MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/04/2013

O LEVIATÃ AUSTERIANO

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OUTRA RESENHA SOBRE O MESMO LIVRO:

https://armonte.wordpress.com/2011/09/11/o-outono-do-imperio-americano-segundo-paul-auster/

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  11 de agosto de 1993)

Em LEVIATÃ (Leviathan, 1992, em tradução de Thelma Médice Nóbrega), Paul Auster  consegue a façanha de realizar uma obra tão (ou até mais) sombria e abrangente quanto A música do acaso (1990), seu romance anterior. A aparentemente singela narrativa em primeira pessoa esconde um labirinto de contrapontos e paralelismos: em certo momento, o leitor começa a se perguntar por que Peter Aaron (o narrador, P.A.) afirmou que contaria a história de seu amigo Ben Sachs, cuja morte inicia o relato, se até metade predomina a sua própria trajetória. É que esta, se não justifica, ao menos ilumina a trajetória de Sachs, o qual termina a vida explodindo réplicas da estátua da liberdade pela América afora.

Fazendo com que um personagem que abraçou a existência comum e os compromissos sociais comente a vida de um outsider, a técnica de Auster se mostra brilhante: primeiro nos envolve nos debates íntimos de Aaron, tentando “se acertar na vida”, firmar-se na profissão, constituir uma família, juntar algum dinheiro, em meio à perplexidade e frustrações. Os anos vão passando, e os destinos supostamente se moldando (ou amoldando); de repente, numa transição tipicamente austeriana, o acaso intervém e Sachs e a Era Reagan ganham o primeiro plano.

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LEVIATÃ é uma profunda reflexão sobre a América, com sua combinação de fascínio pela liberdade e fanatismo puritano. O acompanhamento dos personagens por vários anos e a irrupção da violência lembram o colega de geração de Auster, também grande escritor, John Irving. O autor de O mundo segundo Garp nos mostra, através de suas fabulações, o quanto vivemos numa corda bamba sobre o irracional, que explode a qualquer momento e arrasta todas as nossas construções afetivas e “projetos”.

Os livros de Irving têm um humor e uma pungência que faltam completamente aos de Auster, cujo mundo é seco, medido demais. De fato, talvez seja o maior reproche que se pode fazer a esse ficcionista imensamente talentoso: uma certa rigidez mecânica, que já fazia com que a ação de A música do acaso (de resto, um grande romance) parecesse concatenada demais e que é mais visível ainda na história de Peter Aaron & Ben Sachs, onde o fluir dos anos deveria dar mais maleabildiade aos acontecimentos que parecem apertados em um anel de ferro. O acaso austeriano, um acaso kafkiano, é um tanto quanto dirigido, parece ter mais a função de fazer com que os personagens se encontrem com suas necessidades e obsessões. O contingente pouco respira nessa narrativa.

E o Leviatã, o monstro que nos envolve e nos digere? O acaso, o fanatismo, o conformismo, o desespero, eis alguns dos olhos desse monstro bíblico e tão atual. Restam a explosão, o silêncio, ou a infinita paciência de um narrador/Penélope tecendo e retecendo a mortalha do amigo e das possibilidades da sua juventude. Com vemos num trecho do bilhete deixado por Sachs: “Você foi tão mais longe do que jamais fui capaz, Peter. Admiro-o por sua inocência, pela forma com que se aferrou a esse único propósito por toda a sua vida. Meu problema é que nunca consegue acreditar nele. Sempre desejei algo mais…”

   Por último, que bom a Best Seller finalmente ter colocado uma capa para um livro de Paul Auster digna de seu clima instigante. É uma das melhores do ano.

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11/09/2011

O outono do império americano segundo Paul Auster

“…existem umas 130 réplicas da Estátua da Liberdade em escala reduzida, em lugares públicos por toda a América… Ao contrário da bandeira, que tende tanto a dividir as pessoas como a uni-las, a Estátua é um símbolo que não  suscita nenhuma controvérsia. Se muitos americanos têm orgulho da sua bandeira, há muitos outros que sentem vergonha dela, e para cada pessoa que a encara como um objeto sagrado, existe outra que gostaria de cuspir nela, ou queimá-la, ou arrastá-la  na lama. A Estátua da Liberdade é imune a esses conflitos. No decorrer dos últimos 100 anos, ela transcendeu a política e a ideologia, plantada na porta de entrada do nosso país como um emblema de tudo o que é bom em nós. Representa antes a esperança do que a realidade, antes a fé do que os fatos, e seria quase impossível encontrar uma única pessoa disposta a condenar as coisas que ela simboliza: democracia, liberdade, igualdade perante a lei… É o melhor que a América tem a oferecer para o mundo, e por mais decepcionada que a pessoa se sinta com a incompetência da América para se comportar à altura desses iideais, os ideais propriamente ditos não são postos em questão.”

