MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

01/07/2014

Redescobrindo “O Homem Duplicado” de Saramago

saramago O-Homem-Duplicado-1enemy1

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 01 de julho de 2014)

Quem não leu O Homem Duplicado — que até agora eu considerava o mais fraco entre os romances de José Saramago[1] — pode pensar que o diretor canadense Dennis Villeneuve (utilizando um roteiro de Javier Guillón) mexeu muito na trama. No geral, entretanto, a versão cinematográfica (em cartaz no momento) manteve-se fiel ao original, com pequenas transposições, simplificações convincentes e uma curiosa gravidez da esposa do duplo. Pena que o único elemento diferencial importante (as recorrentes aranhas) tenha sido utilizado de forma tão grosseira e tosca. O que poderia ser uma realização digna dos claustrofóbicos filmes de Polanski acaba flertando com o lado mais discutível (e de mau gosto) do universo de um David Lynch (com um toque cronemberguiano), mesmo nos seus melhores trabalhos. Uma pena, se lembrarmos da entrega de Jake Gyllenhaal aos seus dois personagens, da fotografia e da maneira como ele filma o espaço urbano.

Mesmo assim, Enemy valeu por me fazer revisitar o livro, E não é que gostei bastante de O Homem Duplicado doze anos após seu lançamento (no ano em que o admirável escritor português chegava aos oitenta)?

Como se sabe, o professor de história Tertuliano Máximo Afonso (o qual, apesar do nome pomposo, assaz repetido página a página, sempre de forma completa, é um indivíduo apagado, vivendo uma existência desbotada) descobre através de um vídeo alugado um sujeito (ator com irrisória participação em diversas produções) em tudo semelhante a ele. Utilizando alguns expedientes, narrados com minúcia, fica sabendo o nome, o telefone o endereço de António Claro (cujo nome artístico é Daniel Santa-Clara). Ao entrar em contato, desestabiliza-lhe o casamento, já minado, saberemos depois, por várias infidelidades (o filme se apressa em esclarecer de saída esse lado menos simpático).

A inusitada aparição de Tertuliano Máximo Afonso parece (com o detalhe importantíssimo da preocupação em estabelecer quem é o “protótipo” e quem é a “imitação”) acionar em António Claro a mola da rivalidade, com certos requintes de perversidade: resolve tomar Maria da Paz, que é apaixonada pelo professor, e cujas tentativas em entrar mais profundamente na vida dele esbarram na sua relutância, como amante —como uma espécie de desagravo de macho, fazendo-se passar pelo outro (não sem antes informá-lo e até ameaçá-lo). Será uma decisão trágica, que impedirá, entre outras coisas, que Tertuliano retome a própria vida.

Ainda persiste a impressão de que Saramago caprichou mais nas pesquisas de seu protagonista com relação ao ator (o primeiro contato ocorre apenas na pág. 195, de um total de 316, na edição brasileira[2]) e depois precipita demais os eventos (aliás, uma desarmonia gritante em seus romances pós-Nobel, à exceção de A Viagem do Elefante, que considero uma de suas obras-primas). Mas não tacharia mais de bisonha a solução final, como se me afigurou na primeira leitura. O que ainda continua meio estranho é o afloramento súbito de uma sordidez (o lado cafajeste) que então parece característica de António Claro (nesse ponto, é preciso reconhecer que o filme preparou com mais inteligência estratégica esse comportamento — que serve para enfatizar a condição de inimigos entre os dois, já que um deles está “sobrando”).

É impossível não se divertir com a questão dos disfarces, ou não reconhecer que, mais uma vez, Saramago se mostra um mestre nas personagens femininas (Maria da Paz; Helena, a esposa; a mãe de Tertuliano). Seu maior feito, e dou a mão à palmatória por não ter reconhecido isso, é ter se safado do déjà vu do tema do doppelganger (da duplicação), com larga tradição na literatura, ao mostrá-lo tão entremeado ao irrisório do dia a dia, ao paradoxo capitalista de incutir o fetiche da individualidade, de ser “único”, quando tudo contraria essa ilusão: a uniformidade das experiências, o alcance tentacular das obrigações, laços muitas vezes forçados e da nossa “fisionomia social”, o nosso “nome”, por assim dizer.

Como heróis, somos atores de terceira categoria, parece dizer o irônico autor de Ensaio sobre a Cegueira. A dimensão política é tão forte quanto a voragem existencial evidenciada pelo relato. Afinal, ele mesmo já afirmou que hoje mais importante que o nome é o número do cartão de crédito.

the-double16631844_nbHpB

Alguém poderá replicar: que observação mais óbvia! E justamente, caro alguém, aí reside o que O Homem Duplicado tem de melhor: ao invés de ser uma diluição do estilo saramaguiano, ele representa sua depuração madura, essa voz narrativa que se cristalizou, tornando-se inconfundível — ao  mesmo tempo em que faz um relato[3], se vale do senso comum para interpelar seu personagem, e que utiliza certo prosaísmo “chão”  como motor para o discurso narrativo[4].

Como neste trecho maravilhoso: “Também em tempos que já lá vão, houve na terra um rei, considerado de grande sabedoria que, em um momento de inspiração filosófica fácil, afirmou, supõe-se que com a solenidade inerente ao trono, que debaixo do sol não havia nada de novo. A estas frases não convém tomá-las nunca demasiadamente a sério, não se dê o caso de as continuarmos a dizer quando tudo à nossa volta já mudou e o próprio sol já não é o que era. Em compensação, não variariam muito os movimentos e os gestos das pessoas, não só desde o terceiro rei de Israel como também desde aquele dia imemorial em que um rosto humano se apercebeu pela primeira vez de si mesmo na superfície lisa de um charco e pensou, Este sou eu. Agora, onde estamos, aqui, onde somos, decorridos que foram quatro ou cinco milhões de anos, os gestos primevos continuam a repetir-se monotonamente, alheios às mudanças do sol e do mundo por ele iluminado, e se de algo ainda necessitássemos para ter a certeza de que assim é, bastar-nos-ia observar como, diante da lisa superfície do espelho da sua casa de banho, António Claro ajusta a barba que havia sido de Tertuliano Máximo Afonso com os mesmos cuidados, a mesma concentração de espírito, e talvez um temor semelhantes àqueles com que ainda não há muitas semanas, Tertuliano Máximo Afonso, noutra casa de banho e diante de outro espelho, havia desenhado o bigode de António Claro na sua própria cara. Menos seguros porém de si mesmos que o seu bruto antepassado comum, não caíram na ingênua tentação de dizer, Este sou eu, é que desde então os medos mudaram muito e as dúvidas ainda mais, agora, em vez de uma afirmação confiante, o único que nos sai da boca é a pergunta, Este quem é…” Ou então: “e agora vai dizer a Helena a palavra que ainda falta para que a incrível história dos homens duplicados se acabe de uma vez e a normalidade da vida retome o seu curso, deixando as vítimas atrás de si, conforme é uso e costume.

No final, os que somos leitores apaixonados de sua obra (creio que a experiência de ler O Homem Duplicado satisfará menos quem o pegar como introdução a ela) descobrimos a pólvora pela milésima vez: as pessoas podem ser duplicadas (miragens de territorialidade individual à parte), o estilo saramaguiano é único.

O Homem Duplicado José Saramago Lídia Jorgeenemy-teaser-trailer-09202013-145307

NOTAS

[1] Tive a impressão que ele estava imitando o próprio estilo, que já mostrava sinais de desgaste, mercê da produção ininterrupta.

Sobre outros romances pós-Nobel de Saramago, VER AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/05/20/saramago-e-as-paisagens-alegoricas/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/09/atos-de-insurreicao-etica-segunda-parte-ensaio-sobre-a-lucidez/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/08/a-molecagem-do-sisudo-saramago-caim/

[2] Agora também há uma edição de bolso.

