MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/12/2012

Meu duplo: no meio do caminho havia um superego

Este é mais um texto de 2008, do meu curso AS MARGENS DERRADEIRAS sobre textos-limite do século XIX, na verdade mais uma leitura comentada do que uma análise.

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https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/o-americano-nada-tranquilo-os-200-anos-de-poe/

https://armonte.wordpress.com/2012/12/22/dr-fortunato-e-o-sr-valdemar-o-medico-e-a-cobaia/

https://armonte.wordpress.com/2013/03/06/para-seguidores-e-neofitos-de-poe-os-arabescos-de-contos-de-imaginacao-e-misterio/

“Duas almas, oh! Habitam em meu peito

                                       E cada qual está ávida por abandonar sua irmã

(Goethe, Fausto, 1808)

Em 1839 (exatos cem anos antes da morte de Freud), Edgar Allan Poe publicou William Wilson, seu sensacional conto que se tornou o paradigma das histórias de doppelgänger, isto é, do Duplo, daquele Outro que é um Sósia [1].

O clima da história já é pressuposto pela sua epígrafe extraída do obscuro Pharronida, de um tal Chamberlain, que Poe reputa tão conhecido quanto Goethe ou Nietzsche a ponto de não lhe acrescentar qualquer outro nome ou identificação: “Que dirá ela? Que dirá a terrível consciência, aquele espectro no meu caminho?”

William Wilson é o garoto rico e mimado, educado numa escola de elite, e que, apesar da sua ascendência sobre os camaradas e sua posição social, se sente incomodado, espicaçado e humilhado pela presença de um homônimo que ainda por cima se parece com ele (além de ter nascido no mesmo dia: 19 de janeiro de 1813[2]): O meu caráter ardente, entusiasta e dominador, deu-me uma situação proeminente entre os meus colegas e, gradualmente, uma ascendência poderosa sobre todos os que eram mais novos ou da mesma idade que eu; sobre todos, exceto sobre um…o meu homônimo; rivalizava comigo nas lições, nos jogos e nas lutas do recreio; não acreditava nas minhas afirmações, assim como não se submetia à minha vontade; recusava enfim suportar a minha ditadura e manifestava-o sempre que lhe era possível…A rebeldia de Wilson constituía para mim fonte de desgostos, tanto mais que, apesar do desdém com que eu afetava tratá-lo e às suas pretensões, bem no fundo temia-o… Parecia que o único fim da sua rivalidade era o caprichoso desejo de me contradizer, de me atemorizar, de me atormentar, embora muitas vezes eu não pudesse deixar de notar, com um sentimento misto de espanto, de raiva e de humilhação, que o meu rival associava às suas contradições impertinentes uns assomos de afeto muito intempestivos e muito desagradáveis. E eu nem sequer conseguia explicar a mim mesmo a sua conduta, senão julgando-a como o resultado de uma insolência presunçosa, que se permitia ares de superioridade e de proteção” (note-se que ele diagnostica no rival defeitos que podem ser imputados a ele mesmo). A única arma contra o adversário acaba sendo a dissimulação da hostilidade através da ironia e da troça. De nada adianta. Além disso, nada me irritava mais —embora eu forcejasse por não o demonstrar— do que as alusões às nossas semelhanças físicas ou morais… tendo notado quanto essas semelhanças me desgostavam, William tornava-as mais notadas, arremedando-me com prodigiosa habilidade. Copiava-me os gestos e as palavras; imitava a minha maneira de vestir, o meu andar, os meus modos e, enfim, nem sequer a minha voz lhe escapara”.  Se essa “caricatura” o agasta, pior ainda a idéia de que o “outro” possa adotar cruciantes ares protetores : Essa intervenção tomava, por vezes, a forma de um conselho, que não era dado abertamente, mas sugerido, insinuado, e que era por mim recebido cada vez mais de má vontade…” A grande ironia é que os tais conselhos irritantes eram cheios de bom senso, superiores mesmo à nossa idade, destituída ordinariamente de reflexão e de experiência o que é seguido por um trecho especialmente revelador: A sua sensatez, o seu talento e o seu conhecimento  da vida e das coisas eram muito superiores aos meus, e eu seria hoje um homem melhor e, por isso mesmo, mais feliz, se tivesse seguido os conselhos que essas sensatas sugestões continham e que, então, só me inspiravam raiva e desprezo.”

Uma noite, o narrador resolve pregar uma peça no seu homônimo. Vai até o recinto onde o outro dorme e de repente a luz do candeeiro revela o seu rosto: Senti-me penetrado por uma sensação de frio; o coração pulsava-me furiosamente no peito, as pernas vacilavam-me; senti uma sensação de horror inexplicável! Minha respiração tornou-se convulsa, quando aproximei mais a luz do candeeiro. Seriam realmente aquelas as feições de William Wilson? Sim, eram! Que havia então de extraordinário no seu rosto para que eu me sentisse assim impressionado… ele não era ´assim´, não! Nunca fora ´assim´, nos momentos em que me contrariava! Seria humanamente possível, ou o que eu agora contemplava era o resultado desse hábito de imitação sarcástica?”

