MONTE DE LEITURAS: blog do Alfredo Monte

06/03/2018

OS 50 ANOS DE “A OBRA EM NEGRO”, DE MARGUERITE YOURCENAR

(Uma versão da resenha abaixo foi publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos em 06 de março de 2018)

Há 50 anos Marguerite Yourcenar publicou “A OBRA EM NEGRO”, que se tornou um dos meus livros prediletos: desde os 18 anos leio e releio as aventuras de Zênon, seu herói lunar (em contraste com o protagonista solar de “Memórias de Adriano”).

“A OBRA EM NEGRO” é a história de Zênon, filho bastardo dentro de uma abastada família flamenga, que deixa Bruges, sua terra natal, após matar numa briga o aprendiz de artesão Perrotin, tornando-se com os anos um famoso (e para a Igreja, herético) médico, filósofo e alquimista, na linha de Leonardo, para Celso, Giordano Bruno.

Na primeira parte, “A vida Errante”, após um perfil de Zênon aos 20 anos, a grande escritora belga (de expressão francesa) acaba mostrando-o quase sempre de viés, mais como um objeto da opinião pública, que especula a respeito de suas várias transgressões, em meio a mentiras, boatos e distorções. Conhecemos também, paralelamente, a trajetória de algumas pessoas ligadas a Zênon: sua mãe, Hilzonda, que morre num cerco aos anabatistas, rebeldes religiosos; seu primo, Henri-Maximilien, que abandona a família para engajar-se em qualquer guerra…

É no capítulo “Conversa em Innsbruck” que conhecemos o Zênon já maduro, resultado das viagens e perseguições, enfim, de uma vida precária e ameaçada. E a princípio não se tem certeza de que se pode simpatizar com um tipo tão opiniático, tão lúgubre e amargo, tão consumido pela experiência.

Se a primeira parte já é interessante, com seu painel do século XVI, onde se vive, grosso modo, o conflito entre o Catolicismo e a Reforma Protestante, “A OBRA EM NEGRO” cresce vertiginosamente (e também a figura de Zênon, que passa a ocupar o primeiro plano quase que exclusivamente) nas duas outras partes, “A vida Imóvel” e “A Prisão”. O belo filme de André Delvaux, com um notável Gian-Maria Volonté no papel central, concentra-se mais nesse ponto da história, muito menos movimentado, porém mais denso: Zênon decide voltar clandestinamente a Bruges, estabelecendo-se como o médico Sebastian Theus, de certa forma protegido pelo compassivo prior dos franciscanos, Jean-Louis de Berlaimont (que foi admiravelmente encarnado por Sami Frey na versão cinematográfica). Depois da morte do prior, por causa de confusões sexuais de noviços no mosteiro, acaba nas mãos da Inquisição, sentenciado à fogueira, da qual escapa pelo suicídio.

Da vida imóvel de Zênon emerge o grande tema das maiores obras de Yourcenar, na minha opinião: o tudo-nada que é a experiência. Ela nos descreve a experiência da vida da forma mais detalhista, para depois nos mostrar a sua dissolução e a sua negação. É o que faz Zênon, no “Abismo” (título do capítulo-âmago do romance), experimentando os limites do corpo e da mente, de forma que, em meio aos resíduos do que ele viveu e pensou e sentiu, ele consegue roçar o não-ser.

A ironia é que, engajado nessa experiência de superação dos limites da nossa condição, ele se vê ao mesmo tempo enredado (no sentido mesmo da vítima na teia de aranha), num contexto histórico que não deixa muitas saídas para quem não professe um dogma ou pertença a um partido, a uma determinada associação. Tendo escolhido uma existência sem laços, Zênon sempre será o suspeito, o dissidente, o que traz em si o princípio da negação, embora dele se diga: “por estar mais familiarizado com o procedimento que consiste em negar tudo—para depois ver se em seguida se pode reafirmar alguma coisa—e, em desfazer tudo—para ver depois tudo se refazer em outro plano ou de outra forma…”

Ou como ele mesmo diz, é preciso morrer um pouco menos tolo do que quando se veio ao mundo.

03/12/2014

O TUDO-NADA DA EXPERIÊNCIA: “A Obra em Negro”, de Marguerite Yourcenar

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(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 16 de junho de 1998)

Se 1968 é o ano que ainda não terminou, como quer o título de um livro de sucesso, uma das razões, para quem gosta de literatura, é que há trinta anos, em meio àquela época de contestação e rebeldia, publicou-se uma das maiores, mais contestatórias e rebeldes obras de ficção do século XX: A obra em negro (L´oeuvre au noir, em tradução de Ivan Junqueira), embora o romance de Marguerite Yourcenar só tenha aparecido naquele momento em virtude de uma querela judicial que se arrastava desde 1965.

A obra em negro é a história de Zênon, filho bastardo dentro de uma abastada família flamenga, que deixa Bruges, sua terra natal, após matar numa briga o aprendiz de artesão Perrotin, tornando-se com os anos um famoso (e para a Igreja, herético) médico, filósofo e alquimista, na linha de Leonardo, paracelso, Giordano Bruno.

