MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

08/07/2013

Um artesão genial das palavras e a respeitabilidade mental: Saul Bellow (1915-2005)

(resenha-homenagem publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de abril de 2005)

“Eu tive consciência da influência de Ravelstein quando imaginei este perfil. É preciso admitir também que ele normalmente estava presente em acontecimentos diários. Isso se devia ao poder da sua personalidade. E também porque sua vida tinha mais estrutura interna do que a minha, e eu tinha me tornado dependente do seu poder de ordenar experiências… Muitas pessoas querem livrar-se dos seus mortos. Eu, pelo contrário, tenho uma tendência para me agarrar a eles. Minha persistente intuição, já deve estar claro nesta altura, é que eles não partiram para sempre… Eu sei que se perde a respeitabilidade mental quando se reconhece esse tipo de fantasia. Até eu, perceba, rendo-me às opiniões correntes. Mas pode haver explicações simples para a persistência de Ravelstein na minha vida diária. Quando ele morreu, eu comecei a ver que tinha se tornado meu hábito contar-lhe o que havia acontecido desde que nos víramos pela última vez…”

Saul Bellow, um dos grandes escritores contemporâneos, sério candidato a maior escritor dos EUA pós-Segunda Guerra,e outra perda (após Susan Sontag), se foi no dia 5 deste mês. Todavia—pelo menos no Brasil—os editores já anteciparam sua morte, uma vez que livros maravilhosos como Herzog (1964), O planeta do Sr. Sammler (1969) e O legado de Humboldt (1975)—difícil escolher o melhor dos três—,para não falar dos menos conhecidos Agarre a vida (1956), Henderson-O rei da chuva (1959) e Dezembro fatal(1985), entre outros, sumiram há muitos anos das livrarias e nunca foram relançados.

Felizmente, o livro que ele escreveu aos 80 e poucos anos (em 2000; Bellow nasceu em 1915), ainda demonstrando sua perícia como artesão das palavras, Ravelstein (em tradução de Léa Viveiros de Castro), o qual gira em torno de uma de suas obsessões (a discussão da natureza da amizade), permite que não haja um vazio em torno do comentário à sua morte. É o tributo de Chick, o narrador, a um amigo, que lhe pedira que escrevesse sua biografia.

Abe Ravelstein era um pensador carismático com uma polêmica carreira acadêmica (“as preocupações sérias de Ravelstein coexistiam, para tomar emprestada uma palavra da política do século XX, com sua bufonaria”) e que escrevera (por sugestão de Chick) um best-seller filosófico (foi o que aconteceu com o inspirador do personagem, Allan Bloom, amigo de Bellow e autor de O declínio da cultura ocidental).

Como acontece nesse tipo de romance, a pretexto de falar sobre o amigo, Chick acaba mesmo é revelando-se para o leitor (ele é o típico herói bellowniano, conforme já se mostrou aqui em outros artigos desta coluna, o introvertido junguiano: “Ele achava que eu estava preso na privacidade e que devia ser devolvido à comunidade—Muitos anos de introspecção—costumava dizer…”) e confrontando-se com sua própria mortalidade (Ravelstein já morrera devido a complicações trazidas pela AIDS): numa viagem consome peixe contaminado e, numa idade bem avançada, passa semanas na UTI entre a vida e a morte (fato que realmente aconteceu com Saul Bellow).

Embora seja um livro digno de seu autor, Ravelstein sofre certo esgotamento porque se imprime grande vitalidade à figura do amigo morto nas primeiras cem páginas (o livro tem duzentas e poucas) e depois não há personagens e situações (mesmo a aterradora experiência de Chick) que sustentem com a mesma intensidade a narrativa.

Por outro lado, é imperdoável que um escritor da categoria dele caia, mesmo numa formulação elegante, naquele velho clichê que envolve o transplante de coração: “Os órgãos são também repositórios das sombras ou dos impulsos assertivos, ansiosos ou alegres,conforme o caso, e estes tinham entrado no corpo de Herbst junto com o coração novo… Se fosse um transplante de rim ou de pâncreas, seria diferente. Mas o coração traz tantas conotações, ele é o centro das emoções do homem—sua vida mais elevada…”!!!??

