MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/07/2013

O introvertido junguiano na ótica de Saul Bellow

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 07 de setembro de 1999)

Sempre que leio um texto de  Saul Bellow me vem à mente uma frase do monumental Tipos Psicológicos (um livro que poucas pessoas se animam a ler, o que é uma pena, pois é uma experiência extraordinária), de Jung: “…o que tende para fora tem de viver o seu mito,o que tende para dentro sonhará seu meio ambiente, a chamada vida real” (o que tende para fora= extrovertido; o que tende para dentro= introvertido).

A chamada vida real geralmente vem cobrar seu preço aos introvertidos protagonistas do autor de The actual- Presença de mulher (1997)—em tradução de Lia Wyler—,quebrando a auto-complacência deles de encontro aos aspectos mais sórdidos e degradantes da nossa existência, envolvendo-os em adultérios, divórcios, crimes e outros pecados.

No caso do protagonista-narrador de The actual, Harry Trellman esse encontro com a chamada vida real e seus aspectos menos “elegantes”, por assim dizer, acontecerá tardiamente por causa da sua peculiar relação com um milionário, Sigmund Adletsky, que utiliza em seu próprio proveito as observações de Trellman sobre o comportamento do rarefeito círculo de pessoas que eles conhecem.

Trellman, ao longo de sua vida, manteve-se apaixonado por Amy Wustrin (a qual casou com Jay, melhor amigo dele) e, a certa altura dos acontecimentos, ela começou a trabalhar para Adletsky, assessorando-o (como decoradora) na compra de imóveis.

A contraditória “presença” de Amy na vida de Trellman (realçada pelo mal escolhido título brasileiro) pode se constatada no seguinte trecho: “Objeto de amor seria o termo conveniente mais comum para indicar o que Amy se tornou para mim. Mas aonde isto leva? Suponhamos que, em lugar de dizer objeto de amor, disséssemos porta—que tipo de porta? Tem maçaneta, velha ou nova, lisa ou amassada, para onde abre? Investi nela meio século de sentimentos, fantasias, absorção, conversas imaginárias. Depois de quarenta anos de imaginação concentrada, sinto-me capaz de visualizá-la em qualquer momento de um determinado dia… Mas, uma vez, há uns dez anos, encontrei Amy inesperadamente e não a reconheci, a mulher com quem eu virtualmente mantinha um contato mental diário… Ela estava no mundo real. Eu não”.

O eixo do texto é um único dia, um dia gelado em Chicago, aquele em que Amy deve efetuar a transferência dos restos mortais do ex-marido (que comprara, numa brincadeira de mau-gosto, do pai dela, o túmulo ao lado da sogra). Antes, ela tem um compromisso com Adletsky, envolvido na compra de um novo apartamento. É ele quem sugere que Trellman faça companhia a Amy na sua desagradável tarefa no cemitério, possibilitando um dos mais inusitados pedidos de casamento da ficção.

E na narração desse dia de reencontro para Amy e Trellman emerge alguns desagradáveis  elementos que compõem a vida real, da qual ele sempre se sentiu “exilado” (mesmo em aparência: judeu, ele tem no entanto uma aparência “oriental”, lembrando para alguns um chinês e para Adletsky um japonês): Jay  Wustrin, o falecido, gravara as relações sexuais de Amy com um amante ocasional e usara as fitas no tribunal para deixá-la sem nada.

O apartamento cuja mobília Amy e Adletsky vão vistoriar e discutir o preço pertence ao casal Heisinger. Madge Heisinger tem no seu currículo anos de prisão como mandante da frustrada tentativa de homicídio contra o marido e pretende dar o dinheiro da venda para o amante que tentou efetivar o assassinato.

O próprio e finado Wustrin adorava mostrar a Trellman um marido cuja esposa ele já “traçara”. O início da curiosa ligação dangereuse entre Trellman e Adletsky teve como estímulo a discussão das humilhações sofridas por uma mulher distinta, Francis Jellicoe, que ambos admiram, em função da sua paixão por um marido imprestável que engravidara uma esquimó da Groenlândia…

Mesmo mantendo-se num plano quase ascético nessa área sentimental (ao contrário de alguns famosos protagonistas de Bellow, como os de Herzog & O legado de Humboldt), Trellman oculta certas irregularidades nos seus negócios que apenas ficam insinuadas na narrativa.

O toque de gênio de The actual, que evoca as maiores realizações do esplêndido autor de O planeta do Sr. Sammler, é que mostrando como o intrrovertido Trellman sonha a “vida real”, quase que a contragosto, ele também consegue mostrar os mitos que iludiram e tornaram teatral e falseada a vida de pessoas mais ajustadas, não-exiladas do jogo da existência social, como o próprio marido de Amy, e até ela mesma, como se pode constatar na cena em que Trellman não a reconhece na rua, apesar de ter pensado nela todos os dias durante décadas: “Para ela foi um golpe terrível… E quis dizer com isso que, se eu não a reconhecia, ela já não era a mesma pessoa. Ela, que anda se apresentava ou, como se diz, vendia a imagem que costumava ter, fora apanhada em uma impostura”.

Ou mais adiante: “Esta manhã Amy usava muita maquiagem, especialmente em torno dos olhos, onde precisava mais. Seu rosto redondo estava calmo, embora sua máquina de calcular interior estivesse funcionando em alta velocidade… era óbvio que ela ainda controlava a aparência; suas peculiaridades e faculdades estavam como reses no curral, sob suas vistas”.

19/07/2012

Mailer e a estrada perdida: UM SONHO AMERICANO

   

  

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente, em A TRIBUNA de Santos, em 24 de novembro de 2007)

 A geração à qual pertencia Norman Mailer parece ter chegado ao auge do seu talento em meados dos anos 1960: Saul Bellow com Herzog, em 1964; Truman Capote, com A sangue frio, em 1966; William Styron e Gore Vidal, respectivamente com As confissões de Nat Turner e Washington D.C., em 1967. E Norman Mailer publicou em 1965 a obra-prima suprema do “grupo” (competitivos, eles detestariam ser arrolados assim), com a possível exceção de A sangue frio:  Um sonho americano, já competentemente traduzido no Brasil (por Waltensir Dutra), e que agora ganhou nova versão, dentro da série Pocket da L&PM, realizada pela responsável pelo Harry Potter brasileiro, Lya Wiler.