Na primeira parte, A vida errante, após um perfil de Zênon aos 20 anos, a grande escritora belga (de expressão francesa) acaba mostrando-o quase sempre de viés, mais como um objeto da opinião pública, que especula a respeito de suas várias transgressões, em meio a mentiras, boatos e distorções. Conhecemos também, paralelamente, a trajetória de algumas pessoas ligadas a Zênon: sua mãe, Hilzonda, que morre num cerco aos anabatistas, rebeldes religiosos; seu primo, Henri-Maximilien, que abandona a família para engajar-se em qualquer guerra…

obra em negro

É no capítulo “Conversa em Innsbruck” que conhecemos o Zênon já maduro, resultado das viagens e perseguições, enfim, de uma vida precária e ameaçada. E a princípio não se tem certeza de que se pode simpatizar com um tipo tão opiniático, tão lúgubre e amargo, tão consumido pela experiência.

Se a primeira parte já é interessante, com seu painel do século XVI, onde se vive, grosso modo, o conflito entre o Catolicismo e a Reforma Protestante, A obra em negro cresce vertiginosamente (e também a figura de Zênon, que passa a ocupar o primeiro plano quase que exclusivamente) nas duas outras partes, A vida imóvel e A prisão. O belo filme de André Delvaux, com um notável Gian-Maria Volonté no papel central, concentra-se mais nesse ponto da história, muito menos movimentado, porém mais denso: Zênon decide voltar clandestinamente a Bruges, estabelecendo-se como o médico Sebastian Theus, de certa forma protegido pelo compassivo prior dos franciscanos, Jean-Louis de Berlaimont (que foi admiravelmente encarnado por Sami Frey na versão cinematográfica). Depois da morte do prior, por causa de confusões sexuais de noviços no mosteiro, acaba nas mãos da Inquisição, sentenciado à fogueira, da qual escapa pelo suicídio.

Da vida imóvel de Zênon emerge o grande tema das maiores obras de Yourcenar, na minha opinião: o tudo-nada que é a experiência. Ela nos descreve a experiência da vida da forma mais detalhista, para depois nos mostrar a sua dissolução e a sua negação. É o que faz Zênon,  no abismo (título do capítulo-âmago do romance), experimentando os limites do corpo e da mente, de forma que, em meio aos resíduos do que ele viveu e pensou e sentiu, ele consegue roçar o não-ser.

A ironia é que, engajado nessa experiência de superação dos limites da nossa condição, ele se vê ao mesmo tempo enredado (no sentido mesmo da vítima na teia de aranha), num contexto histórico que não deixa muitas saídas para quem não professe um dogma ou pertença a um partido, a uma determinada associação. Tendo escolhido uma existência sem laços, Zênon sempre será o suspeito, o dissidente, o que traz em si o princípio da negação, embora dele se diga: “por estar mais familiarizado com o procedimento que consiste em negar tudo—para depois ver se em seguida se pode reafirmar alguma coisa—e, em desfazer tudo—para ver depois tudo se refazer em outro plano ou de outra forma…”

Ou como ele mesmo diz, é preciso morrer um pouco menos tolo do que quando se veio ao mundo.

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30/10/2014

Destaque do Blog: RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM CÃO no centenário do nascimento de Dylan Thomas

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“A geada tem conhecimento

por rumores dispersos no vento

que o gênio solitário de minhas raízes

gerou frutos de todos os matizes

e plantou um ano verde, para consolo

dos meus dias futuros.” (de A luta)

“…e eu tinha mais amor em mim do que poderia querer ou poderia usar…” (de Quem você queria que estivesse conosco?)

“Eu era um solitário andarilho noturno e um viciado em esquinas.” (de Como se fossem cãezinhos)

(o texto abaixo foi escrito especialmente para o blog, em outubro de 2014)

I

Um dos maiores poetas do século XX, Dylan Thomas foi também um grande prosador: aos 26 anos, publicou Retrato do artista quando jovem cão [Portrait of the artist as young dog, 1940, que comento na excelente tradução de Hélio Pólvora][1], cujo título ganhou uma aura de dupla derrelição: por um lado, incita a pensar numa posição artística epigonal e subalterna com relação ao Retrato do artista quando jovem (1916), de Joyce, mesmo com a extensão paródica do título (jovem “cão”); por outro, trata-se do retrato de um artista que, a rigor, nunca deixou de ser jovem, pois morreria precocemente, aos 39 anos (em 1953, depois de entrar em coma num bar no Greenwich Village novaiorquino).