[3] A própria intervenção do narrador é muito característica:

“Por respeito à verdade, devemos dizer que António Claro, até agora, e apesar das inúmeras voltas dadas ao assunto, não conseguiu chegar a um traçado razoavelmente satisfatório de um plano de ação merecedor desse nome. No entanto, o privilégio de que gozamos, este de saber tudo quanto haverá de suceder até à última página deste relato, com exceção do que ainda vai ser preciso inventar no futuro, permite-nos adiantar que o ator Daniel Santa-Clara fará amanhã uma chamada telefônica para casa de Maria da Paz, nada mais que para saber se há alguém, não esquecer que estamos no verão, tempo de férias…”

   De passagem, não é ocioso chamar a atenção para o fato de que Saramago brinca brilhantemente com a metalinguagem, de forma simples e natural, sem fanfarras, como na passagem abaixo (quando Tertuliano volta para casa, após uma viagem de visita à casa da mãe), onde de raspão ele ainda dá um peteleco no creacionismo que propõe um design inteligente da criação do mundo:

“De acordo com as convenções tradicionais do gênero literário a que foi dado o nome de romance e que assim terá de continuar a ser chamado enquanto não se inventar uma designação mais conforme às suas atuais configurações, esta alegre descrição, organizada numa sequência simples de dados narrativos em que, de modo deliberado, não se permitiu a introdução de um único elemento de teor negativo, estaria ali, arteiramente, a preparar uma operação de contraste que, dependendo dos objetivos do ficcionista, tanto poderia ser dramática como brutal ou aterradora, por exemplo, uma pessoa assassinada no chão e ensopada no seu próprio sangue, uma reunião consistorial de almas do outro mundo, um enxame de abelhões furiosos de cio que confundissem um professor de História com a abelha-mestra, ou, pior ainda, tudo isto reunido em um só pesadelo, uma vez que, como se tem demonstrado à saciedade, não existem limites para a imaginação dos romancistas ocidentais, pelo menos desde o antes citado Homero, que, pensando bem, foi o primeiro de todos eles. A casa de Tertuliano Máximo Afonso abriu-lhe os baços como uma outra mãe, com a voz do ar murmurou, Vem, meu filho, aqui me encontras à tua espera, eu sou o teu castelo e o teu baluarte, contra mim não vale nenhum poder, porque sou tua mesmo quando estás ausente, e mesmo destruída serei sempre o lugar que foi teu. Tertuliano Máximo Afonso pousou a mala no chão e ligou as luzes do teto. A sala estava arrumada, sobre os tampos dos móveis não havia um grão de pó, é uma grande e solene verdade que os homens, mesmo vivendo sozinhos, nunca conseguem separar-se inteiramente das mulheres, e agora não estávamos a pensar em Maria da Paz, que por suas pessoais e duvidosas razões, apesar de tudo o confirmaria, mas à vizinha do andar de cima, que ontem passou aqui toda a manhã a limpar, com tanto cuidado e atenção como se a casa fosse sua, ou mais ainda, provavelmente, que se o fosse. O gravador de chamadas tem a luz acesa (…) a terceira chamada era a que António Claro deixou no outro dia, a que começava assim, Boas tardes, fala António Claro, calculo que não estaria à espera de uma chamada minha, bastou que a voz dele  tivesse ressoado naquela até aí tranquila sala para se tornar evidente que as convenções tradicionais do romance atrás citadas não são, afinal de contas, um mero e desgastado recurso de narradores ocasionalmente minguados de imaginação, mas sim uma resultante literária do majestoso equilíbrio cósmico, uma vez que o universo, sendo embora, desde as suas origens, um sistema falto de qualquer tipo de inteligência organizativa, dispôs em todo o caso de tempo mais que suficiente para ir aprendendo com a infinita multiplicação das suas próprias experiências, de modo a culminar, como o vem demonstrando o incessante espetáculo da vida, em uma infalível maquinaria de compensações, que só necessitará, também ela, de um pouco mais de tempo para mostrar que qualquer pequeno atraso no funcionamento das suas engrenagens não tem a mínima importância para o essencial, tanto faz que haja que esperar um minuto ou uma hora, como um ano ou um século. Recordemos a excelente disposição com que o nosso Tertuliano Máximo Afonso entrou em casa, recordemos, uma vez mais, que, de acordo com as convenções tradicionais do romance, reforçadas pela efetiva existência da maquinaria de compensação universal a que acabamos de fazer fundamentada referência, deveria ter dado de caras com algo que no mesmo instante lhe destruísse a alegria e o afundasse nas vascas do desespero, da aflição, do medo, de tudo o que sabemos que é possível encontrar ao virar uma esquina ou ao meter a chave a uma porta. Os monstruosos terrores que então descrevemos não passaram de exemplos simples,  poderiam ter sido aqueles, poderiam ter sido piores, e afinal nem uns nem outros, a casa abriu maternalmente os braços de seu proprietário (…) enfim, para não ter de usar mais palavras, parecia que nada poderia estragar o regresso feliz de Tertuliano Máximo Afonso ao lar. Puro engano, pura confusão, ilusão pura. As rodagens da maquinaria cósmica tinham se transportado para os intestinos eletrônicos do gravador de chamadas,  à espera de que um dedo viesse premir o botão que abriria a porta da jaula ao último e mais temível dos monstros, não já o cadáver ensanguentado no chão, não já o inconsistente consistório de fantasmas, não já a nuvem zumbidora e libidinosa dos zangões, mas a voz estudada e insinuadora de António Claro…”

[4] O narrador (ou seu protagonista, professor de história que pode ter lacunas no conhecimento literário) comete um pequeno equívoco, na pág. 260, num diálogo entre Tertuliano e sua mãe. Ali lemos:

“O que a mãe tem é vocação para Cassandra, Que é isso, A pergunta não deve ser que é isso, mas quem é essa, Então ensina-me, sempre ouvi dizer que ensinar quem não sabe é uma obra de misericórdia, A tal Cassandra era filha do rei de Tróia, um que se chamava Príamo, e quando os gregos foram pôr o cavalo de madeira às portas da cidade, ela começou a gritar que a cidade seria destruída se o cavalo fosse trazido para dentro, vem tudo explicado em pormenor na Ilíada de Homero…” Não, nada disso vem explicado na Ilíada, ali não consta o cavalo de madeira. Será Ulisses na Odisséia que evocará o estratagema que possibilitou a vitória grega contra os troianos.

denis-villeneuve-director-enemy

Enemy-2

 10443514_325202134310775_4456164429784273125_n

06/10/2013

Uma tradição pedagógica da literatura honrada pelo Nobel 1998 (José Saramago)

380820

 

 

O ano da morte de Ricardo Reis. Círculo de Leitores(

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 13 de outubro de 1998)

Finalmente o Nobel descobriu que existe a língua portuguesa.  Pelo menos, a primeira escolha foi feliz. Já no ano passado, José Saramago era o favorito, entretanto ridiculamente  escolheram Dario Fo, após deixar que morressem quase todos os maiores ficcionistas italianos do século:  Italo Svevo, Carlo Emilio Gadda,  Leonardo Sciascia, Dino Buzatti,  Italo Calvino, Alberto Moravia, Elsa Morante, Cesare Pavese, para citar os mais óbvios, sem premiá-los.

Além de sua obra como dramaturgo (In nomine Dei; Que farei com este livro?), poeta, contista (Objecto quase), observador da “realidade” (A bagagem do viajante; Viagem a Portugal) e auto-cronista (nos dispensáveis e desagradáveis Cadernos de Lanzarote), o prolífico e notável primeiro autor nobelizado da nossa língua vem destacando-se, desde o início da década de 1980 como romancista, um dos maiores da atualidade.

Levantado do chão (1980) já prefigura, ao que parece, o grande Saramago. A explosão acontece com Memorial do convento (1982), para muitos o seu melhor romance e que já tem o status de clássico, adotado inclusive por vestibulares.

Nessa obra extraordinária, Saramago realizou um feito de concepção e de linguagem, feito que se repetiu no romance seguinte, O ano da morte de Ricardo Reis (84), no qual imagina o heterônimo mais conservador de Fernando Pessoa sobrevivendo ao seu criador e voltando a Portugal, justamente quando os países europeus estão sendo  dominados pelo fascismo. Dos livros de Saramago, esse (que eu li em primeiro lugar) é ainda o meu favorito, o mais rico, aquele em que os seus recursos narrativos se casaram  melhor. Logo nas primeiras páginas, o leitor encontra uma homenagem a Jorge Luis Borges, pois uma das leituras de Reis no navio que o leva à pátria é um livro de Herbert Quain, criação do grande escritor argentino; assim, o jogo de espelhos das autorias se adensa e ao mesmo tempo se amplifica.

Em compensação, são artificiosos e forçados demais A jangada de pedra (1986) e História do cerco de Lisboa (1989). A idéia que norteia o primeiro é genial (a Península Ibérica aparta-se geologicamente da Europa e fica à deriva) e o livro é importante porque dá o primeiro passo para um desenvolvimento posterior de sua obra romanesca (uma situação alegórica inicial que se espraia pela narrativa toda), mas História do cerco de Lisboa parece concentrar o que de pior podemos dizer da obra saramaguiana, se não gostamos dela: certa tendência à monocórdia, à monotonia mesmo,  um humor forçado e sisudo (se se aceitar a contradição de termos), e sobretudo uma aridez cortante.

13493818_BBZukthomas-mannCamusnews-graphics-2007-_647618a

Não é à toa que muitos consideram o livro praticamente ilegível. Não é o caso, evidentemente, porque nada do que José Saramago escreve como ficção pode ser descartado muito facilmente; aliás, agora, depois do Nobel, ou pelo menos daqui a algum tempo, a revisão de suas obras será natural e muitos juízos serão refeitos.

O vigor retornaria com o soberbo O evangelho segundo Jesus Cristo (1991), a maior requisição contra Deus que já se fez num romance. Não é improvável que no curso dos próximos anos esse livro venha a se estabelecer como o ponto alto de toda a produção ficcional de José Saramago. Nunca é demais lembrar que ele fez milagres (se é que se pode usar uma palavra pela qual ele parece ter aversão) com um assunto tão batido.

