MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/08/2011

Três entrevistas sobre Deus e o monoteísmo

Este post é dedicado ao meu leitor Thiagojmj

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de outubro de 2001)

    O selo Difel vem se destacando com alguns dos melhores lançamentos dos últimos anos. Um dos mais recentes: A mais bela história de Deus (La plus belle histoire de Dieu, França-1997, tradução de Luciana Veit), raro caso de um livro de entrevistas cujos entrevistadores (Hélène Monsacré & Jean-Louis Schlegel) fazem perguntas inteligentes e precisas aos seus interlocutores. Na entrevista com o historiador Jean Bottéro, às vezes a formulação das perguntas é mais interessante do que a própria resposta, por mais escrupulosa e elucidativa que ela seja.

    Em O Deus da Bíblia, Bottéro destaca a importância de Moisés na invenção do monoteísmo: “Moisés transformou radicalmente os termos da troca entre Deus e o homem… Toda a história do Decálogo está, no meu entender, contida neste imperativo: só se pode servir e honrar a Deus respeitando uma certa moral, desejada e sancionada por Ele (…) se um Deus é necessário, só pode ser um Deus que não se parece conosco, tanto quanto possível, em nada. Que não seja, simplesmente, um homem. Basta-nos saber que Ele existe.  Ele está presente. Ele está lá, sem outras explicações ilusórias…um Deus verdadeiramente transcendente, absoluto e ininteligível. Um Deus do coração e não um conceito filosófico”.

 

     Talvez Bottéro não seja muito brilhante na sua exposição, mas ele toca em assuntos da maior relevância, ajudando o leitor comum a compreender por que o monoteísmo moldou nossa visão do mundo. Afinal, é um dos pontos em comum entre cristianismo, judaísmo e islamismo.

     Já na segunda entrevista, O Deus dos Judeus, o que não falta é brilho. Dificilmente poderia se encontrar  alguém mais incisivo e sagaz do que o rabino e filósofo Marc-Alain Quaknin (até nos faz esquecer um pouco como o Estado de Israel  é intolerante e opressor), ao desvelar a riqueza do pensamento judaico, principalmente quando explica a ininterrupta interpretação que o talmudismo propõe da Torá, que poderia servir aos críticos e professores que lidam com a literatura: “No Talmude, não se trata de entender cada vez melhor o sentido único que o texto deve conter, pois isso seria um modo de se adequar Deus, de aprisionar o infinito. Não se trata de interpretar o texto de maneira que a palavra nele contida—que é única—seja compreendida em todos os sentidos possíveis. A definição do Talmude consiste precisamente  nessa palavra plural devido à pluralidade das interpretações…a interpretação não se esgota… O Talmude não traz o sentido da Torá; ao contrário, ele expõe a Torá a novos sentidos”.

    Se Deus é um texto (a Torá), apresentar o texto numa única interpretação é diminuir Deus, por isso é preciso que o trabalho da interpretação nunca cesse.  Esse é um dos pontos mais fascinantes da intervenção de Quaknin, mas há muitos outros, como a oposição entre história e memória: “A história se ocupa dos eventos do passado, dos quais podemos ou não tirar lições para hoje. Mas esses eventos são efetivamente passados. Para a memória, ao contrário, eles são atuais, presentes.  Não é a narrativa do verdadeiro evento que é essencial, mas a verdadeira narrativa do evento que nos propõe o texto da Revelação”.

    E há ainda a explicação da Cabala, o exílio como vocação judaica, “condição de nossa identidade”, a questão da pureza e da santidade, a distinção entre o Bem e a bondade, a questão do Messias… enfim, são 50 e poucas páginas que dificilmente poderão ser esquecidas. Inclusive se deixarmos de lado o aspecto religioso, para quem meramente gosta de literatura, elas são admiráveis. Parece que estamos ouvindo um rabino que fosse um pouco Jorge Luis Borges.

     Quando  se pensa que o livro não pode ter outro ponto alto como esse, há ainda a terceira entrevista (O Deus dos Cristãos), com o magnífico teólogo Joseph Moingt.

    Graças a ele, pela primeira vez na vida eu vislumbrei sentido na história da crucificação de Jesus. Moingt se estende bastante a respeito da ressurreição e do seu efeito sobre os apóstolos: “Por outro lado, há o silêncio de Deus, a impotência de Deus durante a morte de Jesus. Ele não intervém. Nós O injuriamos por intermédio de seu Enviado, mas Ele não responde. Esse silêncio de Deus tornou-se uma nova revelação: a de um rosto de Deus que não nos salva nos vergando sob sua potência, mas nos atraindo por seu amor incondicional por nós. Eis a novidade: o cristianismo não recebe a revelação de Deus no triunfo de Deus,  em sua manifestação gloriosa e majestosa, mas na fraqueza da morte de Jesus. Eis o Deus que nos salva…(…) Para mim, a cruz é o início da liberdade do homem frente a Deus. Abdicando da sua potência, Deus revela que ele é apenas amor e é o amor que nos salva da morte”.

     Contra a grotesca e anacrônica petrificação representada pela figura do Papa, um sopro renascentista areja o pensamento de Moingt: “Seria preciso que a Igreja se persuadisse que está sempre descobrindo Deus. É normal evoluir. Ora, eis sem dúvida uma palavra da qual a Igreja não gosta nada: evolução (…) pensamos Deus em função de nossa inserção em um mundo e numa história. A História, nós a fazemos; o mundo, nele vivemos.  Um e outro não permanecem idênticos e nós somos envolvidos nessa mudança. Nosso pensamento e nosso ser são marcados pelo tempo”.

     Se este artigo foi pródigo em citações, o objetivo  era fazer com que se sentisse a indispensabilidade da leitura de A mais bela história de Deus. Ainda assim, não seria justo terminá-lo sem citar a emocionante resposta de Moingt à pergunta fundamental: “Para que serve Deus?”:

    “Seria preciso começar por se desfazer dessa idéia de que Ele é útil… Ele é o ser gratuito por excelência, aquele que não nos impõe nem mesmo sua presença.  Mas,quando sentimos em nós essa presença, podemos viver a experiência da gratuidade, da alegria, da bondade… Para os que entenderam que a existência é gratuita, Deus se torna soberanamente indispensável…”

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