MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/10/2012

MÚLTIPLA DORIS LESSING

20071011-lessing1

Na semana passada, num artigo em que fazia “apostas” para o Nobel (ver abaixo), declarei que o primeiro nome a vir à minha mente era o de Doris Lessing. Era, na verdade mais uma indicação do gosto pessoal persistente, revelando uma paixão que dura há um quarto de século (a primeira vez que a li foi em 82, e comecei já com um dos melhores, Roteiro para um passeio ao inferno) do que uma aposta: aquela que é o maior nome vivo da ficção (agora com 87 anos) fora preterida nas duas oportunidades em que deram o prêmio a escritoras de língua inglesa: em 91, para Nadine Gordimer (fina estilista, autora de romances excelentes, e por quem eu tenho o maior respeito, só que seria o mesmo que premiar Lygia Fagundes Telles no lugar de Clarice Lispector); e em 93, para Toni Morrison, em minha opinião uma escritora decepcionante e menor, embora a unanimidade da crítica em torno de obras (Amada, A canção de Solomon, Jazz, Paraíso) que eu considero recheadas de partes ridículas e constrangedoras, me leve a crer que o erro de percepção é meu, e se trate de uma incompatibilidade fundamental mais do que um juízo crítico.

memórias

Parecia pouco provável que a essa altura do campeonato lhe atribuíssem o prêmio. E que surpresa: 50 anos após o anúncio de Albert Camus como ganhador, sai da caixinha o nome de um autor que me influenciou tanto quanto ele. Considero a premiação mais relevante desde 1969 (o ano de Samuel Beckett). Não que, de lá para cá, não fossem anunciados grandes nomes (Neruda, Soljenítisin, Bellow, Singer, Montale, Canetti, William Golding, Claude Simon, Pinter, Saramago, Naguib Mafhouz, Octavio Paz, Coetzee, Günter Grass), porém nenhum deles foi, é ou será o que Doris Lessing representa: um mundo, a recuperação épica de toda as fraturas individuais e desmoronamentos coletivos das últimas décadas, uma romancista de quem vários títulos parecem conter toda a vida, e que ainda por cima, numa chave mais miniaturista, a do conto, consegue igual maestria.

Quando ela estreou na literatura, em 1950, chegando a Londres, aos 30 anos, vinda da África (nasceu no Irã, em 1919, que então era a romanesca Pérsia), com The Grass is singing-A canção da relva, no qual conta a história de uma fazendeira branca assassinada por um criado negro, com quem tivera relações, parecia uma estilista tão fina quanto sua colega Nadine Gordimer, na tradição flaubertiana, capaz de tratar um tema explosivo com grande elegância. Volta e meia, aliás, ela publica um livro “perfeito” e bem acabado, talvez para nos mostrar: olha o que eu poderia ter sido, como eu faria bem isso…

Mas assim com a parede do apartamento da narradora do extraordinário Memórias de um sobrevivente insiste em se abrir para outros tempos e outras possibilidades da realidade, os romances de Doris Lessing começaram a romper os diques da mera ficção (enquanto isso ela estabelecia um sólido nome como contista, com suas histórias africanas, reunidas em dois volumes obrigatórios a qualquer um que ame a arte da narrativa, no Brasil intitulados A terra do velho chefe e Sabores do exílio).

roteiro para um passeio ao nfernoDoris_lessing_(doc_1)

Isso aconteceu com duas obras-primas: 1º.) o ciclo de cinco romances que acompanha a protagonista Martha Quest da infância na África até a Terceira Guerra Mundial, Os filhos da violência, iniciado em 1952 e só concluído em 1969, com A cidade de quatro portas. Para mim, é a única realização romanesca do século XX a rivalizar com Guerra e Paz, em abrangência e ímpeto épico, e que lhe valeu o epíteto (dado por Irving Howe) de “arqueóloga das relações humanas”. Não é que a ficção lessinguiana seja epigonal ao realismo do século XIX, não, ela é tomada pelo mesmo furor arcaico e homérico do velho Tolstoi, um talento que parece natural, nem parece “literatura”. É claro que isso é mentira, sua fabulação é tão construída como a de qualquer outro, mas o efeito é poderoso e único; 2º.) o seu romance mais famoso, The golden notebook- O carnê dourado, onde a heroína, Anna Wulf, enfrenta a loucura e a fragmentação, o caos do mundo à sua volta, subdividindo-os em diferentes cadernos que procuram conter a realidade, até que essas frágeis molduras também explodem. Embora O carnê dourado tenha sido encampado como bíblia do feminismo, a sua incomparável arquitetura narrativa e seu visionarismo sempre o resgatarão de ficar datado e reduzido a um manifesto.