Se Memorial do convento O evangelho segundo Jesus Cristo demonstraram ser os livros mais prestigiados do Nobel de 1998, permitam-me uma impertinência: mesmo com toda a sua grandeza, eu admiro mais os dois últimos romances, que trabalham com uma situação ao mesmo tempo alegórica e contemporânea, tal como A jangada de pedra prenunciava. São eles Ensaio sobre a cegueira (1995) e Todos os nomes (1997). Talvez não tenham o virtuosismo dos outros, mas, resgatando mitos, pensando a situação atual, discutindo barbárie e civilização, caos e ordem, pessimismo e esperança, são obras emocionantes, candentes, memoráveis, que fazem pensar em autores como Albert Camus, Thomas Mann ou Doris Lessing, que exercitaram a difícil arte de persistir no humanismo, mesmo com toda a reprovação da vanguarda e do engajamento político mais evidente. Apressadamente declarou-se que a obra dos dois primeiros caducara e hoje percebe-se que estão mais vivos do que nunca. Mais próximo de Mann do que de Kafka, o objetivo de Todos os nomes e especialmente Ensaio sobre a cegueira, a meu ver, é mostrar horrores e situações-limite não de forma a reiterar o absurdo da existência e a desesperança, e sim, de forma a transformar a literatura numa experiência pedagógica (palavra tão ao gosto do autor de A montanha mágica, mas que não causaria estranheza aos autores de A peste e Shikasta).Ou seja, o ser humano precisa aprender.

Apesar da constrangedora vaidade que desnorteia o leitor dos Cadernos de Lanzarote é esse aspecto da obra de José Saramago que o torna proeminente (no sentido  de um entrelaçamento do fazer literário com uma postura ética), mesmo em meio a seus pares igualmente merecedores do Nobel, nessa literatura tão ignorada no Brasil como é a de Portugal: Agustina Bessa-Luís,  José Cardoso Pires, António Lobo Antunes e Eugênio Andrade, já que o grande Vergílio Ferreira já se foi.

Há outro aspecto digno de se destacar do prêmio deste ano:  foi dado a um escritor que ainda está produzindo,  que ainda está no melhor da sua forma; em suma,  que ainda está vivo, no sentido amplo da palavra. Sabemos que nem sempre foi assim nas premiações do Nobel.

Atenção- Todos os livros de Saramago destacados nesta resenha estão publicados no Brasil e acessíveis. Com exceção de Memorial do Convento e Levantado do chão, publicados pela Difel-Bertrand Brasil, todos os demais foram lançados pela Companhia das Letras.

nota de 2013– Curiosamente, todos eles (Mann, Camus, Lessing e Saramago) foram distinguidos com o Nobel.

HPIM2692

09/06/2012

ATOS DE INSURREIÇÃO ÉTICA (segunda parte): “Ensaio sobre a lucidez”

Uma idéia genial e sedutora (ainda mais com a insatisfação generalizada com qualquer esfera do poder, seja executiva, legislativa ou judiciária) fundamenta o argumento de Ensaio sobre a lucidez: sem combinação prévia,  mais de oitenta por cento do eleitorado vota em branco na capital de um país europeu, o mesmo que já sofrera uma epidemia de cegueira quatro anos antes, como narrado em Ensaio sobre a cegueira.

Desnorteado, após medidas autoritárias ostensivas e vãs, o governo coloca a cidade em estado de sítio e retira-se, deixando-a por sua conta e risco: “… com esta ação radical a cidade insurgente ficará entregue a si mesma, terá todo o tempo de que precisa para compreender o que custa ser segregada da sacrossanta unidade nacional, e quando não puder agüentar mais o isolamento, a indignidade, o desprezo, quando a vida lá dentro se tiver tornado num caos, então os seus habitantes culpados virão a nós,  de cabeça baixa, a implorar o nosso perdão”. Contrariando todas as expectativas, tudo funciona perfeitamente.

O caos fica por conta dos detentores do poder. Incapazes de compreender o que se passa,  ou de procurar novas posturas e novas metas, eles procuram desmoralizar os habitantes da cidade,  chegando ao ponto de efetuar um atentado, mandando aos ares uma estação de metrô. Não conseguindo os resultados esperados, e ainda enfrentando a deserção de representantes da autoridade constituída (como acontece com o Presidente da Câmara Municipal, num dos melhores momentos do romance), os ministros procuram um “culpado”, um bode expiatório, e a escolhida é a mulher  que não cegara no romance anterior, justamente a pessoa que manteve a lucidez no meio da desagregação social e pessoal desencadeada pela cegueira.

O problema é que o Comissário encarregado  do inquérito (que, na verdade,  é arbitrário e extra-oficial) não se convence da culpabilidade dela e ainda por cima é cativado pela suposta subversiva. Só que o Poder, em qualquer uma de suas encarnações, sempre leva a melhor, sempre chega a qualquer extremo para poder se manter…

Além da fluência extraordinária da narrativa (essa também era uma das qualidades do emocionante Ensaio sobre a cegueira, talvez o mais límpido dos grandes textos saramaguianos, porém ele tratava de uma matéria bem mais desagradável, mais terrível, mais opressiva), que confirma a maestria do escritor (aos 81 anos), o achado maior de Ensaio sobre a lucidez, que nos faz perdoar até algumas pequenas quedas na voltagem do texto, algumas puerilidades, algumas páginas banais, é o fato de que ele jamais penetra na mente das pessoas que votaram em branco na cidade (até mesmo a mulher que não cegou permanece uma figura esfíngica, quase oracular). O governo reúne-se, age, persegue, executa, mas nunca temos acesso ao lado oposto.

Só podemos ter uma pista, já que com certeza trata-se de atitudes do inconsciente coletivo, não de um movimento político (pois todos são desacreditados pelo texto), se pensarmos nas seguintes passagens de Ensaio sobre a cegueira“está visto que aqui já ninguém pode se salvar, a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança”. E mais adiante: “mais necessidade teriam os que estão vivos de ressurgir de si mesmos, e não o fazem, já estamos meio mortos, disse o médico. Ainda estamos meio vivos, respondeu a mulher”.

Os eleitores que votam em branco, que se recusam a imergir no caos patrocinado pelo poder público, talvez tenham redescoberto a esperança, talvez tenham lembrado a si mesmos que estavam meio vivos, e que essa “meia-vida”  pode ser uma plataforma lúcida  para outra forma de vida, simbolizada de uma forma lúdica (a molecagem do voto em branco). Saramago, entretanto,  mantém o mistério da cidade. E da sua personagem mais fascinante.

É uma tristeza  para o leitor que, pela própria lógica  do poder, o destino dela tenha de ser trágico (e sempre acompanhada pelo  cão que lhe bebia as lágrimas  durante a outra situação), pois  a partir da entrada do Comissário em cena, o tom leve, quase farsesco, e cheio de bonomia, de Ensaio sobre a lucidez, que destoa completamente  das outras obras de Saramago,  vai adensando-se  e melancolizando-se, como neste diálogo entre o Comissário e a mulher que ele investiga: “Imagino que a vão estigmatizar perante a opinião pública. De não haver cegado há quatro anos. Bem sabe que para o ministro é altamente suspeito  que a senhora não tenha cegado quando toda a gente estava a perder a visão, agora esse fato tornou-se motivo mais do que suficiente, desse ponto de vista, para a considerar responsável , no todo ou em parte, do que está a suceder. Refere-se ao voto em branco. Sim, ao voto em branco. É absurdo, é completamente absurdo. Aprendi neste ofício  que os que mandam  não só não se detêm  diante do que nós chamamos absurdo como se servem dele para entorpecer as consciências e aniquilar a razão”.

    Contraposta à cegueira que nos governa, a lucidez é a possibilidade de se engendrar atos de insurreição ética.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 11 de maio de 2004)

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/05/20/atos-de-insurreicao-etica-primeira-parte-ensaio-sobre-a-cegueira/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/20/entre-a-insurreicao-etica-e-a-vaidade-jose-saramago-1922-2010/

08/06/2012

A molecagem do sisudo Saramago:”Caim”

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 8:00
Tags: , , ,

Saramago e os desígnios inescrutáveis do Senhor     

       O personagem-título de Caim só aparece na pág. 32, no terceiro capítulo. Antes, o mais recente romance de José Saramago narra com vivacidade ímpar a expulsão do paraíso, inclusive com uma interpolação especialmente saborosa ao relato bíblico, quando Eva pede, usando toda sua coqueteria de mulher, ao querubim que ficou de guarda no Éden alguns frutos para que ela e o marido se alimentem, e o anjo, seduzido por ela, desobedece ao senhor e ainda dá instruções de como eles se “virarem” pós-Queda: devem procurar agrupamentos humanos, integrar-se em alguma caravana: “Depois eva perguntou, Se já existiam outros seres humanos, para que foi então que nos criou o senhor, Já deveis saber que os desígnios do senhor são inescrutáveis, mas, se bem entendi, tratou-se de um experimento…”.

