MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

10/08/2016

Destaque do Blog: “Amora”, de Natalia Borges Polesso

Natalia Polesso

Amora

 

É uma doença, minha filha. A vizinha é doente. Voltei para o quatro quase satisfeita. Se era doença, por que não tinham me dito logo? Fiquei pensando se era contagiosa, mas concluí que não era, porque a mecânica estava sempre cheia. Voltei para a cozinha. Doença de que, mãe? Minha mãe mais uma vez colocou a mão no rosto e respirou fundo. De ferro retorcido que tem lá naquele galpão.”

(Trecho de “Flor, flores, ferro retorcido”)

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos dia 09 de agosto de 2016)

À primeira vista, os 33 textos de AMORA (Não Editora) têm seu interesse maior nas relações homoafetivas entre mulheres, sob vários prismas, desde a curiosidade infantil, passando pela sedução passageira até as longas relações. Não por acaso, justamente na metade do livro aparece o delicioso e cruel “Diáspora lésbica” satirizando o gueto dessas mulheres, um “mundinho” com seus redutos e intrigas.

Mas, para mim, o inesperado encanto do livro é, nos seus melhores momentos, a habilidade técnica que demonstra ter Natalia Borges Polesso aprendido com os grandes contistas. Assim como Lygia Fagundes Teles, ela é capaz de nos dar todo um histórico familiar, a partir de uma embaraçosa pergunta durante uma refeição (“Vó, a senhora é lésbica?”; aliás um dos três pontos altos de AMORA; os outros dois são “Flor, flores, ferro retorcido” e o pungente “Marília acorda”: “Marília é medrosa, parece dura, mas morre de medo. Eu morro de medo ainda e de novo e todos os dias rezo para que morramos juntas, porque eu não vou suportar ficar sozinha, nem ela. Eu pensei em cuidar disso eu mesma. Pensei em fazer com calma, pensei em deitar com Marília, de meias, e no chá misturar uma dose que nos tranquilize e, com sorte, não acordaremos. Pensei só, mas não tenho coragem. Então eu rezo. Eu rezo para que sejamos juntas tão juntas como sempre fomos, agora e na hora da morte”).

Não chega a ser um enfraquecimento do conjunto (pois não faltam contos excelentes em AMORA), contudo Natalia Borges Polesso padece de um defeito comum à ficção contemporânea: o leitor tem a impressão de que o autor quer colocar no livro todo o conteúdo de suas gavetas, quando uma seleção mais rigorosa se faria necessária e daria mais força à coletânea.

Em todo caso, tira-se o chapéu para uma contista capaz de fazer uma personagem apaixonada ter a percepção realista e desencantadora do futuro da relação, como na seguinte passagem de “Como te extraño Clara”:

“Na terça-feira, antes de chegar ao curso de espanhol, Gentil pergunta alguma coisa sobre Fernanda. Ela vai responder que Fernanda está bem e logo, logo voltará à ativa, e o homem dirá que sente muito pela mãe de Clara, que é uma mulher muito boa e trabalhadora. Clara não entenderá, pois sabe que o homem não conhece sua mãe e também porque há nada de errado com ela e depois de cinco passos se dará conta de que ele fala de Fernanda. Então Clara vai pensar pela primeira vez na idade de Fernanda e num cálculo simples verá que a hipótese do homem não é descabida…”

Alguém ainda acha que AMORA é um livro sobre homoafetividade?

Amora - Jornal

 

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10/05/2016

Destaque do Blog: CORPO DE BAILE, de João Guimarães Rosa

Guimarães Rosa      João Guimarães - Corpo de Baile VOL 1

1

Depois de décadas reordenadas em três livros diferentes (Manuelzão e Minguilim; Noites do Sertão; No Urubuquaquá, no Pinhém), o leitor pode encontrar finalmente as sete estórias – para utilizar um termo caro a João Guimarães Rosa – de Corpo de Baile na formação original de 1956, em dois volumes.

