MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

27/02/2012

O durão, o mauricinho, o oportunista, a puta-clone de estrela de cinema e a desmoralização geral: “Los Angeles-Cidade Proibida”

(resenha publicada originalmente, de forma mais condensada,  em A TRIBUNA de Santos, em 17 de março de 1998)

     Apesar do avassalador número de indicações (14) de Titanic, o cruzamento que James Cameron operou entre Danielle Steel e Irwin Allen, o favorito de boa parte da crítica (incluindo quem aqui escreve) para o Oscar é L.A. Confidential/Los Angeles-Cidade Proibida (EUA, 1990, em tradução de Alves Calado para a “Coleção Negra” da Record), o filme de Curtis Hanson baseado num romance de James Ellroy, no qual acompanhamos a trajetória de três policiais na década de 50: Ed Exley (no filme, o camaleônico Guy Pearce), Bud White (o maravilhoso Russell Crowe, uma força da natureza) e Jack Vincennes (não sou muito fã de Kevin Spacey, porém ele está muito bem; é incrível que nenhum dos três tenha sido indicado ao prêmio da Academia).

   O durão White odeia o mauricinho Exley por tê-lo dedurado a e a outros policiais que, após uma bebedeira de Natal, espancaram alguns prisioneiros (só por isso, não por algum motivo sério); Vincennes, por sua vez, utiliza a imprensa sensacionalista para documentar as prisões que realiza, até que seu principal colaborador, Sid Hudgens, é assassinado.

  Um crime da década de 30, envolvendo o pai de Exley (o assassinato e mutilação de várias crianças) e dois grandes crimes no início dos anos 50—a execução de Buzz Meek, por roubar alguns quilos de heroína do maior chefão de Los Angeles; o massacre de um grupo de frequentadores do Café Nite Owl) acabarão por confrontar, aproximar e até unir Exley, White & Vincennes. Exley torna-se o herói no caso do massacre, porém anos mais tarde surgem evidências de que a solução que dera para o crime não era a correta. A verdadeira solução é um labirinto moral que esconde em suas paredes heroína, prostituição feminina (com garotas que são operadas para ficarem parecidas com estrelas de cinema) e masculina, pornografia, corrupção e poder.

    Desde Confissões Verdadeiras, de John Gregory Dunne (também transformado em belo filme), não se via um livro policial de época tão expressivo quanto o de Ellroy,que chega a nos atordoar com sua maciça concentração, quase enciclopédica, de sordidez.

    Ellrou destrói a imagem-clichê do tira honesto em desajuste com um sistema podre: Exley é fraco e carreirista; White, seu antípoda, é um boçal que raia a psicose; Vincennes, o próprio retrato da cupidez.

   Nem as vítimas da violência escapam: Inês, a garota mexicana estuprada pelo trio de negros que são acusados pelo massacre do Nite Owl, não hesita em seduzir Exley e mentir para ele, levando-o a assassiná-los de maneira covarde (por esse ato ele se torna um herói para a cidade); ela também não hesita em se juntar a um grupo de empresários para ocultar um crime horrível (sem falar que o arquicriminoso da trama é um dos altos membros da polícia, um dos encarregados de esclarecer os crimes—esse vetor da trama foi bastante enfatizado na versão de Hanson, que não seguiu o brutal cinismo do autor do romance, o qual deixa o vilão incólume ao final; em Hollywood os labirintos morais têm que apresentar uma saída).