Todavia, os dez contos do livro são extremamente peculiares e, caso possamos legitimamente aproximá-los do universo joyceano (no sentido da formação do escritor provinciano, oriundo de um ambiente no qual o rural e o urbano ainda estão estreitamente próximos, dentro do território do Império Britânico)[2], eles também têm o seu quê de Dublinenses: é uma comunidade e sua mentalidade a emergir dessas evocações de infância, adolescência e início da vida adulta[3]. Nelas, acompanhamos um garoto vivenciando de forma plena as experiências (os problemas e intrigas dos adultos chegam ao leitor através da sua percepção limitada do alcance deles), “alguns anos antes que eu soubesse que era feliz”[4] , um “cãozinho”, brincalhão, turbulento e indomável, até que se torne o jovem  cão inquieto e desgarrado naquele ambiente de pasmaceira, andarilho noturno solitário, “viciado em esquinas” (“Não quero ir pra casa, não quero sentar à lareira. Nada tenho a fazer quando estou em casa e não quero dormir. Gosto de andar sem rumo, de ficar assim, sem ter o que fazer, no escuro”), o qual, numa excursão pelo campo com um amigo, ao se afastar da cidade, bate em cada portão,”para dar a terrível benção de andarilho às pessoas das casas sufocantes”; e, por fim, o cão já na fronteira do mundo adulto, profissional da escrita (trabalhando na imprensa), varado de solidão e insatisfação, nos dois últimos relatos, A velha Garbo e Um sábado quente, vivendo — como um Pessoa galês — uma “tragédia inverídica e sincera”, “na solidão povoada que lhe desculpava o desespero, buscando a companhia embora a recusasse (…) Mais velho e mais sábio, mas não melhor, ele olhou-se no espelho para ver se sua descoberta e perda lhe estavam marcadas no rosto”.[5]

O ponto unificador, que faz com que os dez contos possam até ser tomados como dez capítulos de um romance orgânico, mas de estrutura algo solta, é que todas as vivências servem para alimentar o trabalho interno do escritor:

     “Quando mostrei esta história ao sr. Farr, muito tempo depois, ele disse:

__ Está errado, você misturou as pessoas. O menino do lenço dançava no Jersey. Fred Jones cantava no Fishguard. Mas não importa. Venha esta noite tomar um gole no Nelson. Tem uma moça lá que lhe mostrará onde o marinheiro mordeu-a. E tem um policial que conheceu Jack Johnson.

__ Em breve eu os porei num conto—disse.”[6]

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II

Avatares ficcionais do autor de Retrato do artista quando jovem cão: Dylan (Os pêssegos); sr. Thomas—no sentido respeitoso de um “jovem senhor” (Uma visita ao avô); filho da sra. T.[7] (Patricia, Edith e Arnold); sr. Thomas—no sentido zombeteiro de aluno chamado às falas pelo professor (A luta); o rapaz de “nome galês” (O extraordinário Tossidela)[8]; o rapaz que mora perto do Cwmdonkin Park—endereço “de categoria” (Como se fossem cãezinhos); o jovem sr.Thomas—intelectual que discute socialismo e literatura (Onde o Tawe corre); o andarilho de 1, 52 m e 51 kg (Quem você queria que estivesse conosco?); Thomas—o aprendiz de repórter (A velha Garbo); Jack—como uma moça por quem se encanta insiste em chamá-lo (Um sábado quente).

Sete dos relatos são narrados em primeira pessoa: assim, em Os pêssegos (um dos momentos antológicos do livro), temos o pequeno Dylan em visita ao mundo rural dos tios, fazendo com que os mínimos detalhes e sensações do mundo físico se apresentem de forma aguda para o leitor, e que entreouve uma discussão a respeito da mãe de um colega mais afortunado (uma dívida que não se tem coragem de cobrar explicitamente, a forma despreziva e superior de sua atitude para com os parentes dele, sinalizada pela recusa em aceitar um prato com pêssegos).

Temos, por um lado, o encantamento com o mundo: “… senti o meu corpo jovem semelhante a um animal excitado que me cercava, os joelhos feridos querendo dobrar-se, o coração aos arrancos, aquele calor profundo por entre as pernas, o suor ardendo nas mãos, túneis cavados nas membranas do tímpano, bolotas de sujeira entre os dedos dos pés, os olhos quase fora das órbitas, a voz entrecortada, o sangue disparando, eu pensava apenas em fugir, pular, nadar e esperar o instante de cair em cima da presa. Ali, brincando de índios ao entardecer, tinha consciência de estar eu mesmo exatamente no meio de uma história viva, meu corpo sendo a minha aventura e o meu nome”.

Por outro, a tensão das relações adultas:

“Então a voz de Annie ficou tão suave que não pudemos ouvir as palavras, e o tio disse:

__ Ela pagou os trinta xelins?

__ Estão falando da sua mãe—eu disse a Jack.

    Annie falou baixo por muito tempo, de modo que só pegávamos uma palavra ou outra. A sra. Williams e automóvel e Jack e pêssegos. Imaginei que ela estivesse chorando, pois a voz faltou-lhe na última palavra.