shikasta

Se Doris Lessing tivesse ficado por aí, já seria um dos maiores nomes da literatura. A partir da sua adesão ao sufismo, ela parece ter ficado cada vez mais ousada literariamente. Além de dois contos longos antológicos, O quarto 19 (homenageado em As horas) e A tentação de Jack Orkney (onde o protagonista, comunista, é contagiado pela idéia da existência de Deus), em 1971 aparecia Roteiro para um passeio ao inferno, que começa em pleno delírio do protagonista, um professor de literatura que “pira” e mistura medos pessoais, arquétipos e mitos civilizatórios. Aos poucos, ficamos sabendo que ele foi enviando por instâncias intergalácticas (ou deuses) para cumprir uma missão, mas a esqueceu e se perdeu na condição humana (daí, o sentido literal do título, “instruções para uma descida aos infernos”); em 1973, apareceu o livro que a tornou famosa no Brasil, O verão antes da queda (que está na linha daqueles livros que citei mais atrás, no comentário a The Grass is singing); em 1974, um ponto alto da sua produção, Memórias de um sobrevivente, que prenunciava um pouco o que estava para vir: no final da década de 70, Lessing se lançou na criação de uma série cosmológica, que contava os embates entre dois impérios, o de Canopus, e o de Sirius (um contra-império maléfico, Shammat, representava o desequilíbrio entre ambos). Os agentes de Sirius não conseguiam compreender os métodos e intenções dos agentes de Canopus porque acreditavam na tecnologia, no progresso material, na racionalização do mundo.

O primeiro resultado dessa confrontação (resumida aqui de forma tão simplória) foi Shikasta, o meu favorito pessoal entre todos os livros de Doris Lessing, numa preferência absolutamente aliterária. É uma lindíssima reescritura da história da Terra, e ainda que esnobado por críticos do naipe de George Steiner e Harold Bloom, acho que é um dos livros necessários na bagagem de qualquer existência. Por isso, considero-o além do literário.

O outro grande livro da saga, e complementar, é As experiências de Sirius, que tem algumas das cenas mais lindas já escritas pela grande escritora britânica.  Mas há dois outros volumes onde se pode dizer que ela atingiu a perfeição absoluta do relato literário, duas jóias de ourivesaria narrativa: Os casamentos entre as zonas 3,4 e 5 e Planeta 8-Operação Salvamento.

Quando a série termina, com Os agentes sentimentais, parece que é mais por desinteresse do que por outra coisa. O livro não é ruim, mas parece uma dramatização literária das suas idéias sintetizadas num livro emblemático: Prisão que escolhemos para viver:

 

Parece-me, cada vez mais, que estamos sendo governados por ondas de emoções de massa e que, enquanto o fenômeno durar, não será possível avaliar respostas sérias, ponderadas e desapaixonadas que poderiam nos salvar. Olhando para minha vida, que agora conta 60 anos, o que vejo é uma sucessão de grandes eventos de massa, de emoções inflamadas, de paixões selvagens e sectárias (…) Um movimento de massa sucede a outro; pela guerra e contra ela; pela tecnologia e contra ela. E cada um cria nas pessoas um determinado ânimo, violento, emocional, sectário, suprimindo os fatos que não convém, mentindo e abandonando a sensatez da fala ponderada que, para mim, é a única maneira de chegarmos à verdade (…) Todo avanço do mundo, todo o seu desenvolvimento, estão ligados à complexa capacidade de nutrir várias idéias, muitas vezes contraditórias, ao mesmo tempo.”

Por essa época, ela criou um alter ego e enganou as editoras e meios de comunicação na Inglaterra, com Jane Somers, uma escritora “menor” e bem acomodada à tradição da narrativa britânica. Da brincadeira resultaram Diário de uma boa vizinha e Se os velhos pudessem. A “verdadeira” Doris Lessing produzia, por sua vez, mais um grande e provocativo livro (que veio divulgar no Brasil), The good Terrorist- A terrorista. Já parecia, contudo, estar perdendo o fôlego.

Alguns anos depois, porém, reaparecia em plenos anos 90, com um romance maravilhoso e inusitado: Amor, de novo. E lançava pouco depois dois volumes autobiográficos: o primeiro, Debaixo da minha pele, é excepcional; já o segundo, Andando na sombra, deixou um pouco a desejar no seu acerto de contas com o comunismo, talvez porque ela já o tivesse feito em várias ocasiões, na sua ficção, e porque ela minimiza muito sua carreira literária, cujo desabrochar deveria ser o contraponto do livro.

