MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/05/2012

DEZ DESTAQUES DE 2009

Pessoalmente, sempre acho meio ridículo fazer lista de melhores. O mercado editorial é um oceano e uma pessoa só consegue, no máximo, indicar gotas desse oceano (a metáfora não é muito rica, porém é bem exata). De tudo o que li em 2009, proponho dez destaques, levando em conta o ineditismo dos livros, apesar de 2009 ter sido um ano pródigo em novas traduções: por exemplo, surgiram versões novas de Cem anos de solidão, O  inominável,  Fundação, Zazie no metrô, O turista acidental , Alice no país das maravilhas, e um vasto etc.

Outro destaque à parte foram os livros relacionados ao Evolucionismo  e certamente, nesse quesito, além do seu brilhantismo próprio, Richard Dawkins foi o campeão, com A grande história da evolução & O maior espetáculo da terra (este último, nem comprei ainda…).

Após esse preâmbulo, passo à minha lista de destaques (outros livros vêm à minha mente, mas quero me ater a esse número   redondo):

10)  Após o anoitecer, de Haruki Murakami (Alfaguara)- belo romance japonês que nos mergulha nas cambiâncias da “modernidade líquida” (como Zygmunt Bauman caracterizou nossa época) que não pouparam nem o mundo oriental.

9) Suicídios exemplares, de Enrique Vila-Matas (CosacNaify)- deliciosa e provocante coletânea de histórias cuja temática já e indicada pelo título., grande momento do autor espanhol. Espere mais ironia que drama, leitor..

8) Buscas curiosas, de Margaret Atwood (Rocco)- A grande escritora canadense reuniu textos onde comenta outros escritores, a feitura de alguns de seus livros e circunstâncias biográficas. O resultado é tão apaixonante quante sua própria ficção.

7) Leite derramado, de Chico Buarque (Companhia das Letras)- O melhor, mais inspirado, romance de Chico até agora, e simplesmente um texto primoroso, de primeira. Um século transcorre diante dos nossos olhos com uma insustentável leveza de estilo, e uma mirada poderosa no racismo latente em nossa sociedade. Maior poeta da nossa MPB, Chico agora também é um dos nossos grandes prosadores.

6) Dois grandes momentos da ficção uruguaia,: o primeiro livro de Juan Carlos Onetti (cujo centenário foi comemorado em 2009), O poço (1939), reunido a Para uma tumba sem nome (1959), numa edição da Planeta; e Primavera num espelho partido, de Mario Benedetti (Alfaguara), belíssimo romance político, utilizando a forma polifônica (muitas vozes) e comprovando a maestria de uma das grandes perdas do ano passado.

5) Súplicas atendidas, de Truman Capote (L&PM)- Apesar de inacabado e um pouco desagradável, é fascinante esse painel moralista do jet set americano e europeu entre os anos 40 e  70, que apresenta alguns momentos geniais, em meio a fofocas e revanches. Também vale destacar o atraso com que foi traduzido e o descaso com que foi traduzido.

4) Modernismo, de Peter Gay (Companhia das letras)- Foi bastante atacado esse esforço enciclopédico do grande historiador e biógrafo de Freud. Mas eu o acho admirável e necessário. Numa época de fragmentação, é preciso haver esses exercícios de totalização, e o Modernismo é ainda o nosso último horizonte “estável”.  O mundo seria muito mais sem graça se não existissem Peter Gay e Richard Dawkins.

3) Amuleto & Estrela distante, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras)- Embora nenhum dos dois tenha a amplitude suprema de Detetives selvagens, talvez o maior livro dos últimos anos, mostram como Bolaño, junto com W.G. Sebald (aliás,  o grande livro de Sebald, Os emigrantes, foi reeditado este ano, também pela Companhia. das Letras, havendo uma edição anterior pela Record), é o morto mais vivo da ficção contemporânea (ele morreu, pateticamente, aos 50 anos, esperando por um transplante de fígado foi publicada e conhecida quase toda postumamente).

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2) Um anarquista e outros contos, de Joseph Conrad (Hedra)- É até engraçado colocar o genial Conrad num segundo lugar, uma vez que ele é um dos autor-referência, mesmo nas suas histórias curtas, escritas no início do século passado, e que abordam temas ainda atualíssimos (terrorismo e publicidade, por exemplo).Também é outro caso de atraso lamentável em matéria de tradução. É preciso também destacar o papel importante da editora em colocar títulos surpreendentes no mercado, na mesma série à qual pertence o livro do genial escritor polonês.

1) As aventuras de Augie March, de Saul Bellow (Companhia das Letras)- Outro caso estrondoso de descaso e atraso  Esse livro de 1953 estbeleceu definitivamente a reputação de Saul Bellow, um dos maiores escritores norte-americanos, e muitos ainda o consideram sua obra-prima. Talvez não seja (eu prefiro por exemplo, O planeta do sr. Sammler, publicado dez anos depois, e há ainda Herzog  & o esplêndido O legado de Humboldt), mas é um dos seus melhores livros. É bom lembrar que outra grande obra de Bellow, Henderson, o rei da chuva, tornou-se cinquentenária agora em 2009, e assim aproveito para corrigir uma omissão que cometi no meu post a respeito das comemorações literárias deste ano. Agora: se o romance de Bellow é o grande destaque do ano, a capa escolhida é uma das piores, simplesmente horrorosa.

18/11/2011

UM TERRÍVEL OBSTÁCULO: o centenário de “Sob os Olhos do Ocidente”, de Joseph Conrad

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/joseph-conrad-medo-da-anarquia-politica-e-reconhecimento-da-anarquia-interior/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/o-romance-das-ilusoes-de-joseph-conrad-marlow-mar-e-memoria/

https://armonte.wordpress.com/2010/11/26/digamos-para-comodidade-narrativa/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/as-margens-derradeiras-aprisionados-pelo-inacreditavel/

 

https://armonte.wordpress.com/2010/10/31/o-fim-da-linha-para-a-aventura/

 resenha publicada originalmente, sem as notas em rodapé, em A TRIBUNA de Santos, em 06 de setembro de 2011

“Difference of nationality is a terrible obstacle for our complex Western natures.” (Joseph Conrad, Sob os olhos do Ocidente)

Há cem anos, quando Joseph Conrad (1857-1924)  publicou um de seus mais importantes romances[1], Sob os olhos do Ocidente (Under Western Eyes; que eu saiba só foi feita uma tradução por aqui, a de Marcos Santarrita, lançada em 1984 pela Brasiliense), havia uma inquietação ocidental em torno da Rússia, dos seus acontecimentos político-religiosos, do tipo de terrorismo que eles inspiravam, similar à que constatamos atualmente com relação aos países islâmicos. Sempre é a mesma coisa: os valores “democráticos” de repente encontram-se questionados e ameaçados, e um outro olhar sobre a realidade parece suspeito, como se trouxesse, latente em si, a ruína  de uma civilização, a qual no entanto exclui das suas benesses boa parte da população.

O que não é mais a mesma coisa, decerto, é a convicção do narrador de que “Para nós,  europeus do Ocidente,  todas as idéias de tramas e conspirações políticas parecem infantis, invenções grosseiras para o teatro ou um romance” (“To us Europeans of the West, all ideas of political plots and conspiracies seem childish, crude inventions for the theatre or a novel”). Acho que isso não era verdade nem em 1911, Conrad exagera de propósito, enfatizando uma certa “inocência” ocidental, que nos lembra aquela “inocência”, também entre aspas, da alta sociedade novaiorquina do romance de Edith Wharton, e que tardiamente faria praça em O americano tranqüilo, de Graham Greene.

Grande parte da ação de Sob os olhos do Ocidente transcorre em Genebra, “a respeitável e desapaixonada morada da liberdade democrática, a cidade do espírito sério, de hotéis pavorosos, proporcionando a mesma indiferente hospitalidade a turistas de todos os países e a conspiradores de todos os matizes” (“the respectable and passionless abode of democratic liberty, the seriousminded town of dreary hotels, tendering the same indifferent, hospitality to tourists of all nations and to international conspirators of every shade”[2].

O narrador é um professor de línguas inglês, já entrado em anos, que tem estreitas relações com a Pequena Rússia genebrina, em minha condição de muda testemunha das coisas russas, desenrolando sua lógica oriental sob meus olhos ocidentais” (“in my character of a mute witness of things Russian, unrolling their Eastern logic under my Western eyes”;o mote reaparece  de forma estratégica—e, a meu ver, com uma certa malícia—em  diversos momentos, como—para dar outro exemplo: “pois esta é uma história russa para ouvidos ocidentais, que, como já observei, não estão afinados para certos tons de cinismo e crueldade, de negação moral, e mesmo de angústia moral, já silenciados em nossa ponta da Europa”;“for this is a Russian story  for Western ears, which, as I have observed already, are not attuned to certain tones of cynicism and cruelty, or moral negation, and even of moral distress already silenced a tour end of Europe”).  Todavia, justamente por sua condição de “estrangeiro”, ele próprio se desqualifica como narrador confiável, que tenha entendido todos os fios da trama ou as motivações dos protagonistas. Para começar, ele insiste muito no fato de que sua história é “real” e portanto é contado com o desajeitamento que a realidade vivida tem, e não com as manhas e alinhavamento da arte, afirmação contrariada pela montagem que exerce sobre os acontecimentos.

E como ele se apaixona platonicamente por Natália Haldin, que ali vive com a mãe, é difícil tirar sua figura do caminho como isenta e imparcial. Talvez ele não tenha importância para os círculos revolucionários, mas seu papel dificilmente é secundário, mesmo porque ele tem acesso a todas as informações importantes (“Pode-se ficar surpreso pelo fato de um homem na posição de um professor de idiomas saber tudo isso com tanta precisão. Um romancista diz tudo sobre seus personagens, e se souber como dizê-lo com bastante convicção não será questionado sobre as coisas que inventa, as quais se tornam suficientemente claras numa frase reveladora, numa imagem poética, no tom da emoção. Mas eu não tenho arte…” etc etc (“Wonder may be expressed at a man in the position of a teacher of languages knowing all this with such definiteness. A novelist says this and that of his personages, and if only he knows how to say it earnestly enough he may not be questioned upon the inventions of his brain in which his own belief is made sufficiently manifest by a telling phrase, a poetic image, the accent of emotion. Art is great! But I have no art…”),; e exerce função de  “desinteresse interessado”, nos bastidores, como o Conselheiro Aires dos romances tardios de Machado de Assis[3].

Após a notícia de um atentado na Rússia, no qual foi assassinado um eminente e odiado estadista, descobrem que o autor do ato terrorista foi Victor Haldin, irmão de Natália, logo depois capturado e executado, tornando-se um mártir reverenciado pelos movimentos revolucionários.

Logo depois, chega a Genebra o estudante Razumov, que todos suspeitam estar fugindo da Rússia por causa de uma pretensa participação no atentado. Natália procura-o então, para saber dos últimos momentos do irmão e o que aconteceu de fato.

De fato, o que aconteceu foi que Haldin procurou refúgio nos aposentos de Razumov e este—que abominava a ideologia revolucionária—o entregou secretamente à polícia. Devido ao seu temperamento taciturno e insondável (e também pela admiração do irmão de Natália por ele), todos acreditam que ele era íntimo camarada de idéias e ações do morto.

A polícia secreta russa utiliza esse equívoco para enviá-lo aos círculos conspiratórios do ocidente e assim espioná-los. Dessa forma, o leitor conhece uma colorida fauna de extremistas, cujo espectro abarca desde um decalque caricatural de madame Blavastsky até um agente duplo, particularmente sádico.