    A cadeira de tio Jim rangeu outra vez, ele devia ter esmurrado a mesa, e nós o ouvíamos gritar:

__ Pois eu lhe darei pêssegos! Pêssegos, ora pêssegos! Quem ela pensa que é? Os pêssegos não são dignos dela? Para o inferno seu maldito automóvel e seu maldito filho! Humilhando a gente…”

    Esse mundo de meninice (no que a palavra engloba da criança e do adolescente) é narrado pelo protagonista  também  em Uma visita ao avô, A luta, O extraordinário Tossidela. Ele começa a se afastar explicitamente dele em Como se fossem cãezinhos. E talvez o conto que represente o “rito de passagem” mais explícito seja Quem você queria que estivesse conosco?, no qual ele narra uma excursão vagamente libertária até a Cabeça do Verme, um rochedo inóspito, levada a cabo na companhia do enlutado amigo Ray, que perdeu quase todos os parentes mais próximos, devido a doenças longas e terríveis.

É uma perambulação revestida de explícito significado simbólico para ambos: “Fugíamos a toda, ou caminhávamos, com orgulho e malícia, e arrogantemente, para longe das ruas que nos prendiam, rumo ao imprevisível campo (…) Uma ovelha baliu baa! Em algum lugar, o que prenunciava as Terras Altas. Qual o prenúncio, isso eu ignorava…”

A meio caminho essa energia libertária esmorece, eles acabam desistindo da caminhada a pé, e tomam um ônibus. O encantamento com a aventura perdura, entretanto, nos primeiros instantes que passam no objetivo da excursão, o Cabeça do Verme: “Em vez de me tornar pequeno no grande rochedo colocado entre o céu e o mar, senti-me do tamanho de um edifício respirando, e no mundo inteiro somente Ray poderia igualar meu admirável berro quando eu disse: Por que não viver aqui para sempre? Sempre e sempre. Construir uma maldita casa e viver como se fôssemos uns malditos reis! Esta palavra ecoou entre as aves grasnadoras, que a transportaram para as terras não lavradas nos tambores de suas asas”.

Ray, todavia, parece deslocado ali na amplitude: “Não conseguia relaxar e esticar-se ao sol e rolar de lado para olhar um precipício que descia até o mar, ao contrário, tentava sentar-se na vertical, como se estivesse numa cadeira dura e nada lhe restasse fazer com as mãos. Brincava com a bengala domada e esperava que o dia transcorresse em ordem e que a Cabeça produzisse caminhos, que surgissem gradis nas bordas escarpadas”.[9]

Isso se deve a algo que Joyce, Faulkner e William Kennedy nos fizeram sentir com muita força ao longo da sua ficção: a presença dos mortos no cotidiano dos vivos, que exorbita na vivência do jovem Ray (respingando, por assim dizer, em seu companheiro—afinal, ele não é um jovem escritor à toa). Ao evocarem o jogo indicado pelo título, essa presença se torna opressiva, ocupando mais espaço do que deveria, principalmente numa excursão libertária: “O vento rodeou a Cabeça e resfriou nossas camisas de verão, e o mar começou a cobrir rapidamente o nosso rochedo, já coberto de amigos,  cheio de vivos e mortos, investindo contra as trevas”.

Quando reencontrarmos o “jovem cão”, nos dois derradeiros textos do livro, ele já será praticamente um adulto e muito diferente do menino cujo corpo era sua aventura e seu nome.

Retrato do Artista quando jovem cão

III

Os três relatos em terceira pessoa permitem que o leitor veja o “jovem cão” de outra forma, em idades distintas: ainda bastante menino (em Patricia, Edith e Arnold, que poderia ser incluído em qualquer antologia dos melhores contos do século passado); já saindo da adolescência e envolvido em discussões intelectuais e literárias — além de postado frente a opções radicais do modo “adulto” de ser, como a engrenagem da vida conjugal (que ele testemunha em Onde o Tawe corre: temos aí o homem casado que recebe jovens em sua casa, entre eles o sr. Thomas, para discutir socialismo e criar um romance coletivo, uma experiência bem “moderna”, decerto, mas num horário estrito, imposto pela sensata esposa, após o qual ele deve colocar o gato para fora e se recolher); e já um cão movimentando-se como “adulto” (Um sábado quente), apesar de o narrador se referir a seu protagonista ora como “menino”, ora como “rapaz”, mas sempre de uma forma elegiacamente irônica, como um réquiem daquele mundo todo explorado pelos relatos anteriores.

    Patricia, Edith e Arnold, assim como Os pêssegos, mostra uma intriga adulta acontecendo em paralelo aos apaixonados interesses momentâneos do protagonista: temos a descoberta por parte de duas criadas de que mantêm um relacionamento com um mesmo homem, e ambas — levando o menino— partem para um confronto (para o menino, uma aventura: “Ele sabia que aquela seria uma tarde em que tudo poderia acontecer”; e também, aqui, o escritor já está praticamente formado—como diz a criada de sua casa, Patricia, para a “rival”: “Ele observa tudo”). É um texto esplêndido, inclusive pela maneira como ele consegue caracterizar tudo de uma forma definitiva (linguagem corporal, personalidades): “Patricia sacudiu a cabeça, e o chapéu pendeu sobre um olho. Enquanto endireitava o chapéu, ela disse com sua voz de botar tudo em pratos limpos…” E, para coroar, ainda arremata com uma frase perfeita — que não revelarei aqui.