O primeiro é composto por três textos sensacionais: Campo Geral; Uma Estória de Amor e A Estória de Lélio e Lina. Minguilim é o protagonista de Campo Geral, certamente o texto mais famoso de Guimarães Rosa, depois de Grande Sertão: Veredas. E embora haja várias narrativas incríveis evocando o mundo da infância, é provável que nenhuma seja tão inesquecível quanto a história do menininho que vive “em ponto remoto, no Mutúm”. Hipersensível, míope (até que lhe coloquem óculos), ligadíssimo na mãe e no irmão Dito (cuja morte é o centro dramático do texto), com um pai ignorante, violento e desconfiado, Minguilim faz com que participemos da sua “descoberta do mundo” de uma forma que nos devolve nosso próprio sentimento de infância. É uma ótima iniciação para quem quiser conhecer pela primeira vez o universo do nosso maior escritor pós-Machado.

Campo Geral sempre eclipsou injustamente Uma Estória de Amor (festa de Manuelzão), uma obra-prima. Seu protagonista é o encarregado da fazenda Samarra, o qual, finalmente estabelecido na vida, resolve inaugurar uma capelinha nas terras do seu patrão e, por conta disso, suspender a labuta da vida numa grande festa: “Amanhã é que ia ser mesmo a festa, a missa, o todo povo, o dia inteiro. Dião de dia! ”

Manuelzão, em meio à festa, descobre-se numa encruzilhada. Sua saúde já não é tão boa, a morte não é tão remota, ele tem medo de retornar à miséria na qual nasceu, e pesa-lhe não ser o dono do lugar, ainda que respeitado. Tem um filho do qual não gosta nem respeita, numa atração inequívoca pela nora. Mas o que a festa começa a desmanchar nele é a alienação de si mesmo, de quem sublimou no trabalho ininterrupto todas as perplexidades da vida. Nem novo (como os vaqueiros que se divertem) nem velho (como Seo Camilo, a quem recolhe como agregado ou o Senhor de Vilamão, um latifundiário caduco), ele sente solidão de quem tem que estar em atividades constantes para não cair na angústia.     Enquanto Miguilim descobria o mundo, Manuelzão tenta redescobrir o seu sabor dificultosamente, através das estórias contadas na festa pelos representantes daqueles seres que não se consomem na luta pela vida, párias de uma sociedade obcecada pelo produtivo: Joana Xaviel e Seo Camilo, figuras que atraem Manuelzão assim como o irmão de sua nora, Promitivo, com sua vadiagem simpática, enquanto o filho trabalhador lhe causa antipatia.

No Pinhém, noutra fazenda, transcorre a intriga da belíssima Estória de Lélio e Lina: o jovem vaqueiro Lélio, forasteiro no lugar, tem a idosa Dona Rosalina, num singular caso de amor entre idades antípodas, para atar os fios da sua educação sentimental em meio aos companheiros de trabalho e às mulheres, solteiras, casadas ou “para uso” da região. Um trecho pode esclarecer o que se passa entre eles: “Isso aos outros Lélio não podia explicar, repetido longe dela aquele fraseado se esfriava de valor, era preciso escutar direto quando ela falasse, era preciso gostar da velhinha. Dizia aquilo, o siso da gente achava que ela estivesse ensinando outro poder inteiro de se viver”. Poucos textos da nossa literatura têm momentos tão bonitos quanto aquele em que Lélio e Dona Rosalina se conhecem, ou aquele da visita dele à amante, Jiní, esposa de Tomé (ele, irmão de Miguilim), após a partida do marido, em que ele sente o estrago feito pelo adultério, a ausência do amigo, atração sexual, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Como todos os maiores escritores, Guimarães Rosa é tanto um fabulador quanto um psicólogo, um filósofo, um pedagogo das emoções, ou, resumindo tudo, um arqueólogo das relações humanas como Irving Howe chamava Doris Lessing. (Continua na próxima semana).

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em três de maio de 2016 em A TRIBUNA de Santos)

 

 

João Guimarães - Corpo de Baile VOL 2

 

2

Na semana passada, comentei o primoroso primeiro volume com três tas sete estórias de Corpo de Baile. O segundo é mais irregular e desarmônico, porém representa um experimento de linguagem quase ímpar em nossa prosa.

