MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/06/2013

O “VAMOS PRA RUA” DE JULIO CORTÁZAR: OS 40 ANOS DE “O LIVRO DE MANUEL”

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a todos os Cantos da minha amiga Maria Valéria Rezende

“…  vivimos un tiempo en que todo está saltando por el ayre e sin embargo ya ves, esos esquemas siguen fijos en gentes como nosotros, ya te das cuenta de que hablo de los pequeñoburgueses o de los obreros, la gente nucleada y familiada y casada y chimeneada y proleada, ah mierda, mierda…”[1]

“…hasta que el ovillo caiga-en las zarpas del gato cósmico…”[2]

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em A TRIBUNA de Santos, de 25 de junho de 2013)

Talvez fosse mais conveniente comentar o cinquentenário da publicação original de Rayuela- O jogo da amarelinha, um dos romances admiráveis do século passado. No entanto, achei imperativo lembrar outro título de Julio Cortázar (1914-1984), O livro de Manuel (Libro de Manuel), também em aniversário, mais discreto (40 anos), pois tem tudo a ver com o momento de efervescência social que vivemos e me permite fazer objeção a um equívoco amiúde repetido a respeito do escritor argentino: de que, Amarelinha à parte, ele seria mais contista do que romancista. Bem, eu adoro suas coletâneas e miscelâneas (no ano passado, uma delas também chegou ao meio-século, Histórias de Cronópios e de Famas), sem que deixe de constatar que ele publicou em vida quatro romances notáveis (além dos já citados, temos também Os prêmios e 62-Modelo para armar).

Quando apareceu O livro de Manuel em 1973, o engajamento político de Cortázar era bem mais efetivo que nas décadas anteriores, mesmo porque vários países do nosso continente estavam sob a égide de ditaduras militares de triste memória. Pela terceira vez (após Amarelinha e Modelo para armar), ele punha em movimento uma engrenagem ficcional abordando sul-americanos vivendo em Paris, formando uma tribo muito peculiar junto a europeus “desgarrados”, só que com um novíssimo ingrediente: o ativismo político, tanto que a narrativa se encaminha para o sequestro de um Formigão (termo aplicado a um agente das forças repressivas).

Além da presença quase mágica do que poderíamos chamar de instância autoral (referida como “El que te dije”[3], com variações), o que permite a Cortázar brincar com a suposta ubiquidade de quem escreve um livro com relação ao seu material, aparece um alter ego contumaz, Andrés Fava, que convive com os engajados, sem se atrever a dar o passo adiante, enredado em suas buscas existenciais particulares ( “pensó que Andrés se quedaba como siempre un poco atrás (…) Al pobre lhe había tocado justo la generación anterior (…) hay toneladas como Andrés, anclados en el París o en el tango de su tiempo, en sus amores y sus estéticas y sus caquitas privadas”[4]), tanto que Ludmilla, um de seus envolvimentos amorosos, o troca pelo revolucionário Marcos, o qual não tem nada dos estereótipos habituais associados ao tipo[5], o que fará com que ela participe do sequestro, quase como uma iniciação. É o “vamos pra rua” do universo cortazariano.

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O título do romance decorre do fato de que, entre os membros do grupo, encontra-se o casal Patricio-Susana; esta recorta notícias de jornais num grande álbum para que o filho, ainda um bebê, às vezes sob cuidados um tanto negligentes (“Era previsible que Lonstein se olvidara  a cada rato de Manuel , que chupaba melancólicamente los flecos de la cortina de la ventana jamás  lavado por mano humana desde 1897 (…) Ya antes de tocar el timbre Andrés oía las carcajadas de Lonstein que lo saludó con  la mano izquierda  pues de la derecha  le colgaba un recorte  sin duda  destinado a que Manuel lo leyera alguna vez  si los caldos de cultivo del fleco  lo dejaban llegar a la alfabetizatión”[6]), se inteire —no futuro —do Zeitgeist, o “Espírito da Época”. Aí vemos como o autor de Todos os fogos o fogo nunca abdica de experimentar formas e possibilidades: muito antes de várias realizações desse tipo[7], mais cultuadas, esse subestimado e injustamente esquecido romance incorpora ao tecido narrativo fac símiles de  notícias que se incorporam às discussões e incidentes da trama. Não é o único recurso inventivo de que Cortázar lança mão, decerto, contudo é o mais vistoso.

