MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

05/04/2013

A engolidora do mundo e os ruídos da cidade: FÚRIA, de Salman Rushdie

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O texto abaixo junta resenhas publicadas originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 2  e 9 de novembro de 2004

Em City of God, de E.L. Doctorow, tentativa meio frustrada de sintetizar ficcionalmente a virada do milênio, se pode ler, sobre Nova York: “Os infelizes migrantes do mundo acham que, se conseguirem apenas chegar aqui, poderão fincar um pé. Manter uma banca de jornais, uma birosca, dirigir um táxi… o que pintar. Você quer dizer a eles que este não é um lugar para pessoas pobres. A linha de fractura racial que corre pelo coração da terra também corre através do seu coração. Somos seres étnicos sujeitos a um código de cor e criadores de enclaves sociais, multiculturalmente desconfiados e verbalmente agressivos, como se a cidade, considerada como uma Idéia, fosse um fardo pesado demais até mesmo para as pessoas que moram nela”.

Outro grande escritor, Salman Rushdie, ousou encarar de frente a virada do  milênio elegendo Nova York, o centro do Império, como ponto de inflexão, apesar do resultado não ser tão caudaloso quanto suas imensas (e fabulosas) obras-primas anteriores (Os filhos da meia-noite; Os versos satânicos; O último suspiro do mouro). Enquanto Doctorow investigava manifestações de Deus na secularização triunfante (e Deus é uma obsessão norte-americana, junto com as armas, como bem lembrou Harold Bloom), FÚRIA (Fury, 2001, traduzido por José Rubens Siqueira e lançado pela Companhia das Letras), o modesto —em páginas— romance do milênio de Rushdie , atualiza o mito grego das Erínias, ou seja, as Fúrias, as divindades destruidoras que ameaçam seu protagonista, Malik Solanka, no primeiro verão do novo  milênio, enquanto Bush e Al Gore, ou Gush e Bore, se digladiam pela posse da coroa do Império, com os resultados que conhecemos.

Solanka está longe de ser o migrante pobre que tenta fincar pé na terra da promissão americana. Pelo contrário, está rico devido à criação de uma boneca, Little Brain, um dos produtos mais rentáveis da indústria cultural. Amargurado com o destino da sua criatura, e após um ligeiro surto psicótico (quando pensara em assassinar esposa e filho), ele abandona sua família em Londres, como já riscara da sua vida suas origens, em Bombaim, procurando a América como lugar de renascimento. Dentro de si ele surpreende o regurgitar de uma raiva avassaladora, com lapsos de memória que o levam a suspeitar que bem poderia ser o assassino de três belas jovens da alta-sociedade, enquanto o eterno ruído da cidade o persegue: “A cidade estava lhe ensinando uma lição. Não havia como escapar da invasão do barulho. Viera em busca de silêncio e encontrara um ruído maior que aquele que deixara para trás. O ruído agora estava dentro dele”.

Penso no protagonista de Cosmópolis, de Don De Lillo, que diz: A cidade come e dorme barulho. Ela faz barulho em qualquer século. Faz os mesmos barulhos que fazia no século XVII, mais os outros que surgiram de lá para cá”. Ele também diz:  “O futuro se torna insistente… o passado está desaparecendo. Antigamente, a gente conhecia o passado, mas não o futuro. Isso está mudando… Precisamos de uma nova teoria do tempo”. Em FÚRIA, o ruído da cosmópolis corresponde às potências destruidoras agitando-se dentro de Malik Solanka, o professor de história das idéias (passado) que ficou rico com a criação de uma boneca-ícone da indústria cultural (a insistência do futuro).

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“Debaixo da auto-satisfação retórica dessa América empacotada, homogeneizada, dessa América com 22 milhões de novos empregos e a maior taxa de casas próprias da história, dessa América Shopping Center dona de ações, de orçamentos equilibrando-se, baixo déficit, as pessoas estavam estressadas, pirando, e falando nisso  o dia inteiro em supercadeias de clichês burríssimos”.

Não pense o leitor que FÚRIA se limita a ser essa diatribe anti-Império Americano, embora haja passagens assassinas, de uma forma que Michael Moore jamais sonharia.  A grande força de Salman Rushdie, apesar de todo o magma discursivo do livro, que não poupa nada e ninguém, ainda reside no seu talento incomum de contar histórias, com relação ao qual não parece ter perdido o prazer (ao contrário de Doctorow), na teia emocional que ata Malik Solanka às três mulheres mais importantes da sua vida: sua esposa; Mila, uma garota sérvia que lembra (pois quer fazer lembrar) sua boneca Little Brain; e sua verdadeira paixão, Neela, que fará com que ele se confronte com sua infância e o arrastará para fora de Nova Iorque,a city of god da hora,  ainda que para se dar conta de que a Fúria, ou seja, aquela linha de fractura racial que corre pelo coração da terra, está confortavelmente alojada no mundo todo.