O Recado do Morro, o texto de abertura, é uma obra-prima na qual a tentativa de assassinato do galã sertanejo, Pedro Orósio, que está guiando um estrangeiro (que parece ser uma brincadeira de Guimarães Rosa consigo mesmo, a respeito da sua mania de anotar tudo), um padre e um fazendeiro pelas serras de Minas, por parte de sete desafetos, é desmascarada através de uma série de indícios revelados por miseráveis, simples de espíritos, loucos místicos, crianças, até que um cantador os recolhe e organiza numa forma que dá chance a Orósio de préfigurar seu destino, escapar dele e voltar ao seu lugar de origem. Objeto de estudos até obsessivos, é um daqueles textos que já valem a obra inteira. Por um simples motivo: é uma leitura deliciosa, saborosa, um fino biscoito fabricado com malícia e artimanha por alguém que estava em vias de revelar a maior pirâmide (Grande Sertão) da nossa literatura.

O protagonista de Lão-Dalalão é Soropita e ele está voltando para casa, “em meio-sonhada ruminação”. Ex matador famoso, acabara casando com uma prostituta de Montes Claros, Doralda e tornando-se fazendeiro, “dono de seus alqueires”: “todos o respeitavam, seu nome era uma garantia falável”. Só que, no caminho, esbarra com Dalberto, antigo companheiro dos tempos de vaqueiro e, como é de praxe, é obrigado a acolhê-lo como hóspede, embora tencione até mata-lo. Por quê? Devido à possibilidade de Dalberto ter conhecido Doralda na sua época de quenga, o que destruiria seu bom nome na região, mas também por ciúme. Soropita pertence à galeria dos grandes ciumentos retrospectivos (obcecados com o passado amoroso da amada) cujo grande representante na nossa ficção é o Bentinho de Dom Casmurro. Além de Dalberto, Soropita também fica tomado pela cisma de que Doralda pudesse ser conhecida (em todos os sentidos, inclusive bíblico) pelo “preto Iládio”, em razão de um violento ódio racial, materializado em violentas imagens sexuais.

Aliás, o que faz com que Leão-Dalalão seja uma das obras-primas de Guimarães Rosa é a maneira como ele insinua no texto a voltagem erótica (e psicologicamente intrincada) das fantasias sexuais de Soropita, que chega a imaginar Doralda na cama com Dalberto no momento mesmo em que este lhe confidencia a paixão por outra prostituta e a sua vontade de casar com ela.

No Urubuquaquá, temos a fazenda do personagem-título de Cara-de-Bronze, um dos relatos mais desafiadores de Rosa e um dos raros que justificariam a fama de difícil, quase ilegível. Ele abusou tanto da sua inventividade que, na tentativa de desdobrar os planos do texto, colocando até notas de rodapé, acabou forçando a barra em dois aspectos: ao propor um inconvincente roteiro cinematográfico no meio da narrativa e, de forma mais pernóstica ainda, ao incluir no rodapé referências a Goethe e Dante, com citações não traduzidas em alemão e italiano.

Nem por isso é menos fascinante o grande coro de vaqueiros que comenta a volta do Grivo (o qual já foi companheiro de infância de Minguilim, em Campo Geral) da enigmática viagem ordenada pelo patrão. O que o Grivo foi fazer, o que foi buscar? Qual a missão confiava a ela? Talvez trazer notícias da vida de Cara-de-Bronze perdeu no processo de ser latifundiário, “ajuntando suas duras riquezas” (há um certo paralelo com a situação do protagonista de Festa de Manuelzão): “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher”. A viagem do Grivo (durante a qual ele esbarra em Nhorinhá, aquela mesma que aliviava os dilemas da paixão de Riobaldo por seu colega jagunço, em Grande Sertão) dá vazão ao amor de Guimarães Rosa pelo nome das coisas, dos lugares, dos seres, num atordoante inventário-catálogo enumerando o mundo que escapou ao desalentado perrengue Cara-de-Bronze, cujo verdadeiro nome, como de praxe no universo roseano, passa por várias metamorfoses (Sigisbé, Sijisbel Saturnim, Xezisbéo Saturnim, Zijisbéu Saturni, Jizisbéu Saturnim, Sezisbério, Segisberto Saturnino).