    Um sonho americano é narrado por Stephen Rojack, cujas raízes, “raízes de erva daninha” remontam a um “pai judeu, descendente de imigrantes” e a uma “mãe protestante, família de banqueiros da Nova Inglaterra, segunda geração” (em algum lugar ele falará da velha cepa protestante de uma nação enlouquecida”). Ele mata a esposa, durante uma luta, encena um suicídio (atirando-a no meio do trânsito de Nova Iorque) e apesar da suspeita da polícia consegue se safar. A narrativa se concentra na noite do crime e no dia seguinte, quando ele se confronta com o sogro, um magnata, no seu andar privativo no Hotel Waldorf.

   É-nos servido o grande coquetel americano: luxúria, poder, dinheiro, violência. Desse mesmo material são produzidos best sellers às pencas. Desse mesmo material, Scott Fitzgerald construiu sua magnífica obra elevando a mito a obsessão dos EUA com sucesso e fracasso: nomes de família antigos, referências prestigiosas (Harvard, Princeton), a vulgaridade tolerada (Hollywood; no romance de Mailer, a televisão), o esporte como heroísmo, e arrivistas que vencem com a força do dinheiro, mas que, como Gatsby, serão sempre mantidos do lado de fora. Mailer adicionou a aura heroica da Segunda Grande Guerra (Rojack é um ex-combatente condecorado) e o carisma e status aristocrático do clã Kennedy.

Daí o primeiro e emblemático parágrafo do livro:

Conheci Jack Kennedy em novembro de 1946. Éramos ambos heróis de guerra e havíamos sido eleitos recentemente para o Congresso. Saímos, certa noite, para um encontro duplo, que acabou sendo uma noite e tanto para mim. Possuí uma moça que se teria entediado com um diamante do tamanho do Ritz.

    A moça que se teria entediado com um diamante do tamanho do Ritz é justamente a esposa (católica) que ele assassina. E assim se inicia um relato sulfúrico, em que analogias se sucedem vertiginosamente, como acontece em nossos dias com o argentino Alan Pauls e seu O passado, romance que também cerca cada momento com uma imagem ou um símile.

   Só que Pauls parece “fechar” tudo harmoniosamente, numa formulação lapidar, enquanto Mailer sempre parece a um passo de desagregar sua narrativa, de destruí-la sem apelo, tal o revolutear dos seus leitmotivs, próximos da incoerência, tal o namoro com a frivolidade, a volubilidade e o exibicionismo.  Portanto, no sobrecarregado e abusivo texto de Um sonho americano, nem tudo é feliz, e às vezes pode ser detectado algo de inconsequente. E daí? O acúmulo desgastante acaba se justificando pela imposição da desordem da existência sobre o sonho americano de organizar a vida em trajetórias, bem ou mal sucedidas.

   Poucas vezes, também, uma obra de ficção mostrou como a consciência pode ser afetada por sons, luzes, cheiros: quando Rojack está embriagado, sentimos isso no próprio âmago do relato, é quase como um bafo que nos entorpecesse.

    E além do rastro fitzgeraldiano deixado pelo fabuloso início acima citado, Mailer amarrou o seu genial romance com a lição aprendida em Hemingway: diálogos precisos e maravilhosos fazem a narrativa avançar sem que percebamos, e a conduzem com vigor, da claustrofóbica jaula urbana da insanidade da nação, para a grande tentação (e esta palavra  não poderia ser mais adequada ao mundo de um escritor) do imaginário americano: on the road

15/07/2011

O prazer de ler Harry Potter apesar das edições brasileiras

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 08 de junho de 2004, em função do lançamento da versão cinematográfica)

Quando foi lançado em 1999, Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban marcava uma diferença com relação aos dois volumes anteriores (Harry Potter e A pedra filosofal & Harry Potter e A câmara secreta): enquanto eles mostravam enredos fechados em si mesmos (e, no caso do segundo, trata-se de um enredo extraordinário, que faz dele o melhor da série até agora); desta vez, o desfecho ficava inconcluso, abrindo um leque maior, complicando mais as relações e as possibilidades da história.

Harry fica sabendo que seu padrinho, Sirius Black, tido como perigoso assassino e responsável pela morte dos pais do jovem bruxo (motivo  pelo qual ele passou doze anos na prisão de Azkaban), é inocente, porém no desfecho Sirius não consegue limpar seu nome e tem de se tornar um foragido, assim como o hipogrifo Bicuço (Buckbeak), condenado à morte por intrigas do perverso Draco Malfoy, rival de Harry em Hogwarts; além disso, um servo importante de Lord Voldemort, Peter Pettigrew, supostamente assassinado por Sirius e que esteve camuflado na forma do rato de Ron Weasley, Perebas (Scabbers), consegue escapar—após seus desmascaramento—para se runir ao seu mestre (o que dará ensejo ao quarto volume, Harry Potter e O cálice de fogo, no qual se mostra como Voldemort consegue recobrar um corpo, com a ajuda de Pettigrew).

Sem contar que as coisas se tornaram mais ambíguas: o Ministério da Magia caça Sirius por meio dos macabros Dementadores (que evocam os Espectros do Anel de O Senhor dos Anéis), seres que sugam toda a felicidade e alegria das pessoas e parecem tão ameaçadores quanto Voldemort, tanto que, quando os professor de defesa contra a Arte das Trevas do terceiro ano (nenhum chega a ficar mais), Remus Lupin—que depois se revela um lobisomem—,faz com que a classe de Harry materialize seu maior terror num Bicho Papão (Boggart), o que aparece para o herói da série não é Voldemort e sim um Dementador, o que acarreta aulas particulares nas quais Lupin—que foi amigo do pai de Harry—lhe ensina como conjurar um Patrono protetor, através de um feitiço avançadíssimo, que terá grande importância na trama.

