MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

30/07/2011

O AUGE DOS MANDARINS- Os intelectuais e o século XX

I

Em 1935, o grande escritor Roger Martin du Gard anotava em seu diário: “O caso Dreyfus é um fenômeno eterno”. Ele se referia à cisão recorrente entre a intelectualidade francesa desde o célebre julgamento do militar judeu, acusado de traição, que sacudiu a França na passagem do século XIX para o seguinte, e que é o ponto de partida de O SÉCULO DOS INTELECTUAIS (”Le siècle des intellectuels”, França-1999, traduzido por Eloá Jacobina), fascinante ensaio histórico de Michel /Winock.

Winock divide o século em três fases intelectuais, quando então um mandarim (para utilizar a mesma expressão do título do romance de Simone de Beauvoir) ocupa posição de proa: temos os anos Barrès, os anos Gide e os anos Sartre.

Os anos Barrès começam justamente a propósito do caso Dreyfus. Este sofrera um processo de execração pública que culminou na sua condenação sumária e injusta (provas haviam sido forjadas). Emile Zola, autor de poderosos romances naturalistas, escreve o memorável Eu acuso, no qual extravasa toda a sua indignação na primeira página do jornal por esse crime do Estado e da opinião pública. É um momento incomparável [1] não só da reivindicação ética quanto da utilização humana da palavra escrita. É um momento em que escrever se transforma em ação efetiva.

Através de O SÉCULO DOS INTELECTUAIS, mesmo o leitor dos nossos dias, tão distante dos eventos, pode sentir a convulsão social causada pelo posicionamento assumido por Zola (que foi julgado, correu o risco de ser linchado pela multidão e teve de se exilar na Inglaterra por algum tempo).

Durante o processo de revisão do julgamento de Dreyfus são cunhadas (ou pelo menos começam a ser amplamente empregadas) duas palavras, com grande impacto na época, e que depois se banalizaram: intelectuais e nacionalismo. Elas marcam duas atitudes antípodas a respeito do ato de escrever e de pensar: por um lado, o universalismo, a idéia democrática de igualdade, um amplo conceito de humanidade (os intelectuais);  pelo outro, o apego ao particular, o nacional visto como absoluto, como uma essência, mesmo que racista e anti-democrático (Barrès dizia que infelizmente não havia raça  francesa, mas que se devia lutar ferrenhamente pela pátria francesa, contra os elementos cancerosos que se alastravam no tecido social: judeus, franco-maçons e protestantes, por exemplo). Para os nacionalistas, e Maurice Barrès será o de maior peso e influência, intelectual= traidor.

Ao delinear minuciosamente o posicionamento ideológico dos principais escritores da época (além de Zola e Barrès, temos Anatole France, Péguy, Maurras e um vasto etc) começam os problemas de O SÉCULO DOS INTELECTUAIS, apesar da sua enorme importância.  O livro tenta uma impossível síntese das principais correntes da época, opondo os dreyfusards (os defensores do injustiçado) e os anti-dreyfusards; como, porém, todos escreveram muito e muitos são escritores de alto quilate, o leitor se vê exposto a uma babel de tomadas de posição extremamente articuladas e até persuasivas, de trajetórias as mais diversas, num ritmo atordoante e emburrecedor. São republicanos, monarquistas, judeus, anti-semitas, socialistas, católicos, protestantes, provincianos, mundanos de salões parisienses, todos escrevendo, todos fundando revistas para defender suas idéias, todos com diários pessoais, onde registram a evolução dos acontecimentos e sua própria evolução…

Enfim, um cipoal que o autor tentou aclarar etiquetando a época como anos Barrès. Serão mesmo? Maurice Barrès, embora esquecido atualmente, é realmente um escritor essencial para a compreensão daquele período (Marguerite Yourcenar, no livro de entrevistas De olhos abertos, afirma que ele era o homem da época). Contribuiu muito (infelizmente) para o desenvolvimento da xenofobia na França, com suas ladainhas sobre a tradição, o culto à terra, ao sangue e aos mortos, que fazem de cada um de nós um ser enraizado ao nacional (e é por isso que os intelectuais déracinés, desenraizados, são nocivos, do seu ponto de vista).