Mas Sob os olhos do Ocidente não seria um livro de Joseph Conrad sem um dilema moral cavalheiresco. Com sua vida e seu futuro promissor de estudante brilhante “destruídos” de certa forma por ter sido procurado por Victor Haldin, Razumov entrega-se selvagem e fanaticamente à tarefa de enganar os conspiradores; entretanto, ao conhecer Natália e seus “olhos confiantes”, ele se sente compelido a confessar sua traição, o que levará a trama a um desenlace violento, bizarro e instigante, que não contarei aqui porque ele só é “crível” no movimento narrativo do romance, onde tudo parece ter lógica própria.

Mas, o mais genuinamente conradiano no texto, e que faz esse mundo dostoievskiano adquirir nuances de Henry James ou o Machado de Assis tardio é mesmo o enviesamento da narrativa. O velho professor de línguas tem acesso aos fatos sempre de maneira indireta, tentando entender a “lógica não-ocidental” que os guia e guiado por sua predisposição sentimental com relação à miss Haldin. Essa interposição de perspectivas, o fato de que na montagem da sua narrativa os fatos já sabidos a posteriori se imiscuem na narração dos eventos, lançando sua sombra,  atrapalha a visão clara e objetiva e torna suspeita—no sentido literário—a narrativa, e  é o que torna o romance tão vivo hoje como há cem anos. Um clássico.


[1] E indubitavelmente o mais estranho e peculiar

[2]  Ainda que em muitas passagens Conrad equacione o extremado e extremista Razumov (e, por extensão, o terrorismo e o radicalismo político)  a Genebra enquanto berço de Jean-Jacques Rousseau (cuja estátua está sempre próxima do protagonista de Sob os Olhos do Ocidente em suas perambulações), o qual é referido significativamente como o autor do Contrato Social,  a visão que fornece ao leitor da cidade, a qual para o conservador e anti-revolucionário Conrad seria um pólo negativo a todos esses personagens destrutivos, não deixa de ser ambivalente e até derrisória. Razumov vê nela “a perfeição da mediocridade, finalmente atingida após séculos de trabalho e cultura” (“the very perfection of mediocrity attained at last afer centuries of toil and culture”), e várias páginas adiante como “esta odiosa cidade da liberdade” (“this odious town of liberty”).

[3] Eu diria que o papel estratégico do professor de línguas representa com relação a Razumov é similar aos dos protagonistas do primeiro romance escrito já em inglês por Vladimir Nabokov, A verdadeira vida de Sebastian Knight (1941), onde o narrador é um russo exilado que mantém o pé na pátria natal, e por isso tem quase uma não-existência, e o escritor—seu meio irmão—procura apagar as marcas da nacionalidade. Polonês, com um pé na Ucrãnia, Conrad escreve em inglês, utilizando um curioso personagem inglês sobre um mundo que o afetou diretamente na infância e juventude.

Os ritos enganosos e embaraçosos da escrita já são tematizados no extraordinário início do romance:

“Para começar, quero negar a posse daqueles altos dons de imaginação e expressão que teriam possibilitado à minha pena criar para o leitor a personalidade do homem que se chamava, à maneira russa, Cirilo, filho de Isidoro—Cirilo Sidorovitch—Razumov.

    Se algum dia possuí tais dons, em qualquer espécie de forma viva, eles há muito foram varridos da existência, sepultados sob uma selva de palavras. As palavras, como todos sabem, são as grandes inimigas da realidade (…) Para o professor de idiomas, chega uma época em que o mundo é apenas um lugar de muitas palavras, e o homem parece um simples animal falante, não muito mais digno de admiração que um papagaio.

   Sendo assim, eu não poderia ter observado o Sr. Razumov nem concebido sua realidade por força da intuição e muito menos tê-lo imaginado como era. Mesmo inventar os mais simples fatos de sua vida estaria absolutamente fora de meus poderes…”

(“To Begin with I wish to disclaim the possession of those high gifts of imagination and expression which would have enabled my pen to create for the reader the personality of the man who called himself, after the Russian custom, Cyril son of Isidor—Kirylo Sidorovitch—Razumov.

    If I have ever had these gifts in any sort of living form they have been smothered out of existence a long time ago under a wilderness of words. Wordas, as is well known, are the great foes of reality (…) To a teacher of languages there comes a time when the world is but a place of many words and man appears a mere talking animal not much more wonderful than a parrot.

   This being so, I could not have observed Mr. Razumov or guessed at his reality by the force of insight, much less have imagined him as he was. Even to intent the mere bald facts of his life would have been utterly beyond my powers”.)

JOSEPH CONRAD: MEDO DA ANARQUIA POLÍTICA & RECONHECIMENTO DA ANARQUIA INTERIOR

CONRADum anarquista

 

 PRIMEIRA ANOTAÇÃO (23.06.09)

Lendo Alexandre Dumas, a viagem do seu último herói, o Cavaleiro de Sainte-Hermine, pelas selvas da Birmânia me veio à mente Coração das Trevas, de Joseph Conrad. E resolvi então ler a seleção que Dirceu Villa fez de quatro contos de A set of six (1908) para a editora Hedra. Era um grupo de seis, ficaram quatro que se tornaram Um anarquista & outros contos. O tradutor explica por que foram deixados os outros dois (um deles, O duelo, já tem seu próprio caminho, independentemente da coletânea ao qual pertencia originalmente), e são boas razões, mesmo assim ainda acho que foi um erro e uma perda. Se o polonês que foi mestre da língua inglesa Conrad (1857-1924), e era extremamente consciente do ato de escrever (num grau só comparável ao de Henry  James), queria reunir um grupo de seis, com certeza é porque esse grupo tinha afinidades entre si. Quem quiser pelo menos a set of five em português, há três traduções de O duelo bem recentes, só mesmo Gaspar Ruiz eu desconheço se foi traduzido alguma vez no Brasil.

Conrad é um autor essencial. Para se ter uma idéia da dimensão que eu (seguindo tantos outros) dou à sua obra, na virada do milênio me pediram para listar os maiores romances do século passado e coloquei Nostromo (1904) entre os dez primeiros (o  mesmo para O coração das trevas na lista das dez maiores “novelas”), junto com A montanha mágica (Mann), Luz em agosto (Faulkner), O castelo (Kafka), As ondas (V. Woolf), Em busca do tempo perdido (Proust), As asas da pomba (H.James), Ulisses (Joyce), O estrangeiro (Camus) e O homem sem qualidades (Musil).

A primeira narrativa de Um anarquista & outros contos é  O informante e quem leu O agente secreto (1907) vai reconhecer a atmosfera similar: Londres, os anarquistas refugiados, a mistura de indolência e pregação abstrata & atentados e grupos conspiratórios, cheios de gente mal resolvida e perigosa, mais do que ideologicamente, patologicamente.

A narrativa, como sempre em Conrad, é bastante enviesada: temos um primeiro narrador que toma contato com um monstro sagrado do anarquismo, o sr. X, que parece perfeitamente refestelado numa vida confortável, sibarita, filistéia, enquanto escreve os panfletos mais incendiários e demolidores. Num jantar, esse sr. X se torna o segundo narrador da história, ao contar que veio de Bruxelas a Londres, uma vez, para investigar por que uma célula anarquista só obtinha fracassos quando tudo era tão bem planejado. É preciso ler a descrição derrisória que o sr. X faz de diversos membros do grupo, no qual está obviamente infiltrado um informante da polícia, para o qual ele prepara uma armadilha (uma falsa batida da polícia no local onde o grupo se reúne).

Descobre então que um dos mais entusiasmados e aparentemente singelos e devotados membros é na verdade o informante, que era um inimigo ferrenho da causa. Ele só se entrega porque se apaixonou por uma outra participante do grupo (e dona do imóvel no qual eles se reúnem) e achando que ela pode ser presa pela polícia, acaba se denunciando e ingerindo um veneno. Porém, ela só está no movimento por pose, sem uma verdadeira convicção revolucionária, como uma atriz num papel vivendo-o histrionicamente. No final, vemos a obsessão de Conrad pelos dilemas cavalheirescos (que dominam, por exemplo, Lord Jim & Chance- A força do acaso) que sobrepujam os problemas ideológicos. Há também o contraste entre o primeiro narrador que leva a sério a ameaça do anarquismo (pelo qual Conrad tinha um horror ambivalente) ou outros movimentos revolucionários e a frivolidade com que o segundo narrador, o sr. X, vê os revolucionários de araque, ou então igualando aqueles que são fervorosamente “pelo” movimento e os que são fervorosamente “contra”.

Joseph_Conrad01

O primeiro narrador é alguém que, de fora, vê as coisas em estado puro: “Anarquistas, suponho, não têm famílias –de qualquer forma, não do modo como entendemos essa relação social. A organização em famílias talvez responda a uma necessidade da natureza humana,mas em última instância é baseada na lei, e  portanto deve ser algo odioso e impossível para um anarquista. Mas, de fato, não entendo os anarquistas. Um homem dessa… dessa facção permanece anarquista quando só, totalmente só e indo dormir, por exemplo? Ele deita sua cabeça no travesseiro, puxa suas mantas e vai dormir com a necessidade do ´chambardement général´, como na gíria francesa, o ´bombardeio geral´, sempre presente em sua mente? Se sim, como pode? Estou certo de que se tal fé (ou fanatismo) se apossasse de meus pensamentos, jamais seria capaz de compor-me suficientemente para dormir ou comer ou realizar quaisquer das rotinas da vida diária. Não desejaria esposa, ou filhos; não poderia ter amigos, me parece… Enfim, não sei. Tudo o que sei é que o sr. X fazia suas refeições num restaurante muito bom, que eu também freqüentava.”

      Já o sr. X, o panfletário, o incendiário, é totalmente pragmático e adepto da “Real Politik”. Ao comentar a figura do informante (note-se que não estou dando maiores detalhes da trama para não estragar a leitura desse “conto irônico”, como está no subtítulo): “A parte mais interessante era o seu [do informante] diário; pois esse homem, metido num trabalho tão mortal, teve a fraqueza de manter um registro do tipo mais condenatório. Lá estavam seus atos e pensamentos, desnudados diante de nós. Mas os mortos não se importam com isso… Um humanitarismo vago mas ardente o havia impelido em tenra idade para os mais amargos extremos da negação e da revolta. Você já ouviu falar de ateus convertidos. Eles se tornam fanáticos perigosos, mas a alma permanece a mesma. Após ter conhecido a garota, encontram-se naquele seu diário estranhas rapsódias político-amorosas. Tomasva as poses de soberania dela com seriedade circunspecta. Ansiava por convertê-la… não sei se você se lembra, faz uns bons anos já, da sensação jornalística do Mistério da Hermione Street; encontraram o corpo de um homem no porão de uma casa vazia;  o inquérito, algumas prisões, várias conjecturas, e então silêncio, o final costumeiro para muitos mártires e confidentes obscuros. O fato é que ele não era suficientemente otimista. É preciso ser um otimista selvage, tirânico, impiedoso, um faz-tudo como Horne [outro membro do grupo], por exemplo, para resultar num bom rebelde social do tipo extremista”. O narrador pergunta sobre a garota: “Você quer realment saber?  Confesso a pequena malícia de ter-lhe enviado o diário de Sevrin [o informante]. Ela retirou-se; foi, então, para Florença; daí, recolheu-se a um convento. Não saberia lhe dizer onde irá depois. E isso importa? Gestos! Gestos! Meros gestos de sua classe! … Por isso essa raça está com os dias contados”.

