MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/08/2010

O coronel em seu labirinto

    Pode-se escolher dois caminhos para a leitura de O coronel e o lobisomem (1964), de José Cândido de Carvalho: um, calcando-se na óbvia picardia do texto, anulando toda a ideologia incômoda que sustenta uma figura como Ponciano de Azeredo Furtado, o narrador-protagonista, e limitando-se a uma fácil simpatia (e com certeza deve ter sido o caminho adotado pelo filme, pois há uma praga que se alastra ano a ano, essas produções que nivelam as mais diversas obras num mesmo clima de chanchada pseudopopular e quase que num mesmo sotaque, e que significam um retrocesso diante de toda a arte maior praticada no Brasil, que visava justamente a fuga ao mero pitoresco); outro, vendo o coronel não como um tipo talhado para “A praça é nossa”, e quejandos, mas como um dos avatares, suplantado ao longo da narrativa (que vai ficando cada vez mais tristonha), da nossa exploradora elite.

    Se o leitor quiser ter simpatia pelo coronel Ponciano, muito bem. A linguagem forjada pelo autor é poderosa o suficiente para isso. Só que é bom prestar atenção: trata-se de um homem que nada fez na vida, viveu de uma herança latifundiária, gabou-se de feitos mentirosos e nojentos (como a história da matança da onça), além de todo o –longo- episódio repelente em que são enaltecidas as brigas-de-galo (e qualquer um fica impossibilitado a priori de se considerar um ser humano, apreciando coisas desse tipo).

    A postura de Ponciano enquanto narrador é a de “dono do mundo”: até o céu parece ser dele. Daí a necessidade de um clima mítico e heróico, nos episódios do lobisomem e da sereia. E os episódios desabonadores, como a recusa de Isabel Pimenta em casar-se com ele, são retorcidos mais adiante, num auto-engano que não deveria nem poderia contaminar o leitor atento. Infelizmente, parece que quase todos se mostram indulgentes com o ridículo mundinho provinciano do coronel Ponciano e há até quem fale em Brasil genuíno, sabedoria rural e outras bobagens, esquecendo que muitos coronéis Poncianos ainda estão soltos por aí, basta ver parte da nossa elite, particularmente alguns políticos, e até dinastias políticas, que nos assombram e oneram ainda neste momento da nossa história.

    A 2a. parte é mais interessante e reveladora, sem que a linguagem perca a força. Transplantado para a cidade, Ponciano denuncia-se como o provinciano incapaz de lidar com as mazelas de uma outra elite que está constituindo-se, arrivista e urbana. E oportunista, livre das amarras da tradição. Como o Rubião, de Quincas Borba, ele será sangrado impiedosamente em seus bens por um grupo capitaneado por uma mulher que, tal como a Sofia da obra-prima de Machado de Assis, casada com um marido complacente e desejada por ele,  promete muito e nada cumpre, levando o coronel no bico: “Assim que [Nogueira, o marido] virasse as costas, entrava Ponciano velho no uso e gozo de dona Esmeraldina, dama de muita dificuldade  em conceder benefício.”   Nada mais patético, e sarcástico, do que verificar qual a verdadeira sereia na vida do coronel.

    E nada mais revelador da sua mentalidade do que o seguinte trecho (quando ele já está arruinado), além de proporcionar ao leitor um vislumbre do estilo de O coronel e o lobisomem, esse livro tão famoso, tão celebrado,  tão mal compreendido e desfigurado no seu aspecto mais crítico e mordaz: Arrumei outro tipo de soberba…um estreleiro de linda música nos cascos… Parava gente em admiração da peça, da sela avantajada e dos estribos de prata. Quanto mais a pecúnia minguava, mais eu arranjava grandeza… Espalharam que eu não andava certo da bola, possuído de macaquinhos no sótão. O que eu não queria é que filho de vaca nenhum risse do meu tropeço.”

(resenha publicada em 15 de outubro de 2005)

Blog no WordPress.com.