MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

11/02/2014

Iris Murdoch como ensaísta e as «intimações dispersas do Bem»

A soberania do bemIris_Murdoch_1832272i

“Isso pode parecer uma reflexão bastante óbvia, mas a filosofia frequentemente é um meio de encontrar o contexto apropriado para dizer o óbvio.”

“Poderíamos dizer que a verdadeira moralidade é um tipo de misticismo não esotérico, tendo sua fonte em um amor austero e sem consolo pelo Bem.”(de A Soberania do Bem)

“David me encarou com os olhos arregalados, injetados.

__ E qual acha que será a consequência disso? Não, não. É melhor fazer a coisa errada pelas razões certas do que fazer a coisa certa  pelas razões erradas. Ah, o senhor não compreende…

    Mas eu compreendia muito bem. Podia ter ficado desesperado com a grande confusão do destino humano: aquelas insinuações semientendidas de certo e errado que nos levam, por estradas iluminadas pela luz crepuscular, para um ponto do qual não há retorno…” (de A moça italiana)

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de fevereiro de 2014)

Há meio-século, em A moça italiana (1964), um de melhores romances de Iris Murdoch (1919-1999), o protagonista retornava contrafeito, devido à morte da mãe tirânica, para a casa onde fora criado e cuidado por uma sucessão de preceptoras italianas (as quais se confundiam em sua mente). Ali encontrava o resto da família (além da última na sequência de “moças italianas”) mergulhado num inferno de desatinos sexuais e crises passionais. Como o único que conseguira “escapar” do círculo, todos lhe pedem ajuda[1], mas falha de forma lamentável, fazendo um papel ridículo, ofuscado pelas aparências e intrigas nos bastidores. Enquanto isso, a última das preceptoras, pouco mais velha que ele, “figura de fundo”, espera que seu antigo discípulo consiga abrir os olhos e enxergar a realidade. E enxergá-la…

Simplifiquei bastante essa estranha e edipiana fábula[2], porém meu propósito era salientar uma ideia-chave em A Soberania do Bem [The Sovereignty of Good, 1971, que comento na tradução de Julián Fuks], reunião de três ensaios que a grande escritora irlandesa[3] publicara em periódicos nos anos 1960, paralelamente a uma profícua produção romanesca, e só agora publicada no Brasil: a de que o Amor (numa acepção fortemente ancorada em Platão) é a maneira correta de abrir os olhos  e escapar dos véus do autoengano.

Apesar da densidade das suas reflexões e de referências a pensadores anglo-saxões que mal conhecemos[4], a leitura nada tem de árdua, pois Iris Murdoch se vale daquela forma eficaz que é o ensaio oriundo de uma palestra ou conferência (lecture). Ou seja, já no nascedouro há a exigência da comunicabilidade, da limpidez da apresentação, com aqueles recursos fáticos que garantem o ritmo do encadeamento reflexivo: “Permitam-me agora tentar explicar…”; “Vamos pisando com cuidado aqui…”; “Podemos neste ponto parar e considerar o quadro da personalidade humana, da alma, que vem emergindo…” São exemplos que mostram o interlocutor sempre presente no horizonte do discurso. Nada daqueles textos cifrados e autistas à Deleuze & Althusser, que entraram na moda justamente naquela época.

círculo do livrothe-italian-girl

O primeiro ensaio, A Ideia de Perfeição (1964)[5], questiona concepções da vontade e da liberdade que ela engloba como visão existencialista-behaviorista, como se nos movimentássemos numa ausência de fundo moral, únicos responsáveis por nossas escolhas[6]. Contra esse fuliginoso mundo psíquico, ela propõe uma moralidade da atenção[7], uma tarefa infinita da consciência quanto à percepção dos outros e dos fatos exteriores. A “liberdade”, tão importante na filosofia moderna, não seria um “salto súbito da vontade isolada para dentro e para fora de uma  lógica complexa e impessoal”, pois é sobretudo “uma função da tentativa progressiva de ver um objeto específico com clareza[8]. Daí a visão do Amor como conhecimento do indivíduo, um olhar que enxerga de fato e não apenas projeta fantasias. Para tanto, precisamos recuperar o papel de agentes morais ativos. A imaginação moral permite que almejemos o Bem, o ideal de perfeição.

Em Sobre Deus e o Bem (1969; infelizmente na tradução se perde o jogo verbal do título original On God and Good), ela lamenta o vazio deixado pelo recuo da filosofia moral com relação a outras disciplinas (psicanálise, teoria social).  Apertando ainda mais o nó da reflexão anterior, surge a espinhosa questão: “Como é um homem bom? Como podemos nos tornar moralmente melhores?” Na falta da perspectiva religiosa, como cultivar tal objetivo, sem sermos tapeados?:

“A noção de que ´tudo de alguma forma tem que fazer sentido´ protege do desespero: a dificuldade está em como aceitar essa noção confortante de um modo que não seja falso. No instante em que qualquer ideia se torno um consolo, a tendência a falsificá-la ganha força…”

   Daí a sua dedicação em explorar (com a espinhosa dificuldade de conceitos tão deturpados ou desgastados[9]) os caminhos para a “excelência moral” e a “transcendência”: “O Bem está sempre além, é desse além que ele exercita sua autoridade”[10]. Como parecem questões recônditas para os voláteis tempos atuais, e como no entanto elas são cada vez mais urgentes! Em todo caso, esse segundo ensaio me parece o coração do livro.

No último, A Soberania do Bem Sobre Outros Conceitos (1967),  ela retoma mais explicitamente Platão (o seu célebre mito da caverna ganha toda uma fisionomia moral) e procura definir seu conceito de Bem e suas “intimações dispersas”, se estivermos dispostos a olhar para “fora do eu”.

Para quem não é atraído (antes o contrário) pela religião, para quem despreza as táticas de melhora instantânea da autoajuda, mas tenta se pautar (e se angustia com constantes tropeços) por um procedimento que a partir de agora não terá mais medo de chamar de “moral”, A Soberania do Bem é uma bússola e tanto no mar da desorientação contemporânea: “O Bem não tem nada a ver com propósito; na verdade, ele exclui a ideia de propósito. Tudo é vaidade é o início e o fim da ética. O único modo genuíno de ser bom é ser bom ´para nada´ no meio de um cenário em que cada coisa natural, incluindo nossa mente, está sujeita à mudança, isto é, à necessidade”.

good


[1] “Também estava claro, agora, que  eu não podia ir embora. Era um prisioneiro da situação. Antes, naquele mesmo dia, vagando num estado de lassidão sem propósito, ficara fortemente tentado a partir (…) Não havia nada que pudesse fazer por aquela gente. Entretanto, por ardente que fosse o meu desejo de partir, e embora achasse que devia voltar ao meu mundo simples antes que alguma coisa pior me acontecesse, sabia que não podia. Era meu dever ficar: aquela palavra desagradável me prendia ali. Mas não era só isso. Percebi, alarmado, que queria ficar, mesmo. Estava me tornando uma peça da máquina.” (utilizo, nas citações de A moça italiana, a tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva, retiradas da edição do Círculo do Livro, s/d).

