MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/11/2013

A constelação do absurdo (segunda parte): O ESTRANGEIRO

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“Oui, je suis présent. Et ce qui me frappe à ce moment, c´est que je ne peux aller plus loin. Comme um homme emprisonné à perpétuité—et tout lui est présent. Mais aussi comme um homme qui sait que demain sera semblable et tous les autres jours. Car pour um homme, prendre conscience de son présent, c´est ne plus rien attendre…” (Albert Camus, trecho de Le vent à Djémila, em Noces)[1]

I

   “Apenas um ser que pensa e tudo se despovoa…” (Albert Camus, passagem dos Cadernos)

Certamente L´etranger- O estrangeiro é a obra emblemática de Albert Camus. Na minha coluna em “A Tribuna”, na virada do milênio, coloquei-o entre os 10 maiores romances do século XX, e mesmo com títulos notáveis em áreas diversas (ensaios, contos, peças) e com outros pontos altos no gênero romanesco (A peste, A queda, o póstumo O primeiro homem), a história do homem que comete um assassinato “por causa do sol” e é condenado à guilhotina “por não ter chorado no enterro da mãe”, permanece não só a referência imediata do universo camusiano, como também a entrada perfeita para comentar o extraordinário autor argelino, em meio às comemorações do centenário de seu nascimento (no próximo dia 7).

O que impressiona nessa vida tão curta (Camus morreu num acidente de carro, aos 46 anos) é como tudo nela aconteceu cedo. Quando O Estrangeiro foi publicado (em junho de 1942) na França, ele ainda tinha 28 anos. Nessa época, em plena Segunda Guerra, dedicou-se ao que chamava de seus Três Absurdos: a peça Calígula, o romance e o ensaio O Mito de Sísifo, no qual diz que a questão filosófica mais importante é o suicídio, decidir se viver vale a pena. Mesmo que nenhum princípio eterno ou divindade nos justifique, mesmo que o nada nos espere, ali ele afirmava que sim, era possível imaginar Sísifo feliz, mesmo rolando eternamente sua rocha até o alto da montanha, para depois recomeçar tudo novamente (como foi condenado a fazer pelos deuses a célebre figura mitológica). Condenado à morte, sim; suicida, não.

O Estrangeiro é uma fábula que prepara a condenação à morte de seu protagonista. Meursault, mesmo esperando a execução em sua cela, nos dirá (sim, pois Camus ousou fazê-lo narrar a própria história, num dos exercícios de estilo mais admiráveis da literatura): “(…) vidé d´espoir, devant cette nuit chargée de signes et d´étoiles, je m´ouvrais pour la première fois à la tendre indifference du monde”[2].

Meursault é o homem absurdo par excellence porque, mesmo sabendo que ele lhe é indiferente, ama o mundo e procura viver no presente, sem remoer o passado ou criar expectativas para o futuro. Seu patrão lhe oferece um posto em Paris (a história se passa em Argel) e, depois de comentar, “Vous êtes jeune, et il me semble que c´est une vie qui doit vous plaire”, ouve a seguinte e desconcertante resposta: “J´ai dit que oui mais que dans le fond cela m´était égal. Il m´a demande alors si jê n´étais pas intéressé par um changement de vie. J´ai répondu qu´on ne changeait jamais de vie, qu´en tout cas toutes se valaient et que la mienne ici ne me déplaisait pas du tout”.[3] O homem absurdo, mesmo inconscientemente, é aquele que não transige com noções e sentimentos pré-fabricados. Instado a dizer que ama a garota com quem sai e a quem deseja muito, Marie, recusa-se. Mas aceitaria casar com ela, porque “tanto faz” (“cela m´était égal”). Ele não procura ser autêntico ou ir contra as convenções, ele é assim.

