MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/11/2013

CAMUS EM VIAGEM (primeira parte): na América do Norte

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                         Para José Luiz Passos

“Aos 30 anos, um homem deveria ter-se nas mãos, saber a conta exata de seus defeitos e de suas qualidades, conhecer seu limite, prever seu enfraquecimento—ser o que ele é. E, acima de tudo, aceitá-los. Estamos entrando no positivo: tudo a fazer e tudo a renunciar. Instalar-se na naturalidade, mas com sua máscara. Experimentei coisas suficientes para poder renunciar a quase tudo. Resta um esforço prodigioso, cotidiano, obstinado. O esforço do secreto, sem esperança, sem amargura. Nada mais negar já que tudo se pode afirmar.” (Albert Camus, Cadernos, 30 de julho de 1945).

“Vamos ver a Bowery juntos. Almoço com Rube e J. de Lannux, que, em seguida, nos leva para um passeio de carro em Nova York. Belo céu azul, que me obriga a pensar que estamos na latitude de Lisboa, o que tenho dificuldade em imaginar. No ritmo do trânsito, os arranha-céus dourados giram e tornam a girar no azul acima de nossas cabeças. É um bom momento.” (Albert Camus, trecho de Diário de Viagem, 1946)

Poucos meses da anotação em epígrafe, Albert Camus (1913-1960) foi convidado a viajar para Nova Yorkpela editora Albert A. Knopf (ele faria conferências, trataria das traduções de seus livros e representaria a Gallimard numa ação judicial envolvendo os direitos de obras de Saint-Exupéry). Essa viagem está registrada na primeira parte de DIÁRIO DE VIAGEM (a segunda parte narra outra viagem, em 1949, à América do Sul, especialmente ao Brasil)[1].

Ele embarca em março de 1946. Tem 32 anos. Esse homem de 30 anos (e que já refletiu muito, como vimos, a respeito  de ter 30 anos) trazia, atrás de si, aquelas obras que, décadas depois, ainda seriam a parte fundamental do seu prestígio universal: o romance O estrangeiro, o ensaio O mito de Sísifo, a peça Calígula[2].E também havia o lado heroico, o do sujeito que participara da Resistência, que fundara o jornal Combat e escrevia editoriais apaixonantes[3]. Tinha-se, então, uma figura-síntese de herói, jornalista (ou seja, colado aos debates da hora), pensador, escritor de apurado estilo. Aos 32 anos. Como dirá depois um ressentido (e ciumento) Jean-Paul Sartre, na sua carta-rompimento por ocasião da polêmica suscitada pelo surgimento de O homem revoltado: no após-guerra, Camus era a síntese de um homem, de uma obra, de uma ação:

“Você foi para nós—e amanhã poderá sê-lo ainda—a admirável conjunção de uma pessoa, de uma ação, de uma obra. Era em 1945: descobríamos Camus, o resistente, como tínhamos descoberto Camus, o autor de L´étranger. E quando nós censurávamos o redator do Combat clandestino por esse Meursault que levava a sua honestidade ao ponto de se recusar a dizer que amava a sua mãe e a sua amante, e que a nossa sociedade condenava à morte, quando se sabia, sobretudo, que você não tinha nunca deixado de ser nem um nem outro, essa aparente contradição fazia-nos progredir no conhecimento de nós mesmos e do mundo, e você não estava longe de ser exemplar ”.

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Mas naquela altura a síntese já se esfacelara e o herói quase tinha virado um vilão, ou um “inocente útil”. Em 1946, ainda havia a “aura” Camus, prestes a se espalhar pelo mundo.

De forma característica, o portador dessa aura não se deterá muito nos eventos que justamente delinearão seu prestígio, e nem as ideias e concepções (literárias, existenciais, políticas) pregadas —o termo decerto não é exagerado—por ele no solo norte-americano. Também não saberemos nada, no âmbito do decoroso diário de viagem pelos EUA (e Canadá), do romance que manteve com uma moça de 20 anos, Patricia Blake. Tudo o que lemos ali é o que emerge, como que a contragosto, com o seu quê de resignação do Sísifo que se atrelou à tarefa de escrever, do “esforço do secreto” (“sem esperança e sem amargura”).