Na verdade, O livro de Manuel concentra de forma emocionante o pendor transgressor de um dos maiores mestres que a ficção já conheceu: em Cortázar, sempre há uma programática de vida, de desautomatização das formas de comportamento, da linguagem, dos relacionamentos; mas sua cosmovisão jamais fora tão claramente utópica, na  mais vibrante acepção da palavra, “de lo que podía dar todo su sentido a cualquier proyecto de futuro”[8], contra “la resistencia absurda de un mundo resquebrajado que sigue defendiendo  rabiosamente  sus formas más caducas”[9], uma das minhas citações favoritas e mais repetidas.

E O livro de Manuel, 40 anos depois, com sua força intacta, mostra como são mentirosos e paspalhos os pronunciamentos constantes de que a literatura “não serve para nada” ou que  “não tem nada a dizer”. É claro que ela deve utilizar todas as possibilidades mais ousadas de fabulação e que pode (e deve) ir até a contrapelo da linguagem vigente e usual. Mas uma obra fascinante, rica e complexa como a de Cortázar mostra que um escritor relevante tem muito a dizer sobre o mundo; caso contrário,  realmente não servirá para nada, a não ser a gaveta, ou a lata de lixo.

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TRECHO SELECIONADO

“Qué haría Marco si los azares de la Joda lo llevaran un dia a ser eso que las tabletas asirías llamaban jefe de hombres? Su idioma corriente es como su vida, una alianza de iconoclastia y creación, reflejo de lo revolucionário entendido antes de todo sistema; pero ya Vladimir Ilich,  sin hablar de León Davidovich y más de este lado y este tiempo Fidel, vaya si vieron lo que va del dicho al hecho, de la calle al timón. Y sin embargo uno se pregunta el porqué de esse pasaje de um habla definida por la vida,  como el habla de Marcos,  a una vida definida por el habla,  como los programas de gobierno y el innegable puritanismo que se guarece en las revoluciones. Preguntarle a Marcos alguna vez si va a olvidarse  del carajo  y de la concha de tu hermana en caso de que le llegue la hora de mandar; mera analogía  desde luego, no se trata de palabrotas sino de lo que late detrás,  el dios de los cuerpos, el gran río caliente del amor, la erótica de una revolutión que alguna vez tendrá que optar (ya no éstas sino las próximas, las que faltan, que  son casi todas) por outra definición del hombre; porque en que lo llevamos visto el hombre nuevo suele tener cara de viejo apenas ve una minifalda o una película de Andy Warhol. Vamonos a dormir, pensó El que te dije,  bastante teorizan los de la Joda para que yo les aporte estas cuatro pavadas demasiado obvias.  Pero me gustaría saber qué  piensa Marcos de eso,  cómo lo viviría si le llegara la hora…”[10]

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[1] Na versão de Olga Savary (publicada pela Nova Fronteira, em 1984): “…vivemos um tempo em que tudo está voando pelos ares e no entanto veja só, esses esquemas permanecem fixos em pessoas como nós, dá para perceber que falo dos pequeno-burgueses ou dos operários, o pessoal nucleado e familiado e casado e chamineado e proleado, ah merda, merda…”

[2] Traduzido assim: “…até que o novelo caia nas garras do gato cósmico…”

[3] “Aquele de quem lhe falei”, na versão de Olga Savary.

