MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/07/2010

Destaque do Blog: Os 50 anos de LAÇOS DE FAMÍLIA, de Clarice Lispector

      

      

“Há um ponto em que o desespero é uma luz…”

          “Se tanto amor dentro de mim recebi e continuo inquieta e infeliz

           é porque preciso que Deus venha…”

“Quem encontrou buscou, disse-se em forma de rifão rimado,

         o que sempre terminava por parecer com alguma verdade…”

Introdução: Literatura e “Vida”:

Ficou famosa no anedotário da vida de Clarice Lispector (1920-1977) uma declaração feita por Guimarães Rosa a ela de  “que a lia não para a literatura mas para a vida”. Ora, que bobagem insultante e dúbia! Ainda mais dita por alguém que deveria ver nela sua única “rival” séria no cenário literário da época. E como se pode separar literatura e vida? Em que grande obra podemos fazer essa separação?

Infelizmente faz parte do “mito” Clarice Lispector essa tentativa de afastá-la da excelência literária,  transformá-la em objeto de culto  e tomá-la como uma espécie de guru, estrela-guia espiritual,  xamã dionisíaco (quando ela era essencialmente saturnina) ,sei lá o quê, como se fosse uma diminuição ela produzir “apenas literatura” e como se a “literatura” fosse uma disciplina acadêmica tão somente, domesticada, cristalizada, canônica.

Em 27 de julho de 1960 foi lançada a primeira edição de Laços de família. Comentando-o aqui, eu gostaria de trazer Clarice “mais para a literatura” porque “mais para a vida” as feministas, os gays que a tomam como uma prima-dona à La Liza Minelli ou quejandos, os autores que fazem o proselitismo do judaísmo enquanto uma condição especial do ser (assim como as feministas fazem com as mulheres e os gays com a orientação sexual), já se apropriaram e o resultado são os aberrantes trabalhos de Hélène Cixous, Claire Varin ou Benjamin Moser.

Além deles, um exemplo da bizarrice acadêmica é o texto que acompanha as reedições feitas pela Rocco de todos os livros de Clarice, uma coisa sem que nem o quê: “A escrita de Clarice Lispector situa-se numa confluência de paradigmas que a narradora entretece, destece e põe em tensa: a cena do Realismo-Naturalismo e do Romantismo-Simbolismo. Isso significa que em seus textos encontram-se veios recessivos que, transformados por sua perspectiva estilística pessoal, criam um entrelaçamento significativo entre a realidade e a ´realidade adivinhada´. Neste sentido, ela produz uma poética que lhe é própria [uai, eu pensei que TODOS os grandes autores fizessem isso], e nela como que desenha uma arquitetura textual sui generis, na qual três obras se destacam [!!!!????] e se enlaçam (reclamando-se e afastando-se) com rara sabedoria, por permitirem perceber a tensão no traçado do conjunto: Laços de família, que contracena com A via crucis do corpo, mais próximo de uma lição realista-naturalista; Água viva, denso poema em prosa, na qual tempo, enredo, personagens se desagregam e A hora da estela, espécie de ponto ótimo de articulação, mas não de síntese, das tendências referidas”. Coitado do leitor comum, que tem de se haver com essas mistificações.

Felizmente, há uma meridiano de bom-senso e eficácia crítica atravessando o planeta “recepção da obra clariceana” desde os provectos primeiros comentadores (Álvaro Lins, Sérgio Milliet), apesar dos seus pressupostos e preconceitos críticos, passando por Antônio Cândido,Gilda de Mello e Souza, Roberto Schwarz, Luiz Costa Lima (este último errando feio com relação à autora de A paixão segundo G.H., mas sempre  um crítico surpreendente e estimulante) José Américo Motta Pessanha, Olga de Sá, Regina Pontieri, Yudith Rosembaum, Vilma Âreas, Dany Al-behy Kanaan, só para citar alguns, além do trabalho biográfico de Teresa Cristina Montero Ferreira e sobretudo Nádia Battella Gotlib, e mais que todos, os (ainda) insuperados estudos de Benedito Nunes.

Os textos curtos e os livros desses autores provam que se pode ler Clarice sem ser da perspectiva “ver a laranja” e viajar na maionese, sem delírios, sem oportunismo, sem apelo para abilolados e iletrados, sem espírito de devoção, culto ou mitificação.

