MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

17/01/2014

Eles usam black tie: a obra-prima de Kazuo Ishiguro

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Resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 15 de março de 1994

É nirvânica a concepção que o mordomo Stevens tem do seu ofício. A individualidade deve desaparecer no exercício da função: “Um mordomo de qualidade tem que mostrar que habita seu papel, inteira e completamente; não pode ser visto jogando-o de lado num momento e simplesmente vesti-lo no momento seguinte, como se nada mais fosse que uma fantasia teatral”. Em virtude desse modo de pensar, tirar uma semana de folga (em 1956) só é aceitável com uma motivação profissional: reencontrar, e se possível trazer de volta, miss Kenton, a antiga governanta de Darlington Hall.

Stevens é a voz narrativa de OS VESTÍGIOS DO DIA [The remains of the day, publicado originalmente em 1989, que comento na tradução de Eliana Sabino], de Kazuo Ishiguro e, confrontando-nos com o seu discurso, nos faz perceber que o traje-personalidade de mordomo por vezes se torna efetivamente uma fantasia teatral. A voz de Stevens nos revela os desalinhos da existência mesmo quando enceta a listagem dos seus ideais, já que no presente da narrativa ele está trabalhando para um novo e desconcertante patrão, um americano. Para Stevens, um dos fundamentos do quilate de um mordomo é estar a serviço de uma casa “ilustre” e ele orgulha-se ostensivamente do seu falecido patrão, Lord Darlington, apesar do namoro sério deste com os nazistas no período anterior à Segunda Guerra.

Por que, então, omite ou nega ter sido seu mordomo em vários momentos da sua viagem? Será, também, que ele acredita de fato estar buscando miss Kenton de volta ao seu antigo emprego (que ela deixou para casar-se), se ela ao longo de tantos anos procurou de todas as formas desencantá-lo do seu feitiço de sapo-mordomo e transformá-lo no seu príncipe encantado (guardadas as devidas proporções, claro)? Uma luta que nos é mostrada através de diálogos relembrados, nos quais tudo que é importante não é dito, ficando irremediavelmente para trás, à revelia das palavras. Até que miss Kenton desiste.

Além desses maravilhosos diálogos (bem dentro da tradição literária inglesa), o fascinante de OS VESTÍGIOS DO DIA e que faz dele um dos melhores romances dos últimos anos, é que há todo um lado monstruoso em Stevens e miss Kenton quando levam a extremos seus papéis (ou seus trajes, para prolongar a analogia), mas jamais caem na caricatura ou no chavão. Há uma antológica cena que demonstra bem isso, na qual Stevens serve convidados de uma importante conferência organizada em Darlington Hall, enquanto seu pai agoniza aos cuidados de miss Kenton que, a essa altura, ainda não desistira.

O livro de Ishiguro parece fluente, transparente mesmo. Na verdade oculta artifícios e dissimulações, patéticas por parte do narrador, e brilhantes por parte do autor (em seu terceiro romance). O diálogo final do reencontro entre os dois protagonistas é um dos momentos mais pungentes da ficção moderna.

OS VESTÍGIOS DO DIA parece ter sido escrito mesmo para ser filmado pelo grande James Ivory, o qual após um subestimado e perspicaz sobrevoo sobre a vida alternativa na metrópole (Slaves from New York, aqui batizado com um inescrutável—mais ainda do que o homem sob a roupa de mordomo—título: Um caso meio incomum), realizou dois trabalhos de mestre (Mr. e Mrs. Bridge e Howards End), diga o que quiser a crítica brasileira “antenadinha”, que vai arder no inferno aturando cult movies e filmes de Mostra. Todo esse mundo sufocado, esses homens-dinossauros extintos pelo processo histórico que Ishiguro-Ivory se dedicam a escavar em sua notável arqueologia, deixam claro que aos contrários dos proletários de Gianfresco Guarnieri, aqui eles até usam black tie, mas a alienação e exploração são as mesmas.

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NOTA– Em 2003, a Companhia das Letras lançou outra versão, realizada por José Rubens Siqueira. A seguir alguns trechos da resenha que escrevi, publicada em 25 de novembro daquele ano, em A TRIBUNA:

Quem gosta de cinema deve lembrar que um dos melhores filmes da década de 1990 foi  Os vestígios do dia. Quem pode esquecer das fantásticas atuações das fabulosas soluções do roteiro de Ruth Prawer Jhabvala (como juntar os dois americanos do romance num personagem só, intepretado por Christopher Reeve), da precisão cirúrgica da direção e das fantásticas atuações de Anthony Hopkins e Emma Thompson, ambos no maior momento das suas carreiras?

A obra-prima de James Ivory é baseada num romance de 1989, do então jovem Kazuo Ishiguro, que hoje reconhecemos como um dos grandes autores da atualidade, e que agora ganhou nova tradução no Brasil (como Os resíduos do dia, provavelmente para torná-lo totalmente independente do filme).

“Um mordomo de qualidade tem de ser visto sempre ocupando seu papel, absoluta e completamente, não pode deixá-lo de lado por um momento para retomá-lo no momento seguinte, como se não fosse nada mais que um figurino de pantomima”, lemos ao longo do relato (…)

A luta de miss Kenton para humanizar o que é basicamente desumano (e tão arraigado na cultura inglesa que aparece até nos livros de J.K. Rowling: em Harry Potter e o Cálice de Fogo, a bruxinha Hermione se revolta ao descobrir que há criadagem em Hogwarts: elfos domésticos, explorados e alienados ao mesmo tempo; comentando esse fato, o padrinho de Harry, Sirius Black, um outsider por excelência, diz algo revelador sobre a estrutura social britânica: “Se você quer saber como um homem é, veja como ele trata os inferiores, e não os seus iguais”—note-se que ele é um outsider, mas um aristocrata também, da gema), nesse exercício de fraturamento, é entremostrada através da rememoração dos diálogos-duelos que ambos travaram, nos quais o que é importante nunca é dito, ficando à revelia das palavras, abafado, portanto opressivo (…) Mesmo que o duelo entre Stevens e miss Kenton assuma proporções monstruosas, eles jamais caem na caricatura ou no chavão (como acontece, por exemplo, em Crime em Gosford Park, apesar da vitalidade do filme de Robert Altman).

