MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

19/09/2011

GOLDING VALE OURO: O centenário de um dos Senhores da ficção

    Quando William Golding foi premiado com o Nobel em 1983, foi a primeira vez que “vibrei” com um acontecimento desse tipo. Eu já era seu leitor e admirador, vejam só, graças a uma coleção onde figuravam dois títulos do grande escritor inglês1.

   Apesar de ter acarretado até uma polêmica interna na Academia Sueca (muitos ali não queriam lhe atribuir o prêmio e teve até um votante, cujo favorito era Claude Simon, que declarou não passar o autor de Homens de papel de “um pequeno fenômeno, sem maior importância”), pelo menos para mim na época (e ainda hoje), tratava-se de uma escolha indiscutível.

    Aqui no MONTE DE LEITURAS, durante algum tempo. mantive uma seção chamada “Senhores da ficção”. E é isso o que William Golding, cujo centenário de nascimento é comemorado neste 19 de setembro (sua morte ocorreu em 19 de junho de 1993) é: um Senhor da ficção.

   Às vezes parece que sua linguagem é pobre e meramente “narrativo-descritiva” (como em O Senhor das Moscas, Os Herdeiros ou O Deus Escorpião, por exemplo), que ele não tem “estilo”, um universo próprio identificável, já que a maior parte de seus livros são muito diferentes uns dos outros. Por outro lado, ele mesmo dizia que, como romancista tinha uma idéia e procurava um mito para corporificá-la, o que pode ser interpretado muito erroneamente como o procedimento daquele que usa a fábula, a ficção, com fins morais, didáticos, como meios para um fim.

   Deixem-me contar que minha trajetória de leitor (com escandalosas lacunas, é verdade) de William Golding já desbaratinou o parágrafo anterior: por alguns anos, acompanhei fielmente a coleção “A Prosa do Mundo” da Francisco Alves e foi nela que descobri meu primeiro Golding (e esse a gente nunca esquece): Visível Escuridão (Darkness Visible– 1979, em tradução de João Guilherme Linke), onde seu estilo era mais opulento, requintado, irônico, feroz. Nada de linguagem pobre, aqui. Quando Matty, o personagem principal, emerge dos bombardeios de Londres, como o órfão milagrosamente achado e salvo, mas desfigurado pelas queimaduras e causando incidentes cada vez mais calamitosos à sua volta, entramos numa mistura de Dickens com Dante. Oliver Twist perambula, mutilado, pelo Inferno e pelo Purgatório.

     Ainda antes do Nobel, li O Senhor das Moscas , O Deus Escorpião e Ritos de Passagem, nessa ordem. E para mim, configurou-se um Senhor da Ficção, um fabulador supremo,  que não apenas procurava um mito para corporificar uma idéia, mas um destilador, um tecedor de mitos que se imbricavam à própria coisa destilada, à própria tessitura, de forma que a fábula se tornava um “pedaço da realidade”. Só tive a mesma sensação de encontrar um fabulador inato ao ler John Irving, e mesmo assim…

      No entanto, mesmo descontando-se o constrangimento que cercou sua nobelização, Golding foi vítima da síndrome-do-primeiro-livro-que-se-torna-mítico2. Em 1954, apareceu Lord of the Flies (gosto da versão portuguesa do título, O Deus das Moscas) e a carreira dele começou-terminou, em certo sentido. Daí para sempre, ele foi meramente o autor de O Senhor das Moscas (que já teve duas versões cinematográficas, uma delas muito marcante, de Peter Brook).

    Que fique claro: trata-se de um livro genial, paradigmático, inesquecível: ao lembrar seu cinqüentenário, no jornal em que tenho uma coluna semanal, A TRIBUNA de Santos, escrevi: “[o] título vem do Belzebu do Evangelho (10;25) de Mateus (…) um grupo de meninos fica perdido numa ilha, dividindo-se entre dois líderes: Ralph representa o apego a hábitos civilizatórios (e ficará isolado por isso), cada vez mais impalpáveis; Jack, por sua vez, é o apelo cada vez mais sedutor da barbárie, do irracional. Poucos momentos são mais devastadores do que aquele em que dois irmãos gêmeos são seviciados para que aceitem fazer da tribo de Jack, que irá caçar Ralph pela ilha”.

