MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/03/2011

Virginia Woolf ou a Cabrita Jinny: Todo Mundo e Ninguém

(resenha publicada, de forma condensada, em A TRIBUNA de Santos, em 29 de março de 2011)

“…o poder paradoxal de um impulso autobiográfico que se realizava no máximo da impessoalidade…”

(Nadia Fusini)

Há na Itália um grupo particularmente forte de ensaístas (alguns deles, também se destacam na ficção), que representam o que de mais arguto (além da qualidade estilística) se produz no gênero: sem falar no prematuramente falecido Italo Calvino, temos Umberto Eco, Pietro Citati, Carlos Ginzburg, Roberto Calasso, Claudio Magris. Uma lista notável

Será que poderemos acrescentar à lista acima o nome de Nadia Fusini? Ela é autora de Sou dona da minha alma (a tradução de Karina Jannini para Possiedo la mia anima, de 2006), biografia ousada e passional de Virginia Woolf (1882-1941), cujo suicídio por afogamento ocorreu  há 70 anos, como lavrou na certidão de óbito o coroner que presidiu o inquérito: “Adeline Virginia Stephen, escritora, esposa de Leonard Sidney Woolf, editor, morrera por imersão no rio, em 28 de março de 1941. Por seu próprio ato suicida. A morte ocorreu por afogamento”.

Nadia Fusini quer tornar vívida para o leitor “a trajetória de liberdade que aflora no corpus das obras woolfianas e desenha à contraluz o itinerário de uma alma em busca de si mesma”. E acrescenta: Conquista de si e domínio do próprio destino são palavras grandes, mas não tenho medo de usá-las, pois, se tivesse, não teria tentado escrever esta biografia tal como a estou escrevendo, ou seja, como a história de uma alma”.

Rejeitando o padrão (que eu considero chatíssimo) das biografias, ela dialoga com o leitor o tempo todo, desdenhando a identificação de fontes, o aparato bibliográfico, e apoiando-se nos diários, obras e correspondência da genial escritora inglesa sem ligar muito para notas e referências. É um procedimento experimental e tateante, de acordo com o próprio movimento da vida e da escrita da autora de Mrs. Dalloway: “…quando o coração pensa, a inteligência se realiza por imagens”. Nem sempre dá certo, há conclusões discutíveis, trechos apelativos e bregas (eu tenho o hábito de sublinhar o que gosto nos livros e colocar pontos de exclamação e interrogação em passagens infelizes ou com as quais eu não concordo, e as duas notações foram convivendo ao longo da minha leitura de Sou dona da minha alma[1]), mas no geral achei o conjunto feliz e verdadeiro.Mais ainda, pulsante, leve e fluido, o que, em se tratando do gênero biográfico, são qualidades raras (geralmente, os epítetos são “meticuloso”, “escrupuloso” etc).

Um dos momentos mais bonitos ocorre quando cita e comenta uma passagem da própria Virginia:

“Gostaria que meu diário se parecesse com uma velha escrivaninha capaz, na qual, sem nem mesmo olhar, se lança uma massa de coisas. E gostaria de voltar depois de um ano ou dois e descobrir que a coleção arrumou-se misteriosamente sozinha, deu a si própria acabamento e se transformou, como às vezes fazem tais depósitos, em uma matéria tão transparente que refletisse a luz de nossa vida e, ao mesmo tempo, fosse firme, tranqüila e composta, com a soberania própria de uma obra de arte”.

O comentário: “Eu diria que Virginia não faz outra coisa: como se fosse um baú, reúne na própria mente capaz e caprichosa (as duas palavras se permutam à distância de anos) os retalhos, os fragmentos, os pequenos e grandes eventos da existência, e os transforma em uma matéria verbal tão transparente que deixa passar a luz de nossas vidas, não apenas da sua”.

O livro faz um uso muito fecundo da dualidade da “loucura” de Virginia Woolf, da sua doença mental, responsável por duas tentativas de suicídio na juventude (também, pudera, ela foi abalada por várias mortes traumáticas sucessivas), por sombrios e constantes momentos de desagregação psíquica, e que nem por isso deixou de ser a fonte de onde jorravam suas percepções únicas da realidade, que revolucionaram a forma literária, e também a fonte do seu incomparável humorismo: “Virginia sabia entender o lado grotesco das situações. Não era feita para proclamações sérias, para os nobres propósitos enunciados em declarações solenes. Seu olhar era demasiadamente oblíquo, enviesado e irônico. E sublime era seu sarcasmo…”

Fusini também se ocupa do grupo de Bloomsbury, formado a partir do momento em que as irmãs Stephen (Virginia e Vanessa) ficaram órfãs, separaram-se dos meio-irmãos (que chegaram a abusar delas quando crianças), indo morar no bairro que deu nome ao grupo, e começaram a receber amigos em sua casa, nos primeiros anos do século 20, o que foi ao mesmo tempo um escândalo, e uma liquidação da mentalidade vitoriana, que só não foi até o fim porque a Primeira Guerra devastou toda uma geração[2].