E agora, na década que estamos vivendo, mais um romance ciclópico, O sonho mais doce (2001), sua chegada ao século XXI. E se alguém acha que ela virou uma doce e boa velhinha, basta ler o malicioso, incisivo e lapidar prefácio que escreveu (em 2003) para textos recuperados de Virginia Woolf (homenageando o único outro nome comparável a ela na literatura inglesa), A casa de Carlyle e outros contos. O prefácio é tão ela, e isso representa uma força tão grande, que até deixa a autora prefaciada em segundo plano.

(texto publicado originalmente em duas partes, em A TRIBUNA de Santos,  em 13 de outubro e 20 de outubro de 2007)

VER TAMBÉM SOBRE DORIS LESSING:

https://armonte.wordpress.com/2013/10/22/destaque-do-blog-shikasta-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2013/11/18/a-filha-da-primeira-guerra-alfred-e-emily-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/amor-de-novo-e-a-vocacao-de-doris-lessing-para-borrar-quadros-harmoniosos/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/dez-de-doris/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-rede-social/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/a-maravilhosa-vida-longa-de-doris-lessing/

https://armonte.wordpress.com/2012/10/22/leitura-em-espelho-andando-na-sombra-de-doris-lessing-e-a-forca-das-coisas-de-simone-de-beauvoir/

ANEXO

APOSTAS PARA O NOBEL

Chega outubro e as pessoas começam a perguntar: quem você acha que merece ganhar o Nobel? Quais as suas apostas?

Há 50 anos Albert Camus foi anunciado como o vencedor. Quem sabe em 2007 o nome escolhido seja tão fundamental para a literatura…

Se Doris Lessing  é o primeiro nome a vir à mente do responsável por esta coluna, dos grandes escritores ativos da atualidade o que produziu as obras mais impressionantes em anos recentíssimos (caso de Submundo e Cosmópolis) foi Don DeLillo. Nos EUA, além dele, seriam escolhas mais que justas Philip Roth, John Updike, Thomas Pynchon,Joyce Carol Oates, Joan Didion, John Irving, sem falar no lendário Norman Mailer, cuja obra-prima Um sonho americano acaba de ser reeditada no Brasil.

Na América Latina, o peruano Mario Vargas Llosa é imbatível, embora o mais venerável (ainda que inativo) seja o argentino Ernesto Sábato (e não possamos esquecer o uruguaio Mario Benedetti). O Brasil também poderia passar a existir no mapa Nobel com o genial Dalton Trevisan, nosso maior escritor vivo, ou com Autran Dourado. Na nossa ex-metrópole, o nome mais cotado é mesmo o de Antônio Lobo Antunes.

A literatura da França anda muito fraca, mas seria justo lembrar o espanhol que criou obras-primas em francês, Jorge Semprún (A grande viagem, A segunda morte de Ramón Mercader, Um belo domingo); ou do tcheco Milan Kundera, que após ter escrito alguns dos melhores livros do século XX (A brincadeira, A valsa dos adeuses) na sua língua natal, adotou a língua do seu país de exílio nos seus últimos textos.

É, aliás, a síndrome Camus (escritor que veio da Argélia para o coração da literatura de língua francesa). Os “que vêm de fora” lentamente dominam a cena. Ninguém exemplifica melhor isso do que o extraordinário anglo-indiano que escreveu Os filhos da meia-noite, Os versos satânicos, O último suspiro do mouro e Fúria:  Salman Rushdie.

Mas se o império britânico agoniza e os imigrantes é que lhe trazem seiva nova, um escritor como Ian McEwan, com livros da categoria de Amsterdam, ainda representa seu último alento.

Aqui também não poderia faltar a canadense Margaret Atwood, de Madame Oráculo e Olho de gato. E um autor insólito e inventivo de um país que foi destruído e pulverizado, a Iugoslávia: Milorad Pavitch, de Dicionário Kazar e Paisagem pintada com chá. E por falar em paisagens na neblina temos ainda o albanês Ismail Kadaré, de Abril despedaçado e Dossiê H.

E se o mundo islâmico é a maior inquietação do Ocidente de Bush, um escritor lúcido e poderoso não pode faltar nesta lista: Táriq Ali, de Sombras da Romãzeira e Medo de espelhos.

Apostas feitas.

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos,  em 6 de outubro de 2007)

GD7120672@Doris-LessingFrom-the-6488

Blog no WordPress.com.