MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/06/2017

CINQUENTA ANOS DE TUTAMEIA

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de junho de 2017)

Assim como Clarice Lispector, que no ano de sua morte publicou um dos seus mais relevantes romances, João Guimarães Rosa, ao morrer em 1967, deixou uma obra-prima, TUTAMEIA. Colaboravam para a sensação de estranheza despertada por TUTAMEIA: o título peculiar (um vocábulo com o significado de “coisa de pouco valor”), os quatro prefácios com títulos abusadamente esdrúxulos (“Hipotrélico”; Nós, os temulentos, por exemplo); e, sem contar os títulos de várias estórias (“Antiperipléia”; “Droenha”; “Rebimba”, “O Bom”; “Tapiiraiauara”), os textos herméticos e quase impenetráveis.

Hoje percebe-se melhor ter ele tão somente condensado ao extremo as características que se “espalhavam” nos amplos espaços épicos de “Grande Sertão: Veredas & Corpo de Baile”, fazendo de cada texto de TUTAMEIA a coisa mais similar à poesia que já se criou na ficção: impossível mexer numa palavra sequer. Além disso, investindo nas “anedotas” do sertão mineiro, ele tenta atingir uma realidade “mais verdadeira”. Para isso, é importante “contar” mais do que “viver”.

Quanto à acusação de hermetismo, mesmo se levando em conta a linguagem peculiaríssima de Rosa, nada mais delicioso do que as “anedotas” (tenho minhas dúvidas e ressalvas quanto aos prefácios) da coletânea. Nem por isso, nos “desenredos” tramados pelo autor de Sagarana, deixamos de entrever as linhas tortas pelas quais lemos a vida.

Por exemplo, temos o guia de cego que ajuda o patrão a se envolver num caso adúltero e que termina suspeito da morte dele, para a qual, como em “Rashomon”, há várias versões (“Antiperipléia”). Esse guia pode ser o anão que aparece na última estória do livro, “Zingaresca” (sim, as histórias são dispostas em ordem alfabética), aquele que “vigia o que não há”. Como Riobaldo, ele conta sua história para um interlocutor citadino.

Em Lá, nas campinas, Drijimiro não consegue lembrar o local da sua infância, só restou na memória as palavras que dão título à estória, “o que guardado sempre sem saber lhe ocupara o peito, rebentado: luz, o campo, pássaros, a casa entre bastas folhagens, amarelo o quintal da voçoroca, com miriquilhos borbulhando nos barrancos.

Esses são alguns pontos altos do livro. E sempre, em qualquer uma delas, as frases genialmente únicas: “as coisas começam deveras é por detrás, do que há, recurso; quando no remate acontecem, estão já desaparecidas”; “calava-se a ternura, infinito monossílabo”; “memória, que é o que sem arrumo há, das muitas partes da alma”; “a gente tem de existir—por corpo real, continuado—condenado”; “o mundo se repete mal é porque há um imperceptível avanço”; “de onde vem o medo? Ou este terráqueo mundo é de trevas, o que resta do sol tentando iludir-nos do contrário”… E assim, Guimarães Rosa iluminou a nossa literatura como a borboleta que (ele mesmo diz, raiando pela indescrição) “sai do bolso da paisagem”.

23/11/2012

1956, annus mirabilis de Guimarães Rosa (primeira parte)

 

MANUELZÃO E MIGUILIM

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 04 de fevereiro de 2006)

    Guimarães Rosa publicou suas duas principais obras, Corpo de Baile Grande Sertão: Veredas em 1956. A primeira delas apareceu em janeiro e mesmo quem já apreciara Sagarana (1946) ficou impactado. Até há pouco tempo, os sete textos que a compõem encontravam-se divididos em 3 volumes (uma edição especial da Nova Fronteira restaurou a ordem original). Neste artigo, falaremos de um deles, Manuelzão e Miguilim.