      Duas páginas após aparecer, Caim já matou Abel e  questiona o Senhor, que afirma que o “pôs à prova” não aceitando suas oferendas: “E tu quem és para pores à prova o que tu mesmo criaste, Sou dono e soberano de todas coisas, E de todos os seres, dirás; mas não de mim nem da minha liberdade, Liberdade para matar, Como tu foste livre para deixar que eu matasse a Abel quando estava na tua mão evitá-lo, bastaria que por um momento abandonasses a soberba da infalibilidade que partilhas com todos os outros deuses, bastaria que por um  momento fosses realmente misericordioso… tu como todos os outros, têm deveres para com aqueles a quem dizem ter criado…”

    Não se sabe bem por que (talvez outra experiência, outro desígnio inescrutável), Deus não castiga Caim, mas faz dele um errabundo, sem parada. Mais ainda: o responsável pelo crime primordial dos seres humanos entre si torna-se um Viajante do Tempo, o que permite ao engenho saramaguiano passar em revista os principais eventos dos primeiros livros bíblicos: o quase-sacrifício de Isaac, a torre de Babel, Sodoma e Gomorra, o bezerro de ouro, as filhas de Lot dormindo com o próprio pai, as batalhas sanguinárias de Josué, Satã atormentando Jô com a autorização de Yahweh… Tudo de forma muito bem contada, mas meio óbvia (é preciso reconhecer) porque servem para a argumentação teológica básica do romance: o Senhor é um deus psicótico, caprichoso, injusto, irracional, destruidor, imperialista: “Lúcifer sabia bem o que fazia quando se rebelou contra deus, há quem diga que o fez por inveja e não é certo, o que ele conhecia era a maligna natureza do sujeito”.

    Apesar do talento narrativo com que o autor de Ensaio sobre a cegueira revive essas passagens, há uma certa mão pesada em fazer com que elas levem a essa mesma conclusão deletéria sobre a divindade monoteísta que nos rege, repetidamente. Ou seja, os desígnios do Senhor são inescrutáveis, os de Saramago, transparentes demais.

      Em compensação, o clímax do livro desemboca numa surpreendente e inesperada versão da história do Dilúvio e da Arca de Noé, em que a rebeldia de Caim e o seu modo de expressá-la (o assassinato) serão levados ao extremo, como se as cobaias de um experimento forçassem o cientista louco a reconhecer seus erros.

      Embora seja o momento mais ousado de Caim, considero sua parte mais bem realizada os capítulos em que o herói chega à cidade governada por Lilith, a mulher devoradora de homens, a essência do domínio feminino negando o patriarcalismo fundamentalista de Yahweh e seus favoritos, e é escolhido como seu amante, mesmo que seu destino não seja fixar-se em lugar nenhum. Nesses capítulos que evocam o mundo de Lilith, Saramago mostra de forma cabal o seu poder de ressuscitar, sem detalhes cenográficos ou perfumarias, épocas antigas (poder de que tinha dado abundantes provas em Memorial do convento, O evangelho segundo Jesus Cristo e no seu lindo romance anterior, A viagem do elefante, sua maior realização nesta última década), através dos miúdos e humildes detalhes do cotidiano e das relações humanas básicas.

       Se os holofotes sobre Caim estão fixados no tom blasfematório e provocativo com que ele castiga o “manual de maus costumes” que é o Antigo Testamento (uma molecagem terrorista deliciosa, se lembrarmos que se trata de um sisudo senhor de 87 anos), se a humanidade que emerge do dilúvio é uma das suas páginas mais amargas e desiludidas, o caminho que leva Caim a Lilith e o “idílio”, por assim dizer, entre ambos, estão entre os momentos em que vemos por que Saramago é um dos escritores fundamentais do nosso tempo.

(resenha publicada  originalmente  em “A Tribuna” em 03.11.09) 

jose-saramago-rosto-viagem-elefante-436

20/05/2012

ATOS DE INSURREIÇÃO ÉTICA (primeira parte): “Ensaio sobre a cegueira”

O novo romance de José Saramago, Ensaio sobre a lucidez (que vem  sendo recebido com reservas pela crítica), vem formar dupla com o belíssimo Ensaio sobre a cegueira (1995), o qual, para mim, representou um marco na obra saramaguiana, e ainda é o livro do grande escritor de que mais gosto (embora tenha uma admiração especial e diferente, mais do ponto de vista literário mesmo, por O ano da morte de Ricardo Reis).

Saramago já escrevera coisas extraordinárias (Memorial do convento, o próprio Ricardo Reis), já havia hiper-humanizado Cristo e levado a cabo a mais terrível acusação a Deus em O Evangelho segundo Jesus Cristo. A partir de Ensaio sobre a cegueira começou a se operar na obra dele uma tendência definitiva à alegorização: um núcleo alegórico central e desenvolvido até as últimas conseqüências.

Em contrapartida, assiste-se a um processo pedagógico, através do qual –entre perdas e danos— algo se aprende e fica com o leitor para sempre. Assim foi também com Todos os nomes e A caverna. Essa série de livros representa o encontro mais conseqüente entre o ético e o estético na contemporaneidade e causa espanto que as pessoas se preocupem mais com a suposta estranheza da pontuação e do uso das maiúsculas no estilo saramaguiano.

Ensaio sobre a cegueira narra uma epidemia de “cegueira branca”, que leva o governo a isolar, num manicômio, os atingidos que, ali, vivenciarão os horrores daquilo que se convencionou chamar de “universo concentracionário” (o século XX, com os campos de concentração nazistas, stalinistas etc, proporcionou experiências mais que suficientes para a imaginação). Falta de respeito, descaso, estupidez e violência. Falta de higiene, querelas e quizilas, a tomada de poder por uma quadrilha de cegos, que passa a extorquir pertences e favores sexuais (há estupros coletivos).

Duas pessoas ali estão e não são vítimas da “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista que cegou, a qual insistiu em permanecer com o marido afetado, e um cego “normal”, que faz parte da quadrilha. Um incêndio no manicômio, abandonado pelas autoridades, jogará no mundo essa mulher e um pequeno grupo nas ruínas da cidade, pois o mal se alastrou.

É um grupo pungente, que tem o acréscimo de um cão que passa a acompanhá-lo para o que der e vier e   que bebe lágrimas (Saramago e um dos autores que mais pertinentemente incorporaram animais ao seu universo narrativo, não por acaso um dos pontos mais fortes de seu “processo contra Deus” em O evangelho segundo Jesus Cristo seja a crueldade para com eles).

É um grupo que, apesar de ninguém ser nomeado, vai personalizando-se cada vez mais para o leitor, transcendo o horror da massa, tal como vemos pelas terríveis cenas no manicômio e depois nas ruas da cidade até que uma “cura” tão gratuita quanto a aparição do mal chegue. Porém, como já afirmei outras vezes, é improcedente pensar em Kafka e seguidores ou em autores do teatro do absurdo, entre os quais a cegueira e um assunto curiosamente recorrente. A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente aos seus personagens femininos. Ao lançar agora Ensaio sobre a lucidez, e isso veremos na próxima seção, ele faz surgir novamente a mulher do médico que não perdeu a visão. Fez bem, é a maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

nota versão de artigo anterior [de 12 de dezembro de 1995]  publicada de forma ligeiramente diferente, em 4 de maio de 2004; haveria ainda uma outra versão, em 13 de setembro de 2008,  em A TRIBUNA de Santos, como as anteriores, por conta do lançamento do filme de Fernando Meirelles. Essa versão termina da seguinte maneira: 

A leitura de Saramago não leva ao desespero nem ao sentimento de impotência. Isso se deve principalmente a essa esposa de médico, que não perde a visão e mesmo assim se submete ao apartheid sofrido por eles. Qualquer um que tenha passado a amá-la, ficou felicíssimo quando soube que seria interpretada pela fantástica Julianne Moore (que além de ser uma grande estrela, ainda tem o hábito de roubar os filmes em que é coadjuvante), já que se trata da maior personagem feminina da ficção de nosso tempo.

VER NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/06/09/atos-de-insurreicao-etica-segunda-parte-ensaio-sobre-a-lucidez/

https://armonte.wordpress.com/2012/05/20/entre-a-insurreicao-etica-e-a-vaidade-jose-saramago-1922-2010/

Orfeu e o inferno do Arquivo Morto: “Todos os nomes”, de José Saramago

A burocracia foi um dos pesadelos que mais assombraram a imaginação do século XX. O esmagamento do indivíduo em meio a corredores intermináveis, seções, departamentos, repartições,  tornou-se ainda mais horrível com a formalidade burocrática  que norteou a organização dos campos de extermínio nazistas. De Kafka & George Orwell a Joseph Losey (o de  Mr.KleinCidadão Klein, um dos grandes filmes dos anos 70) e Danilo Kîs, esse pesadelo burocrático assolou livros e filmes, pondo em xeque a identidade pessoal, a nossa preciosa individualidade, tanto quanto os direitos do mero cidadão, pois muitas vezes rimou com totalitarismo. Talvez nenhuma imagem seja tão eloqüente quanto a do subversivo (vivido por Robert de Niro) sendo literalmente aniquilado por papéis, em Brazil, de Terry Gillian.