Num comentário (de 1988)  sobre o livro,  em A verdade das mentiras, Vargas Llosa caracteriza Meursault como antissocial. Ledo engano. Meursault não é um misantropo, não está contra a sociedade (assim como não há rebeldia nele); ao contrário, se dá bem com todos, e é assim que entra na sua pacata existência o escorregadio Raymond, envolvido escandalosamente com uma moça árabe, a quem agride e denigre, provocando uma tentativa de revanche do irmão dela e camaradas. Numa tarde de sol intenso, após uma briga, e com a arma de Raymond nas mãos, Meursault mata o jovem árabe. Com a mente turvada pelo tórrido da hora (quem não conhece a sensação?), dispara não apenas uma vez, mas cinco!

Esse detalhe será uma deixa para que, na 2ª. parte, um juiz fanático e um promotor de retórica farta (e oca, como boa parte da linguagem jurídica)[4] caracterizem-no como psicopata, um monstro. Mas (e aí reside a maestria camusiana) as provas definitivas num julgamento que ganha vulto sensacionalista, apesar da sua total insignificância, porque a imprensa tem pouco a noticiar naquele momento[5], são detalhes que repassam de forma implacável o cotidiano absolutamente comum de Meursault narrado na primeira parte, começando com a morte e o enterro da mãe. Ao ficar provado, por diversos testemunhos, que ele não demonstrou emoção nem ficou compungido (sem contar o fato de tê-la colocado num asilo), não haverá volta: ele será visto mesmo como um estrangeiro na sociedade humana, que deverá ser expulso, e se possível eliminado.

E o sujeito só queria “A vida apenas, sem mistificação, como o nosso Drummond, sem por isso ser condenado, no poema Os ombros suportam o mundo (de Sentimento do Mundo)!  Já reli O Estrangeiro  inúmeras vezes e fico sempre estupefato com o poder do texto. Estamos aqui, inapelavelmente, diante de uma realização definitiva da arte literária, que bem merecia uma reedição brasileira para marcar os 100 anos de Camus, mesmo que para o criador do absurdo Meursault, a posteridade nada mais fosse do que uma “eternidade irrisória”.

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                                                                                                      II

“No dia seguinte, diante do caixão já fechado, senti-me penetrado de uma indiferença glacial… O domingo estava maravilhoso, glorioso de luz, e os ares eram diáfanos, estava sedutor e sorria abertamente, convidando a gozá-lo em passeios alegres. O silêncio da sala, aquelas velas mortiças, os semblantes contrafeitos e estremunhados das pessoas presentes, além da soberba luz do sol, da cantante alegria da manhã, pareceram-me sem lógica…” (Lima Barreto, trecho de Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá)

 Na primeira parte, citei a réplica de Meursault a uma proposta do patrão. Em outro trecho, Raymond Sintès (o qual, indiretamente, será o responsável pela  sua “desgraça” ), contente por ter a cumplicidade e camaradagem do vizinho, lhe diz: “Je savais bien que tu connaissais la vie”, e então lemos: “Je ne me suis pas aperçu d´abord qu´il me tutoyait. C´est seulement quand il m´a declare: <Maintenant, tu es un vrai copain> que cela m´a frappé. Il a répété sa phrase et j´ai dit: <Oui>. Cela m´était égal d´être son copain et il avait vraiment l´air d´en avoir envie…” (“Eu tinha certeza que você conhecia a vida”, “Não tinha me apercebido a princípio que ele me tratava por você. Somente quando me declarou: <Agora você é um verdadeiro camarada> é que me dei conta. Repetiu a frase e eu disse: <Sim>.  Tanto se me dava ser seu camarada e como isso parecia lhe dar gosto…”)[6].