MORTE EM NÁPOLES (25.06.09)

A Itália é muito perigosa, pelo menos na alta ficção. O icônico Morte em Veneza, de Thomas Mann, está aí para provar. Mais benigno, porém trabalhando na mesma direção de forças libidinosas represadas explodindo de forma inquietante, temos  Um quarto com uma vista, de E. M. Forster. E contemporâneo, de certa forma, aos dois (todos foram escritos nos primeiros quinze anos do século XX), um dos textos traduzidos em Um anarquista e outros contos: Il Conde. Se O informante é um conto “irônico” e “O duelo” um conto “militar”, Il Conde é um “conto patético”. Parecem andamentos diferentes de uma sinfonia, cada um com sua modulação. Essa analogia é ainda mais apropriada (e já deve ter sido feita por alguém) porque Il Conde repete o mesmo esquema narrativo de O informante: temos novamente um narrador original, que conhece um outro personagem, seu interlocutor pela narrativa inteira, que lhe narra um episódio.

É preciso examinar um pouco esse “primeiro narrador” genérico desses textos conradianos. O grande autor de Sob os olhos do Ocidente criou um narrador memorável, Marlow, normalmente identificado nos textos dos quais participa por sua biografia ligada ao mar (é o caso de Mocidade, aqui também traduzido como Juventude, de Coração das trevas e de Lord Jim). Os narradores de O informante e Il Conde poderiam ser a mesma pessoa, só que não Marlow. Conrad parece ter criado a quintessência do “homem do mundo”, viajado, com conhecidos em capitais importantes, cidadão europeu civilizado, culto, mas não pedante, bem nascido, mas não insolente ou esnobe, com bom gosto, mas não demasiadamente refinado e lânguido, observador, sagaz, mas muito voltado para os princípios “sadios” da boa sociedade para não se deixar abalar por tudo o que essa sociedade não tem de sadio. Todos os detalhes que ele pinça nos seus interlocutores parecem refletir seus próprios dilemas éticos e cavalheirescos diante dos aspectos “desagradáveis” da vida.

Pois, veja-se, nos dois contos, o narrador e seus interlocutores se conhecem com a mediação de coleções de alto interesse estético e artístico.

O informante se inicia do seguinte modo:  “O sr. X veio a mim, precedido pela carta de recomendação de um bom amigo meu em Paris, especificamente para ver minha coleção de porcelana e bronzes chineses”. Ao receber a visita do famoso revolucionário, ele afirma: “Não falamos senão sobre bronzes e porcelanas. Era de uma sensibilidade notável”. Para depois nos dizer: “Onde estava hospedado, não sei”.

Il Conde, por sua vez, abre com este parágrafo: “Conversamos pela primeira vez no Museu Nacional, em  Nápoles, nas salas do piso térreo que contém a famosa coleção de bronzes de Herculano e Pompéia, aquele maravilhoso legado de arte antiga, cujas delicadas perfeições foram preservadas pela fúria catastrófica de um vulcão”. No parágrafo seguinte: “Ele se dirigiu a mim primeiro, a respeito do celebrado Hermes em repouso que estávamos observando lado a lado. Disse as coisas certas sobre aquela peça inteiramente admirável. Nada profundo. Seu gosto era antes natural que cultivado. É óbvio que havia visto muitas coisas refinadas em sua vida, e as apreciava, mas não possuía o jargão do diletante ou do connaisseur… Falava como um cosmopolita inteligente, um cavalheiro limpo de toda afetação” (é evidente que essa caracterização também reflete a auto-imagem do narrador, e tanto num quanto noutro conto haverá uma reversão, irônica e patética, dessa lisonjeadora caracterização inicial). Poucas páginas adiante lemos (o Conde está hospedado no mesmo hotel que o narrador): “Tinha um castelo, creio que na Boêmia. Isso foi o mais próximo que cheguei de conhecer sua nacionalidade. Seu próprio nome, por estranho que pareça, nunca mencionou”.

Como se pode ver, há muitas similaridades:  informações vagas sobre as circunstâncias mais corriqueiras (residência, num caso; nome e nacionalidade, no outro) tornadas irrisórias pela descrição da imagem cavalheiresca (estou observando muito isso nestes dias, já que em O cavaleiro de Sainte-Hermine, de Dumas, o nobre Hector de Sainte-Hermine, após sua degradação, se apresenta simplesmente como “René” e todos o respeitam e recebem porque sentem que nesse prenome sem maiores detalhes há uma nobreza inata; aliás, comecei este LEITURA DA SEMANA afirmando que lembrei de  Coração das Trevas por causa da expedição de Hector à Birmânia, o que me levou a esta leitura dos contos de, entretanto também podia afirmar o mesmo de O duelo, que transcorre durante as guerras napoleônicas).

O retrato inicial do Conde é assim rematado: “…era um bom europeu –falava quatro línguas, pelo que sei—e um homem rico. Não muito rico, evidente e apropriadamente. Imagino que ser rico demais lhe teria parecido impróprio… demasiado indecoroso. E, obviamente também, a fortuna não havia sido obra sua. Não se pode amealhar uma fortuna sem alguma rudeza”.

O Conde gosta particularmente de Nápoles porque o clima lhe faz bem à saúde prejudicada (tem uma afecção reumática). Ele e o narrador se tornam companheiros de horas agradáveis e gentis até que o segundo tem de se afastar da cidade por cerca de dez dias (a cena em que o conde o acompanha à estação é emblemática da “ideologia de civilidade” que percorre essas páginas).

Quando ele retorna, encontra o conde mortificado e com um comportamento á mesa pouco tranqüilizante (“em vez de ficar ereto, fitando toda a sua volta com urbanidade alerta, curvava-se sobre o prato. Parei por algum tempo diante dele antes que erguesse os olhos, um pouco feroz, se palavra tão forte pode ser associada à correção de sua aparência”). Diga-se de passagem, o texto de Conrad não podia ser mais perfeito como nesse passo, pois podemos ver como se entremeia no discurso do narrador as marcações que indicam os gestos, a fala, o discurso do seu interlocutor, até suas pantomimas. É um momento virtuosístico da arte da narração.

Como em O informante inicia-se uma “segunda narração”, ainda que feita através de uma instância entre nós e o narrador original, que é justamente o primeiro narrador, e portanto essa segunda narração é enviesada e ambígua, temos de levar em conta, seu efeito sobre esse primeiro narrador. E é por isso que fiz questão de caracterizá-lo detalhadamente.

O que o conde tem a contar é um assalto um tanto incomum de que foi vítima durante um concerto musical ao ar livre. O rapaz que o assalta (encostando uma faca na sua barriga) o trata com certo desprezo porque ele carrega pouco dinheiro consigo e um relógio barato (segundo o Conde, havia deixado com o guarda-livros do hotel uma grande quantia no mesmo dia, e seu relógio de ouro estava no relojoeiro para limpeza ), e some na multidão. É um rapaz com todos os traços típicos da região e o Conde, meio abalado pela experiência, julga vê-lo depois em todos os lugares e em todos os rapazes (curiosamente, já tivera a mesma sensação, antes do assalto, quando sentara numa mesinha ao lado de um rapaz que pode ser o assaltante). Apesar de tudo,  sente-se também bastante esfomeado e resolve comer um risoto, utilizando uma “barra de ouro de vinte e cinco francos” que carrega no fundo do bolso caso haja algum “acidente” (“todos estão sujeitos a um furto, algo bastante diferente de um assalto descarado e ultrajante”). Ora, no  Café Umberto onde faz sua refeição, ele vê um rapaz idêntico ao seu assaltante, mas sendo tratado com deferência pelos garçons. Informam-lhe: ele pertence à Camorra, a máfia prototípica.

O Conde paga suas despesas com sua barrinha de ouro, o rapaz também paga, levanta-se, atravessa o café, “aparentemente com o objetivo de mirar-se no jogo de espelhos do pilar mais próximo ao assento do Conde.  Estava todo vestido de preto e com uma gravata borboleta verde-escura. O Conde olhou à volta e se assustou por encontrar um olhar maligno  vindo do canto dos olhos do outro… falou alto, o bastante apenas para que o Conde o ouvisse. Falou de entre os dentes com o mais insultante veneno de desprezo e olhando diretamente no espelho: Ah! Então você tinha ouro aí, seu velho mentiroso, velho birba-farfante! Mas eu não terminei com você, ainda.”

Eis a razão da consternação e mortificação do Conde, que está decidido a deixar Nápoles, apesar de ser uma decisão desastrosa para sua saúde. A explicação do narrador para essa decisão está fortemente enleada pela sua caracterização inicial: “A delicada concepção de sua dignidade fora maculada por uma experiência degradante. Isso era intolerável. Nenhum cavalheiro japonês, ultrajado em seu extremo senso de honra,  teria se preparado para o harakiri com maior resolução”. Depois ele associa a decisão do Conde com o adágio napolitano que serve de epígrafe a essa história “patética”: Vedi Napoli r poi mori, Veja Nápoles e depois morra, que ele considera vaidoso e patrioteiro. Porém, por mais que ele rejeite a idéia, o adágio parece que “pega” e se associa à figura do Conde que ele já vê como moribundo:

“Ele havia visto! Havia visto com alarmante completude –e agora ia para seu túmulo. E ia até ele no train de luxe da Companhia Internacional de Vagões-Dormitórios, atravessando Trieste e Viena. Quando os quatro longos e graves vagões deixaram a estação, eu ergui meu chapéu com o sentimento solene de prestar os últimos respeitos em um cortejo fúnebre…”

O que eu deixei para o final é a ambigüidade do episódio, calcado no equívoco sexual (e magistralmente “invisível” no texto do primeiro narrador). Tudo bem que se pode ignorar esse aspecto e mostrar todo o abalo sentido pelo Conde (e, por tabela, pelo narrador) pelo prisma da ameaça de um membro da Camorra, que mostra que não existe segurança, não há “civilização” suficiente que nos proteja do submundo, do que há para se ver  “com alarmante completude” (“Sua tranqüilidade fora licenciosamente profanada. A requintada gentileza de perspectiva de toda a sua vida havia sido desfigurada”). E também não gosto daqueles que procuram sub-textos homossexuais em tudo que é história ou texto.

Mas acredito que, sem forçar a barra, tratou-se de um episódio que, sem anular a informação sobre a Camorra (mas o próprio Conde diz que a pessoa que lhe deu essa informação é um mentiroso contumaz), há aquela velha situação da “caça”. A ida do senhor idoso de aparência impecável e abastada ao concerto público, ele sentando na mesa com um rapaz desconhecido, fitando-o muito (porque, segundo ele, via nesses traços típicos da região uma atitude de consternação profunda que o deixava alheado do que estava à sua volta e de quem estava ao seu lado), depois o afastamento da multidão para cantos mais solitários do parque, a visão do rapaz (muito parecido com o outro, sentado num banco, na mesma atitude taciturna), as passeadas para lá e para cá que sempre o fazem passar pelo tipo, a intimidade descarada com que o outro o assalta, e principalmente a desfaçatez insolente e desdenhosa com que ele o adverte e desacata no Café Umberto. E só para arrematar, a seguinte passagem, extraída da narração do assalto (cujo cerne é o fato de o Conde não estar de posse de bens que a sua aparência prometia):

 

“Aquele jovem poderia largar a faca num instante e fingir que eu era o agressor. Por que não? Poderia ter dito que o atacara. Por que não? Seria uma história incrível contra a outra! Poderia dizer qualquer coisa, levantar uma acusação desonrosa contra mim, como saber? Pelo modo de vestir, não era um ladrão comum. Parecia pertencer às melhores classes. O que eu poderia dizer? Ele era italiano, eu sou estrangeiro. É claro, tenho meu passaporte, e temos o nosso cônsul, mas ser preso, arrastado à delegacia de polícia à noite, como um criminoso!”

    Sem dúvida, um conto “patético”. Como também aquele do escritor Aschenbach vagando por uma Veneza que lhe traz a vida e a morte.