O primeiro ponto: a saúde. Sequelas da quase-miséria da infância, a tuberculose e uma constituição frágil. Como ele escreverá para uma amiga: “Às vezes penso na saúde como um grande país cheio de sol e de cigarras, que perdi sem ter culpa. E, quando anelo por esse país e pela felicidade que ele me traria, recupero-me no trabalho”.

Ao longo da travessia pelo Atlântico, esse ponto se fará presente: “Desperto com febre e uma vaga angina”; “Dia horrível, com o frio da gripe”. Nem por isso, ele deixa de se  recuperar no trabalho, além de ler de Guerra e Paz.

Com relação aos comparsas de viagem (“Esta sociedade em miniatura é ao mesmo tempo apaixonante e monótona. Todos se pretendem elegantes e requintados. É o lado cachorrinho amestrado”), notamos aquele gosto pelo  anedotário “exemplar”, que mesmo o viajante do absurdo, o estrangeiro por excelência, nunca desdenhou, como o “caso de Lorette”:

“Conta-nos que a sogra, que não a conhece, envia-lhe as cartas mais amáveis, e que, na América, as sogras parecem ser de qualidade inteiramente superior. O noivo é muito devoto, não bebe nem fuma. Pediu-lhe que se confessasse antes de partir. Na manhã do embarque (nos dias anteriores, esteve ocupada com diversas providências), levantou-se às seis para ir à igreja, mas estava fechada, e o trem partia cedo. Então vai confessar-se lá, e, diz ela com seu ligeiro sotaque parisiense (aliás, articula muito mal e rapidamente, e precisamos inclinar a cabeça para entender o que diz):

__ Acho melhor assim, porque o de lá não vai compreender bem o que vou dizer e dessa forma me dará a absolvição.

     Nós lhe explicamos que sempre se dá a absolvição nesses casos.

__ Mesmo para os pecados mortais?”

O segundo ponto: a apreensão do absurdo e a sua expressão. Neste sentido,  há uma passagem significativa e linda:

“À noite, depois do jantar, como devemos passar ao largo dos Açores, vou para o convés, e num canto, ao abrigo do vento que sopra desde a partida, posso usufruir de uma noite pura, com estrelas raras, porém muito grandes, que deslizam acima da nave com o mesmo movimento retilíneo. Uma lua miúda põe no céu uma luz sem brilho, que ilumina a água turbulenta com reflexo uniforme. Mais uma vez, como faço há anos, olho os desenhos que a espuma e a esteira do navio fazem na superfície das águas, essa renda, feita e desfeita, esse mármore líquido… e mais uma vez busco a comparação exata que fixará um pouco para mim essa maravilhosa eclosão de mar, de água e de luz, que me escapa há tanto tempo. Ainda em vão. Para mim, é um símbolo que continua.”[4]

Na baía de Hudson, entretanto:

“Ao longe, os arranha-céus de Manhattan sobre um fundo de bruma. Sinto o coração tranquilo e seco, como quando me vejo diante de espetáculos que não me comovem”.

De certa forma, infinitesimalmente matizada, claro, essa será a disposição camusiana com relação à América do Norte. O coração seco, porém, não ficará tranquilo. Ele não conseguirá penetrar no coração daquela terra, daquelas cidades, admitirá que não consegue compreender muito bem a América, e que dela só poderia fazer um “retrato” (se for possível utilizar o termo nesse contexto) que Kafka fez dela em O desaparecido, e isso o inquietará: “Volto a pé pela Broadway, perdido na multidão e entre os enormes anúncios luminosos. Sim, há um trágico americano. É o que me oprime desde que estou aqui, MAS NÃO SEI AINDA DE QUE É FEITO”. A esta altura, é bom lembrar que Camus é um contumaz leitor da ficção norte-americana e escreveu (e escreverá) coisas extremamente perspicazes a seu respeito.

