MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

20/08/2013

Aos 50: a singularidade e maestria da ficção de João Anzanello Carrascoza

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(uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 20 de agosto de 2013)

Em Aquela Água Toda, coletânea que, com justiça,  ganhou o prêmio APCA 2012 (outorgado pela associação de críticos paulistas), encontramos o curto e maravilhoso Grandes Feitos, no qual é narrado o despertar, num sábado, de uma família (um casal e seu filho). Nada acontece de especial (“foram fazer essas coisas que todos fazemos enquanto estamos vivos”), mas tudo parece ganhar o cunho do recém-criado: “Era a mesma cena, cotidiana, mas a mulher a mirava com olhos demorados, e assim as coisas ganhavam uma nova aura—ou a aura podia agora ser vista”.

Aí reside singularidade de João Anzanello Carrascoza. Se Baudelaire era o lírico no auge do capitalismo, como queria Walter Benjamin, o autor do recém-lançado Aos 7 e aos 40 (seu primeiro romance “adulto”) é o lírico no cerne do capitalismo pós-industrial. Nas duas sequências narrativas alternadas do novo livro (em primeira pessoa, aos 7; numa terceira pessoa cuja dicção lembra a dos poemas modernistas de teor fortemente narrativo, aos 40; de fato, se há um autor com o qual se pode fazer uma aproximação é com Manuel Bandeira[1]), pouco acontece que chame a atenção: o menino cresce, tem uma paixonite pela prima visitante, deseja um passarinho que cante como os do vizinho, adora o pai, treina salto em altura, se encanta e se desilude com a leitura do mundo e das pessoas; o homem feito, na metrópole, vive para a família (a mulher e o filho), mas algo desanda no seu casamento, eles se separam, e os momentos de encantamento do seu cotidiano estão nos fins de semana que passa com o menino, com o qual resolve viajar para rever as paisagens interioranas da sua própria infância…

Como se vê, nada de mais corriqueiro (e como amiúde no universo carrascoziano, o enfoque fixa-se nas relações primordiais, nos laços elementares de parentesco; os personagens frequentemente nem são nomeados). E, no entanto, verifica-se o “milagre que o universo produzia pra acontecer, entre um homem e seu filho, uns atos banais”.

Quando se fala em lirismo, pode vir à mente algo sentimental, no mau sentido, ou um embelezamento da banalidade da vida, dos seus aspectos contingentes, além de uma romantização excessiva do olhar da infância sobre uma problemática “realidade” concreta e inescapável[2] (até porque Carrascoza é exímio autor infanto-juvenil também, e essas duas facetas da sua produção se espelham com rara felicidade). Tal equívoco acontece em um livro muito badalado e premiado (nem por isso menos discutível), Vermelho Amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós, que evoca uma formação similar (embora com conflitos e rupturas familiares mais dramáticos e evidentes). Ali tudo era tão “bonito”, tão “poético” (até o sofrimento e a opressão) que beirava o kitsch, o falso. Um pouco como acontece também com certa feição da obra de Manoel de Barros, de nefasta influência.

Não que Carrascoza seja imune a esse perigo (como se verifica em algumas escorregadas nos contos de Dias Raros, de 2004, por exemplo), entretanto na sua já extensa carreira ele me parece um caso único, quase espantoso, de um lírico na prosa, que a mantém afiada e cortante, equilibrando-se  habilmente na corda bamba de um fortíssimo apego ao registro afetivo, ao amor entre as pessoas de uma família, que praticamente desaparecera do território da ficção.

Creio que os momentos mais fortes de Aos 7 e aos 40 estão na faixa dos 40. Há capítulos extraordinários, como aquele na rodoviária, quando marido e esposa percebem que chegaram ao fim do casamento, ou aquele em que o pai visita de forma inesperada o antigo apartamento, ou ainda aquele em que o filho passa o fim de semana com o pai, após uma ausência mais longa.

Os capítulos da faixa dos 7 se mantém nos trilhos das obras anteriores[3] (tanto que em Aquela Água Toda ficamos conhecendo a menina que ocupará o lugar no coração do menino do romance, após a gastura toda com a partida da prima, no conto Cristina). Estará enganado, no entanto, quem achar que eles repetem uma fórmula. O romance, a meu ver, pode ser lido como um todo independente e muito coeso, e pode ser visto, por paradoxal que pareça, da maneira como foi trabalhado, com capítulos quase móbiles, como parte de uma sequência em andamento—através de vários títulos—de “moments of being”, “momentos do ser”, na acepção de Virginia Woolf, peças individualmente memoráveis e que ganham ainda maior força fazendo parte de um conjunto, graças à fidelidade obsessiva de um autor reiterativo por excelência, exposto de forma nua e crua num inspirado romance para crianças, O homem que lia as pessoas (2007), que trata, claro, da relação de um filho com seu pai[4].