Minha questão é: não poderiam ser, com mais pertinência, “anos Zola”, já que foi ele quem colocou em questão a sociedade francesa e obrigou cada escritor a assumir uma postura diante do caso Dreyfus e da própria visão de mundo, dando origem ao “século dos intelectuais”? E não poderiam ser igualmente “anos Péguy” ou “anos Maurras”, já que ambos tiveram uma influência ainda mais duradoura, estendendo-se até a Segunda Grande Guerra, em plenos anos Gide?  Ou ainda “anos /France”, uma vez que, no campo oposto ao de Barrès, Anatole France também foi o homem da época?

Quando se diz anos Sartre temos qualquer coisa de indiscutível. Sendo-se aliado ou inimigo do autor de O ser e o nada, toda uma época orbitou à sua volta [2]. Ao escolher Barrès para o mesmo papel titular, ainda mais por ele representar apenas um lado da dicotomia analisada pelo livro, Winock revelou-se um tanto arbitrário, e o panorama traçado pelo texto confirma essa impressão.

Mas isso é um detalhe contingente com relação a um livro que mostra a importância (mesmo com todos os equívocos, frivolidades e vaidades pessoais) do debate de idéias numa sociedade. Diante da apatia assustadora de hoje, onde passividade e superficialidade são palavras de ordem, O SÉCULO DOS INTELECTUAIS é mais do que um panorama histórico: é quase um alerta.

(resenha publicada em “A Tribuna/’ de Santos em 16 de janeiro de 2001)

 

II

“Os pensadores antigos refletiam muito mais do que liam. Por isso se ligavam tão estreitamente ao concreto… Nós lemos mais do que refletimos. Não temos filosofias, temos comentários… A tal ponto que um livro de filosofia que surgisse hoje sem se apoiar em alguma autoridade, citação, comentário etc não seria levado a sério.”

            (Albert Camus, Carnets)

Segundo a visão de Michel Winock em O SÉCULO DOS INTELECTUAIS uma figura-chave forneceu o perfil de um determinado período do século (Maurice Barrès, André Gide, Jean-Paul Sartre). Antes da Guerra de 1914, Barrès defendia os princípios do nacionalismo e do apego às tradições, contra o universalismo dos intelectuais que se posicionaram a favor do acusado no Caso Dreyfus.

Cada vez mais, depois de 1914, e indo num crescendo que se tornará imperativo durante a Guerra Fria, há o desejo do intelectual de participar ativamente, uma necessidade de ação (necessidade que seria consagrada com a expressão célebre, engajamento). Como nenhuma ação (assim como nenhum reflexão) é isenta de ideologia, é claro que essa necessidade passou pela peneira das opções partidárias, principalmente pelo namoro com o comunismo, que em boa parte do século XX seduziu os intelectuais como a Alternativa Suprema, tentando mesmo até uma parcela do pensamento católico (O SÉCULO DOS INTELECTUAIS rastreia amplamente a trajetória de dois grandes escritores católicos, Georges Bernanos e François Mauriac).

É a necessidade de se ligar ao concreto, de sair do mundo de referências e autoridades intelectuais. Winock sintetiza: “Uma dupla tentação domina o homem de pensamento. Permanecer no mundo da pureza ideal—que é o da linguagem—mas com risco de se isolar e perder o contato com o mundo; ou aceitar demasiadamente os imperativos do universo político, escolher seu  lado, tornar-se partidário…”

     André Gide, autor de obras-primas (Os subterrâneos do /Vaticano, Sinfonia Pastoral, Os falsos moedeiros) e de obras libertárias—no sentido da liberdade pessoal (Os frutos da terra, Corydon, O imoralista)—sofreu essa necessidade de participação política, primeiro denunciando o sistema colonialista francês, depois viajando para a URSS, para conhecer de perto a “pátria do socialismo”. É breve seu namoro com o Partido Comunista, mas emblemático. Pela sua autoridade moral e intelectual, ele expressa o zeitgeist (o espírito da época, a mentalidade): participar, combater, estar presente, sem isenções. É por isso que esses são os anos Gide, alguém que pôde conciliar um ideal literário muito alto e a necessidade combativa. Anos em que Gide será o mandarim da intelectualidade francesa e Malraux será o herói, combatendo diretamente nas guerras do momento (ele participou da Guerra Civil Espanhola) e trazendo a realidade do momento para uma literatura e uma filosofia saturadas pelas convenções.