Numa narrativa dominada por acontecimentos médicos (uma praga do nosso tempo), é preferível a visão do insubmisso Ravelstein: “…ele não gostava muito de médicos, eram os aliados da burguesia que tinha pavor da morte”.

27/03/2013

Os estrangeiros no território da condição humana: “O poder e a glória”

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/globalizacao-literaria-a-obra-de-graham-greene/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/os-esgotos-do-pos-guerra-e-os-escombros-da-camaradagem-masculina/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/20/personagem-a-procura-de-um-autor/

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 29 de fevereiro de 2000

Comentei nesta coluna, na semana passada, Fim de Caso https://armonte.wordpress.com/2013/03/27/o-abismo-das-impossiveis-reconstituicoes-e-os-resignados-habitantes-do-inferno/ sem fazer alusão a nenhuma das outras narrativas do mesmo cacife que o autor, Graham Greene (1904-1991), publicou em sua carreira de muitas décadas (ele publicou seu primeiro romance em 1928), por exemplo, O americano tranqüilo, Um caso liquidado, Viagens com minha tia, O cônsul honorário, O fator humano, Monsenhor Quixote. Mesmo com a alta qualidade de todas elas (e de outras mais), ainda assim perdem longe para um genial trio produzido ao longo de dez anos: Brighton Rock- O Condenado (1938); O poder e a glória (1940); The heart of the matter- O cerne da questão (1948).

No final da década de 30, Greene—que se convertera ao catolicismo—recebeu a incumbência de noticiar as perseguições religiosas do México revolucionário. Ele, então, escreveu um livro-reportagem, The lawless roads. Ninguém podia imaginar (apesar dos seus primeiros trabalhos serem muito bonitos —é o caso de Expresso do Oriente, Um Campo de Batalha, England made me-Bela e Querida Inglaterra, Assassino de aluguel, cuja leitura foi  uma das consequências da apaixonada e prolongada convivência com  Ways of escape-Pontos de fuga— e de ele já ter publicado uma obra-prima como Brighton Rock) que dessa pesquisa factual surgisse um dos livros de ficção essenciais e obrigatórios do século: O poder e a glória.

Ele se passa numa província onde os bananais e a expectativa da estação chuvosa, que torna os caminhos intransitáveis, dão o tom, além dos abutres que sobrevoam o tempo todo os acontecimentos. As igrejas foram fechadas ou destruídas, vários padres fugiram ou foram fuzilados como “traidores da Revolução”. Restaram dois: um, padre José, abjurou de sua fé e casou-se, sendo constantemente ridicularizado. Um outro, que não ganha nome na narrativa, é um bêbado que consegue manter-se em liberdade, e que teve uma filha.

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Um fanático tenente deseja “limpar” o país das superstições e da corrupção clerical e persiste na perseguição ao padre fugitivo. Este, por sua vez, em meio à degradação material e psicológica, “toca” a vida para a frente, conhecendo cada vez mais a Humanidade, muito mais do que no seu encastelamento como sacerdote, cargo que usava para sua própria ascensão social.

É muito espinhoso para quem não tem fé fazer um comentário imparcial ou simpático com relação aos problemas católicos levantados pelo livro. Prefiro abordar outro ponto essencial, mais afim com o existencialismo do que com a religiosidade: todos os personagens de O poder e a glória são ou se sentem estrangeiros na aldeia, na cidade, na província, no mundo. Seja o padre perseguido, seja o tenente fanático pelo dever revolucionário, seja o dentista (sr. Tench) que não consegue juntar dinheiro para sair do país e voltar à Inglaterra, seja a menina inglesa (Coral) que, exilada da infância, tem de tomar decisões de adulta devido à inutilidade e infantilização dos pais (o casal Fellows), seja o “gringo” assassino que vem encontrar seu fim no México, seja o mestiço que acabará por trair o padre, seja o menino que não consegue se convencer da baboseira católica com a qual a mão doutrina a todos na sua casa, ninguém que venha a primeiro plano deixa de demonstrar o mesmo desconforto com a vida. Todos apresentam o mesmo “olhar de estrangeiro” com que o sr. Tench abre a narrativa, olhar compartilhado que impede essa obra-prima de ser a visão eurocêntrica de um escritor sobre o Terceiro Mundo. Greene conseguiu um feito enorme evitando a armadilha de focalizar personagens de um país dependente. A fissura que existiria entre o narrador e o mundo retratado já está nos personagens, já está no absurdo do homem e do mundo coexistirem.