[4] Em português: “pensou que Andrés ficava como sempre um pouco atrás (…) Ao pobre Andrés coubera justamente a geração anterior (…) há toneladas como Andrés, ancorados na Paris ou no tango de seu tempo, em seus amores e suas estéticas e seus cocozinhos privados…”

[5] “… y pensé que Marcos sabía ver las cosas desde más de um lado,  que no era el caso de los otros orientados resueltamente  hacia la Joda. En esa comedia idiota había acaso como una esperanza de Marcos, la de no caer  en la especialización total, conservar un poco de juego, un poco de Manuel en la conducta. Vaya a saber, che. Capaz que tipos como Marcos y Oscar (del que fui sabiendo cosas  por el que te dije) estaban en la Joda por Manuel, quiero decir que lo hacían por el, por tanto Manuel en tanto rincón del mundo, queriendo ayudarlo a que algún dia entrara en un ciclo diferente y a la vez  salvándole algunos restos del naufragio total…”; na tradução: “… e pensei que Marcos sabia enxergar as coisas de mais de um lado, que não era o caso dos outros orientados resolutamente em direção à Roda. Nessa comédia idiota havia possivelmente como que uma esperança para Marcos, a de não cair na especialização total, conservar um pouco de jogo, um pouco de Manuel na conduta. Sei lá, tchê. É possível que caras como Marcos e Oscar (do qual fui sabendo coisas por Aquele de quem lhe falei) estivessem na Roda por Manuel, digo que o faziam por ele, por tanto Manuel em tanto canto do mundo, querendo ajudá-lo para que algum dia entrasse em um ciclo diferente e ao mesmo tempo salvando-lhe alguns restos do naufrágio total…”

[6] Traduzido como se segue: “Era previsível que Lonstein se esquecesse a cada momento de Manuel, que chupava melancolicamente as franjas da cortina da janela  jamais lavada por mão humana desde 1897 (…) Já antes de apertar a campainha Andrés ouvia as gargalhadas de Lonstein, que o cumprimentou com a mão esquerda pois da direita pendia um recorte sem dúvida destinado a ser lido algum dia por Manuel se os caldos de cultivo da franja o deixassem chegar até a alfabetização”; nesse passo da narrativa, os “apolíticos”, por assim dizer, ou melhor dizendo, não-diretamente engajados, tomam conta de Manuel, enquanto se efetiva o sequestro.

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[7] Entre outros, lembro do Zero, de Ignácio de Loyola Brandão. Entre outras derivações de Libro de Manuel, tivemos também um belo filme (pelo menos, foi o que achei há décadas atrás) de Alain Tanner, Jonas que terá 25 anos no ano 2000 (1976).

[8]  Em tradução: “do que podia dar todo o seu sentido a qualquer projeto de futuro”

[9] Traduzido como: “a resistência absurda de um mundo rachado que continua defendendo raivosamente suas formas mais caducas”.

[10] A tradução do trecho, por Olga Savary:

“Que faria Marcos se os acasos da Roda o levassem um dia a ser isso que as tabuletas assírias chamavam chefe de homens? Seu idioma corrente é como sua vida, uma aliança de iconoclastia e criação, reflexo de revolucionário entendido antes de todo sistema; mas já Vladimir Ilich, sem falar de Léon Davidovich e mais deste lado e deste tempo Fidel, puxa vida se viram à distância que há do dito ao fato, da rua ao leme. E no entanto a gente se pergunta o porquê dessa passagem de uma fala definida pela vida, como a falação de Marcos, a uma vida definida pela fala, como os programas de governo e o inegável puritanismo que se guarnece nas revoluções. Perguntar a Marcos alguma vez se vai se esquecer da porra e da puta que pariu no caso de que lhe chegue a hora de mandar; mera analogia imediata, não se trata de palavrões mas do que palpite por detrás, o deus dos corpos, o grande rio quente do amor, a erótica de uma revolução que alguma vez terá que optar (já não estas mas as próximas, as que faltam, que são quase todas) por outra definição do homem; porque por enquanto o homem novo costuma ter cara de velho assim que vê uma minissaia ou um filme de Andy Warhol. Vamos dormir, pense Aquele de quem lhe falei, teorizam bastante os da Roda para que eu lhes traga estas quatro idiotices demasiado óbvias. Mas gostaria de saber o que pensa Marcos disso, como o viveria se lhe chegasse a hora.”

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03/05/2011

CRONÓPIOS E FAMAS EM CRUZEIRO

Capa de Os prêmios

Finalmente reeditaram Os prêmios, primeiro romance publicado por Julio Cortázar (hoje sabemos que ele escrevera e engavetara um anterior, O exame final; aliás, toda a sua obra “imatura” vem sendo lançada), ótima introdução ao universo do grande escritor argentino, sem o radicalismo de experiências como Rayuela-O jogo da amarelinha (1963) e 62-Modelo para armar (1968), no quais ele tentou a destruição do gênero e de hábitos de leitura petrificados.

