MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/12/2015

Destaque do Blog: O PRINCÍPIO DE VER HISTÓRIAS EM TODO LUGAR, de Leonardo Villa-Forte

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«Como ignorar as pistas? Um sinal destrói tudo. Basta que se esbarre numa faceta suspeita da pessoa, que se leia seu caderno, que se ouçam seus assobios, e tudo se corrói. Resta esperar o abalo final, o sopro que leva ao desabamento»

«– Não, não – ele disse espantado, antes de levantar a franja da testa e segurá-la por sobre a cabeça –, você entendeu errado, não sou eu quem pula da janela. Nunca quis pular de uma janela. Você acha que tudo que escrevo tem a ver comigo e com a minha realidade?»

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de dezembro de 2015)

De Dom Casmurro, passando por São Bernardo, para citar pontos altos, há toda uma linhagem de narradores abraçados ao seu rancor, em razão de  terem sido hipoteticamente traídos, investigando de forma obsessiva os indícios  deixados pela amada, e que se solidarizariam com o protagonista de O princípio de ver histórias em todo lugar, quando afirma: «Se Cecília iria ou não me trair, bom, isso estava fora do meu alcance. O que havia de perverso era a sua capacidade de deixar pistas. E, no entanto, o que eu podia fazer? As pistas já existiam, não havia retorno».

Essa suspeita (Cecília está viajando a trabalho por alguns meses[1]) se une a uma vocação literária interrompida ou frustrada, tanto faz, e também a uma neurótica inquietude diante da fachada das coisas e dos seres, como o nome de uma lanchonete, Copa 74: «Lembrei que a seleção brasileira não havia ganho a Copa do Mundo de 1974, fato que torna o nome do Copa 74 um mistério. O destaque daquele ano foi a Holanda, com seu esquema tático no qual os jogadores variavam o posicionamento confundindo os adversários. Mesmo assim, a campeã foi a Alemanha Ocidental. Talvez o nome da lanchonete tivesse sua origem numa admiração do dono pelo futebol alemão ou holandês, mas nesse caso seria mais coerente que o letreiro do local não fosse colorido de verde e amarelo. Um dia eu desvendaria esse mistério»[2].

Quando visita a casa de Luiz Cláudio, um dos cinco alunos da oficina literária que resolve ministrar para enfrentar a ausência de Cecília e provável rompimento: «Havia algo realmente esquisito naquela família. O que Luiz escondia? Era preocupante a maneira como tratavam Rebeca, exibindo-a aos seus convidados. Além disso, a garota era nova demais para um casal da idade deles. Cogitei ser adotada. Que destino teria aquela criança trancada no quarto? Quantas perguntas».

O romance mescla o envolvimento do improvisado professor com seus alunos a oito (há também um e-mail atribuído a Cecília) dos textos supostamente escritos por eles (não custa lembrar que Leonardo Villa-Forte já se revelou um contista peculiaríssimo com seu livro anterior, O explicador, presente na lista de destaques de 2014 desta coluna[3]) e os quais exploram (sempre com certo clima de violência física, iminente ou praticada) o território do abandono, da mutilação, da falta de comunicação, do comportamento obsessivo, com laivos sedutores de novos começos e de escapadas inesperadas, tabulas rasas. Todos são bons; um deles em especial: Desonra contagiosa, onde há um desafio perverso entre avô e neta, é uma das leituras que mais me impressionaram em tempos recentes.

Sem perder sua já inequívoca personalidade como autor (não fosse a boa safra de 2015[4]O Princípio de ver  histórias em todo lugar bem podia ser o romance do ano), é curioso verificar como essa ficção de (auto)enganos consegue associar elementos de dois dos universos literários mais relevantes da atualidade: o descontrole emocional que afeta percepção do mundo e linguagem dos personagens de Ricardo Lísias[5]; e a exploração lúdica da circularidade irracional dos métodos lógicos aplicados ao cotidiano, tão presente na obra de Gonçalo M. Tavares[6].

Assim, cuidem-se. Tudo aqui é movediço e instável. E o leitor desse carioca de trinta anos, portador de pacatos olhos azuis (estava na hora de Chico Buarque passar essa tocha)[7], tem de ser, antes de tudo, um forte:

«–Tem certeza? – ela perguntou com um ar grave e desconfiado –.

_Como assim tem certeza? Certeza do quê exatamente? ».