    Na minha opinião, O Senhor das Moscas foi se tornando mais e mais  atual. Nossos jovens estão seguindo sua trilha, quase como se tivéssemos uma ilustração etnográfica de um modelo estrutural de Lévi-Strauss. Por isso, ao selecionar para A TRIBUNA os 100 melhores romances do século XX (não riam, por favor), incluí o livro. Mas colocando o seguinte: “Embora Os herdeiros e Ritos de passagem sejam até melhores, essa história de garotos que revertem à barbárie e à selvageria conseguiu ser a profecia sombria e poderosa do que está acontecendo agora com nossa juventude globalizada”.

    E é isso aí. Se eu tivesse de escolher o livro de William Golding que levaria para a ilha deserta (sem Jack ou Matty, como possíveis Sexta-Feiras, de preferência), ficaria em dúvida entre The Inheritors-Os herdeiros (1955) e Rites of Passage-Ritos de passagem (1980)— este, aliás, o primeiro de uma trilogia, da qual só li o segundo, Close Quarters-Confinados (1987), já depois do Nobel, assim como The paper men-Homens de papel(1984)3.

      Escolheria talvez o primeiro pelo seu poder fabulatório, que já apontei como uma característica absolutamente peculiar de Golding. Ao colocar lado a lado, numa pré-história intensamente verossímil para o leitor (apesar de fugir totalmente do figurino do “romancista histórico”, que evidentemente fez pesquisas), dois estágios da evolução humana, ele foi ainda mais longe do que no livro anterior na intuição dos mecanismos atávicos de violência, crueldade e conquista de poder, que regem os agrupamentos humanos, essa “visível escuridão” no centro do nosso processo civilizatório: “Se as coisas se moviam sobre a superfície, havia algo a fazer. Por exemplo, havia regras explícitas de conduta se um homem se contaminasse. Mas, e se a coisa que se move sob a superfície não pode ser definida, mas está lá, uma imposição sem nenhuma regra?”4.

     Não há nada nem remotamente parecido com Os herdeiros e apesar de gostar muito de todos os livros dele que li, acho que é o que representa de forma lapidar seu universo e sua originalidade.

      Ou talvez escolhesse Ritos de passagem por sua inclusão numa linha narrativa ousada e aventureira que podemos remontar a Sterne (ou a Cervantes, ou a Diderot), e da qual temos um representante genial (Machado), uma linha maliciosa, sinuosa, requintada, em que nada é o que parece, as brincadeiras com o leitor multiplicam-se e a ficção se torna o campo lúdico da inteligência par excellence guardando numa caixa—no entanto—a já propalada “visível escuridão”. Ela está lá, só que velada, muito bem camuflada. É o clima de dança de salão antes que entre a morte com a máscara vermelha.

    Gore Vidal, de quem não esperamos normalmente esse tipo de generosidade, habituados mais a comentários cáusticos, disse uma coisa linda a respeito do autor de O Deus Escorpião, logo depois de afirmar “existe apenas um escritor vivo [isso foi em 1974] da língua inglesa que admiro sem restrições: William Golding”: “… seu trabalho é intensamente vívido. Ele o segura linha por linha, imagem por imagem. Em The Spire você vê a igreja que está sendo construída, sente o cheiro da poeira. Você está presente num evento que existe apenas na imaginação dele. Muito poucos escritores tiveram esse poder. Quando o padre revela suas feridas, você as vê, sente a dor. Não sei como ele consegue”.