Cortázar reúne pessoas da mais variada extração social, sorteadas numa loteria governamental (há uma atmosfera miasmática de repressão política), reunindo-os num cruzeiro, do qual eles não sabem sequer o itinerário ao embarcar num navio cuja popa lhes é interdita com explicações inconvincentes. Os passageiros dividir-se-ão entre conformados e rebelados.

Portanto, a primeira coisa que se nota em Os prêmios é a utilização insólita e matreira de um velho clichê narrativo: reunir num mesmo espaço, e sob o signo da viagem (no que ela significa de deslocamento e dissolução da rotina), pessoas diferentes, formando uma imagem condensada de uma determinada época ou sociedade. Esse mote pode proporcionar desde best sellers (Aeroporto, por exemplo) até obras de grande qualidade (como Trem de Istambul, de Graham Greene). Ao mesmo tempo, Cortázar explora o lado artificioso e fabricado dessa situação romanesca (a começar pela primeira frase, “A marquesa saiu às cinco horas, o célebre exemplo utilizado por Paul Valéry na sua diatribe contra o romance e sua pretensa “imitação da vida”), acelerando-o ainda mais ao concentrar em três dias a suposta viagem, os quais representam uma abertura para uma outra aferição de tempo, onde as personagens embarcam numa viagem muito diferente.

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Criador de situações exemplares de tensão, que amalgamam o cotidiano e o fantástico (o caso da popa proibida; aliás, já no longo início, no qual todos se reúnem no bar London, antes do embarque), Cortázar também se confirmava nesse livro um grande criador de personagens (e que evolução, sabemos agora, desde a tentativa frustrada de O exame final!). Há o herói existencialista, meio à André Malraux, Medrano, que se tem um breve e intenso caso de amor com a fascinante Cláudia, mãe de um dos mais típicos “cronópios” da obra cortazariana, o menino Jorge, catalisador do clímax da intriga. Há a dupla de amigos irônicos e desesperados, Raul e Paula, esta se interessando por Carlos López, mesmo sabendo que entrará num jogo em que tentará afastá-lo dela tanto quanto deseja aproximá-lo e fazê-lo romper seus velhos hábitos de joguinhos e atmosfera huis clos; aquele, seduzido pelo adolescente Felipe (a quem também seduz), mas que tem de lutar contra a camada de idéias preconcebidas e machistas da sua educação, e principalmente contra o pavor dele com a própria sexualidade. A trama que envolve Raul e Felipe provavelmente é a que fornece as cenas mais intensas de Os prêmios, inclusive pela violência psicológica com que Cortázar a encerra, numa cena cruel (que envolve um dos marinheiros que bloqueiam a passagem para a popa, e numa ambientação que sugere descidas ao inferno e inúmeras referências mitológicas) que deixa Jean Genet no chinelo.

Há também o grupo de suburbanos e o casal Lúcio-Nora, em que a mulher submissa e católica aos poucos vai formulando silenciosamente um julgamento fulminante e deletério do seu homem, que garantem as mais diversas camadas de leitura. A viagem dos premiados pode ter sido truncada e frustrada, mas os que embarcarem nesse belo romance nada terão do que reclamar: Os prêmios vale cada centavo investido na sua travessia.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 25 de novembro de 2006)

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O terceiro olho da narrativa: brechas na superfície do mundo

Resenha publicada em “A Tribuna” de Santos em 13 de março de 2001

O autor deste texto entra numa livraria da região e pergunta pela recente edição da Civilização Brasileira (o original é de 1968) do romance 62-Modelo para armar (na tradução de Gloría Rodriguez). O vendedor se volta para outro: Ei, Fulano, temos 62 maneiras de amar???!!!!

A situação certamente teria deliciado o autor, Julio Cortázar (1914-1984).

