MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

04/04/2014

HAY QUE SER DURAS SEM PERDER LA TERNURA JAMÁS: “O Homem sentado no corredor” e “A doença da morte”

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a doença & o homem

      (1a. parte)

“Estão deitados no corredor como que adormecidos enquanto outra coisa se prepara no lento retorno do desejo. Em gestos quase imperceptíveis eles estão se reaproximando. As peles, os suores que se tocam, os rostos, sua boca, a dela, reencontrada por ele. Eles ficam assim, tocados, à espera. E depois ela diz que deseja apanhar, ela diz no rosto, ela lhe pede, vem. Ele faz, ele vai, senta-se perto dela e olha mais. Ela diz: pancada, forte, como há pouco o coração. Ela diz que queria morrer.

  Eis que o retângulo da porta aberta é ocupado pelo corpo sentado do homem que vai bater.”

O trecho acima é de O homem sentado no corredor, que acaba de ser reeditado pela CosacNaify, junto com A doença da morte. Já havia uma tradução anterior (de Sieni Maria Plastino) pela Record (com O homem atlântico), na esteira do sucesso de O amante nos anos 80. Talvez fosse  interessante uma coletânea mais abrangente de alguns textos curtíssimos de Marguerite Duras, mas é provável que ela funcione melhor assim, cada texto (no máximo um outro fazendo companhia) com sua “aura”, representando a força e a fraqueza da grande escritora francesa que, nos dois títulos agora traduzidos por Vadim Nikitim, potencializou ao extremo as possibilidades da sua linguagem na aproximação do erotismo com a violência, uma recorrência na sua obra desde os diálogos do clássico Moderato Cantabile (1958).

O próprio narrador comete uma violência, sendo voyeur da cena que  narra. Ele é uma presença quase física ao lado do casal, produto da intimidade, ou promiscuidade mesmo, permitida pela palavra (Falo com ela e digo-lhe o que o homem faz. Digo-lhe também o que é feito dela. Que ela veja, é o que eu desejo”). Por isso, O homem sentado no corredor não é um instante fotografado verbalmente, uma imagem pictórica; não é momento fixado nem epifania. É uma irrupção da linguagem escrita entre o movimento dos corpos, o furor passional, o autismo e a necessidade de ato físicos violentos, sempre com o mar ao fundo, que caracterizam os casais durasianos.

E é por isso que não se cai no mau gosto nem na poetização do sexual (também um tipo de mau gosto), isto é, na perfumaria erótica, nesse  vertiginoso relance (que, entretanto, nunca dá a impressão de ser rápido) de um homem que, sentado num corredor, observa sua mulher se desnudar diante dele, e então se levanta, ejacula sobre o corpo dela inteiro, voltando ao corredor, após pisoteá-la e revirá-la; ela vai ao seu encontro, ele com o membro para fora da calça, e aí a mulher praticamente o pisoteia e o revira interiormente, (Vejo que ele a deixa fazer e olha de novo com ela. Que ele a olha fazer, que se presta a seu desejo tudo o que lhe é possível”). Para que, na incomunicabilidade e impossibilidade, a pancada seja uma outra forma de aproximação, outra língua do amor (que o meu leitor não se levante, protestando e vituperando este artigo, esse é o universo de Marguerite Duras e ela nunca fez concessões a qualquer atitude politicamente correta). E depois, a própria confissão de fracasso do narrador, tão íntimo, tão próximo, tão voyeurista, ele que diz obsessivamente (nesse texto que é um espraiar de obsessões) “vejo, vejo, vejo”:  “Vejo que o homem chora deitado sobre a mulher. Dela vejo apenas a imobilidade. Eu desconheço, não sei nada, não sei se ela dorme.”

(resenha publicada originalmente em “A Tribuna” de Santos ,em 27 de abril de 2007)

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(2a. parte)

Na seção anterior, a propósito da edição conjunta de O homem sentado no corredor & A doença da morte, afirmei que era difícil imaginar muitos textos de Marguerite Duras reunidos em um só volume, pois cada um tinha uma “aura” própria, e isso era prova de força e de fraqueza, pois Duras é a típica escritora carismática. agregando admiradores de uma forma que por vezes impede a análise objetiva dos seus livros (e ela escreveu tanto obras-primas quanto textos ruins).