Na visão escabrosa de Rushdie, a condição-boneca se torna o epítome da deterioração do material humano, daí a intensa associação entre esse artefato lúdico e três jovens da  alta-sociedade barbaramente assassinadas (“Um corpo morto na rua parece muito uma boneca quebrada”). Em sua origem, a boneca representava diretamente uma pessoa e era um perigo em mãos alheias.Mais tarde, com o advento da produção em massa, tal ligação se rompeu, pois as bonecas passaram para a esfera da linha de montagem, sem personalidade, uniformes: “Tudo isto estava mudando de novo. A conta bancária de Solanka devia tudo ao desejo das pessoas modernas de possuir bonecas não apenas com personalidade, mas com individualidade. Agora mulheres vivas queriam ser como bonecas, cruzar a fronteira e parecer brinquedos. Agora a boneca era o original, a mulher a representação”.

Nesse caos,com seres humanos-brinquedos,com o virtual devorando o real, há espaço no entanto para um momento literariamente extraordinário, de resgate do Mito em plena cosmópolis. Mila, a garota que imitava a boneca de Solanka, o leva para  o mercado da alta-computação, e vendo-a em frente ao seu laptop, ele assiste, na verdade, à aparição daquele tipo de entidade tão recorrente na cultura da Índia, a que destrói e refaz o mundo: “Mila como Fúria, a engolidora do mundo, o eu como pura energia transformadora. Nessa encarnação, era simultaneamente aterrorizante e maravilhosa”.

VER  UMA VERSÃO DO MESMO TEXTO, NUM CONTEXTO MAIS AMPLO EM:

https://armonte.wordpress.com/2010/05/17/doctorow-rushdie-delillo-e-a-virada-do-milenio/

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03/03/2013

Entre a “tabula rasa” e o desembocar em outras histórias: NOITE DO ORÁCULO, de Paul Auster

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Num dos textos da Trilogia de Nova York ficamos sabendo que, para o protagonista, “o que interessava nas histórias que escrevia não era a sua relação com o mundo, mas a sua relação com outras histórias”. É o que acontece a princípio com Sidney Orr, em Noite do Oráculo [Oracle Night, 2003, tradução de José Rubem Siqueira, Companhia das Letras], o mais recente Paul Auster, e talvez o melhor lançamento literário do ano até agora: após um período de inatividade devido a um estranho acidente que lhe deixou seqüelas neurológicas, ele compra um caderno azul numa papelaria que surgiu de repente no Brooklyn (e também desaparecerá de repente) e começa a trabalhar numa história cuja pedra-de-toque é a parábola contada por Sam Spade em O falcão maltês, de Dashiell Hammet (um livro medíocre que tem uma injustificada notoriedade), a respeito de Flitcraft, bem sucedido empresário, casado e com filhos, o qual quase foi morto pela queda de um andaime, e que resolve largar a sua vida porque “ficou então sabendo que se podia morrer assim por acaso, e viver apenas enquanto a sorte cega me poupasse”, desaparecendo e criando nova existência.

Autor de títulos tais como Tabula Rasa, Orr embarca em tramas que mostram pessoas abandonando suas existências, mudando suas referências. Multiplicam-se histórias-dentro-de-histórias. O herói da narrativa que Orr escreve no caderno azul (mais um caderno austeriano), Nick Bowen, recebe um romance chamado Noite do Oráculo, no qual um cego pode prever o futuro e se suicida porque não suporta conviver com uma virtual traição da esposa.

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Enquanto isso, incidentes desestabilizam o casamento de Orr. Também temos (coisa muito comum em Auster) um segundo escritor, John Trause, amigo do pai de Grace Orr, que se estabeleceu como a companhia mais íntima do casal e que possui igualmente um caderno azul para escrever suas histórias. É ele quem aconselha Orr a seguir a trilha da parábola de Flitcraft: Quando Orr afirma que “tudo começava e terminava com Trause”, o leitor pode entender melhor uma atmosfera sintetizada pelo trecho seguinte: “Tinha de haver uma história por trás das perturbadoras mudanças de humor de Grace, suas lágrimas e frases enigmáticas, seu desaparecimento na noite de quarta-feira, sua batalha para tomar uma decisão quanto ao bebê”.

