MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

13/03/2018

Garp Quarentão

Filed under: autores centrais — alfredomonte @ 15:46
Tags: , ,

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 13 de março de 2018)

Há exatamente 40 anos era lançado um romance fascinante: “O MUNDO SEGUNDO GARP”, terceira obra de John Irving, escrita aos 36 anos e que marcou definitivamente seu estilo extravagante, barroco, extremista, baseado no exagero. 40 anos depois é possível afirmar que ele continua um dos maiores romancistas do mundo e ainda seria se tivesse parado na história de T.S. Garp.

É temerário resumi-la: a mãe de Garp, Jenny Fields, quer ter um filho sem relacionar-se com homem algum; fica grávida, então, em 1942, de um sargento, paciente desenganado do hospital onde trabalha como enfermeira.

Mais tarde ela se torna uma referência da contracultura feminista, por sua autobiografia “Uma suspeita sexual”; Garp, ao viajar com a mãe para Viena, começa a escrever, mas alternará algumas poucas obras com longos períodos de inatividade criadora, quando se concentra maniacamente na família, obcecado com a segurança dos filhos, o que não impedirá a tragédia: um acidente matará um de seus filhos e deixará o outro cego de um olho (aliás, mutilações não faltam no livro: são pênis, línguas, olhos e pedaços de orelha perdidos em diversos episódios inesquecíveis).

Há uma introdução de Irving na qual ele insiste na questão do excessivo medo paterno de Garp de perder os filhos: “Sou apenas um pai com boa imaginação. Em minha imaginação eu perco meus filhos diariamente”.

Na verdade, como já se constatou diversas vezes, “O MUNDO SEGUNDO GARP” é uma profunda parábola sobre as duas obsessões e temores norte-americanos: a mortalidade e o sexo (Jenny Fields identifica todos os males com a lubricidade; o acidente trágico com os filhos de Garp acontece porque sua esposa, Helen, está fazendo sexo oral em seu amante, quando estão terminando o caso, justamente na entrada de carros da sua casa; o marido chega inesperadamente mais cedo e os dois carros colidem: a boca de Helen arranca no impacto o pênis do amante, Walt, o caçula, morre—e inquietantemente não é mencionado mais por páginas e mais páginas—e Duncan, o outro filho, perde um olho ao ser projetado sobre o câmbio que há meses estava sem a rosca protetora…). Isso explica a gritante e bizarra imaturidade de seus personagens. A certa altura, se afirma: “São inúmeras as culpas. Em tudo que Garp escreve sempre há culpas por todos os lados”. Para temperar as situações, há ainda —no espectro temporal do romance— a   virada de valores e as revoluções de todo tipo, em contraste com a caretice e o conformismo dos anos 40 e 50.

O passar do tempo (e a publicação de seus outros livros, principalmente “Viúva por um ano”) evidenciou algo mais importante e essencial: inseridos no texto há trechos das obras de Garp. Na primeira, “A pensão Grillparzer”, a imaginação recria totalmente o mundo; nas posteriores, Garp se aproveita de suas experiências, ou seja, da “vida real”. Pela lógica narrativa, essa evolução representa perda, empobrecimento.

Irving sempre teve certa notoriedade, desde seu primeiro romance, por aproveitar passagens da sua autobiografia de uma forma exuberante e inusitada. A partir do romance seguinte, o extraordinário “Hotel New Hampshire” (o romance que me abriu a porta do seu universo), ele mostra que aderiu inteira e magistralmente ao clima sugerido por “A pensão Grillparzer”. É um rude golpe naqueles que gostam do baseado em fatos reais: a obra de Irving representa o triunfo da ficção, no que ela tem de mais verdadeiro e real.

25/11/2011

O MAIS BELO DOS ENREDOS

(resenha publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos,  em  14 de março de 2000)

Há 15 anos, AS REGRAS DA CASA DE SIDRA [“Cider house rules”, 1985] é a história mais bela da ficção contemporânea. Finalmente, conseguiram transportá-la para o cinema. O resultado pode ser visto, (embora a avassaladora pieguice chegue a ser insalubre) em Regras da vida, que concorre, incrivelmente,  ao Oscar de melhor filme!