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Além disso, poucos romances podem se gabar de ter a quantidade de cenas admiráveis de O poder e a glória. Entre as que nunca saíram da memória, mesmo anos depois da leitura do romance (primeiro, numa excelente tradução portuguesa, quem diria, de Antônio Gonçalves Rodrigues; depois, na clássica versão de Mário Quintana; atualmente se publica a de Lea Viveiros de Castro), estão a cena em que o tenente reúne todos os habitantes de uma aldeia onde o padre acabou de rezar uma missa furtiva e este fica esperando alguém delatá-lo; a longa cena da noite na prisão (por bebedeira!), que termina com a demonstração da generosidade paternalista do tenente, o qual dá ao padre uns trocados para prosseguir a vida, sem suspeitar que ele é o homem a quem persegue; a cena terrível em que o tenente procura padre José para que ele seja o confessor do outro padre, antes de sua execução; e, mais que todas, a cena em que o padre chega faminto ao local onde a família de Coral habitava e o encontra desabitado, acabando por disputar um osso com alguma carne com uma cachorra moribunda. É um dos dois ou três momentos mais impressionantes da ficção no século XX.

    Infelizmente, não há espaço para falar do estilo de O poder e a glória. Graham Greene criou para si mesmo o folclore de que escrevia diariamente 500 palavras e parava, independentemente de estar no meio de uma frase. O que ele nunca explicou e ninguém talvez explique é como conseguia encontrar 500 palavras iluminadas todos os dias para dar vida à sua obra suprema.

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O abismo das impossíveis reconstituições e os resignados habitantes do Inferno

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de fevereiro de 2000)

Os freqüentadores de cinema já estão assistindo ao trailer da adaptação que Neil Jordan fez de Fim de Caso. O que está reservado a essa que é uma das melhores obras do escritor inglês só Deus sabe, após Jordan ter perpetrado o horrível In Dreams- Premonição, onde a maravilhosa Anette Benning enfrentava uma bizarra e constrangedora mistura de O sexto sentido comPsicose.

Seja qual for o resultado cinematográfico, versão ou aversão, pelo menos servirá para colocar o livro em evidência novamente.

O narrador-protagonista de Fim de Caso é o escritor Maurice Bendrix, que reencontra Henry Miles, marido de sua ex-amante, Sarah. A essa altura da narrativa, Bendrix faz questão de informar ao leitor várias vezes o ódio que sente por ela, após tê-la amado durante os anos de guerra.

Henry (que não desconfia que Sarah e Bendrix enganavam-no) confessa ter dúvidas a respeito da esposa. Pensou até em procurar uma agência de detetives, desistindo por medo de se expor. Insidiosamente, Bendrix sugere tomar seu lugar na ida à agência, “passando-se por amante de Sarah”. Henry recusa a oferta, mas o outro, tomado pelo ciúme e pelo ressentimento, resolve de fato contrata um detetive para segui-la.

Entre as muitas qualidades desse romance de 1951, o primeiro exercício de Greene com a 1ª. pessoa, seu agudo e arguto estudo do sentimento inquisitorial, para usar uma expressão de Proust, que é o ciúme, irmana-o a duas outras obras-primas supremas a respeito do tema, Dom Casmurro  e Em busca do tempo perdido. É bem de Greene transformar uma questão passional numa investigação detetivesca, um território profanando o outro. Pois Parkis, o detetive, desenvolve uma admiração romântica por Sarah, enquanto Bendrix deixa que o lado sórdido da investigação deforme o passado, para descobrir, ao fim e ao cabo, que nem de posse das palavras mais íntimas de Sarah (Parkis furta seu diário) consegue “saber tudo”: “Então ela ainda tinha segredos, pensei. Ela não colocou isto em seu diário, assim como não tinha escrito sobre sua doença. Quanta coisa mais haveria a descobrir? Essa idéia era desesperadora”.