Trause diz a Orr: “Vivemos no presente, mas o futuro está dentro de nós a todo momento”. É quase no final do romance,  só que Orr diz que a verdadeira história de Noite do Oráculo vai começar. E lemos: : “… me arrastei por aqueles nove dias de setembro de 1982 como alguém dentro de uma nuvem. Tentei escrever um conto e cheguei a um impasse. Tentei vender uma idéia de filme e fui rejeitado. Perdi o manuscrito de um amigo. Quase perdi minha esposa e, por mais que a amasse, não hesitei em baixar a calça na penumbra de um clube e me enfiar na boca de uma estranha. Era um homem perdido, um homem doente, um homem batalhando para retomar o pé (…) Desconfio que esse estado foi que levou ao nascimento de Lemmel Flogg, o herói cego de Noite do Oráculo, um homem tão sensível às vibrações à sua volta que sabia o que ia acontecer antes de os próprios eventos ocorrerem. Eu não sabia, mas cada idéia que entrava na minha cabeça me colocava nessa direção (…) O futuro já estava dentro de mim, e eu me preparava para os desastres que estavam por vir”(não esqueçamos que a “verdadeira” carreira literária de Auster começou em 1982, ao publicar A invenção da solidão).

O clima ameaçador que vinha do uso do caderno azul é importante e liga-se ao universo explorado pela Trilogia de Nova York, um universo onde a tabula rasa e o acaso desestabilizam o conformismo e a acomodação. Só que a verdadeira ameaça vem da vida irrevogável, dos laços que criamos e simplesmente não podemos anular. Não há solução Flitcraft. Por exemplo, John Trause tem um filho. Não se falará mais nada aqui, para não revelar muito mais do enredo, mas preste atenção nessa informação, leitor. Ela é crucial para a verdadeira história que começa em Noite do Oráculo e que representa uma das reversões mais sombrias da ficção que eu já tive oportunidade de ler.

O que emociona no livro é que mesmo assim seu último parágrafo representa um exercício de esperança e de positividade. E ele obriga a reler o primeiro parágrafo por representar passo a passo sua refutação. E aí o leitor se vê diante de outro problema: relido o primeiro parágrafo, é quase impossível não mergulhar no resto novamente.

(a resenha acima foi publicada originalmente  n’ A TRIBUNA de Santos,  em treze de julho de 2004)

VER NO BLOG TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2013/03/03/a-austeridade-do-acaso-quatro-resenhas-sobre-paul-auster/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/12/o-nada-e-a-imagem-o-livro-das-ilusoes-de-paul-auster/

https://armonte.wordpress.com/2011/10/13/o-palco-do-acaso-a-trilogia-de-nova-york-de-paul-auster/

https://armonte.wordpress.com/2011/09/11/o-outono-do-imperio-americano-segundo-paul-auster/

https://armonte.wordpress.com/2010/09/27/fumo-e-fascismo-quando-sancionarao-uma-lei-anti-borboletas-da-alma/

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06/07/2010

BACANTE SEM GRANDEZA:A ficção ruim de Toni Morrison

Há livros cuja avaliação crítica é difícil. Entre esses casos de livros difíceis de julgar um dos mais complicados é aquele escrito por autores de que a gente não gosta. E esse é o caso de Paraíso, de Toni Morrison.

Como se sabe, a autora norte-americana recebeu o Nobel em 1993. Antes disso, já era muito apreciada nos EUA, e eu nunca entendi bem por quê. Se pegarmos seu romance mais prestigiado (vencedor do Pulitzer, inclusive), Amada, temos uma história melodramática que traz o peso da escravidão (uma escrava fugitiva degola a própria filha para que ela não seja levada por um perseguidor), que até se sustenta bem e contém ecos da tragédia grega, mas que é irremediavelmente estragada por um estilo discutível e especialmente por uma grotesca trama sobrenatural e fantástica: o fantasma da filha aparece com dezoito anos (!!!???) para se vingar da mãe. Só mesmo o desejo dos críticos americanos por um García Márquez local pode explicar que se tenha levado a sério tal empreendimento ficcional.

