MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/02/2012

John Le Carré em meados dos anos 70 e sua obra-prima

(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 14 de fevereiro de 2012)

Hesitei em reler O espião que sabia demais (a tradução brasileira para Tinker Tailor Soldier Spy, publicado na Inglaterra em 1974;  o título original é referência a uma tradicional parlenda infantil, cuja versão local é “rei soldado capitão” etc, confusamente aproveitada pelo tradutor Thomaz Scott Newland Neto [1]) porque temia ser impossível recuperar o encanto (na falta de outro termo mais apropriado) com um gênero de romance que poderia ter ficado irremediavelmente datado, envelhecido.

Algumas realizações recentes de John Le Carré (penso, por exemplo, em Amigos Absolutos– VER AQUI NO BLOG:https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-primeira-decada-do-nosso-seculo/) ratificavam tal possibilidade.

Graças à sua excelente versão o livro voltou às livrarias, após muito tempo (pena que as editoras ainda se valham do ultrajante recurso de copiarem nas capas—ao invés invés de utilizar uma sobrecapa publicitária, o que seria a melhor solução—os cartazes das produções cinematográficas, parecendo que os textos originais são anexos ou derivativos deles), não pude  me furtar ao risco de uma desilusão. Ainda bem.

Pois, apesar da qualidade do filme de Tomas Alfredson, o romance de John Le Carré não precisava dele para ser um clássico, um ponto alto na sua produção. O fato de não haver mais Guerra Fria só tornou mais evidente o ‘heart of the matter’, o cerne da questão: uma espécie de “busca do tempo perdido” por parte de um grupo de personagens que por acaso são espiões e que não sabem em que ponto entraram num labirinto sem saída, de irrealidade e fantasmagoria: “Você sabe o que ela disse, com aquela voz de sargento-mor?: Você está perdendo seu sendo de proporção, Connie, já chegou a hora de você voltar à realidade. Odeio o mundo da realidade, George. Gosto do Circus e dos meus adoráveis rapazes.” Ou mais adiante:”…Quando Smiley relembrou os caminhos que trilharam em seu passado, um após o outro, já não havia a menor diferença entre as duas coisas: para a frente ou para trás, tudo não passava da mesma jornada..”.

    Eu acabara de sair da leitura (em pouquíssimos dias) de Os  homens que não amavam as mulheres e confesso que achei árdua, quase exasperante, a releitura, especialmente da segunda parte. Agora, vejam que curioso fenômeno: após toda a facilidade e rapidez com que o li, o romance de Stieg Larsson meio que se evaporou na minha mente, mal deixando traços. E o de Le Carré tomou conta da minha imaginação, não conseguia parar de pensar nele, na sua atmosfera saturada. Isso se tornou mais forte ainda quando assisti ao filme: não pude deixar de ler mais uma vez a segunda parte, e ela mostrou então que, longe de ser árdua ou cansativa, é um grande tour-de-force, o tipo de construção narrativa que só ganha com a releitura cuidadosa.

   George Smiley (vivido pelo grande Gary Oldman, que bem merecia o Oscar por sua capacidade de criar uma zona inescrutável de auto-anulação à sua volta, digna do mordomo que Anthony Hopkins viveu em Vestígios do dia,  e cercado por notáveis atores veteranos e mais jovens [2]) pertenceu ao Circus, divisão avançada do Serviço Secreto Britânico; durante uma briga entre grupos pelo poder, como ele era ligado ao antigo chefe, Control, foi afastado, “aposentado”. Antes da sua substituição e morte, Control tentara provar que alguém ligado ao novo chefe, Percy Alleline, era uma “toupeira”, agente duplo recrutado por Karla, espião russo que no mundo de  Smiley ocupa o mesmo status do professor Moriarty no de Sherlock Holmes.

A reaparição de um agente tido como desertor, Ricki Tarr,faz com que autoridades do governo procurem Smiley para investigar subterraneamente essa possibilidade de haver, de fato, um traidor na alta cúpula do Circus.  Entre os quatro candidatos mais prováveis (a bem da verdade, é preciso dizer que Control pensava num quinto suspeito: o próprio Smiley) está o sedutor (e bissexual, o que não é um dado aleatório da trama) Bill Haydon.