    Um sábado quente é, e não só por ser o conto derradeiro, o clímax de Retrato do artista quando jovem cão. Temos a solidão e carência do protagonista perambulando por uma cidade que é sua e ao mesmo tempo já não é (com seu destino de “poeta” assumido): “Ele pensou: poetas vivem e andam com seus poemas; um homem com visões não requer companhias; sábado é um dia terrível: devo ir para casa e sentar-me no meu quarto junto ao aquecedor. Mas ele não era um poeta vivendo e andando, era um rapaz numa cidade marítima, num quente e concorrido feriado, com duas libras para gastar. Não tinha visões, somente duas libras e um corpo pequeno com os pés na areia tumultuada; serenidade era coisa para velhos; e o rapaz se afastou, sobre as agulhas da ferrovia, rumo à estrada dos trilhos do bonde”.

Como certos heróis de Scott Fitzgerald, ele se deixa levar, meio passivamente, por uma “aventura” com potencial tanto de alto romantismo (pois ele quer se apaixonar e se ligar a alguém) quanto de mundanismo um pouco sórdido e derrisório (“Ó amor!Ó amor! Ela não é uma dama com sua típica voz monótona, ela bebe que nem um mergulhador em águas profundas; mas Lou, escute aqui, eu sou seu, Lou, você é minha”).

Conduzido, junto com um grupo, para a moradia da moça por quem se apaixona (Lou), ele adentrará — quando sair do quarto dela para ir a um banheiro externo — como que em outra órbita narrativa, mais inquietante, menos figurativa (se posso me expressar assim), muito pressaga (bem distante do dia ensolarado, festivo e mundano que deu o “tom” a páginas e mais páginas) quanto ao futuro desse poeta em flor, errando pelos andares de uma edificação que se torna labiríntica, “passando por barulhos de vida secreta atrás de portas”:

    “Esperou muito tempo na escada, embora já não houvesse amor à sua espera, nem cama, senão a sua, a muitos quilômetros de distância, onde deitar-se, e somente o dia próximo para relembrar a sua descoberta. Ao seu redor, os perturbados moradores de casa de cômodos voltaram a cair no sono. Depois, ele saiu da casa para o vasto espaço sob os inclinados guindastes e escadas de mão. A luz de uma débil lâmpada enferrujada caía através dos montes de tijolos e de madeira partida e do pó que outrora fora uma casa, onde pessoas humildes e quase anônimas e jamais relembradas na cidade suja tinham vivido e morrido, todas elas, para todo o sempre, perdedoras”.

Maquette, Maquette of book cover design: Dylan Thomas, Portrait of a Young Artist as a Young Dog

IV

   “No centro seguro de sua própria identidade, o mundo familiar à sua volta, semelhante a outra carne, ele estava sentado triste e satisfeito na sala de um hotel comum e banal à beira-mar, na cidadezinha tediosa e espalhada onde tudo estava acontecendo. Não tinha necessidade do escuro mundo interior quando Tawe fazia pressão contra ele, e pessoas excêntricas e comuns irrompiam, violentas, e arrastavam-se com estrépito e cores para fora de suas casas, para fora de seus prédios feios, fábricas e avenidas, lojas brilhantes e capelas blasfemadoras, terminais e centros de convenções, becos decadentes e alamedas de tijolos, saindo dos arcos, abrigos e buracos atrás dos tapumes, saindo da inteligência comum e selvagem da cidade.” (trecho de Um sábado quente)

E após esse ligeiro percurso pelas linhas de força de Retrato do artista quando jovem cão, só uma inabilidade extrema de minha parte impediria o leitor de perceber com clareza por que Dylan Thomas não pode deixar de ser incluído também no rol dos prosadores (ou praticantes da “poesia da prosa”) de primeira.

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ANEXO

Abaixo, transcrevo um dos meus poemas prediletos de Dylan Thomas na tradução de Ivan Junqueira (Poemas Reunidos: 1934-1953, também editado pela José Olympio, como Retrato do artista quando jovem cão). É o último da coletânea Mortes e entradas (1946):

COLINA DE SAMAMBAIAS

Quando, junto à casa em festa, sob os ramos da macieira,

Eu era lépido e jovem, e feliz como era verde a relva,

     A noite suspensa sobre as estrelas do desfiladeiro,

          O tempo a permitir que eu gritasse e me erguesse,

    Dourado, no fulgurante apogeu de seus olhos,

Eu, venerado entre as carroças, era o príncipe da cidade das maçãs,

E certa vez, com orgulho, fiz com que as árvores e as folhas

            Se arrastassem com margaridas e cevada

     Até os rios iluminados pelos frutos caídos sobre a terra.

