MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

29/03/2013

Os mistérios que palpitam na escuridão ou A prosa mais arrojada do século XIX

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Na segunda parte de Fausto, Mefistófeles diz: “compreender à luz do dia é ninharia, mas na escuridão todos os mistérios palpitam”.

Em As tentações de Santo Antão, procurando convencer o anacoreta a adorá-lo, a maldizer “o fantasma a que chama Deus”,  ele se vale da palpitação de todos os mistérios na escura noite da alma: “… as coisas só te chegam por intermédio de teu espírito. Tal como um espelho côncavo, ele te deforma os objetos e todos os meios te faltam para verificar a exatidão deles. Jamais conhecerás o universo em toda a sua extensão. Por conseqüência, não podes  fazer uma idéia da sua causa, ter uma noção justa de Deus,  nem mesmo dizer que o universo é infinito, porque seria preciso primeiro conhecer o infinito. A forma é talvez um erro de teus sentidos, a substância uma ilusão do teu pensamento…”

     Se o Finnegans Wake, de James Joyce, é o extremo de linguagem a que se chegou no século XX (e no nosso, até agora), as obras citadas acima, de  Goethe e Gustave Flaubert (1821-1880), ocupam esse lugar no século XIX.  Não há nada mais arrojado naquele período, em termos de linguagem, do que Fausto-Segunda Parte e As tentações de Santo Antão. Este último ganhou uma nova tradução brasileira, realizada por Luís de Lima para a Iluminuras (já havia pelo menos uma anterior, que eu saiba, a bela versão de Carlos Chaves, publicada há décadas pela Melhoramentos), na qual se pluralizou impertinentemente o título original, La tentation de Saint-Antoine.

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Apesar do desfile de imagens que o assediam na Tebaida, no alto de uma montanha, quando o dia declina (deuses, monstros e seres diversos), há apenas uma única tentação: vencer a multiplicidade dos fenômenos para se concentrar na sua missão espiritual.

Numa apoteose visual em que a fronteira dos reinos é abolida (“… e assim as plantas se confundem com as pedras. Pedras soltas aparentam crânios, estalactites parecem tetas, flores de ferro são como tapeçarias ornadas de figuras. Em pedaços de gelo ele apercebe florescências, marcas de conchas e arbustos, a ponto de não saber se são sinais dessas coisas ou as próprias coisas…”), ele procura reencontrar Cristo e as orações. Muitos viram nesse alucinante flagelo do santo uma alegoria da vida do próprio Flaubert, a meu ver o maior escritor do seu século junto com Tolstoi. Após ler para amigos uma primeira versão (a tentação dessa obra o acompanhou boa parte da vida, como o Fausto acompanhou o de Goethe), carregada de romantismo, e vê-la ridicularizada, o autor de Madame Bovary construiu uma obra que oscilou entre as tentações da sua imaginação desenfreada e a preocupação com a exatidão, a minúcia, com a informação escrupulosamente pesquisada. Aliás, ele diz na sua apaixonante Correspondência que sempre negou a si mesmo os mais inocentes prazeres, trabalhando de acordo com uma disciplina estritamente regulada. E arremata: “Certamente porque há um monge dentro de mim”.

Por isso, ao encarar numa versão definitiva a pedra-de-toque do seu simbolismo pessoal, ele não se contentou apenas em imaginar a tentação de Santo Antão como também fazer desfilar os mais diversos conhecimentos enciclopédicos. No final, a luxúria do saber consolidado tenta tanto quanto a luxúria dos sentidos. E o paladino cristão se torna Fausto, ainda mais num mundo em que “por toda parte triunfa a estupidez das multidões, a mediocridade do indivíduo, a fealdade das raças”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 17 de agosto de 2004)

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