A obra-prima de John Irving conta, assim como diversos enredos de Dickens (referência essencial no livro) a trajetória de um órfão, Homer Wells (vivido no filme pelo extraordinário Tobey Maguire—não poderia haver escolha mais perfeita). No internato do Maine, o St. Cloud´s, onde foi criado (nunca conseguiu ter uma adoção efetivada, apesar de várias tentativas,relatadas de maneira magistral), ele aprende com o dr. Wilbur Larch a profissão de médico e a ser útil.

Boa parte das 800 páginas do texto alterna a narração dos eventos com os comentários do dr. Larch (que oferece a Michael Caine uma criação surpreendente e genial em Regras da Vida, a qual, com certeza, lhe renderá o Oscar de coadjuvante, se a votação for justa) num livrinho que está escrevendo sobre a história de St. Cloud´s, um lugar onde as pessoas vêm para se livrar dos filhos, no sentido da vida (tornando-os órfãos) ou da morte (o dr. Larch faz abortos). Como escreve o próprio médico, “Aqui recebi a opção de bancar Deus ou deixar tudo entregue ao acaso. Minha experiência é a de que praticamente tudo é deixado ao acaso na maior parte do tempo; homens que acreditam no bem e no mal, e que acreditam que o bem vai ganhar devem estar atentos aos momentos em que é possível bancar Deus; devemos aproveitar esses momentos.Não são muitos. Aqui pode haver mais oportunidades de aproveitá-los do que se encontraria no resto do mundo, mas isso só acontece porque muito do que chega a nossas mãos já fora deixado ao acaso antes”.

É a partir dessa realidade inelutavelmente sórdida e deprimente, os pontos-limite a que chega a loucura humana, crianças abandonadas e abortos, que se constitui o olhar de Homer sobre o mundo, um olhar fixo (que incomoda amiúde as pessoas), mas que opta pela compassividade. Não querendo “bancar Deus”, ele, de certa forma, trai o dr. Larch, resolvendo  “cair no mundo”. Vai trabalhar no cultivo de maçãs, e aí terá de se haver com outras regras, as escritas e as tácitas, além de se envolver num triângulo amoroso.

O que torna AS REGRAS DA CASA DE SIDRA, na minha opinião,  uma obra verdadeiramente definitiva, é o fato de Irving ter moldado sua história (que mescla lirismo, humor negro e um sentido de grotesco ainda mais forte do que os seus romances anteriores, já sensacionais, como O mundo segundo Garp & Hotel New Hampshire) a partir desses dados definitivos, a orfandade e a necessidade do aborto, dos quais não se pode fugir para nenhuma “moralidade” ou regra tácita (mesmo que haja a lei escrita) e que não podem ser maquiadas por nenhuma “dignidade”. Portanto, iniciada a narrativa, já estamos no extremo da condição humana, algo que dificilmente se encontra na melhor ficção (pelo menos naquela que privilegia o enredo tradicional) dos últimos anos. O único paralelo possível, tanto no sentido de extremo da situação focalizada quanto na beleza do enredo é com A escolha de Sofia, de William Styron, de 1979.

Aliás, Irving quis deixar isso mais claro no roteiro que escreveu para o filme. Enxugando (equivocadamente, acredito) a história dos episódios mais cômicos (pode parecer incrível, entretanto AS REGRAS DA CASA DE SIDRA é um romance  engraçadíssimo) e eliminando personagens importantes (como Melony, a órfã cuja trajetória no mundo complementa a de Homer, e que é imbuída da ira e da revolta que faltam a ele), Irving meio que tentou  “se concentrar no essencial”, no olhar sobre o mundo a partir da orfandade absoluta, apesar de que, ao longo da trama, o dr. Larch vai se transformando cada vez mais no pai espiritual de Homer.

Talvez seu gigantesco esforço de transposição (e o inspirado trabalho da dupla Maguire-Caine) tenha sido sabotado pela (ou se chocado com a) malfadada opção do diretor Lasse Hallstrom de confeccionar o filme num molde infalível para indicações ao Oscar: fotografia bonita demais, música sentimental, ritmo feito “para a família”, crianças adoráveis (quem não as quereria adotar?) e lágrimas, lágrimas, lágrimas. Hallstrom se destacou, com Minha vida de cachorro, pela habilidade de anular a pieguice ao contar uma história sentimental, só que após filmes cada vez mais banais,anulou qualquer sopro de personalidade que sua presença de diretor poderia imprimir a uma produção. Grosso modo, tanto faria que o filme fosse realizado pelo diretor de Kramer versus Kramaer, ou de Rain Man, ou o de Laços de Ternura (quem são mesmo? Alguém lembra? Mais importante ainda: faz diferença?).