Não por acaso, Modelo para armar se inicia por um trocadilho, uma confusão semântica. Os jogos lingüísticos e associações de idéias abundam no texto. Cortázar o conduz sob o signo do experimentalismo formal que caracterizou seu projeto artístico e que já se revela no subtítulo, Modelo para armar.

E o 62? Não, leitor, não um número que circunscreva as maneiras de amar. É o capítulo de Rayuela- O jogo da amarelinha (1963) no qual se propõe um determinado objetivo: “Numa certa época Morelli imaginara um livro que estacionou em notas avulsas. A que melhor o resumia é esta: Psicologia, palavra com ar de velha… Se tivesse escrito este livro, os comportamentos standard seriam inexplicáveis com o instrumental psicológico em uso. Os atores pareceriam insanos ou totalmente idiotas.  Não que se mostrassem incapazes dos challenge and response correntes: amor, ciúme, piedade e assim sucessivamente, mas que neles algo que o homo sapiens guarda no plano subliminar se abriria penosamente um caminho como se um terceiro olho pestanejasse penosamente debaixo do osso frontal. Tudo seria como uma inquietude, um desassossego, um desenraizamento contínuo, um território onde a causalidade psicológica cederia desconcertada, e esses fantoches se destroçariam ou se amariam ou se reconheceriam sem suspeitar demasiado que a vida procura tocar a clave em, através e por eles, que uma tentativa apenas concebível nasce no homem como em outro tempo foram nascendo a clave-razão, a clave-sentimento, a clave-pragmatismo”.

Parece difícil, não? Imagine, leitor, 250 páginas nesse clima. Como se explica, então, que Cortázar tenha conseguido fazer de 62-Modelo para armar um romance tão charmoso e absorvente, sem a menor aridez, e também sem abrir mão da complexidade? Talvez isso aconteça porque ao contrário, por exemplo, da nouvelle vague francesa (pelo menos na sua vertente godardiana), o grande escritor argentino quase nunca prescindiu do apelo lúdico, que se traduz em prazer de leitura.

Em Modelo para armar há efetivamente um grupo de “atores”, isto é, de personagens difusos (um deles diz: “parecemos fantasmas que falam de outros fantasmas”) que ás vezes parecem insanos ou idiotas (chegam até a falar numa linguagem tatibitate, para chocar uma velha senhora muito convencional) e que se destroçam, se amam e se reconhecem. São os tártaros, grupo ligado por razões de amizade e outras mais complicadas e destrutivas, e que como Sherezades contam histórias uns para os outros para sobreviver na grande rotina, em Paris, Londres, Viena, numa região pantanosa ou na cidade de Arcueil, para onde todos vão no clímax do romance, por causa da inauguração de uma estátua realizada por um dos membros do grupo, constituído por Juan, Marrast, Polanco, Austin (os homens) e Hélène, Nicole, Tell, Celia e Feuille Morte (as mulheres), além de misteriosos paredros de cada um deles, um luxo a mais numa narrativa que passa da terceira para a primeira pessoa sem a menor cerimônia; mais ainda, um personagem pode tomar a palavra e no meio de um parágrafo passar para a terceira pessoa.

Entretanto, o que torna o livro um empreendimento talvez ainda mais arrojado do que o mágico Rayuela é a distorção temporal dos acontecimentos que apresenta. Quem ler com atenção, verá que o texto se torna uma mandala, um jogo de cobra que morde o próprio rabo, pois eventos que deveriam já ser passado transformam-se em presente, ou seja, acontecem quando já deviam ter acontecido, na perspectiva cronológica do senso comum. Nem o inesquecível O ano passado em Marienbad, da dupla  Resnais & Robbe-Grillet, fez tanto o tempo cronológico de gato-sapato.

O leitor poderá ficar impaciente, mas como se afirma a certa altura, “perdoa-me essa linguagem, a única possível”. Ou ainda: “o antes e o depois se desmanchavam em suas mãos”.

Contar de maneira convencional seria “pôr ordem como quem disseca pássaros”. E como exigir isso, se os personagens da narrativa têm uma visão do mundo como numa galeria de espelhos (aliás, o romance começa a partir de um trocadilho e de um espelho num restaurante)?