     Através da sinuosa e espessa maneira de narrar de Ellroy, o leitor acompanha o esboroamento da imagem charmosa da “capital do cinema” na época dos “anos dourados”, “…realização de uma visão: Los Angeles como um lugar de encanto e alta qualidade de vida…”; mesmo assim, Los Angeles-Cidade Proibida, com suas 540 páginas, apresenta certos entraves: é prolixo demais, sua ânsia de circunscrever balzaquianamente a cidade (com seus policiais, marginais, artistas, jornalistas, políticos, michês de ambos os sexos, tipos étnicos) faz com que haja um evidente excesso de personagens (embora a lembrança de uma bomba como Detetive, de Arthur Haley, comentado recentemente nesta coluna, só valorize a empreitada de Ellroy), e nesse ponto a adaptação de Hanson é muito mais bem realizado: através das radicais transformações no enredo, ele deixou a história mais coesa  e sinteticamente mais eficiente (um dos encantos do filme é ver que operações podem ser realizadas por um bom diretor-roteirista num material alheio, de forma a daí emergir algo realmente diferente, contando a mesma fábula).

     Além disso, há um certo falseamento e floreamento quando os personagens (em especial, as duas figuras femininas mais importantes, uma das quais aproveitada avidamente por Kim Basinger no melhor momento da sua carreira) começam a fazer análises psicológicas-miojo, isto é, quase instantâneas, uns dos outros. Esse psicologês de botequim ou de livro pedagógico parece sumamente impróprio quando o maior feito de Ellroy é liquidar a imagem do “tira durão” como figura que desperte nossa simpatia (nesse ponto, o filme é mais sutil, devido à interpretação de Crowe, em particular:  um strip tease psicológico genuíno, e, como tal, impossível não sentir empatia).

    Entretanto, as qualidades da narrativa e sobretudo a força da história falam mais alto. Ao invés de nos mostrar meras investigações que levam a meros assassinos, como tantos filmes e livros, Los Angeles-Cidade Proibida acaba sendo uma crítica corrosiva da essência da sociedade norte-americana (como ela se vende ao mundo), na qual entretenimento e aberrações caminham juntos. E não é de hoje.

   

26/02/2012

EM TORNO DE UM CORPO: “Dália Negra”

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VER TAMBÉM NO BLOG:

https://armonte.wordpress.com/2012/02/26/em-torno-de-um-corpo-se-eu-fechar-os-olhos-agora/

 https://armonte.wordpress.com/2012/02/27/o-durao-o-mauricinho-o-oportunista-a-puta-clone-de-estrela-de-cinema-e-a-desmoralizacao-geral-los-angeles-cidade-proibida/

(a resenha abaixo foi publicada originalmente  em A TRIBUNA de Santos, em 19 de abril de 2008)

Em 1958, a mãe de James Ellroy (que tinha dez anos à época), Gineva, foi estrangulada com uma meia de nylon, um assassinato nunca esclarecido.  Vinte e nove anos depois, a obsessão do filhocom o crime gerou Dália Negra, romance que explora ficcionalmente uma investigação-fetiche nos EUA e é dedicado à mãe do grande escritor norte-americano, uma despedida em sangue.

O mesmo crime deu origem (dez anos antes de Dália Negra) à outra excelente engrenagem ficcional que remontava aos anos 40: Confissões Verdadeiras, de John Gregory Dunne, que faz tudo o que Agosto de Rubem Fonseca não fez pelos nossos anos 50. Dunne e sua esposa, e ainda melhor romancista, Joan Didion (cujo recente O ano do pensamento mágico é uma  homenagem ao marido que acabara de morrer), adaptaram Confissões Verdadeiras para um ótimo filme de Ulu Grosbard, onde Robert de Niro e Robert Duvall estão magníficos como irmãos.

E, como se sabe, Dália Negra foi adaptado por Brian de Palma, revelando-se uma desalentadora surpresa: não se sabe o que aconteceu, como o bolo desandou, porém o velho mestre realizou um trabalho que poderia ser assinado (ou assassinado) por qualquer um, burocrático e distante, a anos-luz de um Intocáveis ou, mais recentemente, de um Olho de Serpente, e principalmente das suas obras com um pé na paródia e na molecagem criativa, que pilha o terreno alheio e cria novos territórios, como Dublê de Corpo.