A primeira vez que li inteiro Laços de família (como boa parte da produção da autora) foi em 1982. Já conhecia alguns contos, como Amor e Uma galinha. Fazia parte de um pequeno grupo de amigos radicalmente clariceanos, que a colocavam à parte de quaisquer outros autores. Contudo, mesmo nessa época, eu já era um membro espúrio, um dissidente nato, desse tipo de confraria (se algum autor teve esse poder de “guru” para mim, eu teria de apontar Doris Lessing, que também comecei a ler por essa época). Para o bem ou para o mal, a Clarice que me concerne, como já disse, é aquela circunscrita por seu talento literário ímpar e impactante, não como uma auto-ajuda em clave mais refinada e apurada.

clarice

27 de julho de 1960

Quando Clarice conseguiu publicar Laços de família, além de estar novamente se estabelecendo no Rio de Janeiro, após anos de “exílio” como esposa de um membro do corpo diplomático brasileiro (eles se separaram por essa época), ela dava fim a uma curiosa e aflitiva situação que se arrastava há muitos anos: era uma escritora de prestígio que não conseguia publicar. Já tinha quatro livros: o primeiro, Perto do coração selvagem (publicado entre fins de 1943 e começo de 1944, quando ela tinha 23 anos) foi um “acontecimento”,  muito comentado na imprensa; seus dois outros romances, porém, O lustre (1946) e A cidade sitiada (1949), pelo quais eu tenho especial apreço, quase não tiveram repercussão, e a pouca que houve foi mais negativa do que positiva  (o fato de ela residir no exterior e ser uma personagem com vários traços exóticos também não ajudava).

Em 1952, ela conseguiu que publicassem seis contos numa coleção, os Cadernos de Cultura do Ministério de Educação e Saúde, mas foi uma edição que quase passou em branco, embora os contos fossem Mistério em São Cristóvão, Os laços de família, Começos de uma fortuna, Amor, Uma galinha & O jantar.

Ao longo dos anos 50, ela escreveu mais contos e os enfeixou numa primeira versão do que seria Laços de família e o seu mais estupendo romance, A maçã no escuro. Seu prestígio crescia (ela começou a colaborar mais ativamente na imprensa, foi publicada pela prestigiada revista “Senhor”), sua beleza era proverbial, quem a conhecia ficava assombrado. Aos 39 anos,  ela estava no auge. Mas só então, em 1960, se desembaraçou o “nó”, e a publicação dos treze contos (além dos seis já publicados, Devaneio e embriaguez de uma rapariga, A imitação da rosa, Feliz Aniversário, A menor mulher do mundo, Preciosidade, O crime do professor de matemática & O búfalo; não sei bem porque Os desastres de Sofia, já escrito a essa altura, e uma de suas obras-primas foi descartado, e só apareceria em livro quatro anos depois, em A legião estrangeira). Laços de família rompeu a obscuridade, o círculo restrito, e a transformou numa autora popular (até hoje é um dos seus livros mais populares), e então começou definitivamente, para o grande publico, o “mito” Clarice.

Tentações: o estado de graça e o leite da bondade humana (a linguagem em comum):

“Deus sabe o que faz: acho que está certo o estado de graça não nos ser

        dado freqüentemente. Se fosse, talvez passássemos definitivamente para

       o outro lado da vida, que também é real, mas ninguém nos entenderia

       jamais. Perderíamos a linguagem em comum”.

Laços de família é um conjunto impressionante, embora os 13 contos não sejam do mesmo nível, longe disso, e certos textos se beneficiam justamente da unidade da coletânea, enquanto outros, isoladamente, se tornaram paradigmáticos da vocação epifânica dessa primeira fase da obra de Lispector: talvez (mas não apenas) em função de ter vivido por muitos anos no mundo diplomático e sua peculiar etiqueta,  os personagens (a maioria, mulheres) e os leitores, envolvidos na teia da vida quotidiana, e principalmente uma classe média que começa a prosperar naquele momento histórico, criavam tênues alicerces, laços familiares embebido no “leite da bondade humana” de que se fala em Macbeth, e que nada mais é do que a “linguagem em comum”, sentimentalizada, opaca, falsificadora, forjando uma  harmonia ou uma aparência de harmonia, sob a qual a vida neutra e bruta e nossa animalidade espreitam (diga-se de passagem, que o termo animalidade em Clarice Lispector não é pejorativo, é o sumo da espécie:  “porque desistir da nossa animalidade é um sacrifício”, lemos em uma de suas crônicas do Jornal do Brasil, do período 1969-1973, publicadas postumamente com o título A descoberta do mundo).