Após a Segunda Guerra, Sartre radicalizará ainda mais o compromisso do intelectual com a participação política e sua adesão ao Partido Comunista causará uma ruptura com vários amigos, entre eles Camus. É importante ressaltar uma diferença: apesar das críticas de Gide, a URSS manteve uma espécie de prestígio romântico entre os intelectuais. A adesão de Sartre acontece no período da grande desilusão, quando as monstruosidades do stalinismo vêm à tona.

Para o autor de A Idade da Razão, entretanto, não havia mais os pudores de um Gide: danem-se os absolutos, o ideal literário, a ética burguesa. Para se construir a liberdade e servir à causa do povo era preciso ter as “mãos sujas”.

E, então, na França dos anos 50, acontece um evento com uma força talvez ainda mais polarizadora do que o Caso Dreyfus: a Guerra da Argélia, que transforma os franceses em inimigos uns dos outros. É num momento desses que Simone de Beauvoir vai escrever que odeia seus compatriotas, cúmplices de assassinatos e tortura na colônia.

Após a Argélia, porém, e derivado das revoluções na mídia e dos movimentos estudantis, e principalmente da falência das grandes ideologias, surge um novo fenômeno: o “intelectual universal”, do qual Sartre foi o representante mais glorioso, à esquerda, e Raymond Aron o mais glorioso, à direita, começa a ceder espaço ao “intelectual pontual”, aquele cujo campo de ação é bem mais restrito, abarcando problemas mais específicos: defesa do meio ambiente, defesa das minorias, etc. Outro tipo diluidor é o “intelectual pop”, aquele que se define diretamente pelos meios de comunicação de massa, e do qual o maior exemplo, na França, é o espertíssimo Bernard-Henri Lévy, que, coincidentemente, tem um ensaio chamado Elogio dos intelectuais, cuja profundidade de piscina infantil, parece mais enterrar do que elogiar os intelectuais.

Como se vê, mesmo dois artigos só lograram ser, no máximo, um aperitivo para os temas e caminhos de um empreendimento vigoroso e absorvente. O SÉCULO DOS INTELECTUAIS é um dos melhores livros dos últimos anos.

(resenha publicada em “A Tribuna” de Santos, em 30 de janeiro de 2001)


[1] Estranhamente menosprezado por Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo, onde ela destila um visível desdém  pela figura de Zola.

[2] Eu, pessoalmente, ainda peguei a irradiação desses anos Sartre e nunca serei o suficientemente grato por  essa dádiva.

21/10/2010

HUIS CLOS: a condição humana em cena

 

I

( resenha publicada em 07 de maio de 2005)

Com relação a Jean-Paul Sartre, num certo sentido o maior escritor do século XX, pode-se em 2005 escolher entre duas datas-marcos: o centenário do seu nascimento ou o primeiro quarto de século da sua morte. Em meio aos muitos textos que ele nos deixou, em diversas áreas e gêneros (filosofia, ficção, teatro, cinema, crítica, teoria literária, política, memórias) três são particularmente famosos, formando a famosa trinca “existencialista”: na ficção, A náusea (1938); na filosofia, O ser e o nada (1943); no teatro, Huis clos-Entre quatro paredes (encenada pela primeira vez em 1944), que acabou de receber nova edição pela Civilização Brasileira (em tradução de Alcíone Araújo & Pedro Hussak).Entre quatro paredes é ambientada no inferno. O cenário é um falso e cafona salão estilo Segundo Império. Nele, terão de conviver os três protagonistas, cada um deles desconhecido para os outros (a palavra outro é essencial aqui): o jornalista Garcín, a funcionária pública Inês e a burguesa Estelle (seus crimes, respectivamente: deserção, crime passional, infanticídio).