 

E como era moço e descuidado, famoso entre os celeiros

Ao redor do pátio feliz, e cantava, pois a fazenda era o meu lar,

   Sob o sol, que é jovem apena uma vez,

         O tempo deixava-me brincar e ser dourado

    Na misericórdia de seus bens,

E, verde e dourado, eu era caçador e pastor, mugiam os bezerros

Ao som de minha trompa, das colinas vinha o uivo claro e frio das raposas,

        E lentamente ecoava a celebração do domingo

    Nos seixos dos córregos sagrados.

 

Tudo fluía e era belo sob o sol: os campos de feno

Altos como a casa, a música das chaminés, tudo era ar

     E ecoava, cheio de água e sortilégio,

         E fogo era tão verde quanto a relva,

    E à noite, sob a luz das estrelas humildes,

Enquanto eu cavalgava rumo ao sono, as corujas subjugavam a fazenda,

E sob a lua, abençoado entre os estábulos, eu ouvia os noitibós

        Voando entre as medas, e os cavalos

    Que flamejavam em meio às trevas.

 

E então, ao despertar, a fazenda, como um vagabundo

Branco de orvalho, regressa com o galo sobre o ombro: tudo

    Fulgia, tudo era Adão e sua donzela,

       O céu se adensava outra vez

   E o sol crescia ao redor daquele dia imaculado.

Assim deve ter sido após o nascimento da luz elementar

No primitivo espaço giratório, e os ardentes cavalos encantados

       Saíam relinchando da verde estrebaria

   Rumo ao campos da celebração.

 

E na casa em festa, venerado entre raposas e faisões,

Sob as nuvens recém-formadas, e tão feliz quanto era grande o coração,

    Ao sol que renasce a cada dia,

       Eu corria por meus caminhos temerários,

   Meus desejos  se precipitavam pelo alto feno da casa

E nada me importava, em meu comércio celestial, pois o tempo

Em suas órbitas melodiosas, só concede raras canções matinais

         Antes que as crianças verdes e douradas

    O acompanham até o estertor da graça,

 

Nada me importava, nos dias brancos como cordeiros, que o tempo

                                                                                     [me levasse,

Pela sombra de minhas mãos, até o paiol cheio de andorinhas,

    Sob a lua que jamais deixa de galgar os céus,

      Nem mesmo, ao cavalgar rumo ao sono,

    Que chegasse a ouvi-la flutuar entre os altos campos

E acordasse na fazenda apagada para sempre nessa terra sem crianças,

Ah! Quando eu era lépido e jovem, na misericórdia de seus bens,

   Embora eu cantasse em meus grilhões como canta o mar.

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NOTAS

[1] De saída, é interessante notar que, pelo que depreende dos textos do livro, Dylan Thomas desde muito cedo se percebeu como escritor, e tanto autor de contos quanto de poemas:

“… a égua parecia uma estátua desajeitada a trotar, e todos os demônios dos meus contos, se trotassem ao lado dela ou se, reunidos, lhe fizessem caretas, encarando-a bem nos olhos, certamente não a fariam  sacudir a cabeça ou se apressar”, lemos no conto inaugural, Os pêssegos.

[2] Um universo que está presente ainda em Beckett, basta ler Molloy.

[3] Thomas nasceu em Uplands, parte de Swansea (em 27 de outubro de 1914). Sua família era oriunda dos condados de Carmarthen e Cardigan.

[4] Lemos em O extraordinário Tossidela.

[5] Lemos em Um sábado quente.

[6] É o final de A velha Garbo.

[7] “Quando ela se foi, Dan perguntou:

__Por que um homem tem sempre vergonha da mãe?

__ Talvez não tenha quando crescer—eu disse, mas em dúvida. É que, uma semana antes, eu descia a High Street com três meninos antes da escola e vi minha mãe com a sra. Partridge fora de Kardomah. Eu tinha certeza de que ela me chamaria na frente dos outros e diria: Vá para casa a tempo de pegar o chá, e desejei que a High Street se abrisse e me tragasse. Eu amava e repudiava minha mãe…” (trecho de A luta)

Com relação ao pai: “Recostei-me no balcão, entre um vereador e um tabelião, que bebiam cerveja amarga, desejando que meu pai me visse, e ao mesmo tempo feliz porque ele estava de visita ao tio A. em Aberavon. Ele não poderia deixar de ver que eu não era mais menino, nem deixar de zangar-se por causa do ângulo do meu cigarro e do meu chapéu e da maneira como agarrava a caneca de cerveja.” (trecho de A velha Garbo)

[8] No qual a mescla camaradagem/rivalidade das relações masculinas adolescentes às vezes ameaça uma atmosfera O Senhor das Moscas (1954), de William Golding, inclusive com um bode expiatório (o Tossidela do título, “zoado” pelos demais garotos, e um tanto patético).

[9] O que destoa decerto da atitude do início do relato: “Batíamos em cada portão para dar a terrível bênção do andarilho às pessoas das casas sufocantes”.