   Miguilim é o protagonista de Campo Geral, certamente  o texto mais famoso de Guimarães Rosa, depois de Grande Sertão e de  “A Terceira Margem do Rio”. E embora haja várias narrativas incríveis evocando o mundo da infância (a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, A Harpa de Ervas, de Truman Capote, por exemplo), é provável que nenhuma seja tão inesquecível quanto a história do menininho que vive “em ponto remoto, no Mutúm”. Hiper-sensível, míope (até que lhe coloquem óculos), ligadíssimo na mãe e no irmãozinho Dito (cuja morte é o centro dramático do texto), com um pai ignorante, violento e desconfiado, Miguilim faz com que participemos da sua “descoberta do mundo” de uma forma que nos devolve nosso próprio sentimento de infância. É uma ótima iniciação para quem quiser conhecer pela primeira vez o universo do nosso maior escritor pós-Machado.

 A beleza emocionante de Campo Geral sempre eclipsou injustamente o outro texto desse volume de Corpo de BaileUma Estória de Amor (Festa de Manuelzão), uma obra-prima. Seu protagonista é o encarregado da  fazenda Samarra, o qual, finalmente estabelecido na vida, resolve inaugurar uma capelinha nas terras do seu patrão (o pessoal da região, entretanto, vê em Manuelzão a encarnação da autoridade) e, por conta disso, suspender a labuta da vida numa grande festa: “Amanhã é que ia ser mesmo a festa, a missa, o todo do povo, o dia inteiro. Dião de dia!”

    Manuelzão, em meio à festa, descobre-se numa encruzilhada. Sua saúde já não é tão boa, a morte não é tão remota, ele morre de medo de retornar à miséria na qual nasceu, e pesa-lhe não ser o dono do lugar, ainda que respeitado. Tem um filho do qual não gosta nem respeita, uma atração inequívoca pela nora (“Leonísia era linda sempre, era a bondade formosa”). Mas o que a festa começa a desmanchar nele é a alienação de si mesmo, de quem sublimou no trabalho ininterrupto todas as perplexidades da vida. Nem novo (como os vaqueiros que se divertem) nem velho (como seo Camilo, a quem recolhe como agregado ou o Senhor de Vilamão, um latifundiário caduco), ele sente a solidão de quem tem de estar em atividade constante para não cair na angústia: “Ao que veio o desânimo. A gente afrouxa… A ser, o que se dava. A gente afrouxa: Ao desalentos, o amontôo. Acizilino –amigo, de sua mesma idade, velho companheiro. Assim mesmo, esse tinha se casado, ainda na mocidade legal, agora estava no meio de sua família acostumada, somente que no peso da vida.”

    Enquanto Miguilim descobria o mundo, Manuelzão tenta redescobrir o gosto pelo mundo, dificultosamente, através da festa, através das estórias contadas na festa pelos representantes daqueles seres que não se consomem na luta pela vida, párias de uma sociedade obcecada pelo produtivo: Joana Xaviel e Seo Camilo, figuras que atraem Manuelzão assim como o irmão de sua nora, Promitivo, com sua vadiagem simpática, enquanto o filho trabalhador lhe causa antipatia.

   E, entremeando tudo, a festa da linguagem única de Guimarães Rosa: “Assim aquela procissão, ela marcava o princípio da festa ? Mas Manuelzão, que tudo definira e determinara, não a tinha mandado ser, nem previra aquilo. Quem então  imaginava o verdadeiro recheio das coisas, que impunham ara se executar, no sobre o desenho da ordem?”

 

 NO URUBUQUAQUÁ, NO PINHÉM

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 11 de fevereiro de 2006)

 “faça pirâmides, não biscoitos”(G.Rosa)

    O 2o. volume  de Corpo de Baile reúne três dos seus sete textos e tem o extravagante título de No Urubuquaquá, no Pinhém. No Urubuquaquá, temos a fazenda do personagem-título de Cara-de-Bronze, um dos relatos mais desafiadores de Rosa e um dos raros que justificariam a fama de difícil, quase ilegível. Ele abusou tanto da sua inventividade que, na tentativa de desdobrar os planos do texto, colocando até notas de rodapé, acabou forçando a barra em dois aspectos: ao propor um inconvincente roteiro cinematográfico no meio da narrativa e, de forma mais pernóstica ainda, ao incluir no rodapé referências a Goethe e Dante, com citações não-traduzidas em alemão e italiano.