Devido a esse episódio, ele retira-se da escola. E, durante três anos, se abandona ao que chama de turbilhão de loucura, através de sucessivos desregramentos. Numa das orgias que ele oferece aos camaradas, o criado aparece anunciando alguém, que lhe pede para ir encontrá-lo no vestíbulo. Embriagado, o narrador vai de encontro a um “jovem mais ou menos da minha estatura, vestido com um terno de casimira branca, absolutamente igual ao que eu então vestia. Mal me viu, veio até mim, agarrou-me por um braço com um gesto imperativo e impaciente e disse-me ao ouvido: William Wilson.” A embriaguez desaparece, “como se na minha alma tivesse se produzido a descarga de uma pilha elétrica”. Investigando, ele descobre que o adversário deixara o colégio no mesmo dia. Passam-se alguns meses de obsessão, porém aos poucos ele vai deixando de pensar no assunto, “absorvido como andava com a idéia da minha partida próxima para Oxford, na qual “a desmedida ostentação” dos pais lhe permite uma “renda fixa anual que me permitia abandonar-me à vontade à luxúria, já tão cara ao meu coração”“. Componente importante das farras é o jogo e, sem ninguém saber, e malgrado a sua imensa fortuna, Wilson trapaceia no jogo, por pura desfaçatez. Acontece então que ele, utilizando desses escusos expedientes, “depena” um jovem otário recém-chegado, um nobre muito rico chamado Glendinning. Isso acontece numa casa alheia (de um tal Preston). Ao ganhar, Wilson percebe que no rosto do oponente de jogo “a vermelhidão do vinho fora substituída, quase subitamente, por uma terrível palidez. Percebe, então, os olhares recriminatórios de alguns e fica sabendo, pelos murmúrios entreouvidos, que Glendinning está totalmente arruinado. De repente, em meio à situação embaraçosa, As pesadas portas da sala onde estávamos abriram-se repentinamente de par em par, com tal ímpeto que todas as velas se apagaram como que por encanto, o que permite a entrada teatral de um “indivíduo aproximadamente da minha estatura, embuçado numa capa”. Tomando a palavra, o tal indivíduo, em meio à escuridão, revela aos presentes o caráter de William Wilson, denunciando as cartas marcadas que ele esconde no forro do casaco. Wilson é revistado, desmascarado, expulso da casa por Preston e advertido de que o melhor a fazer é abandonar imediatamente Oxford (lembrem-se: é um tempo em que a honra era levada a sério, tanto que o duelo fazia parte do quotidiano cavalheiresco)[3].

Sendo perseguido de tal forma pelo “amaldiçoado destino”, Wilson começa uma interminável excursão pelas principais cidades da Europa (Paris, Roma, Viena, Berlim, Moscou) e o “misterioso poder” sempre lhe atabalhoa os passos e frustra-lhe os (maus) intentos. O “duplo” aparece sempre, vestido identicamente, porém já não mostra o rosto. E o círculo vicioso vai se mantendo até o carnaval em Roma em 18.. (os autores oitocentistas adoram esse expediente): Até então, eu sempre me submetera, de uma maneira covarde, à sua imperiosa vontade. Wilson planeja seduzir a jovem esposa do velho duque que oferece o baile carnavalesco (carnaval=máscaras=personas=identidades desdobráveis). Antes, todavia, de poder abordá-la, ele próprio é abordado com um leve toque no ombro e um inesquecível murmúrio ao ouvido, murmúrio que eu tantas vezes já amaldiçoara!” Enfurecido, ele provoca o seu duplo, abre caminho pelo salão de baile até uma pequena antecâmara, sabendo que o outro o seguirá.  E assim os dois começam uma luta de espadas, após uma pequena hesitação por parte do “outro” William Wilson, o qual com um ligeiro suspiro, pôs-se em guarda, silenciosamente demonstrando uma calma extraordinária”.

O narrador vence o combate, trespassando o peito do adversário sucessivas vezes, após fazê-lo recuar até uma parede. Enquanto pessoas tentam forçar a fechadura, ele se debruça junto ao inimigo agonizante: Ah! Só então senti como a linguagem humana é impotente para exprimir o espanto e o horror que experimentei perante o espetáculo que se me deparou! (…) No lugar onde momentos antes eu nada vira, havia agora um grande espelho… Aproximei-me dele cheio de terror e vi caminhar para mim a minha própria imagem, com o rosto extremamente pálido e todo salpicado de sangue, avançando a passos lentos e vacilantes (…) Tratava-se do meu inimigo, de William Wilson, que, agonizante, se erguia perante mim. A máscara e o manto jaziam no chão. Não havia uma só peça do seu traje nem um só traço do seu rosto…que não fossem, na mais absoluta identidade, meus!”