Sartre foi genial ao imaginar dessa forma o inferno porque a danação é a convivência perpétua. Se estamos no inferno ninguém pode alegar que é inocente, portanto as máscaras que usamos na vida social são inúteis. Poderemos até tentar mantê-las, só que ninguém nos levará a sério. Estamos no inferno, a situação já é o próprio currículo de cada um.

Assim, conviver cada hora, eternamente, com pessoas em cujo olhar lemos um julgamento, torna-se a condenação extrema. Porque o ser humano sempre julga o próximo, qualquer que seja sua escala de valores, e o inferno é ser julgado pelo olhar e pela existência do outro, ad infinitum.

E é isso que o ato único de Entre quatro paredes proporciona: através da guerra de nervos que se estabelece a partir do momento em que Inês se interessa por Estelle, tentando conseguir uma companheira em sua danação, e no entanto Estelle insiste em seduzir Garcín, o qual está comprometido em resgatar sua imagem diante dessas duas mulheres (ah, a necessidade de heroísmo do homem) indiferentes ao seu dilema.

Entre quatro paredes é um daqueles textos despojados, incisivos, em que parece que tudo foi dito de uma vez por todas.

 

II

(resenha publicada em 14 de maio de 2005)

Entre quatro paredes é a peça mais famosa de Jean-Paul Sartre (1905-1980). Ele escrevera antes, para o teatro, além de uma experiência amadora num campo de prisioneiros, apenas As moscas, baseando-se na tragédia de Orestes e Electra, para driblar a censura da Ocupação nazista na França, e incitar o público à resistência (“Eis o que me parece a primeira coisa a ser feita, tentar aos poucos convencer a maioria das pessoas a participar, e assim organizar um movimento capaz de enxotar os alemães/’),

Portanto, desde o início o teatro sartriano inscreve-se sob o signo da política, propondo no palco situações nas quais a liberdade individual é colocada em xeque em relação ao engajamento.

Seus protagonistas sempre tentam inutilmente manter-se “donos” dos seus atos, os quais escapam a eles. É o caso do grupo de resistentes torturados em Mortos sem sepultura (talvez a mais poderosa de todas as obras teatrais que ele escreveu), de 1946, ou de Hugo, assassino relutante de As mãos sujas, de 1948. Esta última é marcada por uma tal complexidade de situações, personagens e dilemas éticos (como também acontece em O diabo e o bom deus e Os seqüestrados de Altona,para citar outras duas peças célebres de Sartre), que parece estarmos lendo um grande romance, mal dá para imaginar como fica no palco.

Dá para ver, então, que o dilema de Garcín, um dos protagonistas da límpida Huis clos é essencial para o grande escritor francês, já que ele o amplificou de tal forma. Garcín está comprometido com a idéia de se redimir diante dos olhos de suas companheiras de inferno da condição de covarde, de desertor. Quer resgatar sua vida de um ato que a rouba dele (assim como ter matado Hoederer por ciúme—ao surpreendê-lo beijando sua esposa—rouba o significado político do crime de Hugo, em As mãos sujas).

Inês espicaça Garcín, despeitada por ser rejeitada por Estelle, que tenta seduzi-lo a todo custo. Mas é Estelle quem diz a frase fatal: “Ainda que você fosse um covarde, eu ia gostar de você, Não é o bastante?” (é preciso lembrar que a primeira montagem ocorreu numa Paris ainda ocupada).

A angústia da inautenticidade , de ter de pagar o preço de ser julgado pela eternidade, nas palavras do próprio Garcín: “Eu não estava nem aí pro dinheiro, pro amor. Eu queria ser um homem. Um durão. Apostei tudo num só cavalo. Será que é possível ser um covarde se a gente escolheu os caminhos mais perigosos? Será que se pode julgar uma vida inteira por um único ato?”