(Também complicada, contudo não tão perfeita como realização artística, é a ciranda amorosa de Buriti a narrativa mais longa escrita pelo genial autor mineiro, tirando Grande Sertão. Nela reaparece o Miguilim de Campo Geral, agora médico e adulto, “estrangeiro” de sua terra natal. Ele chega à fazenda do Buriti-Bom (na região há um colossal buriti, um símbolo fálico gritante), uma espécie de pórtico para os Gerais. Ela pertence a iô Liodoro, patriarca-garanhão, o qual todas as noites sai para se satisfazer com suas várias mulheres. Na casa, há três moças: Lalinha, nora de iô Liodoro, que foi busca-la na cidade grande quando o filho a abandonou e a trouxe para viver com a família num estado de espera pela volta do marido, alimentado por rezadeiras e mandingas; Glorinha, assim como a feiosa Maria Behú, é filha de iô Liodoro (e todos são parentes da inesquecível dona Rosalina, de Estória de Lélio e Lina, outro texto de Corpo de Baile) e será a amada do titubeante, hesitoso e angustiado Dr. Miguel.

Buriti demora a engrenar. Começa sob o ponto-de-vista de Miguel (alterando dois tempos diferentes e um deslizar suave entre a 1ª e a 3ª pessoas) e oscila entre momentos geniais e cansativos. A arte de Guimarães Rosa às vezes beira a monotonia de tanto reiterar os mesmos pontos e o leitor tem a imprenssão de que ele não soube encontrar o “ponto” do bolo. Em compensação, quando o ponto-de-vista passa a ser o da Lalinha, o texto cresce em intensidade, precisão e sofisticação ao nos fazer compartilhar das noites em que sogro e nora (iô Liodoro e Lalinha) se comprazem num jogo de sedução peculiaríssimo, mostrando que as noites do sertão nada ficam a dever a D.H. Lawrence ou a qualquer outro mapeador da presença do desejo em nossas existências.

(Uma versão da resenha acima foi publicada originalmente em dez de maio de 2016 em A TRIBUNA de Santos)

Livros - Capas da 1ª Ed. - Corpo de Baile

Corpo de Baile - Vol. 2 - Jornal Corpo de Baile - Jornal

 

 

19/04/2013

O TEATRO DA INOCÊNCIA

DEBAIXO DA LUPA DE LYGIA FAGUNDES TELLES

para Nilton Resende

No centro de A noite escura e mais eu, há uma história chamada “O segredo”, na qual a narradora, uma menininha,  espia pela janela a casa onde ficam as prostitutas. Apanhada no ato, explica (mas é  mentira) que veio atrás da bola que caiu no quintal delas. Elas fazem com que entre, a menina observa tudo tão intensamente que é como se o leitor estivesse ali, e, ao ser informada de que está falando com a filha do delegado da cidade, uma das prostitutas lhe pede para guardar segredo. Mais ainda, ela ensina a menina que os segredos são necessários, que eles fazem parte da vida. Portanto, a visita inesperada funciona como um rito de passagem, onde há o aprendizado da duplicidade, como se os mundos (o decente e o “sórdido”) fossem nitidamente separados, num “teatro da inocência” que é sempre desmascarado com precisão pela grande Lygia Fagundes Telles.

Publicado originalmente em 1995 (pela Nova Fronteira), A noite escura e mais eu agora é reeditado pela Companhia das Letras.  Das coletâneas da autora  é mais coesa, mais amarrada, tanto porque os contos foram pensados para pertencer a essa reunião (muitas vezes, suas coletâneas são rearranjos de contos de outras), e não há nenhum que lhe dê o belo título (tirado de um poema de Cecília Meireles), como porque até a ordenação das nove histórias parece ter obedecido a um propósito férreo, seguindo um ritmo ternário, que propõe três conjuntos.