     Bravo, Vidal. Quem dera seus livros fossem assim também! Agora: seria tão bom que alguém do calibre de uma Denise Bottmann pegasse The Spire (ou Free Fall, ou Pincher Martin, ou The Pyramid, todos inéditos) e fizesse o leitor brasileiro, com seu talento e seu zelo em verter o melhor possível para nossa língua o original, ver a igreja sendo construída, sentir a dor do padre.

    Pois não se sabe como, mas o fato é que o admirável Golding conseguia.

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 1E graças também a edições—meio antigas—da Nova Fronteira, que publicara O Senhor das Moscas & O Deus Escorpião, em traduções de Geraldo Galvão Ferraz e Luiza Lobo, respectivamente. Posteriormente ao Nobel, a tradução de Ferraz teria várias reedições.

Quando iniciei minhas atividades de leitor voraz e que também acompanhava resenhas, críticas, lançamentos etc, houve a premiação de Elias Canetti (em 81) e a de Gabriel Garcia Márquez (em 82), contudo só os li mais tarde, e aliás levei muito tempo para admirá-los, em especial o colombiano. Apesar de tardiamente me tornar um leitor mais entusiasmado de García Márquez, sempre achei que Borges, Onetti ou Rulfo deveriam ter sido premiados em seu lugar (e Vargas Llosa merecia o prêmio antes). Quanto a Canetti, trata-se de um extraordinário ensaísta e memorialista, porém tropecei de cara em Auto-de-fé, que—a meu ver—é uma idéia genial que renderia um romance mais curto, o qual se converteu num paquiderme, digno de consideração, mas que faz sonhar com “algo que poderia ter sido”. A bem da verdade, na época (1983), eu já achava que Doris Lessing merecia mais o prêmio que Golding, o que não deixou menos agradável a surpresa do anúncio do seu nome.

Talvez tenha sido justamente a premiação de Golding, um autor que conhecia e apreciava, que fez com a partir daí eu encarasse com menos má vontade e insatisfação o “saldo Nobel”, normalmente tido como aquém dos maiores autores. Com as duas exceções importantes e chocantes (a de Toni Morrison e Dario Fo—já conhecia romances da primeira e assistira a peças do segundo—cujas premiações considero absurdas e bizarras), gostei muito de várias premiações e todos aqueles que não conhecia e que li depois do Nobel me agradaram muito (por exemplo, o egípcio Naguib Mahfuz, ou a romena Herta Müller,ou o húngaro Imre Kertész, para não falar de um autor que passei a adorar, o francês Claude Simon).

Então, embora a idéia de um prêmio “mundial” seja um tantinho cômica, pelo menos nos últimos 30 anos o “saldo Nobel” foi mais positivo do que negativo.

2Há casos de livros que não foram os primeiros do autor e que dominam sua reputação de forma avassaladora, mesmo não sendo o melhor que produziram. É o caso de Cem anos de solidão.

Porém, o caso de Golding, como o de outros, é mais frustrante, porque nada do que produziram depois ofusca o primeiro sucesso, que é sempre a referência. Lembro aqui do caso de Günter Grass e O Tambor, um romance maravilhoso, mas ele fez coisa muito melhor em Anos de cão e O linguado; tem também Umberto Eco, que parece ter escrito como romance apenas O Nome da Rosa; e também temos o caso de Salinger e O apanhador no campo de centeio; e por aí vai…

3Os títulos até aqui citados são os únicos traduzidos no Brasil. Há mais em versões portuguesas, todavia é a oportunidade para lamentar a falta de interesse dos editores e leitores brasileiros.

A Nova Alexandria, por exemplo, reeditou a tradução de Ritos de passagem (que, como já dito, fora lançada pela Francisco Alves), mas não se deu ao trabalho de completar a trilogia To The Ends of the Earth. E a Companhia das Letras que gosta tanto do Nobel, por que não inclui Golding em seus lançamentos?