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Nessa “corrida para o abismo das impossíveis reconstituições”, para mais uma vez usar palavras do mestre do assunto, Proust, Bendrix certamente concordaria com a seguinte passagem de A Prisioneira (quinto volume de Em busca do tempo perdido), assim como também subscreveria embaixo o seu outro colega, Bentinho Santiago: “Interminável é o ciúme, pois mesmo se o ser amado, tendo morrido, não o pode mais provocar pelos seus atos, acontece que reminiscências posteriores a qualquer fato se comportam de repente em nossa memória como outros tantos fatos, reminiscências que não havíamos esclarecido até então, que nos tinham parecido insignificantes e às quais basta que reflitamos sobre elas para lhe darmos um sentido novo e terrível… basta estarmos sós no quarto, a pensar, para que novas traições de nossa amante aconteçam, embora ela esteja morta. Por isso não se deve temer no amor tão somente o futuro, mas também o passado, o qual se realiza para nós muitas vezes depois do futuro, e não falamos apenas do passado que só se nos revela mais tarde, mas também daquele que conservamos há muito tempo em nós e que de repente aprendemos a ler”.

A originalidade de Fim de Caso é o Outro que emerge da investigação das idas e vindas de Sarah, Outro que determinou a separação entre ela e Bendrix, devido a um episódio que não convém contar. Quem é esse Outro, esse mr. X ? Greene assume o risco do ridículo e nos dá nada mais nada menos do que Deus. O descrente e ressentido Bendrix é obrigado a acompanhar, na sua corrida para o abismo das impossíveis reconstituições, passo a passo, o processo de conversão de Sarah, e obrigado, além disso, a encarar (aceitar já seria dizer muito) a possibilidade de existência do inaceitável, o milagre: após a morte de Sarah, alguns atos podem ou não configurar eventos milagrosos e Bendrix terá que se manter na corda bamba da dúvida. Se alguém tiver dúvida da intensidade a que se chega nesse triângulo em que Deus é um dos vértices, basta ler a cena inacreditavelmente (para usar um termo apropriado à trama) linda em que Bendrix encontra (e é a última vez em que a vê com vida) Sarah numa igreja.

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E haveria tanta coisa a mais a dizer sobre o livro: como Sarah é uma personagem incrível (o capítulo em que se conhece o teor do seu diário é um grande tour-de-force); como é emocionante a relação de amizade que se estabelece entre Bendrix e Henry (um dos achados de Fim de Caso é fazer com que eles, no final, acabem vivendo juntos, na esteira da “presença” de Sarah na existência de ambos); como o detetive Parkis e seu filho poderiam fazer parte do mundo de Samuel Beckett (o de Molloy, por exemplo, publicado no mesmo ano), com seu comportamento a um só tempo pateta e patético. Ou, ainda, a maneira como a trama é construída, com brilhantes ziguezagues temporais que permitem ao leitor conhecer passado (o tempo do “affair”) e presente (a partir do reencontro com Henry), ao mesmo tempo, e sem que ele quase se dê conta do deslizar de um para o outro.

É sempre assim com o autor de O poder e a glória e The heart of the matter- O cerne da questão: tem-se a ilusão de que se vai ler algo simples e linear e, de repente, somos assombrados por tramas mágicas e inquietantes. Ele aprendeu muito bem os feitiços de seu mestre, Henry James, o qual já foi chamado (por Borges) de habitante resignado do Inferno. Alguém que escreveu Fim de Caso só pode estar residindo na mesma localidade. Deve ser uma área do Além extremamente valorizada.

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13/09/2012

Madame Bêtise ou O universo flaubertiano

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 19 de fevereiro de 2002)

“O que ele empreendeu foi num espírito que dá amplitude à idéia do realizável e do realizado em matéria literária …obter sucesso nesse mundo de aproximações é obter o mais absoluto sucesso”.

