MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/02/2013

CORMAC McCARTHY: O lugar que restou aos velhos homens

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capa de onde os velhos não têm vez

Ficou ali olhando para o deserto. Tão silencioso. O zumbido baixo dos ventos na fiação. O mato alto sobre a estrada. Capim duro. Adiante nos arroios de pedra os rastros dos lagartos. As áridas montanhas rochosas cobertas de sombras ao sol do final da tarde e a leste a abscissa tremeluzente das planícies desérticas sob um céu em que cortinas de chuva pendiam escuras como fuligem por todo o quadrante. Vive em silêncio o deus que lavou aquela terra com sal e cinzas.”

No country for old men virou por aqui Onde os fracos não têm vez e é, em quase todos os aspectos, uma primorosa (e muito fiel) adaptação de um romance de Cormac McCarthy (EUA, 2005), por sua vez intitulado Onde os velhos não têm vez (em tradução de Adriana Lisboa.

Pena que o destaque, para a mídia e a crítica em geral, nessa versão dos irmãos Coen seja a caracterização de Javier Barden como o peculiar assassino Anton Chigurh. Já no livro os métodos de matar utilizados por ele me pareceram exagerados. Ele é uma figura suficientemente sinistra para precisar de tais detalhes sensacionalistas. Além disso, em que pese o talento de Barden, sua composição é tão artificiosa que resvala para o cômico: seu Chigurh me lembrou amiúde um genérico emperucado do detetive Adrian Monk interpretado por Tony Shalhoub, na série Monk. Se o universo dos irmãos Coen sempre me incomodou por se basear mais em caricaturas do que personagens verdadeiros, e se esse é o filme em que eles parecem se livrar da sua inconseqüência tanto ética quanto estética, o tratamento dispensado à figura de Barden/Chigurh é o cacoete residual desse ranço frívolo.

“Já tinha lhe ocorrido que ele provavelmente nunca mais estaria a salvo outra vez na vida e se perguntou se isso era algo com que você se acostumava. E se por acaso se acostumasse?”

Ambos, livro e filme, têm uma crepuscularidade que eu só tinha visto nas obras-primas de Sam Peckinpah (Meu ódio será tua herança, Pistoleiros do entardecer) ou em alguns dos melhores trabalhos de Clint Eastwood (Os imperdoáveis, Um mundo perfeito, por exemplo).

McCarthy conseguiu reunir numa mesma história o remanescente do heroísmo (e da brutalidade) do faroeste clássico, o mítico xerife americano; o anti-herói que surgiu da derrota no Vietnã; o psicopata que assombra o imaginário dos EUA, capaz de matar por nada; e ainda o tipo de crime, violência e assassinato, que surgiu a partir do narcotráfico. Um feito e tanto.

Na região fronteiriça com o México, Llewelyn Moss se depara com um massacre: dois grupos de traficantes se mataram uns aos outros. Rouba 2 milhões e 400 mil dólares. É caçado por Chigurh, por mexicanos, sabe-se lá mais por quem (na maleta da grana há um transmissor; mesmo que não houvesse, um princípio guia a perseguição e é enunciado pelo próprio Moss, “Há sempre alguém que sabe onde você está). Várias agências de investigação ocupam-se do caso, e lá embaixo, na curva descendente de importância, encontramos a “alma” da narrativa: o xerife local, Ed Tom Bell (que nos valeu uma arrasadora interpretação de Tommy Lee Jones, este sim genuinamente marcante), o “old man”, o único que toma a palavra (no início de cada capítulo e no segmento final), com sua experiência acumulada, seu discernimento e sua compassividade, além de uma escala de valores, de visão do certo e do errado, de Deus, enfim, de uma vida moral, que não encontram lugar na espécie de crime que lhe coube investigar, munido de uma bagagem ineficiente para a gratuidade da ação de um Chigurh ou a impiedade impessoal dos narcotraficantes. Ele tenta agir pelo menos em benefício de um membro de sua comunidade, Moss, entrando em contato com sua esposa, Carla Jean, e tentando descobrir o paradeiro dele antes de todos os outros.

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Enquanto isso, desdobra-se para nós a América dos trailers, das rodovias, dos motéis. Como Russell Banks em seus romances Affliction- Temporada de caça e The sweet hereafter- O doce amanhã, nós temos aquelas pequenas comunidades em meio a paisagens desoladas, lugares de passagem, quase um nenhures, nos quais convivem destroços dos anos 60 e 70 com o tradicional puritanismo conformista ou estranhamente radical dos norte-americanos, que faz com que autores como Banks ou McCarthy, ou cineastas como Eastwood, nos apresentem os personagens mais solitários que já existiram, mesmo cercados por famílias, vizinhos, amores.

Desse modo, McCarthy atinge um patamar que ele não conseguira em Todos os belos cavalos (1992) e nem mesmo no seu aclamado Meridiano sangrento (1985), que eu achei bom, porém sem a grandeza que lhe atribui Harold Bloom. Por quê? Porque ao fazer uma viagem pelo território da violência irracional (no mesmo universo de fronteira, só que na década de 40 do século XIX), fazia-lhe falta um personagem para o qual toda a barbárie vivenciada fizesse sentido até na sua falta de sentido, como acontece, por exemplo, para o Riobaldo de Guimarães Rosa (que se movimenta num mundo nem um pouco menos cruel e bárbaro). E, como se sabe, até nos seus momentos crepusculares e mais sombrios, o que faz a grandeza do gênero faroeste é justamente a discussão que levanta entre barbárie e civilização. O preço da civilização, melhor dizendo. É o que faz de Rastros de ódio e O homem que matou o facínora, de John Ford, os maiores filmes de todos os tempos.

Com seus resquícios de faroeste, e com a figura do xerife Bell, No country for old men atinge uma grandeza quase apocalíptica, na acepção que Harold Bloom dá ao “desespero visionário” de uma linhagem de autores cujos patronos são Melville e Faulkner: “Os EUA, já faz dois séculos, estão obcecados por Deus e por armas, e esse fascínio não parece decrescer”. Derrotado pelos fatos, pela insignificância da sua ação (que fracassa até no restrito raio que lhe é permitido), pela própria falta de sintonia entre suas perspectivas morais e o mundo, obcecado por Deus e tendo como última palavra o uso das armas, ao qual lhe cabe “impor” a lei, ainda assim ele é um personagem grandioso. A verdade é triste (para a vida, não para a leitura): the country for old men desse calibre, da velha cepa, já não se encontra no reino deste mundo, mas na literatura.

 

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 9 de fevereiro de 2008)

VER TAMBÉM:

https://armonte.wordpress.com/2013/02/13/como-era-cinza-o-meu-vale-a-estrada-de-cormac-mccarthy/

mc carthyno country for old men

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