         Um dos hábitos do “duplo” que mais irritavam o narrador quando ambos eram colegas de colégio era que ele falava muito baixo, enquanto que o seu próprio timbre era muito alto. Dessa vez, porém, o “outro” Wilson “já não murmurava ao falar!”; ele “falava de tal maneira alto que tive a impressão nítida de ouvir a minha própria voz dizendo: —Você venceu, e eu pereço. Mas daqui para o futuro você estará morto. Morreu para o mundo, para o céu e para a esperança! Existia em mim. Olhe bem para a minha morte, e nessa imagem…você verá o seu próprio suicídio!”

É óbvio que uma pessoa, com a malícia pós-moderna, tem o direito de dizer: mas estava na cara, desde o começo, que o Outro era ele mesmo, e esse final não podia ser mais rebarbativo!  Bom, a pessoa tem direito de pensar assim, mas eu retorquiria que a primeira vez em que li (lá pelos meus quatorze anos) essa história eu fiquei tão impressionado que nem me liguei no que “estava na cara”.  Eu diria também que o tipo de originalidade que Poe trouxe à ficção era de tal feitio que uma história dessas era mais que desconcertante em 1839, e que mesmo com a ressignificação proposta pelo final (e que nós, de hoje em dia, já tão versados em psicologia e psicanálise, já podemos prever desde o princípio) a história do duplo tinha um componente tenebroso e difícil de digerir a partir da solução. E finalmente eu diria que, enquanto Freud matutou quarenta anos para propor a tríade que comanda o mecanismo mental do ser humano, bastou a Poe  vinte páginas para nos mostrar a pressão exercida no indivíduo pelo conflito entre “id” e “superego”.

Recapitulemos. O narrador nos adverte que os pais o deixaram à vontade na vida desde a infância: então não há coerção de espécie alguma a lhe entravar as vontades. Wilson, tal como se nos apresenta, é o sonho do narcisista: faz tudo à sua vontade, é o ditador dos colegas na escola, um “reizinho” na vida[4] . Ou seja, é regido pelo Princípio do Prazer que, como Freud advertiu, é regulado também pela pulsão da morte, e daí os aspectos agressivos, e a sua tendência à “abandonar-se à luxúria, tão cara ao seu coração” (não se veja a depravação aqui num sentido moralista, mas no sentido amoralista, de “ausência de freios”). Temos aí um ego incompleto, cujo estágio de formação permanece atrelado ao “id”, incapaz de compreender o Princípio da Realidade.

Quando a história começa mesmo? Geralmente os fatos da vida infantil só nos fornecem impressões que são mal definidas. Tudo são sombras, vagas e irregulares lembranças, difusa confusão de prazeres pueris e mágoas sem fundamento. Não sucede assim comigo. Devo ter sentido na minha infância, com o vigor do homem feito, tudo aquilo que ainda hoje tenho gravado na minha memória, em traços indeléveis, tão profundos e tão duradouros como os da cunhagem das moedas cartaginesas.” Ou seja,em William Wilson não se deu o processo de repressão que permite o processo civilizatório, o qual impõe traços de caráter ao ego e o habilita para a vida social.

Mas ele não é imune totalmente ao processo. A dissociação da sua personalidade no seu doppelgänger é a solução desesperada do seu ego para não se dissolver totalmente no narcisismo (id)ílico. Daí a constante contrariedade a que é submetido pelas intervenções do colega, e depois da sua primeira fuga, as teatrais e abaladoras aparições dramáticas em momentos nos quais “está indo longe demais”. Ao assassinar seu superego, que é o seu tutor, o seu censor, o seu freio, ele assina seu próprio suicídio: não terá vida, pois sem o “outro” Wilson ele não reconhecerá o Princípio da Realidade que permita sua sobrevivência. Como já citei antes, a sensatez do “duplo”, seu talento, seu conhecimento da vida (ou seja, ele é muito mais maduro do que o seu idêntico porque o superego representa nosso “ego ideal” e ele sempre se projeta numa transcendente maturidade, por isso resistimos tanto a ele e às suas sugestões). O narrador reconhece, porque no fundo se conhece, que seria um homem melhor, e mais feliz, se tivesse seguido os conselhos, ou seja, chegado a um acordo com ele e permitido a fusão dos dois pólos numa mesma identidade. Eu afirmei que ele no fundo se conhece devido a um trecho para lá de esclarecedor, ainda na fase do colégio, quando ele discorre sobre o quanto o colega o incomoda com suas intervenções em sua vida: “Acudiam ao meu cérebro obscuras recordações da minha primeira infância, estranhas, quase apagadas recordações duma época que a memória já não podia alcançar. Dir-se-ia que eu já tinha visto o ente que me falava, numa época muito afastada, muito remota. Contudo essa ilusão apagou-se tão rapidamente como aparecera.” . Permanecendo atrelado ao império do “id”, ao reencontrar seu superego, ele lhe (a)pareceu como a Consciência da epígrafe do conto: um “terrível espectro”.