A palavra sentimental é apropriada (mas não a confundam com a pieguice da versão cinematográfica). Não existe meio de evitá-la, e muita gente rejeita o romance por causa disso. É um romance que literalmente faz o leitor chorar (e também rir muito), de tanto pungente e doloroso. De tão emocionante que é. Só um escritor da categoria de John Irving poderia ter feito uma tão um tão impressionante retrato da maldade que existe por trás da moralidade convencional por meio da exploração do sentimentalismo e das lágrimas. Por isso,ele é o Príncipe do Maine, o Rei da Nova Inglaterra entre os escritores norte-americanos. E, por isso, 15 anos depois, com ou sem imagens na tela, com ou sem Oscar, seu enredo continua a ser o mais belo que se pode ler na ficção contemporânea.

Nota de 2010– pouco mais de dez anos depois dessa resenha, e com o livro comemorando seu quarto de século, mantenho a mesma opinião.

EXTRAVAGANTE, BARROCO, EXTREMISTA: A FICÇÃO TRIUNFANTE

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de novembro de 2003)

“Garp era um homem extravagante. Tudo o que fazia era barroco. Ele acreditava no exagero e a sua ficção era também extremista”.

Há exatamente um quarto de século era lançado um romance fascinante: O MUNDO SEGUNDO GARP [ “The world according to Garp”, traduzido por Luiz Corção], terceira obra de John Irving e que marcou definitivamente seu estilo extravagante, barroco, extremista, baseado no exagero. Vinte e cinco anos depois é possível afirmar que ele continua um dos maiores romancistas do mundo e ainda seria se tivesse parado na história de T.S. Garp.

É temerário resumi-la (como percebeu quem viu o pálido filme de George Roy Hill, que vale mais pela antológica participação de Glenn Close—embora não se possa deixar de mencionar a presença de John Lithghow & Mary Beth Hurt no elenco]: a mãe de Garp, Jenny Fields, quer ter um filho sem relacionar-se com homem algum; fica grávida, então, em 1942, de um sargento, paciente desenganado do hospital onde trabalha como enfermeira.

Mais tarde ela se torna uma referência da contracultura feminista, por sua autobiografia Uma suspeita sexual; Garp, ao viajar com a mãe para Viena, começa a escrever, mas alternará algumas poucas obras com longos períodos de inatividade criadora, quando se concentra maniacamente na família, obcecado com a segurança dos filhos, o que não impedirá a tragédia: um acidente matará um de seus filhos e deixará o outro cego de um olho (aliás, mutilações não faltam no livro: são pênis, línguas, olhos e pedaços de orelha perdidos em diversos episódios inesquecíveis).

Arranjando briga com as seguidoras da mãe, feministas radicais dos anos 60 e 70, Garp acaba partilhando do destino dela: ambos são assassinados.

Na recente edição do livro pela Record (a qual é surpreendentemente revista com relação à anterior, dessa vez não houve propaganda enganosa), há uma introdução de Irving na qual ele insiste na questão do excessivo medo paterno de Garp de perder os filhos: “Sou apenas um pai com boa imaginação. Em minha imaginação eu perco meus filhos diariamente”!!??

Na verdade, como já se constatou diversas vezes, O MUNDO SEGUNDO GARP é uma profunda parábola sobre as duas obsessões e temores norte-americanos: a mortalidade e o sexo (Jenny Fields identifica todos os males com a lubricidade; o acidente trágico com os filhos de Garp acontece porque sua esposa, Helen, está fazendo uma chupetinha em seu amante, quando estão terminando o caso, justamente na entrada de carros da sua casa; o marido chega inesperadamente mais cedo e os dois carros colidem: a boca de Helen arranca no impacto o pau do amante, Walt, o caçula, morre—e inquietantemente não é mencionado mais por páginas e mais páginas—e Duncan, o outro filho, perde um olho ao ser projetado sobre o câmbio que há meses estava sem a rosca protetora…). Isso explica a gritante e bizarra imaturidade de seus personagens. A certa altura, se afirma: “São inúmeras as culpas. Em tudo que Garp escreve sempre há culpas por todos os lados”. Para temperar as situações, há ainda —no espectro temporal do romance— a   virada de valores  e as revoluções de todo tipo, em contraste com a caretice e o conformismo dos anos 40 e 50.