    Nem por isso é menos fascinante o grande coro de vaqueiros que comenta a volta do Grivo (o qual já fora companheiro de infância de Miguilim, em Campo Geral) da enigmática viagem ordenada pelo patrão. O que o Grivo foi fazer, o que foi buscar? Qual a missão confiafa a ele? Talvez trazer notícias da vida que Cara-de-Bronze  perdeu no processo de se fazer latifundiário, “ajuntando suas duras riquezas” (há um certo paralelo com a situação do protagonista de Festa de Manuelzão): “Eu estava cumprindo lei. De ver, ouvir e sentir. E escolher.” A viagem do Grivo (durante a qual ele esbarra com Nhorinhá, aquela mesma que aliviava os dilemas da paixão de Riobaldo por seu colega jagunço, em Grande Sertão) dá vazão ao amor de Guimarães Rosa pelo nome das coisas, dos lugares, dos seres, num atordoante inventário-catálogo enumerando o mundo que escapou ao desalentado e perrengo Cara-de-Bronze, cujo verdadeiro nome, como de praxe no universo roseano, passa por várias metamorfoses (Sigisbé,  Sejisbel Saturnim, Xezisbéo Saturnim,  Zijisbéu Saturnim, Jizisbéu Saturnim, Sezisbério,  Segisberto Saturnino).

    No Pinhém, noutra fazenda, transcorre a intriga da belíssima Estória de Lélio e Lina: o jovem vaqueiro Lélio, forasteiro no lugar, tem a idosa Dona Rosalina, num singular caso de amor entre idades antípodas, para atar os fios da sua educação sentimental em meio aos companheiros de trabalho e às mulheres, solteiras, casadas ou “para uso” da região. Não, leitor, não espere –felizmente—nada do tipo Ensina-me a Viver. Um trecho pode esclarecer o que se passa entre eles: Isso aos outros Lélio não podia explicar, repetido longe dela aquele fraseado se esfriava de valor, era preciso escutar direto quando ela falasse, era preciso gostar da Velhinha. Dizia aquilo, o siso da gente achava que ela estivesse ensinando outro poder inteiro de se viver.” Poucos textos da nossa literatura têm momentos tão bonitos quanto aquele em que Lélio e Dona Rosalina se conhecem, ou aquele da visita dele à amante, Jiní, esposa de Tomé (ele, irmão de Miguilim), após a partida do marido, em que ele sente o estrago feito pelo adultério, a ausência do amigo, atração sexual, repulsa, tudo ao mesmo tempo. Como todos os maiores escritores, Guimarães Rosa é tanto um fabulador quanto um psicólogo, um filósofo, um pedagogo das emoções, ou, resumindo tudo, um arqueólogo das relações humanas como Irving Howe chamava Doris Lessing.

    O texto mais famoso de No Urubuquaquá, No Pinhém não se passa nem no Urubuquaquá nem no Pinhém, e sim em trânsito. Trata-se da obra-prima O Recado do Morro, no qual a tentativa de assassinato do galã sertanejo, Pedro Orósio, que está guiando um estrangeiro (que parece ser uma brincadeira de Guimarães Rosa consigo mesmo, a respeito da sua mania de anotar tudo, como mostra em Cara-de-Bronze), um padre e um fazendeiro pelas serras de Minas, por parte de sete desafetos, é desmascarada através de uma série de indícios revelados por miseráveis, simples de espíritos, loucos místicos, crianças, até que um cantador os recolhe e organiza numa forma que dá chance a Orósio de figurar seu destino, escapar dele e voltar ao seu lugar de origem. Objeto de estudos até obsessivos,  é um daqueles textos que já valem a obra inteira. Por um simples motivo: é uma leitura deliciosa, saborosa, um fino biscoito fabricado com malícia e artimanha por alguém que estava em vias de revelar a maior pirâmide (Grande Sertão) da nossa literatura.