As três primeiras (“Dolly”; “Você não acha que esfriou?” e “O crachá nos dentes”) são histórias em que os protagonistas, através do acaso, da curiosidade perversa ou de uma brecha fantástica no cotidiano, têm acesso a uma situação passional ou violenta: a moça estudiosa (que lembra a Lorena de As meninas), louca para sair da pensão onde mora e que  atende a um anúncio para dividir casa com uma aspirante a starlet,  porém fica assustada com esse território estranho, mas que esquece seus cadernos ali, e na volta, encontra  a outra   assassinada; a esposa que resolve ter um caso com um amigo que é apaixonado pelo marido; o cachorro de circo (que, como punição pelos erros e desatenções, tem as patas queimadas por cigarros) que vive por algum tempo a vida humana.

As do meio ((“Boa noite, Maria”; “O segredo” e “Papoulas em feltro negro”) mostram imagens da Mulher em idades diferentes, e confrontada com as “inconveniências” da condição humana como o envelhecimento, a morte, o sexo, para os quais se recomenda restaurações, decoro ou hipocrisia: a sexagenária que teme a decrepitude e que encontra um estranho que pode ser o “bom anjo”, aplicando-lhe a eutanásia no momento certo; a menina que, como já citado, tem um vislumbre da prostituição; e, por fim, a mulher que, chamada para uma reunião em torno de uma professora que já está com um “pé na cova” relembra sua meninice e seus embates com a mesma professora, e que deseja explicações, só conseguindo obter da moribunda uma imagem dissonante da que tinha de si mesma (diga-se de passagem, na minha opinião, esse conto, “Papoulas em feltro negro” talvez seja o melhor da seleção).

No último conjunto (“A rosa verde”; “”Uma branca sombra pálida” e “Anão de jardim”), temos testemunhas impotentes e desesperadas, deixadas de lado, nos bastidores do “teatro da inocência”: a menina que perdeu os pais e que, vivendo na fazenda dos tios, observa o universo dos insetos e seres minúsculos com uma lupa, e descobre que “aumentados eles eram horríveis por se parecerem demais conosco, com suas crueldades e mesquinharias (“debaixo da lente era medonho demais); a mãe que assistia calada a o desabrochar da paixão entre a filha e uma amiga e que ao confrontá-la, causa o seu suicídio e que, nas visitas ao túmulo entra numa espécie de disputa de flores (ela leva brancas, a outra vermelhas) com a amiga da filha, disputa que no entanto é uma maneira de mantê-la viva; e, por fim, o anão de pedra que acompanha os acontecimentos terríveis da casa onde foi instalado (o sujeito que o comprou, por achá-lo parecido com o avô, com um ar de “juiz”, é assassinado pela esposa), e que espera a demolição da propriedade o alcançar para mudar de condição, pois (de uma forma que deixa o leitor comovido) ele sabe que tem uma alma, uma fome de deus, algo que persistirá mesmo quando a sua forma for feita em pedaços. Ele sabe que aqui, debaixo da lente, tudo é medonho demais, mas quer existir, como todos nós.

Eu  gostei muito de “Anão de jardim” em 1995, quando  A noite escura e mais eu  apareceu. Agora o achei ainda mais bonito do que da primeira vez, assim como o livro inteiro.

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna”  de Santos, em 15 de dezembro de 2009)

ADENDO

O leitor que porventura queira mais de Lygia Fagundes Telles encontrará aqui no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/04/19/historias-de-desencontro-entre-lygia-fagundes-telles-e-seus-contos/

A respeito de A noite escura e mais eu, só acrescentaria algumas coisas, digamos, “negativas” (uma palavra meio forte para uma coletânea tão boa), e que me fizeram da primeira vem em que li o livro achar que a prosa de Lygia estava “estática”, em ponto morto (e por isso gostei tanto de Invenção e Memória, que veio cinco anos depois cheio de garra e verve):