Ali, o pai diz: “Você tem boa memória! O que nem sempre é vantagem…” O filho pergunta por quê. Resposta: “Porque depois é difícil esquecer as coisas”. O agora cinquentão (nasceu em 1962) João Anzanello Carrascoza se dispôs a não esquecer as coisas. E ao forjar seu jeito especialíssimo de evocá-las e recriá-las, ele cria o seguinte efeito, vazado numa fórmula lapidar: “Contar histórias é um jeito de nos trazermos para as pessoas”.

Nunca ele “se” trouxe tanto, como em Aos 7 e aos 40. De qualquer forma, sempre será bem-vindo, com seus grandes feitos a partir de quase nada.

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TRECHOS SELECIONADOS

O pai se sentou perto do tio, quase a lhe estorvar com o garfo e a faca, informando assim, com seu corpo, o quanto queria estar junto do irmão; e o tio, à cabeceira da mesa aceitou aquela sólida proximidade e começou a comer vagarosamente. Pra minha surpresa, eles se puseram a falar dos negócios  do pai, Começo do ano é assim, ninguém tem dinheiro, da vida que se vivia naquela cidade, com suas ruas sujas de terra vermelha e bagaço de cana. É a safra, não tem jeito, do calor que vinha fazendo, Parece que vai chover, É bom mesmo, pra refrescar um pouco, e aí o tio brincou comigo e perguntou se eu tinha namorada, eu pensei na prima Teresa, mas respondi, Não, com a cabeça, e ele, Então arranja uma logo, e riu e o pai veio em meu socorro, A hora dele vai chegar, e o tio, E o futebol, você ainda joga no gol?, e eu, Não, agora eu treino salto em altura, e pra mim era um mistério que falassem o que falavam à mesa—o que mais podiam falar?–, a vida era o inesperado, o que vinha vindo fora (e acima da minha percepção). Mas logo chegaria a hora alta, e eu temia ser incapaz de ultrapassá-la, como o sarrafo no salto em altura…  [aos 7]

Encontrou o menino comendo na cozinha, compenetrado.

Oi, filho,

Oi, pai.

A mulher disse,

Senta,

e começou a lavar a louça,

enquanto os dois se abraçavam.

Vieram as perguntas, diárias, que ele fazia ao menino, pelo telefone,

a primeira,

Você está bem?,

e a segunda,

Já tomou banho?,

e, ali, nem precisavam ser feitas: no rosto do filho se

via que ele estava bem; seu corpo cheirando a

sabonete e seus cabelos úmidos revelavam que

saíra há pouco do banho.

Perguntou-lhe sobre a escola, e,

à medida que o menino respondia,

contando-lhe os gols que fizera nas aulas de educação física,

ele sentiu,

sob a camada grossa de seu próprio silêncio,

uma inesperada alegria,

como se, até então,

vivesse na pré-história desse sentimento,

e, agora, experimentasse a sua estreia.

Se o menino era um rio, ele, pai, colocava só a ponta

dos pés em suas águas, e queria, de novo o mergulho,

queria se resgatar nas suas profundezas.

E já que vivia à sua beira, era melhor se entregar ao

nada daqueles rápidos encontros,

os mínimos episódios cotidianos (e aparentemente

esquecíveis),

como fazer juntos a refeição, ou assistir a que o outro

a fizesse,

como agora.

Continuaram a conversar, coisas banais para o

mundo, mas não para os dois (nem para a mãe que

os ouvia), e o homem, curioso para saber mais do

menino, ia dispondo na mesa como travessas de

comida, outras perguntas… [aos 40]

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[1] Embora Bandeira seja a aproximação mais consequente que me ocorre, na ficção “universal”, por assim dizer, há o caso de Hermann Hesse, cuja obra em prosa é impregnada de um lirismo muito particular e bem mais instigante que o da sua poesia propriamente dita, bem mais convencional.

[2] Veja-se um belo trecho de Mundo justo (de Aquela Água Toda): “… e ele desgrudado desse nosso mundo, mundo que o pai dizia ser sólido igual barra de ferro, mas eu discordava dele, eu achava que o real não se pegava, tinha seus contornos definidos, a igreja ali na frente igreja, o canavial lá adiante canavial,  a pedra na mão pedra, mas às vezes, eu sentia que o mundo era miragem, como quando, de relance, eu mirava a cesta e atirava a bola, sabendo que não ia acertar, que o aro de metal estava nos meus olhos e não lá no alto, pregada na tabela, eu achava que a gente, todas as pessoas no nosso tempo maior, viam o mundo por uma neblina de sol, as coisas sem ser o que eram, de verdade, pra nós.”