Uma narrativa-caleidoscópio, portanto, que procura envolver o leitor nas dobras e avessos da grande rotina que é a Vida, nas passagens para outras realidades: “parando nos portais, onde como sempre o atraía a possibilidade de uma comunicação menos óbvia, a penumbra propícia ao cigarro e à passagem”, “…as interrupções da lógica estalam em velocidade prodigiosa, e dos dois lados da fagulha de uma exceção se abrem os intermináveis bocejos da simples causalidade infalível”.

E,quebrando a ilusão dos espelhos, de repente a visão do artista compondo o quadro: “…dizer tudo isso representa estar ainda mais sozinho num quarto onde há um gato e uma máquina de escrever”. Para nós, leitores, abençoada solidão!

Geometria metafísica: os lados possíveis de um octaedro

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Resenha publicada originalmente  em “A Tribuna” de Santos , em 06 de março de 2001

Há 50 anos, Julio Cortázar (1914-1984) lançava sua primeira reunião de contos, Bestiário. A reedição recente de outra coletânea, OCTAEDRO  (em tradução de Glória Rodriguez), pela Civilização Brasileira, permite ao leitor brasileiro constatar como em 1974 (ano do lançamento do original, e não 1964, como informa a editora), o grande escritor argentino ainda se mantinha bastante inspirado no exercício do texto curto.

A frase-chave do livro pode ser encontrada em Aí, mas onde, como e faz lembrar Clarice Lispector: “…se escrevo é porque sei, embora não possa explicar o que sei…”. Em vários momentos de OCTAEDRO, os narradores estão envolvidos com o próprio ato de escrever, criando outro tempo, outras vidas, possibilidades intersticiais no mundo do cotidiano chapado e rotineiro.

Já no citado Aí, mas onde, como, o narrador revive incessantemente a agonia e a morte de seu amigo Paco, ocorrida 30 anos antes. É como um ritual no qual Paco não pára de agonizar e morrer: “…outra vez me deitar e viver como qualquer um, fazendo o possível para esquecer que Paco continua aí, que nada termina porque amanhã ou no ano que vem eu acordarei sabendo como agora que Paco continua vivo, que me chamou porque esperava alguma coisa de mim, e que não posso ajudá-lo porque está doente, porque está morrendo”. A escritura instaura o eterno-presente.

Em Liliana chorando,  o narrador, supostamente moribundo, escreve o futuro a partir da sua morte e passa a viver cada momento desse futuro-possibilidade, angustiando-se ao ser informado de uma possível melhora, a qual interromperia a seqüência de acontecimentos que foi vivenciando como uma outra vida possível. É uma obra-prima e tem um dos finais mais esplêndidos já escritos (de passagem, não custa anotar a recorrência de situações de enfermidade e estágios terminais na obra de Cortázar, também reiterada em OCTAEDRO por outro conto, o estranhíssimo As fases de Severo, onde o enfermo transforma-se num showman).

O extraordinário Manuscrito encontrado num bolso apresenta um narrador envolvido na tentativa—meio Sísifo meio lúdica—de burlar a jaula do cotidiano. O título contém uma brincadeira com a tradição literária (por exemplo, Manuscrito encontrado numa garrafa, de Poe, cuja obra foi traduzida por Cortázar), ao usar o artifício do manuscrito achado como gancho para evocar terras imaginárias e experiências fabulosas. A “terra imaginária” onde  transcorre o texto é Paris, e a “experiência fabulosa” é um jogo envolvendo o reflexo de mulheres casuais nas vidraças do metrô. Essas mulheres e seus reflexos abrem brechas, feridas no ramerrão do dia a dia, até que um dia o narrador acaba conhecendo de fato uma dessas mulheres e então o terrível princípio de realidade ameaça sufocar o mundo do desejo. Por isso, é imperativo recomeçar o jogo, dessa vez com a cumplicidade da amada.

Outro tipo de jogo no metrô dá início ao célebre Pescoço de gatinho preto, que poderia ter sido filmado por Polanski nos seus bons tempos de cineasta (aquele de Repulsa ao sexo, O bebê de Rosemary, O inquilino). Não há nenhum gato no texto, apesar de Cortázar ter sido aficionado por eles. O título sugere uma sensação de delicadeza e vulnerabilidade, e também a possibilidade de violência e maldade, justamente o arco percorrido pelos acontecimentos: o protagonista se vê defrontado com a fragilidade da mulher que o aborda no trem subterrâneo e, no apartamento dela, a loucura e a brutalidade vão apagando as luzes, no sentido literal e no metafórico.