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TRECHO SELECIONADO

«A garota encostou o banquinho na cama e o escalou. Rapidamente passou para o meu colchão. A cama era alta e eu tive que me conter para não impedir a pirralha e acabar fazendo com que ela caísse dali. Falei para descer, mas a máscara do nebulizador dificultava ainda mais a audição da minha voz frágil. Ela passou a me tocar, testando a espessura da minha pele, apertando alguns pontos e me olhando para ver a reação. Virei cobaia, pensei furioso. Mas não a interrompi. Meu coração batia mais rápido. Será que a danada tinha preparado errado a minha nebulização? Os toques da garota não eram de todo desagradáveis. Há tempos não sentia uma pele tão lisa e fresca. Ela tocava meus pés, minhas mãos, a barriga, o corpo todo. Checava minha reação em cada ponto e, se minha expressão fosse de prazer, repetia o toque no local, rindo por ter descoberto um botão certo. Deixei que me explorasse até o momento em que quis tocá-la também. Minha mão escorreu fácil pelo seu rosto suave. Ela me olhou com carinho. Brinquei com seus cabelos, tão livres, espalhando-os para um lado e para o outro como se fosse o vento. Desci para a cintura, bem fina, e apertei seus ossos fortes. Com os olhos fechados, senti a maciez delicada de sua pele ao passar minha mão por debaixo de sua saia. Afastei a calcinha com o dedo e lembrei como era me sentir um homem potente.

Tive a sensação de que a garota parou de me tocar, mas mesmo assim continuei por algum tempo.

Quando abri os olhos, a garota sustentava uma expressão congelada, sem emoção alguma. Peguei na sua mão, querendo que ela falasse, mas tudo que fez foi abaixar a cabeça[…]

Ronei disse andando em direção ao corredor, carregando sua filha nos braços. Quando ele ficou de costas para mim, pude ver de novo a expressão distante da garota, o olhar inerte no rosto mais sem vida que já vi».

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 NOTAS

[1] «Nesses três meses, além do sexo, eu sentiria falta do seu ouvido. Ele não estaria lá para receber minhas ligações quando regularmente ao meio-dia eu era tomado pela frustração e pelo desânimo na agência. Seu ouvido não estaria lá quando eu precisasse de alguém para fingir interesse nas ideias estapafúrdias que tenho em noites de insônia. Quem mais escutaria com paciência minhas soluções para problemas que não existem? A quem eu contaria os detalhes dos projetos que quero realizar? Durante um trimestre viveríamos em contraste: ela cercada de pessoas e novidades; eu sozinho, na mesma. Imersa em trabalho, encontros, reuniões, passeios, Cecília sentiria a vertigem dos que são apresentados a uma quantidade alta de estímulos num período curto de tempo. Já a mim faltariam assuntos, acontecimentos, pessoas, novidades. Restariam, sempre comigo, as minhas suspeitas» .

[2] Sem que possamos deixar de lado a sua notável capacidade de fantasiar:

«Peguei uma latinha de água tônica na geladeira e fui até a janela. Abri a latinha e, ao ouvir o estampido do alumínio, pude me ver vestindo um robe lilás, acendendo um charuto cubano e ostentando, na mão cheia de anéis, uma dose de uísque trinta anos. Meus cabelos estavam molhados, brilhosos, penteados simetricamente para trás. Mulheres em trajes de verão circulavam pela minha casa, que se tratava de um imóvel suspenso no meio do mato, de frente para a praia, quase todo feito em madeira, com a assinatura de um arquiteto de grife. O que não era madeira era pintado da cor madeira. Eu me referia a esse elegante, rústico e caríssimo conjunto arquitetônico como “bangalô”. A ducha ficava na varanda, do lado de fora, num box natural feito com bambus. Tomava-se banho observando o mar e a chuva. Eu oferecia bebidas, reunia pessoas, contava piadas…Poucas tinham graça, mas algumas moças riam delas mesmo assim. Depois eu pedia licença e ia chorar no banheiro.

Longe dessa história da qual despertei, e cujo final me parecia uma traição a mim mesmo, eu olhava a rua e a chuva que começara a cair forte».

[3] Apesar de uma certa falta de polimento na prosa, em vários momentos. Tais descuidos já não estão presentes no romance, mas o aprimoramento da linguagem por vezes resvala para trechos gratuitos, os quais, se não chegam a comprometer o conjunto, pouco acrescentam, por exemplo:

« Talvez ela fosse bipolar – disse Carina.

– Bipolar – repeti, e levei um pé frente ao outro. – Bi. Polar – fui em frente, coçando o queixo e olhando pro chão. – Bipolaridade. Dois polos. – Sim – Carina me alcançou – dois extremos. Humores extremos. A pessoa vai do entusiasmo ao abatimento, da expansão ao recolhimento. Fala, fala, fala, e depois cai num mutismo miserável. Tudo num intervalo bem curto de tempo. Já estudei isso para uma matéria. Dizem que fica difícil reconhecer qual das partes é o próprio eu. Isso se você acredita que há um eu unificado, sabe, uma identidade estável. – Entendi. Bipolar. Bipolaridade – repeti comigo, seguindo adiante. – Bipolo. Aqui e ali. Em um e no outro. Bi. Dois. Bipersonalidade. Biamor. Bigamia. Multi. Sim, multi. Multiamor. Multipolar. Multi… ».

[4] Lembro aqui, por exemplo, títulos como Julho é um bom mês para morrer, de Roberto Menezes; A imensidão íntima dos carneiros, de Marcelo Maluf; Um dia toparei comigo, de Paula Fábrio.