NAVIO PSICOPATA E BORBOLETA RARA

(28.06.09)

Ainda encontramos um primeiro narrador e um interlocutor nos dois outros contos, A bruta (que já foi traduzido no Brasil como A fera numa antologia de horror selecionada por Alberto Manguel) e Um anarquista. A diferença é que esses interlocutores já não pertencem a uma classe “cultivada”, como o ideólogo (o qual, apesar da apologia revolucionária, refestela-se com o mundo burguês, e afinal é um homem culto, um intelectual) de O informante e o personagem-título de Il Conde, são de classes mais populares, sendo o interlocutor de Um anarquista um proletário.

A bruta mostra o narrador chegando a uma taberna e ouvindo os comentários de três marinheiros. O leitor, a princípio, pensa que esses comentários são a respeito de alguma mulher fatal que finalmente teve a sua punição. Não. Antecipando Christine, o carro-assassino criado por Stephen King, com uma sutileza que o criador de Carrie jamais poderia sonhar, trata-se de uma embarcação, orgulho de uma família (tanto que seu nome é “A família Apse”), que sempre causa mortes e acidentes que os marinheiros atribuem à sua vontade maligna, numa personificação dos seus temores e pressentimentos: “Há embarcações difíceis de manobrar, mas em geral, conta-se com o fato de agirem racionalmente  [ isso quer dizer que eles contam com uma providência racional, benéfica]. Com essa,o que quer que você fizesse, nunca sabia como ia acabar. Era uma besta maligna.  Ou talvez fosse apenas louca… Por que não? Por que não haveria algo na sua constituição, em seu desenho, correspondente  a… –o que é a loucura? É só uma minúscula coisa errada na feitura do cérebro. Por que não haveria uma embarcação louca –digo, louca como uma embarcação pode sê-lo, e em ocasião alguma pudéssemos saber se ela ia fazer o que qualquer outra embarcação razoável naturalmente faria? Há navios de leme duro de manobrar e navios de estabilidade não confiável; outros requerem vigília cuidadosa quando navegando numa tormenta e, ainda, pode haver um navio que faça de uma brisa leve um tempo feio. Mas daí se supõe que seja sempre assim. Considera-se como parte de seu caráter de navio, assim como a gente repara nas peculiaridades de temperamento de um homem, quando lida com ele. Com essa embarcação, não. Imprevisível. Se não era louca, era então a mais bruta, ardilosa e selvagem que jamais flutuou”. O cerne da narrativa é a viagem que o interlocutor-segundo narrador faz na Bruta com seu irmão mais velho, Charles, como imediato. Charles está apaixonado e fica noivo de Maggie Colchester, que está a bordo (“O tio estava lhe dando uma viagem de navio para o bem de sua saúde. Não tenho idéia do que poderia haver de errado com a sua saúde. Tinha uma cor bonita, e um danado de um, monte de cabelo loiro. Não ligava a mínima para vento, chuva, jato d´água, sol, o mar verde, nem nada. Era um jóia de menina de olho azul, das melhores, mas o jeito como era atrevida com o meu irmão me assustava”, note-se a modulação do segundo narrador, bem diversa da dos anteriores). Ele tem como meta vencer a Bruta, fazendo sua primeira viagem “tranqüila”, sem tragédias (“… e antes de mais nada, ponha na sua cabeça que não deixaremos a Bruta matar ninguém nesta viagem. Vamos acabar com a sua farra”). Quando está prestes a cumprir seu objetivo, quase atracando, há um acidente no qual Maggie acaba morrendo (“Maggie subira na âncora de bombordo deixada no convés do castelo de proa. Ela havia sido colocada corretamente em sua base de carvalho, mas não houvera tempo de prendê-la com uma volta. De qualquer forma, estava bem segura, lá onde estava, para ir ao cais, mas pude ver claramente que o cabo de reboque levaria de roldão a pata da âncora em um segundo. Meu coração veio à boca, mas não antes que pudesse gritar: Se afasta daquela âncora! Mas não tive tempo de berrar seu nome. Não acho que chegou a me ouvir. No primeiro toque do cabo contra a pata de âncora, ela caiu…”). Há uma bela descrição da prostração do irmão após essa vingança da bruta: “Charley não se parecia em nada consigo mesmo”.

Vou deixar para os futuros leitores desse “conto indignado” (na antologia de Alberto Manguel, o sub-título aparece como “um caso de invectiva”) a “justiça poética” que dá cabo da embarcação psicótica. Só resta mesmo a “justiça poética” neste nesta nossa condição em que “o universo é basicamente inóspito e nós o povoamos com os nossos afetos”.

Todos os quatro textos de Um anarquista &  outros contos são notáveis. O que dá título à seleção, então,  é excepcional, um dos melhores que já li. O seu sub-título é “um conto desesperado”.  Novamente, como em O agente secreto, Sob os olhos do Ocidente e O informante, há o horror-fascínio preconceituoso, cauteloso, com relação à ação revolucionária, mas também há uma compreensão profunda de uma certa patologia que o stalinismo evidenciou plenamente. E também há as grandes imagens demoníacas de um capitalismo selvagem: o primeiro narrador, cuja ocupação é “caçar borboletas” pelo mundo afora, chega a Caiena e se instala (a um custo de 15 mil libras ) por alguns meses, numa ilha na qual funciona uma grande propriedade de exploração pecuária de uma “famosa companhia manufatora de extrato de carne”. As primeiras páginas do conto são dedicadas a mostrar essa vasta intrujice e fabricação de mentira universal que é a propaganda (isso, num texto do início do século XX), que é praticamente liquidada e caracterizada de uma vez por todas. O detalhe que eu achei mais delicioso é a propaganda dos produtos baseada em “informações científicas”, principalmente porque uma das coisas mais irritantes do nosso consumismo atual é que ele sempre se baseia “nas mais avançadas pesquisas” e o público assiste a anúncios onde se fala  de O% de gordura trans e o caralho a quatro (desculpem o meu francês), ou seja, de coisas de que quase ninguém realmente tem noção do que se trata (eu adoro especialmente aquela comercial de shampoo anti-caspa em que se fala de componentes químicos extraordinários e no final Helena Ranaldi diz enfaticamente: “Estou convencida!”): “É claro que o capital de um país deve ser empregado de modo produtivo. Não tenho nada contra a companhia. Mas sendo animado por sentimentos de afeição para com meus semelhantes, entristece-me o sistema moderno de propaganda. Qualquer que seja a evidência de iniciativa, engenho, ousadia e habilidade em certos indivíduos, ela prova para a minha inteligência apenas a ampla supremacia da degradação mental chamada credulidade”. Mais adiante: “Seja qual for a forma de degradação mental de que (não sendo senão humano) eu possa sofrer, não é dessa forma popular. Não sou crédulo.”

Além da propaganda, a propriedade em si, na ilha (onde ele está porque está atrás de uma espécie rara de borboleta que só existe ali, e de fato ele descobrirá no seu interlocutor um espécime raro), é descrita de forma demoníaca: “Ressoava com os mugidos de inumeráveis rebanhos, um som profundo e aflitivo a céu aberto, elevando-se como um protesto monstruoso de prisioneiros condenados à morte”. Além disso, há um administrador estúpido, boçal, auto-satisfeito, que faz inúmeras alusões debochadas ao esporte que o narrador pratica (“Seu deboche seria bem inofensivo se a intimidade comunicativa, na ausência total de sentimentos amistosos, não fosse uma coisa detestável em si mesma”).

    Após essas primeiras páginas introdutórias ao mecanismo infernal que sustenta o capitalismo moderno (e que continua o mesmo, de 1908 para cá), conhecemos o futuro interlocutor do primeiro narrador: o mecânico encarregado de fazer a manutenção de um barco a vapor de que se serve a propriedade insular). O odioso administrador vive mexendo com ele, provocando-o, chamando-o de Crocodilo (porque passa parte do tempo na água), mas sua provocação favorita é chamá-lo de “un citoyen anarchiste de Barcelone”, um cidadão anarquista de Barcelona, embora ele não saiba direito a origem do mecânico e nem sequer se ele é um anarquista. Ele tem certeza de um fato: é fugitivo da lei. E por isso o tiraniza, humilha e explora como ao gado condenado à morte. O narrador pergunta ao administrador quanto ele paga ao rapaz: “Salário! E para que ele quer dinheiro aqui? Comida ele pega na minha cozinha, e roupa, no depósito. Claro que vou dar alguma coisa para ele no fim de ano, mas você acha que empregaria um condenado e lhe daria o mesmo dinheiro que daria a um homem honesto? Estou zelando pelos interesses da minha companhia, antes e acima de tudo… se tivesse certeza de que ele é um anarquista e se tivesse a pachorra de me pedir dinheiro, eu lhe daria o bico da minha bota. Entretanto, que fique com o benefício da dúvida. Estou pronto a aceitar a idéia de que não tenha feito nada além de espetar uma faca em alguém… Mas aquela coisa podre de subversivo sanguinário que manda para o inferno toda lei e ordem do mundo faz subir o meu sangue. É de tirar o chão sob os pés de cada pessoa decente, respeitável e trabalhadora, simplesmente. Insisto que as pessoas que têm essa consciência, como você e eu, devem ser protegidas de algum jeito, ou então o primeiro salafrário de meia-tigela que aparecesse iria valer o mesmo que eu. Não iria? E isso é absurdo”. Confesso que durante a leitura desse quase-manifesto arrogante, eu fiquei tentado a imaginar toda a lei e ordem desse tipo do mundo indo para o inferno, e tudo que há de subversivo em mim, se não se apoltronou (termo tão caro a Lygia Fagundes Telles) veio à tona. E também fiquei imaginando o que poderia passar pela mente do narrador ouvindo um discurso que o iguala ao administrador, “as pessoas que têm essa consciência, como você e eu”…

Um dos primeiros adjetivos de que o narrador se vale para caracterizar suas impressões do “cidadão anarquista de Barcelona” é “delicado”, o que sem dúvida causa forte contraste com o nada delicado administrador e toda a sua positividade opressiva: “Ao som dos nossos passos levantou um rosto austero, com queixo pontudo e um minúsculo bigode loiro. O que podia ser cisto de seus traços delicados, sob manchas de graxa, parecia-me desgastado e lívido à sombra esverdeada da árvore enorme que estendia sua folhagem sobre o vapor atracado junto à margem”. Como o inesquecível personagem-título de Bartleby, de Hermann Melville, que tinha o seu exasperante bordão “Preferia não fazer”, esse mecânico delicado tem o seu, igualmente misterioso, “Não nego nada”.

Porém, ao contrário de Bartleby, ele se entrega a confidências (no seu catre, como o Kurtz moribundo de Coração das Trevas, e ele mesmo tem o seu quê de “prostrado”) . Ele conta sua história e, vejam só, foi realmente ligado ao anarquismo revolucionário, não em Barcelona, já que era um operário parisiense, conformado com a vida, juntando o seu dinheirinho na poupança. No seu aniversário de vinte e cinco anos, foi comemorar com dois colegas da oficina (e logo apareceram mais dois companheiros, os quais ele não conhecia, mas a quem convidou para se juntarem à comemoração) e bebeu… bebeu…bebeu. E nunca se sentiu tão feliz, pleno e satisfeito: “Mas uma coisa extraordinária aconteceu. Os estranhos disseram que, por algum motivo, sua animação se foi. Idéias melancólicas dispararam em sua mente. O mundo todo fora do café lhe pareceu um lugar mau e funesto, onde uma multidão de pobres infelizes tinha de trabalhar como escrava para o único objetivo de que uns poucos indivíduos andassem de carruagem e vivessem libidinosamente em palácios. Envergonhou-se de sua felicidade. A piedade pelo destino cruel da humanidade oprimiu seu coração [ temos na verdade aqui o velho sentimentalismo do homem bêbado]. Numa voz engasgada de mágoa ele tentou expressar esses sentimentos. Acha que alternadamente chorou e xingou” [aqui temos a narração da narração do acontecido de forma clara].