Lembrado por Inês—pior que um carrasco—do princípio da realidade (“Prova que aquilo não era um sonho. Somente os atos decidem a respeito do que a gente quis”), ele tem a fala mais patética da peça: “Eu morri cedo demais. Não me deram tempo para executar os meus atos”. E Inês dá a chave da condição humana: “A gente sempre morre cedo demais—ou tarde demais; E, no entanto, a vida está lá, terminada, a linha está traçada, agora é fazer a soma. Você não tem nada além da sua vida”.

As peças de Sartre eram muito apreciadas na época da ditadura militar. Parecia que tinham ficado “datadas”. Agora que a Esquerda atingiu o poder e que o velho dilema das “mãos sujas” volta à tona, elas se revelam mais atuais e vivas do que nunca. È sempre assim com as obras maiores.

 

A luz e a sombra de Sartre

(resenha publicada em 18 de junho de 2005)

    Para comentar o centenário do nascimento de Jean-Paul Sartre (que ocorrerá no dia 21 deste mês) fica-se na dúvida: que obra escolher ? São tantas, e  tantas são apaixonantes, até as obras de filosofia como O ser e o nada… E Sartre ainda continua a ser publicado, diga-se o que se quiser sobre o declínio de sua influência,  os livros mais inesperados ganham contínuas reedições, como Que é a literatura ?  Para homenageá-lo, seria preciso falar de ambos, do teatro, de  A náusea, dos contos de O muro,  da magnífica trilogia, Os caminhos da liberdade, da qual tantos não gostam, de As palavras, de  Questão de método, de textos das  diversas Situações, do belíssimo roteiro-que-não-foi-filmado, Freud, além da alma, do livro sobre Jean Genet, de A esperança agora

    Caminho mais fácil: comentar um livro a respeito dele e que justamente tem a ambição de fazer frente a todas as vertentes sartreanas: O século de Sartre (Nova Fronteira), publicado por Bernard-Henri Lévy na virada do milênio. Lévy vai tão fundo  que acaba por nos dar a impressão de fazer a Sartre o que este fez a Genet e tantos outros, ao estudar suas biografias e obras, precipitando seu eleito “no buraco negro do seu próprio pensamento. É a desventura de Genet, esmagado pela homenagem que ele lhe presta, canibalizado, reduzido a nada e quase parando de escrever, ou seja, de existir, após a publicação de São Genet, esse livro-mausoléu onde le meio que o enterrou vivo… longe de ser um acidente… esse beijo da morte é um dos modos normais de sua relação com os artistas que admira”.

      O nó da questão:  Sartre escreveu São Genet, canibalizou seu objeto de estudo, mas era Sartre, e um escritor muito mais importante do que seu colega. O que era exatamente Bernard-Henri Lévy antes de O século de Sartre ? O mais famoso e vendido dos chamados “novos filósofos” que apareceram na década de 70. Qual foi sua contribuição como pensador? Segundo Michel Winock, no fabuloso O século dos intelectuais,  mereceria um estudo especial a desproporção evidente entre a importância da sua obra e a freqüência com que aparece na tevê  (deve-se lembrar que o próprio Lévy tem um livrinho, Elogio dos intelectuais). No entanto, até que ele revelou certo talento como romancista em O diabo na cabeça e Os últimos dias de Charles Baudelaire.

    Com nó ou sem nó: O século de Sartre é a mais incrível surpresa dos últimos anos. Todos os pontos importantes são esmiuçados, os textos são percorridos com arrepiante minúcia (ainda que a análise peque, às vezes, por uma certa grandiloqüência). Qualquer leitura é sempre redutora, qualquer tipo de  citação poda, mutila, cria um contorno fácil demais ? Nada disso, a sensação é de que o leque Sartre abre-se cada vez, e nunca se esgota. Ele nos resgata a eminência do mais famoso intelectual do século XX, e como ela é constituída por suas próprias qualidades, pelo clima da época e por equívocos, mostra as influências omitidas, tanto literárias (Gide, por exemplo, enquanto ele proclamava Joyce, Kafka e John dos Passos), quanto filosóficas (Bergson, enquanto ele proclamava Husserl e o nazista Heidegger), como ele  pirateava pensamentos e pastichava estilos (moderno, portanto). Acaba com a velha baboseira da filosofia enfraquecer a força do romance sartreano (e finalmente alguém faz justiça a Caminhos da liberdade enquanto obra-prima da ficção), o que não o impede de ser injusto com o teatro praticado por ele (apesar de fazer uma magnífica leitura de Bariona, a primeira peça, ainda amadora). 