Por isso, imagino perfeitamente seu desassossego em não saber do que uma América que lhe falaria diretamente ao coração é feita.  Contudo, voltamos ainda ao ponto da saúde. Em Nova York, as anotações de mal estar persistem: “Despertar com febre. Incapaz de sair antes do meio-dia”.[5] O DIÁRIO DE VIAGEM como um todo oferece ao leitor lampejos da depressão e dos pensamentos de suicídio que são o lado mais sombrio dos “esforços do secreto” em seu sorrateiro movimento nos bastidores da persona pública de Camus. Creio que, em viagem, em terra que fosse estranha “de fato”, tal lado emergia com força maior, e que só os compromissos, a obrigação da persona, é que neutralizaram seus apelos. E momentos como o da seguinte passagem:

“Passeio com Chiaromonte e Abel a Staten Island. Na volta, no baixo Manhattan, imensas escavações geológicas entre os arranha-céus muito próximos uns dos outros, onde caminhamos dominados por um sentimento pré-histórico. Jantamos em Chinatown. E pela primeira vez respiro num lugar onde reencontro a verdadeira vida que amo, pululante e descomedida.”[6].

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Em Bowery, aliás, uma daquelas fórmulas camusianas precisas: “A miséria—e um europeu tem vontade dizer: Enfim, o concreto.” E, mais ainda, o leitor compreende por que o DIÁRIO DE VIAGEM de Camus destoa do figurino das “impressões de viagem” aos montes que existem, e que estamos diante da formação de paisagens interiores mais do que da descrição (embora esta não esteja excluída) de lugares. Ele nos fala das velhas cantoras em fim de carreira, mulheres enormes, que sapateiam, “fazendo saltar os pedaços de carne disforme que as recobrem”; e quanto mais feias e disformes, maior o sucesso: “É preciso ser ou muito bonito ou muito feio. Instrutivo. Há uma mediocridade até mesmo na feiura.”

Nesse sentido, outro trecho se reveste de um significado simbólico e, a meu ver, muito belo: o da ida ao teatro chinês em Chinatown, com 1.500 espectadores chineses “que comem amendoim, batem papo, entram, saem e acompanham o espetáculo com uma distração um pouco fixa. As crianças correm elo meio da sala”:

“Quanto à peça, sendo o programa em chinês, tentei inventar o tema. Mas desconfio que só comenti contrassensos. Isto porque, no momento em que um homem bom morre no palco da forma mais realista, em meio a lamentações da viúva e dos amigos, e eu me sinto muito sério, o público ri. E à entrada cômica de uma espécie de magistrado com voz de matraca, sou o único a rir, quando toda a plateia assume um certo ar de atenção respeitosa…”

No entanto, a essa altura, o coração (que já estava seco na baía do Hudson, e que, mesmo desassossegado, não conseguiu responder aos apelos norte-americanos) “deixa de falar”: “Minha curiosidade por este país pareou de repente. Como certos seres dos quais eu me afasto sem explicação e sem mais interesse”[7].

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O interessante é que, imediatamente antes dessa anotação, há uma outra, que sem dúvida está ligada à escrita difícil de mais uma versão de A Peste (publicado no ano seguinte à viagem), mas que certamente já parece uma “abertura” para o que se tornará O homem revoltado (uma constelação à qual também pertencem as peças Estado de sítio e Os justos): “Quem tem razão é quem nunca matou. Portanto, não pode ser Deus.”

Pois indo logo a seguir para o Canadá, Camus anota no “grande país calmo e lento”:

“Refazer e recriar a reflexão grega como uma revolta contra o sagrado. Não a revolta contra o sagrado do romântico—ela mesma uma forma do sagrado—mas a revolta que devolta o sagrado a seu lugar próprio.

    A ideia do messianismo como base de todos os fanatismos. O messianismo contra o homem. A reflexão grega não é histórica. Os valores são preexistentes. Contra o existencialismo moderno.”

   Aí já estamos no umbral de outra “aura” de Camus, às vésperas de outra idade (os 40 anos) e certamente muito menos gloriosa nos limites do biográfico e da sua reputação imediata. O homem que condena a revolução por amar “uma humanidade que ainda não existe”, sabe que “ainda que abraçasse todos os seres do mundo, não estaria protegido contra nada”.

Com esses acordes que hoje nos parecem proféticos,  mesmo que pareçam tão contraditórios no escritor de crescente prestígio internacional que, na caracterização sartriana já mencionada, representava naquela época a junção do homem, da obra, da ação, não é de espantar que—na travessia da volta—ele anote:

“(…) o desejo tumultuado que se apodera de mim no sentido de redescobrir o coração impaciente que eu tinha aos 20 anos. Mas eu conheço o remédio, vou olhar para o mar durante muito tempo.