Um dos seus amantes, Jim Prideaux (a quem seduzira durante os anos como estudante com sua postura anárquica de artista—aliás, outra figura-chave, embora apareça muito pouco de forma direta, a esposa de Smiley, Ann, também sofreu processo de sedução similar) foi instruído por Control para uma operação secreta, na qual apuraria a identidade do traidor.  O fracasso da missão  causou a queda definitiva do decadente Control (em contrapartida à ascensão de Alleline com uma “Operação Bruxaria” muito bem-sucedida, e que será esmiuçada por Smiley na sua “busca do tempo perdido”). Prideaux  também teve de “encostar-se” do Serviço Secreto, disfarçando-se como professor subalterno numa escola preparatória, onde se torna ídolo da garotada.

O romance entrelaça as trajetórias de Prideaux e Smiley. Mais do que derrotados no plano da intriga internacional, ambos são vítimas de uma maldição da cultura inglesa, tal como revelada no seu imaginário literário: a incapacidade de crescer, de se tornar adulto[3]. Os personagens principais parecem ter se fixado nos seus anos como estudantes em Oxford ou Cambridge (boa parte deles foi recrutada ali) e nas ligações emocionais da juventude.

Por isso, Bill Haydon é o ponto de fuga das duas trajetórias entrelaçadas e é por isso que o papel de Bill Roach e Peter Guillan é tão importante em O espião que sabia demais: o segundo é o jovem espião que não goza das boas-graças do novo chefão Alleline e que serve de Watson a Smiley, correndo o perigo de se deixar prender no mesmo labirinto, envelhecendo sem nunca atingir  maturidade emocional[4]; o primeiro é o menino solitário que idolatra Prideaux e que já se sente fora da vida, um observador, um aprendiz de espião (tanto que lemos que Smiley fisicamente  “poderia ser a forma definitiva da qual Bill Roach representava o protótipo).  Sem contar que é outro Bill na vida de Jim Prideaux  (mas de forma invertida).[5]

O filme atenuou até quase o empalidecimento esse aspecto crucial do livro (e isso me incomoda um pouco porque enfraquece a ligação Prideaux-Haydon e sua origem no pré-guerra e numa inocência política do primeiro contrastada à desfaçatez de artista que  se permite tudo do segundo; ainda assim, considero o roteiro sensacional), concentrando-se mais no quebra-cabeça que vai sendo montado com os fatos, no processo tortuoso, ácido e cínico a não mais poder, no final do qual, com grande atraso, Smiley herda o poder de Control  (de quem seria o substituto natural não fosse Alleline e a “Operação Bruxaria”) no Circus, para o bem ou para o mal. Isso não importa, uma vez que estamos lidando com duas obras legítimas em linguagens muito diferentes. O que, convenhamos, sempre foi muito raro e é sempre fascinante quando acontece.

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-ultima-decada-do-seculo/


[1]  A edição do Círculo do Livro  para a mesma tradução (lançada originalmente pela Record, e reaproveitada agora, com algumas ligeiras revisões, que não resolvem seus problemas) efetua inúmeras modificações no texto brasileiro, inclui diversas notas de rodapé, algumas até inúteis, como aquela que nos explica quem foi Lawrence da Arábia, mas na hora H, de forma muito curiosa, se furta a melhorar—ou então  esclarecer melhor em nota– o jogo de palavras do título e sua adaptação nacional,  Mesmo assim, é uma experiência interessante ler O espião que sabia demais nas duas  edições da Record (a dos anos 70 e a atual) e na do Círculo do Livro. Por exemplo, Jim Prideaux que era (nos anos 70, na versão original da Record e na do Círculo do Livro) um branco pobre na comunidade docente da escola preparatória Thursgood, torna-se agora um pé-rapado.