Em Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban aparecem dois personagens que se tornarão importantes nos seguintes: Cedric Diggory (um rival amistoso de Harry na disputa pelo cálice de fogo, tendo um cruel destino) e Cho Chang, que namorará os dois.

Harry ainda recebe como presente o Mapa do Maroto, que foi criado por Lupin, Pettigrew, Sirius e seu pai, durante a adolescência, em suas identidades de Aluado (Moony), Rabicho (Wormtail), Almofadinhas (Padfoot) e Pontas (Prongs).Esse item mágico permitirá que se estabeleça um elo entre ele e o passado, inclusive com o desagradável professor Snape, o eu levará ao clímax da história num lugar tido como assombrado, a Casa dos Gritos.

Por fim, é o livro que deixa claro um dos grandes temas da série: o respeito pelas diferenças. Já em Harry Potter e A câmara secreta havia a questão do preconceito (contra os de sangue impuro); aqui, começam a proliferar outros seres, desrespeitados e desprezados pela sociedade dos bruxos[1]. O professor Lupin é um exemplo. É o lado politizado do universo de J.K. Rowling.

Como todos os outros volumes da série, Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban é muito bem traduzido por Lia Wyler. O único senão, e se trata de uma questão puramente idiossincrática, é a tradução dos nomes (por isso, neste artigo, utilizou-se o recurso pedante de informar o nome em inglês). Mesmo aí ela consegue equivalentes perfeitos (quando não se trata dos nomes próprios), como nôitibus andante por the knight bus.

Em compensação, levando-se em conta o preço que a Rocco coloca em seus livros, ela poderia dar um tratamento visual melhor à série, ainda mais devido ao seu público-alvo, os adolescentes.  Compare-se, por exemplo, com a edição americana da Arthur A. Irvine Books-Scholastic Press, que tem um tipo de impressão delicioso que duplica o prazer de ler J.K. Rowling, e que principalmente tem o cuidado de diferenciar as manifestações escritas dos personagens. Dois exemplos são suficientes: enquanto na ultra sem-graça edição brasileira, todos os bilhetes, informes, anúncios e cartas são impressos no mesmo formato (estraga-vista), no capítulo 14 da edição americana, O ressentimento de Snape (Snape´s Grudge), quando Snape tenta fazer funcionar o Mapa do Maroto, é insultado por palavras mágicas de cada um dos seus quatro criadores, com tipos de fonte diferenciados para Moony, Wormtail, Padfoot & Prongs; há um bilhete de Hagrid no capítulo seguinte (The Quadditch Final, isto é, A final do campeonato de quadribol), escrito num momento de tristeza e angústia, e na impressão que copia a peculiar forma de expressão do amigo gigante de Harry aparecem as marcas de lágrimas, borrando o texto e nos fazendo visualizar sua reação à condenação do hipogrifo de estimação. Isso é respeito pelo leitor. E aumenta a diversão. Quem sabe, algum dia, a Rocco siga o exemplo.


[1] Em Harry Potter e O cálice de fogo há um toque Vestígios do dia: a bruxinha Hermione se revolta ao descobrir que há criadagem em Hogwarts, elfos domésticos, explorados e alienados  ao mesmo tempo; comentando esse fato, o padrinho de Harry, Sirius, diz algo revelador sobre a estrutura social britânica: “Se você quer saber como um homem é, veja como ele trata os inferiores, e não os seus iguais”).

A série Harry Potter e o quinto volume

 

 

 

PRIMEIRA PARTE

O lançamento de Harry Potter e A Ordem da Fênix traz de volta tanto a badalação por parte da mídia quanto as reações negativas de praxe. E como a série já está no quinto volume, é possível uma avaliação objetiva de suas qualidades ficcionais e literárias, que são muitas.

Antes de mais nada, é preciso dizer de saída que sou fã dos livros de J.K. Rowling. Poderia dar como razão o fato de que a literatura feita no Brasil é deprimente. Qualquer um que tenha experiência como professor percebe que os livros são mal escritos, pobres ficcionalmente, tem “toques” politicamente corretos repelentemente deliberados e óbvios, encomendados pelas editoras e ditados por parâmetros curriculares, temas transversais e o escambal, que parecem ter substituído a inteligência e o talento.

J.K. Rowling sabe exatamente como funcionam as crianças e os adolescentes e a competição acirrada entre as casas de Hogwarts (especialmente entre Grifinória e Sonserina) prova isso.

Mas é necessário mesmo qualquer razão ou desculpa? O fato é que muitos dos que discutem a série Harry Potter, a favor ou contra, estão pouco preocupados com ela enquanto leitura para jovens. É ótimo que os jovens gostem de uma coisa tão boa, tão inventiva. O interessante é que muitos leitores adultos, conquistados pelo poder fabulatório de Rowling, procuram justificar esse inesperado prazer, meio que envergonhados porque há uma mídia tão forte cercando tal prazer.

Quando surgiu o primeiro Harry Potter, o da pedra filosofal, um espaço foi preenchido: entre o infantil e o adulto nada havia, a não os clássicos e o cinema meio-efeitos especiais meio-visão debilóide da vida, pós (e por causa de) Spielberg & Lucas.

Podia ser um feliz acaso. Aí veio o segundo, o mais impressionante até agora, Harry Potter e A Câmara Secreta, que reafirmava as qualidades do anterior e criava um suspense incrível até sua solução realmente inesperada e inteligentíssima.

Esses dois primeiros volumes eram esféricos, fechados em si mesmos. A partir do terceiro, Harry Potter e O prisioneiro de Azkaban (cuja solução também é bárbara, com a revelação da identidade de Rabicho), o leque se abre, os finais se tornam inconclusivos, exigindo continuação, o que fica mais evidente ainda em Harry Potter e O cálice de fogo, no qual a Macronarrativa (a guerra ente o lado de Dumbledore e o lado de Lord Voldemort, com o Ministério da Magia no meio), que percorre a serie, se delineia claramente.