    Esmiuça o anti-totalitarismo radical do primeiro Sartre (cujas balizas principais são A náusea e  O ser e o nada, mas também aproveita de forma magistral vários textos  circunstanciais) para contrapô-lo ao segundo Sartre que se colocou a serviço do stalinismo (numa fase em que os intelectuais  já saltavam fora do barco) e, posteriormente, do maoísmo, e que passará a renegar sua obra até chegar ao ponto de condenar radicalmente o ato de escrever como uma doença adquirida na infância, uma quimera que destruiu sua vida, por influência do avô, em As palavras. Tudo pela causa do povo, de uma humanidade futura, ele, que afirmara que  “a existência precede a essência”  e que, por isso, jamais poderia acreditar numa abstração desse tipo.

    Nesses descaminhos da liberdade, a última surpresa do velho pensador, já cego, meio que desacreditado até por sua  “família”, ou seja, o grupo de amigos-discípulos liderados por Simone de Beauvoir (e Lévy nos faz repensar o até agora insuspeito relato do “declínio” de Sartre em Cerimônia do Adeus): sob a influência de um homônimo do autor de O século de Sartre, o ex-maoísta radical, o judeu-egípcio Benny Lévy (conhecido como Pierre Victor), a inclinação para o pensamento judaico. Mas a morte chegou antes de se verificar a extensão da nova mudança de rota, aquela anunciada de modo tão simples e comovente quando Benny Lévy pergunta: “Recomeça-se tudo? Recomeça-se aos 75 anos?” “É claro”.

27/12/2009

Em relação ao século XX: 100, 75, 50, 25 anos de obras e autores

[Juan Carlos Onetti]

{Eugene Ionesco}

[Norberto Bobbio]

[Selma Lagerlöf]

100 anos- Em 2009, a escritora alemã Herta Müller ganhou o Nobel. Exatamente cem anos atrás, a sueca Selma Lagerlöf (1858-1940) tornava-se a primeira mulher a receber o prêmio. Não conheço muito bem sua obra,  só li algumas histórias de De saga em saga, uma coletânea que aparece numa coleção dos premiados com o Nobel, porém há um ensaio excelente de Marguerite Yourcenar sobre ela em Notas à margem do tempo, e que nos faz vislumbrar um universo fascinante.

    No mesmo ano em que a autora de A saga de Gösta Berlings (seu livro mais conhecido) se tornava a pioneira de uma lista ainda muito pequena, nascia na Romênia natal de Herta Müller um dramaturgo originalíssimo, que faria parte do chamado “teatro do absurdo”: Eugene Ionesco, de A cantora careca, Os rinocerontes; A lição; e, no Uruguai, um dos prosadores que mais mereceriam o Nobel no século XX: Juan Carlos Onetti, com obras do calibre de A vida breve, O estaleiro & Junta-Cadáveres, e que forma, com o argentino Jorge Luis Borges e o mexicano Juan Rulfo a santíssima trindade da ficção hispano-americana.

      Também em 1909, nascia o grande pensador italiano Norberto Bobbio, autor dos ensaios maravilhosos reunidos em Nem com Marx, nem contra Marx. E na Letônia nascia o luminoso Isaiah Berlin (que faria carreira na Inglaterra), o autor de Pensadores russos, um pensador que gostava mais de escrever ensaios do que preparar “livros”.  E naquele ano, Lima Barreto lançava seu libelo anti-racista que também, e principalmente, é um poderoso romance, Recordações do escrivão Isaías Caminha.