(…) O que não dá para entender é por que a edição incorporou o pequeno conto Depois do anoitecer (A village after dark, publicado em 2001, na New Yorker), uma vez que é uma parábola que pouco tem a ver com a atmosfera de Resíduos do dia, apesar de ser também uma “volta ao passado”, mas de forma difusa, impalpável, abstrata (ou seja, mais a ver com outro texto de Ishiguro, O desconsolado), bem distante da materialidade e do peso social da história dos criados de Darlington Hall.

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THE REMAINS OF THE DAYremains-of-the-day

14/02/2010

UM PRESENTE INAPROPRIADO: HOWARDS END

Uma propriedade pode ser “presenteada” devido a uma intuição de afinidade espiritual? A história de um presente inapropriado, de um legado inusitado, é contada em Howards End. A editora Globo está fazendo um mais-que-bem-vindo relançamento das obras de E. M. Forster e o leitor brasileiro pode apreciar uma nova tradução, de Cassio de Arantes Leite, desse romance de 1910. A anterior (de Ruy Jungmann, lançada pela Ediouro) ocorrera por conta do sucesso, em 1992, da irretocável versão cinematográfica de James Ivory (que rendeu o Oscar a Emma Thompson)., o qual já fizera duas outras incursões no mundo do grande escritor inglês: o também inesquecível A room with a view-Uma janela para o amor; e o interminável (parece durar umas dez horas) périplo de um homossexual inglês descobrindo e revelando seu segredo de Brockeback Mountain que é Maurice.

Em Howards End, as irmãs Schlegel, Margaret e Helen, intelectuais e moderninhas, conhecem a caretíssima família Wilcox, a qual está em franca ascensão social, simplesmente pelo fato de possuir dinheiro. Num primeiro momento, Helen (a mais passional das irmãs)  envolve-se com Paul, o caçula. Não dá certo.

Depois, Margaret (mais ponderada que Helen, numa relação que não deixa de evocar a relação Elinor-Marianne de Razão e Sentimento, de Jane Auster)  aprofunda a amizade com mrs. Wilcox (no filme,  uma outonalmente majestosa Vanessa Redgrave), solitária na própria família, e que num arroubo a convida um dia a conhecer a casa onde nasceu e que dá título ao livro. Não dá certo.

Mrs. Wilcox morre e seu marido recebe um bilhete no qual ela pede que se dê Howards End a Margaret (que terá de sair da sua própria casa natal). A família queima o bilhete. Anos depois, mr. Wilcox casa-se com Margaret, que de nada sabia. Dá certo?

Não foi à toa que Forster escreveu um ensaio famoso sobre a arte do romance. Seu narrador é um mestre de cerimônias que nenhuma adaptação poderia transpor (e sabemos os estragos que uma tentativa de fazer isso literalmente pode acarretar, Martin Scorsese e seu  Época da Inocência que o digam). Ele conversa com o leitor, o provoca  e o guia com brilhantismo pelo complexo painel social do período eduardiano, que sucedeu a Era Vitoriana. E esta não foi só a era da repressão sexual, como é de praxe mostrar. Foi também o cenário de imensas e decisivas transformações sociais. Em Howards End, Foster discute suas conseqüências, principalmente o desenvolvimento da metrópole, que desaloja as irmãs Schlegel e aliena mrs. Wilcox, provinciana, apegada às suas raízes. É por isso que Howards End, a propriedade, acaba por ser o símbolo da tensão entre os valores mais antigos (associada como é  à terra e à natureza) e os valores conflitantes do capitalismo puro e selvagem e do idealismo não tão puro. E se achamos apaixonantes os dilemas de sensibilidade e éticos de Margaret e Helen, defrontadas com a crueza do materialismo da família Wilcox (tanto quanto a pobre Irene com relação ao marido no paradigmático O Proprietário, de John Galsworthy, contemporâneo de Forster e o único escritor da sua geração premiado com o Nobel), não podemos deixar de notar sua alienação e como todos, chamem-se Schlegel ou Wilcox, são parteiros do verdadeiro drama, cuja vítima é Leonard Bast, o representante dos desvalidos nesse casamento entre prosperidade e civilização (para quantos?).

Já se descartara antes a telúrica, quase visionária, mrs. Wilcox. Ela representa um tipo de mulher que Forster desenvolverá quase que até a santidade (leiga) na mrs. Moore do seu maior romance, Uma passagem para a Índia (filmado de forma tão cafona por David Lean). Mrs. Moore, que se encarnou com perfeição na genial atriz Peggy Ashcroft, outra vencedora de um merecido Oscar, é a minha personagem feminina preferida, como já contei aqui algumas vezes.

De todo modo, seja mrs. Wilcox, seja Len Bast, sejam as Schlegel, seja o narrador entretecido na tentativa de descobrir, já que o dinheiro é a trama do mundo, qual seria a tessitura, todos expressam perplexidades que ainda continuam. E como ficção, em Howards End trama e tessitura se entrelaçam levando o realismo à sua melhor forma.

(resenha publicada originalmente  em  29 de abril de 2006, em A TRIBUNA de Santos, a partir de uma anterior, de 30 de maio de 1993)

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