A “linguagem em comum” pode ser caracterizada por trechos como os abaixo:

“…Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher; com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem felicidade se vivia… Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto…” (Amor)

“Fora inútil recomendar-lhes que nunca falassem no assunto: eles não falavam, mas tinham arranjado uma linguagem de rosto onde medo e confiança se comunicavam, e pergunta e resposta se telegrafavam mudas…” (A imitação da rosa)

“A varanda estava aberta mas a frescura se congelara fora e nada entrava do jardim, como se qualquer transbordamento fosse uma quebra de harmonia…” (Começos de uma fortuna)

“O que tornava particularmente abastada a cena, e tão desabrochado o rosto de cada pessoa, é que depois de muitos anos quase se apalpava afinal o progresso nessa família; pois numa noite de maio, após o jantar, eis que as crianças têm ido diariamente à escola, o pai mantém os negócios, a mãe trabalhou durante anos nos partos e na casa, a mocinha está se equilibrando na delicadeza de sua idade, e a avó atingiu um estado. Sem se dar conta, a família fitava a sala feliz, vigiando o raro instante de maio e sua abundância…” (Mistério em São Cristóvão)

Existem, por exemplo, poucos contos curtos tão perfeitos e avassaladores quanto Mistério em São Cristóvão e Uma galinha.  O primeiro sempre foi o meu favorito absoluto (não resisto à tentação de citar o  momento em que os mascarados para uma festa à fantasia–um galo, um touro, um cavalheiro– que invadem o jardim  para furtar jacintos são surpreendidos pela visão do rosto da menina da casa:“O galo imobilizara-se no gesto de quebrar o jacinto. O touro quedara-se de mãos ainda erguidas. O cavalheiro, exangue sob a máscara, rejuvenescera até encontrar a infância e o seu horror.  O rosto atrás da janela olhava. Nenhum dos quatro saberia quem era o castigo do outro. Os jacintos cada vez mais brancos na escuridão. Paralisados, eles se espiavam. A simples aproximação de quatro máscaras na noite de maio parecia ter percutido ocos recintos, e mais outros, e mais outros que, sem o instante do jardim, ficariam para sempre nesse perfume que há no are na imanência de quatro naturezas que o acaso indicara, assinalando hora e lugar–o mesmo acaso preciso de uma estrela cadente. Os quatro, vindos da realidade, haviam caído nas possibilidades que tem uma noite de maio em São Cristóvão”),seguido muito de perto da aventura da galinha que foge (literalmente foge, sai voando pelos terraços) ao seu destino de ser o almoço de domingo (“Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos…”) e é poupada por um tempo enorme até que chegamos a um dos mais cruéis finais já escritos: “Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara  contra o ar, à beira do telhado, prestes a anunciar… Embora nem nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho–era uma cabeça de galinha, a mesma que fora desenhada  no começo dos séculos. Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos”.

Ambos são límpidos e inesquecíveis na sua mistura de anedota, de desmascaramento da falsidade essencial dos “laços de família” burgueses, e na maneira como captam no cotidiano um lampejo de uma realidade inquietante. O mesmo clarão cegante que a nora, que detém um segredo culposo, surpreende na revoltada e impotente aniversariante de 89 anos em Feliz aniversário, um texto ainda poderoso e mortífero: “Porque a verdade era um relance… mais uma vez olhou para trás implorando à velhice ainda um sinal de que uma mulher deve, num ímpeto dilacerante, enfim agarrar a sua derradeira chance e viver. Mais uma vez Cordélia quis olhar. Mas a esse novo olhar—a aniversariante era uma velha à cabeceira da mesa. Passara o relance…”