[3]  Ela também lecionou filosofia em Oxford por anos a fio e foi aluna de ninguém mais ninguém menos do que Wittgenstein.

Acho que todos se lembram do filme Iris (2001), dirigido por Richard Eyre, que retrata sua vida (especialmente os terríveis anos finais), com uma magnífica Judi Dench e a não menos gloriosa Kate Winslet vivendo a jovem Iris Murdoch.  O admirável Jim Broadbent,  como John Bayley, o marido, ganhou o Oscar como coadjuvante.

[4] Hampshire, Moore, Hare, Ryle, Ayer, Austin, etc…

[5] E segundo a autora, no Prefácio, baseado numa palestra de 1962.

[6] “A imagem do homem que esbocei anteriormente me parece tanto estranha quanto implausível: tenho objeções empíricas simples (não acho que as pessoas sejam necessária ou essencialmente assim), tenho objeções filosóficas (não acho os argumentos convincentes), e tenho objeções morais (não acham que as pessoas tenham que se ver dessa maneira).”

[7] Além de Platão, há o peso do pensamento de Simone Weil.

[8] “Isso não implica que não sejamos livres, absolutamente. Mas implica que o exercício de nossa liberdade é algo que se dá aos poucos e de modo fragmentário o tempo inteiro, e não um salto grandioso e desimpedido em momentos importantes. A vida moral, nessa visão, é algo que se dá continuamente, não algo que se desliga entre as ocorrências das escolhas morais explícitas. O que acontece entre essas escolhas é, na verdade, o que há de mais crucial…”

[9] “A ideia de contemplação é difícil de entender e manter em um mundo cada vez mais desprovido de sacramentos e rituais, e no qual a filosofia tem (em muitos aspectos corretamente) destruído a velha concepção substancial do Eu. Um sacramento oferece um lugar externo e visível para um ato interno e invisível do espírito. Talvez seja necessária também uma analogia do conceito de sacramento, embora isso deva ser tratado com grande cautela. A ética behaviorista nega a importância, pois questiona a identidade de qualquer coisa anterior ou separada da ação que ocorra decisivamente ´dentro da mente´. A apreensão da beleza, na arte ou na natureza, muitas vezes parece de fato uma experiência espiritual localizada no tempo que é fonte de energia positiva. Não é fácil, contudo, estender a ideia dessa influente experiências a ocasiões de pensamento sobre pessoas ou ações, uma vez que a clareza de pensamento e a pureza da atenção se tornam mais difíceis e mais ambíguas quando o objeto de atenção é algo moral…”

 [10] “O principal inimigo da excelência  na moralidade (e também na arte) é a fantasia pessoal; o tecido de desejos e sonhos autoenaltecedores e confortantes que nos impedem de ver o que há fora de nós. Rilke disse sobre Cézanne que ele não pintava o gostei, ele pintava o aí está. Isso não é fácil e exige disciplina, na arte ou na moral.”

murdoch,iris

moça italiana

08/02/2014

THE NICE AND THE GOOD: Iris Murdoch e o fascínio de suas «fábulas oblíquas»

NPG P436,Dame (Jean) Iris Murdoch,by GisËle Freundser bom não basta

“Se eu atento direito não terei escolhas, e essa é a condição definitiva a que se deve almejar (…) É algo de que falam os santos e que todo artista entende de imediato. A ideia de um olhar paciente e amoroso, dirigido a uma pessoa, uma coisa, uma situação, apresenta a vontade não como um movimento desimpedido, mas como algo que se parece muito mais a uma obediência.” (de  A soberania do Bem)

“A triste verdade é que Mary não o amava o suficiente para o ver com clareza.” (de The Nice and the Good)

(o texto abaixo foi escrito especialmente para o blog, em fevereiro de 2014)

1

Quinze anos após sua morte (em 8 de fevereiro de 1999[1]), Iris Murdoch continua uma escritora pouco traduzida entre nós: o único título seu que o leitor encontrará nas livrarias é A soberania do Bem (1971), reunião de três ensaios filosóficos. Dos 26 romances publicados por ela em vida, somente cinco foram editados no Brasil (a Artenova nos anos 1970 publicou Misha, o encantador—tradução de The flight of the enchanter[2]; A cabeça decepada—com tradução de Clarice Lispector; O unicórnio; A moça italiana—este completando meio-século agora em 2014[3]; no começo dos anos 1980 saiu pela Nova Fronteira o soberbo O mar,o mar, de 1978).

O que mais me causa pena é que justamente toda uma linha de romances murdochianos ilumina e enriquece as questões levantadas em A soberania do Bem. Ela nos diz, no ensaio, que a literatura é “uma educação sobre como imaginar e entender situações humanas” porque acima de tudo somos agentes morais. Retornando a Platão, discute o Bem como o valor moral central porque, embora seja uma tarefa incessante dentro da nossa consciência, é “a fonte de luz que nos revela todas as coisas como elas realmente são. Toda visão justa, mesmo nos problemas mais estritos do intelecto, e mais ainda quando o sofrimento e a perversidade têm que ser percebidos, é uma questão moral”.

Grosso modo, pode-se afirmar que ela modulou ficcionalmente essa concepção platônica do Bem desde o seu primeiro romance, Sob a rede- Under the net (1954), no qual um narrador basicamente preguiçoso, egocêntrico e cego para a realidade à sua volta, tem despertada sua imaginação moral, e portanto ganha a possibilidade de se tornar um ser humano melhor (sei que algum leitor deve estar arrancando os cabelos neste momento com uma afirmação dessas, que parece remeter minha análise ao catecismo, ao bom-mocismo e aos valores da tradição, família e propriedade—devo alertar, porém, que embora aqui coloque muito alto a noção de moral, pouco valor se dá a nefandas contrafações moralistas), no sentido de perceber como são de fato as outras pessoas que o cercam.