 4 Essa citação é de Visível escuridão

19/10/2010

A atualidade do anacrônico Anatole France

“Não restam muitos republicanos na França. A república não os formou. É o governo absolutista que cria republicanos. Os ferros da realeza ou do cesarismo aguçam o amor à liberdade, mas este se embota num país livre,  ou que se julga livre.  É raro amar-se o que se tem. Ademais, a realidade não costuma inspirar muito amor.  É preciso ter sabedoria para lhe dar valor…”

        Monsieur Bergeret em Paris (que está sendo reeditado este ano pela Bestbolso, utilizando a tradução de João Guilherme Linke) é o último volume da série História Contemporânea (1897-1901), na qual Anatole France (1844-1924( faz um painel da Terceira República e do impacto do Caso Dreyfus (o oficial do exército judeu acusado de traição, através de provas forjadas, degradado e degredado para a Ilha do Diabo): por causa das posições pró e contra a revisão do processo, a sociedade francesa fin-de-siècle literalmente rachou, gerando reações fascistas, antissemitas, dando fôlego ao clero (que havia perdido espaço na nova e secular configuração política), aos monarquistas, aos ressentidos de todos os matizes, e também criando duas categorias a partir de termos recém-cunhados: os intelectuais, progressistas, universalistas, e, portanto, “desenraízados”, não-verdadeiros franceses, e os nacionalistas, que, à falta de uma raça, propugnavam um fanatismo em torno da pátria, contra todos os seus elementos alienígenas: os protestantes, os judeus, os maçons: “Depois do Affaire, uma nova ordem se estabelecera na alta sociedade francesa”

       O fio da meada da tetralogia é a figura de Lucien Bergeret: nos três primeiros volumes (À sombra do olmo, O manequim de vime, O anel de ametista), ele é um obscuro professor de literatura latina, filólogo de província, já na meia-idade, desprezado e traído pela mulher, e visto com desconfiança e má vontade pelos seus concidadãos, por expressar juízos e opiniões que contrariavam o senso comum (“exercitava-se discretamente em desagradar”). Mesmo quando apanha em flagrante a esposa com um de seus alunos, ela é quem conquista a simpatia da cidade. Bergeret não faz drama, não parte para o confronto, simplesmente passa a ignorar a existência da cônjuge, não lhe dirigindo a palavra. Nesse meio tempo, a trama principal dos primeiros volumes é a rivalidade entre dois abades, ambos candidatos a um bispado que vaga na região: um deles, fanático e extremado, é tão isolado quanto o protagonista (aos dois agrada manter colóquios polêmicos à sombra dos olmos de uma alameda, como os únicos do lugar “que se interessavam por idéias gerais”); o outro, untuoso e político, reprime seus verdadeiros objetivos para conseguir o “anel de ametista” (comumente utilizado por bispos). Em torno das candidaturas, as intrigas locais, envolvendo diversos estratos sociais e até um assassinato, na casa ao lado da livraria freqüentada por Bergeret, onde sempre lê a mesma página do mesmo livro, como a simbolizar o irrisório da sua existência, a mediocridade geral.

     E, de repente, sua esposa desiste e vai embora, e ele é nomeado para a Sorbonne. Em Paris, então, está no auge a convulsão causada pelo caso Dreyfus, e nosso herói se destaca como um dos mais ardentes dreyfusards. Os personagens dos livros anteriores se reagrupam e tentam, uns, subverter a Terceira República, na tentativa de restaurar o trono para o Duque de Orleans,enquanto outros (às vezes os mesmos), professam a realpolitik: é necessário acomodar-se ao status quo e aproveitar-se dele.