Uma “aura” também parece percorrer a CosacNaify. Decerto a edição é muito boa, mas não se precisa chegar ao delírio da resenhista de Carta Capital, a qual saúda a inclusão das indicações de Duras para a representação teatral de A doença da morte como uma preciosidade digna de ser colocada num relicário. Além de afirmar que são “melhores que o próprio texto” (!!!!????), mostra-se bem mal informada: elas já constavam da edição bilíngüe que a Taurus lançou  em 1984 (tradução de Jorge Bastos), antes que O amante fizesse sucesso no Brasil, quando a grande escritora francesa era escassamente editada por aqui (aliás, foi essa a primeira vez que o autor deste artigo leu Marguerite Duras). A Companhia das Letras e a CosacNaify têm atualmente um apelo tal que chegam a convencer jornalistas e críticos que marketing e realidade são a mesma coisa.

A doença da morte utiliza a 2a pessoa para a narração, um exercício que demanda extrema perícia,  ainda mais depois de ser utilizado de maneira definitiva por Michel Butor no extraordinário e agora cinqüentenário A modificação (1957). Esse uso da 2a pessoa (“Você diz que você quer experimentar, tentar a coisa, tentar conhecer isso, se habituar com isso…) compromete e alarma o próprio leitor: será que estou infectado com esse autismo com relação à vida, diagnosticado pela interlocutora do protagonista? Quem é ela? Uma mulher que é paga para passar algumas noites com ele. Como sempre, Duras não precisa de crimes, de brigas, de ação, para deixar implícita uma violência terrível, uma necessidade de aniquilamento, de derrogação. E a linguagem se aproxima, nos momentos mais intensos, do afã autofágico de um Samuel Beckett:

“Não há mais nada no quarto além de você só. O seu corpo desapareceu. A diferença entre ela e você se confirma pela ausência súbita… Ao longe, nas praias, gaivotas gritariam na escuridão agonizante, elas começariam já a se nutrir dos bichos da vasa, a revistar areias deixadas pela maré baixa. No escuro, o grito louco das gaivotas famintas, parece-lhe repentinamente nunca tê-lo ouvido.”

Com essa ausência, Duras atingiu um ponto-limite na sua obra. Não por acaso ela retornou à sua história de vida e ao gosto (meio enviesado, é claro) de narrar, no livro seguinte (O amante). A alternativa, permeada pelo grito louco das gaivotas famintas, com esse mar de fundo que nunca desaparece dos seus textos,  seria o silêncio.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 5 de maio de 2007)

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21/10/2010

A luz e a sombra de Sartre

(resenha publicada em 18 de junho de 2005)

    Para comentar o centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre (que ocorrerá no dia 21 deste mês) fica-se na dúvida: que obra escolher ? São tantas, e  tantas são apaixonantes, até as obras de filosofia como O ser e o nada… E Sartre ainda continua a ser publicado, diga-se o que se quiser sobre o declínio de sua influência,  os livros mais inesperados ganham contínuas reedições, como Que é a literatura ?  Para homenageá-lo, seria preciso falar de ambos, do teatro, de  A náusea, dos contos de O muro,  da magnífica trilogia, Os caminhos da liberdade, da qual tantos não gostam, de As palavras, de  Questão de método, de textos das  diversas Situações, do belíssimo roteiro-que-não-foi-filmado, Freud, além da alma, do livro sobre Jean Genet, de A esperança agora

    Caminho mais fácil: comentar um livro a respeito dele e que justamente tem a ambição de fazer frente a todas as vertentes sartreanas: O século de Sartre (Nova Fronteira), publicado por Bernard-Henri Lévy na virada do milênio. Lévy vai tão fundo  que acaba por nos dar a impressão de fazer a Sartre o que este fez a Genet e tantos outros, ao estudar suas biografias e obras, precipitando seu eleito “no buraco negro do seu próprio pensamento. É a desventura de Genet, esmagado pela homenagem que ele lhe presta, canibalizado, reduzido a nada e quase parando de escrever, ou seja, de existir, após a publicação de São Genet, esse livro-mausoléu onde le meio que o enterrou vivo… longe de ser um acidente… esse beijo da morte é um dos modos normais de sua relação com os artistas que admira”.