O que acontece é confusão, vidros quebrados, brigas, chegada da polícia, um cassetete na cabeça do nosso Crocodilo e a prisão. Que por culpa de um advogado ambicioso  se torna uma pena relativamente severa para um réu primário.  Saindo da cadeia, não conseguindo emprego em parte alguma, dele se acerca uma célula subversiva que acompanhara seu caso e não o deixam mais: “…uma existência impossível!Vigiado pela polícia, vigiado pelos camaradas, não pertenço a mim mesmo. O quê? Não poderia sacar uns poucos francos da minha poupança no banco sem um camarada plantado na porta para garantir que eu não fugisse! E a maior parte deles não era nada mais nada menos que arrombador. Os inteligentes, quero dizer. Roubavam dos ricos, apenas retomavam o que era deles, diziam. Quando bebia um pouco, eu acreditava neles. Havia também os tolos e os loucos. Des exaltés, quoi! Quando estava bêbado, eu os adorava. Quando ficava mais bêbado, me enfurecia contra o mundo. Era o melhor momento. Achava refúgio contra a miséria na raiva. Mas não é possível estar sempre bêbado…” É típico de Conrad frisar esse lado malsão da experiência revolucionária, ideólogos manipuladores e gente exaltada ou embriagada, patologicamente servindo a um ideal vão. Os revolucionários quase que caracterizados como mafiosos, um submundo. E assim, nosso herói vai preso novamente, e deportado para Caiena, na prisão da Ilha São José, com dois companheiros da célula anarquista.

Há um motim, maravilhosamente narrado (inclusive com o detalhe caracteristicamente conradiano porque cavalheiresco em que há uma mulher que pode ser atacada e estuprada pelos amotinados e pela qual o operário desviado resolve se sacrificar e dar a vida; a situação não chega a tanto, todavia). Resumindo, os três companheiros anarquistas escapam num bote e aí é que se dá a crise para a qual o relato se encaminha:  toda a revolta do operário enganado pela ilusão revolucionária, as figuras desagradáveis e calculistas dos companheiros, suas artimanhas e mesquinharias, a Real Politik. Como tinha um revólver, ele os domina no bote e os obriga a remar. Um deles, ultrajado, o chama de Camarada: “Não tem camarada aqui. Sou seu patrão”. Mais adiante: “… enquanto falava, remava; e Simon continuou remando, também. Isso me fez sorrir. Ah! Esses dois amavam a vida, nesse mundo maligno deles, assim como eu amara minha vida, também, antes que a arruinassem com suas frases… Lembrei de suas mentiras, de suas promessas, suas ameaças e de todos os meus dias de miséria. Por que não me deixaram em paz quando saí da prisão? Olhei para eles e pensei que, enquanto vivessem, eu não seria livre. Nunca. Nem eu nem outros como eu, com sangue quente e cabeça leve. Pois eu sei que não tenho uma cabeça boa, monsieur”.

Apossa-se dele uma “fúria negra”, “mas não contra a injustiça da sociedade, oh não”. E grita para os camaradas-algozes-reféns no bote: “Eu quero liberdade”. Os outros acham que é uma palavra de ordem (já que avistaram um navio) e também gritam “Viva a liberdade”, afirmando que vão fazer a sociedade burguesa sentir a sua volta. Então ele os assassina. O navio que o recolhe tem a tripulação toda negra, comandada por um mulato que é o único que o compreende um pouco. Eles é quem o colocam em terra na ilha de propriedade da  “famosa companhia manufatora de extrato de carne”, após alguns dias ameaçadores e estranhos de convivência forçada. E é ali, na sujeição e na abjeção, em pleno coração da injustiça e da exploração (da vida humana e animal) que ele encontra a sua libertação do mundo da ideologia e seus rumos ambíguos: “… tentei induzi-lo a deixar o vapor atracado onde estava e ir para a Europa comigo, de lá mesmo e naquele momento. Teria sido delicioso imaginar a surpresa e o desgosto do excelente administrador com a fuga daquele pobre diabo. Mas recusou com obstinação inquebrantável”. O narrador lhe diz que não pode viver para sempre ali, naquela situação: “Devo morrer aqui…Longe deles.” Um pouco antes, no relato, o narrador tentara um diagnóstico do seu estranho interlocutor, da sua borboleta rara (mas mesmo de um tipo raro uma borboleta pertence  a uma espécie geral) encontrada na ilha: “… a minha idéia é a de que ele era mais anarquista do que confessou a mim ou a si mesmo e, de parte as características muito específicas desse caso, ele era muito parecido com muitos outros anarquistas. Sangue quente e cabeça leve, eis a solução da charada; e é fato que as mais amargas contradições e os mais mortais conflitos do mundo são levados adiante pelos corações individuais, capazes de sentimento e paixão”.

E o narrador o imagina deitado, de olhos abertos (ele sofre de insônia), na pequena oficina da ilha, que lhe serve de moradia: “o anarquista escravo da propriedade”.

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

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CERTIFICADO COMEMORATIVO CONRADIANO

O MARIDO ERA O CULPADO MESMO

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I

(resenha publicada em “A Tribuna” de Santos, em 04 de março de 2003)

Nesta minha coluna de “A Tribuna”, um dos livros de Joseph Conrad (1857-1924), Nostromo (1904), foi escolhido como um dez maiores romances do século XX, mas bem poderia ter sido O agente secreto (1907), igualmente extraordinário e igualmente pioneiro quanto à sua temática. Tanto que a editora Revan oportunisticamente procura (em sua edição da tradução de Paulo  Cezar Castanheira) relacioná-lo aos eventos de 11 de setembro de 2001 que culminaram com a destruição do World Trade Center. Eles deram tanta atenção a essa vinculação que esqueceram até de incluir a dedicatória do autor a H.G. Wells.

“Aqui todo mundo fala, imprime, conspira e nada faz”. Nesta fala de um personagem sinistro, artesão de bombas, o Professor, revela-se a classe de gente em que se movimenta o agente secreto Adolf Verloc, o qual mantém uma sórdida loja de artigos pornográficos no Soho, em Londres. Ele trabalha para uma misteriosa embaixada estrangeira. Sua missão: infiltrar-se nos círculos revolucionários, dos anarquistas e terroristas. Ao mesmo tempo, é um informante do Inspetor Heat, de um departamento secreto da polícia inglesa.

A situação de Verloc, confortável durante tantos anos, se complica porque o Sr. Vladimir, seu novo contato na embaixada, exige dele uma ação efetiva: um atentado contra o Observatório de Greenwich, referência mundial para o horário, ou então seus pagamentos serão suspensos.

Verloc é casado. Moram com ele, além da esposa, a sogra (que, no meio da narrativa, resolve transferir-se para um asilo) e o cunhado, Stevie, deficiente mental. A razão por que Winnie casou-se com um antigo hóspede da mãe foi justamente para proporcionar segurança para o irmão, a quem se dedica totalmente. Devido á complacência do marido com Stevie, ela vai acreditando-se feliz, atendendo aos fregueses escusos da lojinha, aturando os “amigos” dogmáticos de Adolf, e sobretudo não se fazendo nenhuma pergunta que perturbe a aparente placidez do seu quotidiano.

A  grande tragédia de O agente secreto acaba sendo mais doméstica do que política, como diz outro personagem, com ironia. Verloc dá o artefato explosivo para Stevie carregar, ele tropeça e seu corpo é todo despedaçado. Quando descobre que o marido levou o irmão à morte, Winnie Verloc tem de se fazer todas as perguntas incômodas anteriormente abafadas, e termina por assassinar Adolf (na sua versão cinematográfica, aliás, de rara beleza plástica, Sabotage- O marido era o culpado, Hitchcock concentrou-se mais nesse aspecto do livro, explorando de forma sensacionalista a morte de Stevie e exagerando a maldade do personagem Verloc).

Enquanto isso, há uma surda competição entre o Inspetor Heat e seu superior, o Comissário-assistente, com relação ao caso do atentado.

O que impressiona em O agente secreto é esse atentado feito por motivos puramente econômicos, para não dizer alimentares. Verloc quer manter seu estilo de vida, assim como os revolucionários ociosos, praticamente inócuos e patéticos (menos o Professor). Essa grande ironia (um agente quase de mentirinha, gerando uma rede de situações problemáticas e pequenas situações conspiratórias ao seu redor), décadas mais tarde renderia outros dois livros: o maravilhoso Nosso homem em Havana, de Graham Greene (que teve também uma ótima adaptação para o cinema, de Carol Reed) e o competente O alfaiate do Panamá, de John Le Carré (tão mal filmado por John Boorman). Só que, neles, o agente era de mentirinha mesmo, enquanto que o sr. Verloc  vive uma situação ainda mais patética, num clima dito revolucionário, que não ameaça nada, não desestabiliza nada, mas que justifica sua atividade e proventos, bem com os de Heat, do seu superior e dos conspiradores de embaixadas.

Outro aspecto fascinante do livro é a poesia das cidades, nesse caso, a de Londres. A grande metrópole, engolfando os movimentos dos personagens e refletindo suas preocupações pessoais, através das suas ruas e bairros, admiravelmente bem descritos. Por outro lado, as cenas da vida doméstica de Verloc com a esposa, o cunhado e a sogra, são geniais. E o ponto alto do romance é o capítulo em que se confrontam Adolf e Winnie, um dos maiores da história da ficção.

Esperemos que a Revan publique todos os livros de Conrad, como está prometendo, e com menos pressa e mais cuidado. Cadê Julieta Cupertino?

II

(resenha publicada em “A Tribuna” de Santos, em 13 de junho de 1995 )[1]

Em 1936, Hitchcock filmou O agente britânico (Ashenden), de Somerset Maugham, com o título de O agente secreto. Seu filme seguinte, por sua vez, baseava-se no livro O agente secreto, de Joseph Conrad, e, por razões óbvias, foi intitulado Sabotage (no  Brasil, seu título é uma jóia rara: O marido era o culpado). Curiosamente, anos mais tarde, já no seu período “americano”, Hitchcock faria um filme sábado Sabotador, que nada tem a ver com os outros dois. Esse labirinto para se estabelecer o que é o quê, qual é qual, esse risco de uma coisa não ser exatamente o que parece, bem poderia sair de um livro de do polonês , que passou a viver e escrever na Inglaterra, dividindo com Henry James o título de  Mestre da Ambigüidade na ficção.

O agente secreto do seu livro é Adolf Verloc. Mantendo uma loja em Londres, como fachada (além de uma família), ele trabalha para uma potência estrangeira. Sua missão, ao longo dos anos, foi permanecer em contato com círculos anarquistas e terroristas. Ao mesmo tempo, é um informante do Inspetor Heat, do Departamento de Crimes Especiais da polícia inglesa. Verloc é pressionado por um novo funcionário da embaixada do país para o qual trabalha a apresentar um motivo mais concreto por que deva ser mantido na folha de pagamentos. Resolve, então, preparar um atentado contra o Observatório de Greenwich, utilizando seu cunhado meio trelelé, Stevie, para carregar a bomba. O que acontece com essa bomba e Stevie, os efeitos que esse evento tem sobre madame Verloc, e em meio a isso tudo, a guerra de vaidade entre eminente “revolucionários” e também entre Heat e seu superior, o Comissário, são o assunto desse grande romance publicado em 1907 (e aqui traduzido por Laetitia Cruz de Moraes Vasconcellos [2]), e absolutamente pioneiro quanto à temática, como se pode observar.