Na passagem acima, de seu centenário ensaio sobre Gustave Flaubert (em tradução de Léa Viveiros de Castro, editora 7 Letras), Henry James perde um pouco da atitude de reserva (que estranhamente parece ser praxe quando se fala do criador de Emma Bovary), mantida ao longo do texto, embora parta do princípio de que “ele seria interessante para a raça dos romancistas nem que fosse  só porque, sem contar o valor do seu trabalho, nos dá de forma tão pessoal o exemplo e a imagem da causa intelectual, de tal forma a representa. Ele nasceu romancista, cresceu, viveu e morreu romancista, respirando, sentindo, pensando, falando, executando cada operação de vida apenas como um devoto desta causa…”

A longa análise de James parece o desdobramento de uma percepção que Flaubert tinha a respeito de si mesmo, expressa numa carta de 1852 (para Louise Colet, sua amante): “…eu sei ver, e ver como só os míopes vêem, até o poro das coisas, porque eles botam o nariz bem em cima delas. Há em mim, literariamente falando, dois sujeitos distintos: um que é arrebatado por falatórios, lirismos, grandes vôos de águia, por todas as sonoridades da frase e pelas alturas da idéia; um outro que folheia e escava o verdadeiro tanto quanto pode, que gosta de captar o pequeno fato tão poderosamente quanto o grande, que gostaria de lhe fazer sentir quase materialmente as coisas que reproduz. Esse aí gosta de rir e se diverte com as animalidades do homem”.

Esse aí também é o que presidiu a escritura de Madame Bovary, um livro tão fundamental que até nos faz esquecer que ele escreveu outros igualmente fundamentais (Salambô/Bouvard & Pécuchet/ A tentação de Santo Antônio/ Três Contos e até o cansativo, irritante, mas inúmeras vezes fabuloso A educação sentimental).

A meticulosa tradução de Fúlvia M. L. Moretto , que a Nova Alexandria publicou em 1993, reapareceu nas livrarias com certo alarido e vem fazer companhia à tradução do conto juvenil Bibliomania e ao ensaio de James, o qual foi escrito como introdução a Madame Bovary (aliás, poderiam reeditar o grande ensaio de Vargas Llosa, A orgia perpétua, dedicado ao livro e à personagem).

Como se sabe, Emma se torna a senhora Bovary (esse deveria ser o título em português, mas creio que é tarde demais) ao se casar com Charles, médico rural, que lhe parece o pretendente que a libertará do tédio da vida campesina. O marido mocorongo (que, ao final do romance, se tornará um dos personagens mais pungentes da história da literatura) e a vidinha de casada na província decepcionam e desesperam Emma, no entanto.

Temos, então, a figuração do quotidiano como uma jaula onde cumprimos prisão perpétua, e na qual vemos as aventuras acontecendo do outro lado das grades. A claustrofobia existencial é um dos grandes temas de Madame Bovary.

A mistificação efetuada pelo bovarismo (termo já dicionarizado e que significa imaginar-se como algo que não se é, um auto-engano) fornece a sua contrapartida: Emma tem muitos sonhos (alimentados por leituras românticas), contudo todas as suas atitudes para vivenciá-los tomam um aspecto patético, tacanho, mesquinho.

Dentro do espírito do século XIX, ela se entrega aos amores. Ensaio com o jovem Léon, mas ainda não tem coragem de ir até o fim (mais tarde eles se reencontram e encetam o caso que a levará a afogar-se em promissórias, arruinando o marido).  É o fidalgo Rodolphe que fará dela a adúltera mais famosa da literatura, junto com Anna Karênina, esta sim uma verdadeira apaixonada. Emma, por sua vez, vive de sentimentos emprestados. Muita gente coloca-a como um D.Quixote que rompe com a realidade porque leu em excesso. Ora, ora. Os livros simplesmente alimentaram seu sentimentalismo pueril de pequena burguesa, procurando emoções no dia a dia que correspondam às da subliteratura (pois se ela leu em excesso, nem por isso deixou de ler mal): “Dizia a respeito de si mesma, tenho um amante! Um amante!, deleitando-se com essa idéia… Lembrou então as heroínas dos livros que lera e a legião empírica daquelas mulheres adúlteras pôs-se a cantar em sua memória com as vozes das irmãs que a encantavam. Ela mesmo tornava-se como uma parte real daquelas imagens e realizava o longo devaneio de sua juventude vendo-se como aquele tipo de amante que tanto desejava ser…”