Cela m´était égal… Poderia ser uma divisa meursaultiana. E ele não procura se explicar, mesmo narrando sua história. Isso faz de O estrangeiro um daqueles milagres de criação de uma voz narrativa em primeira pessoa que não se parece com nenhuma outra e que, em seu léxico e torneio, mimetiza perfeitamente o universo (no sentido contingente, metafísico, o que seja) trazido a nós leitores.[7]

E na verdade, se Meursault não se recusasse a transigir com a linguagem sentimentalizada (e tantas vezes mentirosa), ninguém recusaria ao seu relato a verossimilhança de representar o cotidiano de um homem ainda bem jovem, enraizado numa cidade específica (a Argel dos anos 1930). Fico sempre espantado quando dizem que Camus não tinha habilidade para narrar incidentes e anedotas, que os personagens o atrapalhavam, que ele se movimentava melhor na abstração. De 1942 para cá, quantos relatos são tão vívidos e tão perfeitamente colados ao ramerrão de todo dia como a primeira parte de O estrangeiro (e, como disse, a maneira como se faz a sua releitura na segunda parte instaura uma outra camada de absurdo, como se ela desse provas de uma existência “monstruosa”, aberrante)?:

“Pendant que jê me rasais, je me suis demandé ce que j´allais faire et j´ai décidé d´aller me baigner. J´ai pris le tram pour aller à l´établissement de bains du port. Là, j´ai plongé dans la passe. Il y avait beaucoup de jeunes gens. J´ai retrouvé dans l´eau Marie Cardona, une ancienne dactylo  de mon bureau dont j´avais eu envie à l´époque. Elle aussi, je crois. Mais elle est partie peu après et nous n´avons pas eu le temps. Je l´ai aidée à monter sur une bouée et, dans ce mouvement, jái effleuré ses seins. J´étais encore dans l´eau quand elle était déjà à plat ventre sur la bouée. Elle s´est retournée vers moi. Elle avait les cheveux dans les yeux et elle riait. Je me suis hissé à coté d´elle sur la bouée. Il faisait bon et, comme en plaisantant, j´ai lassé aller ma tête en arrière et je l´ai posée sur son ventre. Elle n´a rien dit et je suis resté ainsi. J´avais tout le ciel dans les yeux et it était bleu et doré…”(“Enquanto me barbeava, perguntei a mim mesmo o que fazer e decidi tomar um banho de mar. Tomei um bonde até as cabines para banhistas do porto. Ali, mergulhei no canal.  Havia muita gente jovem. Na água, encontrei novamente Marie Cardona, antiga datilógrafa do escritório que eu tinha desejado na época. Ela também, acredito. Mas ela saiu do serviço pouco depois e não tivemos chance. Ajudei-a a subir numa boia, e nesse movimento, rocei seus seios. Ainda estava na água e ela já tinha se deitado de bruços na boia.  Virou-se para mim. Tinha os cabelos nos olhos e sorria. Eu subi para ficar ao lado dela na boia. O tempo estava bom e, meio de brincadeira, deixei a cabeça cair para trás e encostar no seu ventre. Ela não disse nada e me deixei ficar assim. Tinha o céu inteiro nos olhos e ele estava azul e dourado…”).

Veja-se a descrição que enlaça Argel, juventude, mar e sol, em L´été a Alger (Verão em Argel), de Noces:

“Ce qu´on peut aimer à Alger, c´est ce dont tout le monde vit: la mer au tournant de chaque rue, un certain poids de soleil, la beauté de la race. Et, comme toujors, dans cette impudeur et cette offrande se retrouve un parfum plus secret (…) Les hommes trouvent ici pendant toute leur jeunesse une vie à la mesure de leur beauté. Et puis après, c´est la descente et l´oubli. Ils ont misé sur la chair, mais ils savaient qu´ils devaient perdre. A Alger, pour qui est jeune et vivant, tout est refuge et pretexte à trioumphes: la baie, le soleil, les jeux en rouge et blanc des terrasses vers la mer, les fleurs et les stades, les filles aux jambes fraîches. Mais pour qui a perdu sa jeunesse, rien s´accrocher et pas un lieu où la mélancolie puísse se sauver d´elle-même”(“O que se pode amar em Argel é aquilo de que todo mundo vive: o mar em cada esquina de rua, um certo peso de sol, a beleza da raça. E, como sempre, nesse impudor e nessa oferenda encontra-se um perfume mais sutil (…)Os homens  encontram aqui durante toda sua juventude uma vida à medida de sua beleza. Depois, declínio e esquecimento. Investiram na carne, mas sabiam que iriam perder. Em Argel, para quem é jovem e cheio de vida, tudo é refúgio e pretextos para conquistas: a baía, o sol, os terraços de frente ao mar com seu jogo vermelho e branco, as flores e os estádios, as moças de pernas torneadas. Mas para quem perdeu sua juventude, nada em que se escorar e nenhum lugar onde a melancolia possa se esconder”).