Hoje em dia, depois de tantas tramas de espionagem (quer maniqueístas, quer ambivalentes), parece que não pode haver grande novidade ou interesse numa história desse tipo. Isso aconteceria se a ação fosse o interesse principal de Conrad. Não é. O que impressiona em O agente secreto é como a comédia humana em que Verloc se envolvia, um tanto abstratamente, um mundo de revolucionários paralisados e ociosos, perfeitamente inócuo, encaminha-se aos poucos para a tragédia. Ou seja, um agente de mentirinha acaba criando uma rede de situações problemáticas e pequenas conspirações ao seu redor), tal como Graham Greene (bastante devedor de Conrad) fará décadas mais tardes em Nosso homem em Havana. Só que no romance de Greene o agente era de mentirinha mesmo, enquanto que o senhor Verloc vive uma situação patética, um clima “revolucionário” que não ameaça nada, mas que justifica a sua atividade, a de Heat, do seu superior e dos conspiradores de embaixadas. Nessa atmosfera trágica, avulta Winnie Verloc.

Mas há toda a parte final, que não convém contar, embora não se possa deixar de chamar atenção para o fato de O agente secreto ser um dos mais cabais exemplos da poesia da cidade pós-baudelairiana, o uso da metrópole como espaço real e simbólico a um só tempo,  o que faz com que as cenas da vida doméstica de Verloc (com a esposa, o cunhado e a sogra) sejam  um ponto alto na produção admirável do autor de Sob os olhos do Ocidente, Nostromo, Lord Jim e O coração das trevas (o texto que inspirou Apocalipse now, de Coppola).Em se tratando do homem que escreveu esses textos, dizer que essa parte pode ser considerado um ápice da sua ficção é dizer que estamos no terreno da pura genialidade.


[1] Nota de 2010- Eu na verdade sobrepus a essa resenha de 1995, outra resenha, também publicada em “A Tribuna” , em 24 de fevereiro de 2007, em razão do centenário de O agente secreto, e que se iniciava assim:

Joseph Conrad nasceu há 150 anos. Além disso, uma das suas obras-primas, O agente secreto, torna-se centenária agora em 2007. O leitor brasileiro tem duas traduções disponíveis: a de Laetitia Cruz de Moraes Vasconcellos (cuja publicação mais recente é pela Imago) e a de Paulo Cezar Castanheiro (pela Revan).

Sobre Nostromo escrevi em 25 de dezembro de 2004, numa resenha sobre livros que se tornavam centenários naquele ano:

Em 1904, morria Anton Tchecov e estreava nos palcos sua obra-prima O jardim das cerejeiras. Não faltaram lançamentos tchecovianos (Minha vida, O duelo, A gaivota, As três irmãs) em 2004 para que se descobrisse o magnífico  (praticamente redefiniu os dois gêneros) contista e dramaturgo. No mesmo ano nasceu um escritor do calibre de Alejo Carpentier, pioneiro e expoente da melhor ficção latino-americana.

Dois romances incríveis de 1904 já foram comentados nesta minha coluna, Esaú e Jacó, de Machado de Assis, e A taça de ouro (The golden bowl), de Henry James. Ainda nesse ano, Romain Rolland iniciava um ciclo romanesco que iria marcar época, Jean-Christophe (completado em 1912). Ainda se trata de uma obra muito apegada ao espírito do século anterior, enquanto as de Machado e James representavam uma revolução, ao contrariar as expectativas do leitor quanto ao enredo e à psicologia dos personagens. Esse mesmo ímpeto revolucionário (que aparece mais discretamente, porém não menos decisivamente, em Tchecov) está presente nos agora também centenários O falecido Matias Pascal, de Luigi Pirandello, e Nostromo, de Joseph Conrad.

Embora com duas versões brasileiras (as de Mário Silva e Helena Parente Cunha), o genial livro de Pirandello anda sumido do mercado há alguns anos. Apresenta um narrador meio Brás Cubas,um herdeiro arruinado, um boa-vida extravagante (“não tinha aptidão para nada, e a nomeada que adquirira com minhas façanhas juvenis e a vida de vadio certamente não convidava ninguém a dar-me trabalho), que nos conta (apesar de não acreditar no ato de escrever livros) como morreu não uma, mas duas vezes: “Já posso considerar-me como que fora da vida, logo, sem obrigações nem escrúpulos de qualquer natureza”. Sempre brincando com o leitor (Como é que sei essas coisas? Ora, como sei. É boa!”), radicaliza uma postura narrativa que marcará o romance modernista. Matias Pascal parece não ter sofrido a influência do tempo. É uma leitura deliciosa.

Já não se pode dizer o mesmo do soberbo Nostromo (outro que tem joduas versões, a de José Paulo Paes e a de Donaldson M. Garschagen). Tal qual a outra obra-prima suprema de 1904, A taça de ouro, exige muito do leitor, inclusive a disposição de se aventurar por dilemas morais que parecem anacrônicos (será?). No entanto, trata-se de um visionário estudo do imperialismo, da passagem do domínio europeu para o norte-americano: a ação se passa em Costaguana, país da América Latina, em cuja cidade mais próspera, Sulaco, instala-se um casal inglês, os Gould, possuidor de uma mina de prata que catalizará a ação do romance. Durante uma daquelas recorrentes revoluções, nas quais surge um candidato a ditador, um carregamento de prata da mina é colocado nas mãos do capataz Nostromo (a alcunha vem da expressão “nosso homem”, pois ele goza da fama de homem de confiança e indispensável), que acaba ficando com o tesouro, o qual todos acreditam ter afundado.]

E o leitor de 2004 sente um arrepio ao se deparar com a visão que o poderoso milionário estadunidense, mr. Holroyd, principal investidor da mina, tem do destino do seu país: “O próprio tempo tem de esperar no maior país de todo o universo de Deus. Estaremos dando a palavra oficial com relação a tudo: indústria, comércio, direito, jornalismo, arte, política e religião, desde o cabo Horn até o Estreito de Smith, e até além dele, se aparecer no Pólo Norte alguma coisa que valha a pena controlar. E a seguir daremos tempo ao tempo, para tomarmos as ilhas oceânicas e os continentes da terra. Haveremos de dirigir os negócios do mundo, goste ou não o mundo.”

Nota de 2010- Eu quis manter o clima labiríntico proporcionado pelo próprio livro, nessa minha transcrição de resenhas, mas devo dizer que a mais sucinta e precisa das que se ocupam de O agente secreto, a meu ver, é justamente a de 2007. Porém, ainda há mais uma volta do parafuso, uma resenha publicada em 15 de junho de 2010, em razão da publicação de uma terceira tradução, e que segue muito de perto a versão de 2007, a não ser pelo início:

“Aqui todo mundo fala, imprime, conspira; e nada faz”, diz o Professor, sinistro artesão de bombas. É nesse mundo estagnado e conspiratório que se movimenta Adolf Verloc, o protagonista de O agente secreto, de Joseph Conrad, um clássico de 1907, que se tornou premonitório com o atentado às Torres Gêmeas, e lançado agora em edição bilíngüe pela Landmark.”

 

[2] Agora, em 1995, essa tradução passa a fazer parte de uma das melhores iniciativas editoriais dos últimos anos, a coleção Lazuli, a qual já publicou textos de Henry James, Flaubert, Nabokov e do próprio Conrad (Mocidade & O parceiro secreto)

03/08/2011

A admirável Julieta Cupertino e o gosto da Revan pela não-confiabilidade

Filed under: rapidinhas — alfredomonte @ 12:05
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É admirável que aos 103 anos Julieta Cupertino esteja em plena atividade, e traduzindo Joseph Conrad para a editora Revan. Menos admirável é que a editora malbarate esse trabalho com informações tão esdrúxulas que chegam a criar no leitor a desconfiança de que os seus responsáveis ficaram presos no visgo da não-confiabilidade, aquele tipo de foco de narrativo que mestres como James, Conrad e Machado de Assis nos legaram.

   Na recentíssima edição da tradução de Coração das Trevas de Julieta Cupertino há um preâmbulo editorial ridículo, em que lemos pérolas do tipo:

Almayer`s folly, que estava inédito no Brasil até a Revan publicá-lo em 1999, com o título de A loucura de Almayer” Não, não, não. O texto já fora traduzido por Virginia Lefebvre para a Boa Leitura com o título de Perdição.

   A desinformação acima pode ser resultado de mera ignorância. Mas a próxima só pode ser má-fé:

Vitória–também publciado pela primeira vez no Brasil”.

  Já existiam duas traduções de Vitória no Brasil, uma delas impossível de desconhecer já que lançada pela Globo e feita por Mário Quintana, e a outra pela Francisco Alves, e assinada por Marcos Santarrita.

 E essa pérola suprema:

“e agora Coração das trevas, igualmente inédito no país na forma de título com texto integral e volume único”

   E logo a seguir, na página subsequente, lemos: “Há diversas traduções desta obra, publicadas no Brasil e em Portugal…” !!!

    Por que, ao invés dessas abobrinhas, não lançaram uma nova tradução (não será inédita também) de Sob os olhos do Ocidente, que se torna um romance centenário agora em 2011. Que oportunidade perdida!

   Que fique claro que essa minha diatribe nada tem a ver com o trabalho específico de madame Cupertino.

26/11/2010

“digamos… para comodidade narrativa”

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/um-terrivel-obstaculo-o-centenario-de-sob-os-olhos-do-ocidente-de-joseph-conrad/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/joseph-conrad-medo-da-anarquia-politica-e-reconhecimento-da-anarquia-interior/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/o-romance-das-ilusoes-de-joseph-conrad-marlow-mar-e-memoria/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/as-margens-derradeiras-aprisionados-pelo-inacreditavel/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/31/o-fim-da-linha-para-a-aventura/

(publicada originalmente em 12 abril de 2008 em  A TRIBUNA de Santos, como resenha comemorativa dos quinze anos da minha coluna semanal)

CONRAD E A ERA NAPOLEÔNICA

Há exatamente cem anos, Joseph Conrad reuniu seis histórias numa coletânea chamada A Set of Six. Uma delas, a mais famosa, O Duelo, enfim encontra-se  traduzida no Brasil, trinta anos depois de sua bonita adaptação cinematográfica (Os Duelistas) ter revelado o estreante diretor Ridley Scott, que realizaria depois dois marcos do cinema, Alien, o oitavo passageiro e Blade runner, para depois, bem, depois…[1]

O grosso da ação se passa durante as guerras napoleônicas, no início do século XIX. Um tenente truculento e plebeu, Feraud (do sul da França), é procurado por um oficial da mesma patente (e nascido no norte, entre outras diferenças polarizadoras), o fidalgo D´Hubert, sob ordens superiores, devido a um duelo irregular com um civil que poderia virar escândalo. Ao ser detido por D´Hubert, Feraud o responsabiliza pessoalmente pela “injustiça” que estariam cometendo contra ele. A partir daí, conforme o tempo vai passando (começam a trama com 26 anos e os acompanhamos até os 40) e vão subindo de patente (até que a derrocada do império e o exílio de Napoleão arruínem a carreira de Feraud), eles se enfrentam em diversas oportunidades, com um interregno de insólita camaradagem em terras russas, num dos momentos mais penosos do exército francês.

Ninguém compreende a razão da pendenga. E se o rancor move Feraud (que fica nos calcanhares do adversário, para se igualar a ele em qualquer promoção), o sentimento de honra que faz com que D´Hubert sempre consinta nas convocações dos padrinhos para os confrontos, é a camada mais superficial para algo mais irracional e primordial.