Mas talvez seja na série de romances dos anos 1960, cada qual  com seu peso qualitativo próprio, que a grande escritora irlandesa parece ter encontrado uma fórmula muito peculiar (a meu ver, fascinante) de dramatizar seus despertares da imaginação moral: romances como O unicórnio, A moça italiana e The Nice and the Good (1968) poderiam ser definidos como fábulas oblíquas, aproveitando certos ganchos dos contos populares e folclóricos, dos contos de fada, das histórias mitológicas, ou seja, todo um repertório pré-realismo (no sentido de que o «realismo» impôs certas características de verossimilhança e localização espaço-temporal muito definidas às ficções), para “imaginar e entender situações humanas”. Portanto, dramas (às vezes comédias) da imaginação moral. Por isso mesmo, são livros muito difíceis de definir, pois ao mesmo tempo em que se revelam intensamente detalhistas (Iris Murdoch se compraz na descrição da natureza, dos ambientes), sua atmosfera sempre projeta, mesmo as intrigas mais contemporâneas (como a de A cabeça decepada), numa espécie de tempo fabular: os protagonistas têm de enfrentar provas, há sempre armadilhas, conspirações nos bastidores (ela deve ter sido uma leitora atenta de James) e uma inequívoca aura dramática (no sentido teatral, da grande metáfora do “teatro do mundo”), quer dizer, cada caractere tem um papel a cumprir no aprendizado moral do protagonista, embora alguns romances murdochianos pareçam ter um grupo numeroso de personagens que poderiam reivindicar esse status (é o caso de The flight of the enchanter e The Nice and the Good), o que é enganoso: não há espaço num romance para acompanhar a evolução moral de vários personagens (daí a minha impressão de que ela não foi totalmente feliz em The flight of the enchanter, embora goste muito dele).[4]

Para tornar mais concretas minhas observações, vou me ater, ainda que brevemennte, a uma dessas fábulas morais oblíquas dos anos 1960, aquele que está mais próximo cronologicamente do lançamento em livro dos ensaios de A soberania do Bem, e aquele que me parece dramatizar de forma mais vívida as preocupações murdochianas: The Nice and the Good[5].

A soberania do bemAngelo_Bronzino_002

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“A arte fura o véu e nos dá a noção de uma realidade que está além da aparência; ela exibe a virtude em seu verdadeiro disfarce no contexto da morte e do acaso.” (de A soberania do Bem)

“E se existe um bem indubitável ao nosso alcance, devemos estender a mão.”

“A fragilidade humana constitui um sistema e os erros passados têm a sua teia infinita de resultados.” (de The Nice and the Good)

Um rápido resumo da emaranhada história, a “teia infinita de resultados”, relatada no romance: John Ducane, como pretendente sentimental de Kate Gray, mulher de Octavian (chefe do departamento governamental onde trabalha),  fica enleado pela peculiar existência dos Gray. Octavian e Kate não têm segredos um para o outro, e na cama fazem relatórios detalhados das conquistas, flertes e transas. A casa deles é abrigo para vários agregados: o refugiado estrangeiro, Willy; tio Theodore, Théo (inválido mais emocionalmente do que de outra forma, e com alguma história “vergonhosa” no seu passado na Índia); Mary Clothier, que ficou viúva e ali foi acolhida, com seu filho agora adolescente, Pierce; Paula Biranne, que se separou do marido mulherengo e abusivo, Richard (também funcionário do mesmo departamento governamental), com seus filhos gêmeos, Henrietta e Edward, ainda bem crianças, 9 anos, mas já criaturas excepcionais, quase “encantadas” (suas descobertas com relação ao mundo natural, e uma certa mitologia peculiar que vão construindo, fornecem uma «sombra» com relação às intrigas dos mais velhos[6]). Octavian e Kate têm uma filha, Barbara, que estuda na Suíça, mas vem passar as férias na propriedade na costa de Dorset, onde todos vivem, e agora muito frequentada por Ducane.

A narrativa começa justamente com a volta de Barbara e quando um dos funcionários subalternos do departamento, Radeechy, se suicida em pleno expediente, com um tiro[7]. Octavian encarrega Ducane de investigar o caso. Será um verão e tanto.

Quando Ducane (que, por causa de Kate, tenta se desembaraçar de uma amante masoquista e dramática, Jessica Bird) se enfronha no assunto Radeechy, descobre que o suicida utilizava dependências (os subterrâneos do prédio) do departamento para práticas sexuais eivadas de toques de magia negra e misticismo; descobre também que um subalterno ali do departamento, McGrath, pratica a arte da chantagem com desenvoltura (tentará exercitá-la inclusive com ele, ao descobrir sua ligação dupla, com Jessica e Kate, roubando sua correspondência); e que a sra. McGrath, que muito o atrai, se prostitui (inclusive com Richard Biranne). Em outro pólo, há a propriedade dos Gray em Dorset, e a magia da estação, além do caso de amor com Kate, “uma façanha civilizada da meia-idade”.

Ducane nos é apresentado como um homem correto, escrupuloso (além de facilmente manipulável, como sua relação com Kate deixa evidente), um tanto desprovido da imaginação moral que Iris Murdoch tão veementemente defende em A soberania do Bem.

Ele não havia dado certo como advogado porque era “incapaz de conceber qualquer ato de vilania”. Sua concepção de experiência é muito eivada pela perspectiva sadomasoquista: “Sentia uma pena infinita de si próprio por lhe ser negado o poder que advém do sofrimento e da dor. Gostaria de ter rezado então por si mesmo, chamando a si o sofrimento de todo o mundo” (em A soberania do Bem lemos que um dos principais inimigos da clareza de visão é o sadomasoquismo, a ênfase colocada no sofrimento no processo interno, pois “o sofrimento em si pode ter um papel demoníaco… e as ideias de culpa e punição podem ser a ferramenta mais sutil do eu engenhoso…”, um eu que fabrica ilusões e consolos e obstrui a realidade com véus[8]).

Um dos aspectos mais interessantes da leitura de The Nice and the Good é justamente a dinâmica que se estabelece entre Ducane e McGrath, o fato de que este último se torna (primeiro era uma testemunha, depois um participante das façanhas de Radeechy, depois uma ameaça) uma figura assaz “presente” na vida do escrupuloso Ducane, como se fosse um elemento desagregador, e sobretudo desmoralizador[9].

Talvez possamos ter uma boa noção da “correção” de Ducane, enquanto penetra o (sub)mundo um tanto quanto sórdido das conspirações do baixo escalão governamental (enquanto explora também o mundo aparentemente benigno e “encantado” do alto escalão, através da sua relação com os Gray[10]), por meio de uma pequena passagem: “Suportava a ideia de se separar de Jessica, mas não conseguia suportar a ideia de que ela pudesse pensar tão mal dele”.