[1] Dois dos autores do nosso curso trabalharam com textos “doppelgänger”: Dostoievski, numa de suas primeiras obras, traduzida aqui como O Duplo e também como O Sósia; e Conrad, que em 1910, lançou O parceiro secreto (Imago e L&PM) ou O cúmplice secreto (Iluminuras).

[2] 19 de janeiro é a data do nascimento de Poe, só que ele nasceu em 1809. Nunca é demais lembrar que a fidalguia e vida à larga, em termos de grana, de William Wilson, é uma fantasia  do autor, quase sempre à beira da indigência. Aliás,é interessante notar que embora ele (Wilson, como narrador da história) assuma para o leitor que se vale de um pseudônimo, não deixa de revelar seu desgosto com o patronímico: “o meu nome, apesar da sua nobre origem, era um nome comum, um desses nomes que, desde tempos imemoriais, são também propriedade do povo”;  e mais claramente: “O meu nome de família, falho de graça e de elegância, e mesmo meu nome próprio, tão trivial e tão plebeu, eram e sempre foram para mim motivo de grande desgosto”  (utilizo aqui a tradução de José Paulo Paes, nos “Melhores Contos” do autor, editados pela Cultrix; também tenho uma tradução de Berenice Xavier em Histórias Extraordinárias, pela Abril Cultural; e uma tradução de Oscar Mendes para a Ficção Completa, Poesia & Ensaios, pela Aguilar).

[3] Há um detalhe a mais na cena: o denunciante vai embora, contudo deixa sua capa e no burburinho todo, mais do que a humilhação, Wilson se concentra no espantoso fato de que ele é idêntica à sua própria capa, que era forrada de boas e variadas peles, e —seria desnecessário enfatizá-lo— de elevado preço. O talhe, inventado por mim, porque nessa altura eu me preocupava muito com essas futilidades do luxo, era de fantasia. Creio que levava a minha fúria pelas modas até o exagero.

[4] “Fracos de espírito e sofrendo, além disso, do mesmo mal, meus pais pouco ou nada fizeram no sentido de modificar os maus instintos que eu tinha. No entanto, fizeram algumas tentativas; mas sem energia, sem direção, falharam inteiramente, redundando num triunfo completo para mim. Desde então, passei a mandar em minha casa, ditando ordens numa idade em que poucas crianças pensam em deixar o regaço materno, entregue ao meu livre-arbítrio, senhor absoluto de todas as minhas ações.”

12/04/2011

O LIVRO DE CABECEIRA DE DORIAN GRAY

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 12 de abril de 2011)

“Sempre tentei viver numa torre de marfim, mas uma maré de merda arrebenta os muros, quer derrubá-los…”

(Gustave Flaubert, 1872)

“Nossos mais ardentes momentos de êxtase são meras sombras daquilo que algures sentimos ou daquilo que desejamos um dia sentir. Ao menos assim me parece. E, o que é bastante estranho, o que disso resulta é somente uma curiosa mistura de ardor e de indiferença. Eu mesmo sacrificaria tudo por uma experiência nova, mas sei que não existe em absoluto algo assim como uma experiência nova…”

(Oscar Wilde, 1886)

Em O Retrato de Dorian Gray (1891), o protagonista ficava abalado por um livro venenoso”, que parecia a ele “conter a história de sua própria vida, escrita antes de ele a viver”. Era uma referência velada a uma obra-prima que existe de fato: Às avessas [“À rebours”], de Joris-Karl Huysmans (1848-1907), cuja magnífica tradução (de José Paulo Paes) foi incluída na coleção de clássicos da Penguin-Companhia das Letras[1]. Oscar Wilde estava em Paris— em lua-de-mel, aos 29 anos—, no momento em que o romance era lançado (em 1884), tendo sido colhido diretamente pelo seu impacto.

De minha parte, só vim tomar conhecimento menos genérico do romance de Huysmans, em 1995, num curso que o próprio José Paulo Paes ministrou na pós-graduação (embora  como professor não fosse nem de longe tão vivaz e interessante como era como escritor multifacetado: ensaísta, poeta, tradutor), em que ele comparava duplas de romances, entre elas a dupla Às avessas e Mocidade Morta, de Gonzaga Duque.[2]

O herói de Às avessas, Des Esseintes, último e lânguido representante de uma estirpe aristocrática, por sofrer do “mal do século”, o spleen, o tédio, a saciedade absoluta—além de um refinamento estético que o faz desprezar a cultura burguesa, a mediocridade mercantilista da sua época—,personifica uma tendência chamada decadentismo[3], na qual—na contramão dos ideais de progresso, fraternidade e igualdade (“Seu desprezo pela humanidade aumentou; compreendeu enfim que o mundo se compõe, na maior parte, de sacripantas e imbecis… A essa altura, já sonhava com uma refinada tebaida, num deserto confortável, com uma arcada imóvel e tépida onde ele se refugiaria, longe do incessante dilúvio da parvoíce humana”)—procura-se uma Torre de Marfim para cultivar a própria sensibilidade.