Então, Meursault está vivendo seu momento em que tudo é refúgio e pretexto para conquista, uma vida à medida da beleza da sua juventude. Qual o problema, então? É que justamente no dia anterior, ele enterrara a mãe, e isso será trazido à baila e causará horror. O homem absurdo, que vive no presente e ama aquilo de que todo mundo vive, será julgado em função do encadeamento dos dias, segundo as convenções; não se pode tomar banho de sol e flertar no dia seguinte ao enterro da mãe. No julgamento absurdo de Meursault, isso equivalerá a assassinar um homem[8].

Nós, antes que eles sejam moídos pela lógica da segunda parte, aceitamos perfeitamente os dados do relato de Meursault , e tal como ele é feito, devido à sua inocência (evidentemente, não uso a palavra no sentido jurídico). Não há aquele tom “envenenado” da não-confiabilidade de tantos narradores célebres. Então, para que Meursault nos cause a estranheza com o que será retratado depois, precisamos esquecer a sua voz “inocente”, no sentido mais puramente camusiano que a palavra pode alcançar, e lembrar do mal estar que uma figura que se recusa ao contrato social da linguagem comum causa num narrador que a evoca: o Bartleby de Hermann Melville.

Bartleby, the scribner- Bartleby, o escrivão foi publicado em 1856 (é uma das Piazza Tales). Uma “história de Wall Street”, é narrada em 1ª. pessoa pelo patrão do personagem-título. Precisando de mão-de-obra, ele fica aliviado em contratar um jovem “apagado” em relação ao comportamento um tanto turbulento e exaltado dos já empregados. Porém, ele fica abismado ao pedir a execução de uma tarefa e ouvir uma das frases mais célebres da ficção, “I would prefer not to”. Prefiro não fazer. Ou: Preferia não fazê-lo.

Se o jovem e esquisito Bartleby “prefere não fazer”, o patrão prefere não agir ainda, e levar em banho maria: “(…) havia em Bartleby algo que não apenas me desarmava estranhamente, mas que, de certa forma, me tocava e me desconcertava”[9]. E assim um mundo de rotina, de repetição, é desautomatizado e transtornado por uma simples frase. É certo que o nosso Meursault  não se sente mal na sua rotina de empregado de escritório, mas como sabemos, para ele é “cela c´est égal”, tanto se lhe dá isso ou aquilo. Então, nos dois casos—diversamente, é lógico–temos uma rotina com uma “brecha”, um Aleph de negatividade, a tornar tudo aquilo irrisório (também o mundo dos afetos, das relações diárias).

Ao narrar a história da sua insólita relação com um empregado, o narrador de Bartleby amiúde realça o que é “habitual” como argumento implícito do qual deveria ser a atitude “normal” e esperada: “… em pouco tempo se tornara fato concreto em meu escritório que um jovem escrivão pálido, que atendia pelo nome de Bartleby tinha uma mesa lá; que ele fazia cópias para mim pela tarifa habitual de quatro cents a página (cem palavras), mas que ele estava permanentemente isento de conferir o trabalho feito por ele…” (um dos encantos do relato é a necessidade contínua de racionalização dessa tolerância à peculiaridade bartlebyana, o seu estranho lapso no cumprimento não só do contrato social como também o contrato da mais-valia e da hierarquia trabalhista: “Sua constância, seu comedimento, sua produtividade incessante—exceto quando, de pé, atrás do biombo ele preferia sonhar acordado—, seu absoluto silêncio e seu comportamento inalterável faziam dele uma aquisição valiosa. O mais importante de tudo era o seguinte: ele estava sempre lá”). Imagino o patrão de Meursault racionalizando as “qualidades” inegáveis do seu empregado, apesar do comportamento tão indiferente a promoções, satisfações profissionais etc.