De qualquer forma, Ducane, entre outras qualidades, é o homem que ajuda, é o ombro amigo. Não vou me estender em todas as proliferantes sub-intrigas de The Nice and the Good (a violenta obsessão de Pierce com Barbara, o temor de Paula com o retorno de um antigo amante que vive no estrangeiro, a atração de Théo por Pierce, por exemplo), mas—uma vez que ela terá uma presença definitiva na reta final da história—devo mencionar que Mary Clothier vive uma relação desesperada e eternamente inconclusa com Willy, o refugiado. No fundo, ambos sabem que essa expectativa (ou exasperação) sentimental não vai dar em nada, mesmo assim se iludem com a possibilidade de um futuro casamento. O detalhe importante, aqui, é que geralmente o confidente para os momentos de maior desamparo de Mary é justamente nosso amigo Ducane.

Como já disse, as narrativas murdochianas são coalhadas de elementos pré-realistas. Então, ninguém estranhará alusões a elementos simbólicos, tirados da natureza, como o canto do cuco, subterrâneos para a prática de magia negra, uma caverna do tesouro, objetos mágicos, ou aos quais o pensamento mágico fornece um teor encantatório (seixos), contrapostos a elementos estéticos (um quadro de Bronzino, em torno do qual está entretecido o casamento de Richard e Paula Biranne[11]).

Pierce, desesperado em seu desejo por Barbara (que o trata friamente, e ele se mostra então a encarnação do aborrecente nesse período de verão), tenta um ato extremo: a afamada gruta de um suposto tesouro, ali na costa de Dorset, é invadida, e mesmo coberta totalmente, pela maré em determinadas horas do dia, e ele decide se aventurar pelo seu interior, correndo grave perigo.

Se, nas suas investigações urbanas, Ducane se deixou levar num crescente descenso a subterrâneos, físicos e morais, que o deixaram desmoralizado e pejado de “incorreção” (por causa da chantagem, das cartas roubadas, do imbróglio vaudevillesco envolvendo suas relações com Jessica e Kate pois esta, apesar da sua desenvoltura—o que não implica na mínima deslealdade com o marido, como já observei—exige dele, Ducane, que seja o “melhor homem”, como aqueles personagens jamesianos que sempre são imbuídos dos mais altos valores e nem por isso deixam de incorrer em práticas duvidosas), isto é, uma experiência de fracasso (se tomarmos essa soma de experiências como “provas” que o herói tem de cumprir), agora ele—que já era uma figura meio paterna para Pierce, tendo uma ascendência sobre ele que nenhum outro adulto lograra—também mergulhará na caverna, espaço físico e iniciático, para salvar o filho de Mary.

É um longo capítulo em que acompanhamos exaustivamente quase que cada movimento dos dois, primeiro em separado, e depois, momento de maior risco de morte, quando estão juntos, totalmente perdidos no escuro, feridos e desamparados. A caverna acaba sendo a “prova” verdadeira, a quebra da teia de resultados dos erros, e permite a transformação da reta final da história: o desencantamento (no sentido das histórias populares) do casal central (o verdadeiro casal da fábula), Ducane e Mary, de seus auto-enganos, de forma que, antes confidentes (mas cada um mergulhado nas próprias preocupações), possam ver um ao outro (para além, claro, do heroísmo de Ducane em salvar o filho de Mary), e descobrir que, no fundo, se amavam.

A partir daí, Ducane—mesmo sem a segurança de ficar com Mary, pois afinal estamos numa intriga romanesca[12]–pode realmente ser um praticante do Bem, não apenas um homem correto (e, assim, ele ajudará a corrigir vários imbróglios semeados pelo relato, embora a solução nunca fique totalmente perfeita): “… faz parte da natureza do amor discernir o bem, e o melhor amor é em certa medida um amor do que é bom. Ducane estava muito consciente, e tinha estado sempre consciente, de que ele e Mary comunicavam com o que era bom em ambos”[13].

nice and good

3

Meu receio é de que, por chamar a atenção muito claramente dos liames entre as reflexões filosóficas de Iris Murdoch e a fábula de The Nice and the Good, eu tenha de certa forma diminuído o escopo do romance enquanto realização ficcional, obra de imaginação e construção narrativa.

Por essa razão, gostaria de voltar à caracterização de alguns de seus romances como “fábulas oblíquas”. O fato de vários personagens aludirem explicitamente, como mostram de sobejo as citações, às noções de Bem, Mal, Virtude, Correção etc, não quer dizer que a fábula seja unívoca. Há decerto um grande elemento catalisador: o fato de que as trevas convivem com a luz (subterrâneos X verão), e vemos que o livro contrasta esquemas dúbios e escorregadios de corrupção e auto-engano com processos, muitas vezes sutis, mas outras vezes  calcados em provas físicas (que simbolizam provas psicológicas) em que o protagonista tem de enxergar o mundo, os outros e principalmente o amor de sua vida.

Mas todo esse jogo adere de tal forma à variação dos pontos de vista na narrativa,  à matizada intriga, à mistura de mistério policial com vaudeville romântico, que se torna impossível separar a “moral” da fábula que a contém. E não posso deixar de frisar esse ponto, nem precisamos concordar até o fim com ela, com a “moral”, pois o que importa é que vemos seus agentes em cena, e são eles que nos interessam.

O que importa é que a lição é sempre a mesma, óbvia e inesgotável, enquanto não formos melhores do que somos: a literatura nos educa a imaginar e entender situações humanas. Eu acrescentaria que, nos maiores ficcionistas, essa peculiar forma de educação transporta-nos para um mundo fabular que parece uma parcela autônoma do universo.

Nota- Para nós, leitores brasileiros, e especialmente os admiradores de Osman Lins (e de seu Avalovara, 1973), há um charme extra em The Nice and The Good. Ao investigar as atividades místico-sexuais de Radeechy, Ducane se depara com um criptograma:

“Algo na parte central começava a parecer curiosamente familiar. Subitamente, Ducane viu o que era. A parte central do quadrado era formada pelas palavras latinas do antigo criptograma cristão.

R O T A S

O P E R A

T E N E T

A R E P O

S A T O R

   Esta elaborada amálgama pode ser lida para frente, para trás, ou na vertical, e consiste, com a adição de A e O (Alfa e Ômega), nas letras das duas primeiras palavras da Oração ao Senhor, alinhadas sob a forma de uma cruz:

A

P

A

T

E

R

APATERNOSTERO

O

S

T

E

R

O”

Em Avalovara são outras as consequências resultantes do palíndromo, sem essa extrapolação cristã. Na verdade, dele resulta a estrutura da obra inteira.

nice good


[1] Ela nasceu em 15 de julho 1919. Calhou ao destino fazer com que nascessem no mesmo ano as duas maiores autoras da língua inglesa da 2ª. metade do século XX, ela e Doris Lessing (cujo nascimento foi em 22 de outubro; faleceu em 2013).