__ há uma certa aura “recôndita” e passadista em alguns contos que caem muito bem nas coletâneas mais antigas tipo Antes do baile verde ou em romances como  Ciranda de Pedra, devido à passagem do tempo, mas que  parecem desconfortavelmente antiquada e anacrônica para textos publicados em 95: é o caso do casal de “Você não acha que esfriou?” ouvindo “Carmen” e Mozart, por exemplo (mas há outros exemplos, como o violoncelo de “Anão de jardim”, etc etc). Também as referências dos personagens mais velhos são muito antiquadas, até mesmo para a sua idade…
        Além disso, há aspectos “mundanos” no conto “Boa noite, Maria” que não me agradaram novamente nessa releitura: por que colocar, por exemplo, que a protagonista mora num triplex, esse tipo de informação parece de best seller, parece uma coisa que o Rubem Fonseca, na sua caricaturização de ricos e novos ricos colocaria. Aliás, todo o lado “mulher de negócios” parece mais uma informação telenovelesca e irreal do que um dado importante no texto, e para mim fica como uma nota dissonante.
         De um modo geral, além de “Papoulas…”, os contos de que mais gostei foram “A rosa verde”, “Anão de jardim” (apesar das referências antiquadas), “O segredo” e “Dolly”.
      Acho inferiores por causa dos motivos alegados acima, embora ainda assim muito bom “Boa noite, Maria” e “Você não acha que esfriou?”
       Os que eu gosto menos são “Uma branca sombra pálida” (não gosto da conversinha com a borboleta, e também porque me parece que teria mais força e convenceria mais  se tivesse sido escrito entre os anos 40 e 60; aliás, a preocupação da mãe com o que acontece no quarto entre a filha e a amiga me lembrou um filme de 1973, que já era antiquado na época: Lembranças, de Gilbert Cates, com Joanne Woodward; de qualquer forma, apesar desses senões, foi desse texto que tirei o título “O teatro da inocência“) e “O crachá nos dentes” (que, para mim, é um projeto de conto mais do que um propriamente realizado).
         Finalizando, aproveito aqui para evocar minha inesquecível gatinha Donguinha, que  peguei, filhotinha, abandonada no estacionamento do Pão de Açúcar, à época da minha primeira leitura de A noite escura e mais eu (no final de 95) e que morreu agora nessa época da releitura.

03/07/2010

A Sherazade do Paraguai

Nélida Piñon fez, com A roda do vento,uma primeira incursão pela literatura juvenil, procurando construir um elogio à imaginação contra a mesmice do cotidiano, contra a rotina, os hábitos institucionalizados. Elogio, aliás, de praxe nesse filão editorial.

Muito bonito. Mas eu jamais quererira ser o jovem destinatário desse elogio: A roda do vento é o tipo de livro que coloca o leitor iniciante contra a literatura, o tipo de livro que faz co que ele ache a leitura a coisa mais chata do mundo.

Tal fato não é muito surpreendente em se tratando de Nélida Piñon. Ela já foi ruim e ilegível (qual  “coração valente” terá chegado ao final de Madeira feita cruz, Guia-mapa de Gabriel Arcanjo ou Fundador?). Mais tarde, ela tentou ser legível e foi igualmente ruim (em A casa da paixão& A república dos sonhos); é uma lástima, porém, o caso de A roda do vento, pois parecia um livro promissor. E essa parece ser a maldição de Nélida: alguns textos seus (contos de Sala de armas, o romance paródico A força do destino) começam prometendo, parecendo que vão decolar e que a autora conseguirá atravessar o inferno astral de chatice, falta de espontaneidade e ausência do senso de realidade, no qual chafurda e agoniza como uma penitente de Dante. Alguma coisa acontece, contudo, no coração da narrativa, um enfarte fulminante, e tudo desmorona no besteirol.

A roda do vento tem como cenário a cidadezinha de Catavento (podia ser mais óbvio?), onde não acontece nadaa não ser um misterioso vento semanal e a chegada de Gênia (!!??), tia da dupla central de crianças, Tarzan e Beijinho. Ela é o ídolo da garotada porque conta histórias.