    É por se entregar ao “relance” que a Laura do extraordinário A imitação da rosa , um dos maiores momentos da “escrita” clariceana, “enlouquece” (“Era preciso tomar cuidado com o olhar de espanto dos outros. Era preciso nunca mais dar motivo de espanto…E sobretudo poupar a todos o mínimo sofrimento da dúvida. E que não houvesse nunca mais necessidade de atenção dos outros–nunca mais essa coisa horrível de todos olharem-na mudos, e ela em frente a todos…”, mergulhando no “estado de graça” e perdendo a “linguagem em comum”,  tentação de que escapa, por muito pouco, a Ana de Amor (talvez  o mais famoso entre os treze), que tem acesso ao relance epifânico ao ver um cego mastigando chicles e depois meio que desorientada pelo Jardim Botânico: “Ela amava o mundo, amava o que fora criado–amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a  ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal–o cego ou o belo Jardim Botânico?–agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixinho, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego?… Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la… seu coração se enchera com a pior vontade de viver… A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego!pensou com os olhos molhados. No entanto não ea com este sentimento que se iria a uma igreja…”

    E o que dizer da realidade bruta com que se confrontam os protagonistas de outros dois pontos altíssimos dessa reunião ímpar, o conto Os laços de família e o último e mais radical de todos, O búfalo. No primeiro, o marido “via preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance ela transmitisse a seu filho… mas o quê? Catarina, pensou, Catarina, esta criança ainda é inocente! Em que momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe  esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria  de pé diante desta mesma janela, batendo dedos nesta vidraça: preso… Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao filho a herança. E com que sombrio pesar. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado. Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. Catarina, pensou com cólera, a criança é inocente!”. O segundo encerra a coletânea com um parágrafo arrepiante: “…os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo. A mulher tonteou surpreendia, lentamente meneava a cabeça. O búfalo calmo. Lentamente  a mulher meneava a cabeça, espantada com o ódio com que o búfalo, tranqüilo de ódio, a olhava. Quase inocentada, meneando uma cabeça incrédula, a boca entreaberta. Inocente, curiosa, entrando cada vez mais fundo dentro daqueles olhos que sem pressa a fitavam, ingênua, num suspiro de sono, sem querer nem poder fugir, presa ao mútuo assassinato. Presa como se sua mão se tivesse grudado para sempre ao punhal que ela mesma cravara. Presa, enquanto escorregava enfeitiçada ao longo das grades. Em tão lenta vertigem que antes do corpo baquear macio a mulher viu o céu inteiro e um búfalo”.

    E a natureza do Crime do professor de matemática, abandonar um cão que exigia que eu fosse um homem”?, o que vai ao cerne das preocupações que fundamentam um dos maiores momentos da obra de Clarice, A maçã no escuro.

Essas são as jóias da coroa, a meu ver. É questão de opinião. Haverá sempre os leitores que preferirão aqueles que acho menos marcantes, como Devaneio e embriaguez de uma rapariga (para ser sincero, não entendo como se preteriu na hora de editar o livro um texto como Desastres de Sofia por esse exercício estilístico onde Clarice imita o modo de falar português e onde a personagem, ao contrário do que se diz de Lucrécia Neves de A cidade sitiada, é verdadeiramente caricata; Lucrécia não o é, apesar de detalhes satíricos e paródicos, mas essa portuguesa clariceana me incomoda; o que pode ser uma virtude, claro), O jantar, Preciosidade e Começos de uma fortuna, todos eles porém com passagens intensas.

Especial no conjunto é A menor mulher do mundo que, sendo mais uma belíssima crônica do que um conto, estabelece um caminho que depois seria intensamente trilhado pela obra clariceana, o texto sem definição possível, prescindindo dos alicerces narrativos para ser uma cintilação. Ela, inclusive, se coloca no texto e aos filhos também, como fará depois muitas e muitas vezes. É ela a mãe que lembra do que a cozinheira lhe contara do tempo de orfanato: “Não tendo boneca com quem brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das órfãs, as meninas sabidas  haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram  com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo, somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixou mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz.Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor. Então olhou para o filho esperto como se olhasse para um perigoso estranho. E teve horror da própria alma que, mais que seu corpo, havia engendrado aquele ser apto à vida e à felicidade. Assim olhou ela, com muita atenção e um orgulho inconfortável, aquele menino que já estava sem os dois dentes da frente, a evolução, a evolução se fazendo, dente caindo para nascer o que melhor morde…”

de chirico

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.