José Saramago retomou a imaginário burocrático (desprezando a moderna tecnologia, na qual a informática, com o seu inquietante universo virtual, faz o mundo ainda mais abstrato e vulnerável do que a papelada em arquivos físicos) consagrado pelo século que está em vias de terminar. Em Todos os nomes, ele apresenta a Conservatória, uma repartição gigantesca do serviço público em que convivem, separados, os verbetes das pessoas que nascem e os das pessoas que morrem. Os corredores dos mortos formam um labirinto e é preciso levar um fio de ariadne para orientar-se.

O herói, chamemo-lo assim, senhor José,é um oficial de baixo escalão que mora numa casa pegada à Conservatória (e, portanto, pode entrar no edifício à noite, detalhe essencial à trama) e cujo hobby é colecionar informações sobre celebridades. Um dia, ele tem a idéia de copiar informações dos verbetes da Conservatória para enriquecer sua coleção e, por acaso, acaba tendo em mãos o verbete de uma mulher desconhecida. Desinteressando-se da sua coleção de celebridades, ele passa a infringir regras, faltar ao serviço, invadir propriedades, tudo para coligir informações sobre a desconhecida, até descobrir que ela deixou o arquivo dos vivos e foi colocada no labiríntico arquivo dos mortos (se nesse resumo parecem confundir-se a existência do indivíduo com a sua documentação, isso é decorrência do enredamento que a narrativa de Saramago faz dos dois; bizarramente, porém, em uma narrativa que se chama Todos os nomes, nenhum personagem tem nome, exceção feita ao senhor José).

Não há ninguém mais rebaixado em termos de condição humana do que esse senhor José. Trata-se de um sujeitinho insignificante, burocrática e socialmente (lembra até o protagonista do clássico O capote, de Gógol). Porém, ao investigar a vida de uma mulher que ele não conheceu, porque ela se suicida, subverte toda a sua irrelevância e dá um novo sentido à conservação da memória praticada pela sua repartição (que, na verdade, não conserva nada, transforma tudo em papel morto).

Nenhum momento da bela narrativa de Saramago deixa isso mais claro do que a noite em que o senhor José penetra no labirinto do arquivo dos mortos para resgatar o verbete da desconhecida. Nesse momento, ele deixa de ser o burocrata reles e atrapalhado para se tornar um Orfeu, descendo aos infernos em busca de sua Eurídice. Não será, aliás, a única vez em que ele vagará pelos mortos, pois Todos os nomes ainda tem uma memorável cena em um cemitério, o qual, na sua expansão desmesurada, espelha o crescimento desenfreado da cidade onde vive o senhor José. É ali que ele descobre a outra última morada da suicida desconhecida, além dos arquivos dos mortos. E descobre que, também ali, seu nome está perdido (porque um pastor tem o hábito de trocar os números das lápides):

“Tinha procurado a mulher desconhecida por toda a parte, e veio encontrá-la aqui, debaixo deste montículo de terra, fecharam-se para ela todos os caminhos do mundo, andou o que tinha de andar, parou onde quis, ponto final, porém o senhor José não consegue libertar-se dessa idéia fixa, a de que mais ninguém, a não ser ele, poderá mover a derradeira pedra que ficou no tabuleiro, a pedra definitiva, aquela que, se for movida na direção certa, virá a dar sentido real ao jogo, sob pena, não o fazendo, de o deixar empatado para a eternidade. Não sabe que mágico lance será esse, se aqui se decidiu a passar a noite não foi por ter esperança de que o silêncio lho viesse segredar ao ouvido nem que a luz da lua amavelmente lho desenhasse entre as sombras da árvore, está apenas como alguém que, tendo subido a uma montanha para alcançar a paisagem de além, resiste a regressar ao vale enquanto não sente que nos seus olhos deslumbrados já não cabem mais vastidões”.

Como os heróis mitológicos, o senhor José é auxiliado por forças superiores, e esse é outro detalhe surpreendente e matreiro de Todos os nomes.  Quem o ajuda é o supremo chefe da repartição, o Conservador, por motivos que é melhor deixar em segredo, apenas adiantando que esse sorrateiro personagem é um dos achados do romance.

Assim, nesse jogo entre vida e morte, memória e esquecimento, autoridade e rebelião, profanação e sagração, caos e ordem (um jogo que é também uma corda bamba perigosa entre alegoria e realismo), José Saramago mostra, mais uma vez, o dom de conduzir as palavras certas com o fio de ariadne da maestria literária para trazer à luz nossos medos e desacertos. E alguma esperança.

(resenha publicada, com ligeiras modificações, em  A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 1997)

SARAMAGO E AS PAISAGENS ALEGÓRICAS

Uma tendência audaciosa da obra de José Saramago, exercitada em A jangada de pedra, Ensaio sobre a cegueira, Todos os nomes, e que reaparece agora em seu novo romance, A caverna, é o uso de um núcleo alegórico que determina os rumos da narrativa. E é preciso realmente ser um autor do quilate de Saramago para se aventurar nas paisagens alegóricas, em geral pobres e áridas, e obter êxito.

Dessa vez, o núcleo alegórico é o Centro, um mega-shopping que absorveu toda a vida quotidiana para dentro de suas paredes e no qual, além das compras e do lazer, as pessoas vivem e morrem (há moradias e crematórios). Saramago radicaliza ao extremo a visão de que hoje em dia não há mais indivíduos, há consumidores. É o “segredo de abelha” referido no texto: “reside em criar e impulsionar no cliente estímulos em sugestões suficientes para que os valores de uso se elevem progressivamente na sua estimação, passo a que se seguirá em pouco tempo a subida dos valores de troca, imposta pela argúcia do produtor a um comprador a quem foram sendo retiradas pouco a pouco, sutilmente, as defesas interiores resultantes da consciência da sua própria personalidade, aquela que antes, se alguma vez existiu um antes intacto, lhe proporcionaram, embora precariamente, uma certa possibilidade de resistência e auto-domínio”. É um mundo em que o capitalismo torna-se totalitário: ou se está dentro ou se é excluído inapelavelmente. Enfim, é a globalização.

Como se sabe, o título vem do mito criado por Platão: o homem contenta-se com simulacros, com uma impostura da realidade, vivendo numa caverna apartada da verdadeira realidade. E esse título terá sua função explicada plenamente na parte final.

Por sua vez, o Centro, tal como o conhecemos, só chegando à orla dos pequenos funcionários, do baixo escalão que o serve, nos remete a Kafka. Pode-se até acusar Saramago de utilizar por vezes um tom sub-kafkiano, como o diálogo entre o herói da narrativa, o oleiro Cipriano Algor, e um funcionário do Centro: “O Senhor é um chefe. Sou um chefe, de fato, mas só para aqueles que estão abaixo de mim, acima há outros juízes. O Centro não é um tribunal. Engana-se, é um tribunal, e não conheço outro mais implacável”!!!! Ou ainda esta tentativa de humor negro, noutro diálogo entre os mesmos personagens: Será caso para proclamar que o Centro escreve direito por linhas tortas, se alguma vez lhe sucede de tirar com uma mão, logo acode a compensar com a outra. Se bem me lembro, isso das linhas tortas e de escrever direito por elas era o que se dizia de Deus, observou Cipriano Algor. Nos tempos de hoje vai dar praticamente no mesmo…”

São momentos infelizes (e pode haver os que não pensarão assim, antes o contrário), porém perfeitamente diluíveis num romance longo e belo. Pois o verdadeiro, o grande Saramago, não está tanto na aproximação com o universo kafkiano,  na apreensão de um vasto mundo desumanizado,  e sim nas minúcias com que trata o avesso, isto é, o mínimo mundo humano que restou, simbolizado pelo núcleo familiar e Cipriano Algor.

Quem ler A caverna notará que nele se narra, à exaustão, todos os processos ligados à olaria, embora tudo o que acontece se origine na recusa do Centro de continuar comprando os artefatos artesanais de Cipriano Algor, que já não encontram consumidores. Não é por acaso que procede assim  o grande escritor português: à gigantesca irrealidade do Centro, ele contrapõe a mínima, mas intensa e gritante realidade de Cipriano Algor, de sua filha Marta e de seu marido Marçal,  da viúva Isaura Madruga e do cão Achado. Vale acrescentar, aliás, quanto às personagens do romance, que não é de hoje que as figuras femininas roubam a cena no universo saramaguiano. Tivemos a Blimunda de Memorial do convento, a Joana Carda de A jangada de pedra e a mulher sem nome de Ensaio sobre a cegueira. Agora temos Marta, que simplesmente congrega em si o que de melhor o livro tem a oferecer, e Isaura Madruga, no pouco que aparece, também é muito forte. Quanto ao cachorro Achado, mais uma vez Saramago cria uma grande figura canina, que vem fazer companhia ao Mr. Bones, de Timbuktu, de Paul Auster, e ao cão que bebia as lágrimas da mulher que o adotou em Ensaio sobre a cegueira, como continuador de uma grande linhagem de cães e outros animais da ficção, que não passa pelo xampu de embelezamento e pieguice do mundo disney ou simulacros similares.

