MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/03/2013

O LIVRO VERMELHO de Jung: “Assim falou Zaratustra”, “Imitação de Cristo”, “Divina Comédia” e “Interpretação dos sonhos” num mesmo pacote

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(o texto abaixo é uma versão resumida e alternativa à que eu propus à TRIBUNA de Santos e que foi publicada em 07 de junho de 2011; há, portanto, três versões: uma, bastante extensa, e que pode ser encontrada no blog:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/22/forever-jung-o-cinquentenario-da-sua-morte-e-o-livro-vermelho/; uma intermediária, a que saiu em página inteira no referido jornal; e esta, no formato de uma resenha usual — preparada, caso A TRIBUNA não topasse minha proposta. Como foi lançada uma versão “light” pela Vozes do volume original, resolvi fazer o mesmo):

Em 6 de junho de 1961, morreu Carl Gustav Jung, o pioneiro que aproximou o tratamento psicanalítico das concepções orientais e abriu caminho no Ocidente para a proliferação das terapias alternativas, às vésperas dos seus 86 anos. Para marcar o evento, a editora Vozes lançou nova edição da sua Obra Completa , mas  o evento memorável desse cinqüentenário é a publicação de O Livro Vermelho, inclassificável e original texto que surgiu do confronto-mergulho de Jung com seu próprio inconsciente. Pena que a Vozes apostou mais no instinto de aquisição do que no instinto de leitura. Teria sido mais sábio lançar todo o luxuoso aparato fac-similar (maravilhoso), com o texto manuscrito, os desenhos, as mandalas, no formato gigante que foi adotado, e o texto traduzido num volume à parte, mais manipulável. Da maneira como ficou, torna-se quase impossível ler O Livro Vermelho sem riscos musculares. Eu me sentia como que saído do Monte Sinai, um Moisés carregando as (pesadíssimas) Tábuas da Lei. Tudo bem que é um mergulho nos mais recônditos arquétipos, mas exagerou-se na dose!

Em 1913, aos 38 anos, o grande pensador suíço estava em crise: rompera com Freud, do qual era o principal discípulo, e apesar de já ter publicado muito, ainda não dera corpo às concepções psíquico-místicas (arquétipos, inconsciente coletivo, princípio de individuação, animus e anima, o si mesmo, a sombra, os tipos psicológicos), que serão o fundamento da Psicologia Analítica junguiana. Por essa época, passou a ter uma série de visões, sonhos acordados, que para ele, posteriormente, se revelariam antevisões da Primeira Guerra. Isso significaria que havia uma conexão entre os símbolos da psique individual e os da coletividade.

Jung, então, desenvolveu um método chamado “imaginação ativa” , no qual deixava “falar” a sua “alma”, o seu eu interior, aceitando todos os seus conteúdos. Registrou o resultado  num caprichado volume, o Liber Novus, cujo formato lembra muito os manuscritos medievais (na reprodução fac-similar é uma festa para os olhos). Esse livro pessoal se tornou mítico, com a alcunha de O Livro Vermelho, e só recentemente os herdeiros permitiram sua publicação.

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Jung produziu uma mistura torva e inclassificável de Assim falou Zaratustra, Imitação de Cristo, A Divina Comédia e A Interpretação dos Sonhos, rompendo as fronteiras do místico, do literário, do filosófico e do alegórico-simbólico. Num processo de introversão, deixando de lado os compromissos da personalidade “exterior”, sua alma  vivencia um descenso (que também é uma ascensão, já que nesse ponto da psique os contrários se anulam), encontrando personagens enigmáticas, que representam partes cindidas do Eu (o profeta Elias e Salomé, por exemplo, “Logos” e “Eros” num mesmo contexto). O cadáver de um herói (Siegfried) aparece boiando já que ele implica um modelo a ser imitado, um ideal de perfeição e acabamento, e é preciso desatravancar o caminho e abolir as divisões: “Devo dizer que o Deus não podia vir a ser antes que o herói tivesse sido assassinado. O herói, como nós o entendemos, tornou-se o inimigo de Deus, pois o herói é perfeição… não haverá mais nenhum herói e ninguém que o possa imitar… O novo Deus ri da imitação e do seguimento de exemplo. Ele força a pessoa através Dele mesmo…” Assim vai nascendo a “função transcendente”, aquela que permite a colaboração dos conteúdos conscientes e inconscientes.

Ao contrário da interpretação dos sonhos freudiana, onde eles—por meio dos deslocamentos e disfarces—revelam de forma latente  o trabalho do inconsciente que seria preciso tornar manifesto e que remontaria a causas pretéritas, escondidas na infância individual, a escavação do onírico feita por Jung se volta mais para a revelação do futuro que se oculta nas dobras do imaginário. Não é á toa que anunciou o trabalho de toda uma vida.

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Serviço: O Livro Vermelho- Liber Novus (2009), de C.G. Jung (1875-1961). Tradução de Edgar Orth, Gentil A. Titton e Gustavo Barcellos, revista por Walter Boechat. Editora Vozes.

 

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