     Tristeza por me sentir ainda tão vulnerável. Daqui a 25 anos, terei 57. Portanto, 25 anos para fazer minha obra e encontrar o que procuro. Depois, a velhice e a morte. Sei qual é o mais importante para mim. E encontro, ainda, meio de ceder às pequenas tentações, de perder tempo em conversas vãs ou passeios estéreis. Dominei  duas ou três coisas em mim. Mas como estou longe dessa superioridade que tanto necessito (…) Sempre estive dilacerado entre meu apetite pelos seres, a vaidade da agitação e o desejo de me tornar igual a esses mares de esquecimento, a esses silêncios desmedidos, que são como o encantamento da morte. Tenho o gosto das vaidades do mundo, dos meus semelhantes,  dos rostos, mas, fora do meu tempo, tenho uma regra própria, que é o mar e tudo que se lhe assemelha neste mundo.”

Não haverá velhice, não haverá comemoração de 57 anos. Mas haverá, tantas décadas depois, quem se debruce apaixonadamente sobre as anotações desse homem de 32 anos, mesmo considerando enfatuada sua necessidade de “superioridade”, e achando que a ideia de “perder tempo” é estranha a Sísifo e à condição humana. E, lendo palavras caladas no “esforço do secreto” lembrará de outras, igualmente arrepiantes e ainda mais lapidares:

“Mais c´est encore l´absurde et sa vie contradictoire qui nous enseigne. Car l´erreur est de penser que cette quantité d´expérience dépend des circonstances de notre vie quand elle dépend que de nous. Il faut ici être simpliste. A deux hommes vivant le même nombre d´années, le monde fournit toujors la même some d´expériences. C´est à nous d´en être conscients. Sentir sa vie, sa revolte, sa liberte, et le plus possible, c´est vivre et le plus possible. Là ou la lucidité règne, l´échellen des valeurs devient inutile. Soyons encore  plus simplistes. Disons que le seus obstacle, le Seul manque à gagner est constitué par la mort prematurée. L´univers suggeré ici ne vit  que par opposition à cette constante exception qu´est la mort. C´est ainsi qu´aucune profondeur, aucune émotion, aucune passion et aucun sacrifice ne pourraient rendre égales aux yeux de l´homme absurd (même s´il le souhaitait) une vie consciente de quarante ans et une lucidité  étendue sur soixante ans. La folie et la mort, ce sont sés irrémédiables. L´homme  ne choisit pas. L´absurde et le surcroit de vie qu´il comporte  ne dependent donc pas de la volonté de l´homme mais de son contraire  qui est la mort. En pesant bien les mots, il s´agit uniquement d´une question de chance. Il faut savoir y consenter. Vingt ans de vie et d´experiences ne se remplaceront plus jamais.” (Le Mythe de Sisyphe)[8]

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[1] O texto das duas partes do Diário foi publicado postumamente, em 1978. Utilizo a tradução brasileira, de Valerie Rumjanek (na 4ª. edição, pela Record, 1997), às vezes com algumas modificações.

Cabe ressaltar, aqui, que ao contrário dos constrangedores refugos que emergem da apropriação de manuscritos não-publicados pelo autor em vida, a parte “póstuma” do legado camusiano é fascinante: dois romances que nenhum apaixonado pelo autor gostaria de não conhecer (A morte feliz; O primeiro homem), os cadernos, essas anotações de viagem…

[2] Houve outra (O mal entendido), encenada com menor repercussão. Antes de chegar à França, em 1940, ele já publicara dois livros: O avesso e o direito (1937) e Noces (1939), já traduzido como Bodas em Tipasa e como Núpcias.

[3] Na seu tijolaço biográfico sobre Camus, Olivier Todd comenta: “O Combat consagra a autoridade moral daquele Camus feliz como num palco de teatro ou num campo de futebol” (Albert Camus- Uma /Vida, que cito na tradução de Monica Stahel, publicada pela Record em 1998).

