MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

12/06/2012

O JOYCE DE BERNARDINA E OUTROS JOYCES

“… os inventos do Joyce são transparentes e sempre lindamente sonoros, parecem palavras que já deveriam estar na língua há muito tempo… e são necessários para contar melhor sua história, (e procedendo do mesmo modo pelo qual é feita toda a língua inglesa…  aliás, como acho que o Guimarães Rosa faz e já vi muito matuto e muita criança fazer:  simplesmente “aplica” a novas idéias, sentimentos ou matizes os modos de construção, composição e derivação que já estão, como possibilidade implícita, na língua que se fala)  e não pra fazer malabarismos linguísticos,  nada a ver com os roncos  “traduzidos” pelo  Houaiss,..” (Maria ´Valéria Rezende)

I

Causou rebuliço o ousado lançamento de uma nova versão de Ulisses. Outro livro de James Joyce , Um retrato do artista quando jovem (publicado em dezembro de 1916), já tinha sido escrupulosamente traduzido por Bernardina Silveira Pinheiro, também trazendo  arejamento em relação à única versão até então existente (no caso, a de José Geraldo Vieira), contudo  derrapando em soluções esquisitas e insatisfatórias (entre dezenas de exemplos: uma caixa no cap. 5, “pontilhada de vestígios de piolho”; a versão de Vieira parece mais sensata: “com marcas de cupim”; isso não o impediu de estragar o efeito do começo do romance, traduzindo “Certa vez –e que linda vez que isso foi…” quando  seria necessário começar como fez sua sucessora: “Era uma vez e uma vez muito boa mesmo…”).

Por esse motivo, e como Stephen Dedalus, protagonista de Um retrato, reaparece em Ulisses, é  conveniente iniciar um comentário sobre a nova tradução deste último mostrando o que Joyce fez ao depurar um gigantesco romance autobiográfico chamado Stephen hero, em cinco capítulos implacavelmente densos, nos quais mostra Stephen tentando libertar-se dos tentáculos da educação jesuítica, que o encaminharia a um destino clerical, o que seria, aliás, conveniente à sua família empobrecida brutalmente, tendo de mudar-se constantemente (são sempre despejados das casas), vivendo de penhoras. Ao desistir de ser padre, Stephen (anteriormente atormentado pelo sentimento de pecado mortal) passa a viver a culpa de ser um privilegiado dentro do seu próprio lar (essa culpa ainda o persegue em Ulisses, especialmente devido à morte da mãe).

Temos, também, o dilema da Irlanda, atada à sua dependência da Inglaterra. É preciso levar muito a sério Stephen quando afirma: “Esta raça e este país e esta vida me produziram” (mais adiante: “Quando a alma de um homem nasce neste país redes lhe são lançadas para impedi-la de voar… Vou tentar escapar dessas redes… A Irlanda é a velha porca que come a ninhada”).

Não se conseguirá entender a tensão impotência-paralisia/libertação-êxtase alcançada por Joyce no Retrato se não se entender o conceito de epifania, termo literário usurpado da religião (seria a irrupção de Deus no mundo contingente, frente aos sentidos humanos, por um fugaz momento). Stephen Dedalus, vagando com seus grilhões pelos labirintos da culpa e da inação, apartado dos outros, vive alguns momentos excepcionais de existência (o mais famoso deles no final do capítulo 4, logo após decidir não tornar-se padre). Depois, tudo se dissolve e volta ao ramerrão normal. Mas aquele momento adquiriu um valor, uma realidade, o experimentá-lo tornou-se um fim em si mesmo. É o êxtase, momento que gostaríamos de reter, e é impossível.

Para o leitor, são momentos de alívio, também, pois se temos acesso às saborosas discussões de familiares e amigos do seu herói, Joyce não nos poupa de muitas, muitas, muitas páginas onde faz desfilar toda a retórica jesuítica que ameaça aprisionar para sempre a alma de Stephen (“um certo instinto, mais forte do que a educação, se agitava dentro dele a toda aproximação daquela vida, um instinto sutil e hostil, e o armava contra o assentimento. O que aconteceu com o orgulho de seu espírito que sempre o fizera se  conceber como um ser à parte em qualquer ordem? … Durante toda a sua meninice havia meditado sobre aquilo que frequentemente pensara ser seu destino e quando chegara o momento de atender ao chamado ele tomara outra direção, obedecendo a um instinto caprichoso… os óleos da ordenação nunca untariam seu corpo. Ele recusara. Por quê?”), e nem da exposição de uma extensa teoria estética, na qual a idéia de epifania fica sugerida.