    O desfecho trágico, matéria para jornalismo sensacionalista (Emma envenena-se), é a apoteose irônica dessa necessidade de se destacar da pasmaceira geral, da mediocridade triunfante. Flaubert, como mostra agudamente Henry James, “sabia mais ou menos o que estava fazendo ao seu livro ao tornar Emma uma vítima do hábito imaginativo, mas devi estar longe de planejar ou medir o efeito total que torna a obra tão geral, uma expressão tão completa dele mesmo. Suas idiossincrasias, suas sensibilidade irritada pela vida que o cercava, junto com o poder de capturá-la no ato e segurá-la com força, sua fome por estilo e história e poesia, pelo precioso e pelo raro, por grandes reverberações, grandes sombreamentos, estão todas aqui representadas de uma forma que não ocorre em suas obras posteriores (…) As aventuras insignificantes de Emma Bovary são uma tragédia exatamente porque, em um mundo sem suspeitas, sem assistência e sem consolo, ela mesma tem que extrair o rico e o raro. Ignorante, sem ajuda, sem distrações, conduzida pela própria natureza e complexidade da sua consciência, ela faz disse um enorme fracasso, um fracasso que por sua vez contribui para que Flaubert tenha o mais aguçado, o mais contado dos casos”.

24/01/2012

O escritor como personagem: Conan Doyle e seu “caso Dreyfus”

De vilão a mártir a quase um joão-ninguém—isso não era injusto? Seus defensores tinham garantido que seu caso era tão importante quanto o de Dreyfus, que ele revelava tanto a respeito da Inglaterra quanto o do francês sobre a França, e assim como tinha havido os que eram a favor e aqueles que eram contra Dreyfus, houve os que eram a favor e os que eram contra Edalji. Eles insistiram ainda que em Sir Arthur Conan Doyle ele tinha um defensor tão importante, e um escritor melhor, do que o francês teve em Émile Zola, cujos livros eram considerados vulgares e que fugiu para a Inglaterra quando foi ameaçado com a prisão. Imagine Sir Arthur correndo para Paris, a fim de fugir de algum político ou promotor. Ele teria ficado e lutado, e teria feito muito barulho e sacudido as grades de sua cela até derrubar a prisão.

E, no entanto, apesar de tudo isso,a fama de Dreyfus tinha crescido e seu nome agora era conhecido nu mundo inteiro, enquanto o de Edalji mal era conhecido em Wolverhampton (…)ele suspeitava que a sua obscuridade tinha a ver com a própria Inglaterra. A França, no seu entendimento, era um país de extremos, de opiniões veementes, princípios extremados e memória longa. A Inglaterra era um lugar mais calmo, com os mesmos princípios sólidos, mas que não gostava de fazer tanto alarde deles; um lugar onde se confiava mais na lei comum do que nos decretos do governo, onde as pessoas cuidavam da própria vida e procuravam não interferir na vida dos outros, onde aconteciam grandes comoções públicas de vez em quando, comoções que podiam até resultar em violência e injustiça, mas que logo eram esquecidas e que raramente passavam para a história do país. Isto aconteceu, agora vamos esquecer e continuar como antes: este era o jeito inglês de ser. Houve um erro, algo se quebrou, mas agora foi consertado, então vamos fingir que não foi um erro muito grande. O caso Edalji não ocorreria se houvesse uma corte de apelação? Muito bem, então concedam um indulto a Edalji, criem uma corte de apelação antes de terminar o ano—e não há mais nada a dizer sobre o assunto. Assim era a Inglaterra, e George era capaz de compreender o ponto de vista da Inglaterra, porque George era inglês…”

 

(a resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 24 de janeiro de 2012)

Julian Barnes (autor de um pequeno clássico contemporâneo, O papagaio de Flaubert) venceu o Booker Prize 2011. Mas ele já havia chegado bem perto dessa badalada (e tantas vezes discutível) premiação com Arthur & George1 (Inglaterra, 2005, traduzido para a Rocco por Léa Viveiros de Castro), onde recria as circunstâncias e reverberações de um erro judicial no Reino Unido, em 1903, motivado por racismo, das quais participou Arthur Conan Doyle.