Texto final de OCTAEDRO, Pescoço de gatinho preto  concretiza de certa forma  o clima de ameaça e pulsões despertadas que pairam sobre outros dois momentos anteriores da seleção, Verão e Um lugar chamado Kindberg. Neste último, o encontro fortuito entre um homem maduro e uma jovem caronista,  parece traduzir, ao abrir um leque de possibilidades não-aproveitadas, o que há de truncado e insatisfatório na vida experimentada e “realizada”. Já no magnífico Verão, a aparição fantasmagórica e assustadora de  um cavalo que pode invadir a casa de veraneio faz emergir a hostilidade reprimida de um casal. É memorável o instante  em que, tentando convencer a mulher de que  o cavalo não invadirá a casa (com a atmosfera de violência irracional que “transmite”, mesmo do lado  de fora), o marido praticamente a estupra, e é como se a invasão se concretizasse, enfim:  “Segurou as costas de Zulma que tratavam de rejeitá-lo, empurrou-a de costas contra a cama, caíram juntos, Zulma soluçando e suplicando, impossibilidade de se mexer sob um corpo que a cingia cada vez mais, que a submetia a uma vontade murmurada boca a boca, enraivecidamente,  entre lágrimas e obscenidades. Não quero, não quero,  não quero nunca mais, não quero, mas já tarde demais…”

Assim como Aí, mas onde como evoca um texto mais antigo de Cortázar, o excepcional Cartas de mamãe (de As armas secretas), ao mostrar a presença muito viva de alguém que já morrera, um dos pontos altos de OCTAEDRO, Os passos no rastro evoca O perseguidor (do mesmo livro, de 1959). Temos mais uma vez um crítico e sua relação muito estreita, quase ao ponto da identificação e ao mesmo tempo cheia de má fé, com um artista específico. Ao escrever sobre o poeta Claudio Romero, o personagem principal se porta mais ou menos como um alpinista social. Publica com êxito seu estudo e empresta á vida e à obra de Romero uma impressão de identidade infraturável, unívoca. Jorge Fraga, o crítico,  começa a se dar conta da falsidade e do equívoco,  percebendo em Romero  as mesmas fissuras,  fendas e interstícios que determinaram suas próprias ações, seus próprios passos no rastro do poeta. Seu livro não esclareceu a verdade, apenas criou um mito, “algo que era necessário rejeitar e abolir, se não quisesse se afundar de todo em Romero, miseravelmente identificado até o fim com um falso herói de imprensa e radioteatro.

Como se vê, se por um lado o título OCTAEDRO é geometricamente exato (temos 8 contos), por outro não deixa de ser enganoso: como sempre em Cortázar, encontraremos muitos outros lados, numa geometria metafísica.

27/12/2009

Em relação ao século XX: 100, 75, 50, 25 anos de obras e autores

[Juan Carlos Onetti]

{Eugene Ionesco}

[Norberto Bobbio]

[Selma Lagerlöf]

100 anos- Em 2009, a escritora alemã Herta Müller ganhou o Nobel. Exatamente cem anos atrás, a sueca Selma Lagerlöf (1858-1940) tornava-se a primeira mulher a receber o prêmio. Não conheço muito bem sua obra,  só li algumas histórias de De saga em saga, uma coletânea que aparece numa coleção dos premiados com o Nobel, porém há um ensaio excelente de Marguerite Yourcenar sobre ela em Notas à margem do tempo, e que nos faz vislumbrar um universo fascinante.

    No mesmo ano em que a autora de A saga de Gösta Berlings (seu livro mais conhecido) se tornava a pioneira de uma lista ainda muito pequena, nascia na Romênia natal de Herta Müller um dramaturgo originalíssimo, que faria parte do chamado “teatro do absurdo”: Eugene Ionesco, de A cantora careca, Os rinocerontes; A lição; e, no Uruguai, um dos prosadores que mais mereceriam o Nobel no século XX: Juan Carlos Onetti, com obras do calibre de A vida breve, O estaleiro & Junta-Cadáveres, e que forma, com o argentino Jorge Luis Borges e o mexicano Juan Rulfo a santíssima trindade da ficção hispano-americana.