O duelo contínuo entre ambos é um exemplo da convulsão social da França pós-revolucionária, já que a situação os iguala, o plebeu e o fidalgo. O tio da noiva de D`Hubert (um nobre do ancien régime) não compreende por que ele tem de se deixar arrastar por um sujeito que é “ninguém” (Não há qualquer razão terrena para um D´Hubert se acanalhar por causa de um duelo com uma pessoa dessa extração… essa gente não existe). Resposta: “O senhor não imagina como esse duelo é terrível para mim. E não há modo de livrar-me dele”.  

 O Duelo é mais uma volta do parafuso no fascínio de Conrad pelos dilemas cavalheirescos, e a aproximação perversa que ele fazia da honra com o descrédito e a infâmia (temas recorrentes em Lord Jim, Chance- A força do acaso ou Nostromo). De certa forma, ele se serve da mobilidade social da era napoleônica para enquadrar suas obsessões. Jorge Luis Borges, em Tema do Traidor e do Herói, uma das suas melhores e mais fantasmáticas Ficções (que, entretanto, gerou um filme muito talentoso de Bertolucci, A estratégia da aranha[2]), diz que imaginou “este argumento, que talvez escreva… Faltam pormenores, retificações, ajustes; há zonas da história que ainda não me foram reveladas; hoje, 3 de janeiro de 1944, vislumbro-a assim. A ação transcorre num país oprimido e tenaz: Polônia, Irlanda, a República de Veneza, algum Estado sul-americano ou balcânico… Digamos (para comodidade narrativa) Irlanda; digamos 1824.” Conrad fez o mesmo, mas envolveu sua fábula obsessiva com tantos detalhes realistas e com tal sentimento de época que sua “comodidade narrativa” quase nos engana completamente, assim como a do Tolstói de Khadji-Murát.

ADENDO de 2010:

Salvo engano, há atualmente três versões brasileiras de The duel: a de Julieta Cupertino para a Revan, a que foi comentada na resenha acima, a de André de Godoy Vieira, publicada pela L&PM com o título Os duelistas, decerto por causa do filme, e a de Cláudio Figueiredo (creio que a primeira delas), a qual aparece na antologia Mestre de Armas, publicada pela Companhia das Letras (em abril de 2007), e que reúne seis histórias que orbitam em torno da questão do duelo: além da de Conrad, histórias de Arthur Schnitzler, Maupassant, Heinrich von Kleist, Turguêniev e Nabokov.

Abaixo uma mostra de cada uma delas:

 

O general d`Hubert foi para casa com passos largos, apressados, mas de forma alguma enaltecido por um sentimento de triunfo. Ele havia conquistado, e no entanto não lhe parecia ter ganho muito com sua conquista. Na noite anterior reconhecera de má vontade o risco de sua vida, que lhe parecia magnífica, digna de ser preservada como uma oportunidade de ganhar o amor de uma jovem. Houve momentos em que, por uma maravilhosa ilusão, esse amor já parecia ser seu e sua vida ameaçada, uma oportunidade ainda mais magnífica de dedicação. Agora que sua vida estava salva, ela subitamente perdera sua magnificência especial. Em vez disso, adquirira o aspecto especialmente alarmante de uma cilada para a exibição do seu desmerecimento.  Quanto à maravilhosa ilusão de amor conquistado, que o visitara por um momento na sagrada vigília da noite anterior—que poderia ser a sua última noite no planeta—,ele compreendia agora a sua verdadeira natureza. Fora apenas um paroxismo de amor-próprio delirante. Assim, para esse homem, a quem a vitória num duelo havia devolvido a moderação, a vida mostrou-se destituída de encanto, simplesmente porque não estava mais ameaçada”. (versão de Julieta Cupertino);

“O general D´Hubert voltou para casa a passos largos e apressados, de modo algum enaltecido pela sensação de triunfo. Saíra vitorioso e, contudo, tinha a impressão de que não lucrara muito com sua vitória. Na noite anterior, lamentara ter de arriscar uma vida que lhe parecia magnífica, digna de ser preservada, em nome da oportunidade de conquistar o amor de uma jovem. Experimentara momentos em que,  por força de uma maravilhosa ilusão, esse amor parecia já lhe pertencer, e a vida ameaçada, uma oportunidade ainda mais magnífica  de devoção. Agora que estava salva,  perdera de súbito sua especial magnificência. Em contrapartida, adquirira o aspecto  particularmente alarmante de uma cilada preparada para expor a própria indignidade. Quanto à maravilhosa ilusão de amor conquistado que o visitara por alguns instantes em meio à agitada vigília da noite—noite que bem poderia ter sido sua última na Terra—,ele compreendia agora a sua verdadeira natureza. Não havia sido mais que o paroxismo de sua vaidade delirante. De modo que para esse homem, tornado sóbrio pelo desfecho vitorioso de um duelo,  a vida afigurava-se despojada de seu encanto simplesmente por já não estar ameaçada”. (versão de André de Godoy Vieira);

“O general D´Hubert caminhava de volta para casa com passadas largas e apressadas, de modo algum animado por uma sensação de triunfo. Ele havia sido vitorioso, mas ainda assim não lhe parecia que tinha conquistado muito com sua vitória. Na noite anterior ele havia reconhecido que valia a pena preservar o risco que sua vida corria—e lhe parecia muito grande—como oportunidade para conquistar o amor de uma jovem. Ele tinha vivido momentos em que, graças a uma maravilhosa ilusão, esse amor já parecia ser seu, e sua vida ameaçada, uma oportunidade ainda mais magnífica de devoção.  Agora que estava salva, sua vida de repente tinha perdido sua grandeza especial. Em vez disso, havia adquirido a aparência, especialmente alarmante, de uma cilada para revelar o quanto era sem valor.  Quanto à maravilhosa ilusão de um amor conquistado que o havia visitado por um momento durante a agitada vigília à noite, que bem poderia ter sido sua última na Terra,  ele agora compreendia sua verdadeira natureza. Tinha sido apenas o paroxismo  de uma presunção delirante. Assim, para esse homem, tornado sóbrio  pelo desfecho vitorioso de um duelo, a vida surgia agora despida do seu encanto, simplesmente porque não estava mais ameaçada”. (versão de Cláudio Figueiredo).


[1] Confesso que não acho que o filme reproduza a intensidade e força do texto. Já não o achava o rival que diziam à altura do Barry Lindon de Kubrick, e depois de ler a novela, essa opinião se fortaleceu. Antes, porém, eu cheguei a atribuir certa ligeira tibieza da versão de Scott por conta da falta de carisma e presença de Keith Carradine, como D´Hubert, um ator que nunca me convenceu muito, principalmente quando jovem. Mas se pensarmos que no filme de Kubrick o astro é o também insosso Ryan O´Neal e isso não compromete em nada a densidade da história….

[2] Que só não é irretocável por causa daquelas esquisitices que parecem fazer parte de todos os filmes de Bertolucci, até os melhores. No caso, me incomoda a composição da personagem de Alida Valli, que em certos momentos beira o ridículo. No mais, o filme é brilhante, especialmente o final.

31/10/2010

O FIM DA LINHA PARA A AVENTURA?

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/o-marido-era-o-culpado-mesmo/

https://armonte.wordpress.com/2011/11/18/um-terrivel-obstaculo-o-centenario-de-sob-os-olhos-do-ocidente-de-joseph-conrad/

https://armonte.wordpress.com/2010/11/26/digamos-para-comodidade-narrativa/

https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/as-margens-derradeiras-aprisionados-pelo-inacreditavel/

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https://armonte.wordpress.com/2010/10/29/o-romance-das-ilusoes-de-joseph-conrad-marlow-mar-e-memoria/

Num ensaio sobre os caminhos e os descaminhos do romance ao longo de sua história (A herança depreciada de Cervantes, em A arte do romance), Milan Kundera se pergunta sobre o que aconteceu com “a aventura, este primeiro grande tema do romance?”.

    Na alta ficção, a aventura tornou-se a obra de Joseph Conrad, na qual  se equaciona com dilemas morais, como é o caso do inesquecível capitão Whalley, protagonista de O fim das forças, que faz parte da iniciativa da editora Revan de divulgar as histórias conradianas em versões de Julieta Cupertino, e que poderia ser traduzido como O fim da linha (um título mais preciso para The end of the tether), tanto para Whally quanto para a aventura. Mas quem teve a idéia da concepção visual dos livros de Conrad na Revan, que parece destinada a atrair atavicamente o leitor juvenil que ainda existe em nós?

Em O fim das forças, Whalley (que comanda navios no Oriente) perdeu quase todo seu capital na falência de um bairro, embora achasse que, ainda assim, teria uma aposentadoria tranqüila, com uma modesta embarcação de sua propriedade.

Ivy, sua filha, fez péssimo casamento e necessita de dinheiro, e o pai é obrigado a vender seu barco e e se tornar comandante, investindo seu dinheiro como sócio, do precário vapor Sofala. Aliás, a narrativa se inicia já nos apresentando oWhalley três anos depois, em meio à rota comercial do Sofala, e ele está perto do final do contrato, o que lhe permitirá recuperar o capital investido.

Isso o indispõe com o proprietário do navio, Massy, homem histérico, ressentido e viciado numa loteria do Oriente, que acredita que Whalley quer largar o comando e resgatar seu capital só por mesquinharia (ele nem suspeita que o digno capitão tenha apenas esse dinheiro que empatou por três anos, e que lhe é sagrado, não é “dele” e sim da filha), e começa a maquinar um meio de afundar criminosamente o vapor, por causa do seguro.

Já seria demais um livro com dois personagens extraordinários, como Whalley e Massy. O fim das forças oferece ainda mais dois: o Sr  Van Wyk—proprietário ao longo da rota do Sofala que se afeiçoa a Whalley, numa daquelas comoventes amizades cavalheirescas e “pisando em ovos”, tão características dos livros de Conrad—e o imediato Sterne, um ambicioso de mira curta (quer comandar o Sofala), descobridor do segredo do comandante, que Massy sequer percebeu, em seu rancor: Whalley está praticamente cego e só consegue levar o vapor em frente graças ao seu fiel ajudante malaio.

Além do clima conspiratório e desmoralizador em que se movem os três tripulantes do Sofala (envolvendo Van Wyk), é na cegueira progressiva que Whalley tem de esconder que se destila toda a tragédia da aventura, na feição que adquiriu com o insuperável escritor polonês cuja obra pertence à literatura inglesa: Whalley é o protótipo do herói, nobre e cavalheiresco: “honrosamente conhecido por toda uma geração de donos de navios e comerciantes, em todos os portos, desde Bombaim até onde o Leste se une ao Oeste sobre as costas das duas Américas. Sua fama foi registrada, sem muito destaque, mas com bastante clareza, nos mapas do Almirantado”.

Tendo de manter a farsa para resgatar o capital que deseja legar à filha, ele se projeta do heróico para o trágico, pois acaba se destruindo internamente no que tinha de mais autêntico, no que o fazia ser ele mesmo, embora se mantenha por fora todo o aparato de dignidade inabalável, para exasperação de Massy e admiração de Van Wyk. Por isso, a saída é o suicídio, isto é, perecer com o vapor quando afunda: “…por causa de Ivy, ele havia resistido, a caminhar dentro da sua escuridão até ficar à beira de um crime. Deus não ouvira suas preces. A luz havia desaparecido, o refluir do mundo; sequer um bruxuleio, era uma vastidão escura. Mas era indecoroso que um Whalley, que havia resistido tanto, continuasse a viver. Ele devia pagar o preço”.

E assim ele cumpre o mau augúrio que marca a noite em que está para decidir seu engajamento no Sofala: ’…e o tempo todo uma sombra caminhava junto com ele, enviesada à sua esquerda—o que, no Oriente, é presságio do Mal”.