[2] Que, em Portugal, ganhou o título de Os olhos da aranha, aproveitando um episódio absolutamente secundário do relato.

[3] Os outros são, respectivamente, de 1956, 1961 e 1963.

[4] Por isso, estamos longe do chamado romance «polifônico». O que torna o adjeto oblíquo adequado para esse tipo de fábula, é que muitas vezes o cerne do conflito é dissimulado em uma multiplicidade episódica.

[5] Para facilitar a vida de todo mundo, utilizarei nas citações o texto da tradução portuguesa (adaptando-o para o leitor brasileiro, quando me parecer necessário) de Cristina Correia, pela Publicações Europa-América (1998- que tem uma capa horrorosa), cujo título, Ser bom não basta, apesar de um certo torneio shakesperiano como frase, me parece inexato e induz a erro. Pelo contrário, é uma falsa ideia de ser bom, alimentada por John Ducane e confundida, num auto-engano lamentável, com  o aprazível, o agradável, o que não demanda muito esforço, que precisa ser desconstruída, para que ele possa de fato praticar o Bem, até contra seus próprios interesses

Quanto às citações de A soberania do Bem, utilizo a tradução de Julián Fuks (Editora Unesp, 2013).

[6] Quer dizer, temos aqui as «canções de inocência» contrapostas às «canções de experiência». Dos gêmeos, Ducane diz: «São os únicos seres humanos veradeiramente satisfatórios da nossa casa.»

[7] O primeiro parágrafo: “Um chefe de departamento, trabalhando sossegadamente na sua sala em Whitehall numa tarde de verão, não está habituado a ser incomodado pelo som próximo e indubitável do tiro de um revólver.”

[8] E há os fetiches sadomasoquistas também, como o chicote da  “depravada” sra. McGrath (e entre as duplicações ambíguas da narrativa, a inocente Barbara Gray também usa um chicote).

[9] Há outra figura ambígua na sua existência (e que, nos bastidores, justamente completará o trabalho de desmoralização e dissolução efetuado em primeiro plano por McGrath): Fivey, ex-presidiário que lhe serve de criado, um misto de mordomo, motorista, alcoviteiro, e cuja nacionalidade jamais conheceremos exatamente (ele é escocês para Ducane, mas irlandês para Kate Gray, gaulês-australiano com a sra. McGrath). Diga-se de passagem, é uma versão mais radical de um tipo de personagem que já aparece no primeiro romance de Iris Murdoch, Under the net: ali encontramos Finn, que mora com o narrador, Jake, e que tem talentos como abrir qualquer porta utilizando ganchos etc, e o qual, como Fivey, “desaparece” ao longo da narrativa.

Uma cena extraordinária entre Kate e Fivey também ajuda a nossa compreensão da irredutível volubilidade do comportamento dela.

[10] Mas quando pensamos nas atitudes da sra. McGrath com relação a Ducane e na de Kate Gray com relação a Fivey não vemos tanta diferença assim, no âmbito moral.

[11] “As figuras do topo do quadro são o Tempo e a Verdade, que afastam um véu negro para revelar o beijo que o Cupido dá na Mãe. A figura ondulante atrás do Cupido é o Ciúme. Atrás da ampla figura do Prazer, a sinistra jovem de rosto esmaltado com a cauda escamosa representa a Traição. Pela primeira vez, Paula reparou na estranheza das mãos da jovem, e depois percebeu que estavam invertidas, a mão direita no braço esquerda, a mão esquerda no braço direito. A Verdade contempla, o Tempo move-se…”

[12] E vemos como ecos de Jane Austen são muito fortes ainda na arte do romance inglês. Afinal, boa parte da arte austeniana é a de juntar, ao final, o casal “certo”, que não tinha consciência disso em boa parte da narrativa.

[13] Temos também essa reflexão do patético, mas de alguma forma lúcido, tio Theodore: “O importante é que nada interessa a não ser amar o que é bom. Não olhar para o mal e olhar para o bem. Apenas esta contemplação quebra a tirania do passado, quebra a aderência do demônio à personalidade, quebra, no fim, a própria personalidade. À luz do bem, o mal pode ser visto no seu lugar, não possuído, apenas existindo no seu lugar.”

Iris-Murdoch-collectioniris

08/11/2012

Leituras em Espelho: PROCURA DO ROMANCE, de Julián Fuks, e MAR AZUL, de Paloma Vidal

CINQUENTA TONS DE FÚKSIA

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 23 de outubro de 2012)

Não me preocupo em abrir as janelas e atinar com o mundo, porque não parece haver no mundo nada que possa me interessar”.

Procura do Romance foi anunciado como finalista das três premiações mais badaladas do Brasil: o prêmio São Paulo de Literatura, o Portugal-Telecom e o Jabuti. Deste último, fez-se agora a divulgação—que causou polêmica— dos resultados: um dos jurados deu notas baixíssimas, até mesmo zero, tanto para a consagrada Ana Maria Machado quanto para o livro de Julián Fuks, do qual foi retirada a citação acima, desclassificando-os do páreo1.

Nada sei dos motivos que levaram esse jurado a atitude tão radical, mas com relação à Procura do Romance, concordo com sua avaliação negativa: trata-se de um descalabro e uma desmoralização a inclusão de texto tão ruim em listas que deveriam ser mais criteriosas. Não fossem as panelinhas, os compadrios e apadrinhamentos, dificilmente se levaria a sério essa estreia no gênero de um autor que, nascido na Argentina, mas criado aqui, tinha deixado boa impressão com seu Histórias de Literatura e Cegueira (2007).

Com a maior cara de pau, Fuks anuncia para o leitor que acabou de inventar a roda, ou seja, a metalinguagem. A procura, nesse caso (já que não acontece nada no relato), é a procura do gênero literário: dado o diagnóstico-ladainha constante de que o romance morreu, é preciso resignar-se aos jogos em que a ficção se volta para si mesma. Assim, o livro pode ser tomado como o 50 tons de cinza da narrativa autorreferente, da chamada “literatura exigente”. Ou seriam 50 tons de fúksia?