O passar do tempo (e a publicação de seus outros livros, principalmente Viúva por um ano) evidenciou algo mais importante e essencial: inseridos no texto há trechos das obras de Garp. Na primeira, A pensão Grillparzer, a imaginação recria totalmente o mundo; nas posteriores, Garp se aproveita de suas experiências, ou seja, da “vida real”. Pela lógica narrativa, essa evolução representa perda, empobrecimento.

Irving sempre teve certa notoriedade, desde seu primeiro romance, por aproveitar passagens da sua autobiografia de uma forma exuberante e inusitada. A partir do romance seguinte, o extraordinário Hotel New Hampshire, ele mostra que aderiu inteira e magistralmente ao clima sugerido por A pensão Grillparzer. É um rude golpe naqueles que gostam do baseado em fatos reais: a obra de  Irving representa o triunfo da ficção, no que ela tem de mais verdadeiro e real.

O SUPREMO FABULISTA DO NOSSO TEMPO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 19 de junho de 2001)

Do comentário sobre Retrato em Sépia (https://armonte.wordpress.com/2011/11/25/o-leitor-de-isabel-allende-e-antes-de-tudo-um-forte/), de Isabel Allende, ficou a seguinte questão: será possível, hoje em dia, contar histórias e não repetir chavões, não ser previsível?

Sim, é possível. A prova é VIÚVA POR UM ANO [“A widow for one year”, 1998; tradução de Vera Whately], o mais recente romance de John Irving, certamente o mais extraordinário contador de histórias em atividade.

Um de seus personagens, Owen Meany (de O filho de Deus vai à guerra) não acreditava em acaso ou coincidências. Parece mais sábia, contudo, a visão do dr. Wilbur Larch (de As regras da casa de sidra): “Minha experiência é a de que praticamente tudo é deixado ao acaso, na maior parte do tempo”. Ao contrário de J.D. Salinger, cujos personagens se amparam numa escala de valores transcendentes (tomada da filosofia mística oriental), os de Irving, igualmente neuróticos, têm de criar (e às vezes destruir) suas próprias regras num mundo arbitrário, caótico, violento e bizarro. Até mesmo Owen Meany.

Criar regras para si mesma é o que tolhe Ruth Cole diante da vida, em Viúva por um ano, desde o seu abandono pela mãe, aos 4 anos. Criada pelo pai, um mulherengo meio alcoólatra que escreve assustadoras histórias infantis (o leitor chega a conhecê-las ao longo do romance, principalmente num momento-chave da trama), ela se torna uma romancista prestigiada e perseguida por certos leitores,  aqueles que não se conformam com o uso que faz de temas como aborto ou viuvez, sem a “experiência direta”:  “As pessoas negavam que a imaginação fosse real, ou insistiam que a imaginação não era tão real quanto as experiências pessoais, era sempre a mesma coisa (…) Por que as mulheres eram de longe as piores leitoras quando um assunto mexia com sua vida pessoal, pensou Ruth.  O que fazia uma mulher imaginar que seu estupro (ou seu aborto, seu casamento, divórcio, a perda de um filho ou de um marido) era a única experiência universal?”

É o caso de uma leitora viúva, que vaticina um triste futuro para Ruth, a essa altura prestes a casar com um homem mais velho. Outra complicação: às vésperas do casamento, em Amsterdã, procurando material para um novo romance, Ruth acaba assistindo (trancada num guarda-roupa, o que a remete aos livros infantis do pai—uma associação de elementos típica do universo irvinguiano) ao assassinato de uma prostituta. Esse crime e a identidade da testemunha ocupam a imaginação do sargento da polícia holandesa Harry Hoekstra, mas ele só encontrará a sua testemunha quando ela já estiver viúva há um ano.

Por que Marion, a mãe, abandonou Ruth? Tendo perdido seus dois filhos num acidente de carro (não tão grotesco quanto o que mata um filho e cega outro em O mundo segundo Garp, mas igualmente marcante), só por insistência do marido, o autor infantil, é que teve outro filho, entretanto acha que não será boa mãe por causa do seu ânimo desolado. Em 1958, aproveita seu caso com um rapaz de 16 anos, Eddie O´Hare (o qual reaparecerá mais tarde na vida de Ruth e até julgará durante certo tempo estar apaixonado por ela), para sumir. Sua ausência absoluta e o mistério da sua personalidade permeiam toda a fantástica trama de Viúva por um ano.

