MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

25/07/2014

O SORRISO DO LAGARTO 25 anos depois

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(uma versão do texto abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 22 de julho de 2014);

(VER também no “Letras in.verso e re.verso” de 23 de julho de 2014:

http://letrasinversoreverso.blogspot.com.br/2014/07/relendo-o-sorriso-do-lagarto-25-anos.html)

Há 25 anos, João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) lançava O sorriso do lagarto, e parecia-me naquele momento — juízo que prevaleceu durante certa fase (ratificado com o aparecimento de “O feitiço da Ilha do Pavão, de 1997 e “A casa dos budas ditosos”, de 1999) — a indicação clara de que o outrora grande prosador baiano estava pendendo para o comercial, no sentido de aclimatar fórmulas do best seller internacional standard, numa mistura de triângulo amoroso com elementos de ficção científica e suspense (não faltavam nem cenas clichês como a da conversa entre o herói e o cientista-vilão, quando este explica seus planos para o adversário que tentava desvendá-los). De fato, as vendas foram expressivas e houve até uma adaptação televisiva, onde todos os elementos folhetinescos eram realçados até a caricatura.

A prevenção talvez fosse fruto do impacto da leitura de alguns de seus primeiros títulos: “Sargento Getúlio (publicado quando ele tinha apenas 30 anos, em 1971), uma das obras-primas fundamentais do romance brasileiro, assim como o menos conhecido “Vila Real, de 1979, bem como duas extraordinárias coletâneas de contos, “Vencecavalo e o outro povo” (1974) e “Livro de histórias” (1981).

Ainda hoje os considero as joias da coroa do reinado ubaldiano, com sua mescla genial de fabulação, experimentação linguística (o uso da língua em João Ubaldo Ribeiro é um caso à parte) [1] e escavação de certa mentalidade (aquela definida, para o bem e para o mal, como o atraso nacional).

Devo reconhecer que sou minoria: a maior parte dos leitores e críticos celebra “Viva o povo brasileiro” (1984) como obra maior. Para mim (pelo menos enquanto não faço uma releitura), esse romance ciclópico iniciou a “diluição” agravada pelos títulos posteriores, impressão (ou equívoco) que pode ser consequência do Zeitgeist, do espírito daquele tempo, a desilusão com a chamada Nova República (civil, porém espúria, acordo de caciques, numa eleição indireta): alguns leitores[2], entre os quais me incluo, consideraram certos romances com fôlego épico, “histórias de fundação” da identidade nacional, mais ou menos explícitas (além do livro de João Ubaldo, “A república dos sonhos”, de Nélida Piñon, e “Tocaia Grande”, de Jorge Amado, seriam outros fortes exemplos) como empreendimentos ficcionais legitimadores de um ufanismo carente de base, um tanto quanto fabricado[3].

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Em 2002, porém, apareceu o surpreendente “Diário do farol, com seu narrador insidioso, ominoso, terrível, e os pesos e as medidas tiveram de ser reavaliados. Saudando a volta do “verdadeiro” João Ubaldo (a essa altura, adorado por milhares de leitores de suas crônicas), impossível não rever juízos anteriores. Assim, na esteira do choque com sua morte súbita, resolvi reler o romance de um quarto de século atrás, encantando-me com o seu vigor e sua oportuna atualidade.

Em O sorriso do lagarto, se por um lado se atenua aquela ousadia experimental do início, há um domínio da técnica narrativa tradicional que se torna mais admirável ainda pelo que apresenta de especulação nos domínios da ciência, algo raro na nossa alta ficção, e que adquiriu um “quê” de profético (lembremos que o romance apareceu bem antes dos “Arquivos X, da onipresença da internet e da vulgarização das tecnologias mais evidenciadas hoje em dia, inclusive a da pesquisa genética).