Mas seria injusto dizer que Fuks procede como aqueles escritores que vão passar um mês em qualquer parte do mundo, ou uma temporada na, digamos, Mongólia, e fazem questão de mostrar nos livros que nascem da experiência (porque sempre há um livro no horizonte) que não vão falar do lugar, que vão ignorá-lo, e que ele é um palco como qualquer outro seria para o exercício da “literatura exigente”. Seu protagonista chegou a morar por alguns anos (à época da infância) num apartamento em Buenos Aires, para o qual volta, com o intuito de escrever um romance. Que poderia ser proustiano, pois há a lembrança das carências quando menino, beijos maternos,terrores infantis; que poderia ser cortazariano, pois há jogos sutis entretecidos entre o protagonista e uma moça desconhecida numa visita a uma exposição de Picasso; que poderia enveredar pelo fantástico do tipo kafkiano ou borgiano, com alguns elementos insólitos a quebrar a rotina cotidiana; que poderia ser joyceano ao realçar elementos outrora considerados irrelevantes do cotidiano; só que todas essas possíveis veredas já exploradas pela ficção romanesca são contrariadas, canceladas, truncadas. Procura-se o romance, não se chega a ele.

São 142 páginas nessa toada. É chocante ver como alguém caiu no ridículo de escrever essa besteira, aos 30 anos. Se tivesse 18, apesar de chatinho, seria mais justificado. A essa altura, parece uma empulhação piorada pelo fato de que escreve como se fosse má tradução de um original argentino. Nem nesse ponto ele foi feliz: poderia ter logrado uma experiência de junção de duas línguas, tal como fez Junot Díaz no ótimo A fantástica vida breve de Oscar Wao.

Seu protagonista não lê um livro apenas: “As retinas vão se maculando de todos aqueles incontáveis sinais gráficos” !!?? Deve ser aquela história da literatura e da cegueira.

Chove? não, é claro, caem “As gotículas do líquido natural derramado”!!?? Eu poderia continuar com trechos do mesmo naipe (numa livraria—onde mais?—ele sonha “situar seu inominado protagonista e entregá-lo a seu habitual solilóquio de devaneios meditados à exaustão, quiçá esse sujeito—se escritor—cogitando a possibilidade de situar seu respectivo protagonista nas mesmas condições e entregá-lo a outros—ou os mesmos—devaneios meditados à exaustão”), mas tenho muita consideração pelo meu leitor para martirizá-lo assim. Só peço permissão para transcrever o meu favorito: “Não, prossegue em seu caminho e se indaga em questionamentos erráticos, por que esse impulso de roubar para o texto o que é da vida, de converter em ficção o que a ficção não comporta, por que quer brindar seu personagem ou o personagem de seu personagem com essa manifestação patente de voluptuoso acaso quando poderia guardar para si e só para si essa volúpia…”

O narrador fuksiano não precisa se preocupar. Da vida, ele não roubou nada. Só o nosso tempo. A não ser que pensemos na premiação em dinheiro que ele ainda pode amealhar no Portugal Telecom. Se não houver um jurado sensato ali, como no Jabuti, será a abobrinha mais cara da história.

RESPOSTA AO TEMPO

resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de outubro de 2012

Assim como Julián Fuks, cujo Procura do Romance comentei na semana passada, Paloma Vidal é de origem argentina e veio para o Brasil na primeira infância. Ambos são ainda muito jovens (ela, nascida em 1975; ele, em 1981) e iniciaram suas carreiras publicando coletâneas de contos na prestigiosa Coleção Rocinante da editora 7 Letras (ela, A Duas Mãos; ele, Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e Eu).

As semelhanças param por aí. Enquanto Procura do Romance deixa a desejar, literária e humanisticamente, o segundo romance de Paloma, Mar Azul, é das melhores experiências do gênero nos últimos anos, e prova cabal (não bastasse o recente Suíte de silêncios, de Marília Arnaud) que o intimismo prossegue como veio forte na ficção, e o mais importante: não é incompatível com o rigor de linguagem. Estamos longe do prolixo e do excessivo que muitas vezes prejudicam uma literatura mais subjetiva, assim como estamos longe também da “morte do Sujeito” e da desconfiança com relação a experiências pessoais significativas que marcam certo mainstream geracional.

Uma narradora setuagenária, radicada no Rio de Janeiro (onde tem a visão do oceano, tão necessária para sua existência: “Falei de quando eu vi o mar pela primeira vez. Eu disse que nunca me esqueci disso. Eu acho que eu disse que foi a emoção mais forte que eu já senti.”), após emigrar da Argentina sob ditadura (sua melhor amiga, Vicky, tornou-se uma das “desaparecidas” do regime), numa longa viagem de ônibus durante a qual vivenciou uma fugaz e pungente história de amor (ela fugia igualmente de um relacionamento brutal e abusivo com o ex-estudante de um colégio militar, a quem denomina simplesmente R.), quase um rito de passagem, vasculha os cadernos do pai e no avesso do que ele deixou ali anotado, também escreve, naquela costumeira tentativa sherazadiana —presente em todos os contadores— de enfrentar o tempo, a mortalidade, os achaques da idade e os lampejos de uma memória torturada (como diz, a “propensão de não me livrar de nada”).

O pai meio que a abandonara na casa de Vicky, cuja mãe era “pra frente” (embora as duas mantivessem uma relação turbulenta e passional), como se dizia antigamente, e depois fora trabalhar na construção de Brasília, morrendo após um sombrio período em que perdera progressivamente a memória, numa das cidades-satélites, onde a protagonista descobrirá sua papelada, a qual no entanto persistirá um mistério tanto para ela como para nós.

A sua própria vida reveste-se de uma opacidade excruciante. Serão sempre fragmentos, um material miasmático, que às vezes ela tem coragem de enfrentar, às vezes não. Por isso (e em consequência das obras anteriores de Paloma Vidal), Mar Azul vem sendo examinado sob a rubrica da memória e da identidade.

Sem que esse ângulo de percepção do livro seja exatamente incorreto, creio que sua maior força (e é justamente por isso que o texto cresce a partir da sua metade; dos seus 50 capítulos —emoldurados por vários diálogos no início, e um no final—, é mais nos primeiros que encontramos uns quantos trechos rebarbativos e óbvios do tipo “O vácuo me deixou sensibilizada”, “As batalhas subjetivas não me vencem tão facilmente”, “Só o mar me acolhe do lado de fora. Será ele uma espécie de memória?”, que felizmente se diluem na qualidade geral do texto) reside na apreensão do cotidiano atual da narradora, os pequenos laços prático-afetivos que, em sua vida de professora aposentada, estabelece com porteiro e jornaleiro, suas idas e vindas aos consultórios de médicos do plano de saúde, sua necessidade de criar rotinas “positivas” (caminhar e nadar), tendo sempre o mar como uma espécie de amuleto, para não se deixar tragar pela melancolia dos cadernos que representam seu diálogo com o pai:“Espero que algo me diga: vá. Algo que não sou eu, que não é minha voz, talvez meus músculos, minha pele, meus órgãos. Algo que se mova sozinho. Algo que me faça dar o próximo passo. Quando penso isso já estou debaixo do chuveiro e a sensação da água sobre mim me diz que o dia vai ser bom.”