Atacado pela nevrose (o nome pré-psicanalítico da neurose), não suportando mais viver entre seus semelhantes, Des Esseintes se isola numa casa modelada conforme seus princípios peculiares, com dois criados, nos arredores de Paris. Uma parte da decoração lembra um navio, dando a ele a impressão de estar viajando: “Ele obtinha assim, sem sair de casa, as sensações rápidas, quase instantâneas, de uma viagem de longo curso”. Para esse excêntrico, “a imaginação podia facilmente substituir-se à realidade vulgar dos fatos”. Pois “o artifício parecia outrossim a Des Esseintes a marca distintiva do gênio humano. Como ele costumava dizer, a natureza já teve a sua vez”.

O fascinante em Às avessas é que nada acontece no romance. Até o final, em que a evasão de Des Esseintes é colocada em xeque pelo seu médico, a única peripécia é um divertidíssimo episódio de “viagem” à Inglaterra, após a leitura de Dickens: ele prepara as malas, sai de casa, vai a Paris, sob bátegas de chuva (“ruído monótono de sacos de ervilha despejados acima de sua cabeça pelo aguaceiro que se derramava sobre as malas  e a cobertura do fiacre”), refugia-se num restaurante inglês, come e bebe à larga, mais do que o seu costume (“Sentia um peso no estômago e uma moleza pelo corpo todo”) e desiste de prosseguir, já tendo experimentado os “ares de além do canal da Mancha”. Para que prosseguir? : “…uma imensa aversão pela viagem, uma imperiosa necessidade de ficar tranqüilo se lhe impunham com uma firmeza cada vez mais acentuada, cada vez mais tenaz (…) Em suma, experimentei e vi o que queria experimentar e ver. Estou saturado de vida inglesa desde a minha partida (…) regressou, com suas malas, seus pacotes, suas valises, seus estojos, seus guarda-chuvas e suas bengalas, a Fontenay, sentindo o esfalfamento físico e a fadiga moral de um homem que retorna ao próprio lar ao cabo de uma longa e perigosa viagem…”


No mais, ficamos conhecendo as idéias e experiências (narradas com uma volúpia inventariante e enumerativa que faz desse romance uma espécie de As palavras e as coisas fin-de-siècle XIX) desse quixotesco herói nos campos da literatura, bibliofilia, mobiliário, decoração, moda, jóias e pedrarias, pintura, floricultura, licores, perfumaria.

Egresso do Naturalismo (o movimento literário que então dominava o romance), ex-discípulo de Zola, pode-se ter a impressão de que Huysmans rompeu com a feição naturalista e se bandeou para os lados do Simbolismo-Parnasianismo, ao criar essa existência emparedada no esteticismo e no elitismo, esse ser de exceção. No entanto, me parece que ele mais dá ênfase ao absurdo dessa existência e a parodia do que lhe ratifica os princípios (como pensou equivocadamente o Dorian Gray de Wilde, que se deixou “contaminar” pelo livro). Patrick McGuiness evoca a dupla flaubertiana Bouvard e Pécuchet em sua introdução ao texto de Huysmans, porém eu reivindico a precedência, já que o meu exemplar da edição de 1987—todo anotado na leitura de 1995—ostenta na pág.132 a seguinte observação na margem: “é quase um lado Bouvard e Pécuchet: tudo malogra”; eu me referia às experiências botânicas de Des Esseintes as quais acabavam por agravar sua nevrose (e todos devem lembrar dos absurdos experimentos da tola dupla flaubertiana0, tirados da leitura de milhares de livros): “Seu tédio passou a não conhecer limites; fora-se a alegria de possuir mirabolantes florações; já estava farto de sua contextura e de seus matizes;pois, malgrado os cuidados de que as cercou, a maior parte das plantas pereceu…” Outro exemplo: ele manda cravejar de pedrarias preciosas a carapaça de uma tartaruga para que ela combine com suas tapeçarias (é obcecado por nuances, matizes e combinação de cores em seus ambientes). O encarregado do serviço entrega o pobre animal, causando espanto nos criados; após um episódio rememorativo, Des Esseintes “inquieta-se com a tartaruga”: “Ela não se movia mais; apalpou-a; estava morta. Habituada sem dúvida a uma existência sedentária, a uma vida humilde passada sob a sua pobre carapaça, não conseguira suportar o luxo deslumbrante que lhe impunham, a chapa rutilante de que a haviam revestido, as pedrarias que lhe tinham engastado nas costas, como um cibório…”


Ademais, de ponta a ponta do romance, avulta o fisiologismo, numa presença saturante que nada fica a dever aos romances naturalistas mais ortodoxos. Do peso da hereditariedade (a deterioração da estirpe dos Des Esseintes) a dores de dente e lavagens estomacais, passando por estados patológicos e interesses “anormais” (algumas predileções sexuais de Des Esseintes), sem contar a presença da autoridade médica, todo o aparato do Naturalismo se faz onipresente em contracanto à sua linguagem parnasiana, com seu gosto descritivo e vocabulário preciosista. Nesse sentido, além do pendor inventariante ao qual já aludi, Às avessas é uma espécie de livro-síntese, fazendo valer a vocação enciclopédica do romance, que seria uma característica do Alto Modernismo.