O político (embora vindo das lutas estudantis, tornou-se corrupto e venal) Ângelo Marcos, abalado pelo tratamento de um câncer, passa uma temporada na Ilha de Itaparica. Ali, sua esposa, Ana Clara, se apaixona pelo dono de uma peixaria, João Pedroso, na verdade um biólogo manqué, meio fracassado e beberrão: “não nasci para plantar árvores nem para escrever livros e sou praticamente donzelo, aliás sou um donzelo militante, um punheteiro. Eu nasci para estudar, investigar, descobrir, interpretar. Mas não faço nada disso e com certeza é esta a razão por que sinto o Mal me rondando…”, ele desabafa, a certa altura, com seu amigo, padre Monteirinho.

O Mal que ronda Itaparica e bafeja João Pedroso é a existência de seres “monstruosos”, híbridos que foram criados em experiências científicas comandadas por um eminente médico, Lúcio Nemésio. O até então passivo biólogo-peixeiro se coloca no caminho de duas forças poderosas: o representante de uma elite grotesca em sua desfaçatez (e mesmo a ascensão da esquerda na nossa democracia não deixou de acirrar esse comportamento predatório, conforme vimos nos últimos 25 anos), Ângelo Marcos, através da sua relação com Ana Clara (ameaçando o casamento dele); e o representante de uma ciência sem ética, em nada diferente (e certamente praticada com muito empenho, apesar das “leis”, não tenha dúvida, leitor) das experiências em campos nazistas (e que chocaram tanto o mundo civilizado), o doutor que carrega a nêmese no nome, ao insistir em denunciar a existência das criaturas. É quase certo que, apesar do seu tardio despertar heroico, seu destino será trágico…

Decerto as questões levantadas pelo romance são riquíssimas e candentes (infelizmente causando um desalento enorme no leitor). O que me faz, entretanto, me penitenciar do apressado julgamento de anos atrás é a vitalidade com que o narrador, em cada segmento, se cola aos cacoetes de linguagem e da mente de cada personagem[4]. Dessa forma, até os clichês mais desaforados, até a cafonice tremenda de certas descrições eróticas podem ser faturados na conta daqueles que vivem o enredo, pois estão em cena os vícios e virtudes de sua classe, de sua formação específica[5]. Nesse sentido, Ângelo Marcos é um triunfo de criação de um caractere ficcional. Postado entre os discursos (em primeira pessoa) das mentalidades perturbadoras, diríamos até deformadas, do Sargento Getúlio e do narrador de “Diário do farol, ele nada a fica a dever a eles. É outro prisma de um espelho implacável das mazelas nacionais.

Que escritor perdemos no dia 18 de julho!

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NOTAS

[1] Como será que Patricia Secco (aquela mesma que simplificou o vocabulário dos textos de Machado de Assis) enfrentaria o trecho abaixo do extraordinário “Sargento Getúlio”, uma das provas mais veementes, se fora preciso uma prova ainda, de que a posse de vocabulário não é um luxo, e sim uma maneira de dar mais extensão, uma sintonia mais fina, não só à apreensão do real à nossa volta, mas também dos nossos processos e mecanismos mentais lidando com esse “à nossa volta” (e por isso, a literatura triunfa na linguagem “específica”): “Plantas e mulheres reimosas, possibilitando chagas, bichos de muita aleiva, potós, lacrais, piolhos de cobra, veja. Matei uns três infelizes assim, pelo cima de uns quipás, sendo que um chegou devagar no chão, receando os espinhos sem dúvida. Assunte se quem vai morrer se incomoda com conforto. Fosse dado a sangria, terminava o vivente no ferro, porém faz um barulho esquisito e não é asseado por causo de todo aquele esguincho que sai. E dessa forma acertei um disparo no cachaço, procurando atitude para não desperdiçar munição. Inda xinguei por me obrigar a caçar pelessas catingas, arremetido naquela soareira, estropeando as reiúnas novas naquelas catanduvas embarecentas. Só se vê cabeça de frade, macambira, cantingueira e urubu. Nem ouviu mais o xingamento, amunhecou e esfriou.Trabalheira ordinária. Ias me fazer chegar aonde? Itaspicuru? Vitória da Conquista? Sei lá. Não tem limites para a frouxidão que faz o homem dar nas canelas e botar a alma no mundo, correndo do destino. A hora de cada um é a hora de cada um. O bexiguento lá estrebuchado, agora ancho nos espinhos, como se o chão fosse forrado de barriguda. Que diferença faz? Quem já viu o derradeiro tiro sabe como é. Aquela sacudida no corpo, uma estremidela de uma vez só. Depois os urubus, que a tarefa aí já não é mais de punição, é de limpeza…” ?

