi adotar. É como disse o Kafka: sou feito de lixo, não sou nada além disso e não posso ambicionar ser nada além disso”.

03/07/2018

SOBRE UMA LEITURA INTERROMPIDA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 03 de julho de 2018)

Durante muito tempo, mantive um compromisso comigo mesmo: ler um livro até o fim, por pior que fosse. Mas não consegui prosseguir com o horroroso “E SE DEUS FOR UM DE NÓS? ”, de Tadeu Sarmento. Parei na página 231 (cumprimento quem chegou até a página 384).

Há livros que comecei com pé atrás, temendo o besteirol, caso de “F” de Antônio Xerxenesky, e de “Digam a Satã que o recado foi entendido” de Daniel Pellizzari. Ambos se revelaram belos romances. Já no caso de “E SE DEUS FOR UM DE NÓS? ”, iniciei a leitura com a maior boa vontade. O título é lindo e Sarmento escreveu um relato intrigante, “Associação Robert Walser para sósias anônimos”, porém nada me preparou para o festival de abobrinhas de uma trama envolvendo o assassinato de ruivas virgens.

Uma ruiva virgem não assassinada foge da Irlanda para o Brasil o que seu pai fez um poema colocando-a como símbolo da restauração do IRA (Exército Republicano Irlandês, grupo terrorista que lutava pela independência com relação ao Reino Unido) mas a cada página surge novos personagens, cada um com um histórico bizarro e estapafúrdio. Pior ainda, sub tramas sem graça e irritantes.

A literatura brasileira atual vive um excelente momento, e não lembro de, nos últimos anos, de ter lido uma obra tão ruim, com a possível exceção de “Desde que o Samba é Samba”, de Paulo Lins.

Ruivo por ruivo prefiro reler “O Escaravelho do Diabo”, de Lucia Machado de Almeida, onde havia também assassinatos de ruivos, mas não virgens. Foi uma leitura fundamental da minha meninice.  Quanto a “E SE DEUS FOR UM DE NÓS?”, tenho uma doença grave e não tenho mais tempo e disposição para ler besteiras. Desfaço meu compromisso. Não sou caçamba de disque entulho.

05/06/2018

UM ROMANCE ANACRÔNICO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 05 de junho de 2018)

A coletânea “Insolitudes” foi uma excelente estreia do cearense Tiago Feijó. Como de costume, em seu segundo livro “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA”, passou do conto ao romance.

Quim escreve um diário a partir da decisão de largar o fumo. Seu casamento está em crise (Madalena, a esposa, diz que “não está mais feliz”) e há um estranho desencontro com o pai, que parece evitá-lo.

Tiago Feijó se alinha aos romances intimistas, muito comuns no século passado, como “Marcoré” de Antonio Olavo Pereira, ou “Jazigo dos Vivos”, de Geraldo França de Lima, em especial aqueles que, seguindo a tradição de “Dom Casmurro”, mantêm o narrador imantado pelo ciúme e ressentimento com relação à amada, caso de “São Bernardo”, de Graciliano Ramos.

O problema de “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA” é que estamos no século 21 e Feijó não acrescenta nada a essa vertente. Pior ainda: ele poderia ter escrito nos anos 30 que não faria diferença, e isto não é um elogio. “DIÁRIO DA CASA ARRUINADA” é anacrônico e defasado. Uma pena, quando pensamos na qualidade da linguagem do autor: “A verdade, eu que tanto a exigi nestes dias, que tanto a escrevi nestas linhas, que a clamei como um cego, agora a tinha ali, à minha vista, despida inteira, e cego não podia continuar a ser. Olhei o homem ao meu lado, agora espojado no chão, dormia na paz dos que dormem sozinhos. ‘…Selene…’. Ao pensar em Selene saí correndo dali, aos tropeços e aos boléus, ganhando as ruas em desespero, a plenos pulmões, engasgando lágrimas no descompasso da respiração. ‘… há-há-há-há…’. Talvez eu buscasse um lugar no mundo que me recolocasse na paz. ‘…meu pai… meu pai…’. Corri, corri, ruas e ruas, até exaurir a força do meu fôlego. Exausto, cedendo a essa dor espessa, desabei de joelhos numa poça imunda e nela encontrei meu reflexo transtornado, os olhos gordos de desesperação, desfigurados de desprezo. ‘…até onde um homem é capaz de chegar?…’”.

Em tempo: Selene é filha de Quim e Madalena.

22/05/2018

FALTOU RELEVÂNCIA A UM RELATO CUIDADOSO

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 22 de maio de 2018)

Uma família quatrocentona falida cujo casarão foi revitalizado por um banco como fundação cultural (eles vivem nos antigos quartos dos criados), reúne-se para ouvir o relato, escrito em 1667, do fundador do clã.  Descobrem que surgiram de uma impostura: o antepassado roubou a identidade de outro homem.