Por falar em fisiologismo, há um lado assustador e odioso em Des Esseintes: podia-se imaginar que esse esteta, no seu isolamento, cultivasse apenas o suprassumo da civilização. Não, ele tem um gosto específico pela perversidade, pelos artistas que trabalham com o sofrimento humano, a tortura, a brutalização e a destruição do corpo, com massacres e suplícios, “corpos crestados sobre os braseiros, crânios com a calota decepada por sabres, trepanados por pregos, entalhados com serras, intestinos arrancados do ventre e enrolados em bobinas, unhas lentamente extraída com tenazes, pupilas vazadas, pálpebras reviradas com aguilhões, membros desconjuntados, quebrados com cuidado, os ossos postos a descoberto, demoradamente raspados a faca”. Foi dessas mentes sensíveis, desses eleitos, que surgiram as lideranças do totalitarismo que semeará o terror décadas depois.  Nessas estufas é que foi cultivada a flor dos nazismos  vindouros.[4]

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2011/04/08/o-retrato-desfigurado/

https://armonte.wordpress.com/2011/03/30/mr-hyde-emoldurado/

https://armonte.wordpress.com/2011/04/14/um-decadentista-fora-da-estufa-as-cidades-e-as-serras/


NOTAS

[1] A Companhia das Letras publicara a tradução de Paes em 1987, um dos primeiros títulos de seu catálogo. A edição atual, com introdução e notas de Patrick McGuiness, teve Donaldson M. Garschagen como tradutor do material inédito.

A capa traz a reprodução de um óleo de  Frantisek Kupka, Le yellow scale, de 1907, que traz uma lãnguida figura masculina que lembra sobremaneira Lúcio Cardoso, autor de Crônica da casa assassinada.

[2] Esse romance de 1900 é, no mínimo, uma curiosidade. Seus personagens são um grupo de artistas e intelectuais, cujas aventuras—ou antes desventuras—são narradas num estilo divertidamente pomposo e meio ridículo. Para narrar que um deles broxou, eis que “nascia-lhe, deste íntimo entendimento, uma rijeza de ânimo para suportar as desventuras que a sua hiperestesia aumentava com a nitidez e a grandeza das pesquisas microscópicas, dentre as quais ressaltava este percebido insucesso para o requesto, esta falha de masculinidade para o gozo comum da mulher… que ele, agora, desprezava, insexualizando-se numa elevada espiritualização de desprendimento da carne, até a suposição alucinante da hipocrisia abjeta do próprio amor, na sua mais imperiosa mutualidade de tendências gestativas, sublimizadas pela estesia poetizante de cada ser. A digressão reminiscente, penosa e demorada que fizera pelo passado, excitou a complicada filigrana do seu aparelho nervoso, predispondo-o a trabalhar nas suas frases atormentadas de incontentável, consubstanciando-se a irregularidade heteresial na contextura sintética de páginas originais, com a fina penetração das autopsicologias…”

O final do livro também serve como exemplo delicioso: “O plenilúnio, alma do esoterismo, transformada em astro, estranhamento belo como uma esfíngica e régia coroa de fantástica ninféia luminosa, levada pelo bafejo sussurrante da loucura sobre a quietação morta de uma lagoa infinita, ia flutuando, boiando, deslizando, serena e indiferentemente, banhada em seu halo de pérolas lucifeitas, a aveludar as ilusões dos que põem os olhos nos céus, a esmaecer nos sonhos as almas meigas dos que lhe vão na esteira macia de sua luz nostálgica, a esvair na sucessão de enganos os que a seguem, pela Terra, fascinados… fascinados… fascinados… Para onde?”