[2] Nunca é demais enaltecer a capacidade de um ator como Colin Firth, justamente no momento mais prestigiado da sua carreira, após ganhar o Oscar, o Globo de Ouro e o SAG por sua atuação em O discurso do Rei, de fazer um papel menor, e se ater de forma circunspecta e precisa ao tamanho da sua participação. Assim como Judi Dench e outros tantos intérpretes britânicos de primeira, ele tanto pode ser  protagonista como coadjuvante sem o menor traço de estrelismo, de querer “roubar a cena”; o filme se dá ao luxo de ter, ainda, John Hurt, Toby Jones, Mark Strong,  Cioran Hinds, Benedict Cumberbatch (a verdadeira versão moderna de Sherlock Holmes e não sua contrafação grotesca representada por Robert Downey Jr.) e Tom Hardy, o qual, além de lindo, é uma das maiores revelações de ator dos últimos anos. Outra pessoa linda que faz parte do elenco é a intérprete de Irina (a russa que faz Ricki Tarr dar uma sumida e depois, mais tarde, contar sua história a Smiley), Svetlana Khodchenkova (que rosto!). E esse grupo formidável sequer foi indicado para o SAG para o prêmio de melhor elenco (mas indicaram o elenco de Missão madrinha de casamento, o que só pode ser considerado um deboche)!

[3] Essa característica está implícita tanto no título original, com sua referência infantilizada, quanto em inúmeros detalhes da tessitura do texto, como, por exemplo,  a alusão ao “jogo de kim” (o maravilhoso, porém reacionário e peterpanesco romance de Rudyard Kipling), onde um menino serve como espião para os ingleses na Índia colonial. Le Carré sempre conta que não teve infância verdadeira e isso se refletiu em seus livros, e penso sempre na caracterização (em Ways of Escape- Pontos de Fuga) de Graham Greene para alguns de seus protagonistas (como os de Assassino de aluguel & Brighton Rock-O condenado): que eles nunca se tornaram verdadeiros adultos, que se recusam a crescer (tanto que o perverso e degenerado Pinkie é conhecido como O Garoto).

[4] Esse perigo é realçado pela visão romântica (e aqui temos uma “educação sentimental”  embutida em O espião que sabia demais e, consequentemente, também um processo de “ilusões perdidas”) que ele tem da geração que foi cooptada para o jogo da espionagem por volta da Segunda Guerra: “`Para Guillan, Haydon pertencia àquela geração do Circus que estava desaparecendo e não se repetiria, à qual seu pai e George Smiley também haviam pertencido. Era uma geração única e, no caso de Haydon, de sangue azul, que vivera com vagar uma dúzia de vidas comparadas à sua própria existência apressada e que, transcorridos trinta anos, tinham dado ao Circus aquela sua atmosfera impregnada de aventura. E isso estava desaparecendo”.

[5] Há um jogo (um dos muitos do texto) de palavras, logo no primeiro encontro entre Jim e o menino, que já é uma alusão velada ao outro Bill da narrativa, e que aparece de duas formas nas edições brasileiras.

Nas duas da Record, lemos a seguinte e lamentável tradução:

“__ Meu outro nome é Bill. Fui batizado com o nome de Bill, mas o Sr. Thursgood me chama de William.

__Bill, hem? O Bill que leva calote de todo mundo. Alguém já chamou você assim?

­­__Não, nunca.

__ É um bom nome, de qualquer maneira.

__ Eu acho que sim.

__ Conheço uma porção de Bill. Todos são boas pessoas…”

Na edição do Círculo do Livro, ajeitam melhor a passagem:

“__Meu outro nome é Bill. Fui batizado com o nome de Bill, mas Mr. Thursgood me chama de William.

__ Bill, hem? O impagável Bill. Alguém já chamou você assim?

__ Não, nunca.

__É um bom nome, de qualquer maneira.

__ Eu acho que sim.

__ Conheço uma porção de Bill. Todos são boas pessoas…”

E conscienciosamente colocam a seguinte nota sobre “o impagável Bill”: “Trocadilho intraduzível. Em inglês, o substantivo comum bill designa comercialmente a nota promissória, a letra de câmbio, a fatura…”

John Le Carré em meados da última década do século

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https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-primeira-decada-do-nosso-seculo/

 

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 30 de abril de 1996)

Na guerra entre as superpotências do best seller John Le Carré, com seu O gerente noturno, perdeu feio para seu arqui-rival Frederick Forsyth e seu O punho de Deus.