É por isso, por acompanhar gestos, palavras, sentimentos e pequenos atos desse grupo tão humano (Achado incluído), que não se pode colocar de maneira tão fácil o autor de A caverna, como já repeti tantas vezes, entre os escritores da desesperança, como Kafka (que ele evoca aqui tão canhestramente) ou Beckett. Crítico, sombrio, sim, mas um autor da esperança, talvez porque torne seus livros, com a riqueza humana dos seus personagens, atos de insurreição ética, como os que ele solicitou ao público na inesquecível entrevista que deu a Jô Soares no dia 04 de dezembro, não permitindo que seu entrevistador o “globalizasse”, levando-o para um terreno seguro, afável, cheio de gracinhas fáceis e digeríveis.

José Saramago, um dos mestres do final do milênio, exige que a vida social seja um pouco mais humana. Ela não o é, dificilmente o será, mas seus livros são uma grande ajuda para imaginá-la assim.

(resenha publicada originalmente, com ligeiras alterações, em A TRIBUNA de Santos, em em 12 de dezembro de 2000; era o primeiro romance de Saramago pós-Nobel).

Entre a insurreição ética e a vaidade: José Saramago (1922-2010)

10SARAMAGO1

À GUISA DE INTRODUÇÃO

Na sua produção octogenária, por assim dizer, Saramago de certa forma retomou de forma mais ”leve”, mais fluida, procedimentos de livros anteriores: assim, Ensaio sobre a lucidez (2004)  retomava  Ensaio sobre a cegueira (1995) e ao mesmo tempo sua produção baseada num núcleo alegórico, visivelmente político (caso também de A jangada de pedra); por sua vez, As intermitências da morte (2005) enriquecia uma outra faceta dessa tendência alegórica: o enlace com o mito. A morte apaixonada por um mortal  fazia companhia à releitura de Orfeu em clave burocrática de Todos os nomes (1997). O ponto de encontro dessas duas facetas da tendência estaria no livro da virada do milênio,  A caverna (2000).

   A viagem do elefante (2008)  retoma as diabruras com o romance histórico, exercitadas com rara maestria em Memorial do convento (1982). E agora CAIM (2009) faz uma releitura do Antigo Testamento, paralela à feita do Novo Testamento em O evangelho segundo Jesus Cristo (1991).

O romance é o mais curto de Saramago em toda a sua produção e como boa parte dos seus trabalhos pós-Nobel (em 98) apresenta uma certa irregularidade, ainda que a leitura valha a pena e o saldo seja positivo

Então, aqui vão  algumas resenhas sobre a produção de Saramago:

lanzarote-7713

 

                                    ricardo reismemorial do convento

NOBEL DESCOBRE A LÍNGUA PORTUGUESA.

                                   FINALMENTE.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 13 de outubro de 1998)

Finalmente o Nobel descobriu que existe a língua portuguesa.  Pelo menos, a primeira escolha foi feliz. Já no ano passado, José Saramago era o favorito, entretanto ridiculamente  escolheram Dario Fo, após deixar que morressem quase todos os maiores ficcionistas italianos do século:  Italo Svevo, Carlo Emilio Gadda,  Leonardo Sciascia, Dino Buzatti,  Italo Calvino, Alberto Moravia, Elsa Morante, Cesare Pavese, para citar os mais óbvios, sem premiá-los.

Além de sua obra como dramaturgo (In nomine Dei; Que farei com este livro?), poeta, contista (Objecto quase), observador da “realidade” (A bagagem do viajante; Viagem a Portugal) e auto-cronista (nos dispensáveis e desagradáveis Cadernos de Lanzarote), o prolífico e notável primeiro autor nobelizado da nossa língua vem destacando-se, desde o início da década de 80 como romancista, um dos maiores da atualidade.

Levantado do chão (80) já prefigura, ao que parece, o grande Saramago. A explosão acontece com Memorial do convento (82), para muitos o seu melhor romance e que já tem o status de clássico, adotado inclusive por vestibulares. Nessa obra extraordinária, Saramago realizou um feito de concepção e de linguagem, feito que se repetiu no romance seguinte, O ano da morte de Ricardo Reis (84), no qual imagina o heterônimo mais conservador de Fernando Pessoa sobrevivendo ao seu criador e voltando a Portugal, justamente quando os países europeus estão sendo  dominados pelo fascismo. Dos livros de Saramago, esse (que eu li em primeiro lugar) é o meu favorito, o mais rico, aquele em que os seus recursos narrativos se casaram  melhor. Logo nas primeiras páginas, o leitor encontra uma homenagem a Jorge Luis Borges, pois uma das leituras de Reis no navio que o leva à pátria é um livro de Herbert Quain, criação do grande escritor argentino; assim, o jogo de espelhos das autorias se adensa e ao mesmo tempo se amplifica.

Em compensação, são artificiosos e forçados demais A jangada de pedra (86) e História do cerco de Lisboa (89). A idéia que norteia o primeiro é genial (a Península Ibérica aparta-se geologicamente da Europa e fica à deriva) e o livro é importante porque dá o primeiro passo para um desenvolvimento posterior de sua obra romanesca (uma situação alegórica inicial que se espraia pela narrativa toda), mas História do cerco de Lisboa parece concentrar o que de pior podemos dizer da obra saramaguiana, se não gostamos dela: certa tendência à monocórdia, à monotonia mesmo,  um humor forçado e sisudo (se se aceitar a contradição de termos), e sobretudo uma aridez\ cortante.

Não é à toa que muitos consideram o livro praticamente ilegível. Não é o caso, evidentemente, porque nada do que José Saramago escreve como ficção pode ser descartado muito facilmente; aliás, agora, depois do Nobel, ou pelo menos daqui a algum tempo, a revisão de suas obras será natural e muitos juízos serão refeitos.

O vigor retornaria com o soberbo O evangelho segundo Jesus Cristo (91), a maior requisição contra Deus que já se fez num romance. Não é improvável que no curso dos próximos anos esse livro venha a se estabelecer como o ponto alto de toda a produção ficcional de José Saramago. Nunca é demais lembrar que ele fez milagres (se é que se pode usar uma palavra pela qual ele parece ter aversão) com um assunto tão batido.

Se Memorial do convento e O evangelho segundo Jesus Cristo demonstraram ser os livros mais prestigiados do Nobel de 1998, permitam-me uma impertinência: mesmo com toda a sua grandeza, eu admiro mais os dois últimos romances, que trabalham com uma situação ao mesmo tempo alegórica e contemporânea, tal como A jangada de pedra prenunciava. São eles Ensaio sobre a cegueira (95) e Todos os nomes (97). Talvez não tenham o virtuosismo dos outros, mas, resgatando mitos, pensando a situação atual, discutindo barbárie e civilização, caos e ordem, pessimismo e esperança, são obras emocionantes, candentes, memoráveis, que fazem pensar em autores como Albert Camus, Thomas Mann ou Doris Lessing, que exercitaram a difícil arte de persistir no humanismo, mesmo com toda a reprovação da vanguarda e do engajamento político mais evidente. Apressadamente declarou-se que a obra dos dois primeiros caducara e hoje percebe-se que estão mais vivos do que nunca. Mais próximo de Mann do que de Kafka, o objetivo de Todos os nomes e especialmente Ensaio sobre a cegueira, a meu ver, é mostrar horrores e situações-limite não de forma a reiterar o absurdo da existência e a desesperança, e sim, de forma a transformar a literatura numa experiência pedagógica (palavra tão ao gosto do autor de A montanha mágica, mas que não causaria estranheza aos autores de A peste e Shikasta).Ou seja, o ser humano precisa aprender.

Apesar da constrangedora vaidade que desnorteia o leitor dos Cadernos de Lanzarote é esse aspecto da obra de José Saramago que o torna proeminente (no sentido  de um entrelaçamento do fazer literário com uma postura ética), mesmo em meio a seus pares igualmente merecedores do Nobel, nessa literatura tão ignorada no Brasil como é a de Portugal: Agustina Bessa-Luís,  José Cardoso Pires, António Lobo Antunes e Eugênio Andrade.

Há outro aspecto digno de se destacar do prêmio deste ano:  foi dado a um escritor que ainda está produzindo,  que ainda está no melhor da sua forma; em suma,  que ainda está vivo, no sentido amplo da palavra. Sabemos que nem sempre foi assim nas premiações do Nobel.

Atenção- Todos os livros de Saramago destacados nesta resenha estão publicados no Brasil e acessíveis. Com exceção de Memorial do Convento e Levantado do chão, publicados pela Difel-Bertrand Brasil, todos os demais foram lançados pela Companhia das Letras.

cadernos de lanzarote

SARAMEGO

José Saramago  é um dos grandes ficcionistas atuantes. Pelo menos dois romances seus são leituras básicas e obrigatórias do nosso tempo, Memorial do convento (82) e O evangelho segundo Jesus Cristo (91). Seu romance mais recente, Ensaio sobre a cegueira (95), mostrou que, além da estatura literária, o autor português (que completa 75 anos agora em 97), ainda alcançou uma estatura ética digna de um Thomas Mann.