Esse quarto volume, aliás, em que se pese o seu brio narrativo, é o que mais justificaria a ácida crítica de Harold Bloom, de que a leitura de J.K. Rowling seria apenas uma preparação para a leitura de Stephen King. Tanto no início quanto no clímax (quando há ossos desenterrados de um cemitério, um braço amputado, e literalmente tira-se o sangue de Harry para que Voldemort readquira um corpo) parece que se está lendo um livro de terror (Bloom parece ter se esquecido de que o mesmo acontece com autores clássicos como Robert Louis Stevenson ou Rudyard Kipling; no fundo, é uma besteira tão grande quanto dizer que o universo criado por Rowling é derivativo, que se serve de várias fontes anteriores. Onde estão os autores “puros”, que sacam universos ficcionais do nada? Quem conhecer um, pode me indicar, por favor).

Ao mesmo tempo, a melancolia da série acentua-se e o tom torna-se soturno. Isso já podia ser sentido no terceiro volume, com a aparição de Sirius Black, o  trágico padrinho de Harry, mas é O cálice de fogo que vai impor esse clima, que predomina igualmente em Harry Potter e A ordem da fênix).

É interessante notar que a autora, desta vez, confia totalmente em que o leitor da nova aventura já conheça a série porque, ao contrário dos anteriores, não se deu ao trabalho de explicar acontecimentos passados ou quem são os personagens. Por isso, é pouco indicado para quem não tiver lido os outros. Em compensação, isso torna a leitura,para quem já os conhece e se sente em casa, mais fluente e absorvente,ao ponto de não se sentir as setecentas páginas.

O tom é aflitivo, pesado até, a autora investe pouco em acontecimentos aventurosos (a não ser novamente no início, com Harry sendo atacado pelos terríveis Dementadores, e no clímax, quando ele e seus companheiros de Hogwarts penetram no Ministério da Magia) e mais nos conflitos  dramáticos, ligados ao desabrochar da adolescência de Harry (aos 15 anos) e da sua conseqüente e inevitável rebeldia.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 09 de dezembro de 2003)

 

SEGUNDA PARTE

“Os jovens são tão infernalmente convencidos de que têm absoluta razão em tudo. Será que ainda não lhe ocorreu…que pode haver uma excelente razão para o diretor de Hogwarts não contar a você cada pequeno detalhe dos planos dele? Você nunca parou, ao se sentir desprezado, a observar que a obediência às ordens de Dumbledore nunca o colocou em perigo? Não. Não, como todos os jovens, você tem certeza de que só você sente e pensa, só você reconhece o perigo, só você é bastante inteligente para perceber  o que o Lorde das Trevas está planejando…”

    Essa arenga (na pág. 406 da edição brasileira da Rocco, traduzida por Lia Wyler) do falecido diretor de Hogwarts, Fineus Nigellus, que como figura de quadro na sala de Dumbledore (como se sabe, os retratados têm vida própria e podem até abandonar os próprios quadros e percorrer os demais) conversa com Harry Potter, confirma aquilo que eu afirmava em artigo anterior (ver acima): a rebeldia adolescente fornece o colorido de Harry Potter e A Ordem da Fênix.

A própria idade a que Harry chegou já propicia as condições para esse clima (afinal a série está acompanhando seu desenvolvimento desde os 11 anos), mas ele será reforçado pela situação em Hogwarts: após uma campanha do Ministério da Magia para desacreditar Harry e Dumbledore, com o fito de impedir que a comunidade bruxa saiba que Voldemort retornou (o que ocasiona até um ataque dos apavorantes Dementadores, que evocam para mim os Espectros do Anel de Tolkien), a própria escola de magia começa a sofrer a ação invasiva por parte do Ministério, através de uma série de decretos educacionais que culminarão com o afastamento de Dumbledore como diretor em favor da tirânica, arrivista e arbitrária Dolores Umbridge, que lembra incrivelmente a nefasta e sinistre Rose Neubauer, ex-secretária da educação do estado de São Paulo, onde ela causou tanto mal quanto a Alta Inquisidora de Hogwarts (já o atual secretário, Gabriel Chalita, lembra por sua vez um dos personagens cômicos da série, Gilderoy Lockhart, um dos malfadados professores de defesa contra a Arte das Trevas, e cujos únicos talentos eram a autopromoção, a proximidade com os poderosos e a capacidade de distribuir sorrisos e autógrafos).

É preciso dizer que, embora o livro seja ótimo, há um certo exagero caricatural na caracterização de Umbridge, a qual vai criando um regime opressivo em Hogwarts e chega ao ponto de ameaçar Harry com a tortura física (com a maldição cruciatus, que consiste em fazer a pessoa sentir dor até enlouquecer). Harry também consegue ficar bem chatinho algumas vezes, como qualquer adolescente, porém isso é perdoável. É verdade que J.K. Rowling abusa da quantidade de vezes em que o faz sentir um aperto no estômago em todos os momentos em que vê ou fala com Cho Chang, sua paixãozinha. Aliás, essa é a parte mais sem-graça de uma leitura em tudo e por tudo empolgante.

E, apesar da forçada de mão na figura de Umbridge, também é preciso dizer que muito do tão falado clima de suspense do livro (que nos faz devorar centenas de páginas) é alcançado por meio da restrição do ponto-de-vista narrativa, o famoso foco, a Harry. Como só vemos os acontecimentos através dele e não sabemos o que está acontecendo fora de Hogwarts (e às vezes ele fica alienado e distante de seu próprio grupo de amigos), tudo fica mais ameaçador e asfixiante.