[2] Como Flora Süssekind, cf. “Literatura e Vida Literária” (Ed. Jorge Zahar, 1985)

[3]  Não custa lembrar que O sorriso do lagarto também aparece num ano de forte carga simbólica, ano das eleições diretas, enfim, que polarizaram Collor e Lula, com a vitória do primeiro. Evidentemente, seria preciso verificar se, passados 30 anos, tal associação dos três romances à Nova República justifica uma visão parcimoniosa do seu valor literário.

[4] Como exemplo, um momento em que Ângelo Marcos está perorando sobre a raça negra, em função de ter tratado de forma injuriosa um empregado:

Parou de repente, achou que estava se explicando em demasia, dando importância excessiva a um incidente corriqueiro, afinal de contas só tinha feito umas brincadeiras com um negro da casa, praticamente da família, já vira brincadeiras mais pesadas entre primos e até irmãos. E agora está na moda esse negócio de fazer caras santimoniais, toda vez que alguém fala de uma coisa perfeitamente comum a respeito de pretos. É como judeu. Se você não empresta sua escova de dentes a um judeu, ele chama você de antissemita, existe uma história verídica sobre isso. Agora tudo é preconceito racial, até reconhecer que um sujeito é preto é preconceito racial. Que besteira, encarar a realidade não é preconceito, é apenas objetividade. Por exemplo, é uma verdade objetiva, que qualquer um pode comprovar, que o preto está mais próximo do chimpanzé ou do gorila do que nós, verdade indiscutível, não adianta querer obscurecer as evidências dos fatos…”

O “vilão” de O sorriso do lagarto é memorável em outros terrenos minados, basta observar seu discurso dissociado da prática com relação ao homossexualismo, e como esta dissociação corresponde a todo um lado perverso e oculto (a obsessão em matar pardais), inclusive pela ligação sexual com um matador desde a juventude (e a quem ele encomendará a execução do amante da esposa). Note-se, de passagem, que o matador-liaison dangereux torna-se um ruralista de Goiás.

[5] Mesmo assim, ainda acho uma forçada de mão a cena, já citada, de confronto direto entre João Pedroso (herói) e Nemésio (cientista-vilão).

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18/01/2014

DE CU PRA LUA: sabores e dissabores da obra de João Ubaldo Ribeiro

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“Diabo,  quem manda na pessoa é a pessoa –não  é a pessoa que manda na pessoa? Não, nem sempre, e por isso se diz  ´ninguém se faz´, pois ninguém se faz mesmo, já nasce com sua natureza.”

      Minha reação inicial diante de um título como O Albatroz azul, foi de desagrado (mesmo porque ele tem uma das capas mais feias dos últimos anos), mais ou menos como a que tive com O Voo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende; este último, porém, apesar do título “pitoresco” e “folclórico”, revelou-se um dos melhores romances desta década. E o novo de João Ubaldo Ribeiro?

O protagonista é Tertuliano, macróbio morador da Ilha de Itaparica e filho de Juvenal Peixoto do Amaral Viana Botelho Gomes, deixado pelo pai, o português viúvo Nuno Miguel (que enriquecera no Brasil, todavia sempre se manteve saudoso da pátria), aos cuidados dos padrinhos. Após a morte do marido, a madrinha Ia Cencinha (cuja relação com Juvenal faria as delícias de um Freud: “E haveria a cerimônia em que ela se tornaria novamente madrinha dele, por assim dizer mãe duas vezes, e ele receberia o sacramento, seria um homem completo, um homem casado… No dia do casamento,  quem vai te dar teu banho sou eu, tua madrinha que te criou, desde menino que não te dou um banho e esse vai ser o último que vou poder te dar, porque depois de casado já não fica bem, já passam a deitar vistas maldosas, disse ela com o olhar fixo nele, e ele ficou um  momento sem saber o que dizer ou como se mexer”) permite ao afilhado que coabite alternadamente com as duas filhas, Catarina e Albina.

