MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

22/04/2012

As margens derradeiras: “Eu vi com meus próprios olhos”

DUAS RESENHAS SOBRE A VOLTA DO PARAFUSO

acesse também http://www.naogostodeplagio.blogspot.com.br/2012/04/o-parafuso-jamesiano.html

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https://armonte.wordpress.com/2013/05/03/o-interesse-ininterrupto-pela-vida-de-isabel-archer-retrato-de-uma-senhora-de-henry-james/

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(resenha publicada em  A TRIBUNA  em razão do centenário de A volta do parafuso, em 15 de dezembro de 1998)

Apesar de Freud (e de qualquer observação direta da realidade) ainda há um senso comum sentimental que insiste na “inocência” natural das crianças. Nada menos verdadeiro (o que não significa que elas não sejam seres vulneráveis, que precisam de proteção). É justamente a revolucionária percepção da maldade infantil que mantém intacto o impacto de A volta do parafuso (The turn of the screw, 1898), obra-prima de Henry James (1843-1916) que está completando cem anos (e inaugura, em tradução de Olivia Krahenbühl,  uma coleção de literatura fantástica da Ediouro, a “Biblioteca de Babel”, inspirada num empreendimento similar de Jorge Luis Borges).

A volta do parafuso é uma história de fantasmas: a narradora nos conta como foi mandada para Bly, propriedade rural do seu empregador, para cuidar dos seus sobrinhos órfãos, Miles e Flora, ambos encantadores, lindos e perfeitos (como o tio). Uns anjos!

Tudo estaria bem e acabaria bem e a preceptora dedicada cumpriria seu dever (lema geral da época vitoriana), se Miles não tivesse sido expulso do colégio, por razões obscuras (mas desonrosas), e se ela mesma não começasse a testemunhar aparições de dois empregados falecidos (também de forma obscura e desonrosa): o guarda-caça Quint e a preceptora, miss Jessel.

São sempre aparições silenciosas – e presenciadas apenas pela narradora, o que deu margem a uma linha de interpretação do livro que se baseia na não-confiabilidade do relato dela, tal como acontece também em Dom Casmurro: primeiro, ela vê Quinn na torre do solar e, dias depois, olhando pela janela; depois, miss Jessel aparece na outra margem do lago (e temos mais uma dama do lago bem dentro da tradição romântica inglesa, inclinada ao gótico e ao lúgubre); as próximas aparições de ambos serão dentro da casa, na escada; mis Jessel ainda aparece na sala de estudo das crianças; sua última aparição é novamente no lago; as aparições finais são de Quinn, novamente na janela (“qual uma sentinela diante de uma prisão”), no clímax da história, envolvendo a preceptora e Miles, uma das cenas mais impressionantes da literatura.

Portanto, ao todo, nove aparições fugazes; suficientes, porém, para causar terror à personagem e um clima opressivo à narrativa. A originalidade insuperável de A volta do parafuso reside no fato de que o terror e angústia do que é contado se afastam das aparições sobrenaturais e voltam-se para o comportamento das adoráveis crianças.

No meu entender, há um processo de desmascaramento da auto-ilusão na trama: a narradora quer cumprir seu dever, como boa vitoriana, e concebe essa meta de forma romântica, deixando-se ofuscar pelas aparências (a charmosa figura do patrão distante,as crianças “especiais”, “abençoadas” com todos os dons da natureza e da condição social). Ora, tudo o que uma aparição de fantasma não pode ser é natural. E, diante dessa bizarra violação do que seria devido, lícito e correto no transcorrer das coisas, a preceptora é forçada a ver o avesso das aparências (ainda que insistindo na sua aura de heroína romântica). Ela começa a perceber que, deixadas à sua própria “natureza”, seus pequenos patrões, como todas as crianças, mas especialmente as privilegiadas por um sistema social injusto, são malvadas, cruéis e perversas. O terror de A volta do parafuso é que o mal aparentemente encarnado pelas aparições está nas supostas vítimas, assim como o monstro era o avesso do médico, na clássica história de Stevenson (não por coincidência, produto do mesmo período histórico).

E que mal é esse? Como não podia deixar de ser, em se tratando da época vitoriana, é o da sexualidade que não se reprime e que borra o agradável quadro das aparências, da integridade do caráter e das classes sociais rígidas. Sexualidade que assume um evidenciamento escandaloso no casal falecido, que se tornara uma espécie de casal de pais substitutos para Miles e Flora (e os prolongamentos dessa linha de raciocínio são ainda mais assustadores para a moral, pois Quinn está sempre à procura do menino).