Por falar em trama, quando lemos os romances de John Irving a sensação é de que estamos lendo vários romances ao mesmo tempo. São sempre romances  totais.  Um exemplo magnífico dessa capacidade de fazer convergir, com perícia, muitas linhas narrativas é o capítulo final da primeira parte, quando Eddie O´Hare, após sua educação sentimental por Marion, volta para casa. Ele está na barca que o leva para fora de Long Island (palco dos acontecimentos de 1958, antes de pular para os anos 90). Em poucas páginas, não apenas reaparecem elementos anteriores à sua ida para a casa dos Cole (ele foi trabalhar como assistente do pai de Ruth), como também o narrador nos apresenta os prolongamentos futuros da sua vida (sua carreira como escritor,  como usou pessoas conhecidas como  personagens, como sempre foi capaz de sair do autobiográfico nos seus livros) e o leitor tem a sensação vertiginosa de que um túnel do tempo se abriu e o tragou. Não é um relatório da trajetória  de Eddie (que nem é um personagem central do livro) durante décadas, como faria uma escrevinhadora medíocre como Isabel Allende [1]. É um caleidoscópio temporal onde vemos o Eddie O´Hare de 16 anos e o Eddie do futuro sobrepostos. É um momento de extremo virtuosismo narrativo, que só é igualado, em Viúva por um ano, quando Ruth está concebendo o romance que a levará a testemunhar o crime do homem-toupeira.

Outro ponto alto do livro é a obsessão familiar com relação às fotografias dos meninos mortos. Na casa dos Cole há fotos deles em todos os lugares e Ruth, que não os conheceu, vive o passado como se fosse o presente, ao pedir, diante de cada foto, que se conte as circunstâncias em que foram tiradas. Quando Marion vai embora, levando praticamente todas elas,abre-se um buraco e, diante dos pregos onde elas estavam antes penduradas,  ela e o pai tentam preenchê-lo recontando as fotos ausentes. Alguém quer melhor metáfora para a construção de um ficcionista? Aliás, até a fascinante Marion acaba se tornando uma romancista (na nova vida que assume), cujo tema é justamente o desaparecimento de crianças e sua sobrevida em fotografias (e o resumo dos enredos de seus livros é arrepiante).

Viúva por um ano é um grande momento de John Irving, ainda mais vindo na esteira de livros menos impactantes (O filho de deus vai à guerra, Um filho do circo) do que o inigualável trio As regras da casa de sidra (o melhor de todos),  Hotel New Hampshire & O mundo segundo Garp. Entre todos eles, se aparenta mais a Hotel New Hampshire na sua insistência de um final feliz, contrariando todas as expectativas da alta literatura contemporânea. Irving destoa no chorus line do pessimismo. Assim como José Saramago, ele é um dos poucos escritores contemporâneos que deixam o leitor fortalecido, mais amparado existencialmente, após a sua leitura. Não é isso que o torna um grande escritor, claro, mas é inegável que faz parte do seu inigualável encanto.

Em tempo: na página 455 da edição brasileira, há toda uma diatribe de Harry Hoekstra com relação às fotos de autores nos livros. O que ele diria se visse a foto de John Irving colocada na orelha de Viúva por um ano? Parece que, ao invés de estarmos vendo o supremo fabulista do nosso tempo, temos um retrato distribuído pelos órgãos policiais de um tarado ou de um maníaco homicida., de um Jack Nicholson, encarnando Jack Torrence, perseguindo a família com um machado, em O iluminado! Por isso, cuidado, leitor: ao contrário do que a foto do autor sugere, a história de Ruth Cole não é de terror.


[1] Nota de 2010: e para os que estranham quando eu digo que Travessuras da menina má, de Vargas Llosa, é fraco, aproveito para esclarecer que o defeito principal do livro, que atravessa décadas, é esse: muitas vezes lemos um “relatório”, não uma narração, mais um enfileiramento jornalístico de fatos e considerações do que um exercício de ficção., e esse defeito vai se evidencia principalmente nos últimos capítulos.

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.