      O nó da questão:  Sartre escreveu São Genet, canibalizou seu objeto de estudo, mas era Sartre, e um escritor muito mais importante do que seu colega. O que era exatamente Bernard-Henri Lévy antes de O século de Sartre ? O mais famoso e vendido dos chamados “novos filósofos” que apareceram na década de 70. Qual foi sua contribuição como pensador? Segundo Michel Winock, no fabuloso O século dos intelectuais,  mereceria um estudo especial a desproporção evidente entre a importância da sua obra e a freqüência com que aparece na tevê  (deve-se lembrar que o próprio Lévy tem um livrinho, Elogio dos intelectuais). No entanto, até que ele revelou certo talento como romancista em O diabo na cabeça e Os últimos dias de Charles Baudelaire.

    Com nó ou sem nó: O século de Sartre é a mais incrível surpresa dos últimos anos. Todos os pontos importantes são esmiuçados, os textos são percorridos com arrepiante minúcia (ainda que a análise peque, às vezes, por uma certa grandiloqüência). Qualquer leitura é sempre redutora, qualquer tipo de  citação poda, mutila, cria um contorno fácil demais ? Nada disso, a sensação é de que o leque Sartre abre-se cada vez, e nunca se esgota. Ele nos resgata a eminência do mais famoso intelectual do século XX, e como ela é constituída por suas próprias qualidades, pelo clima da época e por equívocos, mostra as influências omitidas, tanto literárias (Gide, por exemplo, enquanto ele proclamava Joyce, Kafka e John dos Passos), quanto filosóficas (Bergson, enquanto ele proclamava Husserl e o nazista Heidegger), como ele  pirateava pensamentos e pastichava estilos (moderno, portanto). Acaba com a velha baboseira da filosofia enfraquecer a força do romance sartreano (e finalmente alguém faz justiça a Caminhos da liberdade enquanto obra-prima da ficção), o que não o impede de ser injusto com o teatro praticado por ele (apesar de fazer uma magnífica leitura de Bariona, a primeira peça, ainda amadora). 

    Esmiuça o anti-totalitarismo radical do primeiro Sartre (cujas balizas principais são A náusea e  O ser e o nada, mas também aproveita de forma magistral vários textos  circunstanciais) para contrapô-lo ao segundo Sartre que se colocou a serviço do stalinismo (numa fase em que os intelectuais  já saltavam fora do barco) e, posteriormente, do maoísmo, e que passará a renegar sua obra até chegar ao ponto de condenar radicalmente o ato de escrever como uma doença adquirida na infância, uma quimera que destruiu sua vida, por influência do avô, em As palavras. Tudo pela causa do povo, de uma humanidade futura, ele, que afirmara que  “a existência precede a essência”  e que, por isso, jamais poderia acreditar numa abstração desse tipo.

    Nesses descaminhos da liberdade, a última surpresa do velho pensador, já cego, meio que desacreditado até por sua  “família”, ou seja, o grupo de amigos-discípulos liderados por Simone de Beauvoir (e Lévy nos faz repensar o até agora insuspeito relato do “declínio” de Sartre em Cerimônia do Adeus): sob a influência de um homônimo do autor de O século de Sartre, o ex-maoísta radical, o judeu-egípcio Benny Lévy (conhecido como Pierre Victor), a inclinação para o pensamento judaico. Mas a morte chegou antes de se verificar a extensão da nova mudança de rota, aquela anunciada de modo tão simples e comovente quando Benny Lévy pergunta: “Recomeça-se tudo? Recomeça-se aos 75 anos?” “É claro”.

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