(resenha publicada originalmente em 13 de novembro de 2001, em “A Tribuna” de Santos)

29/10/2010

O “romance das ilusões’ de joseph conrad: MARLOW, MAR E MEMÓRIA

Para quem gosta de ler, um dos maiores prazeres da vida é a ficção de Joseph Conrad, a respeito da qual esta minha coluna, sem que eu saiba muito bem o porquê, tem se mostrado bastante avara, com apenas um artigo (sobre O agente secreto) e a inclusão de Nostromo entre os dez maiores romances do século XX.

Julieta Cupertino, por sua vez, pretende traduzir a obra completa de Conrad para a editora Revan, que chegou ao exagero de apresentar como inéditos textos que não o são, como A loucura de Almayer, já traduzido por Virgínia Lefévre com o título Perdição (editora Boa Leitura). Desse projeto, o mais recente lançamento é JUVENTUDE (Youth), novela escrita em 1898, e que o leitor brasileiro já conhecia como Mocidade, na bela versão de Maria Ercília Galvão Bueno, publicada pela Imago na coleção Lazuli (junto com uma das maiores obras-primas do grande escritor anglo-polonês, O parceiro secreto).

JUVENTUDE pertence a uma vertente conradiana que poderíamos chamar mar e memória, na qual se destaca Charlie Marlow, o narrador que relata experiências marítimas ocorridas há muitos anos, “nos bons velhos tempos”, antes de a Terra parecer diminuir e uma sombra moral encobrir a empreitada colonialista na África, na Ásia e na Oceania.

Em Karain, uma recordação, um dos maravilhosos Contos de inquietude (Tales of unrest), o narrador (Marlow?), ao ler nos jornais notícias hipócritas sobre alguma região remota, afirma: “Brilha o sol entre as linhas desses parágrafos curtos, sol e as cintilações do mar, um nome estranho desperta recordações. As palavras impressas rescendem a atmosfera fumarenta de hoje com o sutil e penetrante perfume das brisas de terra, soprando pelas noites estreladas de antanho”.  E o grande caminho para esse mundo remoto é o mar, que se associa, no simbolismo narrativo, à memória.

Ao narrar, em JUVENTUDE, sua primeira viagem para o Oriente, aos 22 anos, como segundo imediato do navio Judea, que deve transportar carvão da Inglaterra para Bangkok, o quarentão Marlow na verdade revela para os seus ouvintes (os mesmos de O coração das trevas) uma dessas /’viagens que parecem encomendadas para a ilustração da vida, que deviam ficar como um símbolo da existência/’ e que, portanto, só adquirem pleno sentido na memória.

O Judea é azarado: logo depois de zarpar, apanha uma tempestade e tem de passar meses num píer para reparos, com dificuldade de conseguir tripulação. Quando chega ao Atlântico, enfrenta um tufão. Volta para a Inglaterra. Novos reparos e novos problemas com a tripulação, até partir de novo. No meio da viagem, o carregamento se incendeia, parte do navio explode e ele acaba afundando.

Nesse percurso (ou percalço), Marlow passa a amar o navio, que se funde (na memória) à idéia de juventude: “Ah, juventude! A força, a fé, a imaginação disto! Para mim aquele navio não era apenas uma velha arapuca barulhenta levando uma carga de carvão para um frente, para mim ele era a façanha, a prova, o teste da vida. Penso nele com prazer, com afeição, com pesar, assim como pensamos em algum mortos que tenhamos amado. Nunca o esquecerei”.

É incrível a maneira plástica como Conrad delineia as experiências a bordo do Judea, que levarão Marlow a chegar no Oriente de forma inusitada (e comandando uma embarcação!), e também as figuras a bordo: capitão Beard, sua bondosa esposa, o imediato Mahon, o piloto Jermyn, que desconfia da juventude do narrador (“eu diria que ele tinha razão. Parece-me que eu sabia muito pouco naquela época, e que não sei muito mais, agora”), o servente Abraham, o qual fica lunático, etc.

Alguns deslizes de revisão atrapalham um pouco a beleza do texto. Logo na primeira página, informa-se que um dos ouvintes de Marlow estudou no navio-escola Conway, e o que se lê na edição (bilíngüe) da Revan é grotesco: “O diretor tinha sido passado pelo Conway”!!!???

No prefácio de O negro do Narciso (obra da mesma fase), amiúde citado, Conrad escreveu: “A tarefa que venho procurando cumprir é a de fazer com que, pela força da palavra escrita, você seja capaz de escutar, seja capaz de sentir,  e acima de tudo de enxergar”.

JUVENTUDE é um texto leve, apesar do tom elegíaco de adeus à mocidade, e um dos menos complicados do ponto de vista narrativo (Conrad revitalizou e enriqueceu o relato feito numa roda de conversa, muito comum na época). É dos textos em que o leitor tem menos trabalho para “escutar, sentir e acima de tudo enxergar”. Nada mais simples e eficaz do ponto de vista poético do que as afirmações de Marlow sobre sua chegada ao Oriente, embora não exatamente no amado e malfadado Judea: “para mim todo o Oriente está contido naquela visão de minha juventude. Tudo está naquele momento em que abri meus olhos jovens para ele. Eu o encontrei numa peleja com o mar—e eu era jovem—e o vi olhando para mim. E isto é tudo o que resta dele. Apenas um momento; um momento de força, de romance, de encanto—ah! Juventude!—…Um risco de sol sobre uma praia desconhecida, o tempo de lembrar; o espaço de um suspiro e adeus!”

     Marlow ganharia um tom mais enviesado e a sombra moral que o contamina se acentuaria em textos como O coração das trevas e Lord Jim, que também são da mesma fase.

As derradeiras linhas de JUVENTUDE são as seguintes: “…procurando sempre, procurando ansiosamente por alguma coisa fora da vida, que enquanto é esperada já se foi… junto com a juventude, com a força, com o romance das ilusões”. Nas últimas semanas, o romantismo da desilusão que desabrochou no romance do século XIX, segundo Lukács (A teoria do romance), foi assunto desta coluna. Jovem, Marlow chega ao Oriente acreditando na aventura, no mundo aberto à sua volta. Sabemos, pelo desenvolvimento da obra de Conrad, o que aconteceu a esse “romance das ilusões”…

(resenha publicada originalmente em 21 de agosto de 2001, em “A Tribuna” de Santos)

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As Margens Derradeiras: “Aprisionados pelo inacreditável”

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  20 de novembro de 2001)

“… o contato com a pura selvageria não mitigada, com a natureza primitiva e o homem primitivo, trazem uma perturbação súbita e profunda ao coração. Ao sentimento de estar isolado, à clara percepção de solidão em seus pensamentos e sensações –a negação do habitual que é seguro—, junta-se a afirmação do inusitado, que é perigoso,  uma sugestão de coisas vagas, incontroláveis e repulsivas,  cuja intrusão desconcertante excita a imaginação e gasta os nervos civilizados, tanto dos tolos como dos inteligentes”.

O trecho acima é de Um posto avançado do progresso, notável conto de Joseph Conrad (1857-1924), que narra o processo de loucura, “uma sensação inarticulada de que havia se desvanecido qualquer coisa dentro deles”, de dois encarregados de um entreposto comercial na África Central.

Para Conrad, esse texto era a “parte mais leve” (!) de uma preocupação que gerou também o similar e ainda mais sombrio O coração das trevas.  Publicado em livro em 1902, é atualmente o mais estudado e famoso de seus textos, sem falar da transposição de seu enredo para o Vietnã dos anos 60 do século XX no incrível Apocalipse Now (1979), de Coppola. E é preciso não esquecer que a primeira incursão cinematográfica de Orson Welles seria a sua adaptação (o capítulo inicial de  Cidadão Kane- o making of, de Robert L. Carringer, detalha muito bem o projeto, inclusive com os desenhos dos cenários).

Também é um dos mais traduzidos: em 1984, houve três versões (de Marcos Santarrita, de Hamilton Trevisan e de Regina Regis Junqueira, para as editoras Brasiliense, Global e Itatiaia, respectivamente). Agora em 2001 novo boom das trevas conradianas: além da versão de Albino Poli Jr. para a L&PM, foi lançada a versão de Julieta L. Freitas, pela Nova Alexandria (e está prometida a de outra Julieta, a Cupertino, para a Revan, editora que está lançando sistematicamente a obra de Conrad). Dos já lançados, a da Nova Alexandria é decerto a mais fraca, a mais aguada, a que tem as soluções mais chochas, além de alguns trechos que ficaram quase incompreensíveis e que denotam erros de interpretação de um texto intrincado. Eu prefiro, entre todas, a de Regina Regis Junqueira, e me dei ao trabalho de ler essa nova versão até o fim  só para constatar como a força simbólica de O coração das trevas resiste até aos tradutores  mais destrutivos, e como também essa força simbólica continua sendo um desafio e um problema para o leitor.

Pois ainda que seja uma obra-prima, um texto-ícone, é difícil de ler O coração das trevas. São cem páginas que parecem quinhentas. Não porque a narrativa seja chata e arrastada, mas por estar saturada de simbolismo. Não apenas na intenção, como também no próprio movimento discursivo, praticamente em cada parágrafo. Uma simples visita de Marlow (o narrador principal, uma espécie de procurador da visão conradiana da vida) aos escritórios da Companhia onde acertará sua contratação como comandante de um vapor que faz a ligação entre entrepostos comerciais no rio Congo (descobrindo que um deles foi, digamos, “afetado” pela loucura do responsável, o senhor Kurtz) é carregada de presságios, signos da morte e do destino (a velha tricotando, que lembra de imediato uma das Parcas da Antiguidade). Mesmo no início do livro, narrado por um amigo de Marlow, o Tâmisa e Londres ao crepúsculo são descritos em termos que evocam a batalha da luz contra as trevas, do esforço civilizatório contra a barbárie. São dois exemplos óbvios de um discurso sobrecarregado.

Também, trata-se de um livro sobre o Mal, sobre o que acontece quando “se desvanece qualquer coisa” dentro de nós e a casca civilizatória hipócrita (pois movida pela ganância e pelo desejo de espoliar) cai por terra. Kurtz, colonizador que se torna um deus cruel e perverso para os nativos da região onde se faz a exploração de marfim, enlouquece porque a selva “lhe sussurrara coisas a seu respeito que ele próprio ignorava, coisas sobre as quais não suspeitara até o momento em que pediu conselho à grande solidão –e o sussurro revelou-se de uma fascinação irresistível. Ecoou profundamente, porque o senhor Kurtz estava oco”.

Não basta a Conrad descrever a loucura do oco senhor Kurtz (estragada no filme de Coppola –e certamente é o seu ponto fraco— pela canastrônica e quase ridícula aparição de Marlon Brando, que impressiona muito menos que o esquálido fantasma do livro, mais uma voz do que um homem). Interessa a ele mostrar seu efeito sobre o narrador, pois assim o horror se intensifica: “a alma dele endoidara. Sozinha na selva, olhara para dentro de si mesma, digo a vocês, ficara doida, meu Deus! Para pagar meus pecados, eu suponho, tive de passar pela prova de olhar para dentro dela também”.

O Mal que habita o coração das trevas (será que é mesmo na África Central que ele se localiza?) nos é transmitido de uma forma que rompe os limites do raciocínio lógico e do realismo convencional: “Vêem a história? Vêem alguma coisa? Parece até que estou tentando transmitir o conteúdo de um sonho para vocês –tentativa inútil, porque ao contar o conteúdo do sonho não transmito o conteúdo do sonho, aquele emaranhado de absurdo, surpresa e angústia envoltos num tremor de distorcida revolta, a sensação de estarmos aprisionados pelo inacreditável, que é a verdadeira essência dos sonhos…” E, aprisionados pelo inacreditável, no processo de “ver”, lendo, o pesadelo de Marlow, alguma coisa se desvanece dentro de nós também.

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