O rendimento literário da ambigüidade dessa situação é tremendo: tudo fica na sombra, no reino do possível, do que não pode vir à baila de tão impensável, embora possa perfeitamente ter ocorrido. É o assunto onipresente entre a narradora e sua confidente, a cozinheira, miss Grose, as quais estão sempre falando “do que não pode ser dito”, uma especialidade de James, basta ler Pelos olhos de Maisie e As asas da pomba.

Enfim, o agora centenário A volta do parafuso (também conhecido no Brasil, em outra tradução, como Outra volta do parafuso, vá saber por que, e também como Os inocentes, por causa da magistral adaptação cinematográfica, escrita por Truman Capote, estrelada por Deborah Kerr –num grande momento—e dirigida por Jack Clayton) é mais uma prova de como a literatura do século passado revelou coisas essenciais sobre o “infraturável caroço de noite” que habita em nós, humanos. Desde a infância.

(resenha publicada originalmente  em   ATRIBUNA de Santos, em três de agosto de 2004)

     Uma boa idéia que vem se ampliando nos últimos tempos é o lançamento de edições bilíngües. É o caso da nova tradução (de Chico Lopes, pela Landmark) de A volta do parafuso, até hoje o texto mais conhecido do norte-americano Henry James aqui no Brasil, mesmo que já tenham sido traduzidos recentemente obras-primas como Retrato de uma senhora, What Maisie Knew- Pelos olhos de Maisie, As asas da pomba, A taça de ouro, A fera na selva, O desenho no tapete, Os papéis de Aspern.

E quem assiste à teve a cabo está sendo bombardeado com versões cinematográficas moderninhas e lastimáveis (inclusive uma, particularmente bizarra,com Lauren Bacall como a cozinheira-confidente) dessa fascinante investigação sobre o Mal, irmã daquela outra grande novela (aquela forma intermediária indefinível entre o conto e o romance) da mesma época, O coração das trevas, de Joseph Conrad. A leitura das duas em conjunto é uma experiência e tanto.

A narradora e protagonista é uma jovem preceptora, cheia de idéias românticas a respeito do patrão, ao qual mal chega a conhecer, e que  a manda para a longínqua Bly a fim de cuidar dos sobrinhos órfãos, Miles e Flores, as crianças mais encantadoras do mundo.

Além da fixação no patrão, ainda há a determinação de cumprir o dever, uma obsessão da era vitoriana. O problema é que toda essa harmonia, a perfeição das crianças, a engrenagem do dever sendo cumprido, é corroída pela suspeita de uma sutil corrupção sexual efetivada por um casal de criados, Peter Quint e a miss Jessel. Só que eles estão mortos!

Decidida a enfrentar esses fantasmas, a jovem heroína passa a ser uma presença  tão opressiva na casa que o leitor se pergunta se a luta contra o Mal e a perversão não pode conter em si o Mal e a perversão também. Mesmo porque em nenhum momento da trama temos outro personagem que tome a palavra para nos dizer que está vendo os tais fantasmas: “O que me parecia o mais impossível era eu me livrar da idéia de que, o que quer que eu tenha visto, Miles e Flora tinham visto muito mais coisas terríveis e inimagináveis que emergiam das tenebrosas passagens que tinham tido com a dupla no passado”.

A partir de textos  A Volta do Parafuso, o também contemporâneo Dom Casmurro, surgiu uma categoria do foco narrativo (o ponto de vista pelo qual se conta uma história): o narrador não-confiável. Isso obriga o leitor a garimpar nas entrelinhas a possível verdade dos fatos (Capitu traiu? não traiu? Os fantasmas existem? não existem?), o que combina como uma luva com autores que preferem o alusivo e o oblíquo, como James, Machado de Assis ou o Joseph Conrad de O Coração das Trevas (também dessa época), que podem ser considerados a suprema trindade da virada do século XIX para o XX.

Marguerite Yourcenar costumava se ocupar todos os anos de  A Volta do Parafuso. É realmente um dos livros que mais demandam um ritual desses. E cada tradução ajuda a raspar mais uma camada dessa arqueologia do nosso inconsciente. A encrenca é que Henry James tem muitos outros textos que, após serem lidos, tornam-se releituras obrigatórias. E onde encontrar os anos?

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