“RELATO DAS VENTURAS, CONFISSÕES E ARREPENDIMENTOS DO SR. JOÃO DOS MATOS E SUAS NEFASTAS CONSEQUÊNCIAS”, de Rosangela Petta, divide-se em três planos: em 1617, Salvador Amaro desembarca como degredado em São Vicente e sofre mil desventuras até conhecer o homem cuja identidade usurpará. É uma narrativa em terceira pessoa; 50 anos depois, faz um exame de consciência em primeira pessoa; por fim, em 2017, em terceira pessoa, a família descobre a verdade.

Infelizmente apesar do cuidado com a linguagem de época e de ser gostoso de ler, “RELATO DAS VENTURAS, CONFISSÕES E ARREPENDIMENTOS DO SR. JOÃO DOS MATOS E SUAS NEFASTAS CONSEQUÊNCIAS” é um romance irrelevante. Não apresenta nenhum personagem ou cena marcantes, e desperdiça o material histórico que supostamente lhe daria sustentação.

Há até passagens piegas: “Higino, perto da janela, olhava a Rua Almirante Marques Leão. Na calçada oposta, em frente ao casarão-museu, um cubo de papelão cobria um colchão de espuma, de onde escapava um par de pés descalços e imundos: ali dormia um sobrevivente. Eram pés de quem não sabe o que vai ser amanhã. Podiam ser de João de Matos, dos gentios do século XVII. Ou os de Salvador Amaro, que desceram no batel, pisaram na restinga, entraram no rio gelado, fugiram das flechas… O homem debaixo do cubo de papelão não sabe que dorme em paz: ele não tem que se preocupar, não tem que decidir nada agora nem nunca apenas sobreviver”.

 

 

21/05/2018

UM AUTOR QUE PRECISA SER DESCOBERTO

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente na FOLHA DE SP em 21 de maio de 2018)

O paraibano Roberto Menezes, professor de física teórica é uma das grandes revelações literárias dos últimos anos, porém não logrou romper o muro do Rio de Janeiro – São Paulo para escritores “regionais”.

Agora a Patuá edita uma segunda versão de seu romance “PALAVRAS QUE DEVORAM LÁGRIMAS”, bastante alterada com relação à primeira (publicada na Paraíba), inclusive no aspecto gráfico, mas os dois pilares narrativos se mantêm. O primeiro é o sequestro de um vereador por sua ex-esposa, a protagonista, numa situação às Stephen King (é vasto o universo de referências no texto). Maria obriga seu prisioneiro a ficar com pálpebras abertas, costura sua boca e divide com ele um coquetel de remédios tarja preta, o objetivo é fazê-lo ler o que escreve no computador. “Palavras que devoram lágrimas” é o texto digitado por Maria. Como ela mesma afirma, é “uma fabricadora de frases de tirar o fôlego”.

O segundo pilar narrativo é o relato de como Maria vai lixando as camadas da parede do quarto dos sete anos de casamento. Cada camada traz associações, ganhando até apelidos: temos bege-leite condensado, verde anágua, azul inferno (que domina o relato) e por aí vai…

A parte final mostra o efeito dos remédios e adquire um tom alucinatório.

Será que Roberto Menezes desta vez sossegou ou no futuro leremos novas palavras da voz agônica de Maria?

 

Livro: “Palavras que devoram lágrimas”
Autor: Roberto Menezes
Editora: Patuá
Páginas: 120
Quanto: R$ 38,00

15/05/2018

O LIVRO DAS SINGULARIDADES

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 15 de maio de 2018)

“Aconteceu de forma tão lenta que nós não percebemos de imediato, nem eu, nem ela. Quando vimos havia esse passa intransponível entre nós. E foi justamente quando notamos que ele media o tamanho exato de um passo humano normal, 37 cm, que entendemos que além de tudo ele era intransponível. É, absolutamente intransponível. Toda vez que um de nós dois tentava se aproximar do outro, a fim de entrelaçar os nossos pés, como fazíamos antigamente, ou então tentando colar nariz com nariz, dar-nos um simples beijo, éramos interceptados por esse passo habitando o espaço entre nós dois” (trecho de “Passo entre nós”).

Na física quântica, uma singularidade é a concentração de energia e massa num ponto do universo, sugando tudo ao seu redor.