Como se pode ver pelo trecho acima, é bem oportuno (após os atentados de onze de setembro) que uma nova tradução de Leviatã  (1992) esteja em circulação. Pois o personagem principal do extraordinário romance de Paul Auster, Benjamin Sachs, se torna um terrorista, o Fantasma da Liberdade, dedicando-se a explodir réplicas da icônica Estátua da Liberdade pela América afora, no objetivo de que a nação “voltasse os olhos para si mesma e se regenerasse”.

Escritor que começa a ficar  “por fora”, out, da América pós-Reagan (Leviatã percorre um período que vai de 1975 a 1990), Sachs descobre que há “uma justificação moral para certas formas de violência política. O terrorismo tinha seu lugar na luta, digamos. Se usado corretamente, ele poderia ser uma ferramenta eficaz para exprimir de forma dramática as questões em jogo, para esclarecer o público quanto à natureza do poder institucional” (saliente-se que ele procura não ferir ninguém ao realizar seus atentados).

Leviatã é uma discreta e notável reflexão sobre a política, sobre as relações entre o indivíduo e o estado, sobre a desobediência civil e o conformismo (essa associação estado-monstro bíblico foi inicialmente feita pelo filósofo Thomas Hobbes, no seu livro homônimo e fundamental , de 1651), além de fixar definitivamente as obsessões ficcionais de Auster. Na Trilogia de Nova York (1986), já encontrávamos: “nada é real a não ser o acaso”. O livro anterior a Leviatã chamava-se A música do acaso (1990). Peter Aaron, amigo de Sachs, igualmente escritor, luta contra o acaso, contra os “fragmentos e cacos, uns poucos fatos evanescentes” e procura instaurar o poder ordenador da narrativa, no qual Sachs (abandonando a literatura) já não acredita. O destino do amigo se torna um desafio para a existência de Aaron, para as suas escolhas de vida: “Não era mais o meu amigo desaparecido, era um sintoma de minha ignorância acerca de tudo, um emblema do próprio desconhecido”.

Essa é uma das inúmeras ironias reversivas de Leviatã, pois toda a pirmeira parte da narrativa foi utilizada para mostrar como Aaron venceu as dificuldades financeiras até se firmar na “carreira” de escritor, constituindo família e adquirindo “estabilidade”. Quando Sachs abandona o livro que está escrevendo (justamente chamado Leviatã), é a opção de Aaron (“toda a minha vida adulta foi consumida em escrever histórias”) que é colocada em xeque. Por isso, numa história onde acontecem tantos fatos violentos e bizarros, não causa estranheza que ele afirme: “De todas as tragédias que o meu pobre amigo engendrou para si mesmo, deixar esse livro inacabado vem a ser a mais difícil de suportar”.

Apesar das tentativas de Aaron de impor um senso narrativo aos fatos aleatórios, o acaso impera: Benjamin Sachs assassina um desconhecido num entrevero de estrada e, ao discutir o fato com sua amiga Maria Turner, acaba descobrindo que sua vítima (talvez um terrorista) é o marido da melhor amiga dela, Lillian Stern, que o conheceu porque Maria descobriu “por acaso” uma agenda de telefones na rua. Maria (que é caracterizada por Aaron, a certa altura da história, como  “espírito soberano do acaso, a deusa do imprevisível”) é quem nos fornece a senha para entender a trama: “O acaso a havia conduzido à agenda, mas agora que ela estava em suas mãos, Maria a tratava como um instrumento do destino”.

A morte do marido de Lillian é o instrumento do acaso-destino para que Sachs abandone a vida pregressa e vá em seu encalço, no outro lado do país, iniciando uma relação intensa e neurótica que o levará a conhecer também  um pouco dos segredos do homem que assassinou e assumir  seu avatar final como terrorista a pregar a purgação moral da América através da destruição substitutiva e simbólica do seu símbolo-mor.

É altamente provável  que, nos próximos anos, Leviatã seja reconhecido como uma das grandes obras literárias do nosso tempo. Há, no entanto, algo que incomoda nesse romance brilhante, algo com o qual o próprio Auster brinca, ao fazer  Aaron criticar o estilo de Sachs, o qual, aliás, depois se faz passar pelo amigo, autografando seus livros pelo país: “há momentos em que o romance dava a sensação de ser demasiado construído, demasiado mecânico na sua orquestração dos fatos”.

Quanto às duas traduções, ambas têm momentos mais ou menos felizes na comparação, com apenas uma discrepância assinalável: enquanto que na de Thelma Médice Nóbrega (editora Best Seller), Maria Turner e Sachs mantinham encontros todas as quintas-feiras,  na de Rubens Figueiredo (Companhia das Letras) esses encontros acontecem às terças-feiras (há também um erro de data na dele: na página 286, onde se lê 1912 deve-se ler 1921). Agora: que capa mais sem imaginação essa que a Companhia das Letras deu ao livro. Cem por cento de obviedade, zero de instigação.

(resenha publicada originalmente em 25 de setembro de 2001,  em A TRIBUNA de Santos)

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