Outro aspecto curioso: cada vez mais o desenvolvimento dos personagens vai aproximando o mundo de Harry Potter de um premonitório roteiro escrito há quase vinte anos por Chris Columbus, Young Sherlock Holmes-O enigma da pirâmide, que virou um lindo filme de Barry Levinson (em 1985) e que tinha o internato, a rivalidade entre estudantes e um apelo a um mundo sobrenatural e mágico. Não por acaso Columbus acertou a mão (sei que  não é a opinião corrente entre a crítica) na adaptação do primeiro livro (Harry Potter e A pedra filosofal), embora fosse até covardia, com uma dupla tão maravilhosa quanto Daniel Radcliffe e Emma Watson (Harry e Hermione). De fato, foi por causa da versão cinematográfica que eu quis conhecer o livro de J.K. Rowling e, bem, chegamos aqui.

Harry Potter e A Ordem da Fênix representa uma espécie de conclusão do rito de passagem que se esboçava desde o livro anterior (Harry Potter e O cálice de fogo). Vamos ver o que resultará dele. Só sabemos que uma profecia sombria tornou sua vida um destino.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de dezembro de 2003)

MAIS UM PROFESSOR DE DEFESA CONTRA AS ARTES DAS TREVAS PERDIDO

JKRowlingPA_468x461

3939B9_1

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em julho de 2009)

Finalmente, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe (mais precisamente, Harry Potter e O Príncipe Mestiço), o antipático (embora descubramos mais tarde que ele é uma figura mais para trágica) professor Snape consegue o que almejava desde que apareceu pela primeira vez na história: ser o professor de Defesa contra as Artes das Trevas. O leitor da série sabe, porém, que esse é um cargo azarado: nenhum dos ocupantes voltou para o ano seguinte; também sabe que cada um desses malfadados mestres (Quirrell, que carregava Voldemort como parasita no seu corpo; Gilderoy Lockhart, que era um embusteiro; Remus Lupin, vítima de preconceito por ser um lobisomem; Olho-Tonto Moody, que era um disfarce, proporcionado pela poção polissuco, para um seguidor do grande inimigo de Potter; a repelente e totalitária Dolores Umbridge) estava diretamente ligado à trama principal do volume de que participavam. E desta vez não é diferente: Snape assassina o diretor de Hogwarts e protetor de Harry, Dumbledore, o qual depositava nele uma confiança não compartilhada por mais ninguém, uma vez que o temido professor de Poções (nos anos anteriores) já fora um Comensal da Morte, assecla de Lord Voldemort. Só no volume seguinte saberemos que esse crime foi arquitetado pelo próprio Dumbledore, para proteger Draco Malfoy, encarregado pelo grande vilão, de executar  essa terrível tarefa (e nós conheceremos o desamparo do rapaz, em seus colóquios com a patética Murta-que-geme, o fantasma dos banheiros de Hogwarts).

harryp

O andamento da trama também explica por que tanta atenção se dá ao professor que troca de lugar com Snape, Horace Slughorn, que vem dar à  escola de magia um toque de mundanidade e sede de prestígio social, com sua escolha de “favoritos” que lhe podem ser úteis no futuro (“Ocorreu a Harry a nítida imagem de uma grande aranha inchada, tecendo a teia em torno dele, torcendo um fio aqui e outro ali para trazer mais perto suas moscas gordas e sumarentas”). Potter, agora com 16 anos, se destaca nas suas aulas ao usar um velho livro paradidático cheio de anotações criativas (e potencialmente perigosas) de um ex-aluno, um “Príncipe mestiço” (que descobriremos tratar-se do próprio Snape), apesar dos avisos de sua amiga Hermione (parece que ele se esqueceu do que acontecera em Harry Potter e A Câmara Secreta).

Enquanto isso, ele e Dumbledore se ocupam em vasculhar o passado de Lord Voldemort quando era o jovem Tom Riddle e vivera, muito à Dickens, num orfanato (ficamos conhecendo também a sua mãe, que era bruxa, e seu pai, trouxa, que fugira com ela e a abandonara, grávida), e em localizar os objetos nos quais ele concentrou parte de seu ser, as horcruxes (ter tentado destruir uma delas parece ser a causa da ampla mutilação de uma das mãos do grande bruxo). Harry participará, inclusive, de uma incursão em busca de um medalhão antigo numa caverna, cujo clímax será o crime de Snapes.

inimigos de HP

Na condição de penúltimo volume, e postado entre dois livros monstruosamente prolixos e vibrantes (A Ordem da Fênix e As Relíquias da Morte), O Enigma do Príncipe parece o mais sem graça de toda a série. O primeiro (A Pedra Filosofal) a apresentava de forma muito bem sucedida, os dois seguintes eram brilhantes (A Câmara Secreta & O Prisioneiro de Azkaban) em termos de fabulação e esgotavam todas as possibilidades de Hogwarts como cenário principal (e na minha opinião ainda constituem seu ponto alto), depois o quarto (O Cálice de Fogo) abria-se para uma visão mais ampla do mundo bruxo (com o torneio internacional, além da copa mundial de quadribol), além de marcar a restauração física de Voldemort, o quinto (A Ordem da Fênix) é o ciclope que conhecemos, e o sétimo (As Relíquias da Morte) um “grand finale”. Apesar de conter o fato mais dramático até então ocorrido, a morte de Dumbledore (além disso, traído ignominiosamente), o que a sexta aventura de Harry Potter oferece?

harrypotter3poster02

Para começar, tem o início mais inteligente e divertido, entre todos, com o encontro entre o ministro da magia e o ministro trouxa. Além disso, é o único em que há realmente uma excursão aventuresca clássica, ou seja, para um lugar desconhecido (quando Dumbledore e Harry penetram na caverna onde Voldemort escondeu uma das horcruxes), que não seja as dependências ou imediações de Hogwarts ou do Ministério da Magia, talvez o grande momento narrativo do romance. Aliás, o desaparecimento de Dumbledore, que era uma figura perpassada por um sopro poético  (não é à toa que, quando busca Potter na casa dos tios, ele diz a seu protegido de forma shakesperiana: “E agora, Harry, vamos sair para a noite em busca dessa sedutora volúvel, a aventura”) mostra o grande vazio que se abate sobre os heróis: a sucessora é a sempre firme, leal, mas inabalavelmente prosaica Minerva McGonagall (e caberá a Harry preencher o vazio).