Nuno Miguel, à morte em Portugal, convoca o filho à sua presença, ou trazendo uma esposa legítima ou então preparado para um matrimônio acertado pelo pai. Ia Cencinha, com medo de perder o patrimônio do compadre, decide que Juvenal deve legalizar sua união com uma das filhas. A escolhida é a mais “ajuizada” e cordata, Catarina, em detrimento da rebelde e opiniática Albina, a mãe de Tertuliano. Acontece que Juvenal tem especial predileção por esse filho, e ele e a madrinha resolvem então que, a partir do casamento com Catarina e os trâmites com o pai moribundo, Tertuliano passará a ser filho da esposa legítima e não da verdadeira mãe.

Só que ele se recusa a ceder aos desejos do pai e acarreta uma cisão no arranjo que a madrinha criara (“Que família mais sólida podia existir?, se pergunta ela a certa altura). O resultado: a banda de Albina (que morre de desgosto) se torna pária, pobre e bastarda. E Tertuliano, mesmo respeitado e venerável, evita tocar no assunto. Até que sua uma das suas filhas, que sempre pariu meninas, está grávida novamente e ele recebe a inspiração de que dessa vez, contrariando os prognósticos até da experimentada parteira, virá um neto e que este terá um destino glorioso. Tanto que Tertuliano se azafama para lhe dar um nome de santo digno: Raymundo Penaforte. O vaticínio parece se cumprir quando, na hora do parto, o neto nasce de bunda, em plena lua cheia, fazendo valer o famoso dito dos nascidos de cu pra lua… Mas talvez o avô, que fora privado da vida que devera ter, tenha de pagar com a própria existência o destino do neto…

Como se vê, não falta engenho à trama de O Albatroz azul (e que personagem é Ia Cencinha!) e o estilo de João Ubaldo Ribeiro está tão afiado, que nos imerge até nas minudências (nada enfadonhas) da escolha do nome do neto de Tertuliano. Cada fio é amorosamente entretecido pelo dono de uma das melhores prosas da nossa literatura. Mesmo assim, como acontece amiúde na sua obra, a coisa desanda e o resultado decepciona.

Nas suas primeiras e memoráveis obras, como Sargento Getúlio (1971), Vila Real (1979)  Livro de Histórias (1981) havia um equilíbrio entre prosa e fabulação que nunca mais foi alcançado. Viva o Povo Brasileiro (1984) e O sorriso do lagarto (1989) são experiências ambiciosas, importantes, todavia  irregulares, com altos e baixos (mais os últimos que os primeiros, a meu ver).  Depois, parecia que ele havia capitulado à mistura exotismo-erotismo-esoterismo, à literatura sestrosa dos trópicos consumida pelo primeiro mundo, e equivalente às telenovelas regionais, no muito longo e muito fraco O feitiço da ilha do pavão (1997), e se tornado um escritor de segunda. A força parecia ter voltado (e de fato, a maior parte do livro é impressionante) com Diário do farol (2002). Nas últimas páginas, infelizmente, parece ter baixado a proverbial preguiça baiana, um ritmo à Dorival Caymmi e o final do romance se mostrava apressado, desinteressante, chocho.

O mesmo efeito se observa em O albatroz azul. Preparação magnífica, cada capítulo um esmero, num estilo que nos faz pensar que, como Raymundo Penaforte, Ubaldo nasceu de bunda pra lua, ungido para a literatura como poucos. De repente, ele se cansa, termina abruptamente o livro, e ficamos pensando no destino truncado de Tertuliano. E a forçadíssima e pobre metáfora do albatroz azul parece um (Paulo) coelho tirado de uma cartola de onde se esperava que saíssem coisas mais interessantes.