É preciso dizer que o universo de Huysmans pode ser enfadonho, exasperante e até antipático, mas está longe de ser cômico assim. No entanto, Des Esseintes—seu protagonista—também sofre de impotência. Quando ela se manifesta, após anos de desregramentos e deboches, ele oferece, “para celebrar o mais fútil dos infortúnios”, um “retumbante jantar”, um banquete de luto no estilo século XVIII:

“Na sala de jantar forrada de preto, aberta para o jardim de sua casa subitamente transformado, com as aléias cobertas de carvão em pós, o tanquezinho debruado agora de um parapeito de basalto e cheio de tinta, os maciços providos de ciprestes e pinheiros, servira-se o jantar sobre uma toalha negra, guarnecida de violetas e escabiosas, iluminada por candelabros onde queimavam chamas verdes e castiçais onde ardiam velas. Enquanto uma orquestra dissimulada tocava marchas fúnebres, os convivas haviam sido servidos por negras nuas, de chinelas e meias de tecido de prata pontilhadas de lágrimas…”


Além da impotência, há o fantasma da sífilis, moléstia que pode ter acometido Des Esseintes que tem um pesadelo apocalíptico com ela (“a mirada terrível da sífilis que sentia pesar sobre si”), contudo mesmo antes do episódio onírico, ele tem uma visão da humanidade “trabalhada sem cessar pelo vírus das épocas antigas. Desde o começo do mundo, de pai para filho, todas as criaturas transmitiam umas às outras a imperecível herança, a eterna doença que devastou os antepassados dos homens”. A conclusão do herói de Huysmans: “Tudo não passa de sífilis”.

Segundo Richard Ellmann, Oscar Wilde  (1854-1900) também contraiu sífilis. No seu estilo expressivo, o grande biógrafo nos diz que “talvez nesse momento tenha começado a se formar em sua mente a parábola da decadência secreta de Dorian Gray, enquanto a espiroqueta começava a subir pela espinha dorsal em direção às meninges…”

[3] A dica aqui é Caminhos do Decadentismo Francês, de Fúlvia L. Moretto, que nos fornece um panorama completo desse Zeitgeist.

Nas duas últimas décadas do século XIX, sem que se prefigurasse um movimento específico, reconhecível facilmente, difundiu-se um esteticismo que configurava uma “mentalidade decadentista. Ela herdou um tanto do spleen ultra-romântico, um tanto do misticismo de Swendenborg, um tanto do pessimismo de Schopenhauer, um tanto da música de Wagner, um tanto do imaginário de Poe. Mesclou-se com o nascente Simbolismo, enquanto também encantava os parnasianos e nem o “realista” Flaubert deixou de sentir o seu influxo.

Há, em certa parte da elite intelectual, um sentimento de vazio, a sensação de que algo morre e que se está em uma civilização em declínio, um mundo em decomposição. Enquanto o povão e a outra “elite” (classes abastadas) vivem a euforia e o otimismo em função da ideologia positivista, os decadentes procuram se evadir dessa grande farsa burguesa e utilitarista.

Um dos fenômenos mais interessantes do decadentismo é o fato de que seus adeptos desdenhavam a prosa de ficção, no sentido de construção de intrigas, de pormenores realistas. Muito mais cultuada, e considerada mais rara, era a prosa poética, mais evanescente, menos tangível enquanto mimesis da realidade. Por isso, o decadentismo não produziu muitos romances, por razões óbvias. Duas exceções notáveis: o próprio Dorian Gray (em Oscar Wilde, o decadentismo se traduziu como esteticismo, sobre o qual ele discorreu em inúmeras conferências pelo Reino Unido e por todos os EUA), e, claro, Às avessas, o grande, autêntico e genuíno romance decadentista. Ao discorrer sobre suas preferências literárias, Des Esseintes faz a apologia do “poema em prosa”: “De todas as formas de literatura, a do poema em prosa era a preferida de Des Esseintes. Manejada por um alquimista de gênio, ela devia, a seu ver, encerrar em um pequeno volume o poder do romance de que suprimia as longas análises e as superfetações descritivas. Muito freqüentemente, Des Esseintes meditara sobre esse inquietante problema: escrever um romance concentrado em algumas frases que contivessem o suco coado das centenas de páginas sempre preocupadas em estabelecer o ambiente, em desenhar os caracteres, em acumular exageradamente as observações e os pequenos fatos…”


Um aspecto que me interessa particularmente em todas as considerações de Des Esseintes a respeito dos (poucos) autores contemporâneos que ele admira, é que os admiráveis apresentam um “estilo novo”, “o verbo indispensável às civilizações decrépitas que para expressar suas necessidades exigem, não importa em que época se produzam, acepções, estruturas, construções novas, tanto nas frases quanto nas palavras…” Uma equação insólita, não?, se insinua nessas reflexões: civilização decrépita + estilo novo.

Outra dica, além do livro de Fúlvia L. Moretto, é o ensaio “Os usos da decadência: Wilde, Yeats, Joyce” no qual Richard Ellmann fala bastante de Às avessas. Ele pode ser encontrado em ao longo do rio corrente (a edição brasileira que eu tenho é de 1991, não sei se foi reeditada pela Companhia das Letras–a tradução é de Denise Bottmann, o que é uma garantia de rigor e qualidade).