“A imaginação é um peixe esquivo e fugidio. E a escritora, uma pescadora à margem de um lago com uma vara na superfície da água. Não se sabe o que pensa, se pensa… Simplesmente deixa que a imaginação nade no fundo da alma, desça à profundidade da consciência, se nutra de cada migalha de suas experiências, flutue no mundo que jaz submerso. Depois, de repente, a pescadora grita: a linha se afrouxa, a imaginação volta à superfície e flutua mole, ociosa, sem vida. Por quê? A pescadora pergunta à imaginação: por quê? E esta responde: É culpa sua, você deveria ter me dado mais experiências, e a pescadora só consegue responder: Muitas experiências me faltam porque sou uma mulher”.

Para mim, que até hoje tinha vista o feminismo de Virginia Woolf (expresso no famoso Um teto todo seu) como um aspecto interessante (e mais ligado à questão da literatura, na valorização das mulheres-escritoras), mas secundário, na avaliação da sua obra, a leitura de Sou dona da minha alma foi desveladora. Nadia Fusini mostra que a radicalização das idéias sobre a desqualificação das mulheres e a associação poderosa que Virginia fez entre o patriarcalismo misógino e o vírus fascista que percorreu (e percorre) a Europa são fundamentais na sua obra tardia (“era difícil aceitar a herança paterna[3], pois com ela se devia assumir a marca feminina segundo um valor que incluía os estigmas da exclusão”; “quando escreveu Um teto todo seu, certo rumor amargo levou vantagem; prevaleceram sentimentos de raiva contra a exclusão, e de ressentimento contra o privilégio que em toda parte marcava a especial condição do homem”)[4]. Se hoje em dia, um Robert Kurz denuncia o falso sujeito universal (homem, eurocêntrico), nos seus ensaios demolidores, porque ainda não há verdadeira igualdade, a não ser na alienação compartilhada, ainda é importante ouvir o que Virginia Woolf tem a dizer:”É tarefa da mulher alcançar a emancipação do homem”.

A conseqüência mais importante, para mim, foi compreender melhor os textos que me eram os menos caros entre toda a sua produção prodigiosa: é o caso daquele que eu achava seu pior—e o único chato—romance, Os anos (1937) e o seu mais estranho ensaio (pelo menos era o que me parecia) Três Guinéus, que são aqueles que saem ganhando nesse percurso apaixonado da biógrafa italiana pelo universo woolfiano, mais até do que suas obras-primas supremas: além do romance de Clarissa Dalloway, Ao farol (27), As ondas(31) e Entre os atos (41, o livro que escrevia ao se suicidar). Há grande destaque também para o muito amado, de forma geral, e no meu entender superestimado, Orlando (28) e sua origem: a paixão de Virginia, apesar do seu sólido casamento com Leonard Woolf, pela aristocrática Vita Sackville-West, e também para o delicioso Flush, a extravagante biografia do cão de Elizabeth Browning (é incrível como a “louca”—a “cabrita” como era chamada em família—Jinny  Stephen produziu: “Escrevia a mão todas as manhãs, das dez à hora do almoço. À tarde, copiava à máquina o que tinha escrito à mão durante a manhã. Descansava compondo resenhas e ensaios. Gostava de alternar as duas formas diferentes de escrita. Nas pausas, preenchia páginas e páignas do diário e mandava cartas,muitas cartas, aos amigos”; ela também ganhou bastante dinheiro com sua obra, quase toda editada por ela mesma e o marido na modesta Hogarth Press que eles montaram como parte da terapia ocupacional da louquinha[5]).