Desse presente que parecia tão tênue e fugidio, e depois vai se impondo, fazendo do passado um resíduo fuliginoso, apesar das suas tentações, é que Mar Azul tira a sua novidade, a sua mistura apaixonante de gravidade, de texto progressivamente lapidado e de experiência intimista formulada de forma a fazer com que o caos das experiências externas e internas ganhe uma voz narrativa carismática, com a qual Paloma Vidal se ombreia aos nomes mais expressivos da sua geração, como Ricardo Lísias, Daniel Galera e Michel Laub.

1A matéria em que me baseei para escrever minha resenha é a seguinte (depois os fatos ficaram melhor esclarecidos, devido aos desdobramentos do caso, e parece que foram os outros dois jurados que atribuíram nota baixa ao livro de Fuks, no entanto isso não interfere na abordagem central do texto):

Notas zero definem categoria romance no Jabuti

 

19 de outubro de 2012 | 9h 21

 MARIA FERNANDA RODRIGUES – Agência Estado

A nota de um dos três jurados do Prêmio Jabuti foi responsável pela definição do vencedor do melhor romance de 2011, Nihonjin, de Oscar Nakasato.

De identidade ainda desconhecida – seu nome só será divulgado na cerimônia em 28 de novembro -, o membro do júri distribuiu notas baixíssimas para concorrentes como Julián Fuks, que foi finalista do São Paulo de Literatura e está no páreo pelo Portugal Telecom, e Wilson Bueno, prêmio APCA de romance em 2011 por Mano, a Noite Está Velha.

Autora de mais de uma centena de livros e presidente da Academia Brasileira de Letras, a escritora carioca Ana Maria Machado, por exemplo, recebeu zero em dois critérios: construção de personagem e enredo.

Dar um zero a uma autora já consagrada é pesado e exagerado, mas é um direito do jurado. As regras deste ano abriram margem para que uma nota tivesse peso decisivo e o jurado percebeu a influência da matemática”, disse José Luiz Goldfarb, curador do tradicional prêmio.

Neste ano, os membros do júri puderam dar de 0 a 10 às obras concorrentes. Antes, a pontuação ia de 8 a 10 e era possível usar notas decimais, o que tornava a disputa mais equilibrada. Para a próxima edição, Goldfarb já pensa em mudanças – deve eliminar a nota mais baixa e incluir uma quarta pessoa na comissão formada, no caso da categoria romance, por jornalistas e críticos literários.

“Agora, não há o que fazer, porque o regulamento é claro e seu voto deve ser respeitado.” Segundo o curador, o tal jurado já participou de outras edições do prêmio.

Em 2010, Nakasato, então professor de literatura do ensino médio em Apucarana (PR), tirou o romance Nihonjin da gaveta e o inscreveu no 1.º Prêmio Benvirá. Era seu primeirooriginal. O júri, composto por José Luiz Goldfarb, Nelson de Oliveira e Ana Maria Martins, escolheu a obra por unanimidade e, como prêmio, o professor ganhou R$ 30 mil. O livro, sobre a imigração japonesa, foi editado pela Benvirá, da Saraiva, em 2011. Ontem, Nihonjin desbancou obras como Infâmia, de Ana Maria Machado. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

23/09/2012

Cinquenta tons de fúksia

 “Se não é capaz de escrever um romance, que não o escreva…”

  Se o título Procura do romance fosse de Nora Roberts, ou nos vários tons a percorrer o espectro do rosa ao cinza, de suas similares, a heroína procuraria o romance amoroso, o final feliz.

Há uma outra forma de imaturidade  fetichista da qual Procura do romance parece ser o epítome: enquanto há mocinhas e mulheres maduras que anelam pelo amor verdadeiro, há homens, mais jovens ou mais maduros, cujo gozo é a metalinguagem, a ficção autorreferente (que encontra  bastante eco nos prêmios literários, assim como a literatura à Nora Roberts encontra sua realização na lista dos mais vendidos; o mercado divide bem a esfera dos desejos, e só  nós, que queremos ser “leitores de verdade, autênticos” somos bobos, no final das contas).

A procura de romance, nesse caso, é a procura do gênero literário: dado o diagnóstico-ladainha constante de que o romance morreu, é preciso resignar-se aos jogos intertextuais, na esfera do que se denominou recentemente de “literatura exigente”, aquela que pressupõe um Sujeito moribundo, um foco narrativo (des)enraizado na desconfiança, fazendo tabula rasa do psicológico, do biográfico, da “realidade”.

Assim, o livro de Julián Fuks pode ser tomado como o 50 tons de cinza (se não for, seguindo a sugestão genial de Diogo Ávares, 50 tons de fúcsia) da metanarrativa. Como brincou uma amiga minha, quando lhe enviei trechos, dos quais rimos muito, ele é um típico exemplar dos “escritores-promissores-contemporâneos-urbanos-globalizados-deslocalizados-umbiguistas-autoficcionistas-grantistas”, ufa!

Mas seria injusto dizer que Fuks em seu livro procede como aqueles escritores que vão passar um mês em qualquer lugar do mundo, ou uma temporada na, digamos, Mongólia, e fazem questão de mostrar em seus livros  (pois há sempre livros, mesmo com o  gênero moribundo, porque afinal há prêmios e bolsas) que não vão falar do lugar, que vão ignorá-lo, e que ele é um palco como qualquer outro seria para o exercício da linguagem.

No caso de Procura do romance o Espaço é bem circunscrito: seu protagonista, embora brasileiro, é filho de argentinos, e até chegou a morar por alguns anos (à época da infância) num apartamento em Buenos Aires, para o qual volta, com o intuito de escrever um romance, embora seja um “homem neutro” e não haja assunto para tal empreendimento: q ue poderia ser proustiano, pois há a lembrança das carências quando menino, beijos maternos,  terrores infantis; que poderia ser cortazariano, pois há jogos sutis entretecidos entre o protagonista e uma moça desconhecida numa visita a uma exposição de Picasso; que poderia enveredar pelo fantástico do tipo kafkiano e borgiano, com alguns elementos insólitos a quebrar a rotina; que poderia ser joyceano ou woolfiano ao dar relevância a elementos outrora considerado irrrelevantes do cotidiano; só que todas essas possíveis veredas já magnificamente exploradas pela ficção romanesca no seu auge modernista são contrariadas, canceladas, truncadas. Procura-se o romance, não se chega a ele. Retomando a citação que abre este meu fúcsio comentário:

“Se não é capaz de escrever um romance, que não o escreva, mas que ao menos guarde consigo a evidência do seu empenho [permitam-me: !!!!????}, o montante de sua contribuição ao mundo das letras, sua espera fixada no tempo, sua promessa em perpétuo adiamento, seu livro por vir, se ainda lhe vale a soberba.

