MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

02/02/2012

O que terá acontecido a Baby Sauro?

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 27 de junho de 1993)

  Já se conhece o argumento de O parque dos dinossauros (Jurassic Park, 1990, em tradução de Celso Nogueira para Best Seller) devido ao filme se Steven Spielberg: a manipulação do DNA, fundamento genético da existência, permite a um empresário povoar uma ilha com seres pré-históricos. O resultado combina King Kong (primitivo versus civilizado) & Frankenstein (ambição desmedida da ciência) e é igualmente trágico.

    Michael Crichton já escreveu dois pequenos clássicos da ficção científica (O enigma de Andrômeda & O homem terminal) para chegar, em O parque dos dinossauros, apresentando em poucas páginas todo um leque de geografias e personagens, muitos dos quais não reaparecerão na história. Complicação inútil, muito comum em best sellers construídos tal como Crichton construiu o seu.

   Um pequeno senão. Mais insidioso e encorpado como um brontossauro é o exibicionismo didático. Não é defeito uma ficção ter fundamento científico, contudo é enfadonho quando o autor inventa trechos inteiros de cenas para que os personagens possam explicar ao leitor teorias, hipóteses e terminologias, o que soa falso porque atravanca o ritmo narrativo. Há até um daqueles geniozinhos (um guri de 12 anos) típicos do imaginário norte-americano. A ciência, aqui, é uma prima-dona empostada, chegada à canastrice. Não dá folga nem ao agonizante Ian Malcolm, que estrebucha filosofando sobre os rumos da pesquisa científica.

    O mérito “ético”, por assim dizer, é chamar a atenção da disneylandização do lazer: mais e mais o aparato tecnológico, o espetáculo aparente, substituem as emoções reais, a imaginação, a riqueza dos seres vivos.

   A narrativa, após os primeiros passos tartamudeantes, adquire velocidade impressionante, a partir do enguiço dos veículos dos visitantes em plena selva jurássica. O leitor passa a se sentir um predador, querendo saber o que vai acontecer, quem vai morrer em seguida, o que compensa a falta de um personagem de relevo, do qual se diga: podem morrer todos os outros, mas esse tem de se salvar, como a de Sigourney Weaver no primeiro Alien.

   A cena mais espetacular é o ataque do Tiranossauro, porém a de maior voltagem de emoção é a dos memoráveis Velociraptores, os psicopatas jurássicos, principalmente no Refeitório. Aliás, se é de dar inveja a Bret Easton Ellis e a Thomas Harris o detalhamento de mutilações e devorações (tem até um bebê devorado), Crichton se compraz no sadismo com as crianças. É verdade que elas não são das mais encantadoras (a menina, então, era capaz de causar indigestão se acabasse como aperitivo dos dinos), só que dá pena ver como são quase massacradas, sofrem mordidas, pancadas, fraturas, passam fome, são ignoradas pelas equipes de resgate, e ainda ficam encontrando pedaços de gente pelo livro afora.

    O parque dos dinossauros termina com um cataclismo, Crichton distribuindo uma justiça que soa meio ingênua, dado o cinismo desnudado ao longo do romance inteiro.

   Como não sei ainda o que restará das melhores qualidades do livro, apesar dos seus inúmeros aspectos discutíveis e apelativos, em meio às computações gráficas hollywoodianas, é bom ressaltar a inesquecível (de dar nó na garganta) cena final dos terríveis e maravilhosos Velociraptores, as criações de maior força dessa engenharia ficcional calculista, ambiciosa e competente.

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