As coisas se complicam quando, numa manhã de domingo, ao tentar entrar no escritório de sua propriedade, o narrador encontra resistência: é Bartleby, em mangas de camisa e num esfarrapado roupão, dizendo que “preferia não permitir minha entrada”. Assim, o patrão descobre a pobreza e solidão do seu escrivão, que usa o escritório como morada.

Ele bem que tenta: faz perguntas a Bartleby a respeito de onde nasceu ou qualquer fato importante na sua biografia. Prefiro não dizer, prefiro não contar, eis as respostas.  Irritado com tal ingratidão renitente, o impulso de demiti-lo é frustrado pela sensação de que seria impossível fazer mal ao “mais infeliz dos seres humanos”, mesmo pedindo a Bartleby que seja razoável: “No momento, prefiro não ser razoável”. E não é mais mesmo. Recusa-se a trabalhar. E passa os dias no escritório sem fazer nada, atrás do biombo, olhando a parede.

Então, a única solução é a mais incrível de todas: sem poder demitir nem mandar embora o espavento que se alojou no seu escritório, o patrão resolve mudar-se. Instalado nas novas dependências, dali a algum tempo recebe a visita do locatário, dizendo que Bartleby recusa-se a sair dali: “No momento, prefiro não me mudar”.

O narrador resolve fugir dessa alma penada que assombra sua vida, aquele demônio da recusa, chegando a viajar. Na volta, é informado que o antigo funcionário foi recolhido à Prisão Municipal por vadiagem. Resolve interceder por ele e o encontra “… de pé, completamente só no pátio mais isolado, o rosto voltado para um muro alto…”, isto é, continuando a existência que levava no escritório em Wall Street.

De todo jeito, o compadecido ex-patrão procura mitigar-lhe a existência, dando propinas a funcionários do lugar para que o protejam e alimentem. Mas Bartleby prefere não jantar.  Dias depois, ele volta e encontra-o integrado definitivamente à condição que escolheu: “O pátio estava numa calmaria total… Estranhamente enroscado ao pé do muro, joelhos fletidos, deitado de lado e com a cabeça encostada às frias pedras, assim deparei com o definhado Bartleby. Não se movia. Parei, depois avancei e, debruçando-me sobre ele, vi que seus olhos nublados estavam abertos; parecia, no entanto, profundamente adormecido. Não sei o que me levou a tocá-lo. Peguei sua mão, e um calafrio agudíssimo subiu pelo meu braço, desceu-me pela espinha e estremeci da cabeça aos pés”.

Certo, as duas narrativas não poderiam ser mais diferentes no “tom” escolhido; no entanto não posso deixar de vê-las unidas por um laço de parentesco. Imagine-se a história contada em O estrangeiro não em 3ª. pessoa, mas sob a ótica de outro personagem. De que forma Meursault seria visto? Toda a naturalidade da sua existência, desnaturada apenas pelo processo judicial, que decorre de seu relato, pulverizar-se-ia instantaneamente. Pois o seu “cela c´est égal” soaria tão sinistro e afastado do “território comum” da humanidade quanto o “I would prefer not do” (não vamos esquecer que Camus cultivava uma admiração toda especial por Melville, pelo menos o de Moby Dick). Bartleby talvez já seja o condenado acostumando-se à sua prisão,  preparando esses condenados que povoam o século XX.