Le Carré, assim como Morris West outrora, é autor raro na lista dos mais vendidos: nos seus melhores momentos, sabe dosar senso de oportunidade no tratamento dos assuntos, angústia existencial, apelo popular e inequívocas qualidades literárias. Em O gerente noturno algo desandou. Tinha-se a nítida sensação de que ele escreveu algumas partes do livro e contratou outro para escrever o restante. O começo era excelente e havia cenas admiráveis como uma em que Jonathan, o herói, está tão imbuído de seu disfarce, preparado por agências de investigação da Inglaterra e dos EUA, e no qual deveria aparecer como salvador do filho de um traficante de armas, que realmente encarna emocionalmente o papel que tem de representar quando chega a hora do pretenso salvamento. Como em outras vezes no mundo de Le Carré (os memoráveis O espião que saiu do frio & A garota do tambor), ser e representar confundem-se. Depois disso, o leitor tinha de aturar trechos rasteiros como “estavam deitados depois de terem feito amor, embora Deus saiba que não era amor o que tinham feito, e sim algo mais próximo do ódio”.

No seu novo romance, NOSSO JOGO (Our game, em tradução de Eduardo Francisco Alves para a Record, que finalmente tomou vergonha e deu ao autor britânico um tratamento editorial adequado e bonito), ele está visivelmente mais inspirado, fazendo com que o leitor mergulhe com prazer na história de Tim & Larry, funcionários aposentados do Serviço Secreto e órfãos da Guerra Fria, e para os quais ainda persiste a confusão entre ser e representar, compreensivelmente quando se experimentou uma vida dupla por tantos anos.

Tim narra, a partir do desaparecimento de Larry. Na verdade, ele acredita tê-lo assassinado porque o homem que foi seu aprendiz de espião e com quem manteve relações das mais dúbias reapareceu na sua vida e seduziu Emma, sua esposa.

A sedução de Emma é bem mais do que sexual. Larry a coopta para a causa dos povos muçulmanos do norte do Cáucaso —chechenosn e inguches— esmagados pela reorganização da ex-URSS. Um dos aspectos magistrais de NOSSO JOGO é o contraste entre a narrativa obcecada e sobretudo venenosa de Tim a respeito do envolvimento Larry-Emma (que lembra relatos de Nabokov) e a tragédia desses povos, que, segundo um personagem, vira mera estatística, uma vez que ninguém se interessa pelo seu destino, a não ser quando ocasionalmente aparecem nos noticiários.

Larry passa por vigarista, após um golpe milionário para levantar fundos para a causa inguche (e quem acredita hoje em dia num visionário com uma causa nobre?). E o relato de Tim vai adquirindo um tom digno do Kafka de O processo: Larry e Emma sumiram e ele é quem recebe a culpa como mentor do golpe. É obrigado a fugir, mudar de identidade e seguir os rastros do amigo-rival na Rússia e depois no Cáucaso, numa dessas regiões das quais ninguém ouviu falar. E que é impossível esquecer depois de ter lido  o final de NOSSO JOGO, quando Tim tem um ajuste de contas com Larry que não poderia ter sido melhor solucionado.

NOSSO JOGO é, talvez, o melhor relato desse tipo desde O terceiro homem, de Graham Greene, onde também havia um amigo supostamente morto que levava o “herói” a envolver-se nos bastidores e submundos de uma guerra. John Le Carré soube renovar sua fórmula, aprimorar seu estilo e atingir uma tensão que faz do seu novo livro um dos mais absorventes da década. Desta vez, todas aquelas características (senso de oportunidade, angústia existencial, apelo popular e qualidade literária) uniram-se exemplarmente e produziram uma obra-prima.

John Le Carré em meados da primeira década do nosso século

VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/19/john-le-carre-em-meados-da-ultima-decada-do-seculo/

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Se fossem necessárias provas da sobrevida de John Le Carré com relação à Guerra Fria, que ele retratou tão bem, temos agora em 2005 uma adaptação cinematográfica importante de um de seus livros recentes, O jardineiro fiel (não seria melhor O jardineiro dedicado?)e um novo romance, AMIGOS ABSOLUTOS (Absolute friends, em tradução de Roberto Muggiati para a Record), no qual ele mostra seu dom de localizar os temas mais candentes no momento certo, no caso o clima de paranóia anti-terrorista semeado pelos EUA após os atentados do 11 de setembro.