      Também em 1909, nascia o grande pensador italiano Norberto Bobbio, autor dos ensaios maravilhosos reunidos em Nem com Marx, nem contra Marx. E na Letônia nascia o luminoso Isaiah Berlin (que faria carreira na Inglaterra), o autor de Pensadores russos, um pensador que gostava mais de escrever ensaios do que preparar “livros”.  E naquele ano, Lima Barreto lançava seu libelo anti-racista que também, e principalmente, é um poderoso romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha.

75 anos- De 1934, gostaria de destacar dois romances essenciais: o maior livro de Graciliano Ramos, São Bernardo (ser o melhor livro de um escritor como Graciliano é um fato por si só notável; para mim, aliás, os maiores romances brasileiros do século passado são Grande sertão: veredas; A maçã no escuro; São Bernardo  & Triste fim de Policarpo Quaresma); e o terrível e avassalador Morte a crédito, de Louis-Ferdinand Céline (que talvez seja até maior do que sua obra-prima anterior, Viagem ao fim da noite). Vidas secas e cheias de angústia no Nordeste e na França. A vida lembrada, cá e lá, como memórias do cárcere

[raymond chandler]

50 anos- É difícil escolher o acontecimento literário supremo de 1959, ano em que morria o grande Raymond Chandler, pois nesse ano iniciavam suas carreiras gloriosas nomes como Günter Grass, com O tambor de lata, certamente um dos maiores romances já escritos; os outros não começaram já nesse patamar: Philip Roth (Adeus, Columbus), Vargas Llosa (Os chefes) e Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares). O único título comparável em magnitude ao de Grass talvez seja O almoço nu, que revelou o universo muito peculiar de William Burroughs, mas cuja legibilidade maior foi possível graças à notável versão cinematográfica de David Cronemberg (a versão de O tambor nada tem de notável). Mesmo assim, um romance cinquentenário pelo qual tenho um carinho especial é Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr, merecidamente um clássico da ficção científica, mas que não se restringe a um “livro de gênero”. Na área de contos, é difícil pensar num título mais importante do que As armas secretas, de Cortázar, não só por causa da sua qualidade literária (o meu favorito é “Cartas da mamãe”, mas o mais considerado é “O perseguidor”, baseado na vida de Charlie Parker), como pela sua influência na literatura dos anos 60 e 70: basta lembrar que “As babas do diabo” foi a inspiração de Antonioni para seu Blow up (1968). Também não se pode esquecer a irreverência, a jovialidade e o trato de linguagem de Zazie no metrô, a obra-prima de Raymond Queneau.

     Em 1959, Jean-Paul Sartre dedicou-se a escrever um roteiro imenso (depois não utilizado, naquela época não existiam as produções para a tv a cabo, não existia a HBO; mesmo assim, Sartre resmungou que as pessoas tinham paciência para ver quatro horas da vida de Ben-Hur e não tinham para ver a vida do criador da psicanálise) sobre a vida de Freud para John Huston. O filme é ótimo, mas o texto de Sartre não fica atrás: Freud, além da alma; o marcante romancista português Vergílio Ferreira lançou sua obra mais famosa, o difícil porém importante Aparição; e há quem ache uma obra-prima (não é o meu caso) Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, ainda assim um livro que se deve levar em conta. Em todo caso, eu prefiro o folhetinesco Asfalto selvagem, as deliciosas desventuras em série de Engraçadinha, uma das grandes criações de Nélson Rodrigues

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion, e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras.

julio cortázar & truman capote]

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion (sempre cito uma de suas frases, “ninguém está isento do movimento geral”, e sua heroína, Inez Christian Victor, é como se fosse uma amiga pessoal), e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras, a qual justamente em 1959 havia escrito o mais belo dos roteiros em hiroshima, meu amor, dirigido por Alain Resnais.

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