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III

  “(…) dans un  univers soudain prive d´illusions et de lumières, l´homme se sent un étranger. Cet exil est sans recours puisqu´il est privé des souvenirs d´un patrie perdue ou de l´espoir de une terre promise. Ce divorce entre l´homme de sa vie, l´acteur et son décor, c´est propriament le sentiment de l´absurdité…”[10]

Na narrativa “simples”, “escorreita” de O estrangeiro, há um momento de “quebra de ilusão”, que sempre me causou fascínio, não por ficar todo embasbacado com o exercício da metalinguagem ou recursos dessa ordem, não por nenhuma percepção de um Camus pós-moderno avant la lettre, e sim porque é um momento em que o radicalmente honesto consigo mesmo, mas inconsciente Mersault é varado pela autoconsciência,  percebendo que está entregue às feras, e mesmo assim tem um vertiginoso relance de que não se encontra totalmente sozinho no universo, embora esteja encerrado  no mundo da desonra social,  no qual os futuros espectadores da sua execução na guilhotina inevitavelmente o acolheram  com “cris de haine”, gritos de ódio.

Meursault está no tribunal, e já sabe que seu caso foi “aumentado” pelos tabloides devido ao verão e à escassez de notícias palpitantes:

“Les journalistes tenaient déjà leur stylo en main. Ils avaient tous le même air indifferent et un peu narquois. Pourtant, l´un d´entre eux, beaucoup plus jeune, habillé en flanelle grise avec une cravat bleue, avait laissé son stylo devant lui et me regardait. Dans son visage un peu asymétrique, je ne voyais que ses deux yeux, três clairs, qui m´examinaient attentivement, sans rien exprimer qui fût définissable. Et j´ai eu l´impresion bizarre d`être regardé par moi-même. C´est peut-être pour cela, et aussi parce que je ne connaissais pas les usages du lieu, que je n´ai pas três bien compris tout ce qui s´est passé ensuite…” (“Os jornalistas tinham já suas canetas em mãos. Eles tinham todos o mesmo ar indiferente e um pouco gozador. Entretanto, um deles, bem mais jovem,  vestindo flanela cinzenta e gravata azul, havia largado à  à sua frente a caneta e me olhava. No seu rosto um tanto assimétrico, eu só via os olhos, muito claros, que me examinavam atentamente, sem nada exprimir que desse para definir. E tive a impressão bizarra de estar sendo olhado por mim mesmo[11]. Talvez por isso, e também porque não conhecia os usos do lugar, não compreendi muito bem o que se passou em seguida…”). Afinal, Camus foi um atuante jornalista, tanto na Argélia quanto na França, e não deixa de ser um símbolo da sua vida ele atar nessa solidariedade expressa pelo mutismo as pontas da sua vida: o jovem argelino, cheio de vida e juventude, amante do mar e do sol, e o jornalista-testemunha, crítico da sociedade, além do seu duplo “absurdo”.

Até a sentença ser pronunciada, volta e meia Meursault sentirá essa presença inquietantemente solidária (e que traduz, em sua linguagem corporal, um último gesto de delicadeza—ou covardia?):

“Quand la sonnerie a encore retenti, que la porte du box s´est ouverte, c´est le silence de la salle qui est monté vers moi, le silence, e cette singuliére sensation que j´ai eue lorsque j´ai constaté que le jeune journaliste avait détourné ses yeux. Je n´ai pas regardé du côté de Marie. Je n´en ai pas eu le temps parce que le président m´a dit dans une forme bizarre que j´aurais la tête tranchée sur une place publique au nom de peuple français” (“Quando a campainha tocou mais uma vez e a porta foi aberta, o silêncio da sala me atingiu, o silêncio e essa singular sensação que experimentei quando constatei que o jovem jornalista havia desviado seu olhar[12]. Não olhei para o canto de Marie. Nem tive tempo porque o presidente me disse de um jeito estranho que eu teria a cabeça cortada na praça pública em nome do povo francês”).

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/11/03/a-constelacao-do-absurdo-primeira-parte-o-mito-de-sisifo/

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[1]  Tradução da epígrafe (tirada de Núpcias): “Sim, estou presente. E o que me impacta neste momento é que não posso ir mais adiante. Como um homem em prisão perpétua —e tudo nele está presente. Mas também como um homem que sabe que amanhã tudo será semelhante e assim todos os outros dias. Pois, para um homem, tomar consciência de seu presente, é nada mais esperar.”