[4] Em O mito de Sísifo, sobre a “criação absurda”:

“Trabalhar é criar ´para nada´, esculpir com barro, saber que sua criação não tem futuro, ver sua obra destruída em um dia, consciente de que, em profundidade, isso não tem mais importância do que edificar para séculos —eis a difícil sabedoria que o pensamento absurdo preconiza.  Levar adiante simultaneamente essas duas tarefas, negar de um lado e exaltar do outro, é a trilha que se abre para o criador absurdo. Ele tem de lançar suas cores no vazio.”

[5] Não posso deixar de anotar que as preocupações características de Camus (e se pensarmos na junção viagem-no sentido de conhecer um país/doença/construção da figura pública de escritor) se reveste de uma aura de humor: “Uma das formas de conhecer um país é saber como se morre nele. Aqui, tudo está previsto. You die and we do the rest, dizem os anúncios publicitários. Os cemitérios são propriedade privada: Apresse-se para guardar o seu lugar.”  Com relação ao “mau gosto” norte-americano, o lado janota se manifesta inequivocamente: “Quanto às lojas de gravatas, é preciso ver para crer. Um mau gosto inimaginável”.

   Também curioso é que, mestre de fórmulas, Camus tem desconfiança dos chavões: “D.  me garante que os americanos não gostam das ideias. É o que se diz. Mas tenho minhas dúvidas”.

[6] Por falar em vida verdadeira, pululante e descomedida, há a visita à “boate de negros”: “Rocco, o pianista negro mais formidável que já ouvi em anos. Toca de pé, diante de um piano sobre rodas que ele vai empurrando. O ritmo, a força, a precisão desse modo de tocar, e ele, que participa, que pula, dança, joga a cabeça e os cabelos para a direita e para a esquerda.

    Impressão de que só os negros dão a vida, a paixão e a nostalgia neste país que eles colonizam à sua maneira”. Em Camus, a alegria, a paixão, enfim a vida, nunca está muito longe de uma “nostalgia”, justamente o fiel da balança do sentimento do absurdo, do divórcio entre os esforços humanos e um universo basicamente indiferente.

Num encontro com estudantes: “Não sentem o verdadeiro problema, mas sua nostalgia é evidente. Neste país em que se usa tudo para provar que a vida não é trágica, eles temo sentimento de falta. Esse grande esforço é patético, mas é preciso rejeitar o trágico depois de tê-lo visto, não antes”.

[7] E a imagem final de Nova York parece ser kafkiana, para o leitor de DIÁRIO DE VIAGEM:

“Impressão de ter caído na armadilha desta cidade e que eu poderia libertar-me dos blocos de cimento que me cercam e correr durante horas sem nada encontrar senão novas prisões de cimento, sem a esperança de uma colina, de uma árvore verdadeira ou de um rosto transtornado.” O rosto transtornado, porventura, seria o de Patricia Blake?

[8] “Mas o absurdo e sua vida contraditória também aqui nos ensinam. Porque o erro é pensar que essa quantidade de experiências depende das circunstâncias da nossa vida, quando ela só depende de nós. Aqui, é necessário ser simplista. A dois homens que vivem o mesmo número de anos, o mundo proporciona sempre a mesma soma de experiências. Cumpre a nós estarmos conscientes disso. Sentir a sua vida, a sua revolta, a sua liberdade, é viver, e o máximo possível. Aí onde reina a lucidez, a escala dos valores se torna inútil. Sejamos ainda mais simplistas. Digamos que o único obstáculo, a única falta a ganhar  é constituída pela morte prematura. O universo aqui sugerido só vive por oposição a essa constante exceção que é a morte. É assim que nenhuma profundeza, nenhuma emoção, nenhuma paixão e nenhum sacrifício poderiam igualar aos olhos do homem absurdo (mesmo que ele o desejasse) uma vida consciente de quarenta anos e uma lucidez que se estendesse por sessenta anos. A loucura e a morte são irremediáveis. O homem não as escolhe. O absurdo e o acréscimo de vida que ele comporta não dependem da vontade do homem, mas de seu contrário que é a morte. Pesando bem as palavras, trata-se unicamente de uma questão de sorte. É preciso saber e consentir.Vinte de anos de vida e de experiências jamais se substituirão”. Não consegui imaginar um substituto para “falta a ganhar”, e tenho consciência do insatisfatório dessa solução. Na sua tradução, Ari Roitman & Paulina Wacht utilizam “lucro cessante”, mas também não me parece uma solução feliz.

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