Dylan Thomas

18/05/2012

A fundação da modernidade: de maldito a clássico

(resenha publicada de forma ligeiramente condensada em 23.06.07, em homenagem aos 150 anos de “AS FLORES DO MAL”)

“Num solo hostil, crestado e cheio de aspereza,

Enquanto eu me queixava um dia à natureza,

E de meu pensamento ao acaso vagando

Fosse o punhal no coração sem pressa afiando,

Em pleno dia eu vi, sobre a minha cabeça,

Prenúncio de borrasca, uma nuvem espessa,

Trazendo um bando de demônios maliciosos,

Semelhantes a anões perversos e curiosos.

Entreolham-se a mirar-me, aguda e friamente,

E, como o povo que na rua olha um demente,

Eu os ouvia rir, entre si cochichando,

Piscando os olhos e também sinais trocando:

“Contemplemos em paz essa caricatura

Que da sombra de Hamlet imita a postura,

Cabelos ao vento e ar sempre hesitante.

Não causa pena ver agora esse farsante,

Esse idiota, esse histrião ocioso, esse indigente,

Que seu papel de artista ensaia à nossa frente,

Querer interessar, cantando as suas dores,

Os grilos, os falcões, os córregos, as flores,

E mesmo a nós, que concebemos esses prólogos,

Aos berros recitar na praça os seus monólogos?”

Com meu orgulho sem limite, eu poderia

Domar a nuvem dos anões em gritaria,

Deles desviando a fronte esplêndida e serena,

Caso não visse erguer-se em meio à corja obscena

–Crime que até a luz do próprio sol abala!—

A deusa a cujo olhar outro nenhum se iguala,

Que com eles de minha angústia escarnecia

E às vezes um afago imundo lhes fazia. (CCV, “A Beatriz”)

Charles Baudelaire é o precursor e mestre inconteste de toda a corrente principal da melhor poesia do século XX. O século e meio que decorreu desde a publicação original de As Flores do Mal o fizeram passar de “maldito” (processado criminalmente em 1857 devido à “sujeira” contida no livro) a clássico, criador de versos de estarrecedora perfeição quanto à métrica e à rima (e, nesse ponto, bastante diferente de outro fundador da modernidade, Walt Whitman, que apenas dois anos antes, com Folhas da Relva, instaurava o verso livre como método).

Os (cerca de) 160 poemas de As Flores do Mal, entre outras qualidades, colocaram Paris no centro da modernidade (entendida como desconstrução do passado). Neles, a moralidade burguesa e cristã confronta-se com o seu avesso (como mostram os poemas satanistas e/ou ligados ao que antigamente eram conhecidos como “maus costumes”) ; a poesia confronta-se com a miséria do mundo moderno; a apreensão da “poesia das ruas” confronta-se com o recuo, cada vez maior, da natureza, até então a suprema moldura poética; o sublime, se houver, relampeja no quotidiano:

“Ao longo dos subúrbios, onde nos pardieiros

As persianas abrigam secretas luxúrias

Quando o sol cruel golpeia redobradamente

Sobre a cidade e os campos, tetos e trigais,

Exercitarei sozinho minha bizarra esgrima

Buscando em todas as esquinas os acasos da rima,

Tropeçando em palavras como em calçadas…”

“Tropeçando em palavras como em calçadas”. Foi por ter incorporado ao vocabulário poético as calçadas, as vitrines, o burburinho da multidão, o tédio do habitante da monstruosa metrópole, que Walter Benjamin consagrou Baudelaire como a consciência lírica do século XIX. Será nas calçadas, portanto, a bizarra esgrima do vate moderno, movimentando-se em função do “imprevisto que surge”, do “desconhecido que passa”, movido pelo  spleen, condição fundamental do homem contemporâneo, que tem tudo à mão e sente que algo decisivo lhe escapa nessa atmosfera de saciedade, estragando-lhe a festa.

Paradoxalmente a essa sensação de fastio, a esse sentimento da insuficiência da vida, desse que é, com Gustave Flaubert (cujo Madame Bovary também foi processado e igualmente publicado em 1857, essa incrível coincidência das duas maiores obras da literatura francesa terem aparecido juntas),o grande mapeador dos limites da nossa prisão perpétua quotidiana, há esse fervilhar urbano, com seus tipos, seus vícios, suas peculiaridades, que se tornam sob o olhar plástico do maior dos poetas, uma revelação.

Baudelaire faz um pacto com o diabo do mundo moderno para gozar e sofrer da capacidade de vivê-lo como seu supremo intérprete, na contundência e beleza das Flores do Mal ((e, um pouco menos, dos Pequenos Poemas em Prosa) o “bebedor de quintessências” que se refocila rejubilando-se.

30/07/2011

Sobre a obra de Marguerite Yourcenar

yourcenar

O CENTENÁRIO DE YOURCENAR

(resenha publicada originalmente em A TRIBUNA de Santos, em 10 de junho de 2003)

Nascida a 8 de junho de 1903 na Bélgica (e tendo vivido boa parte da sua existência nos EUA), Marguerite Yourcenar confirma o chavão “a língua é minha pátria”: tornou-se um dos principais nomes da literatura francesa do século XX.