Para os adolescentes (será que só para eles ?), há decerto um charme a mais: pode parecer estranho (e no entanto é totalmente verossímil) que Harry e seus amigos se preocupem com exames, matérias e paixonites e rusgas e picuinhas, com tal ameaça pairando sobre eles. Ou seja, o cotidiano equilibra a sombria atmosfera geral. Esse é o momento das descobertas amorosas (inclusive da paixão de Harry pela, a meu ver, chatinha Ginny Weasley, que substitui em definitivo a anódina Cho Chang), dos beijos, dos amassos, dos ficares e demais rituais da idade. Esse deve ser, aliás, o grande apelo do filme de David Yates (incrementado pela crescente beleza de Daniel Radcliffe e Emma Watson desde o primeiro filmeJ.K. Rowling os captura com precisão. Parece não estar acontecendo nada, e está acontecendo tudo.

_

Dumbledore__

________________________________

potter e amigos

_______________

16031_hogwarts

__________________

O último Harry Potter: sem decepção

( as resenhas abaixo foram originalmente publicadas em A TRIBUNA de Santos, em 10 e 17 de novembro de 2007)

I

Como milhões de pessoas, eu aguardava fervorosamente Harry Potter e As Relíquias da Morte, sete e último volume da série,  oficialmente lançado hoje no Brasil. Não tanto para saber se o Harry viveria ou morreria (e J.K. Rowling maliciosamente brinca com tal expectativa, fazendo o bruxo descobrir que a aparente intenção de seu mentor, Dumbledore, era que ele morresse no confronto com Lord Voldemort; e, em pleno clímax, colocando um capítulo que se passa numa espécie de Além, com Harry debatendo seu destino com o falecido diretor de Hogwarts, o qual fora supostamente assassinado à traição pelo professor Snape, em Harry Potter e O Enigma do Príncipe), mas para saber se a autora conseguiria amarrar todos os fios de uma trama geral que a cada volume ficava mais intrincada e politizada.

Saldo de uma leitura febril: tirando os persistentes pequenos defeitos (muita gente acha que a prolixidade é um deles, só que as páginas de Rowling são devoráveis, e ela criou um mundo completo, então…; não, o que mais incomoda é certa obtusidade do protagonista, que insiste em uma atitude burra e às vezes nos aliena do seu ponto-de-vista, que, afinal, domina a narrativa, pois Harry está presente em 99% do texto, à exceção do primeiro capítulo, e muitas vezes isolado do mundo dos bruxos), tudo se cumpre à perfeição e com absoluta habilidade. Só é dispensável inapelavelmente o apêndice onde se dá um salto de 19 anos e que contraria de forma inconvincente o clima mais para pessimista desse livro semeado de perdas: a coruja Edwiges, Olho-Tonto Moody, Professor Lupin e sua esposa, um dos gêmeos Weasley, o elfo Dobby…

Um dos aspectos mais fortes de Harry Potter e As Relíquias da Morte é a denúncia do totalitarismo que ameaça o mundo na esteira dos acontecimentos do 11 de setembro: a limitação das liberdades, principalmente àqueles que são os Outros. Aliás, já  comentei em outras ocasiões como Rowling entrelaçou de forma magistral o antigo sistema de classes da Inglaterra com o seu mundo de famílias bruxas “sangue puro” as quais têm de engolir a convivência com mestiços e “sangues ruins”, sem falar de outras espécies (elfos, duendes, gigantes).

Por outro lado, a escolha da moldura da série (os anos escolares da escola de magia de Hogwarts) não podia ter sido mais feliz, pois permitiu que se acompanhasse o desenvolvimento do personagem desde seus 11 anos, com as rivalidades, anseios e rebeldias da passagem pela adolescência. Por isso, embora a maior parte da narrativa transcorra longe de Hogwarts (Harry, Hermione e Rony saem pela Inglaterra numa peregrinação em busca das Horscruxes que contêm, cada uma, uma parcela da alma de Voldemort, para destruí-las, com escassas pistas; ao mesmo tempo, são proscritos da “nova ordem mundial” dos bruxos, e ainda ficam sabendo da existência de três “relíquias da morte”: uma varinha invencível, uma pedra ressuscitadora e a já famosa capa de invisibilidade, que Harry herdou do pai no primeiro volume da série), é mais do que justo que seja  ali, o lugar que o portador d cicatriz tem como seu verdadeiro lar, o palco do embate final entre Lord Voldemort e seus Comensais da Morte e Harry e a Ordem da Fênix e a Armada de Dumbledore, após a história começar como de praxe, com o aniversário de Harry, quando ele completa 17 anos e perde o feitiço de proteção que o resguarda e portanto se torna suscetível de ser morto com sucesso pelo Bruxo das Trevas.

II

O Sr. e a Sra. Dursley, da rua dos Alfeneiros, número 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.”

Desde a publicação, há 10 anos, do livro (Harry Potter e A Pedra Filosofal, 1997) que se abria com a frase acima, os sete volumes da série não só encantaram milhões de pessoas, entre elas o autor deste artigo, mas também foram progressivamente configurando um universo completo, “mobiliado” (para utilizar uma expressão de Umberto Eco), auto-suficiente em termos ficcionais.

J.K. Rowling sabe exatamente como funcionam as crianças e adolescentes: a competição acirrada entre as casas de Hogwarts (principalmente entre Grifinória e Sonserina) prova isso. Foi ótimo que os jovens gostassem de uma coisa tão boa, tão inventiva. Só que os leitores adultos tiveram também um quinhão apreciável desse prazer inesperado. Quando surgiu o Harry da pedra filosofal foi preenchido um vácuo no mundo da fabulação: entre o infantil e o adulto nada havia, a não ser os clássicos e o cinema meio-efeitos especiais/meio-visão debilóide da vida, pós Spielberg & Lucas.

Podia ser um feliz acaso. Veio o segundo (talvez o mais impressionante de todos), Harry Potter e A Câmara Secreta, reafirmando as qualidades do anterior e permeado por um suspense incrível, até sua solução realmente inesperada e inteligentíssima.