[2]  No texto para A TRIBUNA, cito o trecho na tradução de Valerie Rumjanek, publicada pela Record desde os anos 1970 (houve edição pelo Círculo do Livro também): “(…) esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo… senti que fora feliz e ainda o era”.

Li o romance pela primeira vez no volume dedicado a ele da coleção “Os imortais da literatura universal”, publicada pela Abril Cultural, e que meu avô tinha colecionado (tenho o exemplar comigo até hoje). Foi então que me apaixonei pelo texto e Camus dominou a minha adolescência. A tradução era do português Antonio Quadros. Em 1979, a Abril reeditou essa versão na coleção “Obras Primas”, junto com a tradução de Maria Jacintha para a peça Estado de Sítio (Quadros traduz o mesmo trecho citado assim: “(…) esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo”).

[3] Novamente, trechos citados na tradução de Rumjanek: “Você é novo e acho que essa vida lhe agradaria” e “Disse que sim, mas que, no fundo, tanto fazia. Perguntou-me, depois, se eu não estava interessado em uma mudança de vida. Respondi que nunca se muda de vida; que, em todo caso, todas se equivaliam, e que a minha, aqui, não me desagradava em absoluto”.

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[4] No entanto, devo dizer que, embora seja um dos pontos mais discutidos do romance, não é um dos que mais me impressionam, talvez porque é o que mais deve à Kafka. Mesmo assim, para fazer-lhe “justiça” (sem trocadilho), transcrevo as considerações sucintas e pertinentes de Vargas Llosa no texto já citado: “Meursault seria a encarnação do homem jogado a uma vida sem sentido, vítima de mecanismos sociais que, sob o disfarce das grandes palavras—o Direito, a Justiça—somente escondiam gratuidade e irracionalidade. Parente máximo dos anônimos heróis kafkianos, Meursault personificaria a patética situação do indivíduo, cuja sorte depende de forças tanto mais incontroláveis quanto são ininteligíveis e arbitrárias” (cito a tradução de Cordélia Magalhães, ARX, 2004).

Concordo com a caracterização geral que o trecho faz do aspecto “jurídico-existencial” de Meursault, menos em duas colocações (as quais, aliás, permitem entender por que a interpretação que o autor peruano faz de O estrangeiro é um tanto equivocada): a vida de Meursault não tem sentido, de fato, mas o importante é que ELE NÃO RECLAMA UM, não está interessado nisso. Também não acho válido o adjetivo “patético” aplicado a esse personagem. Mesmo vítima dessa sanção social, traduzida nos espelhos deformantes dos códigos do Direito, acredito que Meursault nesse ponto é muito menos parente dos Jozef K. do que Llosa propõe.

[5] “J´ étais un peu étourdi aussi par tout ce monde dans cette salle close. J´ai regardé encore le prétoire et je n´ai distingue aucun visage. Je crois bien que d´abord je ne m´étais pas rendu compte que tout le monde se pressait pour me voir. D´habitude, les gens ne s´occupaient pas de ma personne. Il m´a fallu un effort pour comprendre que j´étais la cause de toute cette agitation. J´ai dita u gendarme: <Que de monde!> Il m´a répondu que c´était à ccause des jornaux et il m´a montré un groupe que si tenait près d´une table sous le banc des jures. Il m´a dit: <Les voilà> (…) Il  connaissait l´un des journalistes qui l´a vu à ce moment et qui s´est dirigé vers nous (…) le journaliste s´est adressé à moi en souriant. Il m´a dit qu´il esperáit que tout trait bien pour moi. Je l´ai remercié et il a ajouté: < Vous savez, nous avons monté un peu votre affaire. L´été, c´est la saison creuse pour les jornaux…” (“Eu estava um pouco aturdido com esse mundo de gente nesse recinto fechado. Olhei novamente para o tribunal sem distinguir nenhum rosto. Acredito que no princípio não me dei conta de que toda essa gente se comprimia para me ver. Em geral, ninguém se interessava pela minha pessoa. Foi-me necessário um esforço para entender que era eu a causa de toda essa agitação. Disse ao guarda: <Que multidão!> Ele me respondeu que era por causa dos jornais e me apontou um grupo que se mantinha em torno de uma mesa abaixo do banco dos jurados. Disse-me: <Ei-los>(…). Ele conhecia um dos jornalistas que o viu naquele instante e que se dirigiu a nós (…) o jornalista falou comigo sorrindo. Disse-me que esperava que tudo corresse bem para mim. Agradeci-lhe e ele acrescentou: < Sabe, tivemos que exagerar um pouco o seu caso. O verão é uma época morta para os jornais…”)