 

 MIL E UMA NOITES DO SERTÃO

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 18 de fevereirod e 2006)

     O menos conhecido dos três volumes de Corpo de Baile  é Noites do Sertão, uma das mais requintadas representações literárias das relações erótico-amorosas que o responsável por esta coluna conhece. O autor se dá ao luxo, inclusive, de recriar a linguagem dos Cânticos de Salomão num dos momentos mais belos de Lão-Dalalão (ou Dão-Lalalão ou ainda O Devente), uma das duas “estórias” do livro, as quais são a coisa mais próxima de narrativas tradicionais que Rosa chegou a escrever pós-Sagarana.

    O protagonista de Lão-Dalalão  é Soropita e ele está voltando para casa,  “em meio-sonhada ruminação”. Ex-matador famoso, acabara casando com uma prostituta de Montes Claros, Doralda, e tornando-se fazendeiro, “dono de seus alqueires”: “todos o respeitavam, seu nome era uma garantia falável.” Só que, no caminho, esbarra com Dalberto, antigo companheiro dos tempos de vaqueiro e, como é de praxe, é obrigado a acolhê-lo como hóspede, embora tencione até matá-lo. Por quê ? Devido à possibilidade de Dalberto ter conhecido Doralda na sua época de quenga, o que destruiria seu bom nome na região, mas também por ciúme. Soropita pertence à galeria dos grandes ciumentos retrospectivos (obcecados com o passado amoroso da amada) cujo grande representante na nossa ficção é o Bentinho de D. Casmurro. Além de Dalberto, Soropita também fica tomado pela cisma de que Doralda pudesse ser conhecida (em todos os sentidos, inclusive o bíblico) pelo “preto Iládio”, em razão de um violento ódio racial, materializado em violentas imagens sexuais.

    Aliás, o que faz com que Lão-Dalalão seja uma das obras-primas de Guimarães Rosa é a maneira como ele insinua no texto a voltagem erótica (e psicologicamente intrincada) das fantasias sexuais de Soropita, que chega a imaginar Doralda na cama com Dalberto no momento mesmo em que este lhe confidencia a paixão por outra prostituta e a sua vontade de casar com ela.

    Também complicada,  contudo não tão perfeita como realização artística,  é a ciranda amorosa de Buriti, a narrativa mais longa escrita pelo genial autor mineiro, tirando Grande Sertão. Nela reaparece o Miguilim de Campo Geral, agora médico e adulto, “estrangeiro” de sua terra natal. Ele  chega à fazenda do Buriti-Bom (na região há um colossal buriti, um símbolo fálico gritante), uma espécie de pórtico para os Gerais. Ela pertence a iô Liodoro,  patriarca-garanhão, o qual todas as noites sai para se satisfazer com suas várias mulheres. Na casa, há três moças: Lalinha, nora de iô Liodoro, que foi buscá-la na cidade grande quando o filho a abandonou e a trouxe para viver com a família num estado de espera pela volta do marido, alimentado por rezadeiras e mandingas; Glorinha, assim como a feiosa Maria Behú, é filha de iô Liodoro (e todos são parentes da inesquecível dona Rosalina, de Estória de Lélio e Lina, outro texto de Corpo de Baile) e será a amada do titubeante, hesitoso e angustiado dr. Miguel.

    Buriti demora a engrenar. Começa sob o ponto-de-vista de Miguel (alternando dois tempos diferentes e um deslizar suave entre a 1a. e a 3a. pessoas) e oscila entre momentos geniais e cansativos. A arte de Guimarães Rosa às vezes beira a monotonia de tanto reiterar os mesmos pontos e o leitor tem a impressão de que ele não soube encontrar o “ponto” do bolo. Em compensação, quando o ponto-de-vista passa a ser o da Lalinha, o texto cresce em intensidade, precisão e sofisticação ao nos fazer compartilhar das noites em que sogro e nora (iô Liodoro e Lalinha) se comprazem num jogo de sedução peculiaríssimo, mostrando que as noites do sertão nada ficam a dever a D.H. Lawrence ou a qualquer outro mapeador da presença do desejo em nossas existências. 