Antes que se envolva com a história de George Edalji (filho de um parse nativo de Bombaim e uma escocesa), acompanhamos a trajetória do criador de Sherlock Holmes, um self made man que resgata sua família da pobreza, e que de fracassado oftalmologista, a partir do momento que resolve escrever ficção popular, se torna um dos homens mais célebres e venerados de um período que vai do final dos anos 1880 até sua morte, em 1930.

Sua esposa, por quem tem mais amizade do que um sentimento verdadeiramente amoroso, contrai tuberculose, vivendo como eterna moribunda (só que por muitos anos), e ele se apaixona por uma mulher mais jovem (que virá a ser a segunda esposa).

Além da existência oficial e prestigiosa, e desse dilema “cavalheiresco” (o termo não é exagerado nem indevido, como verá quem ler o romance de Barnes: Doyle fica parecendo um herói conradiano), ele deixa-se converter e absorver pelos caminhos do espiritismo, a seu ver uma etapa natural do descortínio científico, tão galopante à sua época, que iria varrer os preconceitos e superstições das religiões institucionalizadas.

A esposa morre enfim, e de repente Doyle vive um momento de depressão e letargia, sentimentos pouco comuns a esse homem enérgico e produtivo. É nessa fase crítica que sua atenção se volta para o drama de Edalji. O pai deste é pastor anglicano numa região pra lá de atrasada (e sem nenhuma Jane Austen que lhe dê a mínima pátina de encanto), e desde que o filho era adolescente, a família sofreu uma campanha de cartas anônimas, difamações, intimidação por parte das autoridades policiais locais (que sempre implicaram com George, por ser “esquisito” e lhe fizeram acusações estranhas).

Quando o “mestiço” já é um advogado atuante (trabalha em Birmingham, contudo volta todos os dias para a casa paroquial 2), vários animais da região são mutilados, e ele passa a ser considerado o único suspeito. É preso, julgado, considerado tanto autor dos crimes quanto das próprias cartas anônimas, que tantos transtornos trouxeram à sua família (há peritos, depois desacreditados por outros a quem Doyle recorrerá, que afirmam que sua caligrafia é a mesma dessas missivas), e condenado a sete anos de trabalhos forçados. Libertado após cumprir metade da sua pena, procura limpar seu nome e conseguir reparações do Ministério do Interior (não havia tribunais de apelação naquele tempo, seu caso é que vai dar ensejo para a criação deles).

E aí entra Doyle em cena, dando uma de Holmes e iniciando não só uma campanha através da imprensa, como assumindo uma investigação que fora negligenciada pela polícia. E conforme o escritor familiariza-se com as pessoas e os detalhes do caso nas aldeias, “vórtices de falatórios”, o leitor se defronta com a estupidez, as idéias preconcebidas, a arrogância de classe, os estereótipos sobre raças, a avidez gananciosa e todos os defeitos grotescos da humanidade num “país de ponta”, no qual as pessoas se sentiam tão mais civilizadas e superiores que os demais cidadãos do mundo.

O mais interessante, no entanto, com relação a Arthur & George, além dessa notável recriação da mentalidade em meio à qual foi julgado o caso Edalji, é que a investigação não se conclui e várias pontas ficam soltas, No fundo, é como a pesquisa do mundo dos espíritos, o grande projeto de Doyle: indícios, trilhas promissoras, porém a conta não fecha e se tem de movimentar na neblina.