Ou seja, temos de nos arrastar na lama e na escuridão para atingir esses momentos de êxtase, que estão entre os mais belos da literatura:sua alma se erguera do túmulo da meninice, rejeitando suas vestes mortas. Sim! Sim! Sim! Da liberdade e da força de sua alma criaria orgulhosamente, como o grande artífice de cujo nome era portador, uma coisa viva, nova e bela, planando nas alturas, impalpável, imperecível!”

retrato do artista

II

Comentando Ulisses em outras oportunidades, ninguém mais do que eu  achava necessária um novo texto em português. Durante muitos anos, a versão de Antônio Houaiss imperou, mas tutelada pelos concretistas (Haroldo e Augusto de Campos & Cia. Ltda.), os quais, mesmo criticando-a pontualmente, sempre valorizaram o aspecto pesadamente lingüístico que a revestia, como se Joyce se limitasse a isso, e sua obra-prima não fosse uma das mais ousadas tentativas de abarcar a totalidade da existência através da representação literária (Osman Lins: “romance: mundo imerso no mundo”). E assim o leitor teve de conviver com soluções medonhas de transposição de palavras: “frescamaciadas”, “oculivacuna”, “cheiilambrigrudosos”, “cintilibrilhichispeantes”, “subobscurinfra”, “liquilactichuposos”, “undialvas” e outros ultrajes vocabulares.

Houaiss até estragara o fim do livro, pluralizando o “Sim” que fecha o monólogo-fluxo-de-consciência de Molly Bloom: “sim eu quero Sims”!!!! Para não morrer de tédio e exasperação, na tentativa de uma leitura completa, era preciso recorrer à ajuda da tradução castelhana de J. Salas Subirat e, mais recentemente, da circunspecta versão portuguesa de João Palma Ferreira (a de Houaiss também tinha forte sabor lusitano).

Ainda assim, a tradução de Bernardina Silveira Pinheiro decepciona em larga medida. Se a de Houaiss dava a impressão de uma intoxicação lingüística (quase ao ponto da overdose), a dela padece de certa inanição. É muito prosaica. Veja-se, como exemplo um trecho. Em Houaiss: “Vegetissombras flutuavam silentes na paz matinal desde o topo da escada ao mar que ele contemplava. Da borda para fora o espelho do mar branquejava, esporeado por precípites pés lucífugos” (esta última palavra comprova o dito acima e resume os defeitos da sua versão). Em Subirat: “Sombras vegetales flotaban silenciosamente en la paz de la mañana, desde la escalera hacía el mar que él contemplaba. Partiendo de la orilla del espejo del agua blanqueaba, acicateado por fugaces pies luminosos”.

alfa_ulisses

Em Bernardina tudo fica chocho: “Sombras-do-bosque flutuavam silenciosamente através da paz da manhã vindas do topo da escada em direção ao mar que ele contemplava. Dentro da praia e ao largo o espelho das águas esbranquiçadas, repelidas por pés apressados com calçados leves.” Por que esse “sombras-do-bosque”? Era até preferível “bosquessombras”.

Um dos maiores pecados bernardianos foi cometido na transposição da expressão-chave “agenbite of inwit”, que representa a culpa que Stephen Dedalus carrega desde Um retrato do artista quando jovem (pois como diz Cranly, o primeiro dos seus amigos provocativos e sexualmente ambíguos, antes do Buck Mulligan, de Ulisses: “sua mente está supersaturada da religião que você diz descrer”), impedindo-o de usufruir sua liberdade da miséria familiar (a narrativa vai se encarregar de lhe dar como pais simbólicos Leopold e Molly Bloom ao final do dia 16 de junho de 1904, o famoso “bloomsday”). Já José Antonio Arantes (na sua tradução de Homem comum enfim, de Anthony Burgess, dedicado a Joyce) notava que era difícil de traduzir a palavra arcaica “inwit” e acabava por misturar duas soluções: de Houaiss (“remordida do imo-senso”) e Augusto de Campos (“remorsura do ensimesmo”) em “remorsura do imo-senso”. Subirat passou longe com seu     “mordiscón ancestral del subconsciente”. E Bernardina mais ainda, num esquálido e espantoso “remorso de consciência”!!!! O maior prazer da sua tradução acaba sendo consultar as notas que acompanham cada página e que comprovam a teia quase infinita de alusões e signos tecida por Joyce, numa época em que nem se pensava em computadores, e que mostram que há muito com que se ocupar em futuras releituras.

(resenhas publicadas em A TRIBUNA de Santos, respectivamente em 25 de junho e 2 de julho de  2005)

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