75 anos- De 1934, gostaria de destacar dois romances essenciais: o maior livro de Graciliano Ramos, São Bernardo (ser o melhor livro de um escritor como Graciliano é um fato por si só notável; para mim, aliás, os maiores romances brasileiros do século passado são Grande sertão: veredas; A maçã no escuro; São Bernardo  & Triste fim de Policarpo Quaresma); e o terrível e avassalador Morte a crédito, de Louis-Ferdinand Céline (que talvez seja até maior do que sua obra-prima anterior, Viagem ao fim da noite). Vidas secas e cheias de angústia no Nordeste e na França. A vida lembrada, cá e lá, como memórias do cárcere

[raymond chandler]

50 anos- É difícil escolher o acontecimento literário supremo de 1959, ano em que morria o grande Raymond Chandler, pois nesse ano iniciavam suas carreiras gloriosas nomes como Günter Grass, com O tambor de lata, certamente um dos maiores romances já escritos; os outros não começaram já nesse patamar: Philip Roth (Adeus, Columbus), Vargas Llosa (Os chefes) e Dalton Trevisan (Novelas nada exemplares). O único título comparável em magnitude ao de Grass talvez seja O almoço nu, que revelou o universo muito peculiar de William Burroughs, mas cuja legibilidade maior foi possível graças à notável versão cinematográfica de David Cronemberg (a versão de O tambor nada tem de notável). Mesmo assim, um romance cinquentenário pelo qual tenho um carinho especial é Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr, merecidamente um clássico da ficção científica, mas que não se restringe a um “livro de gênero”. Na área de contos, é difícil pensar num título mais importante do que As armas secretas, de Cortázar, não só por causa da sua qualidade literária (o meu favorito é “Cartas da mamãe”, mas o mais considerado é “O perseguidor”, baseado na vida de Charlie Parker), como pela sua influência na literatura dos anos 60 e 70: basta lembrar que “As babas do diabo” foi a inspiração de Antonioni para seu Blow up (1968). Também não se pode esquecer a irreverência, a jovialidade e o trato de linguagem de Zazie no metrô, a obra-prima de Raymond Queneau.

     Em 1959, Jean-Paul Sartre dedicou-se a escrever um roteiro imenso (depois não utilizado, naquela época não existiam as produções para a tv a cabo, não existia a HBO; mesmo assim, Sartre resmungou que as pessoas tinham paciência para ver quatro horas da vida de Ben-Hur e não tinham para ver a vida do criador da psicanálise) sobre a vida de Freud para John Huston. O filme é ótimo, mas o texto de Sartre não fica atrás: Freud, além da alma; o marcante romancista português Vergílio Ferreira lançou sua obra mais famosa, o difícil porém importante Aparição; e há quem ache uma obra-prima (não é o meu caso) Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, ainda assim um livro que se deve levar em conta. Em todo caso, eu prefiro o folhetinesco Asfalto selvagem, as deliciosas desventuras em série de Engraçadinha, uma das grandes criações de Nélson Rodrigues

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion, e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras.

julio cortázar & truman capote]

25 anos- Em 1984, morriam tanto Cortázar quanto outro autor genial, Truman Capote, cujo inacabado romance Súplicas atendidas foi lançado no Brasil este ano pela L&PM, e que prova o incrível trabalho feito pela sua alcoólica mãe (que tinha vergonha da homossexualidade do filho) para lhe incutir culpa e autodesprezo. Numa vertente gay oposta, de eliminação de toda essa automortificação, temos um clássico da nossa ficção recente, Vagas notícias de Melinha Marchiotti, de João Silvério Trevisan, um romance paródico, inventivo e infelizmente pouco conhecido, assim como Democracia, da norte-americana Joan Didion (sempre cito uma de suas frases, “ninguém está isento do movimento geral”, e sua heroína, Inez Christian Victor, é como se fosse uma amiga pessoal), e até mesmo O ano da morte de Ricardo Reis, o menos popular (e o melhor) José Saramago. Muito conhecido, pelo contrário, e igualmente notável é O amante, de Marguerite Duras, a qual justamente em 1959 havia escrito o mais belo dos roteiros em hiroshima, meu amor, dirigido por Alain Resnais.

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