     Anatole France era o escritor da moda dessa época (a virada do século). Durante muito tempo foi considerado obsoleto, ultrapassado, ridicularizado na sua mistura de “ironia e piedade” , que fundamenta uma das observações de M. Bergeret: “Há que se resignar à mediocridade da vida”(sou grato à leitura de Rumo à estação Finlândia, de Edmund Wilson, que me fez descobrir História Contemporânea, o que me levou a ler depois Os deuses têm sede, A rebelião dos anjos  & A ilha dos pingüins, e aí então realmente saber que nada havia de anacrônico e obsoleto em France, a não ser  que fosse o seu amor francês pela “clareza da forma” e a sua falta de vigor narrativo, a qual, de fato, atualmente, parece up to date,  na pós-modernidade). Há quem diga que há traços dele em Machado de Assis (principalmente negativos). De fato, há certas afinidades, mas eu acho que ele, com seu poderoso veio caricatural e sarcástico, está mais próximo de Lima Barreto (e é óbvio que M.J. Gonzaga de Sá deve muito à figura de Bergeret). Os dois compartilham até do mesmo defeito (à exceção de Triste fim de Policarpo Quaresma, todos os romances de Barreto são assim também, principalmente Numa e a ninfa): os quadros, isolados, são muito vivos e perspicazes, porém falta um  dinamismo de conjunto, falta fechar os diversos episódios num todo mais harmonioso. Além disso, o discursivo extrapola, e temos muitas vezes mais preleções e exposição de idéias do que diálogos e enredo.

    Ainda assim, como acontece com o autor de Clara dos Anjos, o saldo é bastante positivo: ainda hoje são muito modernas (aliás, estão na pauta do dia) e úteis as discussões sobre o futuro da democracia, sobre o papel dos partidos no governo, sobre a corrupção, e sobre a interferência da religião em assuntos do estado e em eleições.

(resenha publicada de forma mais condensada em “A Tribuna” de Santos, em 19 de outubro de 2010)

Monsieur Bergeret na província

PARA CONHECER MELHOR MONSIEUR BERGERET

Trechos de À sombra do olmo (“L´orme du mail”, 1897)

Tradução de João Guilherme Linke

    “… monsieur Bergeret não era avesso a estudar a alma de um padre inteligente. Sabiam ambos que suas conversas um banco do passeio desagradavam igualmente ao deão da faculdade e ao arcebispo. Mas o abade Lantaigne ignorava a prudência. Humana, e monsieur Bergeret, muito cansado, desalentado, desgostoso, dispensava-se de guardar  inúteis deferências.

      Irreligioso com decência e bom gosto, as devoções freqüentes de sua esposa e os intermináveis catecismos das filhas levaram-no a ser acusado de clericalismo nos gabinetes do Ministério, enquanto certos conceitos que lhe eram atribuídos eram usados  contra ele pelos católicos de sentimento e pelos patriotas de profissão. Frustrado em suas ambições,  procurava ao menos viver a seu modo, e, não tendo sabido agradar, exercitava-se discretamente em desagradar.”

 

“…só eles na cidade se interessavam  por idéias gerais. Era esse traço comum que os unia. Filosofando sob os quincôncios quando fazia bom tempo, eles se consolavam, um, das tristezas do celibato; o outro, dos percalços da família; e ambos, de suas contrariedades profissionais e da sua igual impopularidade.”

 

“Sentado à sombra na ponta de um banco banhado de sol, monsieur Bergeret esquecia, sob as árvores clássicas, na solitude acolhedora, a esposa, as duas filhas, sua vida estreita na sua casa estreita; gozava, como Esopo, a liberdade  do espírito, e deixava errar sua imaginação crítica a esmo, entre os vivos e os mortos.”

 

“Monsieur Bergeret ficou só, no meio do banco  agora quase todo coberto pela sombra… Não era feliz. Tinha um espírito requintado, cujas arestas não eram totalmente aparadas pelo exterior,e não poucas vezes feria-se a si mesmo nos aguilhões da própria crítica. Anêmico e bilioso,tinha um estômago extremamente delicado e sentidos debilitados, que lhe proporcionavam mais sofrimentos e desgostos que prazeres e contentamento. Era imprudente com as palavras e de uma falta de tato que, pela precisão e segurança, igualava a mais cultivada habilidade. Tinha o talento sutil de não perder nenhuma ocasião de se prejudicar. Inspirava uma aversão natural ao comum dos homens, e sofria com isso, sociável que era e propenso a comunicar-se com seus semelhantes. Jamais conseguira formar discípulos, e dava seu curso de literatura latina em um porão sombrio, úmido e abandonado, para onde o banira a acirrada hostilidade do deão.”