O conto de “TODO MUNDO QUER VER O MORTO”, de Natália Zuccala, em sua maioria, têm esse efeito de singularidade. Tem uma menina que se descasca o tempo todo e só se alivia na água salgada (uma possível sereia?), temos outra personagem que se desgruda do chão, outra que sente maresia e bichos marinhos em plena São Paulo, outra que descobre os perigos das esquinas…

Mas ela também é singular em textos mais “tradicionais”, como no extraordinário “Sperare”, onde as ausências da mãe pontuam o desenvolvimento da narradora como mulher: “Levantava eu então sabendo que a sua ausência seria a primeira existência com a qual me encontraria. Iniciava a senda diária na tarefa de esperar bem. Nada além disso, todo dia, aprendendo a espera-la bem”.

O estilo de Natália Zuccala é reiterativo e suas frases ficam martelando nas nossas cabeças: “Da primeira vez que eu andei de metrô em São Paulo… não, na verdade não foi exatamente da primeira vez. Na verdade não muita coisa acontece na primeira vez, eu sei disso agora que já não sou mais criança, não muita coisa acontece da primeira vez de nada, nem de ninguém. As pessoas dizem ‘da primeira vez’ por dois motivos: um – as pessoas não tem uma memória muito boa (eu tenho); dois – as pessoas acham bonito que as coisas aconteça, assim logo de cara, que muitas coisas incríveis aconteçam assim logo de cara, que muitas coisas incríveis aconteçam na primeira vez você sempre fica meio perdido e não muita coisa acontece”.

Contrariando a autora, é incrível a primeira vez em que a lemos.

08/05/2018

QUARENTA ANOS SEM OSMAN LINS

 

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 08 de maio de 2018)

Há 40 anos perdíamos um de nossos maiores escritores, Osman Lins. Morte precoce, mas pouco antes ele publicara sua obra-prima, “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA”.

Num país bloqueado (estamos nos anos “barra pesada” da ditadura militar), o narrador refugia-se num diário no qual procura analisar o romance inédito “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA”, deixado pela sua falecida amante, Julia Enone, a respeito de uma “irmã em destino” da Macabéa de “A hora da Estrela” (1977), de Clarice Lispector, também nordestina e miserável, chamada Maria de França, a qual passa anos da sua vida pleiteando um benefício do antigo INPS, em vão, não conseguindo romper a temível malha burocrática, mesmo porque não tem instrução ou equilíbrio psicológico (passa por períodos de loucura e internação): “Fazem-lhe, ainda na Riachuelo, nova sugestão: recorrer à Assistência Judiciária, antes obtendo atestado de pobreza. Ela ouve o conselho, desce as escadas, as escadas sujas, repetindo-o. Ao chegar embaixo, já se esqueceu de tudo. ”

Tanto quanto o jogo metalinguístico fascinante, “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA” impressiona por sua dimensão política, apesar da sombria constatação do seu protagonista: “Assim, coincide melhor com as linhas gerais do romance outra visão –mais chã—do isolamento do escritor, não voltada para ele, e sim para a sociedade, que o recusa. ”

Inseto cavando sem alarme, perfurando a terra, escavando na obra de Julia Enone, sua orquídea antieuclidiana para desatar o labirinto (mito arquitetônico que foi um dos vários legados da civilização grega), o narrador comenta e transcreve notícias de jornal, nunca se referindo diretamente ao regime militar. Nenhuma obra dos anos 70, entretanto, captou tão poderosamente o clima opressivo da época e a degradação da informação enquanto valor na nossa sociedade, pois a maioria dos ficcionistas optou pela simplificação do “romance-reportagem” (“Infância dos Mortos”, “O crime antes da Festa”, “Lúcio Flávio”, “Acusado de Homicídio”, alguém lembra desses títulos?), onde, na tentativa de driblar a censura e oferecer um “retrato” da realidade nacional, o supostamente factual e referencial sufocava a narração e acabava-se reconfortando o leitor, mais do que o levando a uma atitude crítica, ao perseguir uma impressão de veracidade absoluta.

Flora Süssekind radiografou muito bem essa perspectiva naturalista e redutora no seu memorável estudo “Tal Brasil, qual romance? ” Ora, ao eleger a distorção dos fatos, até do espaço narrativo (Julia Enone funde Recife e Olinda como se fossem uma cidade só), o narrador de “A RAINHA DOS CÁRCERES DA GRÉCIA” dinamita essa mentira referencial, do que é “baseado na vida real”, e firma com o leitor um pacto ficcional, em que se finge a dor que deveras se sente. Ao descascar camadas e camadas de artifícios narrativos, ele nos transmite muito mais realidade (transbordante, simbólica, delirante que seja) do que qualquer medíocre relato de casos da época. É o triunfo do romance, mundo imerso no mundo, e, em última instância, da verdadeira literatura, sobre a reportagem que se disfarça (mal) de ficção.

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