 

1956, annus mirabilis de Guimarães Rosa (segunda parte)

PELAS VEREDAS: COLOCANDO A ALMA EM LINGUAGEM

                                I

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 06 de maio de 2006)

“Só o que eu quis, todo o tempo, o que eu pelejei para achar, era uma só coisa –a inteira— cujo significado vislumbrado dela eu vejo que sempre tive. A que era: que existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem— mas a gente mesmo, no comum não sabe encontrar; como é que, sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado tem. Tem que ter. Se não, a vida de todos ficava sempre o confuso dessa doideira que é. E que: para cada dia, e cada hora, só uma ação possível da gente é que consegue ser a certa. Aquilo está no encoberto; mas fora dessa conseqüência, tudo o que eu fizer, o que o senhor fizer, o que o beltrano fizer, o que todo-o-mundo fizer, ou deixar de fazer,  fica sendo o falso, e é o errado. Ah, porque aquela outra é a lei, escondida e vivível mas não achável, do verdadeiro viver: que para cada pessoa, sua continuação, já foi projetada como o que se põe, em teatro, ara cada representador –sua parte, que antes já foi inventada, num papel…

Eis que em maio de 1956, do pântano do regionalismo brasileiro, com seus jagunços, coronéis, quengas, lutas armadas, tudo num sururu pitoresco  e raso que continua a fazer sucesso (na televisão, por exemplo) ainda hoje, mantendo-se um bom artigo de exportação da nossa  “identidade nacional”, surgiu um romance único, o maior da nossa literatura: Grande Sertão:Veredas. Os mesmos elementos (jagunços, etc), mas que diferença! A travessia de Riobaldo, o narrador, pelo sertão brasileiro parecia uma jornada pelo cosmo; a aventura nos devolvia o sentido da jornada espiritual (ou existencial, como se queira) e na nossa dessacralizada época o livro de Guimarães Rosa nos proporcionava o que o crítico canadense Northrop Frye colocaria como um dos pontos essenciais da grande ficção do último século (Joyce, Kafka, Mann): o retorno ao mito.

Infelizmente, Grande Sertão:Veredas passou a ser visto sobretudo como um artefato lingüístico estúrdio, quando não estapafúrdio, tal a rejeição por parte de tantos leitores, que não suportam a linguagem adotada por Riobaldo e as dificuldades das primeiras páginas, e acabam por abandonar o livro (foi o caso de colegas de ofício como Érico Veríssimo, o qual escreveu para Clarice Lispector: “não consegui ir além da pág.20”; mesmo um entusiasta já de primeira hora como Fernando Sabino escreveu o seguinte disparate: “no princípio, as 10 primeiras páginas, é meio assim-assim, custa um pouco a engrenar”).

A verdade é que em boa parte do texto há um processo de embaralhamento da seqüência do enredo (basicamente, o relato das guerras internas de um grupo de jagunços) que colabora na decisão de desistir da leitura. Por isso, depois de tantas interpretações críticas, uma grande contribuição foi dada em 1972 por José Carlos Garbuglio e seu O mundo movente de Guimarães Rosa, que atacou pela raiz a questão da dificuldade da leitura e justificou a estrutura narrativa adotada por Rosa:  segundo ele, a 2a. parte do livro é o momento em que se revela o derradeiro chefe do bando de jagunços que faltava conhecer na embaralhada primeira parte: o próprio Riobaldo. É quando ele assume o seu destino, fazendo o pacto com o diabo que permite que ele resolva os assuntos pendentes do bando e comece as tremendas dúvidas existenciais que alimentarão e justificarão sua narrativa, que é toda feita para um interlocutor urbano que chegou à sua fazenda.

Graças ao processo empregado na 1a. parte, que está longe de ser confusa, quando começa o julgamento, por parte dos líderes jagunços, de Zé Bebelo (cena que está na metade do romance), já conhecemos por antecipação cada personagem importante e suas  características essenciais. Todos os chefes já foram apresentados e apareceram em ação (menos Riobaldo, que parecia ser levado passivamente pelos acontecimentos e pelo amor a Diadorim). Por sua atuação no julgamento (salva a vida de Zé Bebelo), Riobaldo se torna o chefe virtual do bando. Sua chefia já está inscrita no futuro. E justamente a sua atuação e o resultado é que causam as conseqüências (traição, nova guerra, pacto com o diabo, morte de Diadorim) que fazem a narrativa durar ainda centenas de páginas apaixonantes, que nos fazem adentrar nesse sertão que está em toda a parte e principalmente dentro da gente.