 

“Monsieur Bergeret era um dos três acadêmicos da casa Paillot, e o mais assíduo conversador do canto dos alfarrábios.Folheava com mão amiga as obras antigas e novas, e ainda que jamais comprasse um livro, por medo de apanhar da esposa, recebia a melhor acolhida de Paillot, que o tinha em alta estima como repositório e alambique da ciência e das belas letras de que vivem e lucram os livreiros.

   O canto dos alfarrábios era o único lugar da cidade onde monsieur Bergeret podia deixar-se ficar com pleno contentamento, pois em casa madame Bergeret o acossava por toda parte e por diversas razões de economia doméstica; na faculdade, o deão, por birra, obrigava-o a dar suas aulas num porão escuro e insalubre, para onde poucos alunos desciam; e nas três sociedades da cidade torciam-lhe o nariz por ter chamado Joana d´Arc de mascote militar.

    Então monsieur Bergeret se refugiava no canto dos alfarrábios.

 

“… pegando de sobre a mesa o tomo 38 da História Geral das Viagens… o docente mergulhou o nariz no livro, entre as páginas 212 e 213 que, havia seis anos, cada vez que ele abria o inevitável alfarrábio, lhe apareciam fatalmente à exclusão de qualquer outra página, como um exemplo da monotonia em que se escoa a vida, como um símbolo da uniformidade dos trabalhos e dos dias universitários e provincianos que precedem o dia da morte e a fermentação do corpo no esquife.  E mais uma vez, como já fizera tantas outras, monsieur Bergeret leu no tomo 38 da História Geral das Viagens as primeiras linhas da página 212:

…uma passagem ao norte. ´A este revés´, diz ele, ´devemos o fato de ter podido visitar de novo as ilhas Sandwich e enriquecer nossa viagem com uma descoberta que, embora a última, parece ser, sob muitos aspectos, a mais importante jamais realizada pelos europeus em toda a extensão do oceano Pacífico´. Os preciosos dados que estas palavras pareciam anunciar infelizmente não se consubstanciaram.”

   E, dessa vez, como das outras, a leitura dessas linhas encheu monsieur Bergeret de tristeza.”

 

“Monsieur de Terramondre, que, presidente de várias academias locais, alimentava preconceitos acadêmicos [acusou] Zola de ter ignominiosamente caluniado os camponeses em La Terre. A essa acusação, monsieur Bergeret saiu de sua tristeza absorta e disse:

__ Atente que os camponeses são dados ao incesto, à embriaguez e ao parricídio, como mostrou Zola. A resistência deles em prestar-se a exames clínicos de modo algum é prova de sua candura. Revela simplesmente a força do preconceito entre seres limitados. Os preconceitos são tanto mais fortes quanto mais simples. O preconceito de que é indecoroso mostrar-se nu permanece poderoso neles. Atenua-se nas pessoas inteligentes e educadas pelo hábito do banho, das duchas e das massagens; também pelo senso estético e pelo gosto das sensações voluptuosas, e cede facilmente a considerações de higiene e de saúde.”