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E por falar em corpo, o de Elizabeth Short é encontrado na rua 39 esquina com a Norton em janeiro de 47 e vira obsessão para os parceiros Lee Blanchard e Bucky Bleichert (narrador e protagonista), conhecidos como Mr. Fire (Fogo) e Mr. Ice (Gelo), pois como pugilistas adversários conseguiram uma verba importante para o departamento de polícia de Los Angeles; eles fazem parte (depois de maquinações fraudulentas de Lee, mr. Fire, pois ambos são da Divisão de Capturas, e esse é um dado importante no esquema geral) da imensa força-tarefa que investiga o crime. Completando o trio, há Kay, ex-prostituta “amigada” com o fogo (que não arde) e que se apaixona pelo gelo (e é correspondida, mas ele mantém sua lealdade ao parceiro até seu desaparecimento abrupto…).

Ao seguir sozinho uma pista em bares de lésbicas, Bleichert conhece Madeleine, com a qual a “dália negra” se assemelhava um pouco, e assim se envolve com sua bizarra e criminosa família, cuja fortuna remonta a negociatas nos tempos do cinema mudo, quando o conhecido letreiro, idealizado por Mack Sennet, ainda era Hollywoodland, (as últimas letras são retiradas durante o espaço de tempo da trama, 1946-1950). Além disso, há um “amigo” da família, desfigurado, o que evoca o romance de Victor Hugo, O Homem que Ri (que eu só conheço através da sua adaptação, com Jean Sorel. O enredo é fascinante).

Elizabeth Short, a dália negra, além de “substituta simbiótica” à mãe de Ellroy, é também uma concentração de ícones norte-americanos: o fetiche pelo cinema, que fazia (e faz) mocinhas inquietas se deslocarem do país inteiro para acabar muitas vezes como prostitutas, a idealização dos G.I. Joes, os que lutaram na 2ª. Guerra (e eram objeto de desejo por parte da morta); e também a mulher-anjo, “perdida no lodo”, ou a femme fatale, no qual os homens projetam suas fantasias, quaisquer que sejam. Não é à toa que seu fantasma persegue Bleichert ao ponto de ele pagar uma prostituta anônima para reencarná-la ou gostar de Madeleine pela semelhança, principalmente na hora da transa. Quando ele consuma sua relação com Kay, uma das formas que Madeleine utiliza para voltar a atraí-lo é sair para noitadas fantasiada de “dália negra”.

Eu acho incrível que alguém com a obsessão de Brian de Palma por Hitchcock, demonstrada tantas vezes, não tenha aproveitado esse gancho para relembrar a obsessão de James Stewart em recriar a supostamente morta Kim Novak em Um corpo que cai, de forma tal que ele atormenta a “substituta simbiótica”, vestindo-a e penteando-a para que fique igual à falecida. Possivelmente faltou isso à Dália Negra, o filme: obsessão. Ele é apenas uma sessão de cinema, fácil de ver e esquecer.  E é engraçado notar que um diretor que nunca se destacou por sequer uma mínima marca pessoal como Curtis Hanson conseguiu extrair a essência de Ellroy em Los Angeles- Cidade Proibida, como se tivesse visto ali a grande chance da sua vida.

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O painel de Dália Negra enfatiza igualmente a canibalização do crime pela mídia, a qual praticamente comanda a investigação policial, com a opinião pública exacerbada pelo volume de exposição do caso, e o promotor (Ellis Loew, personagem também de Los Angeles, Cidade Proibida) tentando impedir que vazem notícias sobre a promiscuidade da vítima para não perder a simpatia do público (e futuros eleitores). O caso Isabela é a ilustração mais recente do fenômeno.

É pena que um escritor tão brilhante seja também tão prolixo. O livro é sensacional até a elucidação do paradeiro de Lee Blanchard, quando mr. Ice o procura no México; depois começa a ficar saturado e quase informe até chegar a um clímax um tanto exagerado e irreal, mesmo amarrando todas as pontas (o que a certa altura parecia quase impossível). A despedida em sangue talvez tenha viciado por demais Ellroy: em sua obsessão ele extrapolou ao soltar todos os esqueletos do armário.

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