MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

26/06/2014

TRINCA DE ASES DOSTOIEVSKIANA: o “pesado”, o satírico e o polemista

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(uma versão dos dois textos abaixo foi publicada no “Letras in.verso e re.verso” em 25 de junho de 2014, VER: http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/06/os-150-anos-de-diario-do-subsolo-e-um.html)

                                               I

Pode-se dividir a história da ficção em antes e depois de Memórias do subsolo (Zapiski iz podpolia, 1864, em tradução de Boris Schnaiderman; pode-se encontrar também nas livrarias a tradução de Moacir Wernecek de Castro com o título Notas do Subterrâneo, ed. Bertrand), de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), cuja bela reedição marca o início da publicação das obras do incomparável escritor russo pela  34.

É que antes nunca fora tão bem retratada a “natureza nervosa, atormentada e desequilibrada dos homens de agora”, como se afirma em Os demônios, de 1872. Nervoso, atormentado e desequilibrado, o narrador de Memórias do subsolo articula um discurso infindável, um texto-performance (e ele mesmo se acha um tagarela) em que uma tremenda autoconsciência (e consequente paralisia de ação) se defronta com o que mais tarde Freud descobriria ser o inconsciente, o nosso “subsolo” (mas não se deve ignorar o lado concreto e urbano do termo, sinalizando uma moradia apertada e condições materiais penosas). Um território onde a soma de dois e dois nunca é quatro.

A primeira e mais famosa parte (a mais “performática”), o presente do relato (com o narrador já quarentão e misantropo), O Subsolo, é toda construída na forma de um discurso a um só tempo egocêntrico e dilacerado, que simula dialogar com outra s pessoas, as quais defenderiam a Razão, a Lógica, a Ciência. Falando do ponto de vista do subsolo (ou subterrâneo, como também já foi traduzido), o narrador vai demolindo esse “Palácio de Cristal” (outra referência que pode ser tomada no sentido simbólico e no entanto bastante real): “Experimentai lançar um olhar sobre a história do gênero humano: o que vereis? É grandioso? Vá lá! É, de fato, grandioso. O que não valerá, por exemplo, o Colosso de Rodes!… É pitoresco? Vá lá, é pitoresco de fato. Basta examinar em todos os séculos os uniformes de gala… o que não valerá tudo isso!… É monótono? Vá lá, de fato é monótono: luta-se e luta-se. Luta-se atualmente, já se lutou outrora e tornar-se-á a lutar ainda mais (…) Numa palavra, pode-se dizer tudo da história universal, só não se pode dizer o seguinte: que é sensata”.

   Após esse discurso balbuciante e febril, entramos na narração propriamente dita, A propósito da neve molhada, às vezes publicada separadamente de O subsolo. Como se fossem textos estanques!

Nessa segunda parte, temos a medida da genialidade de Dostoiévski como ficcionista, que depois se espraiaria nos seus grandes romances (Crime e castigo, O jogador, O idiota, O eterno marido, Os demônios, O adolescente, Os irmãos Karamázov, numa sequência avassaladora). O narrador, voltando à época dos seus 24 anos, mostra como foi arrastado a situações degradantes e grotescas. Acompanhamos sua obsessão em esbarrar num oficial que ele odeia de forma gratuita no meio da rua, situação que rende páginas neurastênicas inesquecíveis.

   Quando se pensa, porém, que já se atingiu o ápice, há ainda a narração do jantar de despedida de um ex-colega de escola que vale por uma aula de psicologia: nosso homem do subsolo faz papel ridículo, mostra-se invejoso, ressentido, alterna complexo de inferioridade e megalomania, e entretanto revela um impressionante autocompreensão neurótica (se não houver uma contradição de termos aqui).

Um espetáculo atordoante e praticamente inédito na literatura de ficção (mas que faria praça a partir da penetração cada vez maior do gênio russo, principalmente após ser “descoberto” pelos franceses). E ainda não acabou: temos os relacionamentos exaltados com o criado, Apollon, e com Lisa, uma prostituta: nos dois, o Outro é como se fosse um instrumento autoinfligido de tortura e humilhação, e também uma espécie de sentimento “encenado”, demonstrado teatralmente. O narrador insinua que essa dramatização de sentimentos é uma maneira de inventar para si uma vida, quando não se vive de fato: “Meus olhos brilharam de paixão, e eu apertei-lhe fortemente as mãos. Como eu a odiava e como estava atraído por ela naquele instante! Um sentimento fortalecia o outro. Isso parecia quase uma vingança… Ela adivinhara que o arroubo da minha paixão fora justamente uma vingança, uma nova humilhação, e que ao meu ódio de antes, quase sem objeto, se acrescentara já um ódio pessoal, invejoso, um tédio por ela… eu não podia apaixonar-me, porque amor significa para mim tiranizar e dominar moralmente (…) cheguei a tal ponto que, agora, chego a pensar por vezes que o amor consiste justamente no direito que o objeto amado voluntariamente nos concede de exercer tirania sobre ele. Mesmo nos meus devaneios subterrâneos, nunca pode conceber o amor senão como uma luta: começava sempre pelo ódio e terminava pela subjugação moral; depois não podia sequer imaginar o que fazer com o objeto subjugado”.

   Como se pode ver, se há um livro que faz jus ao seu título é esse. E não parece haver nenhuma esperança de entrar ar, de arejamento, de um respirar mais livremente. É o que alguns chamam de angústia. O pior é que outros chamam de existência.