Em Paz (do mesmo volume): “O dia não era mais o mesmo dia. O mundo, de repente, de outro jeito. A mãe recolheu do varal uma calça do pai, uma camisa, outra calça—era o simples ato de pressionar o prendedor e puxar a roupa como  noutras tardes, mas dessa vez ele podia perceber uma tensão nos dedos dela. Aprendera a captar essas mudanças, só não sabia como agir depois que ocorriam.

    Então, sem poder alterar a ordem das coisas, ele e a mãe ficaram no quintal, cada um, ainda que próximo ao outro, a zelar pela própria existência—e sendo ele um menino, só lhe restava voltar ao seu passatempo, mesmo sentindo que tudo, agora, era mais forte: o sol acima de sua cabeça; o silêncio, aéreo, ao redor.”

[3] Atente-se para o fato de que certos episódios são versões de textos anteriores. É o caso da cena em que o menino testemunhará uma humilhação sofrida pelo pai, num armazém de secos e molhados, já contada em Antes do almoço, último conto de O Vaso Azul (1998).

[4]“__ E o que tem a ver com essa história de ler as pessoas?, perguntei. Não tem palavra nenhuma escrita nelas!

__ Aí é que você se engana. As palavras estão na testa, nos olhos, nas mãos, no corpo inteiro da pessoa, disse meu pai.

__ Não vejo onde!, falei.

__ Mas elas estão lá, garantiu. Basta olhar direito pra você ver.

__ Acho que a mãe tem razão, eu disse. É maluquice sua.

__ Vou explicar de outra maneira. O olhar de uma pessoa, o jeito de pentear os cabelos, de andar, cada gesto dela, enfim, é uma letra. Você junta essas letras e forma palavras. Depois junta as palavras e terá a frase escrita na pessoa naquele momento.

__Ficou mais confuso ainda, falei.

__ Confuso nada!, garantiu ele. Está escrito na pessoa, é só ler.

__ Mas não está escrito com as letras a, b, c , d, e. Só sei ler com elas. É assim que estou aprendendo.

__ Pois é a mesma coisa. As letras estão penduradas na maneira de ser das pessoas.

    Meu pai me encarou por um instante.

__ Li você agora. E sei que não está entendendo.

__ Adivinhão, eu disse. É só olhar para a minha cara.

__ Está vendo?, continuou ele, animado. Sabe o que está escrito nela agora?

__ O quê?

__ `Me dá um exemplo.`

__ É, com um exemplo seria mais fácil entender, falei, disfarçando minha surpresa. Eu ia mesmo pedir a ele um exemplo.

__ Acabo de dar um, lendo você, mas vou dar outro. Li sua mãe há pouco, e sabge o que estava escrito nela?

__ Não!

__ Era um conselho pra você!

__ Mesmo?

__ O que você acha que era?, ele perguntou.

__ ´Não acredite no que seu pai vai dizer!´, arrisquei.

__Não, justamente o contrário, ele disse. Estava escrito: ´Pode acreditar , é verdade!´

__ Duvido. A mãe saiu brava da sala.

__Só pra confundir. Você não sabe ainda ler as pessoas. Com o tempo, vai aprender…”

   Um dos bonitos relatos de Aquela Água Toda, Vogal, retoma o tema da leitura (do mundo, das pessoas) numa variação engenhosa:

“Aí ela disse que o mundo era como o alfabeto, feito de vogais e consoantes. As vogais eram sons que nasciam quando o ar saía livremente pela boca. As consoantes não: os lábios, os dentes, a língua e o palato criam obstáculos à passagem do ar quando a gente as pronunciava.

   Eu era uma vogal e tentara passar livremente pelo portão, mas as meninas, consoantes, haviam me impedido. E se existissem apenas vogais, ou só consoantes, o mundo teria de ser escrito de outra maneira; o bonito era que podíamos fazer inúmeras combinações.

   Conforme tia Alda falava, comecei a pensar nas pessoas que eu conhecia, a comparar uma das garotas balofas com a letra B, o inspetor alto e magro que me socorrera com a letra I, a minha rechonchuda prima era a letra O, e, assim, fui me alegrando a cada vez que encontrava no alfabeto uma vogal ou consoante que lembrava algum conhecido.”

  Quanto à maciça presença da relação pai-filho na obra carrascoziana, não é ocioso lembrar que o conto de abertura (Caçador de Vidro) do seu primeiro livro “adulto”, Hotel Solidão (1994)  é sobre um percurso pela Rodovia dos Bandeirantes, num Voyage, de um pai com seu filho (“Bom que se diga logo, o filho ainda é menino, vai sair da infância em breve, nestes tempos criança de sete anos já se atordoa com as exigências do caminho, a vida já arde no estômago”).

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10-11-23 - João Carrascoza na Biblioteca Municipal (12)

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