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[5] Uma amostra:

«Desenvolvi estratégias de fuga e obtenção de alívio. Uma delas se tratava de telefonar para alguém assim que pusesse os pés em casa no final do dia. Fiz isso na própria quarta-feira, no dia seguinte à partida de Cecília. Era preciso telefonar preparado para alongar a conversa o máximo que pudesse. Um dos meus primeiros alvos foi o restaurante árabe.

– Alô, Denílson – falei ao reconhecer a voz do garçom do outro lado.

– Opa, boa noite, patrão. O que vai ser hoje?

Fiz um pedido. Mudei de ideia. Fiz um novo pedido. Mudei de ideia. Fiz um terceiro pedido. Perguntei como estava o movimento. Sugeri que abrissem aos domingos. Perguntei por que ainda não haviam montado filiais em outros bairros. Daí fiquei sem assunto e quis mudar o pedido outra vez. Infelizmente o cardápio do árabe é escasso.

Falar com um estabelecimento comercial é um caso raro de interação onde se pode ter a certeza do que se pede, do que será oferecido e do preço a ser pago. Não se encontra isso em toda relação.

– E pra beber? – perguntou Denílson.

– Vou beber água, mas tenho água em casa. Obrigado, Denílson, estou esperando – respondi e desliguei satisfeito, sentindo a glória da objetividade.

Cecília era fã do árabe. Foi estranho fazer o pedido só para um. Era a primeira vez que isso acontecia. Cecília me apresentou o restaurante anos atrás. Rapidamente sua comida se tornou a minha preferida. Além de pedir só para um, notei outro elemento esquisito na minha fala: “Tenho água em casa”, repeti para mim mesmo, “Tenho água em casa”, buscando a maneira conforme a pronunciei da primeira vez: “Tenho água em casa”. A entonação havia subido em “tenho” e em “água”, à maneira de um destaque, um sublinhado. Tenho: eu queria ter algo, e se não tinha mais uma mulher pelo menos eu tinha água. Não é uma substituição equilibrada.».

  O restante do episódio, que deixo em aberto, para a descoberta de outros leitores, aprofunda esse desassossego maníaco.

[6] Não resisto, para exemplificar, a citar um dos contos, O e :

«O – Não sou pacato, só não vejo problema onde não há.

 – E onde não há problema? No mundo de hoje, onde é que não se pode mexer?

O – Mexer? Mas quem aqui está querendo mexer?

 – Não sei, por um momento me passou pela cabeça essa ideia de mexer em algo. Mas talvez você não entenda isso. Você é muito pacato.

O – Não sou pacato!

 – Sim, você já disse, mas talvez tenha que dizer três vezes até eu acreditar. Para que mexa em alguma coisa. E, mesmo assim, eu nunca acreditaria tão bem quanto como se você me demonstrasse isso com uma ação.

(O dá um soco em  )

 – É, acho que agora você demonstrou com uma ação.

O– Sim, mas…

  – Dar um soco. Essa deve ser realmente uma maneira inédita de expressar a necessidade de se expressar.

O – Desculpe, .

 – Talvez vivêssemos num mundo melhor se todo mundo que precisasse demonstrar algo fosse lá e desse um soco em alguém, não acha?

O – Já pedi desculpas. Não sei o que passou pela minha cabeça.

  – Eu sei. Você sentiu que a ideia de ser “pacato” poderia ser uma ideia que se vinculasse à sua pessoa. Você sentiu essa pressão. A distância entre a ideia de quem é “O” e a ideia do que é ser “pacato” estava perigosamente diminuindo. Ameaçadoramente diminuindo, eu diria. Então você me bateu.

O – Pare com isso, vamos.

 – Mas agora você aproximou mais ainda as duas ideias, porque percebi: quem dá soco é gente pacata.

O–  , foi só um soquinho.

 –O soco é dado desde o nascimento da humanidade. Se você ainda dá socos, é porque foi tão pacato que não teve a audácia de ousar novos modos de expressão. Você, O, é tão rígido e engessado quanto um guarda-chuva. Ou melhor, muito mais! Fico surpreso por habitarmos o mesmo século».

[7] Aproveitando a alusão  aos olhos do autor para citar uma passagem reveladora (e há muitas focadas na questão dos olhares e nas qualificações a eles associadas):

« De frente para o espelho do elevador, lembrei de uma frase de um livro. O narrador dizia que certo personagem estava com os olhos duros. Sim, olhos duros. Era interessante a imagem, mas seria aplicável à realidade? Como avaliar os olhos e detectar que estão duros? Meus olhos podem estar atentos, concentrados, talvez até secos, mas duros? Não seria um exagero da ficção? Ou talvez o personagem tivesse olhos tão geneticamente diferentes dos meus que os dele pudessem ficar duros, enquanto os meus só ficam atentos».

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