Esses dois primeiros volumes eram esféricos, fechados em si mesmos. A partir do próximo, Harry Potter e O Prisioneiro de Azkaban (cuja solução também é bárbara, com a revelação da identidade de Rabicho, que se disfarçava no rato Perebas), o leque se abre, os finais tornam-se inconclusos, exigindo continuação, o que fica mais claro ainda em Harry Potter e O Cálice de Fogo, no qual a macro-narrativa (a guerra entre o lado de Dumbledore e o lado de Lord Voldemort, com o Ministério da Magia no meio) que percorre a série delineia-se nitidamente, o que exigirá volumes de fôlego de forma a sustentar convincentemente o clímax, Harry Potter e As Relíquias da Morte.

Na seção anterior, salientei seu lado mais politizado, a denúncia da limitação das liberdades civis, devido a uma ameaça latente ou efetiva. O que é preciso enfatizar realmente é que o dado mais preocupante reside no fato de que Lord Voldemort, com toda a sua maldade e megalomania, apenas serve como elemento catalisador de preconceitos, intolerâncias e desigualdades subjacentes à sociedade dos bruxos. Ele não perverte essa sociedade, e sim expõe o seu lado mais feio e desagradável, tão revoltante como a indiferença e estupidez do casal “trouxa” Dursley no início da história (aliás, Rowling redime o filho deles, Duda, da sua excessiva sanha caricatural neste seu adeus à série). E com que rapidez o Ministério da Magia reage, limitando ou anulando direitos civis, e transformando indivíduos em “indesejáveis” ao regime, não tanto num passe de mágica, mas através de decretos arbitrários e expurgos! Provavelmente esse fator, mais do que a extensão, é que propiciou o clima opressivo dos três últimos volumes, além da habilidosa redução do ponto-de-vista narrativo, que faz com que tudo fique ainda mais aflitivo.

Por outro lado, entre as muitas qualidades de Harry Potter e As Relíquias da morte, não se poderia deixar de destacar a justiça que o livro faz a dois personagens essenciais à trama (é verdade também que a adorável Sra. Weasley tem seu momento de glória ao duelar com a perversa Belatriz): o professor Snape e Neville Longbottom.

Snape é um dos personagens de trajetória mais bem urdidas dentro da série, em razão da ambigüidade que cerca seu posicionamento, e isso até o fim, quando Harry descobre o porquê dos seus atos (seu amor por Lílian Potter) e a combinação entre ele e Dumbledore (acometido por uma doença terminal) para tirar o máximo efeito possível de um pretenso assassinato (propiciando ao diretor da Sonserina reaproximar-se de Voldemort), num dos capítulos-chaves do romance, o quase elegíaco “A história do príncipe”. O que torna efetivamente trágica a figura de Snape e o redime de todos os desagradáveis confrontos anteriores com Harry é que este fica sabendo da verdade após testemunhar a morte do seu professor mais detestado (ou seja, quando a vida deste transformou-se em destino) por ordem de Voldemort, o qual acredita ser indispensável sacrificar seu “colaborador” para possuir de fato uma das três “relíquias da morte” (como se vê, tudo é muito bem amarrado).

Já a figura de Neville cresceu junto com a série: era o gordinho desajeitado, objeto de risotas e peças de mau gosto, servindo um pouco de alívio cômico, e aos pouquinhos (muito aos pouquinhos, discretamente) foi mudando e afirmando-se; também ficamos sabendo do passado terrível de sua família, e houve até a possibilidade de que ele fosse o predestinado, ao invés de Harry (como se aventou em Harry Potter e A Ordem da Fênix). Pois na volta de Harry, Rony e Hermione a Hogwarts, após centenas de páginas, descobrimos que ele é o líder da resistência a Voldemort na escola, o que levará ao desenlace (a batalha entre os dois lados), no qual ele estará ao lado do protagonista (cumprindo de certa forma a enviesada profecia) no momento crucial, em que tudo se decide.

09/01/2011

Vulgo, Atwood

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 25 de novembro de 1997)

      Os admiradores de Margaret Atwood, que a apreciam como um dos escritores mais originais da atualidade, talvez tenham ficado preocupados com a possibilidade de ela ter resvalado para a ficção mais convencional em Vulgo, Grace (Alias Grace, traduzido por Maria José Silveira e publicado pela Marco Zero[1]), sua versão para um crime ocorrido no Canadá em 1843: o assassinato de Thomas Kinnear e de sua governanta-amante, Nancy Montgomery, pelos criados James McDermott e Grace Marks, os quais tentaram fugir para os EUA; capturados, ele foi condenado à forca, ela à prisão perpétua (tinha dezesseis anos), embora negasse ter participado dos crimes.

Mas os admirados de Atwood e os que já andam cheios de histórias baseadas em fatos reais (como se isso fosse garantia de qualidade, a credibilidade factual) não têm motivos para preocupação ou alarme: Vulgo, Grace é puro Margaret Atwood. Como em obras anteriores (Surfacing- O lago sagrado; Madame Oráculo; Olho de gato), o leitor acompanha a formação de uma mulher e sua tentativa de orientar-se no labirinto de imagens culturais em que é lançada pela “condição” feminina, labirinto que nem o feminismo conseguiu destruir, só acrescentando mais galerias.

A ação principal de Vulgo, Grace se passa em 1859, quando o médico Simon Jordan, desejando especializar-se em doenças mentais, aceita o convite do comitê que deseja o perdão para Grace, e manterá colóquios diários com a famosa assassina, que serve como criada na casa do diretor da Penitenciária (a condição servil também é uma pena perpétua?).