NOTA- A resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 31 de outubro de 2000; versões diferentes dela foram publicadas em 31 de maio de 2008 (comentando Notas do subsolo, a versão de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, lançada pela L&PM) e em 24 de junho de 2014 (comentandoDiário do Subsolo, a versão de Oleg Almeida, lançada pela Martin Claret), esta última em função dos 150 anos do original russo.

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II

Quem não leu Dostoiévski talvez tenha da sua obra uma ideia sombria, imaginando um universo atormentado, sinistro, desprovido de humor. Isso não é totalmente verdade. Mesmo nos seus textos mais “pesados”, ele sempre se valeu do humor e da ironia.

Outro aspecto pouco realçado é a sua prodigiosa capacidade intelectual, que muitas vezes recorre justamente ao humor e a ironia. Por isso, considero emblemáticas tanto a inacabada O crocodilo (Krokodil, 1865) quanto sua crônica da viagem pela Europa, Notas de inverno sobre impressões de verão (Ziminie Zamietki o lietnikh vpyetchatleniiakh, 1863)—as quais comento aqui na tradução de Boris Schnaiderman– e uma complementação perfeita ao ferozmente “sombrio” e “pesado” Memórias do subsolo, textos onde prevalecem o lado satírico e o lado intelectual de um autor que representa para a ficção o que Shakespeare é para o teatro.

O narrador de O crocodilo conta como Ivan Matviétch, seu “culto amigo, colega e parente em grau afastado”, foi engolido por um crocodilo em exposição. Matviétch permanece vivo no interior do “mamífero” (sic) e se serve de sua insólita situação para tiranizar o amigo, que acaba deixando escapar seu ódio por ele, sentimento que não se estende, bem entendido, à esposa do “engolido”, muito pelo contrário.

Kafka poderia ter imaginado uma situação como essa, inclusive por causa do “acomodamento” no cotidiano que se faz a partir dela: Matviétch chega a planejar toda uma existência feliz dentro do crocodilo! Mas seria um Kafka tomado, talvez, pelo espírito do Machado de Assis que criou textos como O segredo do bonzo ou A sereníssima república, o qual assinaria sem reservas passagens tais como aquela em que o personagem explica como pode acomodar-se muito bem dentro do crocodilo (que é oco): “…semelhante disposição oca do crocodilo está plenamente de acordo com as ciências naturais… Qual a propriedade fundamental do crocodilo? A resposta é clara: engolir gente. Como conseguir, então, pela disposição do crocodilo, que ele engula gente? A resposta é mais clara ainda: fazendo-o oco. Já está muito resolvido pela física que a natureza não tolera o vazio. De acordo com isto, também as entranhas do crocodilo devem ser justamente vazias, para não tolerar o vazio; por conseguinte, devem incessantemente engolir e encher-se de tudo o que esteja à mão. E eis o único motivo plausível por que todos os crocodilos engolem a nossa espécie. Não foi o que sucedeu, porém, na disposição do homem: quanto mais oca é uma cabeça humana, tanto menos ela sente ânsia de se encher e esta é a única exceção à regra geral”.

Notas de inverno sobre impressões de verão, por sua vez, utiliza a viagem pelo continente como pretexto para falar da Rússia, mais precisamente do complexo de inferioridade e da dependência cultural de certos estratos da sociedade russa com relação ao resto da Europa.

Sempre criticado por suas teorias messiânicas sobre o povo russo, é espantoso ver a verve e a inteligência com que Dostoiévski defende seus pontos de vista. Mesmo para quem não tiver muito interesse pela reflexão sobre a problemática identidade nacional russa (embora nós tenhamos problemática similar e ainda mal resolvida) há uma cabal e fascinante demonstração de consciência do autor do ato da escrita, desmentindo mais um preconceito muito divulgado: de que ele era um escritor “tomado”, tumultuoso, irregular. O tempo todo ele está consciente da presença do leitor, de que o seu texto satisfaz/contraria expectativas e posturas ideológicas:

“É retrógrado!—há de gritar alguém, depois de ler isto.—Defender as vergastas! (Por Deus, alguém há de concluir do que escrevi que eu defendo as vergastas).

__Mas veja do que o senhor está falando—dirá um outro.—O senhor pretendia escrever sobre Paris e agora trata de vergastas. O que Paris tem a ver com isto?

__ Como assim?—acrescentará um terceiro.—O senhor escreve sobre o que ouviu recentemente, e a sua viagem deu-se no verão. Como podia pensar em tudo isto ainda no trem?”

Não se pense, com essas minhas observações, que se trate de um Dostoiévski light. O leitor encontrará observações mortíferas sobre a degradação que a Revolução Industrial trouxe para o ser humano e para a s cidades. Ou observações como a seguinte, a respeito da Igreja Anglicana: “É a religião dos ricos e já completamente sem máscara. Pelo menos é racional e sem embuste. Estes professores de religião, convictos até o embotamento, têm uma espécie de divertimento: ser missionários. Percorrem todo o globo terrestre, penetram nas profundezas da África, a fim de converter um selvagem, e esquecem os milhões de selvagens em Londres, porque estes não têm com que lhes pagar”.

(a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 7 de novembro de 2000)

VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/03/18/autodiagnosticos-febris-o-medico-diante-do-monstro-loquaz/

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