Por isso, não é de se estranhar que, após três leituras decepcionantes (além de Amada, A canção de Solomon, ainda o melhorzinho, e Jazz), Paraíso tenha sido abordado com desconfiança e cautela.  O romance (traduzido por José Rubem Siqueira e lançado pela Companhia das Letras) tem como cenário central Ruby, uma cidade de Oklahoma exclusivamente negra. A maneira como foi fundada chega às raízes do bíblico. Algumas famílias errantes, quase que como os hebreus do Antigo Testamento, encontram uma Terra Prometida e selam um pacto particular com o Senhor. E as famílias principais do lugar, descendentes dos fundadores, procuram manter a pureza racial e os compromissos assumidos na época da Fundação. Um forno comunitário gigantesco simboliza essa coesão dos ideais dos cidadãos de Ruby. Só que, numa época de transformações radicais, como foram as décadas de 60 e 70 (é só lembrar: luta pelos direitos civis dos negros, feminismo, rock, guerra do Vietnã) fica muito difícil de manter tal coesão. E o “paraíso” (que parece mais uma reprodução em miniatura da sociedade branca capitalista) situado em Ruby começa a ser questionado.

As Evas da Queda desse paraíso pertencem ao Convento, uma casa nos arredores da cidade que acolhe mulheres destruídas pelos mais variados motivos. Ao se darem conta da crise que as transformações sócio-históricas instauram no “pacto” fundatório, os homens mais proeminentes resolvem expulsar essas mulheres do Convento e o invadem a bala (há outros motivos mais escusos, como o decorrer da narrativa esclarece).

Ficam evidentes em Paraíso, mais uma vez, dois círculos que sempre se estabelecem na obra de Toni Morrison: por um lado,uma comunidade negra, onde se desdobram todas as contradições comuns a qualquer comunidade; e entrando em choque com esse círculo maior, um círculo menor e incômodo, uma comunidade de mulheres, círculo este duas vezes discriminado (pela cor e pelo sexo).

Apesar de um certo tom de preleção que às vezes se insinua no texto (e que parece inevitável nesta nossa época de “ação afirmativa” e do “politicamente correto”), no que se refere ao círculo maior (que envolve a comunidade de Ruby e seus habitantes), Paraíso surpreende o leitor desconfiado. Intrigas, ressentimentos, ligações perigosas, dilemas éticos e religiosos, quando a narrativa se concentra nos personagens da cidade, a cautela e o pé atrás com a autora caem por terra e em certos momentos o livro consegue ser até magnífico. É muito interessante, por exemplo, a investigação que Patricia, a professora, começa a fazer sobre  as árvores genealógicas de Ruby e que causa um mal estar tão grande quanto as perguntas e pesquisas incômodas da garota que protagoniza o filme Uma cidade sem passado, de Michael Verhoeven: “A maioria de suas anotações provinha de conversas com pessoas, pedidos para consultar Bíblias e pesquisa em registros de igrejas. As coisas não deram certo quando ela pediu para ver cartas e atestados de casamento. As mulheres apertavam os olhos, depois sorriam e ofereciam mais café. Portas invisíveis se fechavam e a conversa virava para falar do tempo”.

O que desanda o bolo de miss Morrison é o outro círculo da narrativa, o das mulheres do Convento. Quando será que a autora de Amada vai se dar conta de que o “realismo mágico” não é a sua seara? Por que destruir toda a narrativa e adotar um ar de embusteira literária com o final tão bobo (após a invasão do Convento, as mulheres desaparecem no ar e reaparecem, meio sobrenaturalmente, nas suas vidas abandonadas)? Por que nos impingir essas trajetórias de vida tão chatas e tão repisadas de martírio das mulheres nesse mundo feito para os homens? Mas, principalmente, por que construir personagens tão fracos, tão pálidos, que não interessam o leitor? Mulheres que deixam filhos morrerem sufocados nos carros, que se mutilam, isto é, que tomam atitudes tão extremas e, no entanto, são tão desinteressantes enquanto seres ficcionais? E por que dar um tom, perto do final, tão similar ao de As Bacantes, de Eurípedes, com mulheres “possuídas” desafiando a ordem dos homens, se ela não é capaz de sustentá-lo com grandiosidade ou, pelo menos, no nível paródico?

É desconfortável ler Paraíso porque parece que fazemos duas leituras, e ambas estranhas entre si: uma, apreciando a maneira como ela construiu convincentemente uma comunidade—que poderia, inclusive, desdobrar-se em outras histórias—; a outra, implicando ranzizamente com o romance e com Toni Morrison por ser tão demagógica e rasa. E, sobretudo, uma romancista ruim na estrutura total dos seus romances. Um blefe da literatura contemporânea.

Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  30 de março de 1999

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/05/morrison-nao-merecia-o-nobel/

 

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