O leitor tem a possibilidade de ouvir a versão da própria Grace, sua “voz”, por assim dizer, tal como William Styron fez com o famoso criminoso negro (ou líder revolucionário) Nat Turner no magnífico As confissões de Nat Turner, gerando as mesmas contradições estilísticas, uma vez que temos uma narrativa bem mais culta do que a personagem seria capaz de fazer. Perversamente, entretanto, Atwood mistura a essa versão de Grace as outras versões da história, outras vozes que se interpõem e que tentam situá-la ora como uma mulher demoníaca e mentirosa, ora como uma vítima das circunstâncias, ora como uma donzela que precisa de um herói para “desencantá-la” (mais uma vez Margaret Atwood utiliza estereótipos da ficção gótica—mulheres jovens em perigo, homens malvados, ambientes lúgubres—para mostrar como se falseia o conceito de feminilidade, e como as próprias mulheres tentam se adequar a essas projeções melodramáticas. Como a famosa Mulher do Tenente Francês, Grace inspira piedade e horror e é uma pitada de sol  ao hipócrita ambiente provinciano, principalmente por trazer sempre viva a marca importuna da sexualidade, devido á suposição de ter sido “usada” pelo pretenso cúmplice, McDermott.

E por falar em Mulher do Tenente Francês, a história de Grace Marks lembra o fascinante romance de John Fowles ao mostrar como um cavalheiro (Simon, no caso), que se pretende moderno e avançado, fica á beira de um ataque de nervos diante da mulher-enigma, que conta sua história com o fôlego de uma Sherazade, mas que revela muito pouco de si mesma: “apesar de não conseguir lembrar-se do assassinato, ela tem uma lembrança minuciosa dos detalhes que o cercavam, cada peça de roupa que lavou”. Será que Grace está brincando com ele: “Enquanto ela vai costurando, por fora calma como uma Madona, está o tempo todo exercendo sua obstinando resistência passiva contra ele”.

E Simon, afetado por Grace, acaba envolvido num casulo de sexualidade, num caso adúltero com sua senhoria, com o qual é formal e distante durante o dia, mas com quem se permite orgias e transgressões à noite (“esta noite ele vai bater nela, como ela já implorou que fizesse…”), como se levassem duas existências paralelas. Esse tipo de dicotomia já foi explorado com muita eficácia por Autran Dourado em seu Ópera dos Mortos, onde há um ritual similar entre os protagonistas (e há um antepassado ainda mais notável, se lembrarmos da relação Joe Christmas e Rose Burden em Luz em Agosto, de Faulkner).

Ao final, entre hipóteses, fatos, sonhos e fugas, o que fica da primeira leitura de Vulgo, Grace é a perturbadora certeza de que somos guiados mais pelos nossos impulsos e compulsões do que pelo pouco que conhecemos de nós mesmos.

ATWOOD E O DELEITE

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 19 de outubro de 2004)

Negociando com os mortos (Negotiating with the dead, traduzido por Lya Wyler, e publicado pela Rocco). Não, caro leitor, não se trata de um novo best seller espírita de Zíbia Gasparetto, mas do livro que resultou  das seis conferências apresentadas em Cambridge por Margaret Atwood, autora de alguns dos melhores momentos da ficção contemporânea (especialmente Madame Oráculo, um dos meus livros prediletos) e que poderia muito bem ter sido o nome feminino agraciado com o Nobel de 2004, já que deixaram Iris Murdoch morrer e continuam injustiçando  Doris Lessing ano após ano.

Negociando com os mortos. Tudo o que se escreve tem como motivação o medo e a fascinação diante da mortalidade,  um desejo de empreender a arriscada viagem para os Infernos e dali trazer algo ou alguém ao regressar. Como protótipo da “negociação com os mortos” efetuada pela escritura basta lembrar da cena em que Ulisses atrai com sangue os espíritos falecidos na Odisséia. Esse é o ponto mais avançado na jornada empreendida pela grande escritora canadense. Como boa parte de sua obra ficcional, antes se aborda a complexa situação da mulher que escreve. Ela também investiga questões como a vocação, a relação do escritor com a identidade nacional, com a vida social, com o sucesso financeiro, com os seus predecessores, com o leitor.

O escritor: alguém que é e não, que tem importância em nossa vida através de páginas impressas: Há um epigrama que prendi no quadre de avisos do meu escritório. Querer conhecer um autor porque se gosta do trabalho dele é como querer conhecer um pato porque se gosta do seu patê.  Não é à toa que Margaret Atwood é uma mestra do humor negro.

Negociando com os mortos apresenta muitas, muitas citações. E longe de sobrecarregá-lo, isso contribui para o seu encanto: em primeiro lugar, pela admirável generosidade com que Atwood imanta para seu texto dezenas de obras de ficção e de poemas, compartilhando com a literatura do mundo inteiro seu testemunho sobre a arte de escrever; em segundo, justamente por ela não ser apenas uma escritora fantástica, mas também uma leitura fantástica, na melhor linha de Borges, Italo Calvino e Susan Sontag, acaba por transformar uma citação na coisa mais prazerosa do mundo, como se cada romance, conto ou poema citado fosse uma história a ser contada por uma Sherazade incansável. É com novos olhos, por exemplo, que leremos agora uma parte de 1984, de George Orwell.

Para dar uma idéia exata do que é ler Negociando com os mortos, pode-se recorrer ao final de uma conferência de Atwood (publicada como apêndice de um de seus melhores romances, A noiva ladra): O que eu espero que o leitor extraia disso tudo—e, na verdade, de qualquer livro que leia? Exatamente o que eu mesmo gosto de receber, e freqüentemente recebo, dos livros dos outros. Há uma palavra que sintetiza tudo, é uma qualidade sem a qual todas as outras qualidades, nos livros ou na vida, se tornam ocas. Ela assume muitas formas… O desejo por ela explica por que aqui somos todos leitores, por que vocês fazem o que fazem, e por que eu faço o que faço e por que minha vocação é também minha obsessão… A palavra é Deleite; e é isso que eu desejo a vocês enquanto leitores: Deleite, em todas as suas encarnações sob a forma de livro.


[1] Em 2008, apareceu uma nova tradução (pela Rocco, que vem publicando regularmente as obras de Atwood nos últimos anos), de Geni Hirata, que comentei numa resenha meio que glosada desta que se lê acima, em 16 de agosto daquele ano, em A TRIBUNA.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.