II

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de maio de 2006)

“Recorro a apenas três critérios em relação ao que leio e ensino: esplendor estético, força intelectual e sapiência… A mente sempre volta às suas necessidades de beleza, verdade, discernimento. A mortalidade flutua no ar e todos aprendemos que o tempo triunfa. Vivemos num intervalo e, então, nosso lugar não mais nos reconhece (…) os maiores escritores, antigos e modernos produzem equilíbrios (ainda que precários) que permitem a coexistência da sabedoria prudencial e de certas insinuações de esperança. A verdade, segundo William Blake, não pode ser conhecida, mas pode ser encarnada.  Quanto à sabedoria,  eu afirmo o contrário: não podemos encarná-la, mas podemos aprender a conhecê-la, a despeito de ser ou não identificável  com a Verdade que talvez nos liberte.”

As palavras acima, de Onde encontrar a Sabedoria(ed. Objetiva), de Harold Bloom, nos ajudam a prosseguir o comentário sobre o  grande livro da nossa literatura, Grande Sertão: Veredas.

Quem já leu o leu sempre se lembra de uma citação que ilumina um problema, uma situação, um dilema, a  condição humana, tal como foi sendo construída ao longo dos milênios. Há pessoas que o citam constantemente. Há até os que, sem nunca o terem lido, conhecem (e citam) trechos. Um exemplo famoso: “… o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas—mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas; mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro –dá gosto! A força dele, quando quer –moço!—me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho—assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza.”

Onde encontrar a Sabedoria ? Em Grande Sertão: Veredas. Nesse monumental livro de auto-ajuda, que pulveriza as dicas-miojo presentes no mercado editorial de como encarar a vida e o quotidiano, esplendor estético, força intelectual e sapiência (no sentido existencial e místico) se entrelaçam de uma forma tão perfeita que mesmo recentes interpretações cujo objetivo é desmistificar a figura de Riobaldo (por conta do seu Pacto, o qual seria não com o Demo, mas com o poder instituído–como depreendemos de leituras críticas menos metafísicas e mais historicizantes) não conseguem tirar o seu charme e carisma de Hamlet/Fausto sertanejo.

O mais importante e bonito da obra-prima de Guimarães Rosa é que essa Sabedoria que se tira da leitura, contínua ou renovada algumas vezes, do romance está mergulhada no fluxo da narrativa, não dá para separar da “matéria vertente que é o existir, o ser-tão em meio a veredas que podem ser acaso ou destino. Como nunca permanecemos iguais (e mocidade não é “tarefa para mais tarde se desmentir ?) cada leitura é uma nova experiência e aferição de achados neste nosso misturado mundo. Pois a sabedoria que possamos conseguir jamais se desvincula do tipo específico de vivência que temos. Nem a religião (e Riobaldo prova de todos) é garantia suficiente: “Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório”.

Como bem notou Kathrin Rosenfeld (em Os Descaminhos do Demo, ed. Imago), o paradoxo da sabedoria a ser encontrada num mundo de veredas faz com que a narrativa de Riobaldo seja não a revelação e o desvendamento de um Sentido, “mas o desdobramento de uma densa trama de imagens nas quais a verdade –a essência, o Nome—se oculta(…) no desdobramento das imagens  do sertão  confuso e misturado, que impede a visão imediata da verdade, obrigando-nos a seguir laboriosamente os rastros sinuosos das veredas labirintícas.” Nesse ponto, porém, temos sorte: podemos seguir laboriosa e precariamente as veredas labirínticas (todavia tão prosaicas) desse viver que é tão perigoso (até na sua banalidade essencial), contudo as da travessia de Riobaldo são sempre um chamado ao máximo prazer da leitura

 III  

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de maio de 2006)