Nadia Fusini nos mostra que Virginia Woolf, nos seus 59 anos, nunca encontrou seu “eu”, e aliás rejeitou a identidade unívoca (“Tornara-se aquilo que queria para descobrir que não era uma identidade que buscava… Não acreditava na identidade, Errava ao deter o fluxo para colher uma identidade; as paixões devem fluir para existir. E depois ela era muito mais do que uma escritora: era uma cientista, uma observadora da realidade humana com interesses antropológicos”). Talvez essa fosse a raiz do “milagre da sua obra”: “essa extraordinária egotista sabe transformar-se em uma empática por meio dos poderes sobrenaturais e entrar não apenas na mente das pessoas, mas até mesmo recriar a de um cão”. Pois, na evolução da sua produção ensaística e ficcional, que poucos pares tem no Ocidente, quis e conseguiu “confrontar-se com a força anônima que todos arrasta, como se fôssemos todos e ninguém…” O que desembocará na sua mais inefável experiência ficcional, talvez o mais profundo de todos os seus livros, o derradeiro Entre os atos, síntese da mais alta prosa modernista-Joyce com Proust e da fenomenologia da filosofia da existência.

“Virginia escreve para que não triunfe a idéia muscular de um ´eu´ que se torne forte por ser todo racional e viril, contrapondo-se à imaginação. E se alguém no passado separou a verdade da fantasia, exaltando como virtuosa aquela vida em que a razão se divide da fantasia, Virginia se dedica a recosturar esse rasgo…”


[1] Exemplos de passagens infelizes: “Foi um amor em preto e branco, sem a névoa rosada do primeiro encanto; um amor lúcido, como podem ser lúcidas as estrelas quando brilham em uma noite escura…”; “havia uma perfeita consonância entre ambos, como dois passarinhos que unem a voz em uníssono, chegando à harmonia por ricas e rápidas passagens de acordes dissonantes…”. “A experiência da dor tinha fortalecido o músculo de seu coração…”

Às vezes não é nem a breguice que espanta, mas uma afirmação óbvia, que não dá nem para entender como alguém pode ainda lançar no papel: “…com esse romance, Virginia já começa a fazer o que fará a partir de então: dota os personagens que inventa das próprias experiências…”!!!??? Ela e 99,9% de todos os ficcionistas.

[2] Eu só não consegui entender por que Nadia Fusini se refere a esse pessoal como “estranha escória de artistas, escritores, homossexuais, lésbicas, deprimidos e histéricos”. Páginas antes, ela, conversando com o leitor me vem com esta: “…tenho a impressão—e a confio a meu leitor com certa cautela—de que sua homossexualidade [a de boa parte dos habitués de Bloomsbury] se inscrevesse no seguinte fato: eram homens, de modo geral, por designação materna. Se não desejavam as mulheres era porque, ao imitá-las, amavam aqueles que as mulheres amam como mães: os rapazes”. Ela devia ter sido ainda mais cautelosa, e guardado essa pífia impressão.

[3] Virginia adorava o pai, mas afirmou que só se tornou “a” Virginia Woolf que conhecemos porque ele morreu: sua morte permitiu que ela vivesse. Ademais, Fusini mostra como a própria adoção da biografia como forma literária, que ela experimentou tantas vezes, e das formas mais fantasiosas, era uma subversão da “herança paterna”, já que Leslie Stephen foi um grande biógrafo vitoriano.

A um amigo da época de Bloomsbury [ Desmond MacCarthy] que atacou suas idéias ela respondeu: “Sabia, por exemplo, o amigo Desmond quanto havia custado sua educação? Cento e cinqüenta libras esterlinas. E sabia por que se sentia mais próxima das mulheres operárias do que dele? Por causa das 4.150 libras esterlinas economizadas com ela em relação ao investimento familiar e social que custava um homem”.

[4] “…o desejo de escrever um livro sobre as mulheres colidiu com outro: o de escrever mais em geral um panfleto antifascista; concentrou-se mais na política e nos políticos, nos diversos comportamentos em relação à guerra e ao fascismo, e na influência do fascismo sobre a vida privada…”

[5] “A verdade é que a pequena Jinny, a cabra, ganhara duas mil libras esterlina com Orlando e, se quisesse, podia comprar uma casa na França…”; [em julho de 1937]”Chambron, seu agente literário americano, convidara-a para escrever um conto pela soma de mil dólares…”; Os anos foi publicado em 11 de março de 1937…Os leitores em massa decretaram o sucesso; o livro vendia, e vendia mais do que os anteriores. Tanto na Inglaterra, onde imprimiram 23 mil exemplares, quanto na América, onde nos primeiros seis meses houve uma procura por 38 mil…”


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