[4] E sabe-se como o catolicismo em sua feição mais reacionária, o antissemitismo arraigado e o chauvinismo francês tem parentesco de primeiro grau com o nacional-socialismo. É preciso lembrar também que, antes de isolar-se, um dos experimentos de Des Esseintes é a tentativa de criar um assassino: ele pega um rapazote Zé-ninguém, sem vintém, leva-o a um bordel chique, oferece-lhe todos os prazeres e combina com a dona que ele terá acesso de quinze em quinze em dias durante três meses: “…ao cabo de três meses, suspendo a pequena renda que te vou entregar adiantadamente para cumprimento dessa boa ação, e então ele irá  roubar a fim de poder voltar aqui; lançará meio de todos os meios para revolver-se nesse divã à luz desse gás!”. Pode-se argumentar que tal  episódio é pueril e inconseqüente. Eu acho que não. Não quero dizer que Huysmans seja um Des Esseintes, mas este prefigura um tipo que facilmente aderirá ao nazismo e/ou será colaboracionista.

24/12/2010

“A cidade há de seguir-te(…) A esta cidade sempre chegarás”

Em Pontos de fuga, Graham Greene, ao falar sobre lugares que capturam o nosso coração, escreve: “Aos 31 anos, na Libéria, dei meu coração à África Ocidental… Meu amor pela África aprofundou-se ali, em particular pelo que é chamado, no mundo inteiro, a Costa, aquele mundo de tetos de zinco, de urubus pousando ruidosamente, de caminhos de laterita ganhando uma cor rosada à luz do entardecer.”

Há exatamente 50 anos, Lawrence Durrell (1912-1990) lançou o primeiro volume (Justine) do mais inesquecível registro ficcional do feitiço de um lugar: “Em essência, o que é essa nossa cidade? O que resume o nome Alexandria? Num relance, minha mente exibe incontáveis ruas tomadas de poeira..o doce odor da poeira dos tijolos e das calçadas quentes saciadas com água”.

É desconcertante que só agora apareça uma tradução brasileira de O quarteto de Alexandria (durante anos circulou por aqui a ótima versão portuguesa, de Daniel Gonçalves), que seria completado em 1960. Trata-se de um dos romances mais belos a destrinçar o paradoxo de se existir mais na memória do que no próprio ato de viver.

Então, temos a cidade e a memória, o labirinto e o fio de Ariadne que nos permite percorrê-lo. A cidade, em sua dimensão mitológica, onde Justine, amante do narrador “errava em busca (no meio de uma terrível solidão do espírito) do lampejo que lhe revelaria uma nova perspectiva do seu ser” (é preciso dizer que a, em geral correta, tradução brasileira, às vezes carece de graça. Veja-se como ele traduz o mesmo trecho: “buscando com uma dedicação assustadora a centelha definitiva que a elevaria até uma nova perspectiva de si mesma”). Essa busca é a tentativa de quebrar as imagens fixadas nos espelhos cuja reiterada aparição no livro acabam proporcionando-nos uma imprevisível mistura de Proust e Borges, o mundo da memória perseguindo o Ser e o mundo fantasmagórico em que o ser é apenas um reflexo e igualmente pode Não-ser: “Na hora de ir  para a cama, Justine olhava-se no espelho do primeiro patamar da escadaria e ralhava com seu reflexo: Estou cansada de você, sua judia presunçosa e histérica!”

O narrador do livro é um professor irlandês, envolvido com uma dançarina de cabaré que se prostitui, Cléa. Ele conhece Justine, esposa do milionário Nessim, discípula do místico Balthazar, descendente espiritual da sua homônima criada pelo Marquês de Sade, envolta em sensualidade, mas com um “ar de perpétuo esgotamento” (“uma verdadeira filha de Alexandria; nem grega, nem síria, nem egípcia, mas um híbrido, um complexo”). Enfim, uma mulher “que arrancava as pessoas dos seus velhos invólucros”. A cidade, a memória, a mulher, os grandes pólos enfeitiçantes, imantadores e galvanizantes da literatura, que propiciarão ao narrador o “primeiro grande desastre da idade madura”, numa ciranda amorosa alexandrina que oferecerá “uma existência que esperava de nós o impossível: que existíssemos” na “zona de atração que  Alexandria criava para aqueles que escolhera como seus símbolos”.

Cidade, memória, mulher, espelhos. E um fantasma literário vindo admoestar constantemente o Hamlet de Durrell: o poeta de Alexandria, Konstantinos Kaváfis (1863-1933), com sua poesia de momentos irrisórios impiedosamente reconstruídos:

Dizes: “Eu vou para outras terras, eu vou para outro mar.

Hão de existir outras cidades melhores do que esta.

De todo o esforço feito –estava escrito—nada resta

E sepultado qual um morto tenho o coração.

Até quando vai minha alma ficar nesta inação?(…)

Não acharás novas terras, tampouco novo mar.

A cidade há de seguir-te. As ruas por onde andares

Serão as mesmas… A esta cidade sempre chegarás…

A vida, pois, que dissipaste aqui, neste cantinho

Do mundo, no mundo inteiro é que a foste dissipar”. ( (tradução de José Paulo Paes)

(resenha publicada em três de março de 2007)

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