Ao contrapor de forma tão elegante e delicada as trajetórias de , por um lado, um homem que fez tanto sucesso (e que entretanto criou um “fantasma” que adquiriu mais peso e realidade que ele mesmo, e com o qual foi muitas vezes confundido), que acumulou uma existência “material” tão imponente, e por outro, de um homem que viu se esboroarem todas as suas expectativas e perspectivas, ao fim e ao cabo, Barnes nos propõe uma meditação sobre a fragilidade da vida e a mortalidade, no que ela tem de menos melodramático e mais entranhado ao nosso próprio existir.

Em 1930, George Edalji vai a uma cerimônia espírita em função da morte de seu protetor, em Londres (onde vive então) e, dando um passeio pelo Hyde Park, antes da cerimônia, tem um momento digno da mrs. Dalloway de Virginia Woolf:”naquele momento George foi abalado pelo pensamento de que todo mundo ia morrer. Às vezes, ele refletia sobre sua própria morte; ele tinha chorado a morte dos pais—seu pai, doze anos antes, sua mãe, seis; ele tinha lido obituários nos jornais e tinha comparecido a enterro de colegas; e estava ali para o grande adeus a Sir Arthur. Mas nunca antes ele tinha entendido—embora fosse mais uma percepção visceral do que uma compreensão mental—que todo mundo ia morrer (…) Mas quando você se via em Hyde Park numa quente tarde de verão, no meio de milhares de outros seres humanos, poucos dos quais provavelmente pensando na morte, era mais difícil de acreditar que esta coisa intensa e complicada chamada vida pudesse ser apenas um acontecimento ao acaso num planeta obscuro, um breve momento de luz entre duas eternidades de escuridão. Num momento desses, era possível sentir que toda essa vitalidade tinha de continuar de alguma forma, em algum lugar. George sabia que não estava prestes a sucumbir a um súbito sentimento religioso (…) Ele também sabia que, sem dúvida, continuaria a viver da mesma forma como sempre vivera, observando como o resto do país—e principalmente por causa de Maud—os rituais da igreja Anglicana, observando-os de um modo imprecisamente esperançoso até morrer, quando então descobriria a verdade a respeito do assunto ou, o que era mais provável, não descobriria nada. Mas hoje (…) ele pensou enxergar um pouco do que Sir Arthur tinha visto…”

O real e o sobrenatural, igualmente inquietantes e cheios de mistérios insolúveis para qualquer candidato a Sherlock: “Em todo caso, sua mente tinha encalhado na expressão ´mundo real´. Com que facilidade todo mundo entendia o que era real e o que não era. O mundo no qual um jovem advogado ingênuo era condenado a trabalhos forçados em Portland…o mundo no qual Holmes solucionava qualquer mistério que estava além da capacidade de Lestrade e seus colegas… o mundo do além, o mundo atrás da porta fechada que Touie [apelido familiar da primeira esposa de Doyle] tinha atravessado tão facilmente. Algumas pessoas acreditavam em apenas um desses mundos, outras em dois,umas poucas nos três. Por que as pessoas imaginavam que o progresso consistia em acreditar em menos coisas, em vez de acreditar em mais coisas, em se abrir mais para o universo?”

 1 Perdeu para O mar, de John Banville.

 2 É preciso dizer que há elementos esquisitíssimos na vida dessa família (mas de perto quem é normal?). Desde que George era garoto, ele dorme no quarto com o pai, enquanto a mãe dorme no quarto com a irmã, que é meio adoentada (mais tarde, ela será uma companheira de toda a vida, no comovente quadro que o autor traça dos Edaljis após a morte de Conan Doyle). Quando a prisão de George ocorre, ele está com 27 anos, e ainda dorme com o pai (embora haja um quarto vago na casa paroquial, pois o outro irmão vive longe), o qual tranca a porta todas as noites. Não há nada sexual nisso, só quero dizer que é uma existência das mais estranhas para um homem adulto, e esse fato pesará muito contra ele no julgamento. Há até o boçal do chefe da polícia local (num diálogo tenso e provocativo com Doyle) que abraça a teoria de que “os olhos saltados” de George indicam um grande apetite sexual, que só foi se tornando mais reprimido e violento com essa rotina!

 

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