E com sua mirrada resma alinhada às pressas e apertada junto às costelas, parte o homem sem mais delongas até a porta da frente…”  E mais adiante: “…engole a própria náusea, assume a angústia e compreende que as paredes que o circundam serão para sempre o cenário autêntico não de uma perda, mas de uma derrota, ingente e desprezível a um só tempo, eloquente e indizível a um só tempo, uma derrota que, se não o justifica ante os outros, ao menos o devolve aos limites de si mesmo…”  Creio que, no fundo, lá no fundinho, tais  “limites” são ilimitados e ilimitáveis.

São 142 páginas nessa toada. É chocante constatar que Fuks caiu no ridículo de escrever tal besteira beirando os 30 anos. Se ele tivesse 18, apesar de chatinho, seria mais justificado. Aos 30 anos, parece uma empulhação tamanha que me dá preguiça até de percorrer seus 16 capítulos, como  faço habitualmente para o meu leitor ter uma ideia clara da obra que estou comentando.

Fuks escreve com um traquejo que se assemelha àtradução ruim de um original argentino. Nem isso ele conseguiu: poderia ser uma experiência legítima de linguagem, a  junção de duas línguas, tal como fez Junot Díaz no ótimo A breve e maravilhosa vida de Oscar Wao. Infelizmente, parece que basta procurar o romance, não se precisa encontrá-lo.

Vou me limitar a transcrever alguns trechos “preciosos ridículos”, que fizeram a festa para mim e alguns amigos, que os saboreamos muito,  variando do presunçoso ao mais-que-batido ou à reinvenção da roda made in “literatura exigente”:

Vejam, seu protagonista não lê um livro apenas: “AS RETINAS VÃO SE MACULANDO DE TODOS AQUELES INCONTÁVEIS SINAIS GRÁFICOS    (deve ser aquela coisa toda de “literatura e cegueira”).                   ;

Chove? não, é claro, caem ‘AS GOTÍCULAS DO LÍQUIDO NATURAL DESPEJADO .

“NÃO ME PREOCUPO EM ABRIR AS JANELAS E ATINAR COM O MUNDO, PORQUE NÃO PARECE HAVER NO MUNDO NADA QUE POSSA ME INTERESSAR

E ainda o acusaram de ser:   “UM SUJEITO AUTO-CENTRADO, UM EGÓLATRA“!!!???

E numa livraria (onde mais?) ele sonha: “SITUAR SEU INOMINADO PROTAGONISTA E ENTREGÁ-LO A SEU HABITUAL SOLILÓQUI DE DEVANEIOS MEDITADOS À EXAUSTÃO, QUIÇÁ ESSE SUJEITO–SE ESCRITOR– COGITANDO A POSSIBILIDADE DE SITUAR SEU RESPECTIVO PROTAGONISTA NAS MESMAS CONDIÇÕES E ENTREGÁ-LO A OUTROS–OU OS MESMOS–DEVANEIOS MEDITADOS À EXAUSTÃO”

Num ônibus, trocando frases com outros passageiros: “… embora tenha julgado que naquele torvelinho de amenidades e frases feitas devia se esconder um sem-número de verdades mundanas de indubitável valor para aqueles que se propõem a abarcar o mundo em suas histórias, e tenha lamentado sua própria incapacidade de prestar atenção nelas por mais de alguns mesquinhos segundos…”

 “Mas, novo mal que se anuncia, terá também passado a era de matizar abatimentos, terá sido a melancolia sucedida por uma prostração irredimível? E, se assim for, caberá a escritor e artista dar conta exclusiva do vazio, fazer da tinta que macula a tela gotículas ínfimas de vácuo?”

“Não pode, não poderia [ mas deveria, se tivesse simancol] , não seria de seu feitio arremeter o corpo contra a janela obstrutiva, estilhaçando vidro e pele e ossos na malograda tentativa de atravessar o espaço intransponível—de vidas e narrativas trágicas já parecemos exauridos…” …”

“…e agora Sebastián caminha pela antiga calle Serrano, agora Jorge Luis Borges, já bastante distanciado do lugar que estipulou consigo mesmo chamar de seu apartamento ou sua casa, não sem consciência mas ao menos esquecido, abstraído ou desatento ao fato de que é Sebastián e de que caminha pela calle Borges já bastante distanciado do lugar que estipulou chamar de casa…”

“Sente-se bem, e esse sentir-se bem, pensa, parece não se concentrar na região do encéfalo, parece não se constituir de meras sinapses entre os neurônios superiores desligados das demais células, pelo contrário, pensa sem tentar fraguar um discurso claro ou encontrar as palavras certas, sentir-se bem é algo que se irradia espinha abaixo entre as vértebras e pelos tramos do sistema nervoso, algo que se expande da medula aos demais órgãos e acaba por lhes conferir uma inesperada unidade, a unidade de seu ser, um ser que por complexos trâmites internos caminha em ritmo constante sem dar a ver as mil engrenagens necessárias ao processo, revelando-se tão somente em sua superfície de ser e com sua superfície elidindo sua natureza infinitamente fragmentária…”

 

O meu trecho favorito: “Não, prossegue em seu caminho e se indaga em questionamentos erráticos, por que esse impulso de roubar para o texto o que é da vida, de converter em ficção o que a ficção não comporta, por que quer brindar seu personagem ou o personagem de seu personagem com essa manifestação patente de voluptuoso acaso quando poderia guardar para si e só para si essa volúpia…”

O narrador fuksiano não precisa se preocupar. Da vida, no seu texto, ele não tirou nada. Só o nosso tempo. A não ser que pensemos nas 200  mil pilas que ele pode amealhar com essa abobrinha no dia 24 de setembro, caso venha a ganhar o Prêmio São Paulo de literatura 2012. Será a abobrinha mais cara da história. Quem disse que a “literatura exigente” não pode ser um bom investimento?

(escrito para o blog em setembro de 2012)

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