No Brasil, ganhou notoriedade com a tradução, em 1980, do seu livro mais famoso, Memórias de Adriano (1951), um inusitado best seller, que coincidiu com sua eleição como a primeira mulher da Academia Francesa de letras (tão ridícula e grotesca quanto a nossa). Sorte de quem, como eu, estava na adolescência: em muitíssimo boa hora (para utilizar uma expressão que lhe era peculiar: de très bonne heure) pôde conhecer uma série de livros essenciais que a Nova Fronteira lançou regularmente (arrefecendo no início dos anos 90), além da inigualável reconstituição da mentalidade do imperador romano do século II.

Assim, tivemos sua obra-prima suprema, A obra em negro (1968), que aborda ao mesmo tempo o muno do Renascimento, como também a fronteira entre o ser e o não-ser; o seu romance mais desencantado (pelo menos na segunda versão, publicada em 1959, a partir de um original de 1934), Denário do sonho, igualmente fundamental, onde encontramos todos os seus defeitos e qualidades como escritora (o estilo às vezes vacila e fica meio afetado, porém o efeito geral é poderoso e cada revisão confirma isso): a Roma de Mussolini continua a “cidade eterna” na qual podemos encontrar o Mito em meio à insustentável leveza do ser do dia-a-dia (dois capítulos particularmente extraordinários são os que mais persistem na memória anos depois: o que aborda a vida da vendedora de círios, a siciliana Rosalia di Credo, antes do seu suicídio, e aquele em que sua irmã, Angiola, está incógnita num cinema vendo a si mesmo como atriz na tela e embarcando num incidente sexual como Alessandro, marido da protagonista do romance, Marcella, que comete um atentado contra o “Duce”).

Tivemos, também, o belo Golpe de Misericórdia (1939), que marcou o final de sua primeira fase como escritora, antes da mudança para os EUA e o retorno triunfal com a publicação de Adriano. Mesmo os que não gostam de Yourcenar como escritora (e são muitos) geralmente apreciam esse romance, muito mal adaptado para o cinema por Volker Schlondorff (um contumaz assassino de obras literárias), ao contrário de A obra em negro.

Ainda podem ser citado entre os destaques da sua obra, os textos mitológico-passionais de Fogos (1936), um dos raros da primeira fase em que ela aparentemente não mexeu, e que ganha muito se lido com Denário do sonho. Alguns dos Contos Orientais (1938) são memoráveis, como “O último amor do príncipe Genji” ou “Como Wang Fô foi salvo” (outros, nem tanto).

De Como a água que corre, que é de 1981, mas a partir de um outro livro de 1934 (La mort conduit l´attelage-A morte conduz a carroça) temos os dois magníficos textos-testamentos tardios de Yourcenar, que transcorrem no século XVII, Um homem obscuro e Uma bela matinê (cujo protagonista, Lazare, filho do “homem obscuro”, Nathanael, aos 12 anos, sonha toda a sua vida futura, interpretando personagens de Shakespeare, ao se incorporar numa compahia teatral; a história de Nathanael, por sua vez, mostra que qualquer homem que se indaga sobre o mundo e as coisas—e deixa a água correr—pode realizar em si a meta que a filosofia se propôs).

Obrigatória seria, também, a leitura de O labirinto do mundo, trilogia sobre a história da família da autora, da qual destaco especialmente o primeiro volume, que tem o belíssimo título original de Souvenirs Pieux (1974), vertido insossamente para Recordações de família; para mim, marcou um novo patamar na minha admiração pela obra de Yourcenar, ao contrário de quase todo o restante da crítica, que exalta o tumultuoso e cansativo segundo volume, Arquivos do Norte (1976). O último, A eternidade, o que é, ficou incompleto e foi lançado postumamente (ela morreu em 1987).

E também a leitura de alguns ensaios de Sous bénéfice d´inventaire, outro belo título, que virou um reles Notas à margem do tempo (aquele sobre Thomas Mann, por exemplo, ou aquele sobre Piranesi), e de O tempo, esse grande escultor, além de A visão do vazio, sobre Mishima (o único não publicado pela Nova Fronteira entre os textos citados aqui, mas que tem edição pela Guanabara).

E, para fechar, um livro muito querido e infinitamente lido nos anos 80, De olhos abertos (o título é uma alusão à frase final de Memórias de Adriano), suas entrevistas com Mathieu Galey, as quais delineavam uma mulher admirável (e de fato ela o era, mas de outro modo). Infelizmente, era uma imagem esculpida, inventada, retocada, uma persona.

A biografia de Josyane Savigneau, A invenção de uma vida, uma das melhores no gênero, desmistifica cruelmente De olhos abertos e Marguerite Yourcenar, sem, no entanto, fazer cair o interesse nem por um nem por outro. Nem sempre a grande escritora francesa caminhou de olhos abertos. Atire a primeira pedra quem nunca fechou os seus também.

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