Por isso, é uma desagradável surpresa a leitura dos CADERNOS DE LANZAROTE, diários que cobrem três anos (93, 94, 95) da vida do autor de O ano da morte de Ricardo Reis em Lanzarote, uma das Ilhas Canárias, ara onde se mudou. Nesses diários, Saramago se compraz num narcisismo chocante, numa masturbação discursiva auto-centrada que só se pode chamar de senil.

O leitor tem de agüentá-lo cultivando o jardim encantado (para ele) do elogios e lisonjas, recolhendo trechos de críticas que falam em dele, transcrevendo cartas que falam bem dele, transcrevendo recados da secretária eletrônica que… falam bem dele, exaltando a invenção do fax, de onde espoucam papéis que, ufa, falam bem dele!!!

E não apenas isso, há que se agüentar igualmente as palestras, conferências, seminários, nos quais se fala da obra dele, nos quais o elogiam, nos quais encontra outros escritores (como Jorge Amado ou Gonzalo Torrente Balléster, autor de O rei pasmado e a rainha nua), de quem ele gosta e que gostam dele. Resultado: uns falam bem dos outros, recomendam uns aos outros para prêmios. E assim 650 páginas se acumulam inutilmente.

O mistério de CADERNOS DE LANZAROTE é como a ironia afiada de Saramago, tão deslumbrante em seus romances, não se apercebeu da ridícula empreitada representada por esses diários? Alguém levantará a mão e dirá, mas moço, ele previu essa acusação de narcisismo desenfreado, de prima-donismo, no seu prefácio (“gente maliciosa vê-lo-á como um exercício de narcisismo a frio”). Explicação há para tudo, os políticos brasileiros que o digam. Difícil é engolir.

Outro constrangimento da papelada que migrou das Ilhas Canárias, numa arribação  dispensável, é verificar como o pensamento que brilha na ficção fica com a cara deslavada de filosofia de praça de aposentados, sem graça, quando vertido em papel como “mera idéia”: “O destino, isso a que damos o nome de destino, como todas as coisas deste mundo, não conhece a linha reta. O nosso grande engano, devido ao costume que temos de tudo explicar retrospectivamente como uma flecha apontada diretamente a um alvo que, por assim dizer, a estivesse esperando desde o princípio, sem se mover. Ora, pelo contrário, o destino hesita muitíssimo, tem dúvidas, leva tempo a decidir-se” etc,etc. É tão banal que nem parece o mesmo homem que exercita um dos estilos mais entranhadamente pessoais da literatura contemporânea.

O que salva o tempo de leitura e o dinheiro investido nesses troços e destroços oriundos de um desastre nas Canárias são algumas (raras) observações sobre a feitura do belo Ensaio sobre a cegueira, entre um e outro afago para o saramego, e também o povoamento da casa com cães que o destino (tão banalizado no trecho citado) encarrega-se de trazer para a família. É o único momento em que ele parece ser humano, gente como a gente, não um senhor enfatuado e “medalhão” (ainda por cima com o complexo de inferioridade dos portugueses com relação ao resto da Europa, ou melhor, com relação a Europa que não é considerada “resto”): “Agora são três os cães que andam pela casa. De vez em quando Pepe irrita-se com Greta que é o mais impertinente dos seres vivos, persegue-a com toda a ferocidade de que é capaz; mas é a fingir, não chega nunca a morder-lhe. A descarada responde ladrando num tom de tal maneira agudo que parece perfurar-nos o os ouvidos. Por fim, rende-se, e fazem as pazes. A tudo isso assiste impávido Chico, com a serenidade de quem já viu muito mundo e comeu o pão que o diabo dos cães amassou… Digo que são três o cães, mas de vez em quando aparece-nos no jardim a cadela preta, aquela grande, de pernas altas. Por mim, acho bem. Uma amizade não se acaba só por os amigos estarem a viver em casas diferentes.”

    O resto é um estupor que beira o delírio, em trechos como “Descubro que seria perfeito poder reunir em um só lugar, sem diferença de países, de raças, de credos e de línguas, todos quanto me lêem, e passar o resto dos meus dias a conversar com eles”!!!! Deus nos livre.

Depois dessa viajada da maionese, a inquietante questão suscitada pelos CADERNOS DE LANZAROTE é a seguinte: dá para continuar tendo uma alta idéia da estatura moral e ética de José Saramago, diante de tanta auto-complacência?

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos,  em 25 de março de 1997)

 

A EDUCAÇÃO DO SER HUMANO PELO ABSURDO

Uma das contradições mais tristes e ridículas do ser humano é o fato de que todo mundo sempre pensar, a priori, o pior do próximo e ter uma visão por baixo da índole humana (“amigo é dinheiro no bolso”), e, no entanto, as pessoas sempre ficarem chocadas, escandalizadas, quando, numa situação-limite, vem à tona justamente esse lado pior da nossa natureza.

José Saramago dramatiza magistralmente esse choque, esse escândalo tragicômico no seu Ensaio sobre a cegueira (Companhia das Letras), o qual segue a trilha das grandes obras anteriores do autor português, como Memorial do convento (82), O ano da morte de Ricardo Reis (84) e O evangelho segundo Jesus Cristo (91), que compensam na sua prolífica e incessante produção coisas chatíssimas como A jangada de pedra (desperdício de uma idéia genial) e História do cerco de Lisboa.

Ensaio sobre a cegueira narra uma epidemia de cegueira que leva o governo a isolar os atingidos num manicômio. Lá, vivenciarão os horrores daquilo a que se denominou universo concentracionário: descaso, estupidez e violência por parte das autoridades (o Salazarismo deixou fantasmas na ficção portuguesa), picuinhas pessoais, falta de higiene, uma quadrilha de cegos que toma o poder e extorque dinheiro, pertences e favores sexuais.

Duas pessoas estão ali e não são vítimas da tal “cegueira branca”: a esposa de um oftalmologista, que quis permanecer com o marido, e um cego “normal”, membro da quadrilha. Um incêndio jogará a mulher do médico e um grupo de cegos nos escombros da civilização, pois o mal se alastrou pelo mundo.

É um grupo comovente, acrescido de um cão que os acompanha e bebe lágrimas. É um grupo que, apesar de Saramago não nomear ninguém, vai personalizando-se cada vez mais para o leitor, transcendendo o horror da massa, tal como vemos em cenas como esta: “… o grotesco espetáculo teria feito rir à gargalhada o mais sisudo dos observadores, uns quanto cegos a avançarem de gatas, de cara rente ao chão como suínos, uns braços adiante rasoirando o ar… a vontade dos soldados era apontar as armas e fuzilar deliberadamente, friamente, aqueles imbecis que se moviam diante dos seus olhos como caranguejos coxos, agitando as pinças trôpegas à procura da perna que lhes faltava” (pág. 105).

Mas é improcedente pensar em Kafka, nos autores do teatro do absurdo (Ionesco; Beckett; o autor das peça Os Cegos), em Elias Canetti, o Nobel de 81, autor de um poderoso romance intitulado A cegueira (no Brasil, Auto-de-fé), até mesmo, em certo sentido, em Ernesto Sabato (que criou, em Sobre heróis e tumbas, uma conspiração de cegos, governando subterraneamente nosso mundo). Nesses autores, as parábolas que escrevem levam ao desespero, ao sentimento de inutilidade dos esforços humanos, ao lamento de Jozef K. (de O processo), ao ser executado, de estar morrendo como um cão, sem saber o porquê.

Saramago passa longe disso. Seu estilo, muito peculiar (como já se notou diversas vezes, fazendo da leitura dos seus livros uma das grandes experiências com a língua portuguesa em nossos dias), se alinha mais ao tipo de literatura humanista cujo expoente é Thomas Mann (outro grande representante é o Camus de A peste): mostrar os horrores não de forma a reiterar o absurdo, e sim de forma a transformar a literatura numa experiência pedagógica (palavra bem ao gosto de Mann). Trocando em miúdos, o ser humano precisa aprender.

É por isso que há a genial identificação do narrador com a mulher do médico que cegou: ambos mostram ao leitor o que é ver enquanto os outros são cegos. A mulher do médico nos leva além do narrador, pois ele apenas relata (tal como o velho cego da venda preta, outro personagem emocionante); ela não só vê como sente, desespera-se, solidariza-se, está no meio do caos. Seu olhar intacto não revela supremacia, mas um desejo de modificar o estado das coisas.

Essa mulher de um oftalmologista cego, essa mulher que o leitor aprende a amar, é a maior personagem feminina da literatura do nosso tempo.