Para o leitor, ela parece mais uma chata de galocha que diz coisas do tipo: “O Brasil é como um doente que precisa de remédios. Só que, para sarar, ele precisa de cultura”. É mole? Mas também o pai deles, Armando, não fica atrás em sentenciosidade ridícula: “O Brasil não tem memória porque as famílias se esquecem de entregar aos filhos os retratos, os papéis, as intrigas escondidas no porão de cada casa”!!??

Na intriga armada pela autora, em que os personagens ficam “genuflexos”, “impávidos” e saem “vencedores da pugna” (o que me confirma a desconfiança, após umas coxas de alabastro que apareciam em A casa da paixão, de que  Nélida Piñon veio ao mundo com o coração parnasiano), Tarzan descobre que o dono do bar da cidade e seu sócio escondem alguma coisa relacionada com o vento. Através de um mapa, ele e sua turma encontram uma caverna onde o misterioso vento vive aprisionado pelos dois comparsas, dentro de um odre (para que a autora possa nos remeter ao mito de Éolo e sua participação no regresso de Ulisses para casa na Odisséia).Como foi Gênia quem começou toda a especulação sobre o vento, caberá a ela a palavra final, salvando a garotada que ficou em apuros na caverna, pois, segundo ela, quem começa a contar uma história é seu dono.

Há coisas boas. Apesar de tudo, é sempre necessário um fundo pedagógico nas histórias juvenis, e por isso são válidas as informações sobre o vento, tanto literárias quanto geográficas. Seria muito instigante, caso melhor aproveitada, a idéia de que todos, mesmo os personagens mais prosaicose mergulhados na rotona, projetam sua fantasia em algo.

A narrativa vai desenhando diversos graus de envolvimento com a imaginação e a criatividade, desde a empregada Nhonhô,com seus quitutes, até a tia Gênia. O problema é que a imaginação da autora simplesmente não decola. E nem a linguagem. A expedição à caverna é sabotada por trechos como: “Se o triunfo promovia a glória, o fracasso vergava-lhe os ombros” (referindo-se à situação de Tarzan como líder do grupo) ou “Aquele mundo de pedra haveria na manhã seguinte de dardejar setas de luz oriundas do sol”!!??

E quando o próprio Tarzan toma a narrativa para si, no capítulo 15, a autora fá-lo afirmar coisas como “Aquela excursão precisava ser coroada de êxito. Havia que acreditar na concórdia dos homens”, e temos a interminável e impagável litania de Gênia invocando o vento: “Tu que governas os grotões da terra, que alicias as ondas do mar, que atormentas os sentidos dos fracassados, castigas os que traem,os que mentem, os que não sabem sonhar”, lembrando aquela iinsuportável e bisonha canção de Guilherme Arantes, Planeta Água.

A mediocridade do seu estilo não impede que Nélida Piñon tente dar um clima grandioso para o seu livreco: “Dava-se na caverna, em torno do odre, uma batalha que, desde a criação do homem, perseguiu a humanidade.As forças do bem e do mal defrontando-se em acirrada contenda”!!??

Há, anexo ao livro, um suplemento de apoio para os alunos (deveria ser, na verdade, um pronto-socorro porque muitos poderão sucumbir ao tédio mortal), com um roteiro para o professor trabalhar com eles, cheio de observações interessantes e inteligentes. Tal suplemento-roteiro é mais criativo do que o próprio A roda do vento: inventa um livro que o leitor não leu. Temos declarações como: “Tal indefinição proposital faz com que o leitor não possa ter uma atitude passiva, de quem apenas segue um trabalho acabado. Ele é de certa forma um co-autor da obra… Enfim, trata-se de uma escritora que promove verdadeira iniciação à ficção literária e desvenda-lhes o fascínio perene da literatura, a possibilidade de construir um mundo a partir das palavras…” Isso sim é uma imaginação delirante. Ou uma cabeça-de-vento.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 03 de dezembro de 1996)

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