 

“Senhor abade,o senhor vem de resumir com eloqüência que só sairia dos seus lábios as características do regime democrático[1]…E no entanto é ainda o regime que eu prefiro. Nele, todos os laços se afrouxam, o que enfraquece o Estado, mas ele desoprime o indivíduo, proporciona certa facilidade de viver e uma liberdade lamentavelmente destruída pelas tiranias locais. A corrupção, sem dúvida, parece ser maior do que nas monarquias. Isso se deve ao número e à diversidade das pessoas que são levadas ao poder. Mas essa corrupção seria menos patente se o segredo fosse mais bem guardado. A ausência de sigilo e a falta de continuidade tornam qualquer empreendimento impossível à república democrática. Mas, já que os empreendimentos das monarquias, o mais das vezes, têm arruinado os povos, não me aborrece muito viver sob um governo incapaz de desígnios grandiosos (…)  Mas, para dizer a verdade,não dou muita importância à forma do Estado. As mudanças de regime em quase nada alteram a condição dos indivíduos. Nós não dependemos de constituições nem de cartas, mas de instintos e de costumes. De nada serve mudar o nome das necessidades públicas. Só os imbecis e os ambiciosos fazem as revoluções.”

 

“… todas as ações humanas são movidas pela fome ou pelo amor. A fome induziu os bárbaros à matança, impeliu-os às guerras e às invasões. Os povos civilizados são como os cães de caça. Um instinto corrupto os incita a destruir sem proveito nem razão.  O despropósito das guerras modernas chama-se interesse dinástico,  nacionalidade, equilíbrio europeu, honra. Esse último motivo é, talvez, de todos, o mais extravagante, pois não há um povo no mundo que não seja contaminado por todos os crimes e coberto de todas as vergonhas. Não há um só que não haja sofrido todas as humilhações que a fortuna possa infligir a uma miserável manada de criaturas.  Se apesar de tudo subiste alguma honra entre os povos, um estranho meio de defendê-la é fazer a guerra, ou seja, cometer todos os crimes pelos quais um indivíduo se degrada: incêndio, rapina, estupro, morte. E quando às ações movidas pelo amor, essas são, na maior parte, tão violentas, tão furiosas, tão cruéis quanto as ações inspiradas pela fome,o que leva a concluir que o homem é uma besta malfazeja. Resta, no entanto, indagar por que eu me dou conta disso, por que motivo isso me causa horror e indignação. Se não existisse outra coisa além do mal, ele não seria percebido, como a noite não teria nome se o sol jamais se levantasse.”

 

“Monsieur Cassignol calou-se, fitou longamente o castão da bengala com suas pupilas baças e desbotadas, depois pronunciou estas palavras:

__Durante minha longa carreira de magistrado, jamais tive conhecimento de um erro judiciário.

__ Eis aí uma declaração tranqüilizadora—disse monsieur de Terramondre.

__ E que a mim me gela de pavor—murmurou monsieur Bergeret.”


[1] Monsenhor Lantaigne perorara o seguinte : “Mesmo que ela respeitasse a religião e os seus ministros, ainda assim eu detestaria a república… Porque ela é a diversidade. Nisto, sim, ela é essencialmente má… Estamos em Babel…. A diversidade é abominável, o caráter do mal é ser diverso. Esse caráter é manifesto no governo da República que, mais do que qualquer outro, se afasta da unidade. Faltam-lhe, na ausência da unidade, a independência, a estabilidade e a autoridade…. Ainda que, por mal de nossos pecados, ele dure, não possui a permanência. Pois a idéia de permanência implica a de identidade, e a República não é um só dia o que foi na véspera. Sua própria torpeza e seus vícios não são propriedade sua. E o senhor viu que ela não foi desonrada por eles. Vergonhas e escândalos que teriam arruinado o mais poderoso império a recobriram sem deixar-lhe arranhões. Ela não é a descontinuidade, ela é a diversidade, ela é o mal (…)  o povo descambou na República; o que quer dizer que repudiou sua herança, que renunciou aos seus direitos e aos seus deveres, para governar-se á sua revelia e viver a seu  bel-prazer nessa liberdade que Deus reprime e que subverte Suas imagens temporais: a ordem e a lei. Desde então, o mal reinou e publicou seus editos. A igreja,exposta a incessantes vexames, foi colocada com perfídia entre uma abdicação impossível e uma revolta culpável.”

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