Qual o problema, então? Após escrever clássicos como O espião que saiu do frio & A garota do tambor, sem falar na série Smiley (Sempre um colegial & A vingança de Smiley, por exemplo), Le Carré patinou um pouco por pistas escorregadias, caso de A casa da Rússia & O gerente noturno, no processo de adaptação de sua ficção aos novos tempos. Aí veio o brilhante NOSSO JOGO (abordando o problema da Chechênia) e tudo indicava que ele atingira um patamar mais alto como escritor. O romance seguinte, O alfaiate do Panamá, foi aguardado (pelo menos por mim) com muita expectativa, revelando-se frustrante e marcando o “tom” dos seguintes (três, até agora): o acerto da temática, a narrativa pesada, arrastada, convencional, laboriosa. Nunca ruim, jamais! Lê-se com respeito, porém sem admiração ou surpresas, mesmo com as tradicionais reviravoltas nas tramas.

AMIGOS ABSOLUTOS funcionará mais para quem não leu os romances da Guerra Fria de Le Carré: seu protagonista, Ted Mundy, é o inglês nascido no Paquistão e que nunca chega a adaptar-se à Inglaterra, preferindo estudar alemão e aventurar-se na Berlim ocidental no auge da contracultura e da contestação, no final dos anos 60, onde conhece Sasha, o responsável pelo título, dizendo (na página 119): “Você é meu amigo absoluto”, sabe-se lá por que, já que essa amizade nunca nos convence totalmente (na ficção recente, há histórias mais fortes de duplas de amigos, em que um leva o outro a conhecer aspectos digamos mais “radicais” da existência, basta lembrar de Leviatã, de Paul Auster, e O filho de deus vai à guerra, de John Irving).

Ted e Sasha perdem contato até que ambos são cooptados como agentes do Serviço Secreto britânico, Sasha traindo a Alemanha oriental comunista.Mundy executará várias missões arriscadas do lado de lá do muro, passando-se por traidor também. E o leitor bocejará inúmeras vezes durante essa parte, excessivamente longa, que repisa algo já visto e revisto. E com o dilema típico do heróilecarresiano: ser e representar se confundem na mesma impostura (“não sabe mais que partes de si estão fingindo”).

Perdem novamente contato, o muro cai, a globalização avança, um Mundy decadente tenta “se tornar real depois de muitos anos de fingimento” e agora é guia de museu, vivendo com uma turca e o filho dela. E Sasha reaparece, com uma nova proposta de trabalho mútuo e o leitor pensa, que bom, chegamos ao fundo da questão, o mercado armamentista que necessita de novos conflitos e guerras, como a  invasão do Iraque (apesar da retórica mentirosa que encobre os motivos reais), para expandir-se. Enfim, um novo colonialismo (devolvendo Mundy ao mundo que conheceu na sua infância). Só que sobrou pouco tempo, o livro está para acabarn e tudo fica muito rápido, confuso, insatisfatório, até inconvincente (Mundy e Sasha são tomados como terroristas fundamentalistas).

O que mais irrita em AMIGOS ABSOLUTOS, afora seus personagens anódinos, é o aspecto “pesquisadinho” e cênico de cada local escolhido para a trama: seja o Paquistão ou cidades alemãs parece que saíram de um caderno de notas, nunca adquirindo a vida que sentimos nos maravilhosos romances de Graham Greene, independente do “exotismo” peculiar ao cenário.

Le Carré parece ter sido acometido “pelo cansaço dos seus fantasmas da Guerra Fria: “Por favor, pensa. Já estivemos aqui. Já fizemos esse tipo de coisa. Na nossa idade não existem mais novos jogos a jogar”. Talvez, ao fim e ao cabo, só o cinema consiga salvá-lo, se não com a medíocre versão de John Boorman, outro cansado de guerra, para O alfaiate do Panamá, pelo menos com a vitalidade e juventude de Fernando Meirelles.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  22 de outubro de 2005)

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