 “Quer percebamos claramente ou não o caráter de coisa organizada da obra literária torna-se um fator que nos deixa mais capazes de ordenar a nossa própria mente e sentimentos e em conseqüência mais capazes de organizar a visão que temos do mundo… A produção literária tira as palavras do nada e as dispõe como todo articulado… toda obra literária pressupõe esta superação do caos, determinada por um arranjo especial das palavras e fazendo uma proposta de sentido.” (Antonio Candido, O direito à literatura)

Na seção anterior afirmei que Grande Sertão: Veredas era um dos Livros de Sabedoria à nossa disposição, tanto no sentido básico das palavras acima de Antonio Candido, da literatura como organizadora da experiência (ou como diz Clarice Lispector tão belamente em A maçã no escuro: “organizar a alma em linguagem”), quanto no sentido de uma função—ou missão—pedagógica. É o traço que une livros tão díspares como os de Hermann Hesse (O jogo das contas de vidro), Thomas Mann (A montanha mágica), Doris Lessing (Shikasta), Marguerite Yourcenar (Memórias de Adriano) ou José Saramago (Ensaio sobre a cegueira), para citar alguns romances que nos ensinam um pouco a viver. O fato de serem extraordinárias obras literárias também não é fortuito: para continuar citando o mestre da crítica brasileira, “quando recebemos o impacto de uma produção literária, ele é devido à fusão inextricável da mensagem com sua organização… o conteúdo só atua por causa da forma, e a forma traz em si, virtualmente, uma capacidade de humanizar devido à coerência mental que pressupõe e que sugere” (como se vê, não é à toa que Candido escreveu o pioneiro ensaio esclarecedor sobre o significado da obra-prima de Guimarães Rosa, hoje chamado O homem dos avessos).

Esse é o lado iluminado, radioso, do livro. Todavia, há um lado sombrio, terrivelmente desolador, e é a sua revelação de que não basta organizar a alma em linguagem, como faz Riobaldo, seria preciso modificar o mundo em que se vende essa mesma alma ao diabo. Os recentes episódios do crime organizado impondo sua vontade à nossa desorganizada sociedade civil deram mais atualidade ao sertão simbólico de Guimarães Rosa onde o banditismo é um poder paralelo. Sertão simbólico que porém se enraíza em dados históricos bem reais (sua ação transcorre no início da República).

Um dos episódios mais impressionantes de Grande Sertão: Veredas é o encontro do bando de jagunços liderados por Zé Bebelo (do qual fazem parte Riobaldo e Diadorim) com os “catrumanos”, o povo mais miserável do sertão. Encontrá-los é como entrar numa máquina do tempo que remetesse ao remoto, ao arcaico, ao mais atrasado, ao verdadeiramente vergonhoso em nossa nação: falam outra linguagem, estão devorados pela doença, pelo abandono, pela desesperança. É aí que Riobaldo percebe o vazio dos discursos progressistas de Zé Bebelo, o qual apregoa querer “civilizar” o sertão, como hoje políticos falam em políticas sociais compensatórias como se fossem milagres mandados por Deus.

Mais ainda: na região dos catrumanos, Riobaldo conhece um fazendeiro, seô Habão, e percebe como é derrisória (e tão perto da condição pária do sertanejo, ou melhor, do povo brasileiro em geral) a vida de jagunço, que ele acreditava a princípio ter uma aura de glória: “—aí eu entendi a gana dele: que nós, Zé Bebelo, eu, Diadorim, e todos os companheiros, que a gente pudesse dar os braços, para capinar e roçar, e colher, feito jornaleiros dele. Até enjoei. Os jagunços destemidos, arriscando a vida, que nós éramos; e aquele seô Habão olhava feito o jacaré no juncal: cobiçava a gente para escravos! Não sei se ele sabia que queria… Mas a natureza dele queria, precisava de todos como escravos”.

Logo depois, nosso amigo Riobaldo faz seu famoso pacto com o Diabo. Não seria lícito ver na junção desses episódios algo de extremamente revelador sobre a natureza da sociedade brasileira ? Jagunço levado pelo destino, Riobaldo se entende com o demo e se habilita a se tornar líder do bando; mais ainda, se habilita a  transformar-se num rico proprietário como seô Habão, livre, leve e solto para transformar sua vendida alma em portentosa linguagem.

 

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