MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

18/10/2016

O enxofre como metáfora do atraso: “Galveias”, de José Luís Peixoto

 

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(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de outubro de 2016)

“… respondia que era de Galveias e todos continuavam a olhá-la na mesma expectativa, como se não tivesse dito nada”.

Artista multimídia (com fortes ligações com o universo do heavy metal), o português José Luís Peixoto deve ter apreciado a premiação, merecidíssima, do glorioso Bob Dylan com o Nobel de Literatura. Nascido em 1974, fez de sua cidade natal o espaço ficcional de seu mais recente romance, GALVEIAS. Nele, o autor super-antenado com a pós-modernidade se debruça sobre o arcaico, o ultrapassado historicamente, tanto no sentido pragmático quanto no sentido simbólico.

Em janeiro de 1984 (mas a cronologia do romance é muito intrincada), o povoado é sacudido por algo – nunca identificado – que cai do céu. A partir daí o cheiro de enxofre assola Galveias, modificando até o sabor da comida e exacerbando comportamento das pessoas. Sem a complacência nostálgica dos programas turísticos que exaltam o encanto passadista das petrificadas aldeias portuguesas, Peixoto mostra uma sociedade em plena deterioração, encurralada em seu atraso, como podemos ver na seguinte passagem (de um capítulo extraordinário, com o foco narrativo voltado para os cachorros da cidadezinha): “Mas o cão de Barreta, deitado, com o focinho assente na pedra, com as narinas abertas, não tenha esses pensamentos. De olhos fechados, sentia o interior fresco de cal, as formigas que seguiam por um caminho quase reto, preocupadas, e que desapareceriam num buraco de terra entre dois paralelos de granito; sentia as pequenas ervas mortas, sem uma brisa que as fizesse tremer; sentia o sol sobre as telhas lá em cima, barro antigo, manchas secas de musgo, superfície, tempo; sentia o seu próprio corpo, a sua própria presença, lugar e peso, órgãos internos e pelo, respiração, idade; e, claro, sentia a doença podre sobre Galveias, instalada, a fazer parte do cheiro, da forma e da cor de todas as coisas”.

Mesmo aqueles que vão para fora mantêm um provincianismo asfixiante. É o caso do carteiro Joaquim Janeiro, o qual constitui família em Guiné-Bissau, mas não revela para ninguém em Galveias porque sua mulher é negra. Em contrapartida, quando ele narra para sua família africana (sempre com a participação da vizinhança) anedotas de sua aldeia, elas adquirem um ar de fabula que deixa a todos admirados, como se fossem passadas num lugar grandioso. Não há melhor ilustração da arte de contar histórias. Além disso, num parágrafo, ele passa ao leitor várias gerações de médicos.

As histórias envolvidas pelo enxofre oscilam entre o grotesco, o cômico e o brutal. Por exemplo, temos uma esposa que se vinga da suposta amante do marido, jogando bosta e engalfinhando-se com ela em plena rua; temos uma cena que mostra o amor do casal, durante a qual vários coelhos são esfolados; em outro capítulo, um homem é espancado por “ter dito algo” ao filho caçula, o qual revela, tarde demais ter aprontado o homem errado.

Para mim, o momento mais patético desse belíssimo romance é a história do casamento de João Paulo e Cecília. Vendo as fotos tiradas dois meses antes, o noivo percebe que todos parecem já seres antigos, quase fantasmagóricos.

GALVEIAS mais uma vez, após obras-primas como Cemitério de Pianos e Livro, confirma minha convicção de que José Luís Peixoto é o grande autor lusitano surgido neste século.

 

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16/08/2016

Eça à beça: comentário sobre “Alves & Cia.”

Eça de Queiroz Alves & Cia

“Então começou para Godofredo uma existência abominável.
Tinham passado semanas e Machado voltara, ocupava agora, como sempre, a sua carteira, no gabinete de reps verde. Godofredo temera sempre aquele encontro, não julgara possível que eles pudessem passar dias, um ao lado do outro, manejando os mesmos papéis, tocando-se por mil interesses comuns, com a ideia daquele dia nove de julho, aquele encontro sobre sofá. Mas por fim tudo se passara convenientemente, e não havia atritos”.
 

(Uma versão da resenha abaixado, foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 16 de agora de 2016)

 

Em muito boa hora, a Grua incluiu em sua coleção “A arte da novela” um dos sextos de Eça de Queiroz, um dos autores geniais tanto em romances longos (caso de Os Maias) quanto no formato ficcional mais breve (caso de O Mandarim): ALVES & CIA, só publicado na década de 1920 e restaurado integralmente décadas depois.

O protagonista, Godofredo, surpreende a esposa, Ludovina, em flagrante adultério com seu sócio, dez anos mais jovem e bonitão. Despacha a esposa para a casa do pai (embora mantenha as aparências para sociedade) e tenta de todas as maneiras – incluindo o duelo – uma reparação por parte do sócio. No final, o episódio adultero vai sendo desconstruído até se diluir. É o retorno à “regularidade das coisas” (isso é, à bêtise, a estupidez que rege o cotidiano, como aprendemos com Flaubrt) tão prezada por Godofredo, malgrado seu temperamento vagamente romanesco: “… gostava de teatro, de dramalhões, de incidentes violentos. Lia muito romance. As grandes ações, as grandes paixões, exaltavam-no. Sentia-se por vezes capaz dum heroísmo, duma tragédia. Mas isto era vago, e movendo-se surdamente, e raramente, naquele fundo do coração onde ele os tinha prisioneiros. Sobretudo as paixões românticas interessavam-no: decerto não pensara nunca em lhes provar o mel ou fel…”.

ALVES & CIA é uma daquelas obras que, em ponto pequeno, sintetiza toda a produção de um autor. No caso de Eça, a sátira ácida ao provincianismo da sociedade portuguesa, a hipocrisia das instituições, o vazio de noções cristalizadas como a da “honra”, a tragédia que se dissolve na mediocridade (tema da sua maior realização, Os Maias); não falta nem o poder doméstico alcançado pela criadagem (como em O primo Basílio), por conta da convivência, quando não conivência, com pecadilhos dos patrões: Godofredo é obrigado a tolerar o desleixo da criada e da cozinheira para que elas não espalhem pela vizinhança o fim do seu casamento. Lendo suas 120 páginas, temos uma perfeita compreensão da passagem do Romantismo para o realismo.

Eu particularmente admiro os romances da fase final de Eça, A Cidade e as Serras e A Ilustre Casa de Ramires, os quais considero profundos e brilhantes, contra a opinião generalizada de que são uma capitulação ao conformismo; não há, como negar, contudo, o fascínio de sua fase mais provocativa e cruel, da qual muitos manuscritos vieram a lume postumamente, muitas vezes com mutilações, felizmente corregidas em edições recentes.

De qualquer modo, meu conselho é este: ler o grande autor português, seja em formato volumoso, seja          em formato curto, uma vez ao ano. Eça à beça.

 

ALves & Cia. Jornal

 

 

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