(resenha publicada em A TRIBUNA de Santos, em 12 de dezembro de 1995, ano do lançamento do livro)

VER TAMBÉM AQUI NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/05/20/atos-de-insurreicao-etica-primeira-parte-ensaio-sobre-a-cegueira/

https://armonte.wordpress.com/2012/06/09/atos-de-insurreicao-etica-segunda-parte-ensaio-sobre-a-lucidez/

jose-saramago

07/04/2012

Uma humanidade gritante: “O evangelho segundo Jesus Cristo”

  Entre as boas novidades da Companhia de Bolso está uma edição mais popular de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o qual há 15 anos (foi lançado em 1991) permanece como uma das duas obras-primas literárias supremas a ter Cristo como protagonista (a outra é A Última Tentação, de Nikos Kazantzakis, um romance que se torna cinqüentenário em 2006). José Saramago já havia escrito coisas que até Deus duvida antes, e depois continuaria escrevendo, porém talvez nenhum texto seu seja tão deslumbrante. Ao mostrar o Criador como uma potência imperialista lutando pelo controle do mundo, ele literalmente fez o diabo, transformando a tessitura narrativa numa túnica inconsútil da qual é até difícil extrair uma citação.

   “Deus não perdoa os pecados que manda cometer. E Saramago tampouco perdoa: “se existe Deus terá de ser um único Senhor, mas era melhor que fossem dois, assim haveria um deus para o lobo e um deus para a ovelha, um para o que morre e outro para o que mata, um deus para o condenado, um deus para o carrasco… o que te posso dizer é que não gostaria de me ver na pele de um deus que ao mesmo tempo guia a mão do punhal assassino e oferece a garganta que vai ser cortada…” Mais adiante: Por outras palavras, o teu Deus é o único guarda duma prisão onde o único preso é o teu Deus. E, muito mais adiante ainda: O problema de Deus é esse, ninguém tem o nome que ele tem.”

   Ainda assim, a grande força do texto, seu centro de gravitação, é menos a acusação metafísica (já poderosa) do que a afirmação de uma humanidade gritante ao cometer seus pecados. A primeira parte do romance (onze capítulos) é dominada pela figura de José (cujo destino também é morrer crucificado). Nunca antes o pai humano de Cristo ganhara contornos tão nítidos e inesquecíveis.

  O grande autor português, talvez imbuído de “um espírito voltaireano, irônico e irrespeitoso”, ao focalizar o nascimento de Jesus e as atribulações do marido de sua mãe, ao cumprir suas obrigações religiosas, também não esquece  de aquilatar de forma definitiva a crueldade do ser humano para com os animais. José vai ao templo em Jerusalém oferecer sacrifício: uma alma qualquer, que nem precisará ser santa, das vulgares, terá dificuldade em entender como poderá Deus sentir-se feliz em meio de tal carnificina…” Consumado o sacrifício: “…tudo voltará ao que era antes, a diferença é haver duas rolas a menos no  mundo e um menino mais que as fez morrer.”

    Não se pense que Saramago  zombe da história de Cristo. Muito pelo contrário. Ele se mostra um formidável adversário daquilo que não aceita e não acredita, mas que não pode evitar enquanto narrador, acicatando “essa cicatriz benévola que é não pensar”. Talvez seu Cristo, ao ocupar a segunda parte da narrativa, não tenha a explosiva mistura Zaratustra-personagem de Dostoievski do Cristo de Kazantzakis; nunca, entretanto, desce a um mero nível de humanização adocicada, como o Cristo de Frei Betto no seu palidíssimo e aguado Entre todos os homens: “Sendo Jesus o evidente herói deste evangelho, que nunca teve o propósito desconsiderado de contrariar o que escreveram outros e portanto não ousará dizer que não aconteceu o que aconteceu, pondo no lugar de um Sim um Não…”

   Sim e Não.  Deus e o Diabo. Kazantzakis já nos advertia: “Sem dúvida foi Deus, Deus.. ou teria sido o Diabo ? Quem consegue distinguir entre os dois ? Eles trocam de cara. Deus às vezes é só escuridão; e o diabo, só luz.”  Saramago, tão diferente dele, no entanto tão igual (como deus e o diabo ?): “…e olha que se encontrássemos o Diabo e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro (…) imagine-se o escândalo  se Pastor lembrava de abrir Deus para ver se o Diabo lá estava dentro”.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de abril de 2006)

 

27/12/2009

Em relação ao século XX: 100, 75, 50, 25 anos de obras e autores

[Juan Carlos Onetti]

{Eugene Ionesco}

[Norberto Bobbio]

[Selma Lagerlöf]

100 anos- Em 2009, a escritora alemã Herta Müller ganhou o Nobel. Exatamente cem anos atrás, a sueca Selma Lagerlöf (1858-1940) tornava-se a primeira mulher a receber o prêmio. Não conheço muito bem sua obra,  só li algumas histórias de De saga em saga, uma coletânea que aparece numa coleção dos premiados com o Nobel, porém há um ensaio excelente de Marguerite Yourcenar sobre ela em Notas à margem do tempo, e que nos faz vislumbrar um universo fascinante.

    No mesmo ano em que a autora de A saga de Gösta Berlings (seu livro mais conhecido) se tornava a pioneira de uma lista ainda muito pequena, nascia na Romênia natal de Herta Müller um dramaturgo originalíssimo, que faria parte do chamado “teatro do absurdo”: Eugene Ionesco, de A cantora careca, Os rinocerontes; A lição; e, no Uruguai, um dos prosadores que mais mereceriam o Nobel no século XX: Juan Carlos Onetti, com obras do calibre de A vida breve, O estaleiro & Junta-Cadáveres, e que forma, com o argentino Jorge Luis Borges e o mexicano Juan Rulfo a santíssima trindade da ficção hispano-americana.

      Também em 1909, nascia o grande pensador italiano Norberto Bobbio, autor dos ensaios maravilhosos reunidos em Nem com Marx, nem contra Marx. E na Letônia nascia o luminoso Isaiah Berlin (que faria carreira na Inglaterra), o autor de Pensadores russos, um pensador que gostava mais de escrever ensaios do que preparar “livros”.  E naquele ano, Lima Barreto lançava seu libelo anti-racista que também, e principalmente, é um poderoso romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha.

75 anos- De 1934, gostaria de destacar dois romances essenciais: o maior livro de Graciliano Ramos, São Bernardo (ser o melhor livro de um escritor como Graciliano é um fato por si só notável; para mim, aliás, os maiores romances brasileiros do século passado são Grande sertão: veredas; A maçã no escuro; São Bernardo  & Triste fim de Policarpo Quaresma); e o terrível e avassalador Morte a crédito, de Louis-Ferdinand Céline (que talvez seja até maior do que sua obra-prima anterior, Viagem ao fim da noite). Vidas secas e cheias de angústia no Nordeste e na França. A vida lembrada, cá e lá, como memórias do cárcere

[raymond chandler]

50 anos- É difícil escolher o acontecimento literário supremo de 1959, ano em que morria o grande Raymond Chandler, pois nesse ano iniciavam suas carreiras gloriosas nomes como Günter Grass, com O tambor de lata, certamente um dos maiores romances já escritos; os outros não começaram já nesse patamar: Philip Roth (Adeus, Columbus), Vargas Llosa (Os chefes) e Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares). O único título comparável em magnitude ao de Grass talvez seja O almoço nu, que revelou o universo muito peculiar de William Burroughs, mas cuja legibilidade maior foi possível graças à notável versão cinematográfica de David Cronemberg (a versão de O tambor nada tem de notável). Mesmo assim, um romance cinquentenário pelo qual tenho um carinho especial é Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr, merecidamente um clássico da ficção científica, mas que não se restringe a um “livro de gênero”. Na área de contos, é difícil pensar num título mais importante do que As armas secretas, de Cortázar, não só por causa da sua qualidade literária (o meu favorito é “Cartas da mamãe”, mas o mais considerado é “O perseguidor”, baseado na vida de Charlie Parker), como pela sua influência na literatura dos anos 60 e 70: basta lembrar que “As babas do diabo” foi a inspiração de Antonioni para seu Blow up (1968). Também não se pode esquecer a irreverência, a jovialidade e o trato de linguagem de Zazie no metrô, a obra-prima de Raymond Queneau.

     Em 1959, Jean-Paul Sartre dedicou-se a escrever um roteiro imenso (depois não utilizado, naquela época não existiam as produções para a tv a cabo, não existia a HBO; mesmo assim, Sartre resmungou que as pessoas tinham paciência para ver quatro horas da vida de Ben-Hur e não tinham para ver a vida do criador da psicanálise) sobre a vida de Freud para John Huston. O filme é ótimo, mas o texto de Sartre não fica atrás: Freud, além da alma; o marcante romancista português Vergílio Ferreira lançou sua obra mais famosa, o difícil porém importante Aparição; e há quem ache uma obra-prima (não é o meu caso) Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, ainda assim um livro que se deve levar em conta. Em todo caso, eu prefiro o folhetinesco Asfalto selvagem, as deliciosas desventuras em série de Engraçadinha, uma das grandes criações de Nélson Rodrigues

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion, e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras.

julio cortázar & truman capote]

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion (sempre cito uma de suas frases, “ninguém está isento do movimento geral”, e sua heroína, Inez Christian Victor, é como se fosse uma amiga pessoal), e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras, a qual justamente em 1959 havia escrito o mais belo dos roteiros em hiroshima, meu amor, dirigido por Alain Resnais.

Blog no WordPress.com.