Será que João Ubaldo Ribeiro nunca mais vai se interessar em escrever um livro até o fim e nos dar um romance “completo”?  

(a resenha acima foi  publicada originalmente em  A TRIBUNA de Santos, em 08 de dezembro de 2009)

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JOÃO, O BALDO

   Existe um tipo de best seller brasileiro para exportação,cuja fórmula foi fornecida pela obra de Jorge Amado e que repousa na ambientação histórica e regionalista (a modernidade urbana não deve fazer parte dos nosso universo, a não ser em forma de favela e banditismo), e na qual a libido aflora mais forte do que o poder e a religião.

João Ubaldo Ribeiro, em O feitiço da Ilha do Pavão nos dá um típico representante dessa literatura made for gringo, destinada a aliviar o tédio de países nórdicos, germânicos ou saxões,  com paisagens exuberantes, costumes exóticos e tipos femininos calientes. A ostra e o vento.

    O feitiço da Ilha do Pavão mostra uma ilha na costa da Bahia, de difícil aceso, e que por isso mesmo consegue se manter mais ou menos ao largo do poder da Coroa Portuguesa (a ambientação é colonial) e do clero, cultivando as maiores virtudes do Novo Mundo: a miscigenação das raças, o sincretismo religioso e a liberalidade de costumes. Há um vilão, o chefe de armas da principal vila da ilha, Borges Lustosa, contudo o homem mais poderoso, o Capitão Cavalo, é democrático e imparcial, o próprio homem “cordial”, “se recusando a meter-se em questões que considerava dependentes da vontade dos envolvidos, ou seja, para ele a maior parte das coisas da vida”.

Apesar da ambição e das intrigas de Borges Lustosa, o principal contratempo da história acaba sendo a impossibilidade do filho do Capitão Cavalo, Iô Pepeu, de realizar seu desejo físico pela negra Crescência, uma vez que esta se recusa a dizer certas palavras sem as quais o membro do mancebo não levanta.

Vicissitudes sexuais à parte (a ostra ficará ao vento, enfim, eis o grande suspense), há um trunfo esotérico na concepção da Ilha do Pavão (já pensou, leitor, no frisson lá fora: exotismo, erotismo e esoterismo num mesmo livro?): o Capitão Cavalo descobre uma esfera que consegue  deter o tempo e controlar o futuro. E a ilha se torna “enfeitiçada”, uma rival da Avalon de Marion Zimmer Bradley. Como todos se lembram, as brumas de Avalon nada mais eram do que o estado ambíguo do santuário druida: ele ao mesmo tempo está e não está no mundo, podendo ser visto ou não.

Graças ao Capitão Cavalo e seus amigos, acontece o mesmo com a Ilha do Pavão, a qual, assim, mantém-se a salvo das mazelas européias. E o leitor pode se deitar numa rede e espreguiçar-se gostosamente, pois tudo está bom quando acaba bem. Eta, bem bom… Nada de inquietações, só um pouquinho de agitação que é bom como tempero, mas que tudo fique mesmo na chanchada e no deboche. Que os gringos não pensem que sob os céus brasileiros haja desassossego metafísico ou dúvidas existenciais. Nada disso, basta que haja mulher pelada e o resto é silêncio.

O desperdício de O feitiço da Ilha do Pavão está no fato de que o domínio lingüístico que João Ubaldo Ribeiro demonstra da sintaxe colonial faz o leitor sonhar, a princípio, com algo como um Memorial do Convento brasileiro. Só que Saramago não se limitou apenas a utilizar um linguajar de época saboroso. O feitiço da sua linguagem  parece que condensou a essência de uma época.

Embora nem de longe irregular e cansativo como Viva o povo brasileiro (1984), o romance da Nova República  tancredista (e que, já que estamos na terra da chanchada e do deboche, acabou sarneysista), o novo romance de João, o Baldo da ficção brasileira, vem comprovar que a fórmula Xica da Silva, a receita Mandacaru, pode funcionar na televisão. Em livro, avultam a gratuidade e o apelo fácil.

(a resenha acima foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em  15 de janeiro de 1998)

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