[6] Exbarramos aqui na difícil operação de aclimatar ao português o “tutear” francês. Não faz sentido, em 2013, usar o “tu”, claro, mas isso produz certa distorção no tratamento entre as pessoas; desta forma, a versão portuguesa, de Antonio Quadros, parece formal demais, e a de Valerie Rumjanek um tanto descuidada neste ponto—mesmo porque há efetivamente um lado cerimonioso e formalista em Camus, caracterizado de forma penetrante (embora um tanto enfática demais) por Vargas Llosa, em outro ensaio, Albert Camus e a moral dos limites: “No bom sentido da palavra, há em sua prosa uma constante afetação; uma gravidade sem trégua, uma absoluta falta de humor e uma rigidez muito provincianas (…) Trata-se de um estilo estatutário no qual, além de sua admirável concisão e da eficácia com que expressa a ideia, o leitor observa algo naïf, um estilo endomingado, sobre o qual paira, impregnando-o em parte, um ar démodé—utilizo, modificando-a um pouco, a tradução de Carlos Jorge Rio BrancoBailly para Contra vento e maré (Francisco Alves, 1985), livro publicado há exatamente 30 anos, e que era basicamente a ampliação de um anterior, com o significativo título de Entre Sartre y Camus (1981).

É ótimo o achado do “estilo endomingado”, revelador do provincianismo de Camus, mas dizer que ele carece totalmente de humor já é um pouco exagerado (basta ler Le minotaure ou l´halte de Oran, por exemplo), e é preciso não confundir Camus com seus narradores em primeira pessoa. Seria bom não confundir gravidade com afetação. Em alguns momentos,  o próprio Camus pode tê-las confundido, mas isso já é outra questão.

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[7] Lembrando outros títulos em primeira pessoa, inconfundíveis: Lolita, Em busca do tempo perdido, Grande sertão: veredas, O apanhador no campo de centeio… São relatos e são universos.

[8] Dou-me conta, ao escrever o texto acima, que não dou nenhuma ênfase ao assassinato em si, e ao fato de a vítima ser um árabe. Embora seja um incidente decisivo no destino do próprio Meursault, e malgré Edward Said, não consigo atribuir importância a esses fatores no que se refere ao significado geral de O estrangeiro.

[9] Utilizo o texto da versão de Luís de Lima, publicada pela Rocco.

[10] Num universo subitamente privado de ilusão e de luzes, o homem se sente um estrangeiro. Este exílio é sem apelação, uma vez que é privado de recordações de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida. O divórcio entre o homem e sua vida, do ator e seu cenário, é que é precisamente o sentimento de absurdidade.” (trecho de “O absurdo e o suicídio”, de O mito de Sísifo)

[11] A versão de Antonio Quadros oferece uma curiosa (e nada desinteressante) variante de interpretação: “E senti a estranha impressão de estar a ser examinado não pelo que parecia, mas pelo que era realmente”. Na versão de Valerie Rumjanek: “E tive a estranha impressão de estar sendo olhado por mim mesmo”.

[12] Mais uma vez, Quadros “extrapola” de forma interessante: “… a singular sensação que experimentei quando olhei para o jovem jornalista e reparei que pela primeira vez afastava os olhos de mim” Rumjanek: “…aquela sensação singular que